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Arquivo de novembro, 2008

quarta-feira, 26 de novembro de 2008 Brancos, Novo Mundo, Velho Mundo | 23:29

Brancos, bons e nem sempre baratos

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Para quem me acompanha aqui, desculpe a demora. Um certo André até resolveu perguntar se o colunista estava vivo. No post anterior (ali embaixo), a idéia era mostrar que as uvas de pele mais clara, quando fermentadas e transformadas em álcool, são capazes de produzir pérolas líquidas. Os leitores deste blog, na sua maioria, concordaram com o autor e até enviaram suas sugestões.

Agora resta cumprir a promessa e sugerir algumas garrafas que merecem ser desarrolhadas – ou desrosqueadas. Explico. Muitos dos vinhos brancos contemporâneos usam tampas de rosca, algo que é perfeitamente normal, seguro e recomendado para bebidas mais frescas, que não têm pretensão de evoluir na garrafa. Acredite, há grandes rótulos com tampas de rosca, isso não deve limitar seu processo de escolha.

Antes das sugestões, uma constatação: a oferta de brancos é infinitamente menor que a de tintos. Entre numa loja de vinhos ou no corredor de bebidas do supermercado e repare: a minoria branca está relegada a um cantinho de menor exposição. Nas cartas dos restaurantes, a lista de brancos costuma ser minimalista, o que empurra o cidadão na escolha de um tinto mesmo. Resultado: pouca variedade resulta em preço nem sempre atraente. O que justifica o “nem sempre” do título. Há brancos de preço bastante acessível, claro, mas é mais fácil achar uma variedade maior de tintos bons e baratos do que dos brancos da mesma categoria de preço.

Para facilitar um pouco a vida, a lista está dividia por tipo de uva, um argumento bastante “novo mundo”, mas de fácil assimilação e organização. Afinal, estamos aonde? Predominam, é claro, os chilenos e argentinos das uvas sauvignon blanc e chardonnay. A relação não tem a pretensão de apontar os melhores brancos do planeta, muito menos disponíveis no mercado. São 30 dicas com um único critério: de já ter passado pela minha taça. Espero que a extensa lista compense a longa espera.

SAUVIGNON BLANC

Viña Errazuriz – Reserva Sauvignon Blanc 2007
Vale de Casablanca, Chile – R$ 47,02
2007 foi uma boa safra na região de Casablanca. O Errazuriz tem uma linha de grande qualidade, este sauvignon blanc é um vinho fresco, com maracujá perceptível até para quem acha que sentir aroma em vinho é uma afetação de enófilo desocupado.

Boekenhoutskloof – Porcupine Ridge Sauvignon Blanc 2006
Franscchhoeck, África do Sul – R$ 42,78
O porco-espinho do rótulo, ainda bem, não solta dardos afiados, mas sim uma lima no nariz que convida um gole, e fecha o ciclo com o cítrico de volta à boca. Muito bem avaliado pela crítica internacional. Um prêmio para quem conseguir soletrar o nome do produtor e da região onde é elaborado depois de derrubar uma garrafa.

William Cole – Alto Vuelo Sauvignon Blanc 2005
Vale de Casablanca, Chile – R$ 49,00
No Vale de Casablanca são produzidos os mais refrescantes e bem-feitos brancos do Chile. A influência das correntes marítimas do Oceano Pacífico e as médias de temperatura mais baixas são ideais para maturação das uvas brancas. É dali que chega este sauvignon blanc que é puro maracujá, de ótima acidez e delicioso de beber. Um dos meus prediletos.

Domaines Barons Rothschild – Los Vascos Sauvignon Blanc 2007
Casablanca, Chile – R$ 55,00
A empresa é controlada por Domaines Barons Rothschild (Lafite) e busca um perfil mais francês em seus rótulos. Há, por exemplo, uma preocupação permanente com o teor alcoólico de seus vinhos. Este aqui tem boa fruta, frescor e persistência média. Um toque cítrico que agrada, cor bem clarinha. Um bom vinho de aperitivo e para pratos mais leves. Anyway, quem não tem Lafite francês, caça com chileno.

Pascal Jolivet – Attitude Sauvignon Blanc 2006
Loire, França – R$ 72,13
A região do Loire é conhecida por produzir ótimos brancos e com preços mais acessíveis (acessível para vinho francês, fique bem entendido). Taí um exemplo para começar explorar este lado menos conhecido da França. Um vinho do velho mundo de estilo mais moderno, 100% sauvignon blanc, intenso e profundo e com um perfume de flores brancas muito atraente.

Sileni Estates – Cellar Selection 2007
Marlbororough, Nova Zelândia – R$ 73,43
Os críticos Hugh Jonson e Jancis Robinson compartilham muitas opiniões sobre o mundo do vinho. Uma delas é a vocação da Nova Zelândia na construção de brancos da uva sauvignon blanc com  caráter e tipicidade. A fruta expressiva, a longa persistência de aromas e o sabor que preenche a boca entregam neste vinho as características que os mestres ingleses identificam na região.

Quartz “Lês Cailloux du Paradis” 2004
Loire, França – R$ 134,00
O hedonista Ed Motta sabe das coisas. Ele me apresentou esta jóia, da linha orgânica – vinhos naturais que dispensam defensivos agrícolas e outros truques tecnológicos. Este pequeno vinhedo do Loire de 13 hectares traz para a garrafa uma bebida de uma mineral idade cortante e, aposto, muito diferente de qualquer sauvignon que você já provou. Muito longo. Como diria o Ed, de chorar

Casa Marin – Cipreses Sauvignon Blanc 2006
San Antonio, Chile – R$ 160,00
Premiadíssimo sauvignon da também elogiadíssima enóloga María Luz Marín. No nariz e na boca é superlativo em frutas tropicais. O final é longo, muito longo. Daqueles vinhos que o prazer aromáticos é tão grande quanto o gustativo. Recebeu a menção como o melhor sauvignon blanc do Chile no guia local Descorchados. Cobra caro pela fama…

CHARDONNAY

Salton – Volpi Chardonnay 2006
Serra Gaúcha, Brasil – R$ 24,00
A série que tem as bandeirinhas de Volpi no rótulo, e dá o nome ao vinho, indica um produto de maior qualidade da gaúcha Salton. É bastante agradável, com alguma tipicidade, fresco e com uma madeira bem integrada. Um ligeiro toque amanteigado no final da boca é percebido. Tomei recentemente, depois de muito tempo sem provar, e me surpreendeu. O preço é um enorme atrativo. A Salton promete retomar a produção de outros brancos da linha Volpi. Recentemente colocou nas gôndolas o sauvignon blanc e pretende relançar o gerwustreminer. Bom que a indústria nacional se volta também para os brancos.

La Roche – Punto Nino
Casablanca, Chile – R$ 44,00
Na Borgonha, La Roche é chamadode o Rei de Chablis. Pois os franceses instalaram-se em Casablanca (olha aí a região de novo) para produzir um chardonnay com o mesmo estilo gaulês, mas com tempero chileno. Se tomados lado a lado, um La Roche francês e outro chileno, as diferenças saltam ao nariz e na boca. O preço salta no bolso: R$ 44,00 X R$ 90,00.  Mas os pilares dos brancos elegantes produzidos em Chablis são preservados: o frescor, a acidez bem dosada, uma certa alegria. O rótulo idêntico reforça esta identidade da marca.

Santa Helena – Selección del Directório Chardonnay
Casablanca, Chile – R$ 44,10
Um chardonnay bem feito da gigante Santa Helena que, preconceitos à parte, têm brancos e tintos de todos os naipes, como este chardonnay de boa estrutura, toques de baunilha e manteiga e envelhecido por 12 meses em barricas de carvalho.

Rutini – Rutini Chardonay 2006
Mendoza, Argentina – R$ 66,00
Outro chardonnay que passa por madeira – 30% de primeiro ano e 70% de segundo uso -, mas não é dominado por ela. As frutas tropicais estão bem presentes –  tem um abacaxi inconfundível – e a boa acidez se mescla com aquele amanteigado típico da fermentação malolática e da batonagem (explicação irritante: a malolática transforma o ácido málico em lático, a batonagem mantém as leveduras em contato com o suco, ambas acabam desenvolvendo no vinho esta sensação untuosa e amanteigada que a barrica potencializa). Muito técnico? Seguinte, o vinho tem caráter mas não é enjoativo.

Villa Francioni Chardonnay 2006
Bom Retiro, Santa Catarina – R$ 66,00
Este representante verde-amarelo de Santa Catarina tem um espírito mais pugilista, de ataque. É mais indicado para quem gosta de chardonnay opulento, com um tostado que explode no nariz e na boca, um toque de amêndoas, mas com uma acidez adequada. Seu enólogo, Bettú, passa uma mensagem clara. Trata-se de um chardonnay para quem gosta de branco com madeira. Na minha modesta opinião, um dos melhores chardonnay elaborados por aqui.

Albert Bichot Vielles Vignes 2005
Chablis, Borgonha – França – R$ 69,00
Já que se falou aqui de Chablis, um original merece ser degustado. Este é da linha mais básica, 20% do vinho passa por carvalho. Não é exuberante, mas tem uma cremosidade perceptível e ótima acidez e toque cítrico. A somellière Alexandre Corvo, que nos brinda vez ou outra com seus comentários, também já recomendou em seu blog.

Eduardo Chadwick – Arboleda Chardonnay 2005
Vale de Casablanca, Chile – R$ 75,00
Chadwick divide seus vinhedos em 90% de tintos e 9% de brancos. Nem por isso trata mal suas uvas que não são tintas.  O estilo é mais parrudo, amadeirado, com aquela cremosidade um pouco amanteigada na boca, uma característica bem de chardonnay do novo mundo, elaborado por um produtor que prima pela qualidade de seus rótulos.

Maycas del Limari Chardonnay Reserve Especial 2006
Vale del Limari, Chile – R$ 96,00
Marcelo Papa  é um dos craques da enologia chilena, da poderosa e onipresente Concha y Toro. É dele o sempre bom cabernet sauvignon (ops!) Marques da Casa Concha. Aqui a ubervinícola tem um empreendimento com outro nome (Maycas del Limari) e proposta: apostar em vinhos de alta gama e para um público mais conhecedor. A origem é de uma região pouco explorada no Chile, o Vale do Limari. Trata-se de um chardonnay de fato diferente: muito fresco e mineral, aromas de maçã verde presentes. O toque fumê, muito agradável, vem do contato com as borras, já que não passa por madeira.

Catena Zapata – Catena Alta Chardonnay 2005
Mendoza, Argentina –  R$ 103,45
Catena é sempre Catena. O produtor que revolucionou o vinho argentino produz um chardonnay de alta estirpe, mais sério, cremoso, passeia pela boca antes de descer redondo e macio pela garganta. É longo e sedutor e mereceu pontuação acima de 90 pontos do Roberto Parker. Alguém se importa?  Olha, eu juro que nunca é determinante, mas chama a atenção.

Viña Aquitania Sol del Sol  2005
Traiguén, Chile – R$ 147,00
Sempre citado pela crítica como um dos mellhores chardonnay do Chile, trata-se, de fato, de um dos mellhores e mais elegantes chardonnay do Chile. Eu tive o privilégio de provar várias safras (no jargão, dá-se o nome de degustação vertical) deste excepcional vinho e a evolução do bicho é para calar a boca de quem diz que branco não envelhece bem, ainda mais do novo mundo. Mais ainda, a elegância, aquela característica que nasce com o vinhedo – da mesma maneira que nasce com algumas pessoas – faz este Sol brilhar mais forte na taça. Fácil negociar com o bolso alheio, mas vale um investimento maior.

Monteviejo – Lindaflor Chardonnay 2006
Mendoza, Argentina R$ 183,00
Este branco carnudo, encorpado e com fruta explosiva, um abacaxi em calda, cai bem ao gosto do consumidor nacional. O final é bem prolongado, mas não é exatamente pelo lado da elegância, mas da potência. O vinho é parte de projeto Clos de Los Siete, do renomado e controverso Michel Rolland. Precinho assusta um pouco, né não?

Pierre-Andre, Mersault 1Er Cru lês Charmes 2005
Borgonha, França R$ 742,00 (uau!)
Bom, aqui a coisa é de gente grande. O tipo do branco que deve fechar uma refeição, em vez de abri-la. Para ocasiões especialíssimas, aquele jantar apaixonado ou então com o seu amigo rico… enfim. O 1er cru da região de Mersault, localizado a 8 quilômetros de Beaune, é um chardonnay untuoso, encorpado mas extremamente sedoso. Os aromas vão do pêssego às nozes. É pura expressão de seu terroir, de seu solo argiloso. Um mersault com um leitãozinho é o caminho para o paraíso…

CASTAS PORTUGUESAS

Borba Antão Vaz & Arinto 2005
Alentejo, Portugal – R$ 31,00
Também já citei este vinho antes. A mistura dessas duas castas típicas portuguesas resulta num branco de aromas cítricos, boa estrutura e com toques de baunilha. O caldo é fermentado em barricas de carvalho. Há sempre uma boa discussão sobre qual a melhor harmonização com o bacalhau. Eu, por exemplo, prefiro brancos mais estruturados. Em Portugal os tintos têm a preferência. Provei este Borba com um bacalhau grelhado, em meio a tintos muito mais caros e famosos, e este se encaixou melhor no meu radar de harmonização. Quando soube do preço, então, a felicidade foi maior.

Qualimpor – Esporão Reserva
Alentejo, Portugal – R$ 87,50
Este alentejano de corpo e alma é um típico branco de regiões mais quentes. Untuoso, intenso, de pegada mais encorpada, é uma mistura das uvas brancas nativas antão vaz, roupeiro e arinto. Quando penso em bacalhau, é um dos primeiros rótulos que me ocorrem, até por que é fácil de encontrar em lojas. O vinho de cima á mais difícil de encontrar… Foi citado pelo leitor Luiz Garcia como estupendo. Estamos juntos nessa, Garcia! Estágio de seis meses em barricas de carvalho americano. Tem aroma frutado com notas de madeira, ananás, pêssego e baunilha.

FP Ensaios Branco
Beiras, Potugal – R$ 46,20
A genética pode não explicar tudo, mas com certeza deu uma mão aqui. Filipa Pato é filha de Luiz Pato, mas trilha seu caminho com independência e, principalmente, competência. De sua palheta de uvas autóctones (aquelas que são nativas de uma região ou país) Filipa extrai vinhos que são parceiros para a comida. Neste Ensaios 2005, o arinto dá o frescor e o bical é responsável pela cremosidade que envolve a boca.

RIESLING

Cono Sur Bicicleta Riesling 2006
Bio-Bio, Chile – R$ 23,80
Olha a Cono Sur aí de novo, gente! Não há muito como evitar, seus vinhos de base são bem-feitos e o preço é imbatível. Entra sempre na minha lista. A Cono Sur é uma perna do gigante Concha y Toro chileno. Trata-se de um riesling básico, mas já com as características da uva  presentes no nariz e na boca, sempre aquele toque um pouco mineral dizendo “presente”! Na temperatura adequada (de 10 a 12º) vai bem com um peixinho leve.

Selbach-Oster Riesling QbA Troken
2007

Mosel, Alemanha – R$ 79,40
A riesling, como escrevi antes, revela todo seu potencial na Alemanha e na Alsácia (França). As garrafas de gargalo alongado da Selbach-Oster acondicionam brancos de grande acidez, mineralidade à flor da pele e, neste caso aqui, bom preço. Para recuperar a imagem do vinho branco alemão sem gastar muito.

Petaluma Riesling Clare Valley 2005
Clare Valley, Austrália – R$ 118,00
A Austrália também vem fazendo sucesso nos brancos de alta gama. Este aqui tem sabor amplo com as notas minerais típicas dessa cepa notável, concentrado e longo, atraente acidez e longa persistência. É um vinho que equilibra pureza e fruta. Aromas de boa complexidade, em especial o toque de petróleo, querosene, típicos da cepa.

OUTRAS CASTAS

TORRONTÉS
Colomé – Torrontés 2007
Salta, Argentina R$ 38,00
O proprietário da Colomé é um suíço. A torrontés, junto à malbec, é considerada uma casta emblemática da Argentina. A combinação, no entanto, deu certo. As parreiras ficam próximas à Cordilheira dos Andes, neste que é considerado um dos mais altos vinhedos do mundo (entre 2200 e 3015 metros). Assim como a Gewurztraminer (leia abaixo), a torrontés é puro perfume, o caldo denso às vezes tem um perfil até meio doce. Servida na temperatura correta é uma bela maneira de abrir os trabalhos.

GEWURZTRAMINER
Cordilheira de Santanna – Reserva Especial ,Gewurztraminer 2004
Campanha, Brasil – R$ 42,00
Outra dica de leitor, desta vez do Marco Aurélio, que compartilho. A gewurztraminer é uma cepa muito floral, tem aroma de pétalas de rosas mesmo, que não é do agrado de todo mundo. Mas é muito agradável de beber. Esta experiência bem realizada do casal de enólogos Rosana Wagner e Gladistão Omizzolo na região da Campanha rendeu apenas 6.700 garrafas. Uma pode ser sua e aí você avalia se concorda comigo e com o Marco Aurélio.

FURMINT
Oremus – Tokaji Furmint Mandolás 2005
Oremus, Hungria – R$ 79,40
A Hungria não é só vinho branco doce, os famosos tokay. Também produz brancos secos de muito estilo e personalidade. É o caso deste aqui, que uva a uva furmint que é ao mesmo tempo encorpado e cítrico. Vale conhecer, na linha de descobrir novas uvas.

VIOGNIER
Família Zuccardi – Santa Julia Viognier 2006
Mendoza, Argentina – R$ 22,50
Outra alternativa de uva branca mais para o lado da leveza e do frescor, e aquele toque cítrico agradável que merece compartilhar sua taça. A linha Zuccardi sempre tem boas opções em vários níveis de tintos e brancos, este tem a vantagem de um preço mais acessível.

PEVERELLA
Cave Ouvidor – Insólito 2005
Santa Catarina, Brasil (em torno de R$ 100,00, se você achar)
Aqui eu quebro o crit´´erio estabelecido acima e finalizo com um vinho que nunca provei. A produção de apenas 1.000 garrafas torna a procura complicada. Vale pela curiosidade. A uva é a peverella, introduzida no Brasil em 1930. Um vinho na linguagem dos brancos naturais, biodinâmicos do Loire, sem adição de sulfito. O leitor Flavio Henrique Silva recomendou com veemência. Ed Motta, fã das ampolas naturais, também citou várias vezes em sua antiga coluna Boa Vida aqui na VEJA.com. Duas indicações valem mais do que a minha. Reproduzo o texto de Ed Motta: “Quando vi a coloração alaranjada já fiquei empolgado, mas o nariz e boca desse vinho são muito complexos, um elixir de nozes e frutas tropicais, sem dúvida o melhor vinho brasileiro que bebi. É vinho branco que pode ser decantado: durante toda a degustação esse vinho foi ficando cada vez mais importante, notas de mel, ultraincrível.”. Se um dia provar, juro que comento aqui. Mas acho que posso confiar na dica.

PREÇOS: os valores foram coletados em 25/11 em sites de lojas, supermercados, vinícolas e importadoras como Adega Alentejana, Ana Import,  Enoteca Fasano, Expand, Grand Cru, KMM, Mistral, Qualimpor,  Vinci,Vinea Store, World Wine, Zahil.

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segunda-feira, 10 de novembro de 2008 Brancos | 12:00

Vinho branco: você ainda vai beber um

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Você conhece aquela da mulher que morreu de vinho branco?
– Ela estava atravessando a rua, veio um carro vermelho,
ela desviou, mas aí vinho branco…

A revista especializada inglesa Decanter de julho de 2006 dedicou sua capa aos vinhos brancos. Da última vez que havia cometido esta ousadia, três anos antes, as vendas em banca despencaram. Seu editor interino, Guy Woodward, praticamente pediu desculpas aos leitores – e ao departamento de circulação – no editorial, e justificou a insistência em bancar um tema impopular com a seguinte provocação: “Are you a wine racist?”. A revista Adega, publicação nacional sobre vinhos, também já arriscou uma capa com vinhos albinos, nos seus três anos recém-completados, com o seguinte argumento: “Dez motivos para gostar dos brancos”.

“The change we need”, Barack Obama
Ou seja, é de se imaginar que esta nota não faça muito sucesso entre os leitores. O tema aqui, é claro, são os rótulos de uvas brancas, o patinho feio das vendas, a garrafa que a maioria dos consumidores nem dá bola na prateleira. Vamos pular aqui a história do vinho branco alemão da garrafa azul, para explicar o preconceito ao vinho branco entre os brasileiros – já cansou –  e passar direto para o ataque.

“Vinho, pra mim, tem de ser tinto”, é uma das frases que mais ouço. Trata-se de uma injustiça. Os brancos são insubstituíveis com determinadas comidas, são refrescantes no verão e podem ser tão intensos, aromáticos e oníricos quanto os festejados tintos de alta qualidade.

Este blog não tem a pretensão de mudar o gosto de ninguém, muito menos educar quem quer que seja – militância até em vinho, que é um prazer, não dá! A idéia aqui é despertar a curiosidade. Se você realmente é um apreciador de vinho, os brancos merecem fazer parte do seu registro sensorial e gustativo. Os grandes rótulos, aliás, ao contrário do que estabelecem as regras, são servidos ao final da refeição, de tão surpreendentes que são. Em sua última visita ao Brasil, o produtor Aubert de Villaine, do superbadalado Romannée-Conti, reservou para o final da refeição um estupendo Montrachet, um chardonnay da região da Borgonha de beber de joelhos – mesma posição que deve ser mantida na frente do gerente do banco para bancar as despesas da garrafa.

Branco, mas não gelado como a neve

Vinho branco já começa errado no nome – a única bebida branca que eu conheço é leite, e não é o nosso business aqui. A cor, na realidade, vai do palha clarinho aos tons dourados, quase ouro. Branco se contrapõe a tinto, só isso.

O serviço deve ser em temperatura entre 8 a 10 graus. Mas se você gelar demais a bebida corre o risco de perder o leque aromático e as características de suas uvas. O gelado excessivo aplaina as papilas gustativas. O resultado é insípido. Preste atenção, então, para não esquecer a garrafa no baldinho de gelo, muito menos dentro do freezer! O inverso, quente demais, também é um desastre, a acidez ferve na boca e ninguém merece vinho branco quente!

Tempo, tempo tempo
No geral, os melhores brancos secos são os de safras mais recentes. Sim, claro, há as exceções. Mas o acerto é maior seguindo este critério de tempo. Vinhos leves e fresos não envelhecem bem. Cuidado então com as liquidações de início de ano com brancos do dia-a-dia de safras antigas.  Se estiverem na bacia das almas, o potencial de problema é enorme…

Frutas brancas, cítrico e mineral
Aroma é um sinal de qualidade. Nos brancos, eles são de frutas brancas (o que facilita muito), como pêra, maçã verde, abacaxi, pêssego, maracujá e cítricos, como limão e lima. Os aromas minerais – petróleo, pedra de isqueiro e que lembram resina (isso é bom, acredite) – também são característicos de brancos mais evoluídos, principalmente nos riesling. O tempo na barrica e o envelhecimento em garrafa resultam aromas mais complexos, como mel, manteiga, um fumê.

O vinho vem da uva… e da vinícola
Os vinhedos para as uvas brancas costumam ser plantados em zonas mais temperadas e frias, ou com alguma influência de brisas marítimas, e costumam se aproveitar bem de solos calcários – aquelas conchinhas deixadas pelos mares de outrora que parecem brotar dos vinhedos de Chablis, na França. No Chile, por exemplo, os melhores brancos vêm da região mais fria de Casablanca. Em países como Alemanha, Áustria e até no Canadá a coisa chega no limite de as uvas serem colhidas congeladas para a produção dos chamados Ice Wine.

Além das uvas brancas, claro, a grande diferença está no processo de vinificação. Ao contrário dos tintos, a casca e a semente não fazem parte do processo de fermentação – aquele momento mágico que o açúcar vira álcool e a festa começa. Portanto, nada de dizer que seu chardonnay está tânico. Quem dá o tanino, e a cor dos tintos, é a casca da uva, que aqui é desprezada.

A fermentação se dá em tanques de aço inoxidável com controle de temperatura. O controle se justifica pelo seguinte, se a temperatura da fermentação for além dos 18 graus a coisa desanda. Para comparar: nos tintos a fermentação se dá entre os 24 e 30 graus, pois a finalidade é a extração da cor; nos brancos, o objetivo é preservar o frescor. No passado, quando esta tecnologia não era dominada, muitos brancos tinham sabor oxidado. Daí uma certa má fama que perdura. Portanto, vamos evitar simplificações: tecnologia não é ruim para o “mundovino” quando bem utilizada, ao contrário do que apregoam alguns xiitas das cantinas.

Depois do tanque, o vinho pode ou não amadurecer em barricas de carvalho, ou na garrafa, depende do estilo que se pretende atingir.  Os chardonnay mais untuosos, mais pesados, geralmente passam pela barrica.

Brancos secos
Os brancos podem ser divididos em algumas categorias: secos, doces, fortificados e até espumantes, que não deixam de ser brancos. O foco aqui é o branco seco, se não este post fica interminável.

Eles podem ser refrescantes, fáceis e leves, quase uma bebida de verão, aquela para começar os trabalhos (exemplo clássico: a sauvignon blanc) ou cremosos, amanteigados, untuosos e de maior corpo (aqui reina a chardonnay), quem vão melhor junto às refeições. Mas só para chatear e evitar a monotonia, a regra não é engessada: há chardonnays refrescantes e ligeiros e sauvignon blancs profundos e de meditação, ok?

A propósito, pode aparecer uva tinta em vinho branco, e algumas uvas brancas entram na composição de alguns tintos, como no Rhone, por exemplo. Um exemplo clássico de tintas em vinho branco é o champagne, que tem a tinta pinot noir na sua composição. Mas esta é só mais uma das pegadinhas do mundo do vinho. Pra impressionar entre os amigos. Vinho branco, na grande maioria das vezes, vem das uvas de pele branca mesmo. (veja lista das uvas aqui)

Agora, se você perguntar a um crítico ou especialista qual a uva branca do coração, ele não vai titubear no veredicto: a riesling. Esta uva da Alsácia, na França, e da Alemanha, produz um líquido mineral, elegante, intenso, pouco alcoólico, coisa fina mesmo.

Branco, blanco, blanc, white, de onde ele vêm
As grandes vedetes dos vinhos brancos no velho mundo são a França (Borgonha, Chablis, Bordeaux, Alsácia, Loire) e a Alemanha. A Itália, Portugal e Espanha também têm suas regiões e principalmente castas nativas que resultam em produtos especialíssimos. A desconhecida Áustria também se destaca neste cenário (olha o riesling aí, gente!). No novo mundo, a Nova Zelândia brilha com a sauvignon blanc e a Austrália e os Estados Unidos com a chardonnay, Chile e África do Sul também têm o seu valor. O Brasil, artilheiro dos espumantes, esteve sempre na segunda divisão desta categoria, mas alguns rótulos interessantes de novas regiões de Santa Catarina e nas franjas do Uruguai começam a surpreender.  (Conheça todas as regiões no mapa do vinho).

Por fim… ou quem sabe o começo

Fica combinado então o seguinte, da próxima vez que estiver em uma festa, numa reunião ou no restaurante e você estiver à procura de um tinto e o garçom vier com o branco, aceite. Não rejeite. Experimente. Ao contrário da piada infame do começo deste texto, ninguém morre de vinho branco.

Notas de rodapé
1. No próximo post, listarei  alguns bons brancos de diferentes países que experimentei, gostei e dá para comprar.
2. Esta nota foi escrita na companhia de um sauvignon blanc da África do Sul, Porcupine  Ridge 2007.
3. Esclarecimento final importante: este texto foi redigido em casa, e não na redação de VEJA.com!

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quarta-feira, 5 de novembro de 2008 Blog do vinho | 15:41

O rótulo Obama e o vinho Palin

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Na eleição para presidente dos Estados Unidos deste 4 de novembro de 2008, entre uma safra mais antiga, a de 1936 (McCain, ano de lançamento da primeira cuvée Dom Perignon), e outra mais recente, de 1961 (Obama, ano de excelência do Chateau Lafite-Rothschild), o júri popular americano optou pelo frescor da novidade. 

Não tenho informações das preferências líquidas de Obama e McCain, sequer se bebem vinho, mas o blog americano winelabelsproject.com até criou um rótulo virtual do senador de Illinois – agora presidente eleito: Obama: Wine We Can Believe In, com o comentário: It s not about red or white wine, it s about american wine (veja imagem acima). A brincadeira continua na “crítica" ao vinho, recomendado para qualquer comida, em qualquer lugar, com qualquer companhia. 

O mais curioso é que a vice do candidato McCain, Sarah Palin, esta sim tinha um vinho chileno de verdade sendo vendido nas prateleiras com seu nome estampado. Trata-se do Palin Syrah, um tinto vinificado pelo método orgânico, do Vale do Limari, descrito na carta de vinhos de um wine bar em San Francisco com notas de pimenta branca. Com o preço acessível de 13 dólares a garrafa, os consumidores detonaram os estoques das lojas, já a candidata a vice pela chapa republicana encalhou nas urnas.

Candidatos, assim como vinhos, saem das pranchetas dos profissionais de imagem mirando o sucesso. É no governo, assim como na taça, que aparece a verdade: os vinhos/candidatos podem entregar  logo de cara o que prometeram, evoluir com o tempo, ou, em casos ruins, avinagrar e ainda provocar uma baita dor de cabeça.

O mundo aguarda os primeiros passos de Obama para dar sua pontuação.

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