Publicidade

Arquivo de março, 2009

domingo, 29 de março de 2009 Harmonização, Livros | 22:24

Cabral descobre o que o cerimonial brasileiro tem

Compartilhe: Twitter

O enófilo, consultor e escritor Carlos Cabral é uma exceção no mundo dos vinhos. Em vez de ocupar o tempo dos leitores com sua opinião, ele é um dos raros conhecedores da boa mesa e das melhores garrafas que se dedica à pesquisa. Seu mergulho em documentos, coleções e arquivos já resultaram em dois importantes livros para quem tem interesse pelo tema: Presença do Vinho no Brasil (2004) e Porto e Um Vinho e sua Imagem (2006).

Nesta segunda-feira chega às livrarias um terceiro volume desta faceta de escriba e de pesquisador de Cabral. Trata-se do elegante e bem-cuidado volume A Mesa e a Diplomacia Brasileira – O Pão e o vinho da concórdia. Neste volume, o vinho deixa de ser o protagonista, mas é parte integrante do itinerário que leva o leitor para uma viagem pelo cerimonial e pelo protocolo dos banquetes e recepções da diplomacia brasileira desde a fundação da nação.

À primeira vista o tema parece ser aborrecido, como tudo que envolve protocolos, fraques e cerimonial. Algo como o vinho de polainas; o prato de abotoaduras. Mas não, o livro é um importante registro histórico, conduzido com competência por um autor acostumado com o rigor na pesquisa, e revela a importância do banquete na vida pública. Cabral dedicou 3 anos de pesquisa no Itamaraty do Rio de Janeiro, onde explorou mais de 6,5 milhões de documentos. “O pessoal responsável, que tem em media 30 anos de trabalho no arquivo, adorou o ineditismo da obra”, revela o escritor. O leitor também deve se deliciar.

A obra está dividida em três partes. Em o Banquete, traça uma rápida linha do tempo da importância do banquete ao longo da história da humanidade. Em o Itamaraty, conta-se sobre a instituição do edifício-sede do serviço diplomático, no Rio de Janeiro, que virou sinônimo da diplomacia brasileira e seu sucedâneo, no Palácio do Planalto. Mas a parte que se escaneia com curiosidade de lupa é aquele que trata da Mesa Diplomática propriamente dita: o intrincado papel do cerimonial na organização das mesas (ótimas as curiosas reproduções de desenhos que mostram a distribuição dos lugares à mesa de uma recepção – isso sim é serviço diplomático!), os utensílios e pratarias utilizados e finalmente os banquetes, cardápios e cerimoniais. O relato cobre desde o tempo do Barão do Rio Branco, que normatizou o serviço – período dominado pela gastronomia francesa e vinhos idem, com um espaço para o Porto e o Madeira -, até chegar aos anos mais recentes, com a inclusão do cardápio brasileiro e do vinho nacional, introduzido pelo presidente Collor, em 1990. As reproduções  dos cardápios e fotos dos eventos são saborosas crônicas visuais de um estado que se senta à mesa para receber, negociar e comemorar acordos diplomáticos.

Um cardápio típico do início do século passado
Potage à la royale
Filet de robalo hollandaise
Jambom à la gelée
Mignonnette de veau niçoise
Asperges chantilly
Dindonneau trouffé aus marrons
Charlotte siberienne
Mignardises

Vins
Xerez, Sauternes, Margaux, Côte de Nuits, Veuve Clicqout et Porto
Café et liqueurs

Cardápio oferecido ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, em 22 de novembro de 2004:
Camarão flambado ao molho de ragu
Purê de mandioca
Filé mignon ao me pimenta verde
Souflé de goiabada com nuvem de catupiry

Vinhos
Casa Valduga Premium Chardonnay 2004
Casa Valduga Cabernet Sauvignon Premium 1999
E Casa Valduga Asti

O autor
Carlos Cabral foi o fundador da primeira confraria de vinho do Brasil, a Sbav – Sociedade Brasileira dos Amigos do vinho, em 1980, e proprietário da Casa Cabral, famosa por seu bacalhau, que, dizem, é insuperável. Nos últimos anos ficou marcado como consultor de vinhos do grupo Pão de Açúcar. Provavelmente você já topou com um retrato de Cabral nos folhetos do supermercado. Além de decidir quais tintos, brancos, espumantes e fortificados vão para a prateleira, formou e treinou mais de 100 atendentes de vinho da rede, conhecidos como Cabralzinhos. Espécie de embaixador do vinho do Porto no Brasil, aliás uma de suas maiores paixões, prepara um Dicionário do Vinho do Porto, em parceria com outro craque do fortificado, este de além mar, o português Manuel Joaquim Poças Pintão.

Este personagem múltiplo, capaz traduzir com uma enorme facilidade o vinho para plateias leigas em suas palestras, dono de um humor fino, daquele tipo que conta piada até em velório sem sair do tom, se mostra cada vez mais o autor mais credenciado para mostrar às atuais e futuras gerações uma parte oculta da cultura de um povo e de uma nação. Talvez a mais divertida, a da gastronomia e do vinho.

Serviço
A Mesa e a Diplomacia Brasileira – O Pão e o Vinho da Concórdia (Editora de Cultura, 263 páginas, R$ 90,00)
Lançamento:
Livraria Cultura.Avenida Paulista, 2073 (Conjunto Nacional), tel 3170-4033, Metrô Consolação. Segunda (30), 19h.

Autor: Tags: , , ,

quinta-feira, 26 de março de 2009 Nacionais, Tintos | 23:42

O Beaujolais brasileiro tá na área?

Compartilhe: Twitter

Todo dia 15 de novembro o tinto francês Beaujolais Noveau chega, ao mesmo tempo, em vários pontos de venda do planeta com um jargão já conhecido pelos enófilos: Le Beaujolais Noveau est arrivé! É uma festa! O Beaujolais é um vinho descomplicado, leve, frutado, de pouca extração de cor, feito para ser consumido assim que é lançado, de preferência quase gelado. O rótulo costuma ser bem colorido, com uma aparência moderna e divertida, bem no espírito do vinho. A uva é sempre a mesma: a gamay, a única variedade tinta permitida na Borgonha além da pinot noir.

No Brasil, a Miolo é uma das raras vinícolas a ter um gamay em seu catálogo. “É um tinto jovem e leve que se identifica muito com o nosso clima tropical”, avalia o diretor-superintendente da empresa, Adriano Miolo. É por que acredita no potencial de um vinho mais descompromissado, mas com qualidade, que a Miolo resolveu repaginar seu gamay.

Marionnet quem?
Para isso trouxe da França um dos mais conceituados conhecedores da uva gamay, o  produtor francês Henry Marionnet. Curiosamente o novo parceiro para este projeto é um vinicultor de Touraine, no Vale do Loire, e não da Borgonha. Seu nome estará colado à  campanha de lançamento da safra 2009 como sinônimo de aposta na qualidade. Até aí, tudo bem, o problema é que será necessária uma outra campanha, para explicar quem raios é Marionnet. No intuito de colaborar com a cultura do vinho no país, este Blog do Vinho, vai contar aqui quem é ele.

Henry Marionnet é proprietário da  Domaine de La Charmoise, e é considerado pelo crítico americano Robert Parker, no seu Guia Parker des Vins de France, como um dos melhores viticultores da França. A vinificação da gamay é uma de suas maiores especialidades. Em entrevista à revista francesa Le Revue du Vin ele declarou que desde a primeira colheita da variedade, em 1973 “o resultado ultrapassou todas as minhas expectativas”. Ali é produzido o vinho top de linha Domaine de La Charmoise, o Le Cépages Oubliet, que será comercializado no Brasil pela Miolo. Faz parte do acordo. Em contrapartida, nós vamos invadir o bistrô deles, e o gamay 2009 da Miolo será distribuído por Marionnet na Europa.

O dedo de Marionnet
Adriano e Marionnet se conheceram em outubro de 2008 em Paris, durante a Sial, Salon International de l’Agroalimentaire International. Foi lá que eles iniciaram o acerto da atual parceria. Seus palpites se limitaram ao processo de produção. Mas a mudança começou nas parreiras. A uva gamay deixou de ser produzida no Vale dos Vinhedos e passou a ser cultivada no Projeto Fortaleza do Seival Vineyards, na região da Campanha do Rio Grande do Sul: “As uvas ali apresentam melhor maturação”, comenta Adriano. A Miolo deixou de desengaçar as frutas para colocá-las junto com os cachos no tanque. Elas são prensadas após sete dias e a fermentação só ocorre neste momento. Pra que saber tudo isso? Por que este processo torna o vinho mais fresco e frutado. “É algo como um vinho branco com fruta”, compara Adriano. O vinho deve ser servido gelado, entre 10 a 12 graus.

O gamay nas prateleiras
O lançamento será na semana que vem, no Rio de Janeiro, com a presença de Marionnet, que agora você já sabe quem é. Serão 200 mil garrafas distribuídas nas prateleiras, além de uma prática embalagem de bag in box, de 5 litros. É um vinho acessível, entre 20 (no site da Miolo) e 24 reais. Adriano promete fazer uma campanha nos moldes do Beaujolais francês. Este blog traz sua contribuição sugerindo uma carnavalização no jargão: “O Beaujolais brasileiro tá na área!”

Resta conferir se o consumidor vai comprar a ideia e se ideia na taça vai cumprir a promessa de qualidade para um vinho de verão. A conferir.

Domaine de La Charmoise
Miolo

Autor: Tags: , , , ,

quarta-feira, 25 de março de 2009 Saúde, Tintos | 10:34

Vinho tinto aumenta o desejo sexual feminino

Compartilhe: Twitter

O consumo moderado de vinho tinto, já foi comprovado, é eficaz para as coronárias, faz bem para a saúde em geral e até para a  libido do homens (leia coluna). Agora, os cientistas capricharam: segundo estudo realizado pelo hospital Santa Maria Annunziata, em Florença, na Itália, o consumo de uma ou duas taças diárias de vinho tinto aumenta a libido feminina. Foram pesquisadas 789 mulheres entre 18 e 50 anos, moradoras na região de Chianti, próxima ao hospital. Bom, aí também não vale, além de tinto é Chianti, não precisa muito esforço  para o vinho fazer parte do dia-a-dia. Mas vamos em frente.

Apresentado em março na IX Semana da Prevenção Andrológica, promovida pela Società Italiana di Andrologia (SIA), o estudo foi baseado no questionário Fsfi – Female sexual function índex -, que avalia a sexualidade feminina por dezenove questões distribuídas nos seguintes critérios: do desejo ao interesse, da lubrificação ao orgasmo e da satisfação à dor.

O resultado quem conta é Nicola Mondaini, dirigente do hospital Santa Maria Annunziata e responsável pela  pesquisa: “Este estudo mostrou que as mulheres que consomem um a dois copos de vinho tinto por dia (11%) têm uma sexualidade melhor do que o grupo de mulheres abstêmias (35%) ou até mesmo aquelas que bebem ocasionalmente”. Não sou eu quem diz, mas o cientista italiano. Bravo! Bravíssimo!

Os louros de uma vida sexual mais plena se devem aos nossos amigos polifenóis, são mais de 300 tipos encontrados no vinho tinto, que a pesquisa mostra agora ter uma ação sobre alguns componentes hormonais femininos, em particular o estrogênio. O chocolate, que é rico em antioxidantes, é sabido também que estimula a sexualidade feminina. O que sugere que a dupla vinho & chocolate tem o efeito de uma bomba afrodisíaca…

O estudo é sério, minha gente, resultará até na publicação de um livro: “Bacco e Venere, ovvero vino ed eros nella vita dell’uomo”, que tem lançamento, na Itália, previsto para outubro pela editora Giunti. Como de costume, é sempre bom alertar, estes estudos recomendam um consumo contínuo, mas moderado. Alcoolismo é coisa séria, não é disso que trata este blog, muito menos os estudos científicos e pesquisas.

Em compensação…
O mesmo estudo, conduzido pelo mesmo hospital de S. Maria Annunziata di Firenze, alerta que a dieta vegetariana tem efeito negativo sobre a libido. Segundo Nicola Mondaini, a dieta vegetariana pode afetar negativamente o desejo sexual devido a uma “deficiência de zinco, associada à redução de testosterona”.

O que nos remete à coluna abaixo deste blog, que combina o grelhado com o um tinto repleto de polifenóis, o tannat uruguaio.

Autor: Tags: , , ,

terça-feira, 24 de março de 2009 Harmonização, Novo Mundo | 18:07

Tannat: o tinto uruguaio que combina com churrasco

Compartilhe: Twitter

Quando se fala em vinho sul-americano a imagem que vem à cabeça é um chileno ou um argentino, respectivamente o primeiro e segundo maiores exportadores da bebida para o Brasil, com 34,38% e 26,54% do mercado, em volume. Cabe ao Uruguai, a posição de primo pobre, com a sétima posição, com apenas 1,70% das prateleiras.

Apesar da pequena presença no imaginário do consumidor, o Brasil é um parceiro importante da indústria vinícola uruguaia: boa parte da exportação – foram 13,4 milhões de litros em 2008 – tem como destino a taça dos brasileiros. Mesmo assim, talvez você nunca tenha provado um tinto uruguaio, ou, no mínimo, não é esta sua primeira opção. Pois saiba que pode estar perdendo um ótimo parceiro para o churrasco, o tinto feito com tannat.

A tannat é uruguaia, mas não é do Uruguai
Se a malbec dança tango na Argentina e a carmenère sobe as cordilheiras do Chile, a tannat é a representante legítima deste pequeno país de apenas 176 quilômetros quadrados. 32,2% da produção das uvas viníferas são desta variedade francesa, que assim como suas primas latino-americanas encontrou em solo uruguaio sua melhor expressão. A origem é da região de Madiran, no sudeste da França. Curioso isso, algumas variedades esquálidas no velho mundo acabam mostrando sua musculatura na América do Sul. O responsável pela introdução da variedade no Uruguai foi Don Pascual Harriague, em 1870, e com seu sobrenome a uva foi chamada até a década de 80, quando foi reconhecida como a tannat francesa.

O que esperar do vinho
Um tinto da uva tannat tem como características a concentração: de cores, sabores, corpo e do tanino (daí nome), aquele elemento importantíssimo da uva  que dá cor e uma sensação de adstringência na boca (pois tem a capacidade de coagular a saliva) que pode ser muito intensa ou bem trabalhada. Aí entram  a qualidade do produtor e das uvas. Esta é a virtude, e o pecado, da tannat. Muita gente torce, literalmente, o nariz para a uva pois tem na memória um vinho muito adstringente. Tem muito rótulo  assim por aí. Dá até para sugerir ao dentista substituir aquele sugador irritante por umas borrifadas de um tannat ordinário no tratamento. Mas quando domado, amaciado e bem elaborado, esta característica marcante da uva ressalta suas qualidades e torna este estilo de vinho uma boa alternativa para as carnes, como as parrillas, o corte uruguaio por excelência.

Tão perto e tão longe
Selecionei uma lista dos rótulos bacanas do Uruguai – aqui ordenados pelo nome dos produtores em ordem alfabética – comercializados no Brasil. Há desde vinhos de preço médio até exemplos mais salgados, ideais para quem quiser tirar o atraso e se iniciar pelos vinhos do vizinho, ou então ampliar seus horizontes. As safras no Uruguai são mais homogêneas, mas a tannat, segundo o responsável pela exportação da América do Sul e México da Bodegas Carrau, Nicolas Neme, tem se adaptado melhor aos anos pares. A conferir.

Aos vinhos, então
CARRAU- site
Juan Carrau Tannat de Reserva 2005, R$ 52,00
Uma ótima opção de preço médio, com boa intensidade, acidez e taninos macios que vai bem com o churrasco

Amat Tannat 2004, R$ 122,00
Um bom exemplo do que pode alcançar um tannat superpremium
Quem traz: Zahil

CASTILLO VIEJO – site
Catamayor Tannat Reserva de La Família 2005, R$ 62,00
Castillo Viejo tem uma enorme área de vinhedos e elabora rótulos confiáveis, como este.
Quem traz: World Wine

JUANICÓ – site
Don Pascual Tannat Roble 2006, R$ 45,00
Caprichado e típico
Quem traz: Todovino

PISANO – site
RPF (Reserva Especial da Família) Tannat 2005,  R$ 61,87
Outro exemplo de como um tannat bem elaborado pode agradar e combinar com carne

Axis Mundi Tannat 2002, R$ 312,00
Um tannat  na linha superpremium, surpreendente, mas um pouco pesado no bolso
Quem traz: Mistral

PIZZORNO – site
Pizzorno Don Próspero Tannat 2004, R$ 34,00
Mesmo mais simples, agradável e típico
Quem traz: Grand Cru

Não é só tannat
Eu gosto muito de vinhos de corte, que é um trabalho mais de arquitetura do enólogo que vai dosando o melhor de cada uva de determinada safra para finalizar sua alquimia. No Uruguai, os blends de tannat com cortes típicos de Bordeaux (merlot, cabernet sauvignon e cabernet franc) também são boas alternativas, geralmente mais caras, que merecem ser provadas. Dois exemplos:

CASTILLO VIEJO
El Preciado Gran Reserva 2002, R$ 150,00
(cabernet franc, merlot, tannat e cabernet sauvignon)

JUANICÓ
Prelúdio Barrel Select Lote nº 60 2004, R$ 156,00
(cabernet sauvignon, merlot e tannat)

Dois brancos
Por fim, prosseguindo na eterna catequese pela valorização do branco levada a cabo por este blog, um sauvignon blanc e um viognier, que se dão  bem no clima do país. Os dois bastante frescos e aromáticos, na linha que eu mais gosto: bom e barato

CARRAU
Juan Carrau Sauvignon Blanc 2007, R$ 33,00

JUANICÓ
Don  Pascual Viognier Reserve 2005, R$ 39,90

Inavi – Instituto Nacional de Vinicultura do Uruguai

Autor: Tags: , , , ,

quarta-feira, 18 de março de 2009 Espumantes, Nacionais | 22:24

Dois espumantes nacionais em dois estilos: nature e brut

Compartilhe: Twitter

Os vinhos com borbulhas são um tema recorrente neste blog. Para mim, é uma bebida de largada e de chegada. E muitas vezes aguenta o vôo solo numa boa.  Eu costumo sempre iniciar os trabalhos com algum espumante na taça. Às vezes, continuo em sua companhia por toda refeição, bate-papo, seja lá o motivo da reunião. E feliz da vida.

E o espumante… é coisa nossa!
O Brasil, já se disse aqui também, tem uma ampla oferta de vinhos com bolinhas muito bem elaborados no sul do país. Vem lá da região da Serra Gaúcha duas garrafas provadas recentemente. O Perine Nature e o .Nero. Duas propostas diversas, o primeiro mais exclusivo, de baixa produção, e o segundo para toda hora. Dois acertos que agradam e convencem na taça, que é a prova dos noves.

Perine Nature – trata-se de uma edição limitada, somente 1.000 garrafas foram elaboradas, e um primeiro lote de 500 garrafas trabalhadas no mercado. O vinho é  elaborado pelo método champenoise, ou tradicional, aquele originado em Champagne, na França, onde a segunda fermentação se dá na garrafa, o que geralmente entrega ao vinho mais personalidade. As uvas usadas seguem a tradição francesa, chardonnay e pinot noir. A diferença aqui é a natureza de estilo do espumante, com um mínimo de açúcar residual (2 gramas por litro), o que se traduz no nome “nature”.

Explica-se: após a finalização da segunda fermentação do vinho-base é adicionado um xarope conhecido como licor de expedição, que vai regular o teor de açúcar do espumante. Nos espumantes nature este licor não entra de bicão na garrafa. Ou seja, o vinho-base, e uvas que são sua origem, precisa realmente ser muito bom para um produtor arriscar a dispensar o xarope na fórmula final. O que se busca, na verdade, é um outro perfil de espumante.

(Pausa para interromper o texto e explicar o teor de açúcar dos espumantes com uma tabelinha didática)

Os espumantes são classificados conforme
a concentração de açúcar por litro.

Nature (zero dosage): até 3 gramas por litro
Extrabrut: até 6 gramas por litro
Brut: menos de 15 gramas por litro
Sec: entre 17 e 35 gramas por litro
Demi-sec: entre 33 e 50 gramas por litro
Doux: acima de 50 gramas por litro

O Nature da Perini tem uma coloração mais para o dourado, bem vibrante, e cremosidade média. O aroma não estava tão aberto, mas tinha um toque de frutas secas interessante. A boca é seu pulo-do-gato. As borbulhas parecem estampidos secos que não terminam naquela sensação docinha no final, o que às vezes acontece com os espumantes com maior grau de açúcar. Uma comparação possível, que me agrada, é a imagem do café sem açúcar, onde a pureza, e a força, predominam. No site da Vinícola Perini sai por 66 reais. Não provei com comida, mas sim à capela, como deve ser com os espumantes com mais personalidade.

(Pausa para furar o bloqueio nacionalista e indicar um “nature” de Champagne, na França)

Ayala Brut Nature Zéro Dosage NM –  este é um raros exemplares produzidos em Champagne e importado ao Brasil. Bastante seco, como sugere sua elaboração, é uma bebida rica e concentrada, champanhe de macho, preço de champanhe (R$ 275,00, na Mistral)

.Nero Brut (leia-se Ponto Nero) – Aqui a proposta é outra. A Vinícola Domno, uma subsidiária da Casa Valduga criada em agosto de 2008, lançou esta linha com vocação de bebida mais descontraída, para o dia-a-dia. Elaborado com as uvas chardonnay (60%), pinot noir (30%) e riesling (10%) tem 12 gramas de açúcar por litro. O espumante toma sua forma pelo método charmat, segunda fermentação em tanques, em que as leveduras ficam em contato com o vinho por seis meses. O resultado é mais desencanado, o frescor e a acidez se equilibram na boca com bolhinhas não muito numerosas mas eficientes.

O design do rótulo, negro, um tanto misterioso, contrasta com a bebida mais delicada e de cor mais translúcida. O efeito visual é arrebatador, mas tem  mais jeitão de marketing do que qualquer outra coisa. A garrafa, com certeza, se destaca em uma prateleira de loja. O lance do . em forma sinal em vez de escrito  também é uma daquelas sacadas que podem chamar  mais a atenção para o design do que para a bebida. Bobagem, sacadas à parte, trata-se de uma boa opção descomplicada, a 25 reais a garrafa. Alegrou uma pescada com molho de alcaparras.

Serviço
Vinícola Perini, site oficial
Domno Brasil, site oficial

Mais sobre o tema no Blog do vinho
Champagne, espumante, prosecco e cava: iguais, mas diferentes

Autor: Tags: , ,

terça-feira, 17 de março de 2009 Velho Mundo | 10:16

Como fazer um vinho rosé. Fácil: misture o tinto com o branco!

Compartilhe: Twitter

Imagine a cena. Você pede um vinho rosé no restaurante (ok, é uma situação um pouco rara, mas como se trata de ficção, vale a imagem). O garçom traz uma garrafa de vinho tinto em uma mão e outra de vinho branco na outra. Ambas abertas. Gentilmente trata de misturar as duas cores na sua taça, até entender que o resultado foi um rosé “da casa”.

Exageros à parte, é o que pode acontecer no mercado do vinho rosé, se produtores da união europeia aprovarem no próximo dia 27 de abril este método de elaboração do rosado. Aqui cabe um parêntese, o bom rosado, claro, não é (ou não era) resultado da mistura dos dois vinhos, tinto e branco. Trata-se de outro bicho.

A maioria dos vinhos rosés é feita de uvas tintas e sua cor vai desde o rosa pálido até o vermelho-escuro. Essa variação se deve ao tempo em que a casca da uva é mantida em contato com o líquido e aos processos de fabricação da bebida. Há três métodos de elaboração:

Maceração
Como é: depois de ser prensada, a uva é mantida em contato com o líquido por um tempo que varia de seis a 24 horas. Depois dessa etapa, chamada de maceração, as demais fases da produção são semelhantes às do vinho branco, fermentado em temperaturas mais baixas
Características: de cores mais claras e sabor suave

Sangria
Como é: depois de espremidas, as uvas são colocadas num tanque para fermentação. Quando o líquido começa a fermentar, transformando o açúcar em álcool, uma parte é retirada para a elaboração do rosé. O restante se torna vinho tinto
Características: de cores e gostos mais fortes

Mistura
Como é: é a que se pretende aprovar. Consiste em misturar uma quantidade de vinho branco com vinho tinto.
Características: oxidação rápida. O vinho estraga em um ano

O que está se tentando tornar legal é uma prática mais rápida e mais barata de produzir rosés em massa, de qualidade inferior, mirando o sedento mercado chinês.

Se o rosé já sofre algum preconceito por parte dos consumidores, e de muitos especialistas, a “batida” de vinho tinto e branco é capaz de prejudicar de vez a imagem desta bebida saborosa, descomplicada, mas nem por isso carente de qualidade, tipicidade e tradição. A região da Provence, na França, que o diga.

Como declarou Xavier de Volontat, presidente associação de viticultores da região Languedoc, no sudeste da França ao jornal telegrah.co.uk, misturar vinho branco com algumas gotas de tinto – esta na verdade seria a grande mudança, a predominância de uvas brancas como chardonnay e sauvignon, tingidas por gotas de cabernet, shiraz, merlot –  “cria um vinho, no máximo, laranja, jamais um rosé”. Para Gilles Masson, diretor do centro francês de pesquisas de vinho rosé,  “A delicada harmonia entre a coloração, aroma e sabor do verdadeiro rosé se perderia.”

E os produtores nem ficam rosé de vergonha… ui, essa foi mal.

Fonte: Rosé? Just mix red and white wine, says EU

Autor: Tags: ,

quarta-feira, 11 de março de 2009 Tintos, Velho Mundo | 23:06

Pêra-Manca: o vinho que descobriu o Brasil

Compartilhe: Twitter

Trouxeram-lhes vinho por uma taça, mal lhe puseram assim a boca
e não gostaram dele nada, nem o quiseram mais.

sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500
Pero Vaz de Caminha

Quem conhece um pouco de vinho talvez já tenha ouvido falar do tinto português Pêra-Manca. A fama se deve um pouco ao nome insólito – que significa pedra manca, ou oscilante, e é uma característica de uma formação granítica de blocos arredondados soltos sobre uma rocha firme (muita gente boa achava que era um defeito na pata do cavalo do rótulo…) -, outro tanto pela tradição, já que seria este o vinho trazido pela nau de Pedro Álvares Cabral. A verdade é que a fama do vinho se deve à soma das curiosidades anteriores aliada a alta qualidade da bebida.

No primeiro teste em terras brasileiras, o vinho não foi lá um sucesso. No relato de sete folhas enviado por Pero Vaz de Caminha com suas primeiras impressões desta terra, os primeiros críticos – aquele povo que “andava nu, sem nenhuma cobertura” – detestaram o Pêra-Manca de antanho, como se lê na reprodução do trecho da carta que abre este post.

O Pêra-Manca é herdeiro de uma marca reconhecida desde a idade média, que teve seu apogeu no século XIX, a extinção no começo do século XX pela praga da filoxera e por fim o renascimento em grande estilo, em 1990, quando a Fundação Eugénio de Almeida passou a adotar o nome no rótulo de seus vinho mais importante.

Para ficar mais claro, o rubro e o branco que é o tema da coluna de hoje tem apenas 19 anos, somente nove safras lançadas, a primeira em 1990, mas não se exime de exibir sua rica história para justificar ainda mais sua posição de vinho ícone do Alentejo, com uma forte presença em terras brasileiras.

Rótulo mais “moderno”

Outra característica marcante do vinho, que eu achava sensacional, era o rótulo colorido, meio kitsh, que foi modernizado e simplificado, buscando, segundo a empresa “uma imagem intemporal que garantisse uma constante leitura contemporânea”, seja lá o que isso signifique. Para mim ficou mais sem graça e menos característico, só isso. Na imagem acima as etiquetas de 2001 e 2003 e as mudanças.

Lançamento exclusivo

Bom, se muitos ouviram falar do Pêra-Manca, poucos provaram – aí entra o valor de sua garrafa (R$ 648,00, a safra 2005). Raros felizardos então tiveram a oportunidade de degustar cinco safras do vinho: 1997, 1998, 2001, 2003 e 2005. A Fundação Eugènio Almeida, que administra a Adega Cartuxa, produtora do vinho, fez este agrado a alguns clientes da importadora do vinho e formadores de opinião.

A razão é simples, o Brasil é hoje o principal mercado de exportação dos rótulos do Pêra-Manca branco e tinto e o país foi escolhido para o lançamento da safra 2005 e 2007 (do branco), antes mesmo que em Portugal, que só vai desarrolhar as garrafas das novas safras em abril deste ano.

O Pêra-Manca tinto é sempre elaborado com duas castas, as portuguesas trincadeira e aragonês (lembrando, aragonês é o mesmo que tinta roriz no Douro e tempranillo, na Espanha). As vinhas, localizadas na região do Alentejo, mais precisamente em Évora, têm mais de 25 anos (a idade das vinhas é sempre mencionada pois é um sinal de qualidade; as plantas mais velhas possuem raízes mais profundas que trazem mais nutrientes para as uvas) e só viram mosto para o Pêra-Manca em safras consideradas excepcionais pela Adega Cartuxa. A bebida estagia por 18 meses em barricas de 3.000 litros e mais um ano na garrafa antes de chegar ao mercado. O perfil comum dos vinhos é sua força, intensidade de sabores e aromas, o toque da madeira bem integrada as frutas mais para compota e a longevidade. Como bom representante do Alentejo, são vinhos quentes.

Todo este cuidado, mais a fama de ícone do Alentejo = preço elevado. Lembrando, R$ 648,00 a garrafa. O que não afugenta os apreciadores, diga-se de passagem, já que safras anteriores estão todas vendidas. A explicação dos preços altos é aborrecidamente igual para todos os grandes vinhos. O Pêra-Manca não é exceção. Segue então a pergunta de sempre: vale o investimento? Vale comprar? A resposta, para ficar no universo lusitano, poderia ser: “tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”, e o bolso é cheio, eu acrescentaria.

1997 a 2005

Uma prova vertical como esta – o mesmo vinho de diferentes safras – , é uma experiência didática. Quem ainda duvida da variação que um mesmo rótulo – afinal de contas elaborado com as mesmas uvas, de um mesmo vinhedo – pode atingir, deveria participar de uma experiência dessas e checar com seu próprio nariz e paladar.

Em rápidas pinceladas, minhas anotações da sequência.
1997 – parecia já estar atravessando o cabo da boa esperança, um chá preto, uma lembrança de porto vintage me deixou a impressão de uma evolução meio exagerada;
1998 – para mim o melhor das cinco provas, tinha evolução das frutas passas com grande intensidade, um vinho rico, com bom corpo e fino, que ficou exibindo novas camadas a cada gole;
2001 – pareceu mais magro e delicado no nariz e no paladar, um ano mais fresco na região, um outro estilo que eu não esperava de um Pêra-Manca;
2003 – o ano que os velhinhos morreram de calor na Europa tinha um perfil semelhante ao 98, mas mais novo, com menos complexidade, mas muito macio e envolvente na boca;
por fim 2005 – que é o que interessa pois é o Pêra-Manca que está no mercado: também agradou, tem o DNA de potência, riqueza, perfil aromático do Pêra-Manca, um toque mentolado. Começou bem, nem precisa esperar tantos anos na garrafa para agradar, efeito talvez da consultoria de Michel Rolland. Mas comparado aos outros ainda tem muito chão para revelar sua riqueza de sabores e aromas e justificar o preço. Algo na linha, é um Pêra-Manca até já te deixa contente, mas felicidade mesmo só daqui uns 5 anos, quando completar seu ciclo na garrafa.

Grana curta? Prova uma taça…

Para quem ficou salivando, não rasga dinheiro e mora em São Paulo, há uma alternativa. No Empório Santa Maria, na fabulosa máquina italiana de vinhos em taça, a Enomatic, com capacidade para 48 rótulos, uma tulipa de 30 mililitros de Pêra-Manca tinto sai por cerca de 29 reais. “São consumidas duas garrafas por semana”, informa um dos sócios do espaço, Bernardo José de Ouro Preto Santos.

Serviço

Adega Alentejana – importadora do Pera Manca no Brasil

Empório Santa Maria – Avenida Cidade Jardim, 790. Itaim, São Paulo

Autor: Tags: , , , ,

quarta-feira, 4 de março de 2009 Rosé, Velho Mundo | 17:00

Da cor do pôr-do-sol

Compartilhe: Twitter

O verão parece que resolveu dar as caras neste  final de fevereiro e início de março. E na hora de escolher um vinho, como fica? Com este calor todo  o vinho tem de refrescar o paladar e não esquentar a cabeça, e o corpo, de acordo?

Sob esta canícula, e diante de suculentos medalhões de filé mignon grelhados no ponto exato e um quiche de queijo, pode então se desenhar um ponto de interrogação. Qual vinho pode aportar frescor e ainda acompanhar a comida? Um branco vai ser esmagado pelo grelhado. Um tinto seria muito pesado. Um rosé, nessas horas, pode ter o efeito de uma miragem no deserto. Resolve, pode acreditar.

Abrir um rosé numa hora dessas, na temperatura correta (lá pelos 10 graus), despejar seu líquido na taça e acompanhar suas paredes suarem tem efeito de propaganda de pasta de dente. É refrescante até de olhar.

E se é para escolher um rosé, a Provence, no sul da França, é a opção mais clássica e acertada. Produzindo caldos rosados há mais de 2.500 anos, é a única região do mundo onde este tipo de vinho é a esmagadora maioria: 70% da produção é composta de rosés.

Minha escolha recai então sobre o Château des Chaberts – Cuvée Prestige, 2006, da Appellation Coteaux Varois En Provence. Duas uvas dividem atenção na garrafa, as tintas francesas grenache e cinsault.

Este tipo de bebida geralmente tem aromas ligeiros de frutas frescas. Este rótulo lembrava morangos frescos, aqueles de caixinha mesmo que é o que a gente conhece. Um floral bem de leve, o suficiente para perfumar a bebida. Na boca, tem força para interagir bem com o grelhado, e uma boa acidez que pede novo gole.

E ainda tem a cor, um dos maiores charmes deste vinho. As tonalidades variam daquela casca de  cebola, bem clarinha, passando pelo salmão até um rosa bem vivo. Este Château des Chaberts, para mim, estava mais para uma casca de cebola de tons um pouco mais fortes, mas meu filho deu a melhor definição para um vinho que é a cara do verão: cor de pôr-do-sol. Perfeito.

Onde encontrar: Casa Flora
Leia Mais: A hora do vinho rosado (VEJA, dezembro de 2006)

Autor: Tags: , , , ,