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Arquivo de abril, 2009

quinta-feira, 30 de abril de 2009 Degustação, Entrevista | 19:09

Um mestre dos vinhos

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Por João Batista Jr

Único brasileiro a obter o título de Master of Wine, depois de ter cursado por seis anos a conceituada escola de nome idêntico em Londres, o paranaense Dirceu Vianna Jr, 40 anos, vem a São Paulo para participar da 13ª edição da Expovinis. Nesta entrevista a João Batista Jr, repórter de Veja São Paulo, ele conta um pouco de sua trajetória no mundo do vinho. Confira:

Quando o senhor   se interessou pelo mundo do vinho?
Nunca tinha pensado no assunto. Cheguei inclusive a cursar duas faculdades que não tinham nada a ver comigo. Entrei em Engenharia Florestal, na Universidade Federal  do Paraná , e em Direito, na PUC. Abandonei as duas escolas e troquei Curitiba por Londres 20 anos atrás. Meu primeiro trabalho na capital inglesa foi em um Wine Bar. Depois disso, cursei hotelaria no Westminster College e fiz cursos no Wine and Spirit Education Trust.

Por que o senhor decidiu cursar o concorridíssimo Master of Wine, que aceita apenas 80 alunos por ano. Achava que sua formação não estava completa?
A principal característica de minha personalidade é ter ambição de ser o melhor em tudo o que faço. Então, desde que entrei no mercado de vinho, meu objetivo era me tornar um mestre para provar a mim mesmo que eu era um PhD no assunto. Em novembro de 2008, depois de seis anos de dedicação quase exclusiva ao curso, obtive a minha certificação.

O senhor trabalha no mercado da bebida há duas décadas. O que muda agora com a obtenção do título?
O Master of Wine foi criado em 1953 e, desde então, apenas 274 pessoas obtiveram o título. Da América do Sul,  somos apenas eu e uma argentina (Marina Gayan). Brinco que existe no mundo mais físicos nucleares do que masters  of wine. O reconhecimento é tão grande que, desde o fim do ano passado,  quando fui aprovado, meu nome ficou conhecido internacionalmente no setor de maneira quase instantânea. Saíram matérias a meu respeito em jornais daqui de Londres, na  China e em Portugal. Como consequência, aumentaram os pedidos de palestras, degustações e aulas.

Qual foi a emoção ao ser aprovado?
Fiquei muito contente, pois a aprovação foi resultado de dedicação diária de seis anos de estudos. Minha preparação era parecida com a de um atleta que vai disputar a Olimpíada. Entre 2002 e 2008, acordava às 6h todo dia para estudar até às 10h, quando tinha de ir ao trabalho. Aos fins de semana, eram oito horas de aprendizado. Tinha de ler sobre a geografia e condições climáticas de todas as regiões produtoras do mundo. Nesse tempo, também viajei para mais de 30 países, sendo que para alguns deles, caso da França, eu cheguei a visitar mais de duas vezes por mês. Tudo isso para conhecer in loco as características das vitiviniculturas. Os produtores têm até diferenças comportamentais. É preciso gastar sola de sapato para virar um mestre em vinhos.

Por favor, cite um exemplo.
Os vinicultores de Bordeaux são formais e clássicos. Todos vestem ternos bem cortados e só nos recebem em seus castelos com hora marcada. Na Borgonha, os donos estão nos vinhedos com seus funcionários e usam jeans e camisas surradas. Eles nos recebem sem a mínima cerimônia e deixam à vontade para provar, ali no campo mesmo, suas joias líquidas .

Deve ser um custo alto se tornar master of wine?
Sim, o curso custou 15 mil libras por ano (cerca de 48 500 reais), com a inclusão das despesas com a viagem. Esse valor foi pago por mim e pela empresa que trabalho.

Como é esse processo?
As provas são feitas em cinco dias, a parte prática pela manhã e a teórica à tarde. No total, são doze vinhos degustados às cegas a cada dia. As perguntas que tinha de responder eram relacionadas ao clima, tipo de solo e até o nome das florestas de onde eram oriundas as madeiras usadas nos barris de envelhecimento dos vinhos. Por exemplo, a Borgonha é uma das regiões mais inconsistentes e confusas do mundo. Existem vários motivos para essa confusão, entre as quais a geografia e clima: a região é cheia de declives e as condições meteorológicas sofrem influência de correntes de ar vindas do Atlântico, do Mediterrâneo e até do Báltico.

Como é seu trabalho na importadora inglesa Coe Vinters?
Estou nesta empresa desde 1998. Comecei como vendedor e, depois de quatro anos, fui promovido a comprador de vinhos. Hoje sou um dos diretores. Quando  ingressei na Coe Vinters , tínhamos uma carta de 250 rótulos. Agora, são 1 500 etiquetas, que custam entre 5 e 3 000 dólares.

O Brasil tem um consumo per capita de 2  litros de vinho por habitante ao ano, um número muito pequeno se comparado, por exemplo, com a média argentina, que é de 30 litros per capita. O senhor acredita que teremos demanda para ampliar essa marca?
Nosso país tem potencial de consumo grande, considerando que o brasileiro ainda não considera o vinho como uma bebida para o dia-a-dia. Muitas pessoas acreditam que é uma  bebida para a elite. Felizmente, esse ponto de vista tem mudado com o aumento de cursos, feiras e degustações. Acredito que em um futuro próximo chegaremos  à metade do patamar argentino.

Quais são os rótulos nacionais que mais lhe agradam?
A maioria dos experts internacionais não leva os vinhos brasileiros a sério, mas o país já produz rótulos de boa qualidade. O meu favorito é o Miolo Merlot Terroir 2005. A Salton também tem mostrado uma melhoria em sua produção, os exemplos são o Talento e Desejo, ambos safra 2005.

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Degustação | 19:06

Acompanhe a degustação do Top Ten

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Terei o prazer de conhecer pessoalmente o master of wine brasileiro, Dirceu Vianna Jr, neste fim de semana dos dias 2 e 3 de maio, quando junto a um time de craques participaremos da degustação do Top Ten da Expovinis– é…, no meio do feriadão, por amor à causa. Esta prova às cegas antecede a feira e todos os anos seleciona os melhores vinhos da feira em dez categorias. Os resultados só são divulgados no primeiro dia do evento, na terça-feira, dia 5. Nem o corpo de jurados fica sabendo os vencedores antes. No twitter do Blog do Vinho farei pequenos comentários sobre a degustação que acontece no sábado e no domingo.

A festa do vinho
A Expovinis está em sua 13ª edição. Maior evento do gênero na América Latina, a feira deve receber 15 000 visitantes. São profissionais da área e pessoas curiosas em descobrir novidades entre os cerca de 5 000 rótulos apresentados por 270 empresas de mais de vinte países. Outra oportunidade é de provar, no mesmo local, vinhos brasileiros de várias regiões e de pequenos e grandes produtores. Fato raro, pois as outras grandes feiras que acontecem nas capitais geralmente são promovidas por importadoras, o que exclui o tinto e branco verde-amarelo. Trata-se ainda do primeiro ano da feira pós-Lei Seca. Recomenda-se ir e voltar de táxi.

Serviço
Expovinis Brasil 2009. Transamérica Expo Center, Avenida Doutor Mário Vilas Boas Rodrigues, 387, Santo Amaro. Inscrições pelo tel. 3141-9444 ou pelo site www.expovinisbrasil.com.br. Terça (5), 14h ás 22h (só para profissionais do setor); Quarta (6) e quinta (7), 14h às 19h (só para profissionais do setor), e das 19 às 22h (aberto para o público em geral. R$ 40,00 (com direito a taça) e R$ 30,00.

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terça-feira, 28 de abril de 2009 Brancos, Tintos, Velho Mundo | 18:58

Dominique Laurent: o doceiro que virou vinho

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Para vender, Borgonha com gougères
Para comprar, Borgonha com pão
(ditado dos négociants da região)

Provar um vinho bem elaborado da Borgonha é um experiência única. O que é melhor, então, do que um bom Borgonha na taça? É um bom Borgonha acompanhado de receitas típicas desta região situada no leste da França. Dá para melhorar este cenário? Sim, se você puder contar com a presença do négociant que elaborou o vinho à mesa e desfrutar das histórias sobre seus tintos.

Foi esta a experiência que transformou minha segunda-feira em um sábado de aleluia. Dominique Laurent é o négociant. O chef responsável pela harmonização atende pelo nome de Emmanuel Bassoleil e os vinhos gravados com o nome de Dominique Laurent na etiqueta são: Bourgogne Cuvée “Numero 1”, Chambolle-Musigny Vieilles Vignes 2005 e, para grand finale, Gevrey-Chambertin Vieilles Vignes 2003, em garrafa magnum, de 1,5 litro, por que o moço não atravessou um oceano para brincar!

Négociant não é atravessador

Um vinhedo da Borgonha é uma colcha de retalhos com inúmeros pequenos produtores: gente simples que por inúmeras razões históricas herdou um pedaço de terra abençoada, de solo calcário, e vende seus cachos de uva para cidadãos que tratam de vinificar, afinar os vinhos, criar uma identidade e por fim vender pelos olhos da cara. São os tais négociants.

Tem gente que pode ter a ideia errada de que o négociant é uma espécie de vampiro dos vinhedos que explora os humildes agricultores e só coloca a etiqueta e fica com a parte do leão. Na verdade este é um sistema tão antigo quanto a Borgonha, criado para resolver o problema de produção e comercialização do vinho em uma região de terrenos tão pulverizados. O négociant não é um atravessador, e sim um facilitador, mas obviamente, como em qualquer cadeia produtiva leva uma grana maior do que quem planta a uva.

Como tudo na vida, porém, há os négociants preocupados em produzir grandes volumes e acabam engarrafando um “pinóquio noir”, um vinho mentiroso, que não traduz o potencial da uva desta região. Outros, ao contrário, resgatam a qualidade desta uva refinada, e até um pouco pedante, com excelentes caldos, de variados níveis. Há mais do primeiro grupo do que do segundo, por isso é sempre necessário conhecer o produtor. Difícil, não é? Por isso, sempre que topar com um Borgonha que seja do agrado e caiba no orçamento é bom anotar o nome diretinho ou fotografar o rótulo pelo celular.

Dominique Laurent está na linha dos pequenas empresas, grandes negócios & ótimos vinhos. Também representa a simplicidade da região, antípoda em todos os sentidos da nobreza de Bordeuax. Mas é o simples que engana, pois não existe um Borgonha que valha a pena que seja barato. Ele iniciou sua carreira como chef pâtissier – se fosse no interior de Minas, seria chamado de doceiro mesmo –  e em 1987 decidiu fazer o que mais gostava, e se transformou em négociant na subregião de Nuit-Saint-Georges (Cote d’Or, Borgonha), onde selou uma rede de  relacionamentos com os pequenos produtores que lhe garantem a uva para seus quase 60 cuvées anuais. Todas de produção limitada.

E o que os vinhos de Dominique Laurent têm de tão especial?

Vieille Vignes
– vieille vigne aqui não é só uma força de expressão, mas se traduz no tempo em que as raízes do vinhedo estão agarradas ao solo (pardon, terroir). Vinhas antigas são sinônimo de qualidade e de intensidade, na fruta e nos  aromas. O Chambole-Musigny Vieilles Vignes 2005, por exemplo, é resultado da frutas de parreiras de 1902, 1920, 1930 e por aí vai; o Gevrey-Chambertin Vieilles Vignes 2003 tem plantas de 1910.

Barricas mágicas – é reconhecido o trabalho de Laurent com as barricas, que o marketing transformou em “mágicas”, mas que o próprio négociant simplificou como “nostálgicas”. “Trata-se de um trabalho de recuperar o que era feito no passado, dava certo, e foi esquecido”, resume ele, ao explicar o uso de madeiras com 300 e 400 anos de idade, que levam de 5 a 7 anos para secar. O mosto (o suco de uva) fica em contato com as borras por vários meses, “sem marcar o vinho com a madeira”, como gosta de enfatizar. Cada barril sai por 900 euros, contra 500 a 600 das barricas tradicionais.

Assemblage
– parece estupidez falar de assemblage (mistura de uvas) em um vinho varietal (de uma só variedade de uva). Não custa lembrar aos incautos, Borgonha tinto é da uva pinot noir e c’est fini. Mas é isso que Laurent faz, desde seu vinho mais básico. Ele seleciona uvas de diferentes perfis e parcelas de terreno para compor uma palheta de sabores mais rico para seus vinhos. “Assemblage é um vinho mais de alta-costura onde várias parcelas compõem o perfil de um vinho”, explica.

Outra ousadia do négociant é “rebaixar” seus vinhedos. Explica-se: na cadeia alimentar das regiões e subregiões da Borgonha (um prêmio para quem souber o nome de todas de cor, sua localização no mapa e importância) os terrenos ainda sofrem a divisão de quatro grandes apelações (AOC). São elas: regional (23 apelações, responsáveis por 65% da produção total); comunal ou village (44 AOC, 36%); premier cru (635 climats classé, 10%); grand cru (33 AOC, somente 2% da produção, o crème-de-la-crème). Pois Dominique Laurent, a fim de aportar mais qualidade aos seus pinot noir de classificações inferiores, comete e heresia de usar uvas de premier cru em garrafas que não ostentam esta classificação no rótulo.

Os vinhos

Bourgogne Cuvée Numero 1
2005 (R$ 144,00) – não, não tem número 2, 3 etc. O número 1 aqui é sinônimo de melhor couvée (colheita). Seguindo o preceito de assemblage, trata-se de uma seleção das melhores parcelas criando um Borgonha mais simples – que lá fora tem preço de vinho mais simples mas aqui é preço de gente grande mesmo -, mas já com alguma complexidade e que vai melhorando bastante descansando na taça. Curioso que Laurent prefere bebê-lo mais frio, quase gelado. Perguntei a razão, e ele respondeu: “Por que é assim que se bebe”. Definitivamente, sem frescuras o sujeito.

Chambolle-Musigny 2005 (R$ 368,00) – trata-se da seleção de uvas de diversos terroir. Aqui Laurent “rebaixa” seus premiers crus para aumentar a qualidade dos vinhos. Permanece por 20 meses na barrica e sua palheta aromática inicia com flores, cedro e revela um forte café no fundo da taça. Bastante complexo e intenso. Um vinho respeitável.

Gevrey-Chambertin Vieilles Vignes 2003 (R$ 1.153,00 a magun, R$ 464,00 a garrafa de 750 ml). Année Exceptionnelle. É assim que Dominique Laurent define o vinho em seu rótulo. Aqui vai a mão de mestre do négociant. 2003 foi o ano da canícula que matou os velhinhos na França e rendeu vinhos medíocres na Borgonha, pois as uvas foram colhidas em agosto, antes do tempo, prejudicando a acidez da safra. Dominique Laurent pagou para ver e colheu as uvas somente em setembro. Ok, teve a sorte de ser agraciado por uma mudança no tempo que refrescou a temperatura e permitiu colher uvas de imensa extração de cor, aromas e taninos. Mas foi ousado. Ou seja, ele é uma exceção à regra. A garrafa comprovou sua tese.

Para quem está costumado a um Borgonha de cor mais pálida, este aqui é mais musculoso, como são em geral os Gevrey-Chambertin. Apresenta cor intensa, aromas que lembram um porto, um toque de especiarias e é muito  longo. A boca aveludada
tem sabor de frutas (cerejas mais doces), sempre com uma potência mais fina, se é que dá para definir algo desta maneira. Um Borgonha de macho com diploma. Detalhe, Laurent produziu uma edição especial em garrafas de 1,5 litro, magum, só vendida aqui no Brasil e na França.

Para comprar e vender

Bom, Borgonha não é para amadores, mas para amantes. E endinheirados. Mas tudo bem, cabe aqui neste blog uma extravagância de quando em vez, afinal não se discute uma obra pelo seu preço – é uma conseqüência – mas pela capacidade de atingir o seu público. E Dominique Laurent nem é dos mais caros, apesar de estar um degrau acima na alas dos négociants.

O ditado que inicia este texto é recorrente entre négociants da Borgonha. Gougères são uma espécie de pão de queijo da região e sua textura mascara, como todo queijo, alguns defeitos do vinho. Por isso é o melhor acompanhamento no momento da venda, do ponto de vista do négociant. Quem quer provar – e comprar – um autêntico Borgonha, com seus aromas e sabores multifacetados, deve escolher um pedaço de pão, que não engana o palato, mas mostra a verdade do vinho. Os rótulos de Dominique Laurent foram servidos com gougères e fatias de pão.

Saiba mais sobre a Borgonha

Site oficial (em inglês)
(em francês)

Onde comprar:
World Wine

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sexta-feira, 24 de abril de 2009 Nacionais, Novo Mundo, Tintos | 20:28

Churchill engarrafado

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Estou sempre disposto a aprender,
mas nem sempre gosto que me ensinem.

Winston Churchill

Um tinto elaborado com a uva cabernet franc, engarrafado num vasilhame de formato bordalês, etiquetado com um rótulo idêntico ao Romanée-Conti, elaborado por um americano no Brasil e com nome de estadista inglês. Contando assim,  parece mentira. Mas este vinho existe. Trata-se do Churchill Cabernet Franc 2006, um vinho potente,  amadeirado, com um tostado no estilo dos tintos do Napa Valley, da Califórnia, com muita fruta madura e de baixíssima produção (só 600 garrafas).

Propagada de forma viral, a safra de 2006 foi bastante comentada entre os poucos que tomaram seus goles. 2007 não teve. Para 2008 serão cerca de 1500 garrafas. Ainda é um universo pequeno, mas são estes achados que fazem o charme dos caçadores de novidades brancas e tintas. Para quem está sempre aberto a aprender, mas ao contrário do Churchill estadista aceita um sugestão com gosto, é uma boa aposta. Principalmente se o perfil dos tintos californianos for a sua praia.

Para apresentar a criatura, nada melhor do que o criador. O Blog do Vinho, depois de provar o vinho, foi ouvir o produtor. Com a palavra, Mr. Nathan J. Churchill:

Como surgiu a ideia de produzir um vinho no Brasil?
A ideia de investir no vinho brasileiro surgiu pelo contato e amizade com a Valmarino, eles têm um produto excelente, e ofereceram um pouco de seu vinho para eu experimentar com o uso de barricas.

Por que escolheu a uva cabernet franc?
O cabernet franc é uma uva tinta que se dá bem no Brasil, principalmente em Bento Gonçalves e particularmente em Pinto Bandeira, onde fica a vinícola Valmarino, do meu amigo e colaborador Marco Antônio Salton. Tive acesso a este vinho, estava muito bom, e achei que seria diferente. A uva já foi mais comum no Brasil, e acho que deveria ser mais explorada. Os cabernet franc da Valmarino consistentemente recebem as melhores notas no Brasil.

Quantas garrafas você produziu?
Foram produzidas duas barricas de vinho, portanto 600 garrafas. 2006 foi o primeiro ano. Ainda restam umas 200 garrafas (em São Paulo é vendida pela Enoteca Saint VinSaint). 2007 não houve. Para 2008 aumentei a produção para cinco barricas (1500 garrafas). O Churchill 2008 está há dois meses na barrica e está evoluindo bem, com bastante café e toffee. As barricas do 2008 são de 36 meses de secagem enquanto as do 2006 foram de 24 meses. A tostagem foi a mesma. A uva também. A nova vinificação do Marco Antônio, porém, proporcionou mais fruta.

Como funciona sua parceria com a Valmarino?
O Marco Antônio faz o vinho e me cede uma quantidade para elaborar nas minhas barricas. Eu não participo no cultivo. O processo de vinificação é feito na Valmarino. Para a safra 2006 o Marco Antônio adquiriu um novo tipo de tanque fermentador (de alta tecnologia) que dá resultados ainda melhores. Toda esta parte é feito pelo Marco.

O uso da madeira é muito marcante no Churchill. Era esta mesma a intenção?
O vinho Churchill surgiu de duas coisas. A primeira era minha frustração com o uso de barricas pelas vinícolas no Brasil. Minha empresa representa umas das mais conceituadas tonelarias do mundo, a Taransaud, e como vendedor de barricas eu sabia quanto agrega a barrica ao vinho. Em termos simples, a barrica aumenta exponencialmente a complexidade e qualidade do vinho. Por isso, praticamente todos vinhos top a nível mundial passam por barricas novas. Porém, no Brasil a prática de usar barricas novas não é usual – são sempre poucas barricas, misturadas com as de vários usos, para muito vinho. Eu queria ver pessoalmente se a barrica usada de forma “correta” faria também uma grande diferença no vinho brasileiro. Fiquei feliz em comprovar que a barrica faz a sua mágica aqui também.

A segunda coisa que eu queria comprovar ou verificar era o uso do carvalho americano no vinho. A Taransaud tem uma subsidiaria, a Canton, em Kentucky, EUA, que fabrica barricas exclusivamente com carvalho americano. A Canton usa a mesma técnica tradicional de secagem da madeira que a matriz na França (36 meses ao ar livre). O que se descobre é que o carvalho americano, que é mal visto no Brasil, quando bem trabalhado proporciona excelentes resultados (a um custo muito menor, diga-se de passagem).

O senhor esperava a crítica positiva que o vinho teve?
Quando provei a primeira garrafa eu achava que o vinho era bom. Fiquei muito surpreso e feliz com o entusiasmo nas degustações na SBAV (Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho) e depois em outras aonde o Churchill foi considerado o melhor vinho. Tenho muita sorte de trabalhar com o Marco Antônio, que me dá um excepcional vinho base para fazer a élevage nas minhas barricas.

É inegável que o rótulo do Churchill é uma referência à etiqueta do Romanée-Conti (veja fotos acima). Foi proposital?
Pois é… a ideia original era usar uma arte de um designer, porém ele estava com a agenda cheia e não pôde fazer um desenho para mim. Portanto, tive de fazer eu, e como sempre admirei os rótulos da Romanée-Conti, La Tache e seus companheiros (leia entrevista com o produtor Aubert de Villaine ), resolvi fazer algo parecido. Para 2008 o rótulo vai mudar um pouco. Para melhor, espero.

O Churchill é um vinho de  guarda?
Pergunta difícil.  Preparei o vinho para ser guardado. Como eu não sabia se iria vender ou se ficaria com 600 garrafas para meu próprio consumo, utilizei uma rolha especial para vinhos de guarda: a rolha francesa Diam (100% isento de TCA). Gostaria de ter utilizado o screw-cap de alumínio, porém não existem garrafas no Brasil para esta embalagem.
A evolução depois de 15 meses na garrafa tem sido muito positiva. O veredicto sobre a guarda do cabernet franc é dividido. Alguns franceses melhoram, enquanto uns californianos nem tanto. Eu não recomendaria guardar o Churchill por muito tempo em altas temperaturas (fora de uma adega climatizada), porém, a uns 14 graus acredito que vai continuar melhorando até 2012. O tempo dirá. O vinho está muito bom agora. Se fizer um churrasco, recomendo tomar em vez de guardar.

Por que o preço inicial da garrafa, 32 reais, aumentou para cerca de 68 reais?
Gostaria que o preço fosse mais baixo, porém se tivesse deixado no preço original teria vendido todas as 600 garrafas na primeira semana.

Qual sua avaliação do vinho nacional?
O Brasil é um lugar ideal para produzir vinhos excepcionais e únicos, exatamente por ser fora da rota de exportação de vinhos globalizados.  Como nós não exportamos muito, não temos sofrido pressão para fazer um vinho que agrada ao consumidor americano, inglês ou holandês. É um dos poucos lugares aonde ainda existem vinhos autênticos. E temos também o nosso terroir. O produtores brasileiros são verdadeiros heróis, pois os insumos custam o dobro do preço mundial, fora outras complicações de todo tipo.
Há excelentes vinhos aqui, principalmente aqueles de Bento Gonçalves e da serra Santa Catarinense. Gosto dos vinhos da Valmarino, Salton, Villa Francioni. Acho que o 130 da Valduga é o melhor espumante nacional.

O espumante é mesmo o melhor vinho brasileiro?
O Brasil tem uma vocação natural para espumantes. O clima favorece tanto a produção das uvas como o consumo do vinho em si. A meu ver, os espumantes do Brasil só perdem para os franceses (champagne).
É uma oportunidade fantástica. O espumante pode ser tomado no calor que é muito refrescante, e já existe o hábito do balde de gelo à mesa com a cerveja.Com um pouco de marketing tem tudo para crescer muito.

E os tintos verde-amarelos?
Quanto aos tintos, não é fácil. Algumas safras são boas e outras mais complicadas. As boas estão se tornando mais comuns, talvez pelas mudanças climáticas.

Conte-me um pouco sobre o senhor.
Sou norte-americano e resido continuamente no Brasil desde 1987. O nome Churchill vem da Inglaterra, porém minha família está há 13 gerações nos EUA. Antes de chegarem na Inglaterra, os Churchills vieram da França. Conheço razoavelmente bem Napa (Califórnia) devido a alguns projetos que tive lá.  Admiro muito o vinho americano. Embora caro, a qualidade é alta.

Seu amigos americanos já provaram o Churchill?
Sim, meus amigos e família já provaram o Churchill.  Quase todos gostaram, com a exceção da minha mãe.
(Nota deste blog: espero que a safra 2008 agrade a mãe de Nathan Churchill: crítica negativa de mãe ninguém merece, não é não?)

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quinta-feira, 16 de abril de 2009 Porto, Teste, Tintos, Velho Mundo | 22:04

Você conhece vinho do Porto?

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O vinho do Porto é uma instituição. Sinônimo de vinho português pelo mundo teve uma presença marcante no Brasil durante o Império e a República. Até meados do século passado, era comum finalizar ou iniciar as refeições com um cálice desta bebida.

Elaborado com uvas típicas da região do Douro, e armazenado nas adegas de Vila Nova de Gaia (foto), ficou conhecido como Vinho do Porto a partir da segunda metade do século XVII por ser exportado a partir da cidade portuária de mesmo nome.

Certamente, o leitor deste blog já bebeu algum Porto na vida, se é que não dá suas talagadas eventuais. A propósito, o Brasil é, hoje, o 11º maior mercado do Porto em todo o planeta. Mas o quanto você sabe sobre este fortificado único? O Blog do Vinho elaborou mais um teste para tentar, de uma forma divertida e despretensiosa, avaliar seu conhecimento.

[QUIZZIN 4]

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Livros, Porto, Velho Mundo | 21:59

O Douro, o Porto e as letras

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Você fez o teste do Vinho do Porto? De qualquer forma, se você curtiu o aperitivo e quer entender um pouco mais sobre este fermentado fortificado, uma obra essencial é o já citado Porto e Um Vinho e sua Imagem (2006), do especialista e entusiasmado Carlos Cabral. O livro recupera a história da bebida desde o século XVII com base em mais de vinte viagens que o autor realizou a região e apresenta imagens de cerca de 300 rótulos, incluindo raridades.

Junta-se agora à bibliografia do Porto um livro mais abrangente na temática mas nem por isso menos didático em seu intuito: Os Sabores do Douro e do Minho (Editora Senac), do jornalista Marcelo Copello, que esquadrinha duas importantes regiões vinícolas lusitanas, que produzem dois caldos típicos e únicos: o Porto e o vinho verde. Copello leva pela mão o leitor apresentando a história das regiões, de seus mais importantes produtores e finalmente conta tudo que você precisa saber sobre seus vinhos, elaborados com as curiosas castas típicas das quintas portuguesas. Complementam esta “ementa” editorial receitas que nasceram e cresceram junto a estes vinhos, uma harmonização onde a gastronomia e os tintos, brancos e fortificados, mais do que complementos, são parceiros de vida.

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quarta-feira, 8 de abril de 2009 Brancos, Harmonização, Porto, Tintos, Velho Mundo | 23:45

Vinho e bacalhau: um casamento que dá certo

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Para ninguém me acusar de ficar indiferente ao dilema do almoço da sexta-feira Santa ou da Páscoa, aqui vão, de última hora, os meu pitacos para a melhor combinação de vinho com o bacalhau.
Para início de conversa, não existe unanimidade: os portugueses, os artesãos do bacalhau, preferem os tintos. Eu, que só fui apreciar a iguaria há poucos anos e ainda acho a melhor receita a preparada pela minha mulher, prefiro os brancos encorpados, de preferência das uvas chardonnay, arinto ou antão vaz. Mas cai bem também um chardonnay mais untuoso do Chile, da Argentina e mesmo do Brasil

Para satisfazer portugas e brazucas uma lista reduzida de brancos e tintos para acompanhar o baca da Páscoa. Mas só os vinhos da terrinha, até por respeito à sua culinária

Os brancos
Como já disse, minha preferência, de todos os preços.
Esporão Reserva Branco 2007 – Qualimpor

Redoma branco 2007 (Niepoort) – Mistral

Borba Antão Vaz e Arinto Branco 2005 – Adega Alentejana

Paulo Laureano Premium Branco 2006 – Adega Alentejana

Filipa Pato Ensaios Branco – Casa Flora

Luis Pato Vinhas Velhas Branco 2007 – Mistral
(Filipa e Luiz, pai e filha, os dois com brancos bacanas)

Tintos
Mas se você insiste nos tintos para a ocasião, vá de rubros da Bairrada, como os da linha do Luis Pato, elaborados com a uva baga. Duas escolhas:
Luis Pato Baga 2005 – Mistral

Vinhas Velhas tinto 2005 – Mistral

Ou então a coleção de rótulos do Alentejo do enólogo Paulo Laureano:

Casa de Sabicos Reserva Tinto 2005 – Adega Alentejana

Villa Romannu Tinto 2005 – Interfood

Paulo Laureano Clássico Tinto 2006 – Adega Lentejana

E o chocolate?
Quanto ao chocolate, o ovo de Páscoa e outras surpresas do coelhinho, vamos combinar que:

1. ovo de Páscoa e chocolate é coisa de criança, e não convém criança beber vinho;

2. não precisa combinar vinho com tudo. Abre seu celofane, pegue o bombom mais desejado, ou arrebente a casca do ovo, e deixe derreter na boca, à capela, e curta este momento calórico sem culpas;

3. se mesmo assim você quer fazer o tal casamento, vai de Porto Ruby ou Tawny, os mais simples na cadeia alimentar dos fortificados do Douro. Se você tiver muita grana um Tokay Aszu 6 Puttonyos manda muito bem. Mas aí, minha gente, o Tokay sozinho já é a festa completa.

Boa Páscoa a todos.

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terça-feira, 7 de abril de 2009 Brancos, Doce, Novo Mundo | 11:04

Icewine: o vinho que veio do frio

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Escolha uma das opções. Você já:
a) tomou vinho do Canadá?
b) provou um branco elaborado com a uva vidal?
c) experimentou um icewine?

Se respondeu não a todas as alternativas anteriores não há nada de errado com você, nem com seu conhecimento de vinhas e rótulos. O mundo do vinho é que é variado mesmo, e por isso mesmo é impossível conhecer de tudo. A diversão é esta, quando você tem a oportunidade de conhecer algo novo. Percebeu? Essa é a riqueza desta bebida. Eu, por exemplo, até sábado passado jamais havia provado um vinho da uva vidal.

O icewine é um vinho produzido em países de clima realmente frios, como Alemanha, onde recebe o nome de Eiswein, Áustria e aqui nas bandas do novo mundo fez a fama no Canadá. Antes de serem colhidas congeladas, no mês de dezembro, as uvas derretem e congelam novamente umas oito vezes. Cada vez que se congelam, mais sabores se concentram na fruta. O resultado é um branco doce, de baixo teor alcoólico com aqueles aromas etéreos que os bons vinhos de sobremesa exalam e que qualquer nariz mais cético é capaz de perceber. Na boca costuma vir uma sensação de compotas de frutas brancas ou cítricas, muito mel e certa untuosidade.

O Canadá se esmera em produzir bons icewines pelas razões óbvias. O clima é propício. Recentemente um grande amigo visitou o país e nos trouxe uma garrafa de um icewine da Peller Estates. Era um Icewine Vidal da safra 2007, da região de Niagara-On-the-Lake, da VQA (Vintners Quality Alliance ) de Ontário. VQA é um sistema de apelação canadense que garante que as uvas são provenientes da região de Ontário). É um tipo de vinho que deve ser bebido gelado e acompanha os doces no final da refeição, ou até mesmo substitui a sobremesa tal a riqueza de seus aromas e sabores (um doce de laranja de avó do interior, mel no nariz e no paladar, um toque de manteiga), tudo com enorme frescor – não é enjoativo com alguns vinhos doces muito alcoólicos. A fermentação é feita também a baixas temperaturas para manter a concentração da fruta.

O problema foi a garrafa, de 200 ml – o que é normal para vinhos neste estilo. Para quatro taças foi necessária uma divisão parcimoniosa. Ficou gostinho de quero mais, o que é sempre um sinal de a coisa correu bem. Se tiver algum conhecido que venha de uma viagem ao Canadá, pede um para ele. Aqui nos trópicos, um ice wine vale como uma brisa refrescante e doce no final dos trabalhos.

Se não tiver uma amigo vindo do Canadá, há como se virar. A Casa Flora importa um rótulo de icewine. Trata-se do Cave Spring, 100% riesling. Este eu já provei faz um tempo e tinha uma pegada mais de abacaxi em calda e muito pêssego.
O preço: 280 reais, mas a garrafinha é mais generosa, de 375 ml.

Assista aqui o belo filme sobre os vinhedos e a colheita do icewine da Peller Estates, de onde retirei as imagens que ilustram este post.

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sexta-feira, 3 de abril de 2009 Nacionais, Novo Mundo, Tintos | 19:01

Marco Danielle: da tormenta ao prelúdio

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Você conhece Marco Danielle? Quem frequenta a esquina virtual onde os aficionados dos tintos e brancos se encontram, os blogs, fóruns e redes sociais sobre o tema, certamente já ouviu falar dos vinhos Tormentas e Minimus Anima, e de seu autor, Marco Danielle. Desde 2005 ele batalha pela divulgação de seus tintos naturais, de produção reduzida e preço elevado. Danielle defende a baixa intervenção no vinhedo e é refratário a qualquer adição química na vinificação, principalmente de sulfitos.

A novidade é que agora ele está trabalhando um novo rótulo, Prelúdio, um vinho que  mantém o mesmo estilo mas dá uma trégua no preço. Odiado ou amado, o fato é que seu discurso sempre provoca faísca. E Danielle não é muito aderente a críticas, seja lá quais forem, e defende com unhas, dentes, ancinhos e, muita teoria, seus vinhos naturais. Daí a faísca invariavelmente provoca fogo.

Para o músico e ex-colaborador de Veja.com, Ed Motta, o Minimus Anima de 2005, por exemplo, é “o tinto brasileiro de maior personalidade” que já degustou. “No nariz, rara elegância, com uma nota salgada e apimentada que lembra os vinhos do Rhône e Languedoc, na França. Brilhante”, complementa. O enocineasta John Nossiter e os críticos do site Notas de Degustação também se somam aos entusiastas das experiências naturais de Danielle. Já boa parte da crítica tradicional olha desconfiada para o projeto, para seus proclamas e seus caldos. O crítico Marcelo Copello,  atualmente editor da revista Adega, comentando uma degustação às cegas de seus rótulos, disparou o seguinte petardo há alguns anos: “Algumas pessoas realmente não gostaram do vinho, achando-o desagradável”, sentenciou. “Os defeitos principais comentados foram aromas cozidos e concentrados de mais, de uvas excessivamente maduras ou concentradas posteriormente de alguma forma.”

Tudo isso é bossa-nova, tudo é muito natural
Seus vinhos, no entanto, a despeito de qualquer crítica, a favor ou contra, são extratos naturais, como os rios. Há quem goste das águas correntes, há quem prefira a platitude das represas ou o conforto das piscinas, quimicamente tratadas. Gosto é um valor subjetivo.

Provar um dos rubros criados no ateliê de Danielle – é assim que ele chama seu espaço de elaboração de vinhos artesanais – é de fato uma experiência diferente. O perfil dos tintos está mais próximo ao estilo do velho mundo, onde Danielle ganhou o pão como fotógrafo. No lugar da fruta em compota na taça, e do envelhecimento em madeira, a pureza da fruta. Apesar do termo desgastado, diria que é um vinho bossa-nova, que no princípio causa estranheza mas que esconde uma harmonia rica por atrás de sua aparente simplicidade.

Seus tintos não usam conservantes, leveduras industriais ou sofrem qualquer intervenção química na vinificação. O desengace dos cachos é manual e muitos de seus rótulos não contém, ou contém porções reduzidíssimas, de SO2, um conservante muito utilizado na elaboração de vinhos. Os caldos também não são filtrados ou estabilizados artificialmente. Muito  técnico, meio chato, né? Mas e daí, você deve estar se perguntando?

Daí que esta escolha resulta em um vinho diferente no paladar, que explora mais a verdade do vinhedo e a potencialidade da fruta; daí que o sabor, a cor e a palheta de aromas fogem do modelo tradicional – o que nem sempre pode agradar e nem %C

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Entrevista, Nacionais, Novo Mundo | 18:58

Danielle, artista, vinhateiro ou ambos?

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Publicitário e fotógrafo com experiência na França, onde conheceu e se apaixonou pelos chamados vinhos naturais, Marco Danielle se tornou vinhateiro na volta ao  Brasil. Começou pequeno, artesanal, mas teve a coragem de enviar sua primeira safra para a crítica internacional inglesa e ganhou seu maior troféu: um parecer favorável do rótulo Tormentas e Minimus Anima, de Steven Spurrier, famoso crítico inglês da  revista britânica Decanter (leia as críticas no final da entrevista).

Marco Danielle intitulava-se artista-vinheteiro no início (fato que critiquei logo de início, aliás). A justificativa do autor: “Quando dei ao meu projeto um teor artístico, esperava bem mais uma licença poética… Pelo contrário, a ideia soa pedante. Paciência, não se pode acertar sempre, nem agradar sempre.” Teorias à parte, eu acho que pega mal. É o vinho que diz sem tem arte ali ou não, e não o autor. Simplificou o slogan para vinhos de autor.

Em abril de 2006, Danielle me concedeu uma entrevista por e-mail. Muito mosto rolou de lá para  cá, incluindo o lançamento recente do Prelúdio, mas acho que é válida sua publicação hoje, para ver as coisas sob a perspectiva do tempo. E checar se algumas de suas ideias resistiram ou evoluíram com o tempo:

Por que seu vinho é produzido?
Para manter no Brasil parte da riqueza que escoa para o exterior das mãos de uma classe privilegiada com o poder aquisitivo necessário para buscar numa garrafa de vinho, além de um néctar natural, um sonho e uma história.

Quem tem de julgar se o vinho chegou ao status de arte é quem bebe e não quem produz, não concorda?
Respeito esse ponto de vista, sem contudo abrir mão do meu argumento. Já pensou se passássemos pelo crivo da razão tudo que se afirma na publicidade? E o sonho, onde fica? E a luta pela sobrevivência? Melhor, respondo com uma pergunta: uma obra em música erudita pode ser menor, e pode ser grandiloquente. Mas você julgará que uma obra menor não é arte? Para mim há erudição e virtuosidade no vinho. Assim como há sertanejos.

Quando dei ao meu projeto um teor artístico, esperava bem mais licença poética… Pelo contrário, a ideia soa pedante. Paciência, não se pode acertar sempre, nem agradar sempre.

O que me aborrece sim, confesso, é que alguém como eu, que poliu a alma com Barthes e Pré-vert; que viajou meio mundo atrás do saber; que comunica-se em cinco  línguas – três das quais com fluência; que viveu exclusivamente da arte e da escrita… deva ser tachado de pretensioso por “autointitular-se” artista. Num país como esse! Justo aqui, uma nação faminta onde ladrões se autointitulam políticos, um artista se intitular vinhateiro ou um vinhateiro artista, irrita.

Alguns tintos apresentam cores menos intensas. É proposital?
Amigos enólogos me dizem que aumentaria muito minha profundidade da cor usando enzimas. Mas para quê? Não há preço que pague a magia da natureza pura, em sua expressão mais honesta. Desconfie de vinhos untuosos. A glicerina e a goma-arábica são usadas em larga escala. Mas como disse o Hubert de Montille em Mondovino, “as pessoas gostam de ser enganadas.” Mas a mais das vezes as falhas mais gritantes não vêm da maquiagem. Vêm da matéria-prima ruim. Um vinho pode ser natural e ruim.
Já a merlot, tem se revelado a pérola das viníferas brasileiras. Por quê? Porque atinge o pico de maturação por volta de um mês antes. Portanto, concentremo-nos nos nossos merlot, que permitem desenhar vinhos nos dois estilos.
Ainda assim, desculpe a pretensão, mas devo concordar com o Spurrier que meu Tormentas 2004 representa uma finíssima expressão de cabernet sauvignon. Caso contrário, não o teria lançado. Sinto profundamente que a ocasião, em cômputo geral, não tenha permitido a você compactuar desta mesma impressão.

Você não acha que o preço, 80,00 e 120,00 reais (atualização, agora está em 160 reais), está fora dos padrões do vinho nacional?
Meu vinho também está fora do padrão brasileiro. Basta observar o que temos aqui. Mas até quando limitaremos inexoravelmente qualquer vinho brasileiro a um padrão baixo? Por que o Spurrier acaba de dar nota 18/20 para o meu vinho, e rasgar-se em elogios sobre qualidades que aqui não conseguimos decodificar? O que estaria acontecendo? Seria ele um incauto, ou um amador? Concordo que precisamos baixar preços, e estamos nos organizando para isso. Mas se a predisposição da crítica nacional continuar sendo de depreciar os esforços locais… sinceramente, pouca diferença fará se o preço for R$ 20 ou R$ 120,00, pois sempre parecerá caro. Admito novamente, porém, que ainda há pouquíssimos vinhos tintos brasileiros bons.

O que achou das primeiras críticas aos seus rótulos?
A imprensa e os críticos locais não entenderam a proposta conceitual, fortemente simbólica, de fortalecer, através de um preço alto para um vinho nacional raro, a autoestima do fazer brasileiro. Tormentas Premium foi prejudicado nas únicas duas avaliações anteriores que aconteceram no Brasil. O valor irrita tanto que perde-se o senso da fruição pura e simples deste agradável vinho. Uma pena. Sendo assim, prefiro tirá-lo da oferta para venda. Não tanto pelos clientes, pois ninguém é obrigado a comprar o que não quer. Mas por perturbar tanto a crítica. Há uma dificuldade aparente de entender que um vinho lapidado à mão, um verdadeiro serviço de joalheiro, não pode ser analisado como qualquer outro. Por outro lado, também, de nada me adianta que apenas o Spurrier consiga decodificar seus valores. Se o que está acontecendo continuar se repetindo, em breve não haverá mais qualquer razão para organizar apresentações de imprensa.

Tenho que admitir que prego no deserto, pois ainda temos pouquíssimos bons vinhos. Alguém tinha que começar um dia, servindo de bucha de canhão no primeiro tiro dessa iminente revolução.

Duas críticas do editor da Decanter, Steven Spurrier

Minimus Anima 2005 Cabernet-Sauvignon & Alicante Bouschet:
“Fina e profunda cor rubi-aveludada, muito jovial e boa viscosidade nos lados da taça. Nariz de frutas vermelhas recém esmagadas, elegante, cheio de fruta sem exuberância excessiva. Maduríssimas frutas vermelhas no palato, bons taninos naturais que dão a impressão de leve uso de carvalho, final firme e fresco, balanceado com a acidez natural. Um vinho muito bem feito; com fina fruta natural e um bom senso de individualidade. Degustado sem setembro de 2007.”

Tormentas Premium 2006 Pinot Noir, Tannat e Merlot
“Cor de negro rubi-aveludado; rico visual luxuriante com densas pernas  nas paredes da taça. No nariz, finas frutas de bosque maduras e concentradas, dominando cerejas negras combinadas com certa terrosidade natural. No palato, excelente concentração de uvas muito maduras em soberbo balanço com a acidez natural.  Grande densidade geral e pureza de fruta dominada por cerejas negras. Um vinho vivaz, com poder e elegância. São ambos vinhos refinados [Minimus Anima 2005 e Tormentas Premium 2006], feitos com evidente paixão e insistente qualidade.”

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