Publicidade

Arquivo de junho, 2009

domingo, 21 de junho de 2009 Tintos, Velho Mundo | 23:37

Vinhos suíços. Eles existem. E são bons

Compartilhe: Twitter

“Na Itália, por trinta anos sob os Bórgias, eles tiveram guerra, terror, assassinato e derramamento de sangue, mas produziram Michelangelo, Leonardo da Vinci e a Renascença. Na Suíça, eles tiveram amor fraternal, quinhentos anos de democracia e paz, e o que eles produziram? O relógio-cuco.”
Orson Welles, em O Terceiro Homem

A frase acima dita pelo cineasta Orson Welles no filme O Terceiro Homem, baseado no livro do escritor inglês Graham Greene, já se tornou clássica, e quase obrigatória, quando o assunto é a Suíça. É imprecisa na informação – o relógio-cuco é uma invenção alemã – mas perfeita na tese que defende. Mas para fazer justiça a este pequeno país, no entanto, acho que é possível incluir os vinhos à modesta lista de contribuições dos helvéticos à humanidade.

A Suíça é uma nação-Berlitz, dividida pelas línguas francesa, alemã e italiana e formada por 26 cantões, como são chamadas as regiões do país. A parte francófona, no entanto, em especial a região de Valais, é a que produz os vinhos de melhor qualidade e de maior identidade. Dominada pelos Alpes e de clima ameno, a Suíça produz, para surpresa geral, mais vinhos tintos (55%) do que brancos (45%). E consome mais tintos também. E como consomem os tedescos! Mais de 40 litros de vinho por habitante. Descontando as crianças e abstêmios, faça os cálculos de quantas garrafas cabe a cada suíço. Além dos cerca de 140 milhões de garrafas de produção interna – quase toda consumida ali mesmo -, a sede é aplacada por outros 60% de fermentados importados.

Uma pequena fração da produção dos vinhos suíços é exportada. Quase uma concessão de um país – e de um povo – onde os problemas parecem que se esqueceram de existir. Por esta razão é muito provável que você já tenha provado um rótulo deste pequeno país da Europa. Eu nunca tinha. E de cara fui apresentado a treze garrafas da região de Valais. Os vinhos quando passam por uma prova não chegam sozinhos, eles carregam o histórico do degustador e suas preferências pessoais. Afinal, a comparação, um dos critérios de uma avaliação, só se faz com a construção de referências. E eu gostei do que passou pelo meu nariz e passeou pela minha boca.

Trata-se da linha Maître de Chais, elaborados por uma enóloga, Madeleine Gay, cheia de medalhas no peito com prêmios conquistados nesta infinidade de concursos de tintos e brancos que se espalham pelo mundo. Esqueça um pouco as medalhas, isso não tem tanta relevância do ponto de vista do consumidor. Quem gosta de medalha é atleta e general. Mas nesse caso, parece que a qualidade foi premiada mesmo.

São rótulos de uvas nativas, aquelas espécies originais de cada país ou região. Foi um festival de nomes novos e sabores diferenciados (começou bem): fendant, petite arvine, heida, humagne blanche, pela ala dos brancos.  Humane rouge, diolinoir, cornalin e as internacionais syrah e pinot noir, para os tintos. Estas uvas têm história. Elas são produtos de um resgate genético recente, da década de 1990, que recuperou cepas de 3.000 anos passados, provavelmente cultivadas pelos romanos. Seja como for, a ciência deu uma mãozinha para a vinicultura suíça e aportou originalidade e variedade num mundo muito plano de cabernets e chardonnays.

Os vinhos

Os brancos me empolgaram mais. Toda a linha tem um perfil homogêneo, uma espécie de marca registrada: bom potencial aromático, busca pela intensidade e certa originalidade e elegância. É a mão do produtor e do enólogo que diz “olha eu aqui” em cada garrafa. Como não era um concurso, pude empatar minha preferência com dois rótulos de caráter distintos: Petit Arvine Fully AOC 2007 (R$ 88,00), e Humagne Blanche Du Valais AOC 2006 (R$ 88,00), ambas da Maître de Chais e com as uvas nativas explicitadas no rótulo. A primeira mais exuberante, rica em aromas cítricos e com um apelo mineral que me agrada, a segunda floral no início e com um amanteigado prolongado sedutor e fino (o bichão é fermentado em barris com as borras e a bebida, untuosa, passeia pela boca). Um terceiro branco merece uma consideração aqui. O Vielles Vignes 2004 (R$ 96,00): mais encorpado, complexo e gastronômico. O vinho é resultado da mistura das uvas marsanne, amigne, pinot blanc, heida. Mas os dois primeiros brancos me seduziram mais – e por menos dinheiro -, fator sempre importante em uma avaliação.

Dos tintos, dois rubros suíços me chamaram a atenção: o Syrah de Valais AOC 2006 (R$ 96,00), com boa concentração de boca e especiarias esperadas, algo ali na influência do Rhône, e o meu preferido, pena que mais caro, Domaine Evêché Valais AOC 2004 (R$ 116,00). A uva é a diolinoir, uma mistura das uvas rouge de diolly e pinot noir, que traz mais volume que uma pinot, dando aquela sensação de uma bebida mais encorpada, de cor escura e paladar de frutas mais negras misturada a um toque de especiarias e um final terroso.

Mas devo confessar que só fui provar os tintos pois era esta minha penosa obrigação no momento. Eu parava ali nas taças dos brancos. Do envolvente humagne blanche, do sedutor petit arvine, e da elegante composição de marsanne, amigne, pinot blanc, heida, uvas que até pelo  som provocam curiosidade e têm apelo. Uma sequência com a originilidade de um Orson Welles e a precisão e a qualidade de um relógio-cuco suíço.

Quem traz e onde comprarVitis Vinífera

Autor: Tags: , ,

quarta-feira, 10 de junho de 2009 Novo Mundo, Tintos | 18:47

Surazo, um chileno que não tem pressa

Compartilhe: Twitter

Os vinhos sul-americanos costumam ser lançados assim que as uvas são esmagadas, fermentadas e jogadas para dentro da garrafa em forma líquida, certo? É a lei que rege o ciclo de vida destes vinhos de consumo imediato. Não para Don Emilio de Solminihac, proprietário e enólogo da vinícola chilena Santa Mônica. Seus rótulos, batizados no Brasil e na Inglaterra de Surazo, não rezam por esta cartilha. Eles descansam mais tempo na adega antes de serem lançados nas prateleiras. Tratam-se de brancos que não têm pressa e tintos que sabem aguardar seu melhor momento.

Surazo é o vento que corta os vinhedos da região do Vale do Rapel, onde está o Santa Monica. Ele  retarda o amadurecimento das uvas, aumentando a concentração do sabor e aroma dos vinhos. O nome  exibido no rótulo retrata a origem e o estilo da bebida.

Don Emilio Solminihac é o simpático senhor da foto acima, uma mistura do ator Jack Palance com traços do ex-presidente do período militar, Garrastazu Médici. A voz no entanto é pausada e suave, como se espera de douto com um título Don atrelado ao nome. Ele foi o primeiro sul-americano formado em enologia pela Universidade de Bordeaux, em 1952, e foi discípulo do pai de todos os enólogos, o francês Emile Peynaud. Solminihac carrega a tradição do velho mundo, onde o costume de aguardar os vinhos evoluir é uma escolha  natural. Ou era. Don Emílio sabe que o consumidor hoje em dia não tem paciência para aguardar o amadurecimento da bebida e é rápido no saca-rolha. Resolve o problema segurando ele mesmo seus vinhos na adega. Isso é uma raridade.

Os vinhos

A linha mais básica, o varietal Surazo Cabernet Sauvignon (R$ 35,00), pode muito bem entrar no panteão dos bons e baratos. Um degrau acima, o corte Surazo Reserva 5 Big Reds (R$ 46,00) – cabernet sauvignon (40%),  merlot (30%), carmenère (20%), syrah (5%) e malbec (5%) – é o chamado pau pra toda obra e vai bem com vários tipos de pratos: desce redondo (opa, isso não é cerveja?), é  macio e tem uma presença de fruta atraente e persistente na boca. Ambos são da safra de 2003. Veja bem, 2003 e não 2006, 2007…

Perguntado se a carmenère é uva símbolo chilena, Don Emílio relativiza: “É uma uva muito recente, ainda conheço pouco”. Ele dá preferência à merlot. “A carmenère é muito sensível, pede uma graduação alcoólica de no mínimo 14 graus”, explica. As uvas, a propósito, são colhidas a mão, o que facilita a seleção dos cachos de acordo com o estilo do vinho, dos mais ligeiros aos de qualidade superior.

Na linha de tintos de alta qualidade, o Gran Reserva Cabernet Sauvignon e Merlot (R$ 131,00) vem com ano de 2002 carimbado no rótulo. Antes de chegar na sua taça, o bicho ficou interagindo com uma barrica francesa por 18 meses o que conferiu uma boa concentração e estrutura parruda, além de uma amplitude de aromas bem diversificada, principalmente aqueles herdados da madeira (tostado, baunilha, defumado) e das frutas mais maduras. Até o branco da linha Surazo varietal, o Chardonnay (R$  35,00), não é um recém-nascido, como de praxe. É de 2006.

Mas emblemático mesmo desta filosofia é o Surazo Reserva Especial. A safra comercializada é de 1993 (R$ 68,00). Uau! Um tinto envelhecido em grandes barris, depois em madeiras menores, seguido de tanques de aço inoxidável e por fim hiberna na garrafa. É o rótulo mais antigo ainda em linha disponível no Chile. Bom, taí um estilo de vinho que merece passar por um decanter antes de abastecer sua taça. Mas depois de tudo que escrevi sobre este jarra metida à besta no post anterior, você não vai levar a recomendação a sério, não é?

Quem traz: Importadora Porto Mediterrâneo

Autor: Tags: , ,

quinta-feira, 4 de junho de 2009 Cursos, Degustação | 21:17

Para que serve um decanter?

Compartilhe: Twitter

Um belo dia você, influenciado pelo papo do vendedor, compra um decanter. Ou ganha um. Sabe do que se trata, né? Aquele jarro de cristal (os mais sofisticados) ou de vidro que fica lindo nas prateleiras das lojas e às vezes chega em casa na forma de presente. Diante do objeto vem a pergunta. O que eu faço com isso? Há dois padrões de resposta:

O clássico
O decanter serve para arejar o vinho, amaciar os taninos e dar uma mãozinha no despertar dos aromas. A forma, bojuda na base e com um pescoço em forma de ampulheta na superfície, permite que o oxigênio faça a sua mágica. Como quase ninguém deixa a bebida descansar na taça, e já parte direto para o ataque, o decanter faz este trabalho, para a benção dos ansiosos e sedentos.

Os tintos mais concentrados, e antigos, ganham em profundidade e persistência. Até mesmo aqueles de safras recentes, elaborados para serem bebidos jovens, podem modificar um pouco nos aromas. Para os rótulos mais longevos é um utensílio que ajuda a separar as borras e sedimentos naturais da bebida. Ao despejar o precioso líquido no interior do jarro, estes elementos sobram depositados no fundo da garrafa.
A etiqueta e as enciclopédias do vinho recomendam um ritual para a separação das borras que exige um candelabro, uma vela acesa e certa destreza (ver foto abaixo). Muito bacana. Mas no mundo real, você já viu alguém conduzindo este processo fora das fotos dos livros?

O popular
É um objeto em busca de uma utilidade. Pouca gente usa um decanter em casa. Exige um planejamento, um ritual, que dificulta seu uso. E o ritual de desarrolhar o vinho na frente dos convidados, exibir o rótulo e derramar o néctar direto do gargalo para a taça é irresistível!

Mas é um presente bárbaro, não? Existem modelos dos mais variados formatos e preços. Certa vez, numa degustação com o senhor Riedel – o homem que reinventou as taças de vinho -, os caldos eram servidos em um decanter de pescoço alongado – parecia um ganso – que o somellier manuseava como uma destreza de malabarista. Todos ficaram admirados e, como se tratava de uma degustação séria, suspeitou-se que o formato transferia algum aroma especial ao vinho. Perguntado o que a forma trazia de vantagens, Riedel respondeu: “É só design, é mais bonito”.

Mil e uma utilidades
Para quem não sabe o que fazer com o decanter que está mofando no armário, aqui vão algumas sugestões que os enófilos sem senso de humor podem considerar uma heresia:

1 use como um belo vaso para flores (ver sugestão na foto de abertura, bacana, não?);
2 enfeite a cristaleira, principalmente se tiver um jogo variado. Vários modelos lado a lado fazem uma boa presença;
3 use a imaginação e transforme o decanter em um suporte para aqueles desenhos de areia colorida: a arte em garrafas;
4 desafie o amigo “entendido” de vinho. Funciona assim. Despeje um tinto argentino meia-boca na jarra e coloque ao lado uma garrafa de um rótulo mais caro e badalado. Sirva-o e observe a reação do sujeito. Aposto que será divertido

E você, usa o seu decanter? Tem outra sugestão para o equipamento? Escreva para cá!

Autor: Tags: ,