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Arquivo de fevereiro, 2010

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 Velho Mundo | 16:29

Um tinto e um branco com sotaque italiano

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Friuli - Fantinel

A Itália ocupa hoje a quarta posição no ranking dos vinhos mais importados no Brasil, atrás do Chile, Argentina e França. São 12,82% do volume total de litros de fermentados que entram por aqui. Mas com exceção dos proseccos que ainda são arroz-de-festa nas prateleiras tupiniquins, outros rótulos italianos são mais raros de encontrar. O que é uma pena, pois em geral os tintos e brancos da Bota são insuperáveis companheiros da gastronomia, de massas com molhos variados, risotos e assados diversos, alem de escoltar com leveza a pizza sagrada do fim de semana. A acidez e taninos presentes neste vinhos, em geral, pedem comida. Arrisque mais na próxima vez que for escolher um rótulo e tente uma uva ou região novas. No geral a surpresa é positiva.

Pinot grigio e refosco

Se aventurar pelos rótulos italianos é descobrir o sabor e aromas diferenciados de suas uvas típicas, distribuídas nas diversas regiões que compõem o mosaico de DOCs do país. Os vinhos do Friuli, no norte italiano, começaram a se destacar no mercado internacional na década de 1970. As principais DOCs (denominação de origem controlada) são: Colli Oriental Del Friuli, na metade norte; Collio Goriziano, na província de Gorizia, na metade sul, também conhecida apenas por  Collio – corruptela de coli, palavra italiana que significa colinas -; Grave e Isonzo, estas mais próximas à vizinha Eslovênia.

Nos vinhedos de Collio, 85% da produção são de brancos secos. A uva branca pinot grigio é a protagonista e já ultrapassou a regional friulano. Nas DOCs de Grave e Isonzo os tintos também são importantes, ali a internacional merlot e a regional refosco dão as cartas.

Da região de Friuli chegam dois exemplares provados recentemente e que dão uma dimensão deste caleidoscópio gustativo. Um vinho branco da uva pinot grigio e um tinto da uva refosco. Os dois rótulos são do mesmo produtor, Fantinel, na ativa desde 1969 na região.

Borgo Tesis Pinot Grigio 2008 (Fantinel, Interfood Classics, R$ 66,00). Fresquíssimo, uma cor clarinha e levemente rosada; é aromático, mas com certa parcimônia, não fica se atirando no nariz com volúpia, aparecem ali umas frutas brancas mais ácidas, como pêra e maçã verdes. No primeiro gole, aquela acidez que enche a boca e a confirmação das frutas que apareceram no nariz. Uma brisa na taça para rebater esta canícula de fim de verão. Na mesma linha, há uma opção tinta, um merlot (Borgo Tesis Merlot 2008) de mesmo preço e totalmente dispensável, que não entrega o mesmo prazer do seu parceiro branco seco. Alem do mais, se é para provar um merlot, por que escolher  uma garrafa italiana se há tantas opções mais autênticas para testar?

refosco

Refosco dal Peduncolo Rosso 2008 (Fantinel, Interfood Classics, R$ 66,00). A uva branca pinot grigio é até capaz de você conhecer. Mas aposto que nunca provou, ou ouviu falar, da refosco. Eu nunca tinha ouvido falar. Muito menos a dal peduncolo rosso, uma subvariedade cultivada no Friuli. Provar vinhos de uvas nativas e pouco divulgadas é como garimpar um livro em edição original em um sebo. Tem aquele apelo da descoberta de algo que existia há muito tempo mas você desconhecia. De descobrir o novo, que na realidade é antigo, mas estava escondido. Melhor ainda quando o conteúdo surpreende. É o que acontece aqui. A começar pelo nariz: um delicado floral com uma pegada de terra, um toque tostado, de frutas vermelhas como cereja madura, ou a mistura disso tudo. Redondo na boca, mas com os taninos batendo continência, tem corpo médio, sem aquela potência desnecessária. A acidez está presente, mas não é cortante. Não é um vinho complexo, cheio de camadas, mas uma experiência agradável onde tipicidade se revela e surpreende pela autenticidade.

Pimenta no peduncolo dos outros é refresco!

As duas garrafas, acompanhadas de outras tantas que não vêm ao caso, foram provadas na presença do dono do vinho, Marco Fantinel, terceira geração no comando da vinícola. A degustação se deu em volta de uma mesa, como convém a um encontro com um italiano. Enfiando o nariz na taça e estalando a língua a cada gole estavam especialistas, doutos e palpiteiros oficiais. Eis que surge uma questão etimológica: que raios distingue um refosco de um refosco dal pedunculo, e ainda por cima rosso? Entre os vários palpites, os seguintes: trata-se da parte de baixo do cacho da uva, que é mais avermelhado; é a haste principal do cacho e, por fim, são os pequenos engaços que prendem o fruto à haste principal. Marco Fantinel tentou explicar a questão. Mas precisou desenhar para ser entendido. Com um cacho de uvas na mão ele destacou suavemente uma fruta e mostrou o pequeno cabinho que prendia a uva do seu coletivo. E apontou: questo è il peduncolo, que no caso do refosto do Friuli ainda por cima é  rosso (avermelhado). E daí, pode-se perguntar o leitor deste blog? O vinho tem gosto de peduncolo? Isso é importante? Claro que não, é só uma característica da variedade. Mas no mundo do vinho qualquer detalhe pode ser importante para definir o perfil da bebida. Um apreciador de vinho, afinal, não se forma só por aquilo que bebe, mas também pelo conhecimento que adquire.

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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010 Nacionais | 14:54

Vinho de garrafão ou de mesa. Você já tomou?

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garrafas2
Você aí que hoje em dia não vive sem os seus tintos franceses, chilenos, italianos e brasileiros de boa cepa, já tomou um vinho nacional de garrafão, não é? Aposto que sim.

Atire a primeira rolha, ou tampinha de plástico, quem nunca provou um vinho de garrafão na vida. Mesmo que tenho sido nos tempos de grana e paladar curtos. Ele está presente em festas juninas (ou você acha que vinho quente é feito do quê?), misturado nas batidas com abacaxi na praia ou mesmo em reuniões estudantis, onde é servido no  gargalo e compartilhado como um cachimbo da paz. O fígado e o estômago na juventude são valentes.

Este é o vinho que o brasileiro bebe. Os números são claros. A produção de vinhos comuns no Brasil em 2008 foi de 287,44 milhões de litros, enquanto a de vinhos finos não passou de 47,33 milhões de litros. Para muitos consumidores o vinho de mesa é a porta de entrada – e frequentemente de saída – deste mundo. Vinho de mesa têm sua legião de apreciadores, que devem ser respeitados – vide as multidões que são arrastadas para grandes feiras temáticas no interior paulista e os vários comentários postados neste blog enaltecendo suas qualidades -, mas isso não significa que o vinho fino é uma evolução do vinho comum. Trata-se de outro patamar de fermentado de uva.

O Brasil não é exatamente um país com uma cultura de vinho estabelecida, com exceção de regiões como Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, onde algumas famílias produtoras trouxeram no século XIX a tradição do vinho. A identidade do vinho para o consumidor brasileiro, portanto, é mais um conhecimento e um gosto adquirido do que uma herança cultural e familiar. Um cenário diferente de partes da Europa, por exemplo.

Se existe algum arremedo de tradição e conhecimento genérico do vinho, ele se dá por sua vertente mais popular, barata e portanto acessível. O tal vinho de mesa também conhecido como suave. No popular, o vinho de garrafão, que a propósito já é vendido em versão tetrapack.  E aí, você já tomou? Vai encarar, já encarou?

É como água e vinho

A legislação brasileira classifica os vinhos nacionais em dos tipos: de mesa e fino. E eles são muito diferentes, apesar de levar o mesmo nome.

O vinho fino só pode ser produzido a partir das uvas da família Vitis vinifera, cepas geralmente de origem europeia – aquelas manjadas cabernet sauvignon, merlot, chardonnay, etc. Estas frutas são menores e com cascas mais duras que suas primas híbridas. São espécies mais exigentes e se comportam de maneira diferenciada de acordo com o terreno, clima, etc. Também exigem um cuidado maior em todas as etapas de produção, desde o plantio e colheita da uva até a guarda, o transporte e comercialização. Seu controle é mais rigoroso. Como a uva é a alma do vinho, quanto maior sua qualidade mais rico é o fermentado.

Já o vinho de mesa, ou suave, é elaborado com as chamadas uvas americanas, ou híbridas, da variedade Vitis labrusca ou Vitis bourquina. As mais conhecidas são isabel para as tintas e niágara para as brancas. O vinho de mesa parece um suco de uva que tomou um porre, um pouco enjoativo já no primeiro gole. É muito doce, e tem aroma de uva (no vinho fino esta é uma característica rara, encontrada em alguns fermentados da variedade moscatel). Além da diferença da família da uva, o tempo de fermentação é menor, seu suco não é envelhecido e o controle alcoólico é mais simples. Vinhos comuns normalmente não passam por avaliação de denominação de origem ou indicação de procedência, ou seja, têm menos controle de qualidade. A produção de cachos também é abundante. O resultado é um fermentado simples, um primo pobre e adolescente do vinho que não desenvolve potencialidades aromáticas e gustativas e tem dificuldades de se adaptar com o passar dos anos.

Vinho nacional não é só o de garrafão

Uma questão importante. Tratar o vinho brasileiro só pela régua do vinho de mesa, no entanto, é um jeito torto e preconceituoso de medir a qualidade dos tintos e brancos nacionais. A produção de vinhos finos no Brasil, apesar da predominância dos fermentados mais simples, surfou na onda da qualificação desde a década de 90, acompanhando um tendência do mercado mundial de substituição de uvas comuns por cepas viníferas, além de mudanças promovidas nas técnicas de plantio que impactam drasticamente na qualidade do que é engarrafado.

Vinho de mesa, di tavola e de table

Um esclarecimento final. Com certeza estas nomenclaturas podem gerar alguma confusão no consumidor habituado a rótulos de vários países. Afinal, há vinhos de mesa de outras procedências. É bom deixar claro que os homônimos vino di tavola, italiano, ou vin de table, francês, não pertencem à mesma família do vinho de mesa nacional. Esta classificação está na base da pirâmide dos vinhos destes dois países, mas eles são elaborados com uvas viníferas e podem ser boas opções para o dia a dia. Em alguns casos, podem até surpreender. Uma curiosidade: o cultuado Sassicaia, um supertoscano premiado e caríssimo (a safra 1996 pode chegar a 1.300 reais a garrafa!), tem associado ao seu nome no rótulo a classificação Vino di Tavola, uma provocação de seus produtores, já que o blend do vinho não obedece as regras de origem da região da Toscana, na Itália. Ou seja, não há nenhuma relação direta com uma classificação de origem ou de qualidade.

Pois é, nem tudo é o que parece ser no mundo do vinho…

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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010 Blog do vinho, Brancos, Tintos | 07:53

10 dicas de como escolher e comprar o seu vinho

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20.000 rótulos

O vinho, assim como a crase, não foi criado para humilhar ninguém. Mas muita gente sofre um pouco na hora de escolher qual garrafa vai levar para casa. “Eu não entendo de vinho” é frase mais comum de se ouvir. Como se fosse preciso algum conhecimento prévio para agradar o próprio paladar. O medo do consumidor diante da prateleira, ou da carta de vinho de um restaurante, lembra o temor do goleiro durante o pênalti.

Compreensível. São mais de 20.000 rótulos espalhados pelos pontos de venda e cartas às vezes extensas ou mal elaboradas. Ou seja, o sujeito tem pavor de levar uma bola entre as pernas.E jogar dinheiro fora. Para evitar este desconforto, um conjunto de dez dicas vai ajudá-lo na hora de escolher e comprar sua garrafa.

5 dicas para se dar bem

1. No restaurante. Confie no sommelier: ele é seu aliado. Em geral ele elaborou a carta e/ou tem conhecimento sobre a melhor combinação com a comida da casa. Seja claro sobre quanto quer gastar (lembre-se que os preços ali são mais altos mesmo) e o tipo de vinho que mais lhe agrada. Não se acanhe de pedir o rótulo mais barato da lista, muitos consumidores, evitando demonstrar falta de afinidade com o tema, acabam optando pelo segundo vinho da lista, que nem sempre entrega mais qualidade, mas obviamente será mais caro.

2. Nas lojas. Prefira as casas especializadas ou importadoras. As chances de o vinho ser melhor tratado ali é maior – eles vivem disso. Os catálogos das importadoras são uma ótima fonte de pesquisa sobre a origem e as características do produto. Alguns são tão bons e completos que valem como leitura. Claro que no texto todos os vinhos são excepcionais; alivie os elogios exagerados e fique na essência da informação Esteja aberto a sugestões dos vendedores das lojas, e crie uma relação de confiança com estes profissionais que entendem do riscado e podem ajudar muito na escolha. No geral eles preferem conquistar um consumidor com sugestões viáveis ao bolso do que empurrar um tinto ou branco encalhado no fundo da loja e perder a confiança de um potencial cliente.

3. Na internet. O comércio eletrônico já é realidade. Faz tempo. Transforme a tecnologia em uma aliada. Toda loja importante tem sua divisão de e-commerce. Praticamente todo rótulo tem uma resenha escrita na web. É uma espécie de catálogo digital, onde se pode pesquisar pelo produto, região, uva, safra e até pontuação da crítica, para quem acha isso um fator importante na hora da compra. Nem sempre é. A relação pontuação/preço daquele senhor com sobrenome de caneta (Robert Parker) em geral favorece mais o preço do que o consumidor. Mas não deixa de ser outro fator de decisão. Há ainda muitas opções de ferramentas para acessar pelo celular. Falta de informação, portanto, hoje em dia não é desculpa. É preguiça.

4. Ajuda dos amigos. A propaganda boca a boca é uma forma desinteressada de trocar experiências. Os amigos podem dar boas dicas, seja na mesa do restaurante, no escritório e principalmente nas redes sociais – para onde a conversa fiada foi transferida. A discussão rola solta nos fóruns, twitters e facebooks da vida. Curtiu um vinho? Fotografe o maldito rótulo – se não você vai esquecer – arquive a imagem e compartilhe com os colegas. Fica mais fácil repetir um pedido, provar uma recomendação, além de ser divertido.

5. Aposte na certeza. Se você está no começo desta jornada, não se arrisque: na dúvida, escolha um vinho pelas uvas mais conhecidas de cada país ou região. Malbec na Argentina, cabernet sauvignon no Chile, sangiovese na Itália, um corte bordalês (cabernet franc, cabernet sauvignon e merlot) na França, tempranillo na Espanha, touriga nacional em Portugal, riesling na Alemanha, sauvigon blanc na Nova Zelândia e espumantes no Brasil (se quiser um tinto, arrisque um merlot). Com tempo você deve se aventurar, apostar na variedade e mudar seu padrão de escolha, arriscando um torrontés argentino, um shiraz chileno, um pinot noir francês, um antão vaz lusitano, um mencia espanhol, um nebiolo italiano, os vinhos de corte (mistura de várias uvas) e por aí vai. As escolhas são infinitas (Clique aqui e conheça as uvas tintas e brancas).

5 cuidados na hora da compra

Alguns cuidados evitam levar gato por lebre. Xixi de gato, afinal, só é do jogo no aroma de algum sauvignon blanc mais bacana da França (alguém aí torceu o nariz? Saiba mais sobre os aromas do vinho clicando aqui). Siga então estas regras para se dar bem:

1. Observe se a garrafa está bem cheia. Um espaço livre muito grande entre a rolha e o líquido é sinal de vazamento.

2. Se puder, escolha as garrafas que estejam deitadas, nelas o líquido está em contato com a rolha.

3. Verifique o estado de conservação da cápsula e da rolha. A cortiça não pode estar saltada.

4. Cheque a cor do vinho, principalmente os brancos – uma cor amarelo-escura pode indicar oxidação; se estiver na cor âmbar, evite. Um tinto de safra recente de cor alaranjada – uma característica dos tintos mais evoluídos – também é sinal de problema.

5. Fique atento às safras. Tintos mais básicos, assim como os rosés e grande parte dos brancos devem ser servidos jovens, em no máximo três a quatro anos.

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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010 Blog do vinho | 07:22

Blog do Vinho: agora no iG

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Blog do vinho no iG“As coisas vão, as coisas vêm, nada em vão”
Mário Quintana

Como sabem aqueles que já visitaram um vinhedo, as parreiras não morrem durante o inverno, elas hibernam. Os troncos sem folhas, podados e retorcidos, lembram uma megaexposição das obras do escultor polonês radicado no Brasil, Frans Krajcberg. Como mágica, voltam à vida na forma de brotos que vão dar seus frutos nas próximas estações. É o ciclo das vinhas.

Blog do Vinho ficou sem atualização por um breve período, estacionado no passado. O tempo, muitas vezes, melhora os bons vinhos, mas, como se sabe, é inimigo da garrafa aberta. Aos poucos o fermentado vai perdendo o brilho, os aromas e o sabor até se tornar irreconhecível ao olhar, desagradável no olfato e decadente na boca. O tempo também é inimigo de um blog que não se atualiza, pois a internet se alimenta da atualização e da participação de seus leitores.

A comparação é um tanto forçada, mas assim como as parreiras, este espaço na web dedicado ao vinho está de volta após breve interrupção, agora de casa nova.

Àqueles que me acompanharam no blog em sua antiga encarnação, sejam bem-vindos ao iG. Quem chega aqui pela primeira vez, o meu cordial “prazer em conhecê-lo”.

No menu lateral o leitor pode saber mais sobre os inúmeros tipos de uvas tintasbrancas, a matéria-prima dos caldos. Para quem não vive sem uma leitura em papel impresso, uma relação de quarenta livros para se aprofundar sobre o tema. Não entende o dialeto do vinho? O glossário ABC do Vinho decifra os termas mais usados pelos especialistas. Os antigos posts, gentilmente autorizados a ser republicados neste espaço, podem ser encontrados na busca pelo arquivo ou pelas categorias.

Plagiar o próprio texto é um pecado menor, quando declarado. Repito aqui, então, trechos editados do primeiro post da vida deste blog, publicado em 30 de julho de 2008, que explica melhor o objetivo deste espaço. E assim recomeçamos a vida. É o ciclo dos blogs…

Existirmos. A que será que se destina…

“Este blog acaba de ser desarrolhado. Ele pretende ser um espaço que junte a vontade de beber – com direito a opinar – com a de se informar. A lei pode ser seca, mas nós temos sede. Aqui, o papo é sobre vinho, mas sem perder o bom humor e, jamais, o prazer de desfrutar uma taça.

Discutindo 3%

Segundo um artigo da Universidade de Davis da Califórnia uma garrafa de vinho é constituída de 85% de água e 12% de álcool. Os 3% restantes — elementos como ácidos, açúcar, glicerol, polifenóis, minerais e outras substâncias —, misturados à água e ao álcool, dão a personalidade e o caráter desta que é a bebida mais comentada de todo o mundo. Ou seja, a discussão gira em torno do que estes 3% são capazes de entregar. Inúmeras páginas na internet, milhares de livros e revistas especializadas são escritas para debater seus aromas, sabores e dissertar sobre sua origem. Por que isso? Por uma simples razão: vinho é uma bebida cheia de manhas, que tem na diversidade sua maior qualidade e seu maior desafio para quem tenta entendê-la. Escolher um entre tantos rótulos, reconhecer o que vai dentro da taça e ainda por cima saber com qual comida fica melhor é trabalho de muitos anos de convívio com as garrafas e os livros. Vamos combinar, é um mundo maravilhoso, mas é complicado mesmo, se não, por que tanta gente tenta descomplicá-lo?

20.000 rótulos, 3.000 uvas

No Brasil calcula-se que existam mais de 20.000 rótulos à venda, de diferentes países e regiões que produzem vinhos das mais diversas categorias e estilos. Há um universo de uvas que vai além das tradicionais cabernet sauvignon e chardonnay — são registradas cerca 24.000 nomes para as mais de 3.000 variedades de uvas viníferas existentes. Destas, cerca de 150 são plantadas comercialmente em quantidades mais significativas (conheça as principais uvas tintas e brancas). Mesmo o mais aplicado dos connoisseurs está sempre se surpreendendo, e aprendendo, com as novidades que encontra engarrafadas.

Litros e letras

A crítica inglesa Jancis Robinson tenta jogar uma luz ao explicar tamanho interesse: “O vinho está na moda, é símbolo de status, cultura e sofisticação”. Esta é uma parte da equação. Uma outra parte, talvez, diz mais respeito à necessidade do ser humano de fazer parte de um grupo — neste caso, pertencer àquele núcleo de pessoas que, presume-se, “entendem de vinho”. O vinho propicia este encontro ao confrontar o gosto pessoal ao gosto do outro, o conhecimento de uns à desinformação de muitos. Para a grande maioria, basta gostar da bebida e tentar lembrar o nome do rótulo para repetir a boa experiência. Para aqueles que são fisgados pelo vinho, cada taça provada é um verbete a mais no dicionário particular. A régua da experiência, aqui, é medida em litros e letras — o apaixonado pela bebida está sempre anotando a safra, o produtor, suas impressões e buscando mais informações sobre aquilo que acabou de provar. Para estas pessoas, não basta o prazer de beber, é preciso entender o que se está provando.

É para estes dois tipos apreciadores de vinho, o bebedor eventual e o aplicado que este blog existe.

Os melhores vinhos não são grandes pelo poder que têm de nos subjugar, e sim por sua aparente infinitude. Retornamos a ele diversas vezes, e a cada vez somos iluminados por uma nova sensação.
Matt Kramer, Os Sentidos do Vinho

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