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Arquivo de março, 2010

quinta-feira, 25 de março de 2010 Velho Mundo | 21:20

Os bons vinhos e o bom papo do português Luis Pato

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Luis Pato: o criador e a criatura

Há enólogos e produtores que são bons no discurso mas ruins de vinho e existem aqueles que são acanhados no papo mas entregam um belíssimo caldo na garrafa. O enólogo e também produtor português Luis Pato é daquele tipo raro que soma duas virtudes: é sedutor na conversa e produz vinhos saborosos e com estilo.

Bairrada

O estilo Luis Pato está marcado pelo manejo de uma variedade de uva da Bairrada chamada baga. Por muito tempo os vinhos desta região portuguesa eram extremamente rústicos, davam aquela travada na língua e desciam rasgando pela goela. Sem abandonar a uva representativa da região Luis Pato amaciou o que a natureza oferecia em estado bruto e fez história. Quem quiser fazer a prova da garrafa pode começar experimentado sua linha mais básica, Luis Pato Baga 2005 (R$ 50,00), subir um degrau e saborear um Vinhas Velhas Tinto 2005 (R$ 107,00), ou meter mais ainda a mão no bolso e saborear um Vinha Pan 2005 (R$ 177,00). As provas vão falar mais sobre o estilo Luis Pato do que uma descrição barroca e pessoal de seu vinho. Mas o registro está sempre lá, um tinto com sabor local, que pede sempre outra taça cheia e que vai aumentando de complexidade e texturas à medida que se sobe na pirâmide de qualidade de seus rótulos.

Aos que forem abduzidos pela baga, e por seu adestrador, há ainda uma experiência mais rica (e cara, como de costume): o Pé Franco 2005 (R$ 703,00!). São pequenas parcelas de vinhedos que, como o nome indica, não usam aqueles enxertos que evitam a praga das parreiras, a filoxera, o que se traduz num tinto de uma pureza rara e instigante, daquele tipo que provoca um “uau” dos conhecedores (além de alguns segundos de nariz enfiado na taça) e inquietação nos neófitos que percebem algo diferente na taça, mas não conseguem identificar. São aquelas camadas de aromas e sabores mais encontradas em vinhos da Borgonha, na França, ou em Barolos italianos. “A baga tem capacidade de envelhecer de um Barolo”, garante o enólogo. O Pé Franco é o testamento em vida de Luis Pato.

Há ainda o capítulo dos espumantes, o rosado elaborado pela uva touriga nacional é um sucesso de fácil assimilação e muito prazer. O Maria Gomes Brut (R$ 70,00), provado recentemente, tem um frescor de boca que é resultado da antecipação da colheita das uvas “o grande problema dos espumantes portugueses é que eles eram pesados”, explica  Luis Pato. A baga bate continência em 10% da composição (maria gomes é o nome da uva protagonista), e mostra sua presença com um fim de boca mais prolongado. E se você, como eu, gosta de brancos, o Maria Gomes 2008 (R$ 40,00) é um baita aperitivo ou vinho de entrada.

Douro

O rei da Bairrada, também faz das suas no Douro, mais ao norte de Portugal. “Há aqueles que são flying winemakers, eu sou um drive winemaker, pois vou de carro”, ironiza. Nesta região, famosa pelos vinhos do Porto, ele maneja os vinhedos da Quinta da Pôpa. O resultado é sublime. O Quinta da Pôpa Vinhas Velhas 2007 (R$ 213,00), como o nome indica, é de vinhedos mais antigos, de mais de 60 anos.

Vinhas velhas? Isso é bom? É. Explica-se: quanto mais antigas as parreiras mais profundas são suas raízes e a extração de componentes e minerais que ela traz à uva; menor também o rendimento por cacho, o que concentra ainda mais os componentes, que se traduz em sabores mais ricos e aromas mais complexos, daí a razão de os produtores anunciarem nos rótulos a idade das vinhas.

O grande barato do Douro, porém, é a complexidade que o conjunto das uvas proporciona e entrega ao vinho. “O Douro é carne sem osso”, diz Luis Pato. Elas estão lá misturadas na garrafa da Quinta do Popa – touriga nacional, touriga franca, tinta barroca e tinta roriz –, e sem abusar da madeira, outra característica do estilo do enólogo “vender madeira no lugar do vinho custa no bolso do consumidor”, explica. Perfumado, mas sem exageros, tem final longo, como suas raízes – o vinho fica rodando no paladar e na lembrança. “Muitas vezes tiro um pouco de aroma, pois quero enviar meu vinho para avaliação da Jancis Robinson (crítica inglesa que prefere a fineza ao exagero) e não para o Robert Parker (poderoso crítico americano que dá mais valor à extração dos cheiros e do suco da uva fermentado)”, explica. Confesso que pedi mais um gole na taça deste Douro repleto de sabores. Melhor indicador de aprovação, não há.

“Baidouro”

Aqui o lado inovador de Luis Pato mostra seu serviço. Se há uva boa no Douro e na Bairrada, por que não soldar o melhor de uma região com o excelente da outra? O TRePA 2007 (R$ 213,00) é a resposta. 50% de baga dos mesmos vinhedos da Vinha Pan, 50% de tinta roriz do Douro. Aí é tirar as conclusões. Características de um e de outro saltando aqui e ali e um conjunto pra lá de harmônico, fácil de beber e com capacidade de envelhecer na garrafa. Um sonho antigo de Luis Pato: “Um Douro com um toque de Bairrada”, diz.

Futuro

No trato pessoal o estilo Luis Pato se mostra na capacidade de ser didático sem aborrecer, moderno sem desprezar a tradição e marqueteiro sem perder a classe ou a autenticidade. Afinal um homem que carimba o nome e sobrenome no rótulo tem de garantir qualidade e bater tambor, não é? No campo estratégico, ele pretende difundir a touriga nacional como uva símbolo de Portugal. Portugal tem uvas nativas que o mundo, principalmente o mercado americano, não conhece. “Podemos tirar vantagem de um problema”, diz. Para Luis Pato o ciclo do mercado consumidor de vinho agora retoma uma busca pela originalidade, pela diferenciação, atrás de um tinto e um branco mais gastronômicos, que vai melhor com a comida do que numa prova de degustação. Aí que ele aposta as fichas das castas portuguesas.

O enólogo inova também seguindo o conselho dos mais jovens. “Minha filha (Filipa Pato, também enóloga. Tente conhecer a linha de seus vinhos de  belíssimo custo benefício chamada Ensaios) me alertou que eu não estava fazendo vinhos para a geração dela e então eu amaciei um pouco mais os tintos” . Inova também nos vinhedos. “Os acertos muitas vezes são produto do acaso”, confidencia. Por exemplo, ele transformou uma técnica –  quando o enólogo decide descartar alguns cachos de uvas para concentrar sabor em outras – em vantagem produtiva. Ao colher algumas uvas em agosto, quando ainda estão verdes, encontrou o ponto certo para seus espumantes (“em Champagne as uvas são verdes”). De quebra, fortalece os cachos remanescentes que são colhidos um mês depois e usados para vinificar outros tipos de vinho. O resultado é que ele extrai de uma mesma parreira, em duas colheitas (agosto e setembro), uvas que serão usadas para elaborar um espumante rosé, um vinho doce rosado, um tinto seco e um tinto doce. É de dar inveja em qualquer consultor especializado em produtividade.

Futuro? Trabalhar vinhos de pequenas tiragens, testar novas técnicas, conquistar os jovens. Ele tenta isso com seus vinhos moleculares, mais docinhos e menos alcoólicos (Abafado Molecular Branco e Tinto R$ 102,00). Sei não, jovem gosta mesmo é de álcool… Aí se revela o marqueteiro: “O sonho é o que manda na vida”.

Importadora: Mistral

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segunda-feira, 15 de março de 2010 Teste | 19:18

Você entende de vinho ou só faz pose? (parte 2)

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O bebedor de vinho, na sua maioria, está dividido em duas categorias: aqueles que não conhecem nada de vinho e aqueles que acham que conhecem. Você entende de vinho ou só faz pose? Responda as quinze perguntas do teste abaixo e descubra.

O Blog do Vinho tem uma série de testes para você checar, de forma divertida e despretensiosa, os seus conhecimentos. Eles estão listados no final deste quiz

[QUIZZIN 7]

Faça os outros testes

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quinta-feira, 4 de março de 2010 Entrevista | 09:53

Aubert de Villaine, o monsieur Romanée-Conti, é escolhido o homem do ano pela revista Decanter

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Capa da ediçnao da Decanter de Abril destaca De Villaine como Homem do ANo do vinho

Capa da Decanter de abril destaca De Villaine como Homem do Ano

A revista de vinhos inglesa Decanter, colecionada pelos enófilos, respeitada pelo mercado e invejada pelos concorrentes, estampa em sua edição de abril, lançada dia 3 de março, a escolha do produtor Aubert de Villaine como homem do ano de 2010. A eleição é feita pela revista desde 1984 e pela primeira vez um representante da Borgonha, na França, é agraciado com o título. Veja lista completa no final do post.

Para quem não sabe, Aubert de Villaine é ninguém menos do que o proprietário da Domaine de La Romanée-Conti (DRC), um pedaço abençoado de terra de apenas 250.000 metros quadrados, onde se concentram seis grand crus — a mais alta categoria que um vinhedo pode alcançar na região da Borgonha. Ali são elaborados os rótulos Grands Échézeaux, Romanée-Saint-Vivant, La Tâche, além da estrela da casa, o Romanée-Conti. Para quem fica especulando o valor de um vinhedo desta qualidade, De Villaine é curto e elegante, como sempre: “A DRC não tem preço”. Mais comentado do que bebido, o Romanée-Conti é um desses vinhos que ultrapassa sua natureza de produto e ganha status de obra de arte.

Sexta geração à frente dos vinhedos, Aubert de Villaine é adepto da prática orgânica desde 1986 e mais recentemente da biodinâmica, aquela prática que rejeita o uso de defensivos químicos e acredita na influência dos astros sobre as vinhas. “É uma importante ferramenta para fazer vinhos”, justifica De Villaine, que mantém uma equipe permanente de 25 funcionários no campo que fazem uso da tração animal no tratamento do solo. Para ele, a melhor maneira de lidar com um terroir perfeito como a Domaine de la Romanée-Conti é a menor interferência possível: “Este pedaço de terra tem sido dedicado à excelência em fazer vinho há séculos. Meu trabalho é de guardião deste terreno”, diz.

Tive a oportunidade de entrevistá-lo no final de 2007, quando De Villaine veio ao Brasil apresentar a safra 2004 de seus vinhos. Abaixo reproduzo alguns trechos:

Blog do Vinho – Como se sente sendo o responsável pelo vinhedo onde são produzidos os melhores vinhos do planeta?
De Villaine – Sou um privilegiado, mas também muito consciente de minha responsabilidade. Este pedaço de terra onde eu faço vinho tem se dedicado à excelência há séculos. Minha missão não é colocar uma marca pessoal, mas manter uma tradição.

Blog do Vinho – O que faz o Romanée-Conti ser um vinho cultuado pelos especialistas e desejado pelos milionários do mundo?
De Villaine – A principal razão é que ele é um vinho de terroir. O Romanée-Conti é uma espécie de símbolo desta ideia. Seu vinhedo está localizado num local privilegiado, um grand cru de apenas 1,8 hectare (18.000 metros quadrados), no centro nervoso de nossa Domaine, em Vosne-Romanée. O resultado é um vinho elegante, suave, feminino e com grande personalidade e finesse, qualidades que já eram observadas pelo príncipe Conti, no século XVIII, quando ele adquiriu o vinhedo. Outra explicação é a escassez. A produção é muito pequena e a demanda alta. São cerca de 5.500 garrafas por ano, que são disputadas em todo o mundo. E esta produção não vai se alterar nunca, ela é determinada pelo tamanho do vinhedo.

Blog do Vinho – Seus vinhos alcançam preços estratosféricos nos mercados de investimento e na internet. O que acha disso?
De Villaine – Isso é algo completamente fora de nosso controle e que lamento profundamente. São valores tão altos que transformam os vinhos em item de colecionador, em troféus. Quando um produto atinge esta faixa de preço, eu acredito que as pessoas temem abri-los. Isso é um erro. Vinho não é para colecionar, nem para especular, mas para beber e dividir entre os amigos.

Blog do Vinho – Como explicar, para um leigo, o significado de terroir e sua influência?
De Villaine – Terroir é um pedaço de solo delimitado pelo homem, com certas condições climáticas, ideal para um certo tipo de vinho. É uma alquimia entre o homem e a natureza estabelecida pela história. Os monges começaram este trabalho, no século XI ou XII, ao delimitar os vinhedos da Borgonha e as uvas que seriam plantadas: a pinot noir, para os tintos, e a chardonnay para os brancos. Este conceito alcançou o nível mais elevado na Borgonha. Um bom exemplo da influência do terroir vem de dois vinhedos nossos: o Grands-Échézeaux e o Échézeaux. Mesmo sendo vizinhos, há diferenças de solo entre eles. Em Échézeaux, há muitas pedras; no Grands-Échézeaux, o solo é mais profundo, nunca serão encontradas grandes pedras saltando para fora da superfície — ou seja, em Échézeaux é possível caminhar usando sapatos finos, já no Grands-Échézeaux é necessário calçar botas. O vinho que resulta de cada um desses solos tem a sua personalidade. O aroma e o paladar não são as coisas mais importantes — isso se altera a cada safra —, mas sim esta personalidade, que vem da terra. Uma energia que percebemos quando provamos, a cada ano, um Échézeaux e um Grands-Échézeaux.

Rótulo do Romanée Saint Vivant autografado por Aubert de Villaine

Rótulo do Romanée-Saint-Vivant autografado por De Villaine em sua visita ao Brasil em 2007

Blog do VinhoA propósito, os especialistas costumam descrever uma infinidade de aromas, alguns meio esquisitos, nas taças de vinho. Isso não intimida um pouco os consumidores que não conseguem distinguir estas coisas?
De Villaine – Não fico surpreso que as pessoas não identifiquem estes aromas todos nos vinhos que compram. Eu mesmo não sou capaz de reconhecê-los. Aliás, acho muito aborrecido. Não estou interessado nisso, e sim na personalidade do vinho. Até admiro quem tem esta capacidade. Mas para mim, não há interesse algum.

Blog do Vinho – Como o senhor avalia a influência do megacrítico americano Robert Parker e de seu critério de avaliação de 100 pontos?
De Villaine – Eu acho que ele é um dos maiores responsáveis pelo crescimento do consumo de vinhos no mundo — é claro que o fato de as pessoas estarem mais ricas também ajudou. Quanto às notas, me parece bizzaro. Nós achamos impossível justificar uma avaliação com números. O que Parker diz sobre a bebida é mais interessante que suas notas. Mas é o jeito que funciona, e não podemos fazer nada contra isso. Eu espero que os consumidores aprendam que isso não é importante.

Blog do Vinho – O presidente Lula, quando eleito para seu primeiro mandato, em 2002, comemorou sua vitória com uma garrafa de Romanée-Conti 1997. Era uma boa safra?
De Villaine – Não é uma grande safra, mas eu me sinto muito orgulhoso que seu presidente tenha escolhido este vinho para celebrar sua vitória. Eu espero que tenha sido porque ele ama vinho e não por conta do rótulo.

Blog do Vinho – Nem uma coisa nem outra, a garrafa foi um presente de seu marqueteiro de então, Duda Mendonça, e a notícia gerou muita polêmica na opinião pública.
De Villaine – O curioso, me contaram depois, é que foi criado uma página na internet com o nome “romannecontiparatodos”, que defendia que o objetivo dos socialistas era tornar todos ricos, para que também pudessem beber o vinho. É divertido, mas impossível. Nunca haverá Romanée-Conti para todos. Como eu disse, são só 5.500 garrafas por ano.

Todos os homens do ano da Decanter

2010 Aubert de Villaine – Borgonha, França
2009 Nicolas Catena – Mendoza, Argentina
2008 Christian Moueix – Pomerol, França
2007 Anthony Barton – Bordeaux, França
2006 Marcel Guigal – Rhône, França
2005 Ernst Loosen – Mosel, Libano
2004 Brian Croser – Adelaide Hills, Austrália
2003 Jean-Michel Cazes – Bordeaux, França
2002 Miguel Torres – Penedès, Espanha
2001 Jean-Claude Rouzaud – Champagne, França
2000 Paul Draper – Califórnia, EUA
1999 Jancis Robinson MW – Londres
1998 Angelo Gaja – Piemonte, Itália
1997 Len Evans, OBE AO -Austrália
1996 Georg Riedel – Áustria
1995 Hugh Johnson – Londres
1994 May-Eliane de Lencquesaing – Bordeaux, França
1993 Michael Broadbent – Londres
1992 André Tchelistcheff – Califórnia, EUA
1991 José Ignacio Domecq – Jerez, Espanha
1990 Prof Emile Peynaud – Bordeaux, França
1989 Robert Mondavi – Califórnia, EUA
1988 Max Schubert – Austrália
1987 Alexis Lichine – Bordeaux, França
1986 Marchese Piero Antinori – Florença, Itália
1985 Laura and Corinne Mentzelopoulos – Bordeaux , França
1984 Serge Hochar – Líbano

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