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Arquivo de maio, 2010

sexta-feira, 28 de maio de 2010 Blog do vinho | 17:44

Sexo, vinho churrasco e… futebol

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Sexo e vinho: nem todos gostam, segundo Dunga

Dunga continua surpreendendo os torcedores. Em recente entrevista, quando questionado sobre a rotina dos jogadores enclausurados na concentração na África do Sul, o técnico da seleção brasileira de futebol declarou “Nem todos gostam de sexo, de vinho ou sorvete. Temos que respeitar a individualidade de cada um”. Já o médico da seleção Argentina, rival em todos campos, contra-atacou: “Não podemos negar durante mais de um mês também um churrasco, um copo de vinho ou um pouco de doce, por isso de vez em quando é permitido”, afirmou Donato Villani. Já começo e me simpatizar pela seleção argentina…

Como as declarações citam sexo e vinho, vale resgatar duas notas sobre a relação entre a bebida e a atividade sexual – dos homens e das mulheres -, publicadas neste blog.

Vinho X impotência

Se ainda faltava algum argumento “médico” para justificar sua dose diária de vinho seus problemas se acabaram! Pesquisa realizada pela University West Australia, e divulgada pelo site da revista inglesa Decanter, encontrou uma relação entre o consumo moderado e continuado de vinho e baixas taxas da disfunção erétil. 1700 australianos participaram da amostragem e o acompanhamento destas alegres cobaias mostraram que as ocorrências de disfunção erétil prolongadas foram reduzidas de 25% a 35% em consumidores regulares de vinho – uma a 20 taças por semana – quando comparados àqueles pobres infelizes que não têm o hábito de beber.

Vinho tinto aumento o desejo sexual feminino

O consumo moderado de vinho tinto, já foi comprovado, é eficaz para as coronárias, faz bem para a saúde em geral e até para a  libido do homens. Agora, os cientistas capricharam: segundo estudo realizado pelo hospital Santa Maria Annunziata, em Florença, na Itália, o consumo de uma ou duas taças diárias de vinho tinto aumenta a libido feminina. Foram pesquisadas 789 mulheres entre 18 e 50 anos, moradoras na região de Chianti, próxima ao hospital. Bom, aí também não vale, além de tinto é Chianti, não precisa muito esforço  para o vinho fazer parte do dia-a-dia. Mas vamos em frente.

Apresentado em março na IX Semana da Prevenção Andrológica, promovida pela Società Italiana di Andrologia (SIA), o estudo foi baseado no questionário Fsfi – Female sexual function índex -, que avalia a sexualidade feminina por dezenove questões distribuídas nos seguintes critérios: do desejo ao interesse, da lubrificação ao orgasmo e da satisfação à dor.

O resultado quem conta é Nicola Mondaini, dirigente do hospital Santa Maria Annunziata e responsável pela  pesquisa: “Este estudo mostrou que as mulheres que consomem um a dois copos de vinho tinto por dia (11%) têm uma sexualidade melhor do que o grupo de mulheres abstêmias (35%) ou até mesmo aquelas que bebem ocasionalmente”. Não sou eu quem diz, mas o cientista italiano. Bravo! Bravíssimo!

Os louros de uma vida sexual mais plena se devem aos nossos amigos polifenóis, são mais de 300 tipos encontrados no vinho tinto, que a pesquisa mostra agora ter uma ação sobre alguns componentes hormonais femininos, em particular o estrogênio. O chocolate, que é rico em antioxidantes, é sabido também que estimula a sexualidade feminina. O que sugere que a dupla vinho & chocolate tem o efeito de uma bomba afrodisíaca…

O estudo é sério, minha gente, resultará até na publicação de um livro: “Bacco e Venere, ovvero vino ed eros nella vita dell’uomo”, que tem lançamento prevista, na Itália, previsto pela editora Giunti. Como de costume, é sempre bom alertar, estes estudos recomendam um consumo contínuo, mas moderado. Alcoolismo é coisa séria, não é disso que trata este blog, muito menos os estudos científicos e pesquisas.

Churrasco

Quanto ao churrasco, um parceiro fantástico para a carne não é nem argentino muito menos brasileiro, mas o tannat uruguaio. Mais detalhes e dicas de rótulos na nota: Tannat: o tinto uruguaio que combina com churrasco.

Quanto ao futebol,  eu não entendo, nem gosto. Como diria o Dunga “Temos que respeitar a individualidade de cada um”.

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quinta-feira, 27 de maio de 2010 Blog do vinho | 11:31

O mito do vinho de bom custo-benefício

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Vinhos de bom custo-benefício

"Amor, qual vinho tem um bom custo-benefício?"

Um jargão do vinho que se espalhou como praga para outras atividades é o tal “bom custo-benefício”. Tudo agora tem um bom custo-benefício, desde o  tinto chileno de supermercado, passando pelo banho do totó no pet shop, até o  smartphone que tem conexão direta com a Nasa, nada escapa. Não sei quando surgiu esta praga, mas já virou um vício de linguagem que funciona quase como uma muleta para os críticos e especialistas que não querem se comprometer com uma indicação mais simples. Como se quisessem advertir: “Olha, o vinho não é uma maravilha, tem suas qualidades, mas por este preço você esperava o quê?”

Tudo na vida tem um valor, um custo embutido. Não há almoço grátis, dizia o economista e prêmio Nobel Milton Friedman, muito menos com vinho, acrescentaria eu. Qual é o benefício que um vinho pode trazer? Agradar ao paladar e dar prazer, basicamente. Um vinho caro e que tem estes mesmos atributos, provavelmente de maneira mais intensa e consistente, se torna desta maneira um mau custo-benefício? E o contrário, um rótulo bem barato que provoca uma careta e é a antessala da dor de cabeça, é um bom custo mas um benefício ruim? Faz sentido?

Os diplomatas do vernáculo contornam a situação trocando o benefício pela qualidade. O vinho tal tem uma boa relação de qualidade e preço. A coisa assim fica mais clara.  No geral a qualidade eleva o preço de uma mercadoria à medida que agrega valor a ela, seja por meio de matéria-prima mais refinada, por uma embalagem mais bem-cuidada, uma inovação que exigiu um gasto de tempo e experimentação e até mesmo na elaboração da campanha da marca – a mão invisível do marketing, parodiando o pai da economia Adam Smith.

Os americanos, sempre mais pragmáticos, resolvem a questão com o selo Best Buy. Direto ao ponto. É uma indicação das melhores compras que seu dinheiro pode pagar. Um Best Buy pode ser de um valor mais baixo – e ainda assim ter qualidades que tornam aquele vinho uma boa opção de compra – ou mesmo ter vários dígitos na etiqueta, e ainda assim valer a pena e justificar o dinheiro investido na garrafa.

Este Blog do Vinho se posiciona sobre o tema. Um vinho pode ser bom e barato ou ruim e barato. Ou então ser uma boa compra, seja pelo critério de preço, seja de qualidade. Melhor ainda quando os dois mundos se encontram… e vão para sua taça.

No restaurante

Outro vício da gastronomia que parece perder força é a chamada “comida honesta”. Vai na mesma linha, o chef não é estrelado, os ingredientes não são lá muito sofisticados, o ambiente é assim meio sem graça e a criatividade das receitas é nula. O resenhista tasca um “comida honesta”. Aquela bem feitinha, sabe? Você não terá uma experiência incrível mais vai sair satisfeito da mesa e o crítico livra a cara de indicar uma casa fora do circuito. E, principalmente, o cliente não vai ficar endividado para o resto do mês, pois o preço ali é menor. O que leva a outra questão, os restaurantes badalados, de boa comida e muito caros são desonestos? Os preços não estão estampados no cardápio, estão enganando alguém?

Ok, vamos combinar que certos restaurantes do eixo Rio-São Paulo deviam começar a oferecer parcelamento no cartão de crédito ou mesmo abrir um carnê para permitir o pagamento das contas cada vez mais estratosféricas. Mas a escolha da casa é uma decisão individual. E se você, como eu, não dispensa um bom vinho (de bom custo-benefício? de boa qualidade e preço? uma boa compra?), a conta mais do que dobra. Mas o preço do vinho em restaurantes já é assunto para outro post.

Repercussão dos leitores  29/5/2010

Um blog desta natureza, como é o do vinho, é um espaço para discutir, propor, fazer testes, comentar e às vezes trazer alguma novidade. A proposta deste post que acabas de ler é trazer o tema custo-benefício para discussão. O tema, na minha modesta opinião,  é duvidoso, banalizado e usado muitas vezes como uma muleta dos especialistas e indústria do vinho – e expandiu seus tentáculos para outras áreas. Muitos leitores acharam o tema uma bobagem, a argumentação furada, o raciocínio presunçoso, ou até mesmo concordaram. Mas se despertou uma reação, ele existe. As argumentações a favor ou contrárias, quando consistentes, trazem luz para a discussão. Agradeço a participação. Este blog é democrático, estão todos representados na área de comentários. Só não vale xingar a mãe…
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terça-feira, 25 de maio de 2010 Livros | 12:28

Os melhores vinhos do Chile, da Argentina e do Brasil

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Edição 2010

Descorchados 2010
Guia de Vinhos de Argentina, Brasil e Chile
Patricio Tapia
Degustadores: Jorge Lucki, Fabrício Portelli e Hector Riquelme
Editora Planeta
RS 120,00/R$ 150,00

Responda rápido: qual o melhor vinho do Chile, da Argentina e do Brasil? Difícil? Pois  quatro mosqueteiros da degustação – profissionais das taças meio cheio e meio vazias – levaram ao pé da letra o titulo do guia que editam  (Descorchados) e chegaram nesta resposta. Para isso desarrolharam mais de 2.000 amostras de vinhos sul-americanos e após uma peneira de 1.387  garrafas selecionadas montaram um painel de 50 rótulos e enfim chegaram a um vencedor: o argentino Catena Zapata DV Catena Nicasia Vineyard Malbec 2003. Os onze primeiros lugares e as surpresas brasileiras da lista você confere no final deste post.

Descorchados: enfim, um guia de vinhos para o mercado nacional

Guia de vinhos tem aos montes. Aqui mesmo neste blog, na seção de livros, é possível encontrar alguns dos títulos disponíveis nas livrarias. A maioria, no entanto, tem uma visão americana ou europeia. Mas o que adianta um guia recheado de indicações francesas, italianas e americanas que raramente você vai encontrar nas prateleiras e na carta de vinhos dos restaurantes e, pior ainda, dificilmente terá dinheiro para comprar?

O Guia Descorchados vem suprir esta lacuna. Comandado pelo reconhecido critico chileno Patricio Tapia, o guia é uma seleção que reúne os melhores vinhos do Chile, da Argentina e do Brasil – aqueles que você encontra nas prateleiras dos supermercados e nas boas importadoras. São exatos 1.387 rótulos recomendados e comentados e uma boa novidade: pela primeira vez é realizada uma avaliação de 86 vinhos nacionais, entre tintos, brancos e espumantes.

Didático e fácil de consultar, o guia organiza os produtores dos três países por cores: azul para a Argentina; verde para o Brasil e bordô para o Chile. Cada produtor é introduzido por um pequeno texto e os vinhos selecionados são empilhados pelo critério de pontuação, com símbolos que indicam seu tipo (branco,  tinto, espumante, rosé ou doce), preço médio e até indicação de boas barganhas. A parte inicial – uma descrição dos vales e vinhedos de cada país e uma descrição das principais varietais e sua melhor combinação com comida – é pura informação, mas o leitor só vai se ater a este conteúdo após folhear as páginas de rankings . Além da já citada lista dos top 50, há outros rankings organizados por variedade de uva e de país. Afinal, concordando ou não, quem resiste a uma lista? O melhor malbec argentino? Noemía; o melhor cabernet sauvignon chileno? Manso de Velasco; o melhor espumante brasileiro?  Chandon Excellence, e por aí vai…

O que a esquerda utópica do final da década de 70 tentou na ideologia Tapia e seus colaboradores conseguiram em um guia, a tal unidade da América Latina, pelo menos no mundo do vinho. Publicado no Chile há treze anos, desde 2008 incluiu no time de degustadores os craques Fabrício Portelli (Argentina) e Jorge Lucki (Brasil). Em um primeiro passo ampliou o leque de opções com garrafas argentinas. Este ano incorporou os produtores brasileiros e o próximo candidato lógico, e anunciado, são os vizinhos uruguaios, que serão incluídos numa próxima edição.

Entre os 50 melhores, 4 brasileiros

DV Catena Zapata

A prova coordenada por Jorge Lucki é feita às cegas – isto é, o rótulo não é mostrado para os degustadores, explica ele no início do guia. Um julgamento desses tem sempre um lado pessoal, mas as listas foram ordenadas seguindo o conhecido critério de pontuação (até 100 pontos), critério este que o próprio Tapia não considera ideal: “As pontuações, muito no fundo, escondem é essa mania ocidental de acreditar que a perfeição existe”, escreve no prefácio, para logo adiante tentar se explicar sobre o  “método Parker” aplicado. “Mas é a única maneira que eu conheço de mostrar a vocês de que vinhos gosto mais, qual prefiro, de até onde vai minha subjetividade neste assunto.” Vamos então ao gosto de Tapia & Cia, extraindo do Descorchados 2010 uma amostra dos onze primeiros colocados. Por que onze? Para registrar o maravilhoso branco chileno Sol de Sol, que tanto aprecio….

1º – Catena Zapata DV Catena Nicasia Vineyard Malbec 2003 – Argentina – importadora Mistral

2º – Caliboro Erasmo Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc 2006 (Maule) – Chile – importadora Casa do Porto

3º – Maycas del Limarí Reserva Especial Syrah 2007 (Limarí) – Chile –Importadora Enoteca Fasano

4º – Ribera del Lago Cabernet-Sauvignon, Merlot 2007 (Colbún) – Chile – Importadora Casa do Porto

5º – Catena Zapata, Nicolas Catena Zapata Malbec 2006 – Argentina – Importadora Mistral.

6º – Casa Marin, Cipreses Vineyard Sauvignon Blanc 2009 (Lo Abarca)– Chile – Importadora Vinea

7º – Concha y Toro, Carmín de Peumo Carmenère 2007 (Peumo) – Chile –  Importadora  VCT

8º – Villard Tanagra Syrah 2007 (Casablanca) – Chile –  Importadora Decanter

9º – Finca La Anita Malbec 2006 – Argentina – Importadora Bodegas de los Andes

10– Morandé, House of Morandé Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc 2006 (Maipo) – Chile– Importadora Carvalhido

11º- Aquitania, Sol de Sol Chardonnay 2007 (Traiguén) – Chile– Importadora Zahil

O jogo é equilibrado. Se entre os primeiros onze colocados o Chile fez mais bonito (8 x 3), na batalha geral dos Andes a Argentina levou 24 posições contra 22 do Chile, restando 4 honrosos lugares ao Brasil.

Pode ser que o bebedor mais requintado sinta falta de ícones chilenos como Almaviva, Chadwick ou Dom Melchor nesta lista. Eles também foram avaliados, fazem parte do guia, claro, mas não chegaram lá… não estão entre os top 50.  Outro ponto que chama a atenção é que a uva syrah está mostrando seu valor em vinhedos chilenos. Isso é muito bom.

Vila Francioni Sauvignon Blanc

Grata surpresa, no entanto, é encontrar quatro produtores nacionais entre os top 50. Surpresa maior é que o rótulo brasileiro melhor colocado no ranking (37º posição) não é um espumante, muito menos um tinto, e sim a branca sauvignon blanc 2009 da Vinícola Villa Francioni, da região de  São Joaquim, em Santa Catarina. Os outros brasileiros classificados sao tintos: 43º Casa Valduga Storia Merlot 2005;  45º Salton Talento 2005; 47º Miolo RAR 2005. Bacana, não?

O melhor das indicações deste guia, porém, é que você vai encontrar tanto os pesos-pesados nas páginas de seus respectivos produtores como muitos dos rótulos do dia a dia que você depara nos supermercados e lojas de vinho – todos devidamente descritos e  pontuados. Enfim um guia pragmático e mais próximo das nossas taças.

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sexta-feira, 7 de maio de 2010 Degustação | 19:25

Como descrever um vinho?

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“As próprias sensações visuais devem traduzir-se imediatamente em pensamento”
Giulio Carlo Argan, critico de arte italiano

O quadro reproduzido acima é do pintor Francês Henri de Toulouse-Lautrec. Trata-se da tela A toalete (1896), atualmente exposta no Musée d’Orsay, em Paris. Como você descreveria esta singela tela? O autor Giulio Carlo Argan, um dos últimos representantes de uma escola crítica que procurava o sentido da arte na sua história, analisava da seguinte maneira:

A Toalete é um quadro no sentido tradicional do termo; nele, porém, cada signo, seja gráfico seja cromático, vale não por si, mas por sua capacidade de transmitir uma energia que logo se comunica com todo o espaço. Impossível isolar uma bela cor, um belo arabesco linear em sua composição densa e animada. O espaço não é profundidade nem tela de projeção: é um plano fugidio, movediço, onde, ao invés de permanecer, as figuras e coisas deslizam (…) A figura não está em primeiro plano (…) A perspectiva tem um desenvolvimento irregular (…) A matéria da cor é parca e árida (…) Não há nenhuma caracterização psicológica explícita nessa figura sem rosto, seu significado humano transparece no modo de sentar no chão (…) Tem-se a impressão que o artista evitou deliberadamente tudo o que atrai a vista, para isolar o que, através dos olhos, penetra e desperta uma reação, uma resposta do pensamento.”

Agora volte ao quadro.  Seria esta a sua descrição do que se passa nesta tela? As pinceladas te provocam esta análise acurada? Estimulam uma resposta do pensamento que, de acordo com o critico, era a pretensão do artista?

Provavelmente não. Mas um olhar atento ao quadro, com algum rigor, com tempo para reflexão e pausa para a imersão vai revelando um detalhe aqui, uma percepção ali e até que a visão de Argan faz algum sentido e pode ser incorporada à sua avaliação pessoal da  tela. Agora, nos aproximamos um pouco da visão do crítico, e também do artista. A bagagem cultural do resenhista e seu olhar treinado permitem, é claro, esta série de ilações que certamente falta aos leigos em artes plásticas para quem o belo é um conceito muitas vezes intraduzível.

O dialeto do vinho

Um paralelo pode ser traçado com o vocabulário usado para descrever os vinhos. Ou pelo menos certos rótulos mais refinados, que pedem uma reflexão mais acurada, uma análise mais profunda. Assim como uma obra de arte pode proporcionar diversas reações, inclusive nenhuma, o vinho também tem sua compreensão em diversos níveis: do mais simples (gostei/não gostei) ao mais elaborado. Compõem esta avaliação a cor, o olfato, o gustativo e a experiência. Este mosaico de sensações provoca as mais variadas elucubrações dos degustadores.

Enrico Bernardo, sommelier consagrado de restaurantes estrelados como George V, de Paris, comenta assim a prova de um Romanée-Conti, um ícone da Borgonha:

“A taça transportou-me a outro mundo. Seu buquet é atraente desde os primeiros segundos. Ele libera instantaneamente o frescor de uma fruta vermelha acidulada, perfumes de bastões de alcaçuz, húmus e erva recentemente cortada. Na boca, o encontro é acanhado, mas muito intrigante em sua mistura de sutileza e profundidade. Os taninos são finos e de uma sedosidade notável.  A safra 1996 confirma a classe natural e a beleza desse terroir único. Uma recordação inesquecível…”

Aqui se repete o fenômeno do crítico de arte. Se por um lado as notas de Enrico Bernardo apartam o neófito do fermentado de uva engarrafado, por outro revelam um profundo respeito à dedicação de um produtor pelo seu trabalho. Um produtor de vinho nada mais é que um profissional que extrai da terra um fruto milenar que macerado e fermentado se transforma em suco alcoólico de uva que revela a força de seu solo, a tipicidade de seu clima e o caráter de sua origem.

Este sentimento de plenitude, expresso nas últimas palavras de Bernardo, é o que une e move tantos seguidores do vinho. A busca de todo apaixonado pela bebida é encontrar o néctar inesquecível, que provoque a mesma reação que a tela de um grande artista: o despertar de uma resposta do pensamento.

A poesia é necessária?

Claro, nem sempre cabe tanto salamaleque para descrever um vinho. Os rótulos mais simples, os tintos e brancos de menos expressão, são como textos do noticiário: precisam ser corretos, bem apurados e honestos, mas nem por isso concorrem a algum prêmio. Mas, não há como negar, é farto o besteirol impresso ou digitalizado com descritivos incompreensíveis até pelo mais calejado bebedor de vinho. É muita poesia para pouca rima. O sempre citado – e criticado – Robert Parker é mestre nas figuras de linguagem rebuscadas, o que dá uma oportunidade e tanto para a sátira desenfreada dos detratores de plantão. Coisas como: cerejas crocantes, groselha sexy, feno empoeirado e folhas outonais caramelizadas são descrições recorrentes nas degustações de Parker e companhia. Quem não estranha?

Outro dia deparei com uma ficha de degustação de uma importadora em que um  determinado tinto espanhol era descrito com uma cor “rubi impenetrável, um aterrorizante equilíbrio e infindável persistência”. Um desavisado que lê uma coisa dessas é até capaz de evitar o vinho.

Direto ao ponto

Mas há deliciosas exceções. O jornalista especializado em gastronomia, Mauro Marcelo Alves, presenciou o seguinte diálogo entre um vendedor de uma adega do Mercado Municipal e seu cliente:

– Este vinho é bom? – pergunta o comprador.

– É o bicho! – indica o vendedor.

– Então embrulha pra mim – decidiu o cliente.

Quem está certo? Creio que tanto o crítico parnasiano que carrega nas tintas como o vendedor pragmático que vai direto ao ponto. A mensagem, afinal, tem vários caminhos para atingir o pensamento do público-alvo, como perceberam Toulouse-Lautrec, Giulio Argan, Robert Parker ou mesmo nosso simpático balconista do Mercado Municipal.

A opção maluco-beleza multimídia

Gary Vaynerchuk, para quem ainda não conhece, é uma espécie de metralhadora giratória da degustação. A velocidade e a quantidade de  aromas e sabores que ele enumera em cada episódio de seus programas de vídeo na web é espantoso.  O TV Wine Library é a versão mais multimídia do discurso da bebida.

No episódio abaixo (frenéticos 30 minutos de discurso), Gary prova uma variedade de produtos (de pipoca a geleias) para demonstrar como é importante treinar o paladar para conseguir identificar certos aromas e sabores em uma taça de vinho. É uma outra maneira de decifrar o vinho: verbalizando-o.

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