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Arquivo de julho, 2010

quinta-feira, 8 de julho de 2010 Nacionais | 18:49

O vinho do padre

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Muita gente se pergunta qual é o vinho usado pelos padres no sacramento da eucaristia, aquele momento da missa em que o religioso ergue o cálice aos céus e celebra o pão como o corpo e o vinho como o sangue de Jesus Cristo, um fenômeno chamado de transubstanciação pela Igreja Católica. Não se trata, claro, de qualquer vinho – muito menos de uma bebida que vá agradar um apreciador de bons tintos. Mas é vinho – chamado sacramental ou canônico –, e segue instruções rígidas do Vaticano.

O artigo de número 50 do documento Redemptionis Sacramentum, lançado em 2004 pelo papa João Paulo II, estabelece: “O vinho que se utiliza na celebração do santo Sacrifício eucarístico deve ser natural, do fruto da videira, puro e dentro da validade, sem mistura de substâncias estranhas. (…) Está totalmente proibido utilizar um vinho de quem se tem dúvida quanto ao seu caráter genuíno ou à sua procedência, pois a Igreja exige certeza sobre as condições necessárias para a validade dos sacramentos. Não se deve admitir sob nenhum pretexto outras bebidas de qualquer gênero, que não constituem uma matéria válida.”

Vinho de missa

O vinho canônico costuma ser uma bebida licorosa e doce que recebe adição de álcool etílico. O elevado teor alcoólico e a grande concentração de açúcar cumprem a função de conservar o produto por mais tempo, já que o vinho tem um consumo lento – um pequeno volume a cada missa -, e precisa durar mais tempo na garrafa.

No Brasil, entre os rótulos mais conhecidos destacam-se o Frei Fabiano e o Vinho Canônico, este último produzido e comercializado pela Vinícola Salton, que começou a vinificar vinhos para missa há mais de 70 anos. Os primeiros exemplares foram feitos sob encomenda de um padre espanhol que solicitou à empresa, localizada em Bento Gonçalves, que produzisse um vinho de missa semelhante ao que ele estava acostumado a usar na Europa (ou seja, mais licoroso e doce ).

O Vinho Canônico da Salton começou a ser feito pela empresa em 1940 e, atualmente, atende a igrejas de todo o país, com autorização da Cúria Metropolitana. São produzidos mais de 300 mil garrafas por ano – 80% são comercializados para as igrejas. O restante pode ser comprado pelo consumidor comum, aquele que aprecia este tipo de vinho mais doce, e custa em torno de R$ 11,00. Para sua vinificação são usadas as variedades moscato (50%), saint-emilion (40%) e isabel (10%), o resultado é um vinho licoroso e rosado com uma graduação alcoólica de 16º GL.

Momento Wikipédia: vinho e cristianismo

Fundamental para o sacramento da eucaristia, o vinho está ligado, desde sua fundação, à história e aos ritos da Igreja Católica. Não é à toa que em sua primeira declaração aos católicos, o papa Bento XVI usou a vinha como metáfora para explicar sua missão na Igreja. “Depois do grande papa João Paulo II, os senhores cardeais me elegeram, um simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor” Muitas são as referências e analogias do vinho no cristianismo. Assim como Jesus, que foi crucificado, morto e ressuscitou no terceiro dia, a videira também remete seu ciclo de vida a uma simbologia do sagrado: ela perde sua folhagem e hiberna no inverno — como se estivesse morta — e renasce na primavera para dar o fruto que será fermentado e transformado em vinho. A Bíblia, não por acaso, é recheada de alusões a esta bebida secular. Noé, logo ao descer no Monte Ararat, plantou uma videira para fazer vinho e embriagar-se. O primeiro milagre de Jesus, segundo os Evangelhos, foi transformar água em vinho em uma festa de casamento em Caná, na Galiléia. Na santa ceia, por fim, Cristo celebra o pão como seu corpo e o vinho como seu sangue – “Este é o cálice da Nova Aliança no meu sangue derramado por vós.” -, ritual que é repetido em toda a missa para celebrar a nova aliança do Senhor com os homens.

Outra aliança que se forma entre a civilização ocidental, o cristianismo e o vinho é histórica, e tem início com a conversão do império romano a esta corrente religiosa. O resultado prático é que grandes e tradicionais produtores do vinho, como a França, Portugal, Espanha e Itália, que sofreram influência do Império Romano, são países de forte tradição cristã. Papas já foram proprietários de grandes vinhedos na França – o mais famoso dele, o Châteauneuf-du-Pape. Os grandes enólogos da idade média eram monges cistercienses que cultivaram os melhores terrenos da Borgonha, que produzem vinhos de alta qualidade até os dias de hoje — Beaune, Pommard, Vosne, Nuits, Corton, Clos de Vougeot — e os cercaram de muros (por isso denominados de “clos”). E ainda é atribuído a um monge beneditino, Don Pérignon, a invenção do Champagne (Faça o teste Nem tudo que borbulha é champanhe )

No Brasil, no princípio era o vinho

A história brasileira também está marcada, desde o descobrimento, pela necessidade do cultivo das videiras em função das missas que os jesuítas celebravam no início da colonização. Carlos Cabral, estudioso sobre o assunto, informa em seu livro Presença do Vinho no Brasil. “Na frota de Cabral se rezava missa todos os dias. Tinha que ter vinho. O Brasil foi colonizado por católicos fervorosos. Para isso era preciso ter vinho sempre. E assim a bebida foi sendo implantada na terra dos tupiniquins.”

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domingo, 4 de julho de 2010 Blog do vinho | 02:32

Na Copa do Mundo deu Riesling 4 X Malbec O

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A Alemanha é uma máquina de produzir vinhos brancos. Na Copa da África do Sul está se revelando uma máquina de fazer gols (4 x 0 contra Austrália; 4 X 1 contra a Inglaterra e 4 x 0 contra a Argentina) e mandar para casa fortes adversários com placar elevado. O técnico Joachim Löw é o maestro da equipe. Ele tem experiência como treinador, é um bom planejador e tem perfil mais contido, ou seja, europeu. A riesling é uva que representa a excelência dos brancos alemães. É uma variedade elegante, mineral, com aromas de petróleo e acidez presente. É também muito versátil e apresenta baixos índices de graduação alcoólica em um mundo cada vez dominado por caldos potentes. Gera tanto vinhos secos como outros de variados graus de doçura, alguns de tomar de joelhos. É a uva queridinha dos enófilos e dos especialistas que consideram alguns exemplares alemães os campeões da taça do mundo do vinho branco. Para o crítico Hugh Johnson, a variedade é singular, com características únicas: “Somente um riesling é capaz de gerar um vinho com intensa consistência com apenas 7,5 graus de teor alcoólico”.

A Argentina é um celeiro de vinhos tintos. Na Copa da África do Sul impressionou nos primeiros jogos e caiu de quatro, literalmente, diante da Alemanha (0 x 4). O técnico Diego Maradona foi comandante e animador do time – uma espécie de parlapatão de terno. Histriônico, beijoqueiro e expansivo, trouxe a força de seu personagem como jogador para o palco do treinador. A malbec é a uva emblemática da Argentina (apesar de ter sua origem na região de Cahors, na França). É uma variedade capaz de produzir tintos jovens e simples ou garrafas mais complexas e raras. Na grande maioria são vinhos muito previsíveis, doces na boca, concentrados e muitas vezes alcoólicos e potentes, um floral evidente ao extremo e certo abuso da madeira – à sua maneira são histriônicos como Maradona. Misturados com outras variedades, trazem boas surpresas. Em vôos-solos, vinificados com cuidado e com o bom uso do barril e da extração, podem ser intensos e profundos e com muita fruta gostosa. Para Nicolás Catena Zapata, talvez o expoente máximo da uva na Argentina, “a malbec de vinhedos de altitude pode atingir um nível excepcional de concentração e complexidade, com sabor doce e maduro no palato e uma textura suave e aveludada”. Uma combinação rara, segundo ele.

Mas nesta semifinal da Copa do Mundo, forçando um paralelo – confesso que oportunista – entre o mundo do vinho e o futebol, a elegância e versatilidade da riesling alemã deu um baile na previsível e fanfarrona malbec argentina. Foi uma disputa de um exemplar de primeira linha da região de Rheingau contra um malbec mais genérico, de rótulo caprichado mas de conteúdo pouco expressivo. A riesling continua e a malbec volta para casa.

Na copa dos vinhos, agora a cepa alemã enfrenta o tempranillo espanhol. Vai ser a disputa da “Potência x Elegância”. Em quem você aposta?

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