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Arquivo de agosto, 2010

segunda-feira, 23 de agosto de 2010 Nacionais | 10:54

Salton completa 100 anos e lança um tinto e um espumante para comemorar

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A Vinícola Salton completa 100 anos no dia 25 de agosto de 2010. Uma empresa brasileira cravar 100 anos de existência já é um ponto fora da curva, uma indústria do vinho em um país sem a tradição na bebida alcançar este feito, então, é um assombro.

Um estudo realizado por uma empresa japonesa, Tokyo Shoko Research, fundada em 1892, pesquisou 1.975,260 cadastros em seu banco de dados e encontrou 21.660 empresas com mais de 100 anos no mundo. Entre elas, há inúmeras vinícolas ainda atuantes, 76 para ser mais exato. Fundada no ano 1000, o Château de Goulaine, localizado no Vale do Loire, é a vinícola mais antiga ainda em funcionamento e a oitava empresa mais antiga da lista. A italiana Ricasoli, de 1141, uma verdadeira dinastia do Chianti na Toscana, é a vigésima da lista. As únicas representantes nacionais são o Banco do Brasil, fundado em 1808, e a distilaria Ypioca, criada em 1846.

A lista pode ser até imprecisa, mas 100 anos, como se vê, merecem festa e pompa. Para comemorar o centenário, dois vinhos foram cuidadosamente elaborados pelo principal enólogo da vinícola, Lucindo Copat. Um tinto e um espumante. O primeiro, o Salton 100 anos, é uma espécie de evolução do Talento, o top de linha da empresa lançado em 2004, um assemblage com 50% de cabernet sauvignon, 40% de merlot e 10% de cabernet franc que permaneceu 16 meses em carvalho novo francês antes de ir para a garrafa. Um tinto intenso, a madeira batendo continência, camadas de frutas, pedindo um decanter ou algum tempo a mais de garrafa. Já o Salton Espumante Nature 100 anos, elaborado pelo método tradicional (champenoise), é composto por 70% de pinot noir e 30% de chardonnay e permaneceu três anos em contato com as leveduras. Resultado: nariz de champanhe, espuma abundante e sabor rico. Top espumante nacional, digno de um selo 100 anos. Se precisasse escolher uma das duas bebidas para brindar, eu ficaria com esta. A 13 mil garrafas dos vinhos, em edição limitada para os padrões da vinícola, estarão à venda a partir de 26 de agosto, um dia após o centenário. O Brandy 100 anos que aparece na foto acima será exclusivo para comemorações da empresa.

Angelo

O vinho Salton consumido hoje guarda poucos laços com 100 anos de tradição. Os produtos atualmente engarrafados na moderna vinícola de Tuiuty, em Bento Gonçalves – as linhas Classic, Volpi, os espumantes Évidence, Reserva Ouro, e os tops Talento, Desejo (tintos) e Virtude (branco) – são fruto de uma revolução dos últimos 10 anos da empresa. Um dos principais engenheiros desta guinada, no entanto, não vai estar presente na festa. Em fevereiro de 2009 o então presidente da empresa, Angelo Salton, em uma dessas trapaças do destino, faleceu, vítima de um infarte fulminante.

Pessoalmente, Angelo lembrava o ator e diretor Orson Welles dos últimos anos. De grande estatura e jeito bonachão, abria um sorriso enorme cada vez que oferecia, com seu vozeirão, uma taça de vinho a quem quer que passasse à sua frente em feiras e degustações: “Este é um espumante da mais alta qualidade, brasileiro, é da Salton. Você vai provar, gostar e comprar mais no supermercado”. Bingo, mais um cliente conquistado. Claro, Angelo não comandava uma ONG, mas uma empresa, e estava comprometido com o crescimento da Salton e a divulgação de seus produtos. Mas fazia isso com um entusiasmo raro.  Em 2006, ele deu uma entrevista a este colunista que revista anos depois traduz o homem e seu projeto. E demonstram uma visão que extrapolou o regionalismo e deu o rumo desses últimos 10 anos da vinícola, que completa 100 anos com boa musculatura. Alguns trechos, abaixo:

Mudança
O foco, a filosofia e a cultura da Salton mudaram nos últimos três anos. O que ajudou muito é que eu mudei muito como presidente da empresa. Eu passei a vivenciar os vinhos junto com enólogos, até hoje faço isso.

A empresa
A Salton tem 94 anos (em 2006). Nós temos uma estrutura de indústria muito forte. O Conhaque Presidente e outros vinhos populares geram um lucro que nos permite investir. É este lucro que bancou a construção da nova adega, em Tuiuty. Você não pode falar em vinhos e espumantes finos devendo no banco.

ABS, Sbav e confrarias
Essas associações estão totalmente ligadas ao mundo do vinho brasileiro. São formadas por especialistas que tomam de 20 a 30 rótulos importados por dia. Eles têm uma boca superior à do enólogo que só toma vinho brasileiro. Por isso eu dizia para o pessoal do Sul: “Respeitem esta turma, vamos aproveitar esta capacidade, esta crítica para nos ajudar.” E foi o que aconteceu nesses anos, com esse tipo de contato.

O choque dos importados
Nós não tínhamos a cobrança de fazer vinhos finos, como o Talento, o mercado não exigia isso. A concorrência do importado fez a indústria se mexer, esta é a verdade. Por que até não ter estes 30 milhões de litros importados, 40 milhões de garrafas, a vinícola brasileira estava meio tranquila.

Vinho popular
A Salton não vai viver só do vinho fino. Ela vai viver também do vinho popular. Mas vamos fazer o melhor popular que tem. Vamos deixar de fazer o Chalise? Vamos cortar as parreiras de uva isabel? Acho que não. Temos um mercado que é o Brasil real. A uva isabel custa 30 centavos e a cabernet sauvignon, 2 reais. O dia que tiver cabernet sauvignon a 30 centavos, a gente corta o resto! Mas vai demorar.

As bandeirinhas
O Volpi nasceu em 2000. Uma idéia que tivemos de trazer um rótulo mais sofisticado. Fizemos um grande lançamento do Salton Volpi Chardonnay, no restaurante D.O.M. A Salton começou ali a engatinhar rumo às coisas mais refinadas.

O caminho para chegar aos restaurantes
Atualmente eu não admito um restaurante em São Paulo que não tenha vinho Salton. O Talento, por exemplo, está na carta de vinhos dos melhores restaurantes da cidade. Mas no começo, há quatro anos, foi um processo lento. Fui visitar o Fasano umas oito vezes até convencer o sommelier da casa, Manoel Beato, que o nosso vinho tinha qualidade para entrar na carta de vinhos do restaurante.

Enochatos
Se o cara começa a descrever cheiro de borracha queimada e aroma de frutas exóticas que ninguém conhece fora do meio dele, pode passar por ridículo. É o risco. De vez em quando eu escuto umas pessoas comentar as características de um vinho, e falo: “Olha, eu não estou sentido nada disso.” Aí tem um pouquinho de marketing de quem faz o show.

Degustação
Eu sei que eu não sou um grande degustador. Mas hoje o meu padrão está com o Salton Talento. Se eu provo um vinho inferior, do dia-a-dia, já noto que falta tipicidade, aroma, intensidade. Estou também virando um chato…

Os 100 anos sem Angelo, mas com seu legado

A ausência de Angelo ao brinde dos 100 anos da Salton provoca um travo amargo. Afinal, a finitude inesperada é uma dessas armadilhas que interrompem uma vida cheia de expectativas. Mas também pode ser encarada com um último recado do empresário que dedicou 28 anos de sua carreira profissional à Salton e que nos últimos anos defendia o crescimento do mercado do vinho nacional pela qualificação do produto – sem perder o olho no mercado de grande volume. Ele não vai estar na festa, uma pena, mas seus vinhos sobreviveram a sua marcante personalidade. Missão cumprida.

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Angelo Salton 1952-2009

Vinho canônico

Bons, básicos, baratos e brasileiros

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sexta-feira, 20 de agosto de 2010 Nacionais | 18:03

#enche a taça Galvão!

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Galvão Bueno ao lado da mulher e do humorista e apresentador Jô Soares: de taça cheia e rindo à toa

Bueno Paralelo 31 é o vinho do Galvão, o locutor mais assistido e comentado da TV brasileira e agora do twitter. Ok, isso não é notícia. Este Blog mesmo relatou o lançamento da vinícola na Expovinis em nota de 29 de abril deste ano. A novidade é que as garrafas já estão à venda no site da Miolo, parceira de Galvão, e disponíveis em  restaurantes e lojas de vinho. Ou seja, agora os apreciadores podem discutir o vinho, e não o personagem. São 14.000 garrafas comercializadas nesta temporada.

A Bueno Bellavista Estate (bacana, hein?) ainda é um projeto. O terreno, localizado na Campanha Gaúcha, vizinha das parreiras de outro projeto da família Miolo, a Seival Estate (opa!), ainda está em sua primeira infância. As parreiras têm seu tempo de maturação. Demoram cerca de cinco anos para começar a dar frutos em condições de fermentar e virar vinho. Mas Galvão Bueno é acelerado. E os primeiros vinhos da sua empreitada são dos terrenos vizinhos do Seival, no caso do tinto, e do Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha, para o espumante Bueno Cuvée Prestige. Nestas primeiras safras a assinatura no rótulo é do Galvão, mas as uvas ainda são de terceiros.

#enche a taça Galvão

Galvão Bueno não se incomoda com o sucesso. Se alimenta dele e é feliz com isso, o que é raro em um país em que o sucesso é motivo de desgosto em público e júbilo no particular. Discorre sobre seu vinho com paixão. Não comemora como um gol, mas narra como uma boa partida, e deixa claro que entrou com o coração. Os enólogos (Adriano Miolo e Michel Rolland) com a técnica e o conhecimento. Ergue a taça, fala de um produto com alma e lança o conceito do paralelo 31 do vinho nacional – aquela mesma faixa do globo em que brilham algumas regiões vitivinícolas da Austrália, da Nova Zelândia, da África do Sul, da Argentina e do Chile. Uma estratégia mirando o mercado exterior. Galvão vive parte de seu tempo em Mônaco, e pretende levar seus rótulos embaixo do braço para mostrar para seus amigos em restaurantes estrelados que frequenta na Europa.

E, para aqueles que julgam o vinho baseado em opiniões preconcebidas, este blog pode decepcionar. Degustado agora com mais vagar, em um restaurante, sem a pressa das feiras e alguns meses a mais na garrafa, o Paralelo 31 surpreendeu mais do que da primeira vez. O padrão da dupla Adriano/Rolland se confirma (ver nota anterior), e a escolha por um assemblage não muito habitual por aqui – mistura das uvas cabernet sauvignon (60%), merlot (30%) e petit verdot (30%) –  mostrou seu valor na taça.

Classudo como um bom assemblage tem de ser, com um tostado bacana, frutas maduras e macio na boca, é um bom representante da região. Não sobrou na taça, critério número um de aceitação. Confesso que os tintos da Miolo da região do Seival são os que mais me atraem, em especial o rótulo Castas Portuguesas. O espumante é correto, passa 18 meses em contato com as leveduras, conferindo mais consistência de boca e alguma elegância, mas não se distingue – é muito parecido com outra linha da Miolo. Na mesma faixa de preço, atende uma visão mercadológica da Bueno Estate, o tal mercado externo.

Um sauvignon blanc no ano que vem

Galvão enche a taça, todos à sua volta fazem o mesmo, e já anuncia que no próximo ano o sonho é produzir um sauvignon blanc com a mesma qualidade dos países do paralelo 31, mirando em especial os rótulos dos brancos da Nova Zelândia e da África do Sul. Sugere o uso da barrica. Faz uma consulta aos jornalistas e críticos à sua volta. Todos votam em um branco sem uso da madeira (incluindo o enólogo e sócio Adriano Miolo). Adriano adianta que a safra do ano que vem do Paralelo tinto terá maior participação da petit verdot, que mostrou qualidade excepcional. Galvão concorda e sugere diminuir um pouco mais o cabernet para aumentar a proporção da petit verdot. O negócio do vinho entrou de vez na vida do locutor.

Celebridades não são novidade no mundo do vinho, os exemplos são muitos ao redor do planeta dos ricos e famosos. Alguns realizam um sonho, caso do Galvão – que confessou que não tinha muita intimidade com os caldos nacionais, mas agora defende até a questão dos tributos protecionistas -, do cineasta Francis Ford Coppola  e do ator Gérard Depardieu -, outros emprestam o nome como mais uma oportunidade de ganhar dinheiro. Para o negócio do vinho, é mídia espontânea – olha eu aqui falando do Bueno Estate – e expansão de marca e de mercado. Para o consumidor, uma isca para se aproximar dos tintos e brancos. Aos conhecedores e bebedores com maior litragem, a oportunidade de enfim fazer a prova da taça. E aí sim, julgar o vinho pela degustação, pelo gosto.

Depois de fazer furor no twitter, Galvão corre o risco de frequentar a rede social mais ligada ao vinho com novas rashtags: #enche a taça a galvao para aqueles que gostaram do vinho ou manter o #cala a boca galvao no topo se o julgamento continuar negativo. O veredito, como sempre, é do cliente.

# baixa o preço Galvão

Bom, mas aí chega a hora de pagar a conta. O Parelelo 31 deve chegar entre 80 a 100 reais para o consumidor final nas lojas e um pouco mais barato se encomendado direto na vinícola em caixas de seis garrafas. É aí que começam as comparacões por similares importados do mesmo preço. Talvez seja o caso de criar uma terceira rashtag no twitter: # baixa o preço Galvao

Bueno Paralelo 31 Safra, 2008, Campanha, Rio Grande do Sul
60% cabernet sauvignon, 30% merlot, 10% petit verdot
1 ano de barril de carvalho
R$ 75,00 no site da miolo (seis garrafas)

Bueno Cuvée Prestige, Vale dos Vinhedos Rio Grande do Sul
50% chardonnay, 50% pinot noir
18 meses sobre ação leveduras
R$ 59,00 no site da miolo (seis garrafas)

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terça-feira, 17 de agosto de 2010 Nacionais | 11:45

O merlot brasileiro é o melhor do mundo?

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No dia 5 de março de 2008 quarenta degustadores se reuniram na Embaixada Brasileira de Londres para uma prova às cegas de 27 vinhos da uva merlot.  Dezessete garrafas eram brasileiras e outras dez representavam outras regiões do mundo. O critério de escolha foi o preço dos exemplares no mercado inglês no período, entre 15 e 45 reais.

O grupo de provadores era da maior competência, quinze deles ostentavam o diploma de Master of Wine – um titulo só concedido após exaustivos e rigorosos testes de conhecimento. Apenas 280 profissionais em todo o mundo têm este privilégio, o paranaense Dirceu Vianna Junior é um eles – e o único  brasileiro. O restante do grupo era composto de jornalistas especializados, sommeliers, enólogos e negociantes do mercado inglês de vinho. A prova era parte fundamental da tese de Dirceu Vianna. Seu objetivo era responder à seguinte questão: os vinhos nacionais do Vale dos Vinhedos poderiam competir num ambiente tão disputado como o mercado inglês?

O ranking de Londres
O resultado foi muito favorável ao vinho brasileiro. Os tintos verde-amarelos ficaram à frente de rótulos conhecidos – e de valor similar em Londres – do Chile, da Itália e da França! “Foi uma surpresa”, contou Dirceu Vianna, que reside e trabalha em Londres, ao Blog do Vinho. “O meu objetivo era de que um ou talvez dois vinhos brasileiros se saíssem bem e demonstrassem o potencial da região.” A partir daí o que era para ser um estudo sobre a viabilidade do vinho nacional no mercado britânico tornou-se em peça de propaganda do merlot nacional. A associação que representa o Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha, no estado do Rio Grande do Sul, divulgou os resultados com estardalhaço, com a seguinte pegada: “Ranking dos 10 melhores merlot do mundo tem oito vinhos brasileiros”. Curioso? Eis o ranking:

Miolo Teroir1º Miolo Merlot Terroir 2005 – Brasil
2º Thelema Merlot 2005 – África do Sul
3º Pizzato Single Vineyard Merlot 2005- Brasil
4º Vallontano Merlot Reserva 2005 – Brasil
5º Concha Y Toro Casillero del Diablo Merlot 2006 – Chile
6º Larentis Reserva Especial Merlot 2004 – Brasil
7º Don Laurindo Merlot Reserva 2005 – Brasil
8º Cavalleri Pecato Merlot Reserva 2005 – Brasil

9º Michelle Carraro Merlot 2005 – Brasil
10º Milantino Merlot Reserva 2004 – Brasil

Completam a lista os seguintes rótulos – alguns bem conhecidos do consumidor nacional

11º Capucho Merlot Ribatejo, Portugal
12º Planeta Merlot 2004, Itália
13º Montana Merlot Reserva 2005, Nova Zelândia
14º Berri States Merlot 2006, Austrália
15º Norton Barrel Select Merlot 2004, Argentina
16º Gallo Merlot 2004, Estados Unidos
17º Reserve Mouton Cadet St Émillion 2005, France

Nota: só entraram na avaliação merlots da regiões delimitada do Vale dos Vinhedos. Rótulos como por exemplo da Vinícola Salton ou da região de Santa Catarina ou de  Pernambuco ficaram de fora.

Os melhores merlot do mundo?
Palmas para a evolução do vinho nacional. Mas será que esta degustação pode nos colocar no patamar dos melhores do mundo? Com a palavra Dirceu Vianna, o autor do projeto: “É legal comunicar os aspectos positivos desse estudo, pois a indústria realmente deveria orgulhar-se disso, mas por outro lado a outra metade dos produtores ficaram entre os últimos dez no ranking”. Well, o que é bom a gente mostra, o que não é a gente esconde, não é mesmo? “Comprar um vinho produzido nessa região, para quem não conhece, ainda é  arriscado, pois não há consistência de um produtor a outro”, alerta Vianna.

O que o estudo conclui, e isso é muito bom, mas está longe de colocar o merlot nacional no pódio mundial, é que é “os vinhos brasileiros são capazes de competir em termos de qualidade com outros países no mercado britânico”. O estudo relativiza, porém, os resultados: “Levando-se em conta a proporção de vinhos do Brasil e do resto do mundo provados na degustação, os oito melhores colocados representam 47% do total  de rótulos nacionais contra 20% de exemplares de outros países”. Vale lembrar ainda que na avaliação geral, nenhum rótulo foi considerado excepcional (outstanding) pelos degustadores. Ou seja, a qualidade geral não era de recordistas mundiais, mas de medalhistas regionais, até pelo corte de preço.

Avaliação detalhada
O fundamentado estudo de Vianna contou ainda com uma avaliação técnica da degustação que revelou tanto as qualidades como as fragilidades do produto nacional. Alguns pontos  levantados pelo estudo:

1. Pelo menos quatro vinícolas produzem vinhos de boa qualidade.

2. Os vinhos  foram considerados de boa estrutura, altos níveis de acidez e álcool moderado. São fáceis de beber, sem excesso de frutas, e complexidade moderada, mais semelhante a um estilo europeu do que do novo mundo. (Comentário deste Blog: O que demonstra que temos uma identidade, que merece ser respeitada pelos vinicultores…)

3. Altos níveis de acidez foram detectados na maioria dos exemplares.  Em alguns casos a acidez foi avaliada como refrescante e balanceada. Na sua maioria, porém, foi considerada excessivamente elevada.

4. Na média foi apontado um mau uso da barrica, com problemas de higiene, qualidade da madeira ou ainda detectado excesso de exposição do vinho aos seus efeitos.  O uso da madeira no atual estágio da viniculura nacional foi comparado ao dos vinhos da Rioja (Espanha) e de Chianti (Itália) de vinte anos atrás.

5. o estudo identificou sete pontos principais que merecem a atenção dos produtores do Vale dos Vinhedos: escurecimento precoce do vinho, falta de maturação e  pouca concentração de fruta, elevados índices de acidez, problemas de manuseio de sulfito, excesso de extração e mau uso de barricas.

Por que merlot e não espumantes?
Cabe a pergunta, certo? Nossos espumantes afinal não conquistam medalhas para lá e para cá em diversos concursos internacionais? Para Vianna a decisão foi pragmática: “Haviam duas alternativas: fazer algo relacionado aos vinhos espumantes ou vinhos da variedade merlot. Como o consumidor brasileiro parece ter preferência por tintos, e também pelos benefícios à saúde, decidi seguir esse caminho.” Vale acrescentar que a merlot é a uva mais plantada entre as variedades de vitis vinifera do Vale dos Vinhedos (dados da Aprovale, 2008)

Merlot  112,5 ha
Cabernet Sauvignon 106, 3 ha
Cabernet Franc 42,2 ha
Chardonnay   31,4 ha
Riesling Itálico 26 ha
Tannat  24 ha

A escolha da merlot significa que esta é a uva com maior potencial no Brasil?
Muitos enólogos e entendidos apostam na merlot como “a uva” nacional, incluindo o consultor globalizado Michel Rolland. Mais uma vez, Vianna pondera: “Eu acho que essa resposta vai levar décadas para  ser respondida com convicção”. E em seguida coloca o dedo na ferida: “Se o produtor tiver força de vontade, determinação e disciplina eu acho que é possível fazer vinhos de boa qualidade, mas eles devem diminuir o rendimento para no máximo 1.5 quilo por planta”. Vianna, no entanto, identificou dificuldades no processo após visitar grande parte dos produtores em três longas viagens ao Vale do Vinhedos. “Não é fácil mudar a mentalidade dos produtores nesse sentido”.

Noves fora?
O estudo de Dirceu Vianna traz uma ótima notícia para o vinho nacional, mas o caminho ainda é longo, exige investimentos e mudança de mentalidade. Mesmo superando rótulos conhecidos do Chile e da Argentina na tabulação final da degustação, Vianna acha  difícil, por exemplo, o vinho brasileiro conseguir disputar de igual para igual o mercado internacional – e seu estudo tinha este objetivo, avaliar as possibilidades de nosso produto no mercado inglês, é sempre bom lembrar. “Tanto o Chile quanto a Argentina avançaram a passos largos nas últimas duas décadas. Um dos motivos foi a ajuda de consultores com experiência internacional. As vinícolas brasileiras deveriam seguir o exemplo – a Miolo é uma exceção. Eu não sei se é timidez, arrogância ou o fato de não querer investir, mas de qualquer forma é uma falsa economia”. A avaliação é seguida de uma previsão. Vianna não tem dúvidas: “Eu tenho certeza que o mercado de vinho no Brasil vai crescer muito nos próximos anos.”

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domingo, 1 de agosto de 2010 Harmonização | 16:30

Como escolher um vinho em um restaurante, mesmo sem entender muito do assunto

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Jamais perca o sorriso diante da carta de vinhos

O sommelier, o maitre ou mesmo o garçom chega com o menu aberto, se coloca à sua frente e pergunta à queima-roupa: “Gostaria de escolher um vinho?”

Se você conhece e aprecia tintos e brancos, problema zero. A carta de vinhos é um catálogo dos rótulos à sua disposição na adega – a escolha é uma conseqüência de seu conhecimento e uma tradução de seu desejo naquele momento. O problema é que, para a maioria dos pobres mortais, este cardápio de rótulos traz mais desconforto do que orientação.

A reação mais comum é abrir aquele sorriso amarelo e admitir humildemente que não entende nada de vinho. Ok, os profissionais estão aí para aconselhar e orientar sua escolha. Mas se a ocasião for um almoço de negócios você não vai querer  mostrar ignorância diante de seu convidado; se for um jantar romântico, a escolha de um bom vinho é um ingrediente a mais na sedução de sua (ou seu) parceira(o).

As cartas de vinho, assim como a crase, não estão aí para intimidar ninguém. Basta saber a forma correta de usá-las. O Blog do Vinho reuniu algumas sugestões para ajudar os neófitos a se dar bem diante de seus convidados Afinal, escolher o vinho ideal para a refeição de negócios ou aquele encontro amoroso também é uma forma de valorizar o momento.

Quer pagar quanto? – Primeira regra de ouro. Estabeleça um limite de gasto. Nem tão barato que pareça avareza nem tão caro que comprometa o orçamento e soe elitista. Mas não seja tão rigoroso, muitas vezes um pequeno acréscimo de dez ou vinte reais pode mudar de patamar a qualidade do rótulo selecionado. Tenha em mente porém que o preço nos restaurantes tem uma boa margem em relação à etiqueta das lojas e importadoras. Portanto, não fique reclamando para seu convidado dos valores da carta e nem comparando com o preço da prateleira. É, no mínimo, deselegante.

Não tenha pressa – Alguns garçons e sommeliers devem cronometrar, por puro sadismo, o tempo entre a entrega da carta e o pedido do vinho. Em geral, o tempo não é suficiente nem para você passar da primeira página do menu, lembrando que alguns cardápios são praticamente da mesma espessura dos catálogos das importadoras. Para escapar desta arapuca, reaja com calma e explique que antes de selecionar o rótulo vai escolher os pratos. Ponto a seu favor. o fato de demonstrar que se preocupa em harmonizar a comida com o vinho mostra que você tem alguma intimidade com o assunto, mesmo que seja um blefe.

Há cartas e cartas – Dependendo da carta de vinhos, há ums estratégia diferente de seleção. As que mais intimidam os consumidores são aquelas que simplesmente listam os rótulos, organizando no máximo por país. Não há qualquer dica. Outras classificam os vinhos como leves, médios ou potentes. Algumas, mais didáticas ainda, descrevem as características do produtor, da uva e do vinho e ainda propõem harmonizações. Uma mão na roda numa situação de embaraço.

RP, WS, Tre Bicchieri – Desconfie das rótulos com pontuações dos críticos em destaque. Um vinho com 95 RP (Robert Parker) ou 94 WS (Wine Spectator) ou com distinção no guia italiano Gambero Rosso são garantia de qualidade (nem sempre, vai), mas geralmente custam os olhos da cara. Afinal,  o primeiro efeito de uma boa pontuação destes übercriticos é a inflação do preço, geralmente desproporcional à qualidade a mais que distinção entrega.

Mostre que vai combinar vinho e comida

Tinto ou branco? – Pergunte ao seu convidado se prefere um tinto ou um branco. Antes de cometer alguma heresia, no entanto, siga algumas regras básicas: se estiver numa churrascaria, pule esta parte e encare logo a lista dos tintos. Se o restaurante for de pescados, o branco é quase uma obrigação. Massas italianas regadas a molhos vermelhos também pedem um tinto, de preferência não muito potente. Por fim, indague se tem predileção por algum país. Se o seu interlocutor tiver uma preferência, já dá para separar alguns rótulos da lista.

Não se arrisque – Este não é o momento de buscar novidades. Concentre sua atenção em rótulos mais conhecidos, em uvas internacionais. Lembre-se, seu objetivo não é surpreender, é não errar. Prefira as variedades tradicionais e mais conhecidas. A chance de acertar o paladar do seu convidado é tanto maior se você navegar por uvas do tipo blockbuster. Tintos? Cabernet sauvignon, merlot, carmenère (para os chilienos) e malbec (para os argentinos) – estes dois últimos fazem sucesso entre os consumidores brasileiros. Brancas? Chardonnay e sauvignon blanc, e olhe lá. Deixe para se arriscar entre amigos ou em outro tipo de ocasião.

Vinhos portugueses em restaurantes idem – Soa meio óbvio, mas em um restaurante especializado na culinária de algum país, escolha um vinho daquela região do mundo. Numa casa especializada em  bacalhau, por exemplo, a chance de a carta ter uma boa variedade de rótulos portugueses é maior. É a escolha por afinidade, mesmo ferindo a regra anterior das uvas conhecidas, ou você é doutor em antão vaz, baga e touriga nacional, cepas de origem lusitana? A lógica vale para todos os restaurantes especializados: sejam eles franceses, portugueses ou italianos de alta gastronomia. Nem sempre funciona, porém. Em pizzarias e cantinas italianas é mais comum a lista de vinhos ser repleta de opções chilenas e argentinas por conta da variedade e preço. Aí vale a equação uvas mais conhecidas X valor.

Barato pode sair caro – Evite o rótulo mais barato da casa, mas se for esta sua opção  não demonstre que este foi o critério. Nunca alardeie que a opção foi pelo menor preço. Justifique sua indicação com rasgos e elogios ao produtor, ao país, à uva ou à harmonização desejada. Se não der certo, culpe a safra. Se o vinho agradar, o baixo custo não vai fazer diferença, se for um fiasco, porém, sua sovinice ficará explícita e pode deixá-lo em maus guardanapos…

Recomendação da casa – Fuja da seleção do sommelier ou da adega especial da casa, geralmente destacada na primeira folha da carta de vinhos, muitas vezes com um moldura dourada. São os vinhos mais caros do restaurante e nem sempre combinam com os pratos, muito menos com o seu bolso.

Escolhendo o vinho, afinal – Após escanear a carta, escolher os pratos e fazer uma triagem inicial, concentre-se em dois ou três  rótulos e finalmente aconselhe-se com o sommelier. Você mostra que valoriza o conhecimento do profissional, mas também demonstra que sabe o que quer e quanto está disposto a pagar. Mas não peça para ele escolher o vinho, mas sim para discorrer sobre as características de cada rótulo e apontar qual seria o mais adequada para aquela ocasião. Aí sim, aceite sua recomendação. E ao provar o primeiro gole mantenha o estilo. Gostando ou não do vinho, confirme a escolha com uma simples manear de cabeça e uma frase curta: “Está ótimo!”. E sorria.

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