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Arquivo de outubro, 2010

sexta-feira, 29 de outubro de 2010 Blog do vinho | 10:03

E se Serra e Dilma fossem um vinho…

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Os vinhos José Serra e Dilma Roussef. Qual será desarrolhado no dia 31 pelos eleitores?

No próximo domingo, dia 31 de outubro de 2010, as eleições presidenciais chegam ao fim. A campanha que começou dia 6 de julho termina com a escolha binária entre candidatos com propostas distintas: Dilma Roussef, do PT, e José Serra, do PSDB. Assim como os vinhos, ambos têm características e estilos diferentes.

O vinho não fez parte do programa eleitoral de nenhum partido, muito menos foi tema dos debate nas TVs.  A bebida só apareceu, como coadjuvante, no episódio da torção do pé da petista Dilma Roussef e em um twitter de José Serra. Segundo a Folha de São Paulo, na noite do entorse da ex-ministra, ela e sua equipe apreciaram uma garrafa do Château Puycarpin, um tinto de corpo médio e preço idem da região de Bordeaux, na França. (Perto do Romaneé-Conti que celebrou a vitória do primeiro mandato do presidente Lula,  não mereceu mesmo grande destaque.) Já o candidato José Serra, do PSDB, registrou em seu twitter a visita que fez a Caxias do Sul no dia 6 de março deste ano, antes portanto do lançamento oficial da campanha: “Comi uva, bebi vinho e muito suco, o melhor q já provei, 100% natural. Ah, e ganhei uma rosa de uma moça bonita.” Nada mais se falou sobre o assunto.

O rótulo dos candidatos

Para aqueles que ainda estão em dúvida, o iG preparou um teste que permite identificar qual candidato defende propostas mais parecidas com as suas. Se você já fez o teste e mesmo assim não decidiu seu candidato, ou a política não foi suficiente para definir seu voto, este blog sugere uma escolha pelo vinho. Cada candidato foi a associado a um estilo de  tinto conhecido. Se você já tem um candidato ou um  estilo de vinho preferido veja se eles se encaixam na brincadeira proposta aqui. Confira abaixo como seriam os rótulos Dilma e Serra.

Dilma
Safra 1947

Se a candidata do PT, Dilma Roussef, fosse um vinho, seria um daqueles malbecs típicos da Argentina, um legítimo representante do estilo novo mundo. A fruta madura, aromas intensos, doce na boca, fácil de beber. Os rótulos são modernos e atraentes – tudo é minuciosamente pensado e fabricado para agradar o consumidor recém-chegado ao mundo do vinho. A malbec é uma uva que suporta bem tanto o calor como o tempo árido, características da região onde é cultivada, e é  uma estrela em ascensão no mundo do vinho. No passado não era protagonista, mas acabou atravessando o caminho das cepas mais tradicionais da Argentina, como a italiana bonarda, e as tradicionais cabernet sauvignon e merlot, e se firmou como a principal uva daquele pais. Segundo o Guia de Vinhos Descorchados, de Patricio Tapas, o malbec “é um vinho mais para beber (quando sai no mercado) que para guardar”.  Para muitos especialistas melhora quando combinado com outras uvas. Harmonização: acompanha bem lula a su tinta.

Serra
Safra 1942

Se o candidato do PSDB, José Serra, fosse um vinho, seria o italiano Brunello di Motalcino: é um tinto com estrutura firme, encorpado, persistente, com taninos duros de domar, que precisa de tempo para amaciar e desenvolver os aromas. O Brunello tem uma personalidade forte e é resultado da vinificação de uma só variedade, que não divide a garrafa com outras uvas: é 100% sangiovese. Sua história remete ao século XIX, ou seja tem um passado bastante rico. É um clássico entre os especialistas e tem uma legião de fãs que não trocam este estilo que evolui muito bem com o tempo por outro tipo de vinho, de consumo mais rápido. O especialista Robert Parker recomenda que a escolha de um Brunello di Montalcino deve privilegiar o produtor, em detrimento da safra. Harmonização: bom parceiro de carnes vermelhas e aves de sabor mais acentuado. Recomenda-se decantar antes de beber.

Vote sóbrio

Agora a decisão é sua. E lembre-se: se for votar, não beba. Abra a garrafa na volta… para comemorar a vitória do seu candidato ou esquecer a derrota do seu favorito.

Qual vinho melhor representa Dilma e Serra?

Se você discorda da escolha do estilo de vinho selecionado pelo Blog do Vinho para cada candidato, envie sua sugestão na área de comentários.

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terça-feira, 19 de outubro de 2010 Degustação | 13:00

Vinhos importados de 12, 13 e 18 reais. Baratos. Mas será que são bons?

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A prova doméstica. Vale a pena escolher um vinho importado só pelo preço baixo?

Alguns blogs (incluindo este), sites e revistas especializadas tratam muito de vinhos consagrados, premiados e bem pontuados. Ou então as novidades ou raridades que são objeto de desejo dos amantes da bebida. Mas raramente o foco é o vinho que os consumidores acabam adquirindo pelo critério do valor da etiqueta, para o dia-a-dia.

Um passeio pelos corredores dos hipermercados, no entanto, mostra pilhas de garrafas em oferta de rótulos que a maioria dos especialistas desconhecem, desdenham mas o povo compra. As garrafas de grande volume são a base da pirâmide do consumo no Brasil. Rótulos do Chile e Argentina entram rasgando nesta, digamos, janela de oportunidade do negócio do vinho; e ainda sobra espaço para uma mordida dos tintos portugueses, espanhóis e italianos.

E aí me ocorreu: por que nunca se fala destes rótulos, já que são eles os mais consumidos? Preconceito, falta de curiosidade, de coragem? Este Blog do Vinho resolveu encarar o desafio e conferir se o resultado na taça compensa a economia no bolso no caso de alguns rótulos de grande apelo de preço – isso, claro, sempre do ponto de vista de quem aprecia a coisa. Sempre lembrando que o corte deste Blog é o vinho fino, a bebida de garrafão é outra história (leia aqui).

Passeando casualmente em uma loja de um grande supermercado topei com o cenário descrito acima: grandes lotes de tintos de preços baixos e enorme exposição. Selecionei quatro rótulos de 12, 13 e 18 reais, aqueles com maior número de garrafas. Dois do Chile, um da Argentina e outro de Portugal, respectivamente. Nunca havia provado nenhum deles nem tinha qualquer referência.

Confesso porém que sou partidário do aforismo: “A vida é muito curta para beber vinho ruim”, e fui adiando a prova. Mas se não bebê-los, como sabê-lo?  Em um fim de semana, enfileirei as garrafas, despejei os tintos em taças apropriadas, uma ao lado do outra, e provei os caldos. Por 55 reais, o preço de um vinho de padrão médio (nacional e importado) eu tinha à minha disposição 2.250 mililitros de fermentados de uva e uma expectativa – exagerada, convenhamos – de ser surpreendido.

A prova

Chiloe 2008 – R$ 12,90
Wine of Chie
Carmenère
Valle Del Maipo
Viña Indomita
Importador: Zaffari
13,5% álcool

Avaliação: RUIM

Ao abrir vem o álcool no nariz, na linha Zulu mesmo. Parece um vinho que não ficou pronto e foi para a garrafa mesmo assim. Herbáceo ao extremo, verde, adstringente. Parece que a gente está mastigando o fim da casca da uva. Taninos tão agressivos que pensei em abrir um BO contra a vinícola na delegacia mais próxima.

Costa Vera 2008 – R$ 11,90
Cabernet sauvignon
Indomita
Valle Del Maipo
Chile
Importador: Zaffari
13,5% álcool

Avaliação: RUIM

Menos álcool no nariz, apesar do desequilíbrio, e mais presente na boca. Uma fruta lá no fundo parece que fica querendo aparecer: “olha eu aqui, olha eu aqui”, mas é difícil achar. Muito curto, some na boca. Os taninos também pegam, mas não com tanta violência. Fica difícil reconhecer a uva cabernet sauvignon. O fim de boca é o fim mesmo.

Bigode 2006 – R$ 17,90
Portugal
Tinta roriz, touriga nacional, alicante bouschet e castelão
Vinho Regional de Lisboa/Estremadura
DFJ Vinhos
Importador: Casa Aragão
12,5% álcool

Avaliação: MEDIANO (melhor com a comida, alguma tipicidade)

O mais caro e mais antigo (safra de 2006) dos quatro rótulos. O único dos quatro que não é varietal (vinho de uma só uva), e sim um assemblage (mistura de uvas). Os quatro anos resultam em uma cor mais evoluída e menos fechada. Um toque de fruta vermelha, os sabores das uvas portuguesas (quem já provou o Periquita, por exemplo vai notar alguma semelhança), com corpo bem leve. O grau menor de álcool  (12,5º) é perceptível – o que o torna mais gastronômico, mais fácil de beber. Foi declinando com o tempo na taça. Tem alguma tipicidade, que é importante na avaliação de um vinho. Bebi mais um gole um dia depois e ele ainda segurava a onda.

Aberdeen Angus 2009 – R$ 12,90
Malbec
Mendoza
Argentina
Finca Flichman
13% álcool

Avaliação: MEDIANO (o melhor da prova, maior tipicidade)

O mais novo dos rótulos provados. Mostra uma flor fácil no nariz, é doce na boca (típico de tintos do novo mundo, feitos para agradar). Desce mais fácil, agrada quem não exige muito de um vinho, mas tem alguma experiência com a bebida. Passa três meses em barrica e outros três na garrafa, segundo o produtor. Bom para quem quer conhecer algumas características da uva malbec argentina – mesmo com uma pegada mais maquiada – e quer pagar pouco.

Uma segunda opinião

Para não ficar na visão de um “chato” no assunto, pedi para minha mulher provar os quatro vinhos e dar sua opinião. Ela não é especialista, mas tem uma sensibilidade olfativa mais apurada que a minha e bom gosto para os tintos. Odiou o primeiro rótulo no nariz e na boca (“tem um aroma estragado”), procurou alguma característica do cabernet sauvignon no segundo (não encontrou), acho fraco o terceiro, apesar de um toque de alguma fruta e descobriu alguma qualidade no último, principalmente no primeiro impacto no nariz e na boca fácil, mas sem ter o prazer de repetir nenhum gole.

Uma terceira opinião

Para tirar a prova dos noves chamei meu filho mais velho (ele tem 21 anos, antes que me acusem a induzir o consumo de bebida alcoólica a menores de idade), e pedi para ele repetir a operação. Fez uma careta para o primeiro (“horrível”), achou médio o segundo, não gostou do corpo leve do português (“parece aguado”), e também preferiu o malbec argentino, e como resultado atraiu a unanimidade da prova.

Contexto

Importante ressaltar que todos os vinhos têm rótulo até de bom gosto e todos os descritivos informativos do produto: origem, região, nome da vinícola, teor alcoólico, tudo direitinho.  Algumas garrafas até registram descritivos degustativos no contra-rótulo e sugestão de harmonização. Pobre mas limpinho, sabe? Ok, são vinhos de uvas prensadas até o limite, sem muito rigor de seleção de frutas, de terrenos menos nobres, e de grande volume, Não são rótulos para ganhar prêmio, mas para ganhar dinheiro. Muitas vezes são produzidos exclusivamente para um determinado supermercado para venda imediata e não são encontrados em seu país de origem.

De onde a gente menos espera

Claro que não se pode medir o todo por uma amostragem tão pequena. Se a expectativa foi exagerada – sempre sonho em me encantar com um vinho muito barato – a experiência é sempre didática. O fato de a seleção ter sido aleatória creio que aproxima mais o teste do comportamento da maioria dos consumidores. O resultado nem sempre é alvissareiro. Na loteria da escolha só pelo critério do preço, o risco é sempre grande. Vou repetir aqui a frase da minha mulher após se submeter à prova dos quatro rótulos: “De onde a gente menos espera alguma coisa boa é de onde não vem nada mesmo… “

Então fica a dica. Se o critério for preço, os tintos brasileiros bons, baratos e de vinícolas conhecidas (veja nota) são uma opção mais segura.

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segunda-feira, 4 de outubro de 2010 Degustação | 15:38

Bouchonée, o vinho Tiririca, pior que está, fica

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Fórmula do TCA: o vilão

Às vezes acontece. Você retira a rolha com toda cerimônia, anuncia predicados especiais daquele vinho, comenta as pontuações da safra e cria à sua volta uma expectativa positiva. Mas na primeira cafungada vem o estranhamento. O desastre se anuncia. A boca confirma o veredicto: o vinho está com defeito, ou como se diz no jargão do meio, está bouchonée. E vai piorando com o tempo na taça. É o vinho Tiririca, na sua real acepção. Pior que está, fica.

O que é um vinho bouchonée?

Bouchon significa rolha em francês, daí vem o nome. Bouchonée, portanto, é um vinho que foi infectado por fungos que atacam a rolha de cortiça e que contaminam a bebida. O composto tricloranisol, que ataca as rolhas, tem uma estrutura que lembra o esquema tático de um time de futebol: 2,4,6-Trichloroanisole – mas pode chamar de TCA, o estrago é o mesmo. No popular é um vinho com cheiro ruim e gosto intragável.

Quais são suas características?

Um vinho bouchonée, ou rolhado na tradução literal, só é identificado depois de aberto. Ao contrário do que se espera dos bons tintos e brancos, a bebida não melhora na taça. Piora. E atinge com velocidade a sua decrepitude. Trata-se de um vinho que tem um forte cheiro de pano sujo molhado ou pelo de animal na mesma situação. O que, convenhamos, está longe de ser um buquê desejável. O aroma é fácil de reconhecer quando está muito evidente, mas gera uma certa controvérsia em seus estágios iniciais. Na boca, o vinho perde o sabor da fruta, vai morrendo na taça e desenvolve sabores que vão do mofado ao avinagrado.

Não é todo mundo que sabe reconhecer um vinho com defeito – principalmente quando não é tão evidente assim. Os especialistas têm uma espécie de frenesi quando deparam com uma garrafa destas. Trocam impressões, geram discussões, parece que estão avaliando a opção sexual do vinho: será que é ou não é? O tempo, sempre, é o senhor da razão. Na dúvida, deixe o vinho na taça e se o cheiro e o gosto de mofo aumentar, não há dúvida: é! Mas é pra lá de comum o consumidor nem notar o defeito – ou por que não conhece o vinho ou por que não reconhece o problema –  e manda para dentro mesmo assim.

Quem colocou um pano molhado aqui?

Qual a chance de a minha garrafa estar com problema?

Estudos realizados por algumas revistas especializadas ou mesmo enólogos com longo tempo de estrada, como o francês Michel Rolland, indicam que uma média de 6% das garrafas produzidas apresentam este problema. Em cada megadegustação da revista inglesa Decanter, por exemplo, de 10.000 garrafas abertas espera-se que 5 a 6% estejam afetadas com o problema da rolha. Os produtores de rolha, claro, estimam que não passa de 1% das garrafas. Pensa bem, seria algo como dizer que 6% das telas onde você está lendo este texto não funcionassem ao serem ligadas a primeira vez. É um problema que a indústria do vinho enfrenta de várias maneiras – a troca da rolha de cortiça por modelos sintéticos, de rosca, ou mesmo de vidro é uma delas. Uma higiene mais cuidadosa das adegas é outra. Mas o glamour da cortiça, pelo menos por enquanto, carrega o risco da contaminação.

E se for servido um vinho bouchonée em um restaurante?

Esta é um das raras ocasiões em que não existe discussão. Todo restaurante com um serviço decente de vinho troca sua garrafa sem titubear. Um sommelier bem preparado sabe identificar um vinho com problemas. Claro, existem sensibilidades diferentes para detectar ou não níveis de contaminação do vinho. Mas o vinho com defeito evidente tem de ser trocado pelo estabelecimento. Pode reclamar. Este Tiririca, pelo menos, você não vai ter de engolir! Mas não vale trocar a garrafa por que não gostou da bebida.

Faz mal?

O vinho bouchonée não prejudica a saúde. Não há componentes nocivos ou que tragam más recordações nas horas seguintes a quem consumi-lo. Ele faz mal ao paladar, ao bom gosto e ao bolso mesmo. E dá uma raiva danada quando a garrafa é filho único, o vinho era muito aguardado ou era a última bolacha do pacote. Você abre a garrafa e está bouchonée. Sinto muito, prezado leitor, você acaba de ser brindado com um vinho Tiririca, vai piorar muito ainda…

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