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Arquivo de abril, 2011

terça-feira, 26 de abril de 2011 Degustação | 11:33

Concurso elege os dez melhores vinhos da Expovinis 2011

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Taças na mesa: 156 vinhos depois os Top Ten da Expovinis 2011

Pelo quarto ano consecutivo tive a honra de fazer parte do júri do Top Ten da maior feira de vinhos do Brasil, a Expovinis, que ocorre em São Paulo e chega a sua 15a edição. A feira é um acontecimento no mundo do vinho e despeja quantidades industriais de tintos, brancos, espumantes, doces e rosados nas taças dos visitantes que percorrem seus corredores.

Os homens que cospem vinho se reuniram em uma sexta e um sábado, duas semanas atrás, e com os ouvidos longe do burburinho da feira e com os narizes enfiados nas taças de 156 amostras de vinhos de diversas procedências, tipos e propostas e escolheram os 10 melhores vinhos da feira deste ano.

Na lista abaixo as quatro ou cinco primeiras colocações de cada uma das dez categorias do concurso.

Espumante Nacional

1            Casa Valduga 130 Brut – Bento Gonçalves, Brasil

2            Valmarino & Churchill Champenoise, 2009
3            Aurora Chardonnay Método Charmat
4            Peterlongo Elegance Champenoise Brut

Espumante Importado

1            Cuvée Charles Gardet – Champagne, França

2            Le Marchesine Franciacorta Brut Docg
3            Margot Extra Brut
4            Astoria Prosecco Cartizze
5            Zonin Prosecco Doc

Branco Sauvignon Blanc

1            Casas Del Bosque Pequeñas Producciones Sauvignon Blanc, 2009, Casablanca, Chile

2            Casas Del Toqui Terroir Selection Gran Reserva, 2010
3            Villa Francioni Sauvignon Blanc, 2009
4            Sanjo Núbio Sauvignon Blanc, 2010

Branco Chardonnay

1            Giaconda Nantua Vineyard Chardonnay, 2005 – Victoria, Austrália

2            Monte Agudo Terroir De Altitude Chardonnay, 2008
3            Phillippe Collin Chevalier Montrachet Grand Cru, 2007
4            Salton Virtude Chardonnay, 2008
5            Luiz Argenta Gran Reserva Chardonnay, 2009

Branco Outras Castas

1            Morgado De Sta Catherina Bucelas Reserva Arinto, 2008 – Estremadura, Portugal

2            Casa De Sarmento Maria Gomes, 2008
3            Sanjo Maestrale Integrus, 2008
4            Eral Bravo Urano Torrontés, 2010
5            Herdade Dos Grous Reserva Branco Regional, 2008

Rosado

1            Château De Pourcieux Côtes De Provence, 2010 – Provence, França

2            Chateau De L’escarelle Coteaux Varois En Provence, 2010
3            Domaine De Vignaret Rosé
4            Chateau De L’escarelle Les Belles Bastilles, 2010
5            Chateau Ferrylacombe Cascaii Rosé, 2010

Tinto Nacional

1            Pizzato DNA 99, 2005 – Bento Gonçalves, Brasil

2            Santo Emílio Leopoldo Cabernet Sauvignon Merlot, 2007
3            Viapiana Via 1986 Marselan, 2009
4            Miolo Merlot Terroir, 2008

Tinto Novo Mundo

1            Jim Barry The Mcrae Wood Shiraz, 2005  – Clare Valley, Austrália

2            Undurraga Th Pinot Noir, 2009
3            Spice Route Mourvèdre, 2008
4            Gimenez Rilli Reserva Altamira, 2007
5            Perez Cruz Quelen Special Selection, 2006

Tinto Velho Mundo

1            Roquette & Cazes, 2007 – Douro, Portugal

2            Burgos Porta Mas Sinén Coster, 2006
3            Bodegas Portia Ebeia Roble, 2009
4            Bodegas Portia Prima, 2007
5           Mouchão Colheitas Antigas, 2000

Doce / Fortificado

1            Justino’s 10 Years – Madeira, Portugal

2            Quinta Santa Maria Portento, 2006
3            Meerendal Chenin Blanc Natural Sweet, 2009
4            Dr. Loosen Ürziger Würzharten Riesling Auslese 2008
5            Pericó Ice Wine, 2009

Cada jurado registrou suas notas em um tablet

Como é o Top Ten

Vale aquela explicação anual. Os vinhos que concorrem na degustação do Top Ten da ExpoVinis são aqueles enviados pelos expositores/produtores. Não são exatamente os melhores vinhos da feira. Concorre quem quer. Eles são divididos em uma dezena de categorias e em 2011 teve a seguinte divisão de amostras: espumante nacional (17), espumante importado (7), sauvignon Blanc (4), chardonnay (15), outras uvas brancas (15), rosados (8), tintos nacionais (32), tintos novo mundo (27), tintos velho mundo (23), fortificados e doces (8). As garrafas são ensacadas, numeradas e avaliadas. As notas são registradas no sistema (este ano foi  distribuído um iPad para cada jurado),  somadas e os melhores em cada categoria levam a medalha no peito e saem anunciando por aí. Justo ou não, trata-se de um julgamento coletivo, que é mais preciso que a nota de um só critico. Os jurados só conhecem os rótulos provados no momento da divulgação do resultado. Mas…

Ao vencedor, os releases

… este ano a Exponor, organizadora do evento, resolveu divulgar os resultados para os vencedores com alguma antecedência. Foi uma quebra de regras, estragou a divulgação simultânea e desrespeitou os jurados. A feira internacional de vinho tem um foco maior nos profissionais do vinho do que no consumidor – para este último o horário de visita é limitado entre 18h e 21h. Quem participa de um concurso destes quer um titulo de “o melhor” para chamar de seu e enviar seu release com a vitória. Problema zero, vinho é um negócio como outro qualquer. Mas as mudanças das regras arranha um pouco a tradição do Top Ten.

Resultados nunca serão os mesmos

Se o julgamento fosse realizado com os mesmos vinhos e os mesmos degustadores no fim de semana seguinte o resultado poderia ser diferente? Com toda certeza. Trata-se então de uma loteria? Nem tanto, os homens que cospem vinho tem seus critérios de avaliação, uma biblioteca de sabores e aromas e mesmo a qualidade dos vinhos pode variar de garrafa para garrafa, principalmente em um concurso que a vitória é decidida por frações de pontuação. E nem sempre o néctar é um prazer. Este ano, por exemplo, alguns tintos estavam mais tânicos e duros que em provas anteriores, alguns exemplares o tanino era tão agressivo que quase fui abrir um B.O. (boletim de ocorrência) na delegacia mais próxima. É meus amigos de taças, nem tudo são flores na vida de degustador.

Os culpados pelo resultado

Jorge Carrara (Folha de São Paulo e Prazeres da Mesa),

José Maria Santana (Revista Gosto),

Marcelo Copello (Mar de Vinhos),

Gustavo Andrade de Paulo (ABS – SP, Wine Style),

Gerson Lopes (ABS – MG, Estado de Minas),

Marcio Oliveira (SBAV – MG),

José Luiz Pagliari (SBAV – SP)

Beto Gerosa (Blog do Vinho, iG)

Diogo Arrebola (Sommelier em Campinas)

Jorge Lucki (presidente e organizador)

Onde e quando: Pavilhão Vermelho do Expo Center Norte, nos dias 26, 27e 28 de Abril de 2011. Aberto para o público consumidor nos dias 27 e 28 das 18h às 21h.

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terça-feira, 12 de abril de 2011 Degustação | 20:51

Para que servem as degustações de vinho?

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“A técnica de beber é aprendida, o prazer não se situa no mesmo nível“
Émile Peynaud e Jacques Blouin, em O Gosto do Vinho

Toda vez que você depara com a descrição de um vinho feita por um especialista, com aquele texto cifrado, talvez passe pela cabeça o seguinte questionamento: para que servem as degustações de vinho?

Bom, a degustação de vinhos se situa naquela frágil fronteira do conhecimento que coloca um especialista e um apreciador da mesma bebida em trincheiras opostas. Para o primeiro trata-se de decifrar uma mensagem contida em uma bebida, revelada por sensações olfativas e gustativas e traduzidas em um vocabulário específico. Para o segundo trata-se apenas de uma questão de gosto, de encontrar um vinho que lhe agrade hoje e sempre. Para o degustador, o apreciador deveria prestar mais atenção no que bebe. Para o apreciador eventual, o degustador é uma afetado que não tem mais com o que se preocupar na vida.

É muito comum na área de comentários deste Blog do Vinho manifestações de leitores neste sentido, os exemplos abaixo são uma amostra deste universo

“Que coisa de fresco ficar discutindo isso…vão se preocupar com coisas mais importantes! Ficar falando de harmonização e entre vinho e comida é para quem já desistiu de fazer algo útil na vida!”

“É uma frescura mesmo, bom é beber cerveja, que harmoniza com qualquer comida e com mais cerveja. Coisa de fru-fru ficar vendo cor de vinho”

O critico de bebidas do New York Times, Eric Asimov, radicalizou o discurso em um artigo recente e propôs “uma abordagem simples e eficiente para orientar e libertar o consumidor em suas escolhas”.  Para Asimov  “uma descrição sucinta dos pontos marcantes, como densidade, textura, aroma e sabor podem ser muito mais úteis em determinar se você vai gostar daquela garrafa do que mil outros detalhes.” Pode ser um caminho para conciliar estas duas espécies que apreciam uma boa garrafa de vinho.

Olfato e sabor – as origens da degustação atual

A degustação atual, segundo os autores de O Gosto do Vinho, a bíblia dos degustadores, é uma interpretação de duas correntes francesas na arte da prova de vinhos, ou de uma forma um pouco mais poética, do encontro do humano com o vinho.

A escola de Beaujolais e da Borgonha trouxe o avanço na análise e na descrição olfativa, já que o julgamento é feito com vinhos de uma única variedade: pinot noir para os tintos da Borgonha; gammay para os tintos de Beaujolais  (uma região é extensão da outra) e a chardonnay para os brancos. Portanto, os degustadores dão mais importância à olfação e à persistência aromática.

Já a escola de Bordeaux é mais atenta ao equilíbrio dos sabores e ao volume em boca, pois analisa cepas misturadas, o chamado corte bordalês com as uvas cabernet sauvignon, merlot, cabernet franc, petit verdot e malbec, esta última em menores proporções. Estes vinhos se qualificam pela qualidade dos taninos e da sua estrutura.

Como se sabe, hoje tanto olfato como os sabores em boca são igualmente relevantes na avaliacão de um vinho, ou seja a combinação das duas escolas acabou formando as bases da degustação atual.

Degustação profissional serve para alguma coisa?

Para início de conversa, uma verdade incômoda para os patrulheiros dos homens que cospem vinho (como esta coluna simpaticamente denomina a classe dos provadores). A degustação profissional é necessária, é um elo importante na cadeia da indústria vinífera. Os enólogos e produtores são os primeiros degustadores desta corrente. Eles vão provando os caldos desde o mosto – quando formam a primeira opinião sobre o potencial daquele vinho e de suas uvas – até o momento da seleção de uvas e tempo de maturação nas barricas. É um processo exaustivo e praticamente diário, quase uma degustação reversa, que exige muita técnica e conhecimento. O enólogo tem um vinho ideal desenhado na cabeça. O vinho deve expressar as principais características de sua terra, de sua região e/ou de sua uva.  A degustação visa encontrar este ponto de expressão máxima possível do vinho e sua origem. Na mesma linha de ofício se encontram os técnicos dos países e regiões que exigem certificados de origem para atestar a autenticidade de um vinho.

Mais próximo do nosso dia-a-dia está outro profissional do gosto do vinho: o somellier. Seu leque de ação costuma ser limitado pela carta do restaurante que representa e pelos clientes que pode influenciar de alguma maneira. Mas seu conhecimento geral é importante para garantir uma recomendação adequada.

Por fim, aparecem as estrelas da degustação profissional atual. São os críticos, como o americano Robert Parker (sempre ele), com o poder de elevar o preço de uma garrafa com uma pontuação muito alta ou declarar sua desgraça no mercado com notas abaixo do esperado. Como a pontuação no geral usa a casa da centena, o número mágico que os vendedores começam a exibir nas prateleiras para vender mais um determinado rótulo começa em 90 pontos – você já deve ter visto etiquetas assim em catálogos e lojas -, o resto não interessa muito.

Tem gente que desdenha este modelo, mas produtores de mente aberta, como o revolucionário italiano Ângelo Gaja, reconhecem seu valor. Para Gaja, Parker tem uma enorme importância para a difusão do vinho, pois ao contrario da resenha literária da escola inglesa dominante até o fim do século passado, a escala Parker é quase binária: “Qualquer cretino reconhece que 100 é melhor que 80”, resume. Gaja defende a arte dos artesãos, dos pequenos produtores, dos tintos e brancos de excelência, afinal é um de seus maiores representantes, mas sabe também que o vinho não deixa de ser um negócio.

A sua (e a nossa) degustação

Entre o brucutu que não tem sensibilidade de diferenciar uma garapa de uva de um rótulo mais elaborado e um especialista que traduz suas avaliações em sânscrito e não consegue transmitir conceitos acessíveis ao consumidor existe a degustação de quem simplesmente aprecia vinho, se encanta com sua variedade de uvas e que também foi fisgado pela beleza de uma bebida de sabores ricos, prazerosos e às vezes surpreendentes.

Para quem faz parte deste time (nós?), degustar é a arte de medida e bom senso. Trata-se de um processo de conhecer melhor para apreciar melhor; uma busca pela expressão dos sentidos. É uma delícia falar do vinho que apreciamos, descrevê-lo de alguma maneira, assim como fazemos com naturalidade diante de um prato de comida. O degustador casual busca a memorização do gosto, um aprendizado que só faz sentido se trouxer recompensas sensoriais e até materiais – uma das vantagens de conhecer mais é poder escolher vinhos não tão caros que proporcionem um bom índice de satisfação. É saber comprar pelo vinho e não pelo rótulo premiado e bem pontuado.

Voltando ao início do texto e tentando responder a provocação: para que servem as  degustações? As profissionais para estabelecer critérios de produção, qualidade e consumo. As amadoras para você beber melhor e curtir mais o seu vinho. Sem jamais, no entanto, se transformar em uma caricatura de um conhecedor de vinho, como mostra o vídeo abaixo.

Vídeo do grupo humorístico espanhol Martes y Trece (1978-1997) encontrado nos arquivos do Youtube

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