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Arquivo de outubro, 2011

terça-feira, 25 de outubro de 2011 Tintos, Velho Mundo | 23:31

Um bate-papo com o Sousão

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Éramos três na mesa. Eu, minha mulher e o Sousão. Ao fundo, a noite caindo sobre as parreiras carregadas de frutos, espalhadas em terraços talhados à mão por gerações de vinicultores do Douro, região histórica de vinhedos de Portugal, declarada Patrimônio da Humanidade pela ONU.

Sousão foi apresentado em uma degustação de vários rótulos por um jovem administrador da Quinta do Vallado, uma vinícola encravada no coração da região de Peso da Régua, mais especificamente junto ao Rio Corgo, afluente do Douro, e conquistou com seu papo diferente e personalidade forte. Tanto é que permaneceu conosco no jantar.

Sousão entretanto não é uma pessoa, como pode sugerir seu nome, mas sim uma uva típica do Douro e do Minho e também o título do rótulo monovarietal (de uma só variedade) que a Quinta do Vallado produz desta especialidade. Aliás, os nomes das uvas portuguesas sempre merecem um comentário adicional. A sousão, por exemplo, também atende pelo nome de: sousão forte, sousão de Correr, negrão de pé de perdiz, tinto antigo, espadeiro preto entre outros.

Mas não é preciso estar embriagado para conversar com uma garrafa de vinho, não é mesmo? Quem aprecia o produto está em constante conversa com os caldos. O papo com o sousão foi uma troca de impressões sobre sabores, aromas e sensações do vinho.

A uva e seus sabores

Quinta do Vallado Sousão 2008

O sousão é uma variedade muito utilizada na região do Douro na produção do vinho do Porto, mas pouco comercializada em carreira-solo. Foi minha primeira experiência com a uva que começou surpreendendo pela cor – quase negra e impenetrável. Fez bonito no aroma (aquele perfume meio indecifrável que no jargão do vinho é traduzida como frutas negras, um toque de tabaco, a baunilha da madeira, tudo muito sedutor). A boca é ampla, potente, com final longo e confirmando a experiência do nariz nas frutas negras, estes jargões que os homens que cospem vinho usam para descrever um sabor. Pra mim, agora, existe o gosto e o aroma do sousão, que vou saber identificar sempre que deparar com um exemplar na taça, assim como existe o gosto e aroma da pinot noir e outras tantas variedades de uva. O nosso bate-papo atravessou a noite, e como toda boa conversa os temas foram variando, com novas camadas de aromas e sabores surgindo, sempre com uma pegada mais diferenciada. Taí uma definição que pouco define mas muito explica o Quinta do Vallado Sousão: diferente.

Garrafa cheia eu não quero ver sobrar...

O bichão foi envelhecido o equivalente a duas gestações (18 meses) em barris de carvalho francês e mantém a tradição de pisa manual em lagares (como são chamados em Portugal os tanques de cimento) por seis dias. A pisa manual, para quem não sabe, é aquela imagem tradicional de homens de braços entrelaçados que esmagam as uvas com seus pés em turnos de seis a oito horas, e que conferem uma extração mais delicada do suco para a fermentação. Para manter o ânimo da moçada são entornadas várias garrafas de vinho no processo (na foto as garrafas vazias ao lado da sousão no tanque), afinal tradição é bom mas a recompensa é melhor ainda.

Pode soar atrasado e pouco higiênico, mas o processo, que vem sendo  substituído por máquinas que simulam a pisada humana, é reservado apenas para vinhos de exceção. E para quem torce o nariz para a cena e suas consequências higiênicas vale lembrar que a fermentação – transformação do açúcar da uva em álcool – passa a régua em qualquer resquício humano.

O lagar onde as uvas sousão são pisadas

Se a  prova de um vinho está associada a um momento, o cenário do Douro, em meio às parreiras onde é cultivado, potencializou meu encontro com o sousão. Esta experiência em ambiente de folhinha e com a melhor companhia possível ajudou, é claro, na decisão de trazer para a coluna o Quinta do Vallado Sousão 2008 (R$ 150,00, importado pela Cantu) como o ViG (Vinho indicado pelo Gerosa) da vez. O preço do papo não é tão amigável, mas assim é a vida. Algumas experiências saem mais caras mesmo…

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quinta-feira, 13 de outubro de 2011 Sem categoria | 21:45

O último passeio do meu cão

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Este não é um texto sobre vinho, mas sobre uma espécie de amizade, de companheirismo – aquele que une um homem e um cão – que de alguma forma se aproxima do tema deste blog que é da relação do homem com o vinho. Peço licença para desviar um pouco o tema, portanto.

Hoje eu levei meu cachorro para seu último passeio. Como sempre fez, agarrou a guia com a boca – mas logo largou pois agora este hábito de anos causava dor e desconforto –, abanou o rabo e aguardou ansioso o movimento de pegar o elevador, descer até a garagem e finalmente sair.

Era seu último passeio pois em seguida caminharíamos, juntos, até a veterinária que lhe aplicaria uma injeção letal para aplacar sua dor. Pupy, este era seu nome, estava com um tumor na boca que tomava todo o lado direito, que comprometia sua mordedura e consequentemente sua alimentação. Ele começava a sofrer com o inchaço, com a dor e a limitação na alimentação.

Eu sabia que era o último passeio, mas obviamente que ele não percebeu isso. Eu até podia fantasiar aqui que de alguma forma ele pressentia que estes eram nossos últimos minutos juntos, mas faltaria com a verdade. Não é assim na vida real. Subimos as escadas da clínica e ele me olhava daquele jeito que olham os cães ao seu dono, de modo cúmplice e de eterno companheirismo. Aquele olhar que nos recebe em casa com uma alegria desmedida, pouco importando se a ausência foi de algumas horas ou de alguns dias.  Aquele olhar que sempre busca uma  recompensa na forma de um passeio pela rua, um alimento, uma bolinha jogada ao longe ou um afago. Pupy me olhava, portanto, como olham todos os cães aos seus donos, aguardando algo de bom de minha parte, sem ter consciência de que em breve daria seu último suspiro.

Pupy era um sobrevivente – e um sedutor. Ele nos escolheu, e não o contrário como geralmente ocorre nesta relação de homens e cães. Morava numa casa que as grades eras largas o suficiente para a passagem de filhotes e a porta de vidro deixava ver sombras do outro lado. Ele estava ali, desprotegido, um pouco maltratado, encostado na porta, procurando abrigo e proteção. Demos água, um carinho e deixamos descansar ali. Permaneceu lá no dia seguinte, fomos deixando e assim nos adotou.

Como tinha sua origem na rua andava sem coleira, ficava solto. Como os cães de rua sabia atravessar e desviar dos carros. Achávamos graça. Até o dia em um automóvel pegou em cheio no meio da rua perto de casa. Com o impacto ele tombou e derramou seu sangue no asfalto. Socorrido pelo motorista que o atropelou e pela minha mulher foi desfalecido para o veterinário. Sobreviveu ao primeiro baque e depois de uns dias voltou para casa. Ganhou sua primeira guia a partir de então.

Sedutor, quando mais jovem pulava alto como um cabrito quando recebia algumas pessoas de quem  gostava, deixava-se acariciar pelas crianças que estudavam em uma escola maternal perto de casa, mas para não negar o folclore tinha alguma cisma com carteiros. Quando eu estava deitado no sofá subia com as duas patas dianteiras no meu corpo, encostava a cabeça no meu colo e às vezes dormia neste posição improvável até que as pernas se desiquilibravam. Companheiro, me seguia onde quer que eu fosse. Por dezesseis anos

Em outro endereço foi atropelado pela segunda vez em frente de casa, quando escapou da garagem e saiu correndo e ninguém conseguiu alcançar. Ficou sumido uns dois, três dias. Procuramos por todo canto e nada. Descobrimos instalado numa casa numa rua próxima. Sobrevivente e sedutor já tinha bacia de água e guarida em seu lar provisório.

Teve outros cães como companheiro mas já idoso deu uma remoçada quando compramos um Boston Terrier para meu filho mais novo. Os cães domésticos como não têm de lutar pela sobrevivência ficam meio infantilizados até quase o fim da vida e Pupy passou a brincar com o filhote como se tivesse a metade da idade. No último ano de vida a idade começou a pesar, passou por cirurgias complicadas mas sempre com uma surpreendente recuperação. Parecia que viveria para sempre. Mas a nova doença chegou.

Eu e o Pupy, os dois de barba: companheiros por 16 anos

O tempo que os cães passam com a gente cria laços e sentimentos que às vezes humanizam um pouco a relação. Sofremos por seus problemas, doenças e principalmente por sua finitude. Aos cães é permitido a decisão da eutanásia, uma solução que por mais dolorida que seja é sempre pensando no bem estar do animal. Egoismo é manter o bichinho vivo, sob medicamento pesado, cirurgias doloridas e qualidade de vida comprometida. A decisão é dura, mas tomamos junto com a veterinária e hoje era o dia. Dei o último passeio e fomos para a clínica

Decidimos ficar ao seu lado até o seu final. Ele estava impaciente, não gostava daquele ambiente que lembrava injeções, caminhava alegre pela sala, abanando o rabo, enquanto aguardávamos a veterinária. Pupy me olhava então com aquele olhos de absoluta confiança, esperando sempre algo de bom de minha parte. E por mais sofrido que fosse esta solução eu tinha certeza que este era o melhor que eu podia fazer por ele: propiciar uma boa morte, um fim sem dor.

A veterinária primeiro aplicou um sedativo. Pupy sentiu os efeitos logo e foi se espalhando pelo chão. Seus olhos ficaram abertos, mas o corpo não obedecia mais seus comandos. Ainda respirava profundo. Foi colocado deitado na mesa de consulta. Um soro foi injetado e em seguida a veterinária anunciou que iria aplicar a injeção. Nos aproximamos, minha mulher e eu, demos um último afago, seus olhos já estavam perdendo o brilho. A agulha atingiu seu corpo. E o Pupy se foi. Foi nosso último gesto de gratidão ao meu companheiro de dezesseis anos.

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