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Arquivo de janeiro, 2013

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013 Blog do vinho | 10:31

Vinho na praia: vende pouco porque é muito caro ou é muito caro porque vende pouco?

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As férias estão acabando mas um fenômeno se repete todo ano: o preço abusivo e a qualidade duvidosa dos vinhos oferecidos em hotéis, resorts ou restaurantes de praia O serviço até que melhorou, as taças são adequadas, as garrafas na temperatura certa – graças a uma espécie de popularização das adegas climatizadas –, mas a lógica dos preços em vez de incentivar o consumo afasta quem poderia se arriscar nos brancos, espumantes e até tintos no seu momento de lazer, praia e mar.

A questão é: estes locais oferecem vinho, montam alguma infraestrutura para isso e aí escorregam na seleção dos rótulos e enlouquecem no valor cobrado. E aí quase ninguém opta pelo vinho – nem um refrescante branco na piscina, muito menos borbulhas na praia ou mesmo tintos nas refeições noturnas. Qual é o objetivo? Faturar muito vendendo pouco? É a inversão do famoso slogan dos biscoitos “vende pouco porque é muito caro ou é muito caro porque vende pouco?”.

Exemplos de arrepiar não faltam. Recentemente estive em praias do sul da Bahia e nos agradáveis restaurantes da Rua Mucugê, em Arraial d’Ajuda. Boa parte das casas oferece carta de vinho. Partindo deste pressuposto: se oferecem é por que há gente interessada, ou então é uma maneira de dar uma camada de sofisticação ao lugar. Ok, a variedade não chega a empolgar, mas os preços…

Vinhos nacionais a 700 e 500 reais

Em um restaurante italiano bem recomendado, por exemplo, o vinho parecia ter um tratamento diferenciado. Os garçons até vestiam aventais com o logotipo da vinícola Miolo. De fato a carta tinha um cuidado maior. Mas topei com preços de fazer corar o Michel Rolland (consultor internacional e contratado da Miolo) e de fazer o novo sócio do grupo, Galvão Bueno, berrar “Epa! pênalti!” O Miolo Reserva saía por 60 reais (29 reais em qualquer supermercado e sites de compra). Mas o grande destaque foi o vinho ícone Sesmarias: ele seria meu se desembolsasse 700 (se-te-cen-tos) reais!  (A safra 2011 é vendida por cerca de 200 reais a garrafa no site da vinícola em venda antecipada em caixa de seis garrafas). O Storia Merlot, outro tinto ícone, este da Casa Valduga, saía por 500 (qui-nhen-tos!) reais (custa em torno de 160 reais nas lojas virtuais). Em compensação, justiça seja feita, havia uma seleção de italianos, talvez importação própria, com uma razoável relação custo-benefício diante deste descalabro. Mas era a exceção ao restante da carta.

Numa churrascaria na mesma rua, tintos argentinos mais comuns alcançavam a fronteira dos 100 reais. Um Terraza Alto del Plata (39 reais nos supermercados) cravava 115 reais na carta sem qualquer cerimônia. Muy amigo… No hotel em que estava hospedado um Concha y Toro Reservado (algo como 25 reais nas gôndolas), o mais baixo escalão da cadeia alimentar da gigante vinícola chilena, era oferecido a 56 reais; ao optar por uma qualidade maior, um Marques de Casa  Concha (80 reais em média), também da Concha y Toro, o cliente desembolsava a bagatela de 180 reais. Espumantes nacionais variavam de 90 a 120 reais.

Nas mesas em quase todos estes restaurantes rara taças cheias de vinho. Volto a perguntar. Qual é a lógica? Vende pouco porque é muito caro ou é muito caro porque vende pouco?

Leia também: Vinhos tintos que combinam com o verão

All inclusive, all garbage

Mas a armadilha pode ser pior. Ao escolher estes resorts all inclusive, você inclui também o risco de contrair uma dor de cabeça danada se for beber o vinho que oferecem nas refeições e os espumantes na piscina. No caso do hotel que fui em outra ocasião, próximo à praia do Forte, os vilões eram rótulos espanhóis – o grupo dono do hotel é espanhol –, provavelmente produzidos exclusivamente para a rede de lazer. Era o que estava incluído no pacote. Se todos os tintos e brancos do mundo se resumissem aquilo lá, eu abdicava desta bebida e ia tentar outra coisa mais prazerosa: milk-shake, por exemplo. Um dia avistei um rótulo diferente nas mãos de um garçom que encheu minha taça no enorme salão que servia de restaurante. Parecia que voltava a provar um caldo fermentado de uvas de verdade e não um extrato de quinta extração. Fui checar e era um syrah mais comum do Terra Nova, um empreendimento da Miolo no Nordeste. Não é nada demais, mas perto do que me ofereciam até então, era tudo de bom. Tudo é relativo nesta vida, não é?

Se você aprecia um vinho é sempre bom questionar ao agente de viagens que tipo de rótulo está incluído no serviço. E lembre-se: não se contente com a informação de que são vinhos importados. A vítima, pode ser você!

No próximo verão… Bem, no proximo verão talvez a solução seja levar o vinho de casa.

Leia também: Férias, praia e espumante fresco

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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013 Blog do vinho | 11:47

No belo, e triste, filme "Amor" o vinho é parte da vida

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Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, arrebatadores em “Amor”

Uma das primeiras cenas do premiado filme Amor, de Michael Haneke, é em plano geral. Ela mostra a plateia de um teatro em uma apresentação de piano. O efeito é curioso, pois os espectadores  do filme ficam encarando os do cinema. Os personagens principais não foram ainda apresentados, estão anônimos entre a audiência que assiste ao concerto. A música de Schubert invade a tela. Este espelhamento de plateias parece querer introduzir a ideia de que a história de Georges e Anne, que virá a seguir, retrata o inexorável ocaso de todos nós.

Georges e Anne, uma acachapante interpretação de Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, octagenários na vida real e no filme, são um casal erudito, professores de música aposentados e ainda apaixonados  que levam uma rotina normal de um casal idoso e lúcido em seu apartamento em Paris. Anne sofre um acidente vascular e assim se inicia sua decadência física e mental. Georges acompanhará o avanço das limitações do corpo e a decrepitude da mente de sua mulher. Ele será o fio condutor desta tragédia pessoal que se abate sobre o casal, sem jamais trair a confiança da companheira, que implora para não ser internada em um hospital ou casa de repouso no início de sua doença. O amor de Georges por Anne, passa, antes de tudo, pelo respeito à mulher anterior ao derrame, pelas suas opções de vida ou mesmo a negação desta. O amor é uma construção do dia a dia. E o cotidiano de Georges e Anne, modificado pelo avanço da doença, é a prova dura deste  amor.

Trata-se de um filme árduo, com pouco espaço para sentimentalismo barato. As sequências são longas, o cenário se restringe ao apartamento do casal e seus cômodos que vão se transformando à medida que a doença avança, com a inclusão de cadeiras de rodas, camas hospitalares, remédios, fraldas, soros e todo aparato médico que atenda às necessidades de uma idosa enferma.

Georges e Anne preferem, na medida do possível, manter-se donos de suas decisões. Eles compreendem a fragilidade do momento, têm consciência da piora do quadro dia a dia e se recusam ser tutelados pela filha e pelo genro, ou mesmo pelas enfermeiras que são obrigados a contratar. Georges se mantém no comando. Parecem quer dizer: a vida segue seu curso. Quando confrontado pela filha, a também magistral Isabelle Huppert, sobre a condução do tratamento, mostra que não há alternativas. “O que você propõe? Ela só vai piorar”, constata Georges.

O vinho é parte da vida de Georges e Anne

O filme acompanha o declínio de Anne no mesmo ritmo lento e asfixiante de uma vida que se esvai. A música erudita, que compõe a biografia dos personagens, jamais é usada como truque barato para  emocionar o espectador. Os diálogos – ou mesma a ausência deles – são pontuados por silêncios. O fim é sempre silencioso.

O vinho como um elemento da vida

Em Amor, o vinho não é protagonista – mas faz parte do cotidiano do casal.  E é por isso que o filme é comentado neste Blog do Vinho. Além de belo e contundente na condução da história de Georges e Anne, o filme trata o vinho como um elemento da vida, fruto de uma herança cultural que expressa um hábito do casal e não uma escolha esnobe que os diferencia dos demais.

Há sempre uma garrafa em cena nas refeições, enquanto é possível fazê-las com alguma dignidade na  pequena mesa da cozinha. Ele é servido em copos de vidro, trata-se de um complemento do alimento. Faz parte da vida de Georges e Anne. Sem excessos, mas também sem restrições.

Em determinada  cena, quando ainda está lúcida, Anne faz um comentário bem humorado sobre a personalidade de Georges, após ele contar uma história inédita de sua infância –  e num raro momento de descontração no filme ele sugere. “Você está  alegre hoje, vou dar mais um pouco deste vinho para você”. E aqui o vinho cumpre outro papel histórico, de uma bebida hedonista, capaz de liberar a face mais descontraída de cada um de nós.

O filme Amor acompanha, sem concessões, o processo da finitude, sem especulações espirituais ou religiosas. E é arrebatador pela sua condução firme, contínua e realista. Se fosse um vinho, seria um Porto Vintage de muitos anos, de cor já alaranjada, uma fruta mais seca, o corpo mais leve, mas que ainda preserva camadas de aromas que traduzem toda jornada do vinho na garrafa.

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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013 Blog do vinho, Sem categoria | 12:48

Liquidações de vinho: dicas para se dar bem agora e o ano inteiro

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Quem resiste a uma promoção? Janeiro é o mês em que as importadoras começam suas liquidações, que geralmente se estendem até fevereiro. Todo ano é assim. Algumas remarcações anunciadas atiçam o saca-rolha virtual que todo enófilo esconde em seu bolso. Afinal de contas, trata-se de uma troca comercial: a vontade de comprar – por um precinho melhor – versus a urgência de o lojista se desfazer dos estoques, por uma margem menor.

Intervenção importante

Voz da consciência digital: alto lá, este texto é repetido. Foi publicado em 18 de janeiro de 2012! Olha o link: Liquidações de vinho: é hora de comprar!

Autor (um tanto embaraçado): é, tem razão, mas todo ano, nesta época, tem queima de estoque nas lojas e importadoras de vinho. E as recomendações são sempre as mesmas. Como o texto estava pronto, achei que ninguém ia notar…

Voz da consciência digital: todo ano tem Natal, Carnaval e nem por isso se publicam os mesmos textos. Neste o caso é preciso dar uma outra visão sobre o assunto. Outra perspectiva…

Autor (se justificando): mas os leitores estão interessados nas dicas de como escolher as garrafas e no serviço das importadoras atualizado…

Voz da consciência digital: neste caso, faça os dois: repita as dicas do ano passado e ofereça um reflexão inédita, mas nunca engane o leitor *&@#!

Fim da intervenção

As queimas de catálogo das lojas de prateleira ou virtuais estão aí. Por isso mesmo, antes de ir às compras, vale a pena observar algumas regras para evitar futuras, e literais, ressacas. O Blog do Vinho traz, em primeiro lugar, seis dicas para aproveitar melhor as compras; em seguida a lista das importadoras e lojas em promoção e ainda os links para os catálogos virtuais em oferta (as lojas físicas são em sua maioria em São Paulo).

Na segunda parte do post – seguindo orientações  – propõe uma reflexão sobre a validade de entrar de cabeça nestas liquidações e quais alternativas para comprar mais e pagar menos o ano inteiro.

Dicas na hora da compra

1. Observe se a garrafa está bem cheia. Um espaço livre muito grande entre a rolha e o líquido é sinal de vazamento. Consequência: o vinho provavelmente estará em processo de oxidação.

2. Verifique o estado de conservação da cápsula e da rolha. A cortiça não pode estar saltada, outro indicativo de problemas na qualidade da bebida.

3.
Cheque a cor do vinho, principalmente os brancos das safras mais antigas – uma cor amarelo-escura pode indicar oxidação; se estiver na cor âmbar, evite. Um tinto de safra recente de cor alaranjada – uma característica dos tintos mais evoluídos – também é sinal de problema. Se a safra do tinto for mais antiga – e principalmente se for um vinho de guarda – é sinal de evolução. Aí depende de seu apreço por vinhos envelhecidos.

4.
Fique atento às safras. Tintos mais básicos, e principalmente os rosés e grande parte dos brancos devem ser servidos jovens, em no máximo três a quatro anos (há sempre muita desova de rosés nestas promoções…)

5. Evite a compra por impulso (este conselho devo repetir a mim mesmo). Como a maior parte das ofertas são de safras mais antigas, pergunte ao lojista se se trata de um vinho com potencial de guarda (geralmente mais caros), se não for, planeje a compra para consumo rápido, principalmente os brancos.

6. Encontrou um preço de um vinho que é uma barbada, e que pode resolver sua vida no dia-a-dia e vale investir numa caixa? Experimente antes. Se a loja não tiver uma amostra, compre uma garrafa, prove em casa e decida sobre a compra de um maior volume de rótulos com segurança, ou você pode ter 12 garrafas de vinagre muito caro para temperar a salada por todo o ano.

Serviço: quem está liquidando (por ordem alfabética)


Expand
Sale! Descontos de até 50% em vinhos de vários países
Catálogo virtual
Quando: até 1 de fevereiro ou fim dos estoques

Grand Cru
Descontos até 50%, para mais de 130 vinhos, de países como Itália, França, Chile e Argentina.
Catálogo virtual
Quando: até 18 de fevereiro ou fim dos estoques

Mercovino
Mais de 30 rótulos com descontos
Catálogo virtual
Quando: até 31 de janeiro ou fim dos estoques

Vinea
Ponta de estoque de rótulos da Itália (a maioria), Chile, Argentina, França, Portugal e
Espanha
Catálogo virtual
Quando: até 22 de fevereiro ou fim dos estoques

Vinos & Vinos
Bota-fora com rótulos do Chile, EUA, França, Itália e Hungria
Catálogo virtual
Quando: até 9 de fevereiro ou  fim dos estoques

World Wine
Bota-fora com mais de 100 vinhos com descontos até 70%. Talvez a maior variedade e quantidade de rótulos de desconto neste saldão anual de garrafas.
Catálogo virtual
Quando: até 31 de janeiro ou fim dos estoques

Leve dois e pague um!

Casa de ferreiro, espeto de pau. Fisgado pela oferta, numa dessas liquidações levei duas garrafas pelo preço de uma de um cabernet argentino de 2007. Vinho para consumo do dia-a-dia. Se aprovado na taça, voltava e buscava uma caixa. Também aproveitei a barganha e catei dois rótulos do Douro de 2005. Dupla decepção. O Douro tinha traços medicinais, de iodo no nariz e absolutamente zerado na boca. O argentino não tinha aguentado os cinco anos, perdeu aromas e ganhou um gosto ruim, que me deixou na dúvida se originalmente ele já era ruim mesmo ou potencializou sua baixa qualidade. Conclusão: a economia virou despesa. Foram para o ralo. Esta infelicidade, que até faz parte do risco nestas liquidações, porém me levou a algumas reflexões.

Os chamados vinhos do dia-a-dia, que são conceitualmente produzidos para serem bebidos jovens, não são as melhores escolhas das pontas de estoque. O importador precisa se livrar de safras antigas e joga o preço no chão – e as caixas ficam ali expostas como isca. Não que estejam estragados – esta é outra discussão – mas ficam cansados, em declínio, sem sabor. Melhor evitar. Então a hipótese mais segura para se dar bem nestas megaliquidações de Baco são vinhos de guarda, mais caros, que sofreram redução de preço também para baixar os estoques. Você levará menos garrafas para casa, mas terá a oportunidade de provar rótulos de sabores e texturas mais ricas, evoluídos pelo tempo na garrafa, sem ter de ficar esperando na sua adega. Aí vale a pena se certificar do produtor, e estabelecer uma relação de confiança com o vendedor e importadora. Também é o momento de experimentar regiões pouco conhecidas, uvas diferentes com preço mais acessíveis para um mergulho no escuro.

Ofertas o ano inteiro

Outra alternativa, que pode reduzir o impulso de resolver o estoque de casa do semestre em só momento, é observar as ofertas das lojas e importadoras que pipocam o ano inteiro, principalmente quando há troca de linha dos produtos. Grandes distribuidoras, como Diageo, volta e meia baixam o preço do popular e sempre correto vinho português Periquita, por exemplo, ou mesmo grandes marcas chilenas, argentinas, portuguesas e brasileiras fazem um trabalho de promoção em seus rótulos reduzindo preços. Às vezes surgem também barbadas em prateleiras de supermercados. Um apreciador de vinhos deve sempre passar pelos corredores das bebidas para checar esta possibilidade.

Por fim existe a possibilidade de barganhar o preço na sua importadora e loja preferida comprando em volume. Não precisa ficar com doze garrafas de um mesmo rótulo, mas divida com amigos, numa espécie de clube de descontos particular.

Por último, os clubes de vinhos, lojas 100% virtuais e as importadoras volta e meia oferecem descontos para vinhos de determinados países. Algumas contam com serviço de newsletter que alertam sobre as ofertas. As importadoras que promovem feiras e festival de vinhos também costumam baixar os preços para os rótulos adquiridos durante o evento.

Portanto, checar as ofertas de janeiro e aproveitar oportunidades que harmonizem seu paladar com seu bolso continua válido. Mas não encare como a última oportunidade do ano. Garimpar bons vinhos por bons preços é trabalho – e prazer – para o ano inteiro.

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segunda-feira, 14 de janeiro de 2013 Sem categoria, Tintos | 15:49

Vinhos tintos que combinam com o verão

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O terceiro círculo do Inferno de Dante Alighieri, do poema épico A Divina Comédia, é destinado aos gulosos. Apesar de não fazer parte da narração imagino que uma boa representação do inferno é uma garrafa de vinho tinto potente argentino, ou americano, bem alcoólico e de preferência quente, em meio a labaredas crepitantes e abundantes. Ou transpondo o cenário para os trópicos: o mesmo rubro bem concentrado, quase mastigável, numa taça de vidro servido embaixo de um guarda-sol na praia sob um calor escaldante do meio-dia. O inferno, aqui, não são os outros, são as escolhas erradas. No popular: tudo tem seu lugar e hora. E a última coisa que passa na cabeça e pela garganta de alguém que curte um vinho é escolher um tinto austero,  e bebê-lo quente num ambiente tórrido. Sauna e vinho tinto não combinam. Mas isso não significa também que vinho tinto e verão são como Joaquim Barbosa e José Dirceu, ou seja, incompatíveis.

O senso comum dos enófilos aponta para as garrafas de vinhos brancos, rosés e espumantes para os dias quentes. Sem dúvida. É a indicação mais óbvia. Mas a proposta aqui é pensar “fora da garrafa”. Uma enquete do iG provocou os leitores do portal a escolher “a bebida do verão”, em múltipla escolha, em tempo real. O vinho branco foi o lanterninha – a água de coco e a cerveja tomaram a dianteira, bem à frente da caipirinha.  A propósito, todo produtor e enólogo estrangeiro que vem ao Brasil – e eles são doidos para entornar todas as caipirinhas possíveis… – me pergunta por que um país tropical bebe tão pouco vinho branco? E eu sempre respondo: por que países quentes preferem bebidas, e comidas, quentes.

O tema aqui, é bom ficar claro, é bem específico: trata-se do desafio de beber vinho tinto na praia, sob o sol, no almoço na casa de campo, no fim de semana com a família rodeado de todos os modelos de ventilador resgatados do armário ou adquiridos às pressas nos grandes magazines ligados no máximo para amenizar o calor. Em ambientes controlados – com ar refrigerado no máximo –  tanto faz estar no Alaska em companhia da Sarah Palin sorvendo um opulento californiano ou em Trancoso com o Bell Marques, do Chiclete com Banana,  compartilhando um alentejano de 15 graus de álcool que o calor lá fora pouco importa (para quem não sabe, Bell é um bom conhecedor de vinhos e casado com a proprietária da importadora de vinhos, Anna Import, da Bahia).

Beaujolais, a grande pedida

Mas existem alternativas de vinhos tintos para o verão? Sim, há clássicos do gênero.  Os tintos elaborados com a uva gamay, os beaujolais da vida (tanto os Nouveau quanto os Villages), são imbatíveis  nesta categoria. São a tradução do frescor na boca e delicadeza de aromas nos tintos. O beaujolais se distingue dos demais caldos pelo processo de elaboração. Ao contrário da maioria dos vinhos, sua vinificação (e fermentação) não se dá pelo esmagamento das uvas, mas sim no interior da fruta. Este processo é conhecido como maceração carbônica. Funciona assim: os cachos das uvas são colocadas inteiros em um tanque sem oxigênio mas saturado de gás carbônico. As uvas da parte inferior do tanque são esmagadas pelas de cima e liberam seu mosto. Este suco inicia a fermentação e gera mais gás carbônico.  A ausência de oxigênio no tanque produz a chamada fermentação intracelular, no interior dos grãos. A fermentação – transformação do açúcar em álcool – é feito portanto pelas enzimas no próprio interior da fruta e não pelas leveduras presentes no ambiente. E daí? Daí que este tipo de maceração carbônica – onde a uva não é prensada – se traduz em vinhos jovens, de cor mais clara e estrutura mais delicada e bastante aromáticos. A gamay desenvolve, principalmente no Beaujolais Noveau, aromas de rosas, frutas frescas e – podem acreditar, sem bufar um “Essa não!” – traços nítidos de banana. É cheirar para crer!

Também produzem caldos refrescantes e indicados para o verão pinot noirs mais simples sem passagem pela madeira, blends de carignan, cinsault, syrah e até cabernets francs de determinadas zonas mais frias. As italianas barbera, dolcetto e alguns vinhos Chianti de boa acidez também são boa solução. Há quem aposte em tempranillo espanhóis do tipo jovem, sem envelhecimento em barricas.

Saem de cena os tintos fechados, potentes, com frutas muito maduras, amadeirados e alcóolicos (14, 14,5, 15 graus!) e entram na ribalta os tintos menos alcoólicos, jovens, leves, frutados e sem estágio em barricas de madeira. Não são caldos que ostentam medalhas, pontuações acima dos 95 pontos e no geral tem preços mais modestos. São vinhos para desfrutar sem compromisso, ou melhor, apenas com o compromisso com o desfrute. Talvez não seja o vinho da sua vida, mas podem ser com certeza os vinhos tintos certos para embalar o seu  o verão.

Sugestões ViG (Vinhos indicados pelo Gerosa) de tintos para o verão

O Blog do Vinho propõe a lista de rótulos abaixo, que no geral entregam frescor, corpo médio, frutas frescas e boa acidez e como tradição aqui neste espaço já passaram pela taça deste escriba.

Beaujolais

País: França/Borgonha

Uva: gammay

Teor alcoólico: 12,5 graus

R$ 54,00

Importador: WineBrands

Produtor: Joseph Drouhin 

País: França/Borgonha

Uva: gamay

Teor alcoólico: 13 graus

R$ 75,00

Importador: Mistral

Produtor: Louis Latour

País: França/Borgonha

Uva: gamay

Teor alcoólico: 13 graus

R$ 65,00

Importador: Aurora/Inovini

  • Pierre Ponnelle Beaujolais-Villages 2008

Produtor: Pierre Ponnelle

País: França/Borgonha

Uva: gamay

Teor alcoólico: 12,5 graus

R$ 35,00

Importador: Santar

Produtor: Louis Jadot

País: França/Borgonha

Uva: gamay

Teor alcoólico:

R$: 76,00

Importador: Mistral

Produtor: Miolo

País: Brasil/ Campanha Gaúcha

Uva: gamay

Teor alcoólico: 12 graus

R$ 25,00

Vendas: Miolo

Outras uvas

Produtor: Domaines Perrin

País: França/Rhône

Uvas: carignan. cinsault. grenache noir e syrah

Teor alcoólico: 13 graus

R$ 44,00

Importador: World Wine

Produtor: Domaines François Lurtton

País: França

Uva: pinot noir

Teor alcoólico: 13 graus

R$ 69,00

Importador: Zahil

Produtor: Domaine du Salvard

País: França/Vale do Loire

Uvas: cabernet franc, gamay e pinot noir

Teor alcoólico: 12,5 graus

R$ 70,00

Importador: Decanter

Produtor: Quinta da Neve

País: Brasil/São Joaquim

Uva: pinot noir

Teor alcoólico: 12,5 graus

R$ 70,00
Vendas: Decanter

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