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Arquivo de julho, 2013

sexta-feira, 19 de julho de 2013 Blog do vinho | 12:47

Chile e Argentina dominam o mercado de importação de vinhos no Brasil

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Quais os vinhos mais importados no Brasil? Esta é meio fácil. Se você cravou Chile acertou em cheio. Se apostou na Argentina, não ficou longe. Nem é preciso ser especialista no assunto para chegar a esta conclusão. Basta percorrer os corredores dos supermercados e medir o tamanho das prateleiras de vinhos destes dois países para encontrar a resposta. Ou ler o título desta coluna… Mas o que talvez você não conheça são os números. Vamos a eles então.

Chile e Argentina juntos são responsáveis por 63,29% em volume de vinhos que entram no país. Só o Chile contribuiu com 43,08% nesta conta, restando 20,21% em volume para a Argentina. A conta em valor é um pouco diferente, os dois países juntos são responsáveis por 57,65% do bolo, mas o Chile continua na liderança (36,56%), seguido de Argentina (21,09%). Quatro países do chamado velho mundo – Portugal, Itália, França e Espanha – completam a lista.

Claro que há todo um contexto em torno destes números. Mas o maior deles é o mais óbvio: preço. As isenções de impostos do Mercosul, a alta do dólar e do euro (que deixam o vinho do velho mundo mais caro ainda), a proximidade destes dois países com o Brasil tornam o valor das garrafas sul-americanas mais palatáveis.

Quem mostra – e analisa – estes dados é o empresário e consultor internacional Adão Morellatto. Há doze anos, Morellato reúne dados oficiais da Receita Federal, do Banco Central e do Ministério do Desenvolvimento (MDIC) e comparando os números do semestre monta um relatório que distribui para a imprensa especializada e serve como uma radiografia do mercado importador de vinho. Na sua conta é analisado apenas o segmento de vinhos chamados tranquilos, não computando os vinhos tipos Fortificados, Champagne e Espumantes. A partir de janeiro de 2014, porém, serão incorporados à conta, tornando-a mais objetiva e acurada ainda.

Um trabalho que começou por necessidade – Morellatto tem uma empresa de representação comercial -, acabou virando uma referência no mercado. Para Morellatto o levantamento “tem um contexto mais analítico, identificando as causas, consequências, características e perspectivas, sobre meu prisma de visibilidade”. E acrescenta: “Os números em si, não têm a finalidade conclusiva de atribuir bonança ou incredibilidade e sim, uma descrição do momento vivenciado.” .

Os seis maiores países importadores de vinho no Brasil. E o resto.

O relatório e avaliação do semestre de Adão Morellato segue abaixo na íntegra

1º. CHILE: Como já comentei há algumas semanas atrás com alguns jornalistas deste meio, segue forte e firme na dianteira, mantendo sua estratégia de oferecer neste momento vinhos mais econômicos que os da Argentina, em média 23% mais baixos, atraentemente necessário e eficaz neste tempos de volatilidade cambial. Neste semestre analisado, representa 36,56% em valor e 43,08% em volume. Porém apresenta uma ligeira queda de -1,60% em comparação com o primeiro semestre de 2012.

Leia mais: Chadwick, o chileno que desafia (e ganha) dos franceses

Leia Mais: Vinhateiros independentes do Chile: pequenas vinícolas, grandes vinhos

2º. ARGENTINA: Como não poderia ser diferente, idêntico ao Chile, que goza de benefícios aduaneiros de isenção de impostos, por acordos bilaterais (MERCOSUL), estabelece-se neste ranking com 21,09% em valor e de 20,21% em volume.

Leia mais: A Argentina não é só malbec, mas é malbec também

3º. PORTUGAL: Como aqui não são computados os vinhos listados acima [fortificados], aparece nesta posição, 13,21% em valor e de 12,56% em volume, preocupantemente mostra uma queda de -8,13% em valor e de -16,45% em volume, apresentou um índice de valoração cambial dos vinhos em de 4,48%.

Leia também: Bacalhau e vinho: tinto ou branco

4º. ITÁLIA: A Itália, na linha de combate direto com Portugal, apresenta um leve crescimento de 1,77%, contudo uma queda de -16,45% em volume, evidenciado pelo aumento médio de 18,50% dos produtos. Aqui uma pequena pausa, atente-se para este ano, verificarem uma tendência de queda participativa de vinhos tipo Lambrusco, iniciando seu declínio, não por consumo aqui propriamente dito, que ainda tem uma gama considerável de consumidores, mas sim pelos custos de produção na origem e regras mais severas e punitivas dos Consorzios, não serem mais tão competitivos como no passado recente. Participa com 11,02% em valor e de 12,06% em volume.

5º. FRANÇA: O gigante vinícola resolveu por aqui mostrar toda sua capacidade enológica. Contrariando os demais, apresenta um crescimento de 11,41% em valor e de 4,50% em volume. Ainda engatinha para chegar aos 10% de share, mas observando que obteve um aumento de 6,60% no custo médio, podemos imaginar perfeitamente que há aqui consumidores dispostos a pagar algo mais por um produto de melhor qualidade. Sua contribuição é de 8,26% em valor e de 3,85% em volume.

6º. ESPANHA: A fúria não levou o taça, ainda somos os melhores, ao menos até a COPA de 2014, salvo alguns percalços, ainda temos a magia, o encanto e a alegria de jogar futebol. Mas como aqui o assunto é vinhos, vamos ao que interessa. Como em anos anteriores, impulsionado por sua vastidão produtiva e variadas denominações que atuam de maneira independente e sistematicamente apostando no mercado brasileiro, colhe os frutos aqui plantados há quase 6 anos. Em um período que os índices apresentados mostraram baixa performance, neste semestre, aqui chegaram apresentando crescimento de 4,60% em valor e de uma pequena queda de -0,50% em volume. Tem 5,00% de share value e de 3,71% de share marketing. Como já informado em artigos anteriores, vieram para ficar.

7º. DEMAIS PAÍSES: Nenhuma consideração mais aprofundada, na média apresentaram queda de -16,64% em valor e de -13,43% em volume, contribuem com 4,87% em valor e 4,54% em volume.

Leia mais: 10 dicas de como escolher e comprar o seu vinho

Os números em si, não apresentaram queda abrupta, em média uma queda de apenas -1,40% em Share Value e de -4,15% de Share Marketing, que se o câmbio manter-se neste patamar e a cadeia distributiva conseguir no 2º semestre escoar, é possível ainda encerrarmos 2013 com uma leve positividade, mais adiante verificaremos como se manterá esta tendência.

ADAO AUGUSTO A. MORELLATTO

INTERNATIONAL CONSULTING

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sexta-feira, 12 de julho de 2013 Blog do vinho, Novo Mundo, Velho Mundo | 12:34

Vinho orgânico e biodinâmico: saiba mais sobre o “vinho natureba”

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Vinhedos orgânicos e biodinâmicos: respeito à biodiversidade (Foto de vinhedos Emiliana)

Às vezes você depara com um rótulo que se declara orgânico, biodinâmico, natural. E pode se perguntar: mas todo vinho não é um alimento? Um produto da terra, natural, obtido da fermentação da uva? Qual a diferença dos vinhos orgânicos e biodinâmicos do resto dos vinhos?

O produtor dos vinhos biodinâmicos do Château Le Puy, Jean-Pierre Amoreau, de Saint-Emilion, em Bordeaux, classifica os vinhos produzidos pelo mundo em dois tipos:

1. Os vinhos de sensação – são aqueles que buscam aumentar as percepções de aromas, o gosto da madeira, da fruta excessiva e que com isso perdem sua identidade local. São sensações manipuladas artificialmente. São os vinhos que passam pelo processo comum, com uso de fertilizantes químicos e correções de mosto na adega, entre outros truques.

2. Os vinhos de exceção – são aqueles que têm o gosto real da uva, que são a tradução da natureza, que nos dá prazer de beber mais de uma taça. E principalmente são saudáveis ao ser humano. São vinhos orgânicos e biodinâmicos, que respeitam a terra, a biodiversidade e as influências dos planetas.

Orgânicos & Biodinâmicos

E entre os biodinâmicos e orgânicos, há alguma característica que os diferencie? Como eles são afinal?

Se coubesse algum paralelo simplificador, o vinho orgânico poderia ser definido como um vinho com atitude, e o vinho biodinâmico como um vinho com ideologia. Mas vamos explicar melhor:

Vinho orgânico é aquele que é produzido sem o uso de agrotóxicos, como pesticidas, herbicidas e fertilizantes sintéticos que são substituídos por compostos orgânicos e pelo uso de animais que são predadores naturais de alguns insetos e pragas. Na adega também são evitados quaisquer artifícios de vinificação que não sejam naturais da uva, como leveduras de laboratório, microoxigenção e outras maquiagens. Um dos principais objetivos do cultivo orgânico é produzir alimentos mais saudáveis e manter a sanidade e a biodiversidade do terreno. Ou seja, um vinho mais puro e saudável.

Vinho biodinâmico é um passo além do orgânico, acrescentando ao manejo natural da terra e o respeito à vinificação sem aditivos a energização e revitalização do vinhedo através de princípios básicos da biodinâmica – ciência baseada nos estudos do filósofo austríaco Rudolf Steiner (1861-1925): o homem não deve alterar os equilíbrios naturais do campo; deve-se observar os ciclos do cosmo e a influência da lua e do sol sob as plantas; proteger a biodiversidade, ou seja, a relação entre os reinos mineral, vegetal e animal. O vinho, além de mais puro e saudável, interage e absorve as forças cósmicas.

Quer entender como funciona um vinhedo orgânico e biodinâmico? Este ótimo infográfico interativo da Emiliana explica todo o processo. Clique na imagem para navegar.

Os princípios e a prática

Não se trata de uma moda, ou de uma adaptação do ludismo ao campo – movimento contrário à mecanização no princípio da Revolução Industrial -, mas de uma volta a certos princípios da agricultura do começo do século XX, quando a revolução no campo não havia disseminado o uso de defensivos agrícolas e outras artifícios que aumentaram a produtividade, mas que o uso indiscriminado é prejudicial à terra e aos alimentos. Os vinhateiros adeptos aos vinhos orgânicos e biodinâmicos alegam que simplesmente estão fazendo os vinhos de hoje com respeito à natureza, assim como faziam seus pais, ou melhor, seus avós. Sem interferência.

Na prática, a coisa é mais complicada. Os vinhedos orgânicos precisam ser reconvertidos para se purificar de tratamentos químicos e externos anteriores. Isso leva tempo e dinheiro. E depois ainda precisam ser certificados.

Nicolas Joly: algumas vezes é preciso esperar ser ridicularizado

Já os vinhos biodinâmicos necessitam de mais tempo ainda, e mais certificação. É preciso reprogramar todo o campo  para manter um sistema fechado, em que o vinhedo é contido em si mesmo, não recorre a forças externas. Este trabalho envolve preparação de compostos naturais, adaptação a um calendário biodinâmico que observa a influência da luz do sol e das energias da Lua e dos planetas e por fim um compromisso com a conservação da biodiversidade local. “Como podemos conceber nossa Terra como algo totalmente isolado do resto do cosmos?” provoca o produtor do cultuado vinho branco Coulée de Serrant, em Savennières, Nicolas Joly, em seu livro “Vinho do Céu à Terra – Cultivar e Apreciar o Vinho Biodinâmico”.

A questão da energia pode soar um pouco mais excêntrica a alguns ouvidos – ao meu, por exemplo -, mas como alega Jean Pierre Amoreau, biodinamismo não é magia, é um princípio físico. “Estamos vivos por que recebemos energia cósmica”, explica. “Existem plantas e minerais que concentram mais energia que outros, buscamos esta energia para aumentar a vida do solo”.

Para quem quer ir mais fundo na viagem cósmica aqui vai o registro. São seis os planetas/satélites ligados à viticultura: Saturno e Mercúrio ligados à forças do calor; Júpiter e Vênus às forças da luz; Marte e Lua, às forças da água.

Nicolas Joly resume com sinceridade os riscos e consequências da opção biodinâmica. “Praticar a biodinâmica significa também aceitar a familiaridade com outra linguagem, com outros métodos e presenciar, durante os primeiros anos, uma queda de produção ou um risco maior de doença. A reconversão não afeta unicamente a propriedade agrícola, mas também o indivíduo cuja motivação deveria ir além de simples objetivos comerciais. Finalmente – mas disso ninguém morre – algumas vezes é preciso esperar ser ridicularizado”

Leia também: O saca-rolhas sumiu! Como abrir sua garrafa de vinho

Uma experiência Sul-Americana

Álvaro Espinosa: vinhos únicos não são replicáveis

O consultor Álvaro Espinosa, recebeu, no final dos anos 90, uma missão dos irmãos José e Rafael Gullisasti: converter 1.000 hectares de plantações da Emiliana em vinhedos orgânicos e biodinâmicos. A Emiliana é a única vinícola chilena com manejo 100% orgânico. Ou seja, toda a linha, do vinho mais simples ao topo de gama, são orgânicos ou biodinâmicos. Entre eles o ótimo Coyam, o correto Adobe, encontrado em qualquer supermercado, e o excelente, expressivo (pera, mel, nozes) e barato Late Harvest (R$ 35,00).

Espinosa explica a conversão e a lógica do manejo orgânico: “Um vinhedo tradicional tem uma alta entrada de forças externas (químicos, leveduras etc) que resulta em um prazer artificial. A entrada de nutrientes artificiais faz a planta perder contato com a terra. “ E complementa: “O uso de clones selecionados, outro recurso comum em vinhedos tradicionais, faz a vinha perder identidade, pois vinhos únicos não são comparáveis, não são replicáveis.”

Mas afinal, é bom ou não é?

Diz Nicolas Joly: “Um vinho biodinâmico não é necessariamente bom mas é sempre autêntico. A biodinâmica, ao reforçar a vida natural do vinho, acentua a característica de cada videira.”

Álvaro Espinosa, consultor da chilena Emiliana e à frente do projeto Matetic, pondera: “Pode se gostar ou não gostar, mas não se fica indiferente a estes vinhos” E explica o essência do seu trabalho de enólogo da linha orgânica: “Importante não é identificar as uvas, mas o lugar de onde elas vêm”

Para completar, Liz Cereja, proprietária da Enoteca Saint Vin Saint, em São Paulo, que oferece uma carta apenas com exemplares orgânicos e biodinâmicos, esclarece de maneira informal: “Existem dos mais caros aos mais baratos. Gostos? Dos mais normais aos mais estranhos. Basta escolher um estilo de natureba para chamar de seu.”

Lis Cereja: biodinâmicos para um mundo tão cheio de "barbies" do vinho.

É bom lembrar que a experiência inicial pode ser até traumática. Mas a recompensa pode ser alentadora. Liz Cereja narra suas primeiras experiências com um vinho biodinâmico mais radical e como acabou se envolvendo com o tema: “Achei muito estranho, pois eram vinhos que, para mim, tinham algo ‘diferente’ dos outros. Não pesavam. Eram fluidos. Tem alguns naturebas que assustam, pois são muito diferentes…” E continua: “Mas é um mundo sem volta. Você se apaixona pela sinceridade dos vinhos, dos produtores, pela preocupação com a saúde e com o equilíbrio da videira e dos seres humanos. Você se apaixona pela diversidade e pelos aromas e sabores totalmente não standarizados que eles têm. Você se apaixona pelo caráter de ‘resistência’ que eles têm, levantando uma bandeira de rebeldia em um mundo tão cheio de barbies do vinho.”

Este colunista não tem uma posição sectária. Mas tenho de confessar uma enorme simpatia pela maioria dos vinhos orgânicos e biodinâmicos que provei. Há uma vibração maior na bebida, uma qualidade de fruta e aromas diferenciados, que às vezes lembram terra e folhas molhadas ou frutas muito frescas. É como comparar a jabuticaba que se come no pé e aquela que vem embalada, ou o iogurte que se faz em casa e o industrializado. É natureba sim, mas profissional também (na maioria dos casos).

Vinhos consagrados e vinhos manifesto

O que têm em comum estes vinhos e produtores: Seña, Clos Apalta (Chile), Colomé (Argentina) o champanhe Jacques Selosse (Champgne), as cavas Raventós (Espanha), os borgonhas Romanée-Conti, Philippe Pacalet (França) e o alsaciano Marcel Deiss (França)? São todos vinhos prestigiados, pontuados, cultuados por todo tipo de bebedor e entendedor de vinho – e são biodinâmicos ou orgânicos. Os exemplos acima são apenas de rótulos consagrados, do primeiro time, e talvez você seja apreciador de um deles sem sem saber sua condição natureba.

O fato de ser biodinâmico não implica necessariamente na materialização de um vinho esquisitão, alternativo ou meio hippie, de um produtor/enólogo idem. Muitos destes exemplos são rótulos de grandes grupos, com forte estrutura de marketing e comercial. E enólogos que não ficam necessariamente pontificando sobre seu método de produção. São bons pelo que são.

Mas claro que existem aquela turma do vinho manifesto. Alguns representantes pegam pesado na doutrina e entoam mantras um tanto radicais. Os vinhos “naturebas”, assim como os jovens que tomaram as ruas do país em junho de 2013 em protestos que juntaram milhões, também têm uma causa a defender

Jean-Pierre: vocês não se importam se o vinho é natural?

Jean-Pierre Amoreau, do Château Le Puy, citado no início deste artigo, faz parte desta turma. O vinho – e o vinhedo – é recheado de dogmas e seu discurso na defesa do biodinamismo e contra “eles” é radical. Entenda-se por “eles” os vinhos de expressão, comerciais. Em um encontro recente, quando Jean-Pierre apresentou várias safras do Le Puy, ele fez questão de ler um relatório de uma análise que mandou fazer em amostras de prestigiados Grand Cru Classé – o topo da pirâmide dos vinhos de Bordeaux. Não revelou o nome dos vinhos, mas fez questão de destacar que foram encontradas nas amostras até 276 tipos de pesticidas, ou seja, eram vinhos que além de não revelarem a real expressão de sua uva podiam ser nocivos à saúde, e enumerou uma série assustadora de doenças que estes elementos podiam causar aos seus consumidores. Com uma taça de seu vinho na mão, provocou: “Agora que vocês acabaram de provar vinhos naturais e biodinâmicos, eu pergunto. Vocês não se importam se o vinho é natural, sem presença de produtos químicos? Não se preocupam com o que a maioria dos vinhos de sensação podem provocar ao seu corpo?”. Um convidado rapidamente retrucou: “Se for um Haut-Brion, por exemplo que eu adoro, não me importo não”.

Nicolas Joly, outro radical verde, reforça a tese. Em seu livro, ele identifica o inimigo: “O emprego dos primeiros herbicidas marcou não apenas o início de um empobrecimento mas também o primeiro passo para a dependência, aumentada a cada ano até o ponto da escravidão, em relação à indústria agroquímica”.

Ironias e teorias à parte, a base do vinho biodinâmico consiste em obter: melhor uva, mais saudável e de melhor qualidade.

8 indicações de vinhos orgânicos e biodinâmicos

A pedido do Blog do Vinho, Lis Cereja indica alguns rótulos para quem quer começar esta viagem, ou mesmo para quem já embarcou nela. Confira:

Volandera. Super natureba, custo ótimo, e não assusta no paladar

Custo- benefício:

  • Dominio Vicari, Brasil, Vicari.
  • Volandera La Calandria, Espanha, Dominio Cassis
  • La Chochotte du Boulon, França, Bionysos
  • P´tit Piaf Merlot, França, Galeria do Vinho

Vinhos diferentes, para “sacudir” o paladar:

  • Huasa de Pilen Alto, Chile, World Wine
  • Alterité, França, Bionysos
  • Kharacter, França, World Wine
  • Gaitu, Itália, Galeria do Vinho.

Importadoras de alguns vinhos citados nesta coluna

  • Emiliana Adobe/Coyam/Late Harvest – La Pastina
  • Clos Apalta – Mistral
  • Colomé – Decanter
  • Jacques Selosse – World Wine
  • Raventós – Decanter
  • Le Puy – World Wine
  • Romanée-Conti – Expand
  • Philippe Pacalet – World Wine
  • Coullée de Serrant – Casa do Porto
  • Marcel Deiss – Mistral
  • Matetic – Grand Cru
  • Seña – Expand

Serviço

Enoteca Saint Vin Saint

  • Endereço: R. Prof. Atílio Innocenti, 811 – Itaim Bibi, São Paulo
  • Telefone:(11) 3846-0384
  • Site: www.saintvinsaint.com.br
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sexta-feira, 5 de julho de 2013 Degustação, Novo Mundo, Velho Mundo | 14:00

Chadwick: o chileno que desafia (e ganha) dos franceses

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Saiba como foi o confronto de sete tintos chilenos do produtor Eduardo Chadwick (no centro) e cinco famosos (e caros) rótulos da França e da Itália em mais uma degustação histórica

Responda rápido. Qual o melhor vinho: um Premier Grand Cru Classé de Bordeaux, na França, ou um top Chileno dos Vales do Maipo e Aconcágua? Qual o vinho mais sofisticado e que mais agrada o paladar: Velho Mundo ou Novo Mundo?

Difícil é até ter a oportunidade de provar estes vinhos. Para responder esta questão, imagine a seguinte cena:

No palco: doze vinhos extraordinários – sete tintos chilenos da Errazuriz  e cinco famosos (e caros) rótulos da França e da Itália.

Na plateia: 64 especialistas entre importadores, sommeliers, jornalistas, enófilos e blogueiros, além da mesa principal composta pelo produtor chileno Eduardo Chadwick e os jornalistas e críticos Jorge Lucki e Marcelo Copello.

Tarefa: escolher os três melhores vinhos do painel em uma degustação às cegas.

Local/data: Hotel Unique, 4 de julho de 2013, em São Paulo

Resultado: revelamos alguns parágrafos adiante

Onde tudo começou: Berlin Tasting 2004

O produtor de vinhos chileno Eduardo Chadwick é alpinista. Seus vinhos  também são. 2004 foi o ano que eles atingiram o topo da montanha. Chadwick arriscou todas as suas fichas na já famosa Cata de Berlim ou Berlin tastting, a degustação que colocou, lado a lado, seus rótulos e ícones franceses de 100 pontos no Robert Parker, como  Château Lafite-Rothschild 2000 (R$ 17.400,00!!!), Château Margaux 2000 (R$ 4.760,00) e 2001(R$ 3.588,00) e outros laureados como Château Latour 2000 (R$ 6.120,00) e 2001 (R$ 4.788,00) e o supertoscano italiano Solaia. O resultado da prova: deu Chadwick 2000 (R$ 880,00 a safra 2009) na cabeça e Seña 2001 (R$ 498,00 as safras 2007 e 2009) em segundo. Veja a tabela abaixo.

Para Chadwick, o desafio de escalar o Aconcágua e a primeira disputa contra pesos-pesados em Berlim guarda semelhanças: “Nos dois casos, é preciso perder o medo”, define. “A primeira tentativa de subir o Aconcágua enfrentei uma tempestade de neve e tive de voltar, foi frustrante”, relembra. “Na prova de Berlim, eu não arrisquei nada, nossos vinhos não eram conhecidos, não tinha nada a perder.”
A partir daí, Eduardo Chadwick se firmou como uma estrela ascendente do mundo do vinho. Foi eleito pela revista inglesa Decanter como uma das 50 personalidades mais influentes do mercado várias vezes, incluindo nesta edição de 2013, e viu sua produção, e os preços de seus vinhos, crescer como cotação de barril de petróleo, com a vantagem adicional de não sofrer oscilações para baixo.

Berlin Tasting – São Paulo 2005

No dia 7 de novembro de 2005 foi a vez de São Paulo ser palco de uma segunda versão deste desafio. Foi montada uma réplica da degustação de 2004. Um grupo de quarenta jornalistas (meninos e meninas, eu estava lá) e enófilos se reuniu no Empório Santa Maria para apontar, entre os dez vinhos servidos, quais eram os três melhores. A experiência aqui, no entanto, teve resultados diversos. Em primeiro lugar ficou um francês: o Château Margaux 2001(R$ 3.588,00*), em segundo, o Viñedo Chadwick 2000 (R$ 880,00 a safra 2009), o vencedor em Berlim e, em terceiro, o Seña 2001 (R$ 498,00 as safras 2007 e 2009). Nada mal também. Cabe observar que os dois vinhos chilenos ficaram acima de verdadeiras jóias da viticultura, como o Château Lafite 2000 (R$ 17.400,00!!!, 100 pontos no Robert Parker e 9º lugar no ranking) e o Château Latour 2001 (R$ 4.788,00) . “Sabíamos que o Chile tinha condições de produzir vinhos de classe internacional. Nossa intenção era mostrar ao mundo que nossos produtos estavam entre os melhores”, disse Eduardo Chadwick em palestra em São Paulo na época.

“O objetivo desta prova é mostrar que nossos vinhos são de classe mundial”, pontifica Chadwick. “Fiquei surpreso, não achava que íamos ganhar”, contou em 2005 com um sorriso de quem venceu. Chadwick gostou da brincadeira. Depois destas duas experiências realizou mais 15 eventos em mercados distintos, como, Tokyo (2006), Toronto (2006), Copenhagen e Pequim (2008), Londres (2009), Nova York (2010), Moscou (2012), Dubai (2013) sempre com resultados surpreendentes na comparação dos superchilenos com tintos de Bordeuax, Toscana e até da Califórnia, na prova dos Estados Unidos. Veja todas as provas aqui

Berlin Tasting – São Paulo 2013

São Paulo, 4 de julho de 2013. Ó nóis aqui traveis! Comparada à degustação histórica de 2005, duas grandes diferenças chamaram a atenção nesta segunda edição, também histórica. O número muito maior de participantes (64 contra 40), mostrando como o mundo do vinho cresceu – e se sofisticou – no Brasil e uma maior variedade de vinhos chilenos, o que de alguma forma desiquilibrou o painel a favor do Chile. O critério foi idêntico, escolher, entre todos os vinhos provados às cegas, quais eram os três melhores. Pessoalmente cada avaliador pode dar suas notas, anotar suas considerações e comparar com o resultado final. São Paulo, por algum motivo, manteve a coerência e repetiu o vencedor de 2005: Châteaux Margaux 2001 (R$ 3.588,00). Uma explicação razoável para esta diferença é que os brasileiros reconhecem com maior facilidade os chilenos. No entanto, o segundo e terceiro lugares foram conquistados pelo Seña 2007 (R$ 498,00, delicioso e já biodinâmico) e Don Maximiano 2009 (R$ 450,00). O nível, no entanto, é altíssimo. É difícil escolher três amostras sem achar que está penalizando a quarta e quintas seguintes. As anotações são todas superlativas em relação à finesse,  aos tostados, aos aromas de frutas em camadas, e evolução do paladar em boca, o final longo o prazer que permanece minutos após ser bebido. É o vinho em estado de arte. Os meus preferidos foram os seguintes

1 – Seña 2010
2 – Chateau Latour 2009
3 – Seña 2007
4 – Château Margaux 2000

Já o resultado oficial está na lista abaixo.

1 – Château Margaux 2001 – Premier Grand Cru Classé, Margaux

2 – Seña 2007 – Viña Errazuriz, Aconcágua

3 – Don Maximinano 2009 – Viña Errazuriz, Aconcágua

4 – Château Mouton 1995 – Premier Grand Cru Classé

5 – Château Latour 2007 – Premier Grand Cru Classé Paulliac

6 – Seña 2010 – Viña Errazuriz, Aconcágua

7 – Viñedo Chadwick 2000 – Viña Errazuriz, Maipo

8 – Don Maximiano 1995 – Viña Errazuriz, Aconcágua

9- Don Maximiano 2005 – Viña Errazuriz, Aconcágua

10 – Sassicaia 2000

11 – Seña 2000 – Viña Errazuriz, Aconcágua

12 – Tiagnanello 2009

Jorge Lucki, Eduardo Chadwick, Marcelo Copello e e alguns mil reais de vinhos à sua frente

Jorge Lucki, Eduardo Chadwick, Marcelo Copello e as garrafas degustadas

I did it my way

O modelo do Berlin Tasting – como ficou batizada a prova, onde quer que se realize -, é baseado na histórica degustação realizada em 1976 pelo crítico inglês Steven Spurrier, conhecida como Julgamento de Paris. Foram degustados às cegas, por um seleto grupo de especialistas franceses, os melhores Bordeaux e Borgonhas da Franca ao lado de tintos e brancos californianos. E os americanos levaram os primeiros lugares.  Foi um choque. A história é contada em um livro delicioso: O Julgamento de Paris: Califórnia x França 1976 – A Histórica Degustação que Revolucionou o Mundo, de George M. Taber, único jornalista que cobriu o evento, que fez uma reportagem  para a revista TIME (leia texto original).

O formato virou uma espécie de franquia que Steven Spurrier repetiu várias vezes com o produtor chileno, e se tornou o My Way do repertório de Chadwick. Assim como Sinatra sempre tinha de incluir esta canção em suas apresentações, Chadwick retorna ao modelo sempre que quer ampliar seu mercado. É um maneira fácil de criar notícia (funciona: olha eu aqui escrevendo sobre o tema), e mostrar ao mundo a qualidade de seus rótulos. Chadwick contou na apresentação que aprendeu com Robert Mondavi, falecido produtor americano e sócio de Chadwick no início do projeto Seña, que o marketing é tão importante quanto a produção. O produtor chileno aprendeu direitinho e virou um craque nas duas frentes.

Não dá para estabelecer aqui a batalha do tostão contra o milhão, pois se tratam de garrafas que custam respectivamente R$ 498,00 (Seña 2007) e R$  R$ 3.588,00 (Margaux 2001)!!!. “Meu objetivo não é ganhar sempre, mas mostrar que podemos estar entre os primeiros”, fundamenta. “Isso demonstra uma consistência de nosso vinhos.”

Para Chadwick, todas estas experiências deixam claro que o Novo Mundo pode alcançar níveis altíssimos e de qualidade internacional. “Já chegamos a grandes alturas, provamos nossa qualidade, já escalamos o Aconcágua”, conta Chadwick, mostrando a foto de um Dom Maximiniano que levou consigo na escalada da maior montanha das Américas, localizada no Vale do Aconcágua, região onde são produzidos seus vinhos Seña e Don Maximiano. Para ele o objetivo não é provar que seus vinhos são iguais ou melhores que os de Bordeaux ou da Toscana, mas são na realidade resultado de sua terra, de seu clima, de sua história, enfim, de seu terroir. Como um vinho tem de ser.

Site oficial: www.errazuriz.com

Veja todas as provas Berlim Tasting

Um papo com Chadwick (entrevista de 2008)

Os vinhos Chadwick e Don Maximiano são vendidos na importadora Vinci

O vinho Seña é vendido na Expand

* os preços dos vinhos franceses Premier Grand Cru Classé foram coletados no site Vinhos Millesime; os preços dos vinhos chilenos foram consultados nos sites e catálogos das importadoras. Valores de julho de 2013

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segunda-feira, 1 de julho de 2013 Degustação, Novo Mundo, ViG | 13:41

A Argentina não é só malbec, mas é malbec também

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É, o mundo do vinho (world wine) e o Cone Sul se renderam ao idioma do Tio Sam (Uncle Sam) mesmo. O evento chama-se Grand Tasting Argentina 2013, quem promove é o Wines of Argentina, a degustação principal atende pelo nome de Master Class, as visitas guiadas entre os participantes ganharam o título de Wine Walks e um dos malbecs mais surpreendentes da feira tem estampado no rótulo o nome The Apple Doesn’t Fall Far From The Tree. Tudo isso em São Paulo, é claro. O  objetivo é “mostrar ao mercado brasileiro a grande diversidade dos vinhos argentinos.” Mas nem tudo está perdido na defesa do purismo latino-americano, no mapa do belíssimo folder preparado pela Wines of Argentina com as principais regiões vitivinícolas do país, as Falklands continuam identificadas no mapa geral como Islas Malvinas…

Tertúlias idiomáticas e ideológicas à parte, havia um cheiro de frutas vermelhas e violetas no ar: um mar de malbecs invadiu os salões do hotel onde os argentinos expunham seus rótulos. Mas não só de malbec. Mais de 40 produtores desarrolharam suas garrafas e mostraram a qualidade e variedade de estilos de vinhos numa exposição significativa das três principais regiões vitivinícolas da Argentina. São elas:

Norte – Salta, Catamarca e Tucumán; aqui estão os vinhedos de maior altitude da Argentina.

Cuyo – Mendoza, San Juan e La Rioja; você provavelmente bebeu um malbec desta região, por aqui são produzidos 80% dos vinhos do país, sendo Mendoza a principal estrela.

Patagonia – Neuquém, Río Negro e La Pampa; os vinhedos mais ao sul do planeta são próprios para caldos mais delicados, tanto de brancas como sauvignon blanc como as tintas pinot noir e refinados malbec.

Vinhos argentinos, consumidor brasileiro

A Argentina ocupa o segundo lugar no ranking de importação de vinhos para o Brasil, com 20,38% em volume, só perdendo para o Chile (39,72%), com folgada dianteira de Portugal e França que estão respectivamente em terceiro ou quarto lugares, dependendo do critério que se use (volume ou valor). Nossos vizinhos colocaram no mercado brasileiro mais de 1,6 milhões de caixas de vinho em 2012.

Ou seja, inimigos no campo de futebol, a rivalidade é superada na taça. É o vinho do dia-a-dia de muito brasileiro, de iniciação para muita gente, incluindo alguns especialistas que deram seus primeiros goles em malbecs e cabernets dos pampas e hoje olham com desdém para os fermentados vizinhos.

Côt, mas pode chamar de malbec

Não tem como escapar do chavão: a malbec é sinônimo de vinho argentino. E com justiça.  É o maior produtor mundial da uva. Só para contextualizar, do total de hectares plantados um terço é de malbec.  De origem francesa, de Cahors, em Bordeaux, onde atende o nome de Côt, a malbec encontrou abrigo em terras argentinas e com melhorias no plantio e cuidados na adega mostrou um enorme potencial; há caldos belíssimos, de variados estilos, e uma grande massa muito padronizada para o consumo de massa. Vinho do dia a dia é importante. Afinal de contas, às vezes a gente só quer um vinho palatável para acompanhar um prato ou matar a sede do fermentado de uva – e não pagar muito por isso.

Abaixo um vídeo da Wines Of Argentina com um pouco da história do Malbec e suas principais regiões

Os descritivos da malbec são unânimes na questão da cor: é um vinho profundamente escuro, nos aromas aparecem frutos negros, frutas vermelhas e algum floral em algumas regiões. Na boca se caracteriza pela maciez e doçura (quando doce demais é enjoativo), ganha grande expressão ao passar por madeira, adquirindo aí lembranças de cafém chocolate, tabaco e baunilha.

Uma frase do enólogo Angel Mendoza, citada no livro Vino Argentino, de Laura Catena, filha de Nicolás Catena, o grande responsável pela evolução na qualidade dos malbecs argentinos, resume bem as sensações que um malbec deve transmitir ao consumidor:

“Eu tenho uma agradável lembrança de Robert Mondavi, na ocasião em que ele visitou a vinícola Trapiche, em 1994, e me disse: ‘Um grande malbec deve impressionar por sua profunda e atraente cor escura, seu intenso aroma de frutas negras combinado com um toque de carvalho e seu paladar doce, macio como o bumbum de um bebê recém-nascido…’ “

VIG (Vinho Indicado pelo Gerosa) – Argentinos do Grand Tasting 2013

Como o evento quis demonstrar, existe uma Argentina além do malbec e ela merece ser conhecida. O Grand Tasting 2013 mostrou ainda que a uva tem potencial tanto para vinhos de primeira qualidade, em vôo solo, os chamados varietais, como acompanhada  de outras variedades (os blends).

O Blog do Vinho preparou um seleção de 15 vinhos exibidos na feira, que na opinião deste colunista representam uma amostra da qualidade e do potencial da Argentina de hoje (portanto estão de fora clássicos argentinos que você está acostumado ver por aí, como os do pai da Laura, ok?).

A seção especial VIG (Vinho Indicado pelo Gerosa) Argentinos do Grand Tasting 2013 está dividida em três blocos:

  1. 100% Malbec;
  2. Além do Malbec;
  3. Cortes: Malbec e Outras Uvas

VIG 100% Malbec

A pura expressão do malbec com seus aromas de frutas negras, frutado marcante, aveludado e até um pouco doce, onde flores e frutas se encontram, o álcool, às vezes alto, se integra com a madeira que entrega complexidade e um fôlego para um final mais prolongado.

Vallisto 2010
Vallisto – Valle de Cafayate – (http: www.vallisto.com)
Uva: 100% malbec
Importador: não tem

Este malbec é especial. É aquele tipo de vinho que tem identidade, personalidade e uma boa história. Três enólogos, Francisco Lavaque, Marcelo Pelleriti e Hugh Ryman se uniram para elaborar um blend (uma mistura) de malbecs. Cada um elegeu 5 parcelas dos vinhedos do Valle de Cafayate e juntos chegaram à concepção deste caldo surpreendente que ficou amaciando 12 meses em barrica e traz concentração de fruta e complexidade na boca e um nariz sutil de fruta queimada. De vida longa na garrafa. De se beber exclamando: ohhh!
Sem importador no Brasil. Ahhhh!

The Apple Doesn’t Fall Far from the tree
Matias Riccitelli  – www.matiasriccitelli.com
Uva: 100% malbec
Importador: não tem

Um vinho com este nome chama a atenção de imediato. A explicação dada pelo jovem enólogo Matias Riccitelli é a que segue: “Assim como uma maçã não cai longe da árvore, um vinho não pode ser elaborado sem uma história. Minha história reflete os ensinamentos de minha família e a paixão que caracteriza a todos e cada um de nós.” Matias, vale destacar, é filho  do prestigiado enólogo da Norton, Jorge Ricitelli.  Este malbec de vinhedos de mais de 15 anos, que estagia em barricas francesas por 12 meses, tem no seu DNA a tradição do aprendizado e a fagulha da inovação. É moderno, concentrado, com boa fruta e final longo. A suavidade e doçura dos taninos interagem com a boa acidez. Matias tem mais dois outros malbecs: Vineyard Selection e Republica del Malbec, este último ele considera a máxima expressão da malbec, elaborado a partir de vinhedos de 80 a 100 anos. São vinhos mais complexos – passam 16 e 18 meses em barrica -, mais sérios, mas eu aposto mais na proposta quase irreverente do The Apple Doesn’t Fall Far The Tree. Algum importador disposto a apostar no rapaz?

Casarena Lauren’s 2010
Casarena Bodega y Viñedos (www.casarena.com) – Mendoza/Agrelo
Uva: 100% malbec
Importador: Magnum
R$ 130,00

O rótulo é uma vista área geométrica e estilizada do vinhedo em Agrelo. Uma parcela única  abastece este vinho de floral intenso, a tal da violeta, quase um vidro de perfume em forma de vinho, e de boca ampla e sedutora. Um malbec feminino e sedutor, para aqueles que apreciam a exuberância do primeiro impacto, mas exigem estrutura no paladar.

Sottano Judas Malbec 2009
Bodega Sottano (www.bodegasottano.com) Mendoza
Uva: 100% malbec
Importador: Max Brands
R$ 300,00

Um tinto superlativo em tudo, inclusive no preço. Começa pela garrafa pesada – para muitos um quesito de qualidade, para mim apenas um esforço maior em manusear o vasilhame e um custo maior ao meio ambiente -, passa pela tinta escura, por uma explosão de aromas, pela madeira presente (18 meses de primeiro uso, francês e americano) e por uma estrutura marcante, um corpo e final intensos. Vinhão, mostrando todo o potencial da malbec. São produzidas apenas 5.000 garrafas desta belezinha que justifica seu nome por meio de sua história. Este caldo era produzido para consumo interno. Um dos filhos que comanda a bodega começou comercializá-lo, sem contar para a família. Desvendada a experiência, o tinto entrou em linha e foi  batizado como Judas, por conta da traição familiar. Tipo da história que ajuda a compor um mito, não faria muito sucesso em alguns bairros de São Paulo…

Terrazas Single Vineyard las Compuertas Malbec
Terrazas de Los Andes (www.terrazasdelosandes.com) – Mendoza –
Importador: Moët Hennessy do Brasil
R$: 205,00

Terrazas é um velho conhecido do consumidor brasileiro. Sua bem feita linha reserva é presença constante nas prateleiras dos supermercados. Sua etiquetas ensinaram ao consumidor a importância dos vinhos varietais de altitude. O malbec macerado e fermentado nesta garrafa vem de vinhedos antigos e únicos plantados a  1067 metros do nível do mar. O caldo é rico, concentrado, fino, de uma riqueza aromática e uma boca ampla. Aquelas frutas vermelhas doces, os florais típicos da malbec, mas sem excesso.

VIG Além do Malbec

As três grandes regiões da Argentina produzem também outros tipos de uvas, como cabernet sauvignon, cabernet franc, petit verdot. Destaque para a bonarda, outra variedade que merece representar o país como melhor expressão de sua terra. Entre as indicações um surpreendente semillon de 1942 de tomar de joelhos.

Pascual Toso Alta Reserva 2009
Pascual Toso – Mendoza (www.bodegastoso.com.ar)
Uva: 100% cabernet sauvignon
Importador: Vinoteca Dibeal Brasil CIEBA
R$ 100,00

A Pascual Toso é o vinho argentino mais vendido, em valor, no exigente mercado japonês. A consultoria do enólogo americano Paul Hobs ajuda um pouco, mas vamos combinar que o homem entrega. Este cabernet sauvignon de solo pedregoso interage por 24 meses em barricas de carvalho o que lhe aporta uma fruta madura, uma potência importante e revela tinto de classe e vigoroso. Trata-se da primeira safra da linha Alta Reserva. Começou arrasando. Quem disse que o papel dos consultores é sempre nocivo para o vinho e sua identidade, hein, Jonathan Nossiter?

Bonarda 2007 – Reserva Edição Limitada
Nieto Senetier (www.nietosenetiner.com.ar) – Mendoza
Uva: 100% bonarda
Importador: Casa Flora
R$: 100,00

Há anos este bonarda Reserva Edição Limitada é uma unanimidade. O tradicional rótulo dourado, meio brega, parece uma fivela, nunca decepciona. Vinhedos de 35 anos, 12 anos de madeira francesa. Um top bonarda. Tem um bom volume,  muita  expressão de fruta em boca, e uma boca redonda, ampla, que convida novos goles. Quer conhecer o potencial e a grandeza da bonarda? Prove este vinho.

Decero Petit Verdot 2010
Finca Decero (ww.decero.com) – Mendoza
Uva: petit verdot
Importador: Anna Import
R$: 145,00

Um varietal 100% petit verdot é quase uma ousadia. Não é uma unanimidade. Mas a mim me agrada muito. Comum em cortes, este petit verdot é parte do vinho ícone da Finca Decero, o Amano Remolinos Vineyard (R$ 240,00), que leva doses de malbec, cabernet sauvignon, petit verdot e tannat e exibe todo pimpão um final longo e harmonioso.  Para esta “Mini Edição” são selecionadas pequenas parcelas de petit verdot colhidas à mão, com baixo rendimento – o que dá frutos mais vigorosos. Na cantina passa 16 meses em barris de carvalho francês. Um ataque floral no nariz é seguido por um bom volume em boca  macio e boa acidez. O vinho redondo, sem arestas, agradável de beber. De petit, ele não tem nada.

Don Baltazar Cabernet Franc
Bodegas y Viñedos Casa Montes S.A. (www.casamontes.com.ar) – San Juan.
Uva: cabernet franc
Importador: Itanav Food & Beverages
R$: 60,00

A Argentina tem bons cabernets francs. Este Don Baltazar ainda tem o mérito de ser um vinho acessível. Uma fruta gostosa é seu principal mérito, que persiste no final da boca. Tem um nariz agradável algo de ervas e baunilha. Um vinho que convence, mas não é convencido. E demonstra a qualidade desta uva pouco conhecida em carreira-solo.

Lagarde Semillon 1942
Lagarde – Mendoza (www.lagarde.com.ar)
Uva: semillon
Importador: DeVinum
R$: 500,00 (quando decidem vender)

Você não vai conseguir comprar este vinho. Nem eu. Este é aquele tipo de vinho de exibição que algumas vinícolas têm a sorte – e o privilégio – de exibir em eventos como este. Vale pela história, vale pelo vinho. Quando adquiriu a bodega em 1975 a família Pescarmona deparou com um tonel com capacidade de 1.800 litros de um semillon (uma uva branca) de 1942! É quase como ganhar na loteria sozinho. Conta-se que era comum em Mendoza, em meados do século passado, usar 5% de vinho branco para dar uma amenizada no caldo tinto. No caso da Lagarde a fórmula era 95% de malbec com 5% de semillon. Em raros anos era elaborado em semillon de colheita tardia. Este foi o tonel encontrado. O vinho terminou de ser engarrafado em 1990 e restam apenas 250 garrafas que somente em ocasiões especiais são abertas e raramente comercializadas. A última garrafa foi vendida por cerca de 500 dólares. O vinho tem uma cor amarelo ouro, um aroma intenso de frutas secas, seco na boca, tem um toque oxidativo típico que lhe confere uma nobreza e um final longo. Às cegas você jura que está bebendo um Jerez, do estilo amontillado. Uma raridade premiada em todo o mundo e exibida como joia da coroa da Lagarde. Foi um privilégio, eu sei. É um vinho de exibição e eu fui um pouco exibido. Espero não ser alvo de passeatas…

VIG Cortes: Malbec e Outras Uvas

Vinhos de corte são basicamente vinhos de autor, onde o enólogo mais exerce sua influência no resultado final da bebida, pois sua decisão de quais uvas e usar e em qual quantidade desenham o estilo do vinho. A malbec é quase sempre protagonista, mas enriquece muito escoltada por outras uvas.

Norton Privado 2009
Norton (www.norton.com.ar) – Mendoza
Uvas: Malbec 40%, merlot 30%, cabernet sauvignon 30%
Importador: Wine Brands
R$ 93,00

Jorge Riccitelli, o chef de cozinha dos vinhos da Norton, foi escolhido o enólogo do ano pela Revista Wine Enthusiast em 2012. Ele comandou uma degustação no evento Wines of Chile e apresentou, com alguma modéstia, sua criação. Trata-se do top de linha da Norton, Privado da safra 2009. Um bom vinho, agradável nos aromas de frutas maduras e uma lembrança de café da manhã na boca, com traços de café no final de boca (olha a barrica aí, gente!). Os 14,8 graus de álcool não são perceptíveis. Descansa (ou trabalha depende de como se vê as coisas) 16 meses em barricas de carvalho francês e ainda aguardar mais uma ano na garrafa antes de sair para a mesa do consumidor. E o preço não assusta.

Trapiche Iscay 2008  Malbec Cabernet Franc
Trapiche (www.trapiche.com.ar) – Mendoza
Uvas: malbec 70%, cabernet franc 30%
Importador: Interfood
R$ 200,00

Este negócio de juntar dois enólogos (ou mais), duas uvas de parcelas diversas e fazer um vinho parece que dá mais certo do que errado.  Daniel Pi, o enólogo-chefe da Trapiche, e Marcelo Belmonte, diretor de viticultura, elaboram este belo blend que varia na seleção das uvas de acordo com a safra. Iscay, na linguagem quéchua, dos incas, significa dois. A mistura da emblemática malbec com a cabernet franc traz a junção da sensação da fruta madura e notas de especiarias com um delicioso toque balsâmico. A safra de 2010 traz a combinação syrah (97%) e viognier (3%) e é simplesmente soberbo, às cegas, dir-se-ia, nobre colega, tratar-se de um legítimo Rhone, com suas características de especiarias, toques terrosos e bela acidez. Já que Iskay é sempre duplo, fica a indicação dos dois blends, ambos a 200 contos.

Tukma Gran Corte 2010
Tukma (www.bodegatukma.com.ar) – Salta
Uvas: malbec 65%, tannat 26%, cabernet sauvigon 15%
Sem importador no Brasil

Um vinho de altura, ou seja com vinhedos plantados a 1700 metros do nível do mar. O malbec se mostra na entrada, com o floral gostoso, na boca uma mistura de chocolate com tabaco, como aqueles aromas de cigarrilhas aromatizadas, no final um toque de especiarias. Boa estrutura, belo exemplar da capacidade da malbec ganhar quando misturada com outras uvas. Deve envelhecer bem na garrafa.

Henry Grand Guarda nº 1 2007
Lagarde – Mendoza (www.lagarde.com.ar)
Uva: cabernet franc 40%, malbec 31%, syrah 29%
Importador: DeVinum
R$ 210,00

O vinho número 1 da Lagarde,  como sugere o nome, só é elaborado em safras especiais e passa dois anos em barricas de carvalho de primeiro uso. A palheta de aromas é ampla, com destaques para café, couro, tostado, tabaco, pimenta, fruto do tempo em madeir. O paladar confirma esta impressão, quase um ambiente de uma charutaria em taça. Potente, sério, final longo e, curiosamente, a malbec não é protagonista, com a cabernet franc dando o tom nas frutas pretas e no toque floral.

Cheval des Andes 2007
Terrazas de Los Andes (www.terrazasdelosandes.com) – Mendoza
Uvas: malbec, cabernet sauvignon, merlot, cabernet franc e petit
verdot
Importador: Moët Hennessy do Brasil
R$ 320,00

Você chegou até aqui? Respeito a persistência. O mundo é dos perseverantes. E o prêmio é este clássico argentino, que poderia muito bem ser um clássico bordalês ou internacional. Trata-se de um Grand Cru dos Andes. A comparação não lhe cai mal. Até por suas origens: o Cheval des Andes é fruto da fusão do Chateau Cheval Blanc, de Saint Emillion e o Terrazas de los Andes. Refinado desde o rótulo simples, é uma combinação de complexidade e elegância de sabores, que vai crescendo com o tempo na taça, que deve evoluir lindamente na garrafa. Ficar enumerando aqui as frutas e aromas não transmitiria o principal do vinho: sua persistência, elegância e o prazer que se tem bebendo.

Torrontés

Um incauto pode indagar, e a Torrontés? A uva branca clássica e nativa argentina? Ela estava lá, eu tomei alguns goles destes frascos de perfume em ampolas de vinho. Mas como bem pontuou o enólogo da Norton, o premiadíssimo Jorge Ricitelli: “A torrontés não tem meio termo, ou se gosta ou se odeia”. Eu estou no segundo grupo e não me sinto isento para julgar ou indicar. Que a entenda que o ƒaça. Fui.

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