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Arquivo de outubro, 2013

sexta-feira, 25 de outubro de 2013 Velho Mundo | 20:45

Sob o sol da Toscana: uma visita à nova vinícola Antinori

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A nova vinícola Antinori na Toscana: no coração do Chianti Clássico

A família Antinori é sinônimo de vinho na região da Toscana há mais de seiscentos anos. O Brasil estava longe de ser descoberto e o primeiro Antinori, Giovanni di Piero, já se ocupava de transformar uva em vinho em 1385. São 26 gerações de lá para cá que cuidam do patrimônio e da imagem da família. A última, com Piero Antinori no comando, assessorado por suas filhas Albiera, Allegra e Alessia, esteve à frente do megaprojeto das novas instalações da Adega Antinori, inaugurada em 25 de outubro de 2012 no coração do Chianti Classico, em Bargino, na Toscana, entre as cidades patrimônio da humanidade Florença e Siena. A nova Vinícola Antinori  é o tema desta coluna do Blog do Vinho

Piero Antinori (ao centro) e suas filhas Albiera, Allegra e Alessia: 26 geração

Produtores de vinho de todo o mundo têm procurado  renomados escritórios de arquitetura para planejar vinícolas que são verdadeiras obras de arte. Elas aliam beleza, funcionalidade a uma agenda ambiental e  social. O objetivo é agregar valor à marca, valorizar a origem do vinho e criar condições de produção com método e qualidade.

O projeto da Antinori, criado em 2005 pelo arquiteto florentino Marco Casamonti, sócio do escritório Archea Associati Studio (eles têm representação em São Paulo), demorou 6 anos para ser concluído desde o início das obras, no ano seguinte. Custou mais de 80 milhões de euros e usou matérias-primas da região como terracota, concreto, madeira, ferro, vidro para abrigar tanques de fermentação, barricas de carvalho, obras de arte, além do vinho, é claro.

O edifício, assim como muitas adegas modernas, está quase todo debaixo da terra: parte da terra retirada foi usada como matéria-prima para confecção dos tijolos de terracota usados na construção. De fora, na pequena estrada que conduz à adega, não se tem noção da complexidade e do tamanho do projeto. A ideia é esta mesma, misturar-se à paisagem, tornando-se invisível, e ao mesmo tempo ser funcional para a produção e conservação de vinho pelos métodos mais tradicionais, usando refrigeração natural.

Outro objetivo do projeto é alavancar o enoturismo, uma categoria de viagens que cresce pelo mundo. Na nova adega  admiradores de rótulos como Villa Antinori (o vinho do papa, lembra?), Marchesi Antinori Chianti Classico Riserva, Pèppoli e Vinsanto podem percorrer os corredores da adega – pelas vias elevadas – sem interferir  na produção. E todo uma logística de recepção é montada para servir este tipo de turista do vinho.

Visitando Antinori

O Blog do Vinho esteve recentemente nos domínios da Antinori. Abaixo o relato da visita.

A escada, em formato helicoidal, revela espaços no edifício

A primeira sensação ao se tentar chegar nas novas instalações da Vinícola Antinori é de desorientação. O edifício é invisível pela estrada que margeia a construção – o que era um dos objetivos do projeto como já foi dito – e não é raro o motorista passar pela frente sem notar a entrada. Na portaria um mapa com instruções ao visitante recupera o sentido de orientação e dá uma amostra da dimensão do lugar. Um estrada interna leva ao estacionamento. A chegada é um tanto sombria. O estacionamento é escuro e fica num nível mais subterrâneo e não se vê nada além de concreto. Uma impressionante escada de ferro em formato helicoidal leva para o pavimento de visitação e na sequência ao restaurante, no último andar. Ao subir a escada – há acesso por elevador também – e deparar com o primeiro plano a luz se amplia a o lugar finalmente se revela. E impressiona.

O amplo terraço que antecede a recepção aos visitantes se apresenta. O concreto desenha curvas que seguem paralelas ao chão e ao teto, o vidro refle os vinhedos novos plantados à frente e a escada que perfura os pavimentos para cima e para baixo, num balé em formato de DNA, reforçam a imagem de modernidade e harmonia. Os traços  lembram a obra de Niemeyer: vidro, concreto, curvas e espaços vazios.

Sala de recepção aos visitantes: design, terracota e madeira

O balcão de recepção dos visitantes fica num amplo espaço com móveis de design futurista e muita madeira. Aqui começa a visita propriamente dita. A minha, pelo menos,  teve o processo invertido, começando direto pela impactante sala das barricas de carvalho. Geralmente esta sala é o ápice de uma visita a uma adega. É o momento ‘uau” de todo tour pelas vinícolas, onde os turistas sacam suas câmeras digitais e celulares para registrar o cenário e mostrar em casa e  nas redes sociais. Esta em especial provoca um ‘uau’ mais prolongado. Todas as paredes e o teto em formato de arco são cobertos de tijolos de terracota que não levam cimento na sua junção – eles são encaixados um a um em uma estrutura de ferro. Como se encontra abaixo do nível do solo – um isolamento térmico natural – não necessita de refrigeração artificial. A temperatura é baixa naturalmente. Em seguida, passamos para a sala com  enormes e modernos tanques de fermentação: a parte mais tecnológica da visita, que sempre me lembra um pouco o cenário do filme Metropolis, de Fritz Lang, mas sem a poesia de seu contexto.

Tanques de fermentação: a parte high-tech da visita

A visita segue para o andar mais alto, para acompanhar o processo de recepção das uvas. Era tempo de colheita na Toscana e cachos de sangiovese (a uva do chianti) eram despejados em máquinas que fazem o desengace, maceração e posterior transferência do sumo por gravidade, já que estávamos na plataforma mais elevada da adega, que elimina a necessidade de bombas mecânicas.

Aqui o Vinsanto envelhece no mínimo três anos: tradição Toscana

Ali também repousam as pequenas barricas onde é envelhecido o Vinsanto, um fortificado que é cara do povo da Toscana. É uma tradição de toda residência da região oferecer um cálice deste vinho com um bandeja de cantucci – um biscoito adocicado que leva  amêndoas e um toque de laranja – para toda visita que chega em casa.

O incrível espaço de degustações que avança sob a sala das baricas, toda recoberta de tijolos de terracota

A sala de degustação é um espetáculo à parte. Uma espécie de palco avança sobre o salão das barricas e os visitantes saboreiam suas taças de vinho com os barris de carvalho sob os pés. Um anfiteatro todo de madeira passa um filmete sobre a história do projeto.  Com o título 6 anos em 15 minutos, mostra a evolução da construção da adega numa edição rápida e didática.

A prensa de vinho do século 19 desenhada na escola de Leonardo da Vinci

Antes de enfrentar a lojinha, a sala com obras de arte colecionadas pela família ao longo dos séculos é um diferencial da visita aos domínios da Antinori. O espaço tem como destaques a tela da árvore genealógica da família do século 16 e 17 pintada a óleo e a enorme prensa de vinho de madeira do século 19 desenhada na escola de Leonardo da Vinci, e recuperada pelos Antinori. Sua ampla etrutura, estrategicamente posicionada no salão, impressiona pelo estado de conservação e remete à tradição de fazer vinho. Obras de arte modernas, livros e registros históricos completam a coleção.

O último lance de escada leva ao restaurante e a uma vista espetacular da região de Chianti

Ok, prédio bonito não faz vinho bom. Também acho. Mas vinho bom costuma gerar receita suficiente para a concepção de “catedrais do vinho”, como esta. Falemos dos vinhos, então. A prova não poderia ser diferente: todos representantes da região de Chianti. Tomei goles do Villa Antinori branco 2011, Pèppoli Chianti Classico 2010 e Marchese Antinori Chianti Classico Riserva 2009. O Villa Antinori branco refrescante na medida, o Pèppoli pronto para beber, de preferência com um prato de massa e molho de tomate, e o Riserva, mais estuturado, com certeza vai melhorar com mais um tempo na garrafa. No restaurante da adega, Rinuccio 1180, dedicado ao fundador da dinastia, Rinuccio degli Antinori, uma deslumbrante visão da região finalizou nosso passeio. Lá fora, o sol da Toscana nos brindava com sua luz.

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