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Arquivo de novembro, 2013

segunda-feira, 25 de novembro de 2013 Nacionais, ViG | 17:09

Os rótulos da Aurora: vinhos nacionais corretos, saborosos e acessíveis

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Há genéricas e preconceituosas maneiras de tratar o vinho nacional.

  • Vinho nacional é caro.
  • Vinho nacional é ruim.
  • Beber vinho nacional é brega.

Há também tendenciosas e paternalistas maneiras de tratar o vinho nacional.

  • Vinho nacional não deve nada a nenhuma região do mundo.
  • Espumante nacional é melhor que champanhe francês.
  • O merlot nacional é o melhor do mundo.
  • Vinho nacional só é caro por conta dos impostos.

E há aquela que a meu ver é a melhor maneira de tratar o vinho nacional: como vinho. Ponto. Ele pode ser bom, ruim, caro, barato, diferente, bem feito, horrível e até o melhor do que um vinho de outro país (melhor do mundo fica um pouco difícil pois a concorrência é dura), mas ele não tem defeitos nem qualidades apenas por sua origem.

Este recorte vale para os rótulos da Aurora. A Aurora é uma cooperativa que abriga mais de 1.100 famílias, produz 50 milhões de quilos de uva e toda a classe de fermentados, de vinhos finos com indicação de procedência a vinhos de Garrafão Sangue de Boi, passando pela linha de coolers, e espumantes bem elaborados.

Além da presença em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, também elabora projetos na região de Pinto Bandeira, a segunda região demarcada a conquistar Indicação de Procedência (IP) no Brasil. Pinto Bandeira está 730 metros do nível do mar e tem se revelado um ótimo terreno para cultivo da uva tinta pinot noir e da branca chardonnay, além de espumantes interessantes e estruturados.

A Aurora tem uma proposta que justifica uma degustação desprovida de preconceitos aos seus produtos. Vale o que está na taça. E a qualidade constante de sua linha de vinhos finos e boa relação custo e benefício de alguns rótulos da cooperativa fundada em 1930 provam que é possível sim produzir vinhos de volume, com uma boa expressão de fruta, simples mas gostosos e com uma proposta de atender diversas faixas de consumidores.

 

O Blog do Vinho provou as safras mais recentes da Aurora e  destaca os seguintes rótulos:

Espumante Brut chardonnay

  • Aurora Brut Chardonnay

100% chardonnay

Um espumante de respeito, longo na boca, tem um toque tostado (o vinho-base passa 3 meses em carvalho francês antes da segunda fermentação) tem boa acidez e é gastronômico.

R$ 35,00*

Varietal Pinot Noir 2012

  • Aurora Varietal Pinot Noir

100% pinot noir

Pinot noir é uma uva difícil, classuda e sempre associada a grandes rótulos. Mas pode ser também uma bebida muito leve, fresca, descompromissada, como este varietal (vinho feito com uma só uva) descomplicado e límpido.

R$ 18,00*

 Aurora Reserva Cabernet Sauvignon

  • Aurora Reserva Cabernet Sauvignon 2012

100% cabernet sauvignon

Não espere aquele cabernet sauvignon muito potente, quase doce que chega do Chile e Argentina. Este cabernet é um vinho correto, com boa fruta, com pequena presença de madeira, bem gostoso. Sua baixa gradação alcoólica (12,5%) torna o vinho mais versátil na gastronomia. O melhor da linha reserva, na minha minha opinião.

R$ 25,00*

 

Aurora Chardonnay Pinto Bandeira 2011

  • Aurora Pinto Bandeira Chardonnay 2012

100% chardonnay

Trata-se de uma aposta na qualificação da Aurora. Devidamente etiquetado com o selo de “indicação de procedência” da região de Pinto Bandeira, a safra 2012 deste chardonnay tem um upgrade em relação à safra de 2011, que achei excessiva na madeira. Aqui o caldo é mais refinado e complexo, a fruta mais fresca e ampla, a sensação untuosa e amanteigada complementa o vinho e não sobrepõe a ele. Na temperatura certa, não muito gelado, chegam os aromas legais de flores, baunilha.(O rótulo da imagem é o de 2011)

R$ 38,00*

 

Aurora Pinot Noir Pinto Bandeira Alta

  • Aurora Pinto Bandeira Pinot Noir 2013

100% pinot noir

Aqui vale uma curiosa comparação entre a linha varietal – mais básica. Enquanto na varietal o caldo não cobra muita atenção e é até ligeiro na passagem pela boca, aqui se busca mais complexidade de aromas, maior persistência. Este pinot noir de fato chama mais atenção e apresenta características mais esperadas da uva, um toque terroso, um floral perceptível e um finalzinho de especiarias. Bem gostoso e honesto – não tenta ser um pinot noir da Borgonha, da Nova Zelândia e nem do Chile. Mas a expressão do que a região de Pinto Bandeira começa a oferecer para esta variedade. E com um bom preço. (O rótulo da imagem é o de 2012)

R$ 38,00*

 Pequenas Partilhas Cabernet Franc 2009

  • Pequenas Partilhas Cabernet Franc 2011 

100% cabernet franc

Quem acompanha este blog já topou com alguma indicação deste vinho, talvez o meu preferido da linha da Aurora. Não é engarrafado em todas as safras, apenas naquelas que a uva atinge a maturação e qualidade indicadas. A cabernet franc é uma uva que amadurece mais cedo – o que é uma vantagem numa região, como Bento Gonçalves, de chuvas constantes na época da colheita.Tem uma cor bem intensa, escura. Os seis meses de passagem em barricas de carvalho francês e americano dão fortaleza aos aromas e sabor, onde se destaca uma fruta mais escura, a baunilha e uma consistência macia e agradável. Vai bem com pratos de molho de funghi. (O rótulo da imagem é o de 2009)

R$  38,00*

Millesime 2009

  • Aurora Millésime Cabernet Sauvignon 2009

100% cabernet sauvignon

Esta é a sexta safra do Millésime, também um extrato só fermentado em anos considerados de excelência. A linha premium da Aurora é, comparada aos vinhos de mais alta gama do mercado nacional, uma boa relação de preço e qualidade. Envelhecido 12 meses em barricas francesas e americanas apresenta aquele pacote todo de aromas e paladar: um chocolate, especiarias e frutas mais escuras. Um caldo mais encorpado e bem estruturado que sugere acompanhar carnes com gordura e queijos duros.

R$ 55,00*

* preços médios sugeridos ao consumidor final pela vinícola 

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terça-feira, 19 de novembro de 2013 Brancos, Velho Mundo | 16:40

Chablis, um chardonnay com “gosto de pedra”

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O solo kimmeridgiano de Chablis,150 milhões de anos depois: argila, calcário e mineralidade

O solo kimmeridgiano de Chablis,150 milhões de anos depois: argila, calcário e mineralidade

Você gosta de vinho branco? Não? Então pode parar por aqui. O tema desta coluna é Chablis, uma pequena região da Borgonha, na França, distante 2 horas de Paris, de apenas 6.800 hectares, cortada pelo Rio Serein, e que cultiva (e é cultuada) há muitos anos apenas uma uva: a chardonnay, (Ou então siga um dos conselhos deste blog e prove mais vinhos brancos).

Leia também: Vinho branco, você ainda vai beber um 

Se você gosta de vinho branco, em especial da chardonnay, então siga em frente. Mas é bom avisar, a internacional chardonnay, cultivada em todo o mundo, tem na região uma assinatura que a define e a diferencia, que pode ser descrita com a imprecisa e ao mesmo tempo acertada expressão de mineralidade (vamos falar disso mais tarde). “Nós não fazemos chardonnay, nós fazemos Chablis”, filtra Christophe Cardona, diretor de exportação da La Chablisienne, a cooperativa que representa cerca de 25% dos produtores da apelação de Chablis.

Mas o que torna esta apelação única e seus vinhos apreciados pelos admiradores de goles brancos? Como sempre, é uma soma de fatores: solo, clima, posição e a experimentação do homem que desde o século 12 começou a plantar e testar as uvas mais adequadas para aquele pedaço de terra. No caso prevaleceu a chardonnay, a uva branca da Borgonha. Devemos mais essa aos monges cistercienses, os “inventores” do estilo da Borgonha.

Mas o solo, formado no período jurássico superior, há 150 milhões de anos atrás, é o segredo de Chablis, o toque que a diferencia. No tempo dos dinossauros a região era coberta por oceano e ali, onde séculos depois seriam plantadas as parreiras, viviam pequenas ostras e moluscos que forneceram a matéria-prima para a composição do solo calcário e argiloso que se formou, conhecido como kimmeridgiano. Devemos essa às ostras e moluscos.

Traduzindo os diferentes terrenos – e rótulos

São quatro estilos de vinho, oriundos das quatro apelações de terrenos, com diferentes graduações de qualidade e estilo: Petit Chablis, Chablis, Premiers Crus e Grands Crus.

Petit Chablis. É a base da pirâmide, são plantados em terrenos mais planos e o solo de formação geológica um pouco mais recente, o portlandiano (140 a 130 milhões de anos). É um vinho mais fresco, frutado, leve, para ser bebido jovem, um belo aperitivo e uma porta de entrada do estilo de Chablis.

Chablis. Trata-se área mais extensa da apelação, o terreno já é de encosta e pode ser encontrado nos dois lados do Rio Serein. Eles já são mais bacanas, com maior estrutura, uma mineralidade e uma tensão maior na boca. Podem ser abertos mais novos, quando se destacam suas qualidades de frescor ou depois de 3 anos até 8 anos de idade, principalmente quando os vinhedos são mais antigos, e aí se obtém maior complexidade riqueza de aromas. Já dá para ser bem feliz com uma garrafa destas e entender o que Cordona quis dizer com a diferença entre chardonnay e Chablis.

Premiers Crus. A compreensão das qualidades do solo kimmeridgiano e sua influência no vinho sobe um degrau no Chablis Primiers Crus. Os terrenos, também distribuídos nas duas margens do Rio Serein, têm exposição do sol a sudeste e sudoeste, que traz mais expressão de fruta ou uma mineralidade mais pronunciada. Quem tiver paciência de aguardar seis anos vai beber um vinho mais complexo, denso e estruturado. Com ou sem tempo de garrafa, o decanter é um instrumento que vale usar, pois amplia as qualidades gustativas e olfativas do vinho.

Grands Crus. É o topo da pirâmide, a maior expressão do chardonnay desta apelação única. Um pequeno trecho de apenas 103 hectares e sete áreas delimitadas  (somente o Château Lafite-Rothschilde, Bordeaux, tem 178 hectares). Aqui a mineralidade quase se materializa com todos os elementos que podem criar um grande chardonnay de um terroir exclusivo. Um vinho que melhora com o tempo na garrafa – algo como oito anos de envelhecimento para atingir sua plenitude. E que cobra caro por isso.

Neste vídeo 3D de quatro minutos da cooperativa La Chabliseinne, com versões em francês e inglês, fica fácil entender os terrenos de Chablis, sua localização e características.

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Mineralidade: quem botou pedra no meu vinho?

“As primeiras grossas gotas de chuva que antecedem uma tempestade de um dia quente e seco expressam perfeitamente o que é a mineralidade”, ilustra o diretor-geral da La Chablisienne, Damien Leclerc. Ajudou? Não muito, né? O conceito de mineralidade do vinho, para aqueles que estranharam seu uso aqui neste texto, é um discussão que vale um outro artigo, afinal pedra não tem aroma ou gosto. Mas pode ser resumido em uns quatro parágrafos. Como a pedra vai parar no vinho então? Trata-se de uma descrição, uma sensação ou um neologismo?

O enólogo e professor Denis Dubourdieu no artigo “Quelques réflexions sur la minéralté des vins”, vai direto ao ponto:  “Se as rochas têm um gosto, é do material orgânico impregnado nela”. E o chamado aroma da faísca de pedras que se atritam (ou pedra de isqueiro) é resultado do componente químico benzenemethanethiol, encontrado sobretudo na chardonnay. Tem gente que afirma que as pedras transmitem esta mineralidade ao vinho. Muitos críticos chegam a definir certos chardonnays como suco de seixos. Para os cientistas isso é uma balela. As pedras não têm como transmitir minerais para a uva.

Mas algo misterioso liga esta sensação, esta particularidade de certos vinhos brancos a algum lugar, afinal há vinhos que expressam esta sensação e outros não. E não há chardonnay como os de Chablis. Para o produtores da região a mineralidade incorporada aos vinhos é o resultado do solo kimmeridgiano e não se fala mais nisso. Provavelmente a mineralidade sentida no vinho seja resultado de uma série de combinações do solo argiloso e calcário kimmeridgiano e dos microorganismos que se formam em seu entorno e do material orgânico do lugar que transmitem à planta os minerais que ela precisa. Esta é uma tese em uso na região também. O processo é mais complicado, e envolve o processo de fotossíntese, de interação com bactérias que extraem das pedras minerais como fósforo, iodo, magnésio.

A mineralidade, e aqui todos concordam, é mais uma sensação, uma definição que inclui numa mesma cesta um vinho natural, puro, ligado ao seu terroir, com uma acidez cortante, uma tensão viva, um frescor pungente, uma leveza fina, que provoca um salivação gostosa, que se opõe a um vinho opulento, alcoólico, concentrado, pesado, aromático e excessivo na boca e no nariz. Para Damien Leclerc, “ A mineralidade revela uma certa forma de pureza, uma visão cristalina do vinho”. De qualquer forma é uma expressão muito utilizada hoje pelo mercado, pelos consumidores e define o estilo Chablis de ser.

É fácil encontrar Chablis para comprar no Brasil?

Os vinho Chablis são muito adaptáveis ao nosso clima e culinária. São refrescantes, amplos, gostosos de beber e pouco alcóolicos. Expressam esta sensação mineral que é uma delícia – mesmo que você não a perceba e desconfie deste lenga-lenga todo – e traz uma experiência diferente no conjunto da obra. É um vinho solar, um vinho litorâneo por excelência. É o chamado par perfeito para ostras (todo mundo diz isso, mas tenho de confessar que não aprecio ostras, portanto não é uma conclusão empírica), combina maravilhosamente com saladas, peixes e num patamar acima segura um leitãozinho, frutos do mar, cremes etc. Ao mesmo tempo que não são rótulos exatamente populares (não estão naquela faixa abaixo dos 50 reais, começam lá pela casa do 80, 90 reais), também não são difíceis de encontrar. As principais marcas estão representadas no país pelas grandes importadoras: La Roche (World Wine), Louis Jadot, Faiveley, Joseph Drouphin (Mistral), William Fevre (Grand Cru), Domanine de La Cour du Roy (Casa Flora), J.M. Brocard (Zahil). Recentemente este Blog do Vinho provou os rótulos da Chablisienne (Interfood) e Sebastien Dampt (St Marché).

Chablisienne

A Chablisienne é uma espécie de Vinícola Aurora da França. Ambas são cooperativas compostas por um grande grupo de vinicultores. São 300 em Chablis, 1.100 no Rio Grande do Sul. E controlam à sua maneira e com seus respectivos objetivos a qualidade e a distribuição dos produtos. Criada em 1923, é responsável 25% do Chablis que é produzido na região, com propriedades espalhadas nas quatro apelações disponíveis e dona do único Château de Grand Cru da região, o Grenouilles.

Seus dois Chablis importados no Brasil são deliciosos, mas de personalidades diferentes:

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O La Chablisienne “La Pierrelée” 2011 traz aquela sensação mineral e de pureza de paladar discutida aqui, mas tem um corpo mais denso, um frutado mais persistente e uma pequena untuosidade. Um Chablis com estutura e intensidade. Um vinho que segura bem uma carreira-solo, não pede comida, e tem preço similar ao Petit Chablis. (R$ 98,00)

 

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O La Chablisienne “La Sereine” tem um lado mais elegante, a acidez presente, o que provoca uma salivação persistente. As frutas são mais cítricas, se escondem para depois se revelar e o tal toque mineral é mais sutil, mas mais nobre. Melhor acompanhado com um prato de comida, um peixe grelhado com algum creme. Elegância é um conceito tão volátil quanto mineralidade, mas se encaixa com perfeição a este vinho. (R$ 115,90)

 

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Já no mundo dos Primiers Crus, este “Mont de Milieu” foi decantado por uma hora antes de ser servido. Ainda estava jovem, mas mostrava sua força e o resultado de passar 15 meses em contato com as borras no tanque, que traz um tostado, persistência na boca, e uma sensação que amplia os sentidos do frescor e da tensão da fruta e da acidez. Uma delícia que merece um minuto de contemplação. (R$ 151,90).

Sébastien Dampt

Como a rede de supermercado de São Paulo St Marché também atua como importadora – são 100 rótulos atualmente importados diretamente, com a perspectiva de triplicar a oferta em três anos –, não deixa de ser curioso encontrar caixas de Chablis disputando espaço com caixas de suco de laranja e pés de alface. E saber que há público para este branco de estirpe. Tem algo mudando nos hábitos do consumidor.

Petit-Chablis-Sebastien-1O Sébastien Dampt Petit Chablis “Terroir de Milly” 2012 é um representante honesto de sua classe. Leve, fresco, jovial, fácil de beber, boa acidez no final da boca, provoca uma salivação que enche a boca e pede outro gole. Você coloca o vinho na taça e em vez de subir aquele aroma  amanteigado da fermentação e do uso de barrica aparece um cítrico suave, um flor branca harmoniosa. O corpo é leve, a bebida refrescante. Um vinho branco para abrir a refeição, acompanhar uma saladinha, um  papo descontraído. (R$ 92,00)

 

CHABLIS-2008-1ER-CRU-PETIT-FORMATO Sebastien Dampt Premier Cru “Vaillons” tem uma proposta de uma amizade mais longa. São vinhas de mais de 60 anos, o que aporta uma sensação mais consistente de mineralidade ao vinho. Bebê-lo agora significa usufruir seu caráter de fruta e a sensação mais cortante da mineralidade. Com o tempo deve evoluir suas camadas aromáticas, uma fruta mais potente e uma sensação mineral mais fina e persistente. São duas experiências válidas. Provei a safra recente e já estava uma delícia. (R$ 149,00)

 

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sexta-feira, 1 de novembro de 2013 Degustação, Novo Mundo | 10:34

O teste da idade: os grandes vinhos chilenos envelhecem bem? (E vale a pena aguardar esta evolução?)

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A Wines of Chile – associação que vende a imagem do vinho chileno pelo mundo – promoveu uma degustação com os homens que cospem vinho e profissionais da área para mostrar o potencial de guarda dos grandes rótulos de seu país. O desafio era saber a opinião desta gente bacana sobre uma questão muito direta: os vinhos chilenos envelhecem bem? Traduzindo: como os grandes tintos reagem à  passagem do tempo, como evoluem (e se evoluem) os aromas, a fruta, a acidez e o tal do tanino? Enfim, o bichão melhora  com o tempo em garrafa ou entrega os pontos?

Esta é uma discussão que na verdade interessa a pouca gente – quem é que guarda uma garrafa de vinho por dez anos na adega ou no armário da cozinha? -, pode parecer muito acadêmica – e é -, mas para os enólogos, sommeliers e especialistas é a prova de fogo para um vinho mostrar o seu valor. Para as marcas é quase como um marketing regressivo – buscando o valor do passado para vender o futuro.

Seis vinhos do primeiro time participaram do evento com uma safra recente (2010) e outra mais antiga. Eles foram escolhidos pois representam o vinhedos de norte a sul do país, e traduzem o sentido do lugar. Foram eles:

Viña Altair

  • Altair 2002 e 2010

Concha y Toro

  • Don Melchor 1996 e 2010

Viña Errázuriz

  • Don Maximiano Founders Reserve 2000 e 2010

Viña Lapostolle

  • Clos Apalta 2002 e 2010

Viña Montes

  • Montes Folly 2000 e 2010

Santa Rita

  • Casa Real 2002 e 2010
Doze vinhos e nenhum segredo de idade

Doze vinhos e nenhum segredo de idade

O maestro que conduziu a degustação foi o jornalista e crítico de vinhos Patricio Tapia, autor do Descorchados, o Guia de Vinhos Chilenos e Argentinos mais respeitado entre os que entendem e não entendem de vinho. Tapia explicou que ambas as safras – mais recentes e mais antigas – eram de anos mais frios e frescos, pois nesta condição climática o terrenos podem mostrar melhor suas características, o pH é mais adequado e a acidez mais presente. Ou seja, se você tinha aprendido lá trás que as melhores safras do Chile eram de anos ímpares, esqueça.

Leia Também: Chile e Argentina dominam o mercado de importação no Brasil

O onipresente powerpoint mostrava as regiões, os enólogos e um resumo das duas safras de cada vinho. Tapia fez uma introdução, apresentou dois vinhos e passou a palavra aos enólogos convidados – Cecilia Torres (Santa Rita), Gustavo Hormann (Montes), Angélica Carrasco (Lapostolle) e Ana Maria Cumsille (Altair) – que vieram  defender seu terroir. A cada rodada um especialista da plateia era convidado a dar suas impressões (Abre parênteses: é uma situação um pouco constrangedora esta, e com um resultado pra lá de suspeito. Quem vai falar mal do vinho, principalmente na frente dos enólogos? Claro que não há defeitos em rótulos deste gabarito, nem grandes arestas, mas claramente se percebe um desconforto no discurso hesitante ou então se parte para os elogios descarados, num oba-oba que não acrescenta nada ao evento. Mas fica parecendo democrático… Fecha parênteses)

Bom, e chegamos ao sexto parágrafo e ainda não se revela qual a resposta à pergunta: o vinho chileno envelhece bem? Opinião unânime, incluindo deste humilde cuspidor de vinho, é: SIM! Mas envelhecem como um vinho do novo mundo deve envelhecer, sem as características dos colegas da Europa, por exemplo. A impressão que fica, porém, é de que as safras atuais envelhecerão melhor. Têm mais extração de fruta, mais exuberância, um tanino presente e macio, além do aprendizado destes anos todos do manejo de uma região que afinal de contas ainda é jovem comparada ao velho mundo. Como observou Tapia, quanto melhor o vinho evoluir sua fruta, modificando-se sem perder a presença, melhor o vinho chileno passará pelo teste do tempo.

Não era uma prova para ter vencedores, mas como o ser humano tem como padrão de comportamento hierarquizar suas escolhas, foi inevitável. A grande maioria (pelo menos quem eu consultei) elegeu o Casa Real 2002 como a mais fina evolução, com aromas de frutas mais maduras misturadas a toques de tabaco, e as mesmas frutas se confirmando na boca, uma delícia de tomar, de cheirar e de voltar na taça para encontrar novos sabores. O Casa Real 2010 também foi bem, boa extração de fruta, ótimo final, jovem mas pronto para beber. A comparação entre as duas garrafas foi muito didática do efeito do tempo, que aqui só melhorou a bebida, trazendo maior substância e sutileza ao sabor e aromas.

Leia também: Vinhateiros independentes do Chile: pequenas vínicolas, grandes vinhos

Outro destaque foi o Don Maximiano – um vinho que sempre me surpreende em degustações e competições. A boa notícia é que a safra atual, 2010, tem uma fruta fresca muito gostosa e presente, um bom corpo, macio, uma doçura envolvente. Passado alguns minutos na taça um chocolatão invade a taça. Seu igual de dez anos atrás (2000) também se comportou bem na garrafa, perdeu um pouco da fruta, mas integrou melhor com a madeira, ganhou uns aromas mais terrosos, um delicadeza e uma boa acidez. O famosão Don Melchor 2010, um tinto mais de macho, concentrado, de fruta negra, um pouco de coco no nariz, ainda precisa amaciar um pouquinho os taninos (pega no final da boca), mas há agrada de imediato, mas o 1996, portanto o exemplar mais antigo, já estava indo embora. A fruta estava escapando da taça, uma sensação química era bem perceptível, aquelas notas de champignon, terroso. O que pode até levantar a sobrancelha da dúvida do tempo que os tops chilenos aguentam na garrafa. Como disse o Tapia, ‘O desafio é prolongar mais ainda o vinho.”

O Montes Folly melhorou com o tempo, sem grandes transformações, ganhando mais acidez e frescura, atenuando a potencia da syrah. O Altair 2002 não alterou tanto, mas também melhorou a bebida trazendo mais frescor e leveza e um toque gostoso de tabaco. E por fim o Lapostolle, que diante dos colegas do embate ficou no empate entre os anos. Pouca diferença de evolução, mantendo suas principais características de potência, de influência marcante da madeira meio deslocada nesta exibição de idade.

O vinho precisa se manter vivo - e você também!

O vinho precisa se manter vivo – e você também!

Mas vale a pena aguardar esta evolução? 

O lado acadêmico e teórico diz que sim. O envelhecimento, na realidade, é uma troca, um pacto entre o consumidor e o vinho. Ganha-se algumas coisas e perdem-se outras. Na sua maioria os vinhos melhoraram com o passar dos anos (ou os anos melhoram com o passar dos vinhos, como se diz por aí). E a melhor prova disso é exatamente a de comparar duas ou mais garrafas de safras diferentes. Os vinhos com capacidade de guarda, mesmo os do novo mundo, podem até perder a exuberância da fruta com o tempo na garrafa, mas os taninos se amaciam e o conjunto fica mais equilibrado e harmonioso, a madeira se integra mais à bebida. Surgem neste estágio aromas e sabores deliciosos e oníricos, tornando o vinho mais complexo e fascinante.

Mas o lado prático diz “depende”. Guardar vinhos para beber lá na frente é visão otimista da vida (o vinho precisa se manter vivo, mas você também…). Há o risco do tempo – pois existe um auge teórico, o Everest da curva de evolução do vinho, em que boa parte da fruta permanece viva e praticamente toda a complexidade do envelhecimento se mostra. Mas também existe a curva descendente, quando o vinho vai perdendo suas qualidades até desaparecer. Outro risco? A garrafa pode sofrer alguma avaria e o caldo virar vinagre. Por fim, há o fato de que você precisa apreciar as mudanças que o tempo provoca no vinho, trazendo maior acidez, menos volume em boca, transformando a fruta exuberante em uma fruta mais delicada, diminuindo a presença da madeira e modificando os aromas originais.  O que pode provocar a seguinte digressão: “Mas este não é o vinho que eu conheço e aprecio.”

Leia também: O envelhecimento do vinho: o mito da idade

Dá para pular esta espera toda para comprovar a veracidade destes dados? Sim, mas aí é preciso investir uma certa grana: safras mais antigas de vinhos de excelência são difíceis de encontrar e pesam no bolso. O jeito é encontrar um amigo rico que possa proporcionar esta brincadeira, ou um incauto sem conhecimento que apareça com um Don Melchor, um Don Maximiano, um Casa Real de safras mais antigas e proponha: “Achei estas garrafas antigas no fundo da adega do meu tio que morreu recentemente. Será que presta?” Pode ser o início de uma grande amizade…

 

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