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Arquivo de junho, 2014

quinta-feira, 19 de junho de 2014 Novo Mundo, Tintos, Velho Mundo | 14:23

O dia em que a carménère avinagrou a tempranillo

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Gol do Chile e ressaca da seleção espanhola.

Gol do Chile e ressaca da seleção espanhola. Foto AP

Você deve ter visto, ou lido, a humilhação que seleção do Chile impingiu ao time da Espanha ontem (dia 18), não? Um 2 x 0 que eliminou a seleção campeã da Copa de 2010 no segundo jogo da primeira fase da Copa do Mundo do Brasil. No dia em que o Rei Juan Carlos abdicou do trono, parece que o time espanhol abdicou também das glórias do passado. #NãoVaiTerCopa para a Espanha!

Tá. Mas o que isso tem a ver com uma coluna de vinhos?

Bão, além de ser uma oportunidade de o Blog surfar no tema da copa, traz uma analogia que cabe neste espaço. O embate no campo de futebol pode ser transportado para o terroir dos vinhedos, onde disputam a carménère, a uva símbolo dos vinhedos chilenos, e a tempranillo, cultivada amplamente na Espanha.

A tempranillo, em espanhol, significa prematuro, ou seja, uma uva que amadurece antes das outras tintas. Assim, amadurece na primeira fase e não vai até o final, por exemplo….Recebe outros nomes na Espanha: tinto fino, tinta del país, tinta toro e ull de llebre. Em Portugal também atende pelo nome de tinta roriz (no Douro e Dão) e agaronês (no Alentejo). Sinônimo de vinho de qualidade nas regiões de Ribera del Duero e Rioja, e em boa parte da Espanha, produz rótulos estrelados e caros, como aquele reunido pela seleção espanhola: o mítico Vega-Sicilia  Único, o Aalto, Marquês de Riscal, Viña Ardanza, Pesquera, Pingus, Bodegas Mauro e a lista segue grande. É uma uva que cresce quando envelhecida em barricas de carvalho americano, sugere tintos com muita frutas maduras, aromas de coco, baunilha, tostados e um baita potencial de envelhecimento – e uma legião de fãs.

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A carménère, de origem francesa, mas atualmente pouco cultivada em Bordeaux, seu berço primário, encontrou no solo chileno um terroir para chamar de seu. Seu nome vem da cor da casca, carmim, que colore o vinho com a mesma matiz. A história é conhecida, mas vale contar aqui. A carménère era confundida com a merlot, até quem em 1994 um exame de DNA confirmou a paternidade. Aí o marketing chileno caiu matando e tornou esta como sua uva símbolo, mesmo que raramente produza os melhores caldos do país e também seja apenas a terceira uva mais plantada, atrás da cabernet sauvignon e da merlot. Melhor quando usada em corte com outras uvas, aos poucos vem encontrando seu canto à capela e já exibe alguns varietais excelentes, principalmente aqueles provenientes da região de Peumo, no Vale do Cachapoal. Em uma seleção vitoriosa de varietais (vinhos elaborados como apenas uma única uva)  é obrigatório  constar: Carmín de Peumo, da Concha y Toro, Terrunyo, da mesma vinícola, Herência, da Santa Carolina e Pehuén, da Santa Rita.

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 Tempranillo X Carménère

A disputa é muito parecida com a das seleções da Espanha e do Chile. Velho Mundo X Novo Mundo. Tradição X Novo. Campeão X Promessa. Se a tempranillo amadurece mais cedo, como sugere o nome, a carmenénère alcança seus melhores dias mais tarde do que outras tintas, como a merlot, por exemplo, com a qual era confundida (e por isso mesmo anos atrás revelava muitos traços vegetais e verdes). Na taça elas são muito diferentes. O brasileiro se acostumou com o sabor da carménère, é um tinto mais fácil de beber, macio, às vezes com toques de ervas, uma pimenta negra e amoras. A tempranillo da linha mais básica apresenta tintos  estruturados, macios e não  tão potentes como seus colegas envelhecidos por longo tempo em barricas de carvalho. Depende muito da ocasião, da comida, e da qualidade da vinícola obviamente, para um chileno ser melhor que um espanhol ou vice-versa. Mas ambos merecem estar classificados numa copa de vinhos.

Mas estamos falando de seleções, aqui. Dos melhores do mundo.

Carmín-de-Peumo-05-cópia

E colocar numa disputa no campo dos vinhedos um Vega-Sicilia e um Carmín de Peumo, por exemplo, é algo fora de propósito. Quase uma sacanagem. E claro uma provocação deste colunista. O Vega-Sicilia é uma instituição, um vinho de muita expressão, potência, elegância e longevidade e um copo cheio para aqueles que adoram enfileirar descrições de aromas e sabores percebidos (ou inventados). O Carmín de Peumo é um vinho excelente, merece sempre altas notas dos críticos e já tem uma legião de apreciadores que apostam na evolução de suas garrafas. Mas é outra pegada. Outro estilo de jogo, talvez surpreenda desde o primeiro minuto, pois já entra pronto para jogar. Um Vega-Sicilia está mais para um jogo que precisa de aquecimento e um campeonato mais longo para mostrar seu valor.

Vega Sicilia02Mas há sempre uma chance de uma disputa entre um top tempranillo, estrelado como uma seleção espanhola, ser eliminado por um carménère de alto coturno, mesmo se avaliado pelos paladares mais exigentes. Uma garrafa bouchonée, ou mesmo avinagrada, onde a qualidade se esvai, o aroma desagrada e o sabor decepciona pode derrubar qualquer ícone. Acontece nos melhores rótulos. E, pelo visto, com as melhores seleções. Chi-chi-chi le-le-le!

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Agradeço ao colunista Silvestre Tavares Gonçalves, do Blog Vivendo a Vida, que começou esta provocação num post de seu Facebook, e me inspirou a criar o título e a cometer este texto.

 

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domingo, 1 de junho de 2014 Nacionais, Tintos, Velho Mundo | 21:28

Vinho nacional pode ser caro?

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Dez entre dez especialistas de vinho reconhecem que a qualidade dos vinhos brasileiros vem aumentando e – principalmente – se diversificando. Hoje temos experiências em diferentes regiões do país, e o mapa de produção inclui latitudes inimagináveis tempos atrás como Minas Gerais, Goiás e Pernambuco.  Santa Catarina, com seus vinhos de altitude, mostram caldos de valor, além é claro do Rio Grande do Sul, avançando cada vez mais para os terrenos mais próximos da fronteira com o Uruguai. Também há experiências com diferentes variedades de uvas, métodos, cultivos orgânicos, biodinâmicos, pequenas parcelas, produtores experimentais e diferentes concepções de espumantes.

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Dez entre dez especialistas também são unânimes em bater na mesma tecla. O preço. O vinho nacional é muito caro, dizem, e muitas vezes também digo. Seguido do preconceituoso axioma “Para um vinho nacional até que é bom”, junta-se o “Por este preço eu tomava um bom vinho italiano ou argentino”, por exemplo. Será que esta máxima é sempre válida? Então vou contar uma historinha recente.

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Prova às cegas: nove homens e nove sangioveses

Prova às cegas: nove homens e nove sangioveses

Um grupo de degustação do mais alto gabarito do qual tenho a honra de participar promoveu recentemente uma prova às cegas – para quem é novo aqui eu explico, trata-se de uma degustação na qual os rótulos são revelados apenas no final, para não influenciar a avaliação – cujo tema era a uva italiana sangiovese. A sangiovese é a uva-símbolo da Toscana, responsável pelo vinho Chianti, Chianti Riserva, Chianti Classico, o Brunello di Montalcino e também parte da receita de alguns supertoscanos, onde a sangioveses é misturada às internacionais cabernet sauvignon ou merlot. A sangiovese é, enfim, uma  uva que fala italiano, e tem sotaque dos habitantes da Toscana!

Leia também: Galvão Bueno também torce pela Itália, pode isso Arnaldo?

Nove participantes marcaram presença e a mesa do restaurante escolhido exibia nove taças dos tintos na frente de cada degustador, para espanto dos demais clientes do estabelecimento que contornavam a mesa de olhos arregalados. O nível dos goles estava excepcional. Alguns caldos se destacavam dos demais,  eclipsando seus concorrentes, pois apresentavam maior talento para desenvolver aromas e sabores deliciosos, sempre escoltados por uma acidez característica. Alguns incautos arriscavam um palpite, este aqui trata-se de um Chianti, aquele tem uma pegada mais concentrada, pode ser um Brunello. E por aí vai. É um grupo que reveza comentários mundanos com pitacos sobre a bebida. Rodada de goles completa, anotações feitas, pontuação finalizada, os rótulos começam a ser revelados, dos menos apreciados aos mais votados.

Vale destacar que entre os bebedores sempre há um provocador que resolve levar um curinga, que geralmente é um vinho que obedece o critério do tema e/ou país e região mas é uma surpresa pelo preço, pelo produtor, pela região ou mesmo pela uva. Nosso grupo não foge à regra e um doutor renomado cumpre este papel. Dito isso, voltemos ao rótulos. O grande vencedor (as notas não foram todas compiladas) foi um Ceparello, Isole e Olena do ano 2000, um toscano mais evoluído, com grande expressão em boca e aromas muito elegantes.  A lista completa está abaixo.

  • Col D’Orcia, Brunello di Montalcino, 1991
  • Fontalloro, 2008, Toscana
  • Le Potazzine, Gorelli 2011, Rosso di Montalcino
  • Fonterutoli, Mazzei, 2009, Chianti Classico
  • Berandenga, 2008, Fèlsina, Chianti Classico
  • Badia a Passignano, 2008, Antinori, Chianti Classico
  • Cepparello 2009, Isole e Olena, IGT
  • Michelli, 2003, Villa Francioni, Brasil
  • Cepparello 2000, Isole e Olena, IGT
As garrafas devidamente esvaziadas. Oito italianos e um infiltrado brasileiro

As garrafas devidamente esvaziadas. Oito italianos e um infiltrado brasileiro

Leia também: Sob o sol da Toscana, uma visita à nova vinícola de Antinori

Se você leu a lista com atencão, já reparou uma intromissão. Pois é,  a grande surpresa, um dos vinhos que ficou entre o segundo e terceiro rótulos mais apreciados pelo coletivo, ombreado por outros sangiovese importados da Itália, foi o Michelli, da Villa Francioni, que apesar do nome é um tinto verde-amarelo de Santa Catarina. Surpresa na mesa (para ser honesto um dos integrantes da mesa não gostou do vinho). Confesso que foi meu segundo melhor vinho, entre as tais nove garrafas. Bom salientar que ele é 80% sangiovese, o restante cabernet sauvignon e merlot. Belo vinho, equilibrado, muito saboroso. Sangiovese brasileiro, mas com sotaque italiano. Bom pra caramba, belo!

Você pagaria mais de 250 reis por este vinho nacional?

Você pagaria  250 reis por este vinho nacional?

E 450 reais por este italiano?

E 450 reais por este vinho italiano da mesma uva sangiovese?

Diante da incredulidade de alguns veio a questão do preço: “mas quanto custa?” É um vinho de mais de 250 reais. O quêêêêê?!?! Um vinho nacional custando mais de 250 reais?!?!?! Pois é, mas às cegas foi elogiado por todos, bebido com rigor e prazer. O que nos  permite uma reflexão, que é mais uma provocação e nos remete ao título deste post: vinho nacional pode ser caro? Por que não? O que vale não é o teste da taça? Se é um vinho bom, de produção limitada, ótima qualidade, qual o problema de ser caro? Apenas por que é brasileiro? Se fosse italiano, de mesmo preço, portanto caro, não seria bom seguindo apenas um critério gustativo? Alguém iria reclamar do preço se o Michelli fosse um rótulo do Antinori? Basta comparar que o mesmo Cepparello Isole e Olena, este da safra de 2009, estava à mesa, custa 450 reais, e ficou atrás do Michelli…

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Esta mesma discussão vale para vários bons exemplares nacionais de baixa produção, excepcional qualidade, que podem vir de pequenos e audaciosos  produtores como Marco Danielle, Era dos Ventos, Domínio Vicari ou mesmo grandes vinícolas, em safras excepcionais ou selos comemorativos. Não se trata de defender preços altos, nem de ter uma postura ingênua. Eu duvido que desembolsaria 250 reais pelo Michelli se não conhecesse, como raramente desembolso 250 reais por uma garrafa de vinho qualquer.  Há vinhos realmente muito caros pelo que oferecem: nacionais e importados. A questão é mais de poscionamento. Quando é bom e é importado então vale pagar caro? É bom, mas é nacional, então não vale? Qual a régua para medir a relação preço e qualidade: a bandeira ou o vinho? Fica aqui a provocação. Atire a primeira garrafa quem nunca parou para refletir sobre o assunto…

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