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Arquivo de abril, 2015

quinta-feira, 30 de abril de 2015 Tintos, Velho Mundo | 11:31

Um vinho francês de bom preço e um sapo arrogante

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Vinhos do Languedos, sul da França: um príncipe entre os sapos!

Vinhos do Languedoc, sul da França: um carignan de vinhas velhas entre os sapos!

Então você quer beber um vinho francês e na hora de escolher um rótulo fica dividido entre deixar de pagar a mensalidade escolar do seu filho e gastar a grana comprando um premiado Bordeaux, um elegante Borgonha, um clássico Champagne ou acaba se arriscando num rótulo genérico de supermercado mais barato e fica com aquela impressão que vinho da terra do Asterix é só para poucos mesmo. Decepção.

Assim como a França vitivinícola não se resume a estas três regiões clássicas, os valores não precisam ser tanto ao céu nem tanto à terra. Há vinhos de boa qualidade e preços médio de várias regiões da França que chegam aqui no Brasil também. E são agradáveis, com alguma tipicidade, mais despretensiosos, nem por isso mal cuidados.

O próprio governo francês trabalha neste sentido. O escritório da embaixada francesa, através da agência Business France, montou um estande na última ExpoVinis cuja estratégia era mostrar ao mercado que grande parte da produção do país é feita para um consumo do dia a dia, sem protocolo, mas mantendo qualidade. E apresentou rótulos de diversas regiões. O lema era: “Vinhos franceses: não precisa complicar. Basta amar!”

Foi nesta pegada que segui para uma degustação de tintos e brancos da Domaines Paul Mas, da região do Languedoc, Sul da França, dia desses. Se você nunca ouviu falar do Paul Mas provavelmente um de seus vinhos já deve ter  chamado sua atenção: Arrogant Frog. Se não pelo vinho, pelo menos pelas simpáticas figuras aí de baixo.

Desprentensioso, divertido, mas arrogante

Despretensioso, divertido e um marketing moderno

E foi mirando o sapo gabola que imaginei que iria conduzir este texto. Mas este negócio de pensar o texto antes dos fatos costuma dar errado. Outro vinho, de preço nada arrogante, no entanto, me chamou mais a atenção.

Paul Mas

Mas antes do vinho, um pedágio: a apresentação da vinícola e seu projeto. A Domaine Paul Mas não é um empreendimento qualquer, não: são nove diferentes vinhedos cobrindo toda a extensa região de Languedoc, 478 hectares de vinhedos próprios (92 biodinâmicos), 1285 hectares de vinhedos de parceiros sob contrato, mais de 30 variedades de uvas plantas, 8 enólogos, 130 empregados, mais de 2 milhões de caixas de vinho produzidas e exportadas para 58 países nos 5 continentes. O conceito: produzir vinhos do Velho Mundo com a Filosofia do Novo Mundo, ou como está descrito no site da empresa “ O segredo da qualidade de nossas uvas e nossos vinhos está no fato de que trabalhamos com o espírito de uma pequena vinícola mas com a operação em escala de uma vinícola do Novo Mundo”.

Ah, uma historinha sobre o rótulo do Arrogant Frog. Como se sabe os franceses não têm a fama de serem as pessoas mais modestas e simpáticas deste planeta. Por conta desta característica que os identifica, seus vizinhos e eternos rivais ingleses costumam tratá-los como batráquios. Juntando o fato de que na época de seu lançamento os Estados Unidos estavam boicotando os produtos franceses já que o país se recusou a aderir à Guerra do Iraque, a ideia de responder com humor a situação revelou-se uma baita ferramenta de marketing. Daí surgiu a linha Arrogant Frog e seu rótulo chamativo, e lá se vão 10 anos.

Paul Mas Carignan Vieilles Vignes 2013.

Então estou eu na tal degustação na esperança de juntar minha ideia de explorar o sapo num texto e recomendá-lo aos leitores. E topei com um vinho muito mais bacana para recomendar: o Paul Mas Carignan Vielles Vignes 2013. É dele que falo abaixo.

Paul Mas Vielle Vignes Carignan: um vinho do seu lugar

Paul Mas Vielile Vignes Carignan: um vinho que representa sua origem

Paul Mas, Carignan Vieilles Vignes 2013

Produtor: Chateau Paul Mas

Região: Languedoc – Vale do Hérault

Uva: 100% carignan

Preço: R$ 79,00(no site da importadora Decanter está em promoção por R$ 67,00)

E voilá! Pelo mesmo preço de um Arrogant Frog acho que tem mais vinho nesta garrafa de 100% carignan de vinhas de mais de 50 anos. O bichão tem boa concentração, um corpo médio, taninos suavizados pelos seis meses de barricas americanas (20% novas). Tem um aroma mais doce, com traços da passagem pela barrica, fruta negra madura e um toque terroso delicioso. Foi bem com o confit de pato, retratado abaixo.

Vai um pato aí?

Vai um pato aí? Um carignan, s’il vous plait!

Ficou curioso pelos sapos topetudos, né? Muita gente já conhece, mas vamos a eles: dos dois Arrogant Frog que provei, o Syrah-Viognier 2013 (91% syrah de vinhas de 20 a 30 anos e 9% viognier – R$ 71,50) e Reserve IGP 2013 (um típico GSM: grenache, 30%, syrah, 45%, e mourvèdre, 25% – R$ 79,00), acho o segundo mais típico de uma região mediterrânea, mais gostoso de tomar e gastronômico, com um toque nítido de especiarias e notas defumadas, cai muito bem com uma comida de bistrô, por exemplo. Há uma linha relativamente grande do Arrogant Frog no mercado brasileiro. Entre eles os  divertidos tutti-frutti, rouge, rosé e branco destinado ao público mais jovem.   Descompromissados, resolvem uma festa, uma refeição sem grandes pretensões, mas pelo mesmo o preço (ou até menor, como a atual oferta), o Paul Mas Carignan Vieilles Vignes dá mais prazer.

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quarta-feira, 22 de abril de 2015 Blog do vinho, Brancos, Degustação, Espumantes, Nacionais, Novo Mundo, Porto, Rosé, Tintos, Velho Mundo | 14:00

Conheça os melhores vinhos do concurso Top Ten 2015 da ExpoVinis

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Como acontece todos anos  os homens que cospem vinho se juntaram mais uma vez para realizar o concurso Top Ten, versão 2015 (que bem poderia chamar Os 10 Mais), da 19º edição da Expovinis, a maior feira de vinhos da América Latina. O concurso reuniu profissionais, especialistas, jornalistas e um palpiteiro (este que vos escreve que participa pelo oitavo ano consecutivo) para provar vinhos às cegas de vários países e estilos e eleger os 10 melhores. Quem acompanha este blog sabe da lisura deste concurso e de como ele funciona. Para quem chega aqui pela primeira um rápida explicação (ou clique nos links distribuídos pelo texto). A tabela está logo abaixo, seguida das fichas dos vinhos

Top Ten como funciona

Os vinhos que concorrem na degustação do Top Ten da ExpoVinis são aqueles enviados pelos expositores/produtores. Não são exatamente os melhores vinhos da feira, nem é esta a pretensão. Concorre quem quer. Eles são divididos em uma dezena de tópicos. Em 2015 foram 125 amostras distribuídas entre as seguintes categorias: espumantes nacionais (16), espumantes importados (8), brancos importados (15), brancos nacionais (12), rosados (10), tintos nacionais (18), tintos novo mundo (13), tintos velho mundo I – Portugal e Espanha (11), tintos velho mundo II – França e Itália(15), fortificados e doces (7). As garrafas são cobertas, numeradas e avaliadas. As notas são registradas no sistema (é distribuído um iPad para cada jurado com usuário e senha), somadas e os melhores em cada categoria levam a medalha no peito e saem anunciando por aí. Justo ou não, trata-se de um julgamento coletivo, que é mais preciso que a nota de um só critico. Os jurados só conhecem os rótulos provados no momento da divulgação do resultado. Confesso que é até meio frustrante, a gente passa dois dias provando vinhos e sai de lá sem saber os rótulos que bebeu e quais foram os eleitos. Mas é a forma correta de fazer isso.

TOP TEN 2015 – Resultado  Final

1. ESPUMANTES NACIONAIS – Vencedor: Aracuri Brut Chardonnay 2014

2. ESPUMANTES IMPORTADOS  – Vencedor: Georges De La Chapelle Cuvee Nostalgie N/V

3.  BRANCOS NACIONAIS – Vencedor: Pericó Vigneto Sauvignon Blanc 2014

4. BRANCOS IMPORTADOS  – Vencedor: Casas Del Toqui Terroir Selection Sauvignon Blanc 2014

5. ROSADOS – Vencedor:  Saint Sidoine Côtes Du Provence Rosé 2014

6. TINTOS NACIONAIS  – Vencedor:  Valmarino Ano Xviii Cabernet Franc 2012

7. TINTOS NOVO MUNDO – Vencedor:  Renacer Malbec 2011

8. TINTOS VELHO MUNDO I (Espanha e Portugal) – Vencedor:  Pêra Grave Reserva Tinto 2011

9. TINTOS VELHO MUNDO II (Itália e França) – Vencedor:  Sangervasio A Sirio 2007

10. FORTIFICADOS E DOCES  – Vencedor:  José Maria da Fonseca Alambre Moscatel de Setúbal 20 Anos

PRÊMIO JOSÉ IVAN DOS SANTOS (vinho com a maior média, 93.5) – Vencedor:  José Maria da Fonseca Alambre Moscatel de Setúbal 20 Anos

ESPUMANTES NACIONAIS

Aracuri Brut Chardonnay 2014

País: Brasil

Região: Campos de Cima da Serra – Rio Grande do Sul

Uva: chardonnay

Produtor: Aracuri Vinhos Finos

Site: www.aracuri.com.br

Elaborado pelo método charmat (segunda fermentação em tanques de inox), usa apenas uva chardonnay. Na minha avaliação era aquele que apresentava maior toque de evolução entre os representantes das borbulhas nacionais.  Não é assim que o site da empresa define o vinho: “espumante elegante e refrescante de perlage fina e abundante. No aroma destacam-se as notas de damasco, raspas de limão e pão fresco. O paladar é envolvente e cremoso com acidez cativante.”. Mas é um bom sinal a  eleição de um blanc de blanc (espumante feito apenas com chardonnay) verde-amarelo.

espumantes

ESPUMANTES IMPORTADOS

Georges De La Chapelle Cuvee Nostalgie

País: França

Região: Champagne

Uvas: chardonnay (70%), pinot noir (15%), pinot meunier (15%)

Empresa: Sas Prat Champagne Georges De La Chapelle

Site: www.georgesdelachapelle.com

Existe uma clara tendência dos jurados eleger um espumante importado que mais chegue perto das características de um champagne tradicional, e não deu outra. Para começar pelo tradicional corte, com as uvas tradicionais da região. Bateu nas anotações dos jurados: cor dourada, aromas de frutas secas, um toque oxidativo e boa perlage. Este exemplar vem de vinhedos com mais de 40 anos e de uma mistura (cuvee) das safras de 2004, 2006 e 2008. Um belo champagne, sem dúvida. Afinal, não há espumante como um champagne…

BRANCOS NACIONAIS

Pericó Vigneto Sauvignon Blanc 2012

País: Brasil

Região: Altitude Catarinense – Santa Catarina

Uva: sauvignon blanc

Produtor: Vinícola Pericó Ltda

Site: www.vinicolaperico.com.br

E um vinho de altitude, de Santa Catarina, elevou o sauvignon blanc nacional para o topo da categoria dos brancos nacionais. Elegante, sem exagero de aromas, lembra frutas tropicais no nariz e na boca, no site oficial são descritos “melão, mamão papaia, casca de grapefruit e uma nota discreta de maracujá e de folha de tomate”  Eu não percebi tudo isso, mas um frescor marcante, com bela acidez e boa estrutura.

 BRANCO

BRANCOS IMPORTADOS

Casas Del Toqui Terroir Selection Sauvignon Blanc 2014

País: Chile

Região: Vale Leyda

Uva: sauvignon blanc

Produtor: Casas del Toqui

Site: www.casasdeltoqui.cl/cdt.html

Importador: Bodegas De Los Andes Comercio De Vinhos Ltda

Site: WWW.BODEGAS.COM.BR

O sommelier Hector Riquelme, sem saber quem era o vencedor, declarou que um “perfumista” havia vencido a categoria dos brancos importados. De fato, este sauvignon blanc é muito típico, e se destacam aromas de aspargos, arruda, herbáceo, na boca uma certa salinidade, boa estrutura e um final mais longo, acentuado pela mineralidade e ótima acidez. O  perfumista me conquistou.

ROSADOS

Saint Sidoine Côtes Du Provence Rosé 2014

País: França

Região: Provence

Uvas: grenache, cinsault, syrah, carignan, mourvedre, tibouren

Produtor: Cellier Saint Sidoine

Site: www.coste-brulade.fr

A cor em um rosé é elemento importante, ela seduz – ou não – de cara. Aqui um rosa pálido com reflexos de salmão davam pinta da região de Provence, confirmada no nariz mais cítrico, no frescor em boca provocado pela bela acidez que prolongava o prazer em boca. Ao contrário ao ano anterior, onde o painel dos rosados era bem fraco, este ano vários vinhos competiram em pé de igualdade pelo primeiro lugar. Prova de qualidade dos rosés, nem sempre reconhecida.

tintos

TINTOS NACIONAIS

Valmarino Ano XVIII Cabernet Franc 2014

País: Brasil

Região: Pinto Bandeira, Rio Grande do Sul

Uva: cabernet franc

Produtor: Vinícola Valmarino

Site: www.valmarino.com.br

Oba! Um cabernet franc 100% levou o melhor nacional tinto, recuperando o prestígio desta uva que já foi mais importante no Brasil (outro cabernet franc estava na disputa final). Tem a presença forte de madeira no nariz, e em seguida aparecem frutas negras, couro e chocolate. Na boca um tanino macio, uma boa fruta presente, com a madeira integrada, um final de qualidade. Este foi um vinho que foi melhorando na taça e que foi surpreendendo ao longo da prova e crescendo na pontuação (na minha, pelo menos).

TINTO NOVO MUNDO I – ARGENTINA E CHILE

Renacer Malbec 2011

País: Argentina

Região: Lujan de Cuyo, Mendoza

Uva: malbec

Produtor: Bodega Y Viñedos Renacer

Site: www.bodegarenacer.com.ar

A Argentina papou o prêmio do Novo Mundo com sua uva símbolo, a malbec. Os 24 meses em barricas francesas de primeiro uso e os seis meses de garrafa trouxeram aromas mais evoluídos de bala toffee e frutas negras. Não tem aquele floral exuberante, de violeta, que em excesso incomoda. De vinhedos de mais de 90 anos de idade, este malbec conquistou pela fruta em boca, tanino doce e suave e final mais longo. Infelizmente a categoria se  limitou a garrafas do Chile e da Argentina, o que limita um pouco o painel. Seriam bem-vindos tintos da Austrália, África do Sul, Estados Unidos…

tintosdecima

TINTO VELHO MUNDO II – ITÁLIA E FRANÇA

Sangervasio A Sirio 2007 IGT

País: Itália

Região: Toscana

Uvas: 95% sangiovese, 5% cabernet sauvignon

Produtor: Sangervasio

Site: www.sangervasio.com

Importador: Zahil

Site: www.zahil.com.br

O melhor tinto velho mundo é um velho conhecido dos apreciadores de tintos italianos. Há anos importado pela Zahil, já tem seu público cativo e me causou certa surpresa sua presença no Top Ten. A Sangervasio se define como um vinhedo biológico da Toscana. Este A Sirio IGT tem pinta de supertoscano e passa 14 meses em barricas (50% novas) e 2 anos em garrafas antes de encher sua taça. Isso provoca uma textura macia na predominante sangiovese, com um bom impacto de frutas, especiarias e corpo médio. Não se notam seus 8 anos de vida. Vai longe. Avanti Itália!

 

TINTO VELHO MUNDO – PORTUGAL E ESPANHA

Pêra Grave Reserva Tinto 2011

País: Portugal

Região: Alentejo, Évora

Uvas: syrah, touriga nacional e alicante bouchet

Produtora: Pêra Grave, Quinta de São José de Peramanca

Site: www.peragrave.pt

Representante: Luxury Drinks Portugal

Site: www.luxury-drinks.pt

Aprendo no site oficial da vinícola que ele é produzido na antiga quinta de Pêra Manca do séc. XIII até ao séc. XIX. Trata-se de um caldo potente, típico desta região mais quente de Portugal. Muita fruta negra no nariz e um toque floral da touriga nacional. Na boca a potência se confirma com as frutas mais maduras e com a passagem pelas barricas. Boa persistência final. Vinhão para quem curte caldos mais concentrados.

doces

DOCES E FORTIFICADOS

José Maria da Fonseca Alambre Moscatel de Setúbal 20 Anos

País: Portugal

Região: Península de Setúbal

Uva: 100% moscatel de Setúbal

Produtor: José Maria da Fonseca

Site: www.jmf.pt

Importador: Decanter Vinhos Finos

Site: www.decanter.com.br

Uauau!  Não é muito profissional começar uma descrição assim, mas eu repito: uauau!!! A cor âmbar com alguns reflexos esverdeados já dá a dica de coisa boa, os aromas em camadas longas e persistentes de nozes, caramelo, avelã, frutas cristalizadas aumentam a tensão, na boca a confirmação destes aromas acompanhada de uma belíssima acidez que quebra seu doce e mantém o prazer da bebida por minutos. José Maria da Fonseca (aquele do Periquita) é o mais antigo produto de Moscatel de Setúbal, um Denominação de Origem Controlada (D.O.C.), reconhecida desde 1907.Este Moscatel de Setúbal 20 anos é resultado de um lote de 19 colheitas em que a colheita mais nova tem pelo menos 20 anos e a mais antiga perto de 80 anos, O resultado é complexidade, elegância, longo final e um paladar de tirar o rolha.

O nomes dos culpados pela eleição dos onze vinhos acima

 O time dos homens que cospem vinho do Top Ten tem uma certa consistência. Os doze homens são divididos em dois grupos, cada qual com um presidente a quem compete resolver qualquer impasse. Fica a crítica da ausência de juradas mulheres, que hoje são parte importante da crítica de vinhos no Brasil e no mundo.

 Presidentes de mesa

Hector Riquelme – sommelier chileno

Mario Telles Jr –  ABS-SP

Jurados (em ordem alfabética)

Beto Gerosa – Blog do Vinho

Celito  Guerra – Embrapa

Jorge Carrara – Prazeres da Mesa

José Luis Borges – ABS São Paulo

José Maria Santana – jornalista e crítico de vinhos revista Gosto

José Luiz Paligliari – Senac

Manoel Beato – sommelier grupo Fasano

Marcio Pinto – consultor e ABS-MG

Ricardo Farias – Sbav Rio de Janeiro

Tiago Locatelli – sommellier Varanda

José Ivan dos Santos, o gentleman do vinho

José Ivan dos Santos: homenagem

José Ivan dos Santos: homenagem

Este ano o concurso Top Ten teve um trago amargo. A ausência de José Ivan dos Santos na coordenação do evento, sempre em dueto com o crítico e consultor Jorge Lucki. José Ivan, ou Zé Ivan, era um gentleman do vinho, um conhecedor que não botava banca, um aglutinador de pessoas e de uma simpatia contagiante.  Zé faleceu, repentinamente, há pouco mais de dois meses, com um livro pronto para ser lançado. Em homenagem ao Zé, este ano foi instituído um 11º prêmio no Top Ten, o Prêmio José Ivan dos Santos para o vinho com a melhor pontuação em todas as categorias. O prêmio especial será entregue ao inebriante José Maria da Fonseca Alambre Moscatel de Setúbal 20 Anos. Uma justa homenagem que o concurso presta ao amigo Zé – que tenho certeza ficaria feliz de se ver representado com este elegante caldo.

 

SERVIÇO

  • ExpoVinis Brasil 2015 | 19º Salão Internacional do Vinho
  • 22 a 24 de abril de 2015
  • Expo Center Norte – Pavilhão Azul – Vila Guilherme – São Paulo
  • Informações, credenciamento visitantes e novidades: www.expovinis.com.br
  • Facebook: ExpoVinis Brasil | Twitter: @expovinis | Instagram: @expovinisbrasil
  • E-mail: visitante.fev@informa.com | Telefone: (11) 3598-780

O primeiro dia do evento será reservado exclusivamente para profissionais do setor.

  • Horário: das 13 às 21 horas para profissionais do setor nos dias 22 e 23 de abril, e das 13 às 20 horas no dia 24 de abril. Aberto ao consumidor final das 17 às 21 horas no dia 23 e das 17 às 20 horas no dia 24 de abril.
  • Shuttle Service/Transfer gratuito no trajeto Expo Center Norte-Estação Portuguesa/Tietê e estação Portuguesa/Tietê-Expo Center Norte estará disponível todos os dias do evento.
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segunda-feira, 6 de abril de 2015 Novo Mundo, Tintos | 10:51

Vinho Pipeño: em busca da simplicidade perdida

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Atardecer Pais loncomilla

“Deparamos com este terroir do Valle de Loncomilla e as uvas país e carignan e acreditamos que era possível fazer vinhos com identidade única”, Marcel David, da Viña Maitia

Pablo Picasso dizia que precisou de uma vida inteira para aprender a desenhar como uma criança. Steve Jobs, fundador da Apple, considerava “o simples mais difícil do que o complexo.” O que estes dois homens que transformaram o mundo em que vivemos e a maneira como o interpretamos  deixam como legado é o conceito de que a busca pelo simples passa pelo aprendizado, e superação, do complexo. Uma dica que vale para o vinho também.

O vinho, teoricamente, não deveria ser complicado sob o ponto de vista do consumidor. Basta ser uma bebida alcóolica que agrade, dê prazer e melhore o momento (uma refeição, uma celebração, um bate-papo com amigos, uma noite romântica, a leitura de um livro). Mas não é bem assim que acontece. O vinho se tornou um assunto de especialistas. O que estabeleceu uma espécie de linha imaginária que divide as pessoas em dois tipos: aqueles que “entendem” de vinho e os que “não entendem”. Mas talvez o mundo fosse mais feliz (o menos complicado) se existisse apenas uma categoria de pessoas: aqueles que gostam de vinho.

Este é tipo de consumidor que começa a habitar os corações e mentes de uma geração de enólogos que, passada a onda dos caldos potentes, de grande extração e sem defeitos, busca cada vez mais uma fórmula que parece óbvia, mas na verdade é trabalhosa e exige foco: a simplicidade no vinho. E o que é este produto? Um vinho fiel a suas origens,  fácil de beber, pouco alcóolico, com a fruta em primeiro plano, que vai bem com a comida e tem o prazer do consumo em primeiro plano. Sem desmerecer os vinhos mais sofisticados e de maior complexidade (eu adoro, ok?) é preciso haver um espaço também para o hedonismo sem manual, o beber descontraído.

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“O Pipeño é um vinho que é um patrimônio, feito há muitos anos no Chile”, Marcel David, da Viña Maitia, com o garrafão e a garrafinha que lembra a de cerveja

Aqui se introduz o enólogo David Marcel, um francês da região basca francesa de Iparalde, que desde 2006 mora no Chile, e o seu vinho Pipeño. O Pipeño é um vinho tradicional feito de uvas julgadas até então menos “nobres”, em especial a país, variedade plantada pelos jesuítas na região do Maule desde o século XVI, fermentado em grandes pipas (toneis de madeira), vendido a granel ou em garrafões para consumo dos trabalhadores. “É um vinho que é um patrimônio, feito há muitos anos no Chile”, defende. “Resgatar esta história é muito importante.” Marcel é uma espécie de embaixador do estilo Pipeño, talvez uma das melhores traduções do vinho descomplicado, fácil de beber, e de origem produzido no Chile.

David Marcel, casado com a também enóloga e sócia Loreto Garau, é um homem baixa estatura, rosto redondo, barba cerrada, espanhol fluente, olhos azuis expressivos e opiniões firmes. Em sua primeira passagem pelo Chile foi enólogo da La Postolle, e teve sua experiência com as uvas internacionais mais associados ao vinho chileno de exportação. Ao regressar para França, trabalhou em vinhedos no sul do país e uma nova perspectiva profissional começou a tomar forma: “Este período pela região nos marcou pela diversidade dos vinhos, não necessariamente os mais caros, mas os mais diferentes”. De volta ao Chile, a convivência com pequenos produtores do Maule e sua maneira de vinificação, realizada de maneira tradicional com fermentação em grandes lagares e sem maceração tradicional, apontou outro caminho. “Deparamos com este terroir do Valle de Loncomilla, na região do  Maule, e as uvas país e carignan e acreditamos que era possível fazer vinhos com identidade única”, relembra. Em 2012, o chefe da bodega onde Marcel vinifica os vinhos trouxe para provar um tinto que ele fazia para os trabalhadores e que era servido nas festas locais. Falou que era um Pipeño, feito com uva país, das parreiras mais antigas da propriedade, com idade entre 80 e 150 anos. “No ano seguinte decidi vinificar a partir desta uva e mesclei com um pouco de carignan. Assim nasceu nosso Pipeño Aupa”

A safra de 2013 mereceu 92 pontos no Guia Descorchados e a indicação de vinho inovador do ano. A uva país predomina (70%), mas uma pequena quantidade de carignan (30%) faz parte da receita. Aupa é uma saudação que significa “Viva! Salve!” em basco. O rótulo de linhas simples é também fácil de ser lembrado. “Basta estar escrito Pipeño e a palavra já diz tudo”, explica. Tudo bem, pode até dizer tudo para um chileno, mas para um consumidor brasileiro ajuda uma introdução: “Pipeño é um vinho feito em pipas e do ano, para ser bebido logo”, detalha. Um carimbo imitando um selo de cera escancara o baixo teor alcóolico: 12,5%, um dos grandes méritos do Aupa.

O Aupa é produzido em três versões, na garrafa tradicional de 750 ml, em um garrafão de 1,5 litro, que traduz com mais fidelidade sua origem, e numa simpática garrafinha de 330 ml, que lembra um casco de cerveja, incluindo a tampa de metal. A garrafinha foi para atender uma amiga que queria um vinho fácil de carregar, de levar para fora e que pudesse beber inteiro, em “porção individual”. Não é má ideia para se atingir um consumidor jovem, descontraído e avesso a firulas. Pra beber no gargalo.

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Marcel David oferece um pouco do seu Pipeño: um vinho simples e gostoso de beber

Mas o que se deve esperar do Pipeño Aupa? Aquilo que ele se propõe:  limpo na boca, bem frutado e fresco, sem aquela potência dos tintos caudalosos, com baixo teor alcoólico, cumprindo a proposta-conceito: fácil e gostoso de beber, sem maiores complexidades, mas também gastronômico e de identidade própria.

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Maitia “minha bem amada”: carignan, país e cabernet franc

David Marcel também produz outro tinto, junto com a mulher Loreto, o Maitia, que em basco significa “minha bem amada”. Trata-se de “um vinho de cozinheiro”, como ele define, já que é uma mescla de 60% carignan, 30% cabernet franc e 10 pais, mistura definida pelo enólogo e sua mulher a cada ano. A carignan desta região não tem aquela característica mais verde, mas sim aporta mais fruta, o que contribui para o resultado final do vinho. A maceração carbônica (as frutas não são esmagadas, a transformação do açúcar em álcool se dá dentro de cada fruta) que ele aplica tem um objetivo claro: evitar certas coisas como taninos exibidos ou extração excessiva, e não necessariamente está associado a uma busca por aromas de frutas encontradas em vinhos como o francês Beaujolais, que adota o mesmo tipo de vinificação.  “Nossa produção é limitada: 30.000 garrafas. Mas há outros produtores seguindo este mesmo caminho, preocupados em resgatar a diversidade e a cultura vitivinícola do Chile”, acrescenta.

É o caso de Manuel Moraga Gutiérrez, de Viña Cacique Maravilla, que brilha no guia Descorchados 2015, editado aqui no Brasil pela Editora Inner, e traz como novidade a indicação de espumantes brasileiros na versão nacional. Cacique Maravilha, que tem um nome mais próximo daquelas bebidas de procedência duvidosa, também trabalha com a recuperação da imagem do Pipeño e da uva país. Mas fica aqui só o registro, pois não provei o vinho e não tenho como emitir uma opinião.

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Triculfa, 100% cinsault: “No lo guarde, bébalo!”

Outro enólogo e pequeno produtor faz parte desta turma, e que tive o prazer de provar seu vinho foi Bernardo Troncoso. Bernardo  trabalha na Viña Montes e mantém uma produção artesanal de um tinto autoral que lembra muito a filosofia da Viña Maitia. Trata-se do Trifulca 2014, 100% da uva cinsault, da região conhecida como Secano Interior, também de videiras mais antigas, estas de 79 anos. Artesanal mesmo, são produzidas apenas 1500 garrafas. A coloração é um tanto turva, com uma expressão forte de fruta fresca, uma pequena agulha no meio da língua indicando ainda resquícios de fermentação na garrafa, taninos bem doces e baixo grau alcóolico. No contra-rótulo a recomendação de guarda: “No lo guarde, bébalo!”

Mas estes vinhos de autores são naturais, orgânicos, certificados? David Marcel contrai o semblante. Para ele isso não tem a menor importância. Os vinhos têm um mínimo de sulforoso, as parreiras são tratadas sem agrotóxicos, mas ele se nega a certificar vinhedos ou alardear métodos: “Não sou um método de produção”, explica. Os vinhos destes destemidos enólogos que buscam a pureza perdida trazem um frescor ao mundo de baco, introduzem questões fundamentais de missão e valores e, principalmente, recuperam a tradição dos antepassados. Não negam as inovações enológicas muitos menos pregam o abandono das práticas de higiene adotadas atualmente nas cantinas ou dos estudos do clima e do solo mais adequadas para cada tipo de uva, mas buscam manter com esta filosofia a expressão de origem de um produto.

E antes de colocar o ponto final, um questão se impõe. O leitor é apresentado ao Pipeño Aupa e os vinhos da Viña Maitia. Onde encontrá-los? Os negócios para importação no Brasil estão em fase avançada de negociação, mas ainda não existe um distribuidor. Mas devem pintar por aí. Se for viajar para o Chile, os vinhos podem ser encontrados em Santiago na loja Mundo del Vino, nos restaurantes Borago, Ambrosia, 99, no hotel Hyatt e pelo endereço eletrônico da distribuidora especializada em vinhos de autores Petits Plaisirs, não por acaso um negócio tocado por Loreto

 

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