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Arquivo de setembro, 2015

sexta-feira, 25 de setembro de 2015 Novo Mundo, Tintos | 00:32

Marques de Casa Concha: um clássico chileno em mutação

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Marcelo Papa: enólogo há mais de dez anos da Marques da Casa Concha. Mudanças à vista.

Marcelo Papa: enólogo há mais de dez anos da Marques de Casa Concha. Mudanças no estilo de um clássico chileno.

Um fantasma ronda a cabeça do enólogo Marcelo Papa, responsável há 10 anos pela linha Marques de Casa Concha – o fantasma dos vinhos menos potentes, mais frutados e com menos madeira. O Marques de Casa Concha é um clássico do “vinho bão” chileno, e um dos grandes representantes dos tintos e brancos varietais (de uma só uva) de grande expressão e potência. E foi esta mudança de rumo que Papa veio mostrar em seu último giro pelo Brasil, quando apresentou um Cabernet Sauvignon Edição Limitada de 2013 e um carignan que faz parte de um projeto dedicado à esta uva no Chile, o Vigno (Vignadores de Carignan).

Time que está ganhando não se mexe, certo? Errado, mexe sim, mas com todo cuidado e paciência, afinal se trata de um ícone de uma gigante do vinho (Concha y Toro), com uma legião de consumidores fieis e, claro, sucesso de vendas (e de receita). Esta nova visão poderia ser resumida no clássico conselho do “menos é mais”: menos álcool, menos potência, menos doce, menos madeira. “Começamos a colher as uvas mais cedo, para obter teor alcoólico mais baixo, mas mantendo uma boa fruta e a usar tonéis (barricas maiores, de 5.000 litros)”, conta Papa.

Mas se o consumidor gostava dos vinhos como eles eram, por que mudar? “Há quatro anos eu percebi que não estava tomando mais Marques de Casa Concha em casa”, diz Marcelo Papa. Era um sinal claro que mudanças precisavam ser feitas. “Os formadores de opinião – especialistas e críticos – começaram a ficar cansados de um estilo muito potente de vinho, pois nem todos os vinhos têm de ser assim e apontaram uma tendência”. Os consumidores (ou parte deles) também começaram a seguir esta onda, a buscar vinhos mais gastronômicos, com maior presença da fruta, acidez e menos efeitos da madeira nova que marca muito a bebida “Acho que terá uma boa aceitação”, aposta Papa.

E a mudança começou no uso da madeira. Ela não foi abandonada, mas seus efeitos aliviados com o recurso de recipientes maiores. Marcelo Papa testou tonéis de várias partes do mundo e acabou elegendo a matéria-prima do Piemonte, na Itália, usada na guarda dos barbarescos e barolos – o que já indica um caminho rumo à fineza. Em seguida, começou a misturar os vinhos em barricas tradicionais e nos tais tonéis. Foi uma maneira cautelosa de introduzir um novo estilo e ao mesmo tempo não assustar o consumidor acostumado à pegada do Marques clássico. O Cabernet Sauvignon 2013 tradicional de Puente Alto, no Vale do Maipo, continuará com 80% do seu caldo estagiando 18 meses em barricas francesas, mas 20% ficará nos tonéis; no Syrah os 14 meses de barrica serão divididos 50% em barricas e 50% em tonéis. Foram adquiridos 38 destes grandes barris para este primeiro momento, e o mesmo número já está encomendado para as próximas safras.

Mais tensão e menos intensidade

Marques de Casa Concha Edição Limitada 2013 e Vigno: qual deles vai para a taça vazia? Os dois.

Marques de Casa Concha Edição Limitada 2013 e Vigno: qual deles vai para a taça vazia? Os dois.

O Marques de Casa Concha Cabernet Sauvignon Edição Limitada 2013, de Pirque, Puente Alto, sul do Rio Maipo, já é uma boa amostra do que vem por aí em termos de qualidade e frescor. O solo aluvial, com calcário, transmite uma certa “tensão ao vinho”, como defende Marcelo Papa. Como entrega o nome, a produção é mesmo limitada, principalmente para o nível Concha y Toro de ser. São apenas 6.000 garrafas. É um vinho meio “revival” no estilo dos anos 70, as uvas são colhidas mais jovens para obter menos álcool. Passou 22 meses em tonéis italianos e barricas francesas sem tosta, que também gera a tal tensão ao vinho, ou seja ele não é marcado pelas notas abusivas de chocolate, madeira, grafite. Não tem aquela opulência muitas vezes exagerada. A fruta, mais para a vermelha do que a preta mais comum no Marques clássico, é a expressão mais pura do vinhedo. Ganhou muito aberto mais de uma hora antes de servir e foi encontrando mais camadas aromáticas com um tempo na taça. Menos é mais aqui não é uma frase de efeito, mas um vinho elaborado com a intenção de ser menos intenso e com mais tensão.

O Vigno, é outra boa surpresa para aqueles que gostam de experimentar e valorizam o vinho mais franco e com maior “bebabilidade”. O rótulo faz parte de uma associação de pequenos produtores, algo como Vinhateiros de Carignan, que produzem o varietal desta uva na região sul de Maule, em variadas vinícolas (entre quinze e vinte) com o propósito de divulgar a Carignan chilena. Todos os produtores identificam no rótulo o vinho com o nome de Vigno. “Um dos fundadores da associação foi o Gilmore, há 4 anos. Hoje tem Vigno na Undurraga, do Montes, e agora da Concha y Toro”, explica Marcelo Papa.  As uvas são originárias de parreiras de 70 anos e 10% delas sofrem o processo conhecido como fermentação carbônica (a transformação do açúcar em álcool se dá dentro da fruta), que resulta num tinto de muita, mas muita expressão de fruta negra, e uma acidez marcante e frescor em boca que pede mais um gole. Um vinho agradável de beber e ótimo para acompanhar pratos mais leves.

Esta belezinha deve aportar ao Brasil no final do ano. Também nesta linha de privilegiar uvas menos conhecidas e até originais do Chile, estão as garrafas do Cinsault e Pais, infelizmente longe do mercado brasileiro. São algo como os vinhos alternativos da Marques da Casa Concha.

 Tradição e inovação

Mas se existe uma mudança anunciada com orgulho e cautela por seu criador e mentor (era visível sua satisfação com os resultados obtidos  e com a carta branca da empresa para seguir adiante) é por que existe também uma história bem-sucedida dos rótulos do Marques de Casa Concha, lançados em 1976. Trata-se de um vinho de autor, nas versões atuais e que estão por vir.

Aqui no Brasil são encontradas as versões: Chardonnay e Pinot Noir, do Vale do Limarí; Merlot e Carmenère, do Vale do Cachapoal, Vinhedo Peumo; Cabernet Sauvignon e Syrah, Vale do Maipo.

Confesso que este novo estilo era algo que eu colocava um pouco em dúvida: não por que não concorde com esta vertente do “menos é mais”, mas por que me parecia que poderia descaracterizar um pouco o tradicional Marques de Casa Concha, mudar seu caráter e desagradar seu consumidor, afinal de contas para quem é feito o vinho. O Marques “tradicional” – podemos já chamar assim –  sempre me agradou dentro do seu estilo e potência, valorizando comidas mais fortes numa harmonização por “paridade”. Mas colocando lado a lado os dois caldos ficou clara a diferença que faz o nível alcoólico, a fruta vermelha versus a negra, a influência mais sutil da madeira contra a potência das barricas nos aromas e no paladar menos doce e mais gastronômico. E fiquei com vontade de ter um gole a mais da edição limitada em minha taça.

Marcelo Papa adiantou ainda uma novidade, fruto de uma curiosidade deste colunista, que tem uma certa predileção pela uva cabernet franc. Com tantas varietais por que não tem um Marques de Casa Concha Cabernet Franc? Ah… Não tinha, mas terá, de pequena produção. A Safra 2014 chega ao mercado no segundo semestre de 2016. Nós, devotos do cabernet franc aguardamos ansiosos.

 32 milhões de caixas

A Concha y Toro é uma potência. Produz vinhos de vários estilos e preços. Além da vinícola que dá nome à empresa a holding controla a Cono Sur, Vina Maipo, Palo Alto, Canepa, Maycas del Limari (no Chile), Trivento (na Argentina) e Fretzer (Estados Unidos). Juntas produziram uma bagatela de 33,2 milhões de caixas de 12 garrafas de vinho em 2014, distribuídas em 145 países. Só a Vinícola Concha y Toro é responsável por 14,2 milhões de caixas. A Viña Concha y Toro coleciona prêmios, rótulos e um resultado inédito de 1 bilhão de dólares em vendas. Carrega também as virtudes (uma legião de consumidores fieis) e as mazelas (o mimimi dos puristas que criticam a estandardização de seus vinhos) que acompanham as grandes marcas de sucesso. Por isso mesmo é com alguma surpresa que experiências como esta defendida por Marcelo Papa na linha Marques de Casa Concha apontam que o mercado está mesmo mudando, que tudo que é sólido pode mesmo se desmanchar no ar.

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quinta-feira, 17 de setembro de 2015 Sem categoria | 18:03

Vinho nacional de qualidade e acessível é um paradoxo? A aposta da Salton

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Luciana e Stella Salton com garrafas de Paradoxo nas mãos: "Queremos que as pessoas falem mais da Salton"

Luciana e Stella Salton com garrafas de Paradoxo nas mãos: “Queremos  as pessoas falando mais da Salton”

Se você é bebedor de vinho, é provável que já tenha tomado um rótulo da Salton. Se espumante é sua praia, as chances são maiores, afinal a vinícola com sede em Tuiuty, Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, é a maior produtora de vinhos com borbulhas do Brasil. Agora, se você é daqueles que não tem preconceito e curte vinho nacional – como eu –, certamente já desarrolhou uma garrafa desta empresa que completou incríveis 105 anos em agosto deste ano. Se você se enquadra em uma das três alternativas anteriores, e assim como todos os brasileiros e brasileiras está com o orçamento mais apertado, acho que este post pode interessar. Vamos falar sobre um vinho nacional bom e barato, e  se trata de um “Paradoxo”.

Paradoxo, segundo o Dicionário Aurélio, é uma contradição, pelo menos na aparência. Um conceito que é ou parece contrário ao comum; um contra-senso, absurdo, disparate. Vinho nacional de qualidade, para muita gente de nariz empinado, entra nesta categoria. Bom e por um preço acessível então, pertence ao campo do improvável. A Salton, no entanto, acredita em paradoxos. E lançou para o mercado de restaurantes a linha de tintos, brancos e um espumante da região da Campanha Gaúcha que, não por acaso, nomeou de Paradoxo. A ideia é fornecer alternativas que podem entrar na carta dos restaurantes a preços mais atraentes. “Nosso objetivo é fazer o brasileiro consumir mais vinho brasileiro”, defende Luciana Salton, diretora-executiva da vinícola. tanto melhor que seja o que ela produz, claro. O consumidor final também pode comprar as garrafas no site da empresa – a caixa com seis volumes sai por R$ 26,50 a garrafa mais valor de frete,  dependendo da região de envio.  Paradoxo, vale reforçar, também é definido no dicionário como “uma afirmação aparentemente contraditória que, no entanto, é verdadeira”.

Pinot Noir e Gewürztraminer

E já que a pegada é tratar de paradoxos, em vez dos varietais (vinhos elaborados apenas de uma uva) mais comuns como merlot, cabernet sauvignon e chardonnay, que fazem parte da linha Paradoxo, meus destaques são a pinot noir e a gewürztraminer.

Paradoxo Pinot Noir

O Paradoxo Pinot Noir 2014 é novidade no mercado, recém-lançado em agosto deste ano, foi fermentado em barricas e ficou por lá mais um ano. De cor mais escura que um pinot noir do velho mundo tem um toque tostado da madeira e as sempre presentes frutas vermelhas, aqui mais frescas. Um pinot muito saboroso, menos pesadão, fácil e prazeroso de tomar. Um bom vinho de primavera/verão que deve ser consumido um pouco mais resfriado (mas não gelado, não é para ele pegar uma gripe!).

Paradoxo Gerwuztraminer

O Paradoxo Gewürztraminer, com este nome que mais parece um trava-língua e que o Google sempre costuma corrigir a grafia na busca com aquela opção “você quis dizer…”, é uma uva branca mais comum na região da Alsácia, na França, e na Alemanha e que no geral me incomoda quando excessivamente floral. Não é o caso deste exemplar da Campanha Gaúcha, que tem um floral na medida e cumpre seu papel de refrescar o paladar com boa acidez, que amplia sua percepção na boca, um cítrico e um abacaxi no aroma e no paladar e que combinou muito bem com um risoto de limão. Um vinho parceiro de pratos mais leves.

 A Salton volta a falar

A Salton sempre mandou bem no marketing; soube como ninguém comunicar seus feitos, alardear seus vinhos e aproveitar ondas como do prosecco, nos anos 2000, dos espumantes nos anos seguintes, conquistando a liderança no mercado (mais de 40%),  e ainda se qualificando com vinhos de alta gama contando com a consultoria de um enólogo internacional (o argentino Angel Mendoza, da Trapiche em parceria com o enólogo-chefe Lucindo Copat) quando não se falava nisso, na elaboração das primeiras safras do tinto Talento. À frente desta estratégia “Velho Guerreiro” do “quem não se comunica se trumbica” estava Angelo Salton, presidente da empresa até fevereiro de 2009 quando um enfarte fulminante o retirou precocemente do cenário do mundo do vinho.

Angelo era um comunicador nato, com enorme magnetismo pessoal. Ele fez bem ao vinho de sua empresa, e por tabela ao vinho nacional. Para ele todo bebedor de vinho era um cliente em potencial. No estande da empresa nas feiras de vinho recebia qualquer pessoa que passasse por perto com um enorme sorriso e, oferecia uma taça de vinho: “Este é um espumante da mais alta qualidade, brasileiro, é da Salton. Você vai provar, gostar e comprar mais no supermercado”, dizia, confiante, com seu vozeirão.

“Quando meu pai morreu ficamos no limbo”, comenta Luciana Salton. Quase sete anos se passaram. Neste meio tempo Luciana e Stella – responsável pela área de comunicação -, filhas de Angelo, se casaram e ficaram grávidas praticamente no mesmo período e se afastaram um pouco do dia-a-dia da empresa. Agora elas voltam com força total. Com novos produtos e uma certeza “Precisamos comunicar melhor. Queremos voltar a fazer a Salton ser o que era, que as pessoas falem mais dos nossos vinhos”, reforça  Luciana. Entre os objetivos das meninas da Salton, como carinhosamente são conhecidas, um dos mais importantes é crescer no mercado com opções de vinhos brasileiros bons e acessíveis. “A Salton é uma marca de credibilidade. E, se necessário, temos estoque para o crescimento e atender as grandes redes”, diz Luciana. Um paradoxo? Não, um desafio.

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