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Arquivo de agosto, 2017

terça-feira, 22 de agosto de 2017 Novo Mundo, Tintos | 12:15

Precisamos falar sobre o Cabernet Sauvignon do Chile

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Cabernet Sauvignon

Cabernet Sauvignon do Chile: vamos falar dela?

A Cabernet Sauvignon é um viral do vinho. É a uva mais plantada no mundo. É a uva mais plantada também no Chile. Portanto deve ser o vinho tinto mais consumido do planeta. Chegou ao país em 1850 e encontrou na região do Maipo, área chamada atualmente  de Entre Cordilheiras, um solo para chamar de seu. Dali saem os grandes cabernets chilenos, pontuados pela crítica, reverenciados pelos consumidores mas, atualmente, esquecidos pelos entendidos e “hipsters” do vinho. Perdeu o encanto, talvez. Vamos desenvolver.

O Chile tornou-se uma máquina de produzir vinhos de todos os tipos – são 13 milhões de hectolitros por ano. O país sofre três grandes influências que definem as três principais áreas de vinhedos: o Oceano Pacífico, região chamada de Costa; a planície central, conhecida como Entre Cordilheiras e a mais próxima da principal cordilheira, não por acaso conhecida como Andes. É o principal exportador de vinho entre os países do Novo Mundo. O Brasil é o quinto maior mercado para os chilenos, ficando atrás apenas da China, Estados Unidos, Japão e empatando com o Reino Unido. O Chile domina o mercado brasileiro com 50% em volume. Ocupa a liderança nas exportações há 15 anos.

Amo Cabernet Sauvignon. Amo Chile

O Chile também é uma máquina de marketing azeitada para escoar sua vasta produção. Se o vinho é o resultado de um lugar e seu clima, seu consumo é global e sem território definido. A pegada da vez dos marqueteiros de baco chilenos é a campanha “Amo Vinho. Amo Chile”. Pegando carona na ideia, o Blog do Vinho propõe uma variação: “Amo Cabernet Sauvignon. Amo Chile”. Segue o raciocínio.

A Cabernet Sauvignon é uma variedade de colheita tardia, leva mais tempo para amadurecer nas parreiras, e nas últimas três décadas está em relacionamento sério com regiões de climas quentes, como o Chile ou o Norte da Califórnia. No Chile em especial, deu um casamento entre quantidade e qualidade.

No entanto parece que há, por parte dos especialistas, de parte da crítica, dos blogs e da própria agência que cuida dos interesses do vinho no Chile, Wines of Chile, um certo pudor em reverenciar a uva mestre-jedi dos solos chilenos.

Wines of Chile

Evento Wines of Chile 2017: um painel com 10 vinhos, 2 de Cabernet Sauvignon

Em evento recente patrocinado pela Wines of Chile para jornalistas e agentes do mercado, em um painel de 10 tintos, apenas dois tinham a Cabernet Sauvignon como estrela. Injusto, creio eu, dada a importância da uva para o país.

Uma tese possível

Assim como ocorre em todas as áreas de conhecimento, críticos e especialistas e palpiteiros, o inclui este blog, estão sempre em busca de novidades. O inusitado ativa as papilas gustativas de quem já experimentou de tudo um pouco. E dá-lhe vinhos produzidos em desertos, em lugares improváveis, elaborados com uvas nativas e/ou recuperadas de nomes esquisitos, de misturas um pouco fora do comum, vinificados em tanques de formas inusitadas, e, se possível, orquestradas por enólogos que buscam o grito primal da uva e não interfiram no processo conduzido pela mamãe natureza. É a busca pelo novo. Nada contra, também curto. A diversidade, a novidade, o desafio. A busca pela identidade. Tudo isso é bom e contribui para a renovação do mundo do vinho. Mas não dá para virar as costas para sucesso. Precisamos falar sobre a Cabernet Sauvignon do Chile. Mea culpa da Cabernet Sauvingon do Chile. É disso que se trata este post.

Símbolo do Chile

Germán Lyon, enólogo da tradicional vinícola Pérez Cruz, inspirou esta tese. Ele levantou a bandeira da Cabernet Sauvignon quando teve oportunidade de apresentar seu vinho no painel citado acima. Segundo Germán “não podemos deixar de valorizar o Cabernet Sauvignon, que é um símbolo do Chile”. Isso aí! Afinal é o vinho que melhor representa o potencial do Chile de produzir clássicos instantâneos e manter ícones no pedestal. Em conversa reservada,  Germán comentou que poderia ficar horas tratando do tema se tivesse oportunidade.

O Enólogo da Pérez Cruz, que cultiva 180 hectares de Cabernet Sauvgnon de um total de 240 disponíveis, apresentou neste dia o Pircas de Liguai Cabernet Sauvignon 2013. Não conhecia. Um baita Cabernet Sauvignon, com fruta presente, um toque de eucalipto, bons taninos, ótimo fimal, um cabernet de manual, escrito por um conhecedor, mas que traz frescor em boca e intensidade longa que estimula um novo gole.

Descorchados e crítica internacional

A despeito da falta de holofotes, os melhores Cabernets Sauvignon chilenos continuam, no entanto, dando de lavada nas premiações e guias, e junto à massa é campeão em volume de menções em aplicativos de avaliação de vinhos. Para ficar num exemplo próximo: o Guia Descorchados 2017, uma referência de vinhos Chilenos, Argentinos e Uruguaios (o Brasil participa apenas com espumantes), coordenado por Patricio Tapia, elegeu o melhor tinto do ano, com 98 pontos, vejam só, o Cabernet Sauvignon Gandolini, Las Tres Marias Vineyard, não por acaso do Alto Maipo.

Vale observar que outros vinhos com alta pontuação nesta mesma lista de tintos de todas variedades também trazem a Cabernet Sauvignon como protagonista, ou parte da receita: Almaviva 2014 (97 pontos), Terrunyo Bajo las Burras Cabernet Sauvignon 2014 (97 pontos); Don Maximiano Founder’s Reserve 2014 (97 pontos); Viñedo Chadwick Cabernet Sauvigon 2014 (97 pontos).

Um exemplo da crítica gringa. A safra de 2010 do Don Melchor foi eleita entre os 10 melhores tintos do planeta pela lista anual da revista especializada Wine Spectator.

27 tons de Cabernet Sauvignon do Chile

Os primeiros tintos espetaculares que provei na minha vida, quando iniciava minha carreira de provar – e eventualmente cuspir –  vinhos foram, pela ordem: um Don Melchor e um Chadwick. Nada mal para um iniciante. São vinhos bem caros, eu sei. O Don Melchor nem é 100% Cabernet Sauvignon. Mas o DNA é. Os bons Cabernet Sauvignon do Chile não precisam necessariamente coloca-lo na lista do SPC por falta de crédito. Mas estamos falando aqui de porta-estandartes e não da ala dos passistas. E são eles que elevam a imagem do Cabernet Sauvignon chileno e com isso alavancam a venda dos rótulos mais simples; vamos combinar às vezes simples demais. Aqui vai minha lista de vinhos inesquecíveis, apenas aqueles que tive a oportunidade de provar, e que têm a Cabernet Sauvignon como uva principal. Julguem-me.

Antiguas Reservas – Cousiño Macul (um clássico da sofisticação e puxando para um estilo mais velho mundo; prefiro este ao rótulo topo de gama da casa, que também é espetacular, mas um pouco excessivo na minha opinião, o Finis Terrae. O Antiguas é mais autêntico).

Manso de Velasco – Miguel Torres (Miguel Torres foi o primeiro estrangeiro a apostar no potencial do Chile. Ele se firmou na região de Curicó, o que mostra que a uva tem potencial em outras partes do Chile. Um cab de classe e potência)

Viñedo Chadwick – Viñedo Chadwick (um Cabernet que fez história nos concursos às cegas promovidas por seu produtor, Eduardo Chadwick, com a ajuda do crítico inglês Steven Spurrier. Um vinho que enfrenta os grandes franceses de Bordeaux de igual para igual.  Elevou o nome do Chile como produtor de vinhos premium. A fruta vem em camadas no nariz e na boca. A madeira é bem integrada, envolve o vinho, mas não o sufoca.  A intensidade cobra seu preço. Elegância também)

Don Maximiano – Errázuriz (do mesmo proprietário do Chadwick, um assemblage, mas com a Cabernet Sauvignon presente, um vinho que pede contemplação e merece estar em qualquer lista de excelência do potencial chileno)

Almaviva – Almaviva (união dos franceses – Baron de Rotschild – e Chilenos – Concha y Toro -, é o clássico dos clássicos. Um Bordeaux em solo chileno, conduzido pelo enólogo Michel Frou em uma vinícola de arquitetura espetacular criada especialmente para elaborar um vinho saudado em verso e prosa. O caldo deveria render mesuras do tempo, mas nem sempre a paciência é observada pelo consumidor que desarolha as garrafas antes do tempo. Provar uma safra antiga, ou mesmo uma vertical de várias safras, é uma dessas experiências que a vida me proporcionou e didaticamente mostrou o valor do envelhecimento. Corte bordalês, a cab chega quase a 70% da mistura e comanda o jogo)

Don Melchor – Concha y Toro (o Don Melchor é uma mescla de Cabernet Sauvignon com a possibilidade de adição, principalmente a partir de 1999, de cabernet franc, que raramente ocupa mais do que 3 a 6% na proporção total do blend. Talvez o mais emblemático cab entre os consumidores de vinhos premium do Chile no Brasil. Alterna safras frescas com mais potentes, sempre orientado pelo craque Enrique Tirado).

Marques de Casa Concha Cabernet Sauvignon Edição Limitada 2013 Concha y Toro (o enólogo Marcelo Papa trouxe mais leveza nesta edição especial em busca de pureza e elegância. Show! Mais fácil encontrar, o Marques de Casa Concha Cabernet Sauvignon padrão é  outro clássico que não decepciona nunca e tem a marca registrada da uva do Maipo!)

Erasmo – Erasmo (é mais uma mescla bordalesa desta lista, mas que merece estar aqui para os amantes do vinho de guarda. Com menor espaço na mídia, merece ser conhecido)

Terrunyo – Concha y Toro (cabernet com boa extração, fica entre o Marquesde Casa Concha e o Don Melchor.  Sempre prazeroso e de grande intensidade)

 Lázuli  – Aquitania (muito próximo de Santiago, assim como Cousino Macul, os vinhedos de Aquitania resistem à pressão imobiliária de condomínios que o rodeiam. Sorte dos apreciadores de vinho e do clássico cabernet da região que apresenta notas mentoladas, frutas vermelhas e final prolongado. Companheiros do Aquitania: resistam!)

 Alpha M  2011 Viña Montes (80% cabernet sauvignon acompanhados dos outros cortes tradicionais bordaleses. Fruta negra, bastante corpo, um vinho vetusto, de guarda. A linha Montes Alpha é campeã absoluta em restaurantes de carne de São Paulo e uma ótima opção para conhecer o perfil do Cabernet Sauvignon do Chile da região de Colchagua)

Carmen Gran Reserva Cabernet Sauvignon 2012 – Vina Carmen (boa tipicidade da varietal, carnudo e uma acidez que é resultado da diferença da temperatura entre o dia e a noite e que entrega frescor ao caldo)

Santa Rita Casa Real Reserva Especial  – Santa Rita (a enóloga Cecília Torres é um ícone da enologia Chilena. O Santa Rita Casa Real um ícone dos cabernets da região do Maipo com camadas e aromas, sabores em cascatas e final longo, para ficar namorando o final de taça)

El Principal 2013 – Viños El Principal (outra vinícola do Maipo, aos pés da Cordilheira dos Andes, próxima a Santiago. Um golpe de perfumes: floral, groselha, ameixa; na boca confirma as frutas negras, doce, macio, um veludo. Muito elegante. Final envolvente. Safra mais fresca, tem um teco de petit verdot (9%) e outro de cabernet franc (4%))

Les Dix – Los Vascos  (a França, berço da uva Cabernet Sauvignon, não investe à toa no Chile. A Domaines Barons de Rothschild leva este projeto desde 1988. O Le Dix é o principal rótulo de uma linha que tem os Los Vascos, mais simples fáceis de beber e de encontrar, como vinho de entrada)

Cabo de Hornos – Grandes Vinos de San Pedro – (espetacular e pouco lembrado, sempre vence nas degustações às cegas que participo. E não pesa tanto no bolso. Um Cabernet Sauvignon como tem de ser: saboroso, fino e com potência. Uma linha abaixo, o 1808 também é um bom exemplo de um cabernet competente e prazeroso)

Cuvée Alexandre Casa Lapostolle (outro francês em solo chileno – família Mariner Lapostolle – produzindo um tinto classudo da região de Apalta que vale cada gole)

Cono Sur Block 18

Para escrever sobre a Cabernet Sauvignon, goles inspiradores

Cono Sur Single Vineyard Block 18 El Recurso – Cono Sur (a Cono Sur pertence ao grupo Concha y Toro. Disclaimer:  escrevi este artigo acompanhado de uma (ou mais) taça deste rótulo. Ganha pelos aromas intensos de especiarias e fruta negra, confirmados na boca que termina macio e com grande intensidade. Um achado pelo preço em relação aos colegas acima da lista)

Novas Gran Reserva – Emiliana – (a vinícola orgânica Emiliana tem neste Cabernet uma fruta mais pura, mais fresco e um preço bem acessível. Para não esquecer que o caminho dos orgânicos é viável, e bom. Para conhecer e repetir)

Legado Cabernet Sauvignon – De Martino (enólogo Marcelo Retamal vem buscando “vinhos frescos, nervosos, mais fáceis de beber, com maior expressão da fruta e “diferentes”. “Este é o estilo que queremos”, aponta ele. Este é o cabernet que ele entrega aqui)

Orzada – Odfjell Vineyards (outro grupo estrangeiro investindo no Chile. Aqui trata-se de um armador norueguês. Esta é a linha de média gama, do Vale do Maule, que entrega boa fruta, estrutura e taninos corretos)

 Grey Cabernet Sauvigon Single Block – Viña Ventisquero (um clássico dos cabs Chilenos, aqui da região de Apalta do craque Felipe Tosso. Tem o conceito de block, terrenos específicos, como os do Cono Sur Single Vineyard acima. A linha Ventisquero Gran Reserva Cabernet Sauvignon também oferece um tinto correto a um preço mais acessível e fácil de encontrar em supermercados)

 Faça a sua lista

E você? Qual o melhor Cabernet Sauvignon que já provou? Faça sua lista aqui na área de comentários e compartilhe com a gente!

 

 

 

 

 

 

 

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sexta-feira, 4 de agosto de 2017 Brancos, Novo Mundo, Tintos | 02:44

Os vinhos da Nova Zelândia: Sauvignon Blanc, Pinot Noir, Syrah, Merlot…

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Mar, céu e terra: vinhedos de Hawsk's Bay. Efeito uau para os olhos e nos vinhos!

Mar, céu e terra: vinhedos de Hawke’s Bay. Efeito uau!  (Foto: Hawkes Bay Mission State Winery)

Há dois produtos da Nova Zelândia que são emblemáticos. O kiwi e o vinho. Sem desprezar o kiwi, eu prefiro o vinho. É sobre ele o tema desta coluna. A Nova Zelândia fica um bocado longe. É um país sem fronteiras, duas ilhas cercadas pelas águas do Oceano Pacífico. São 16 horas de avião para percorrer 12.221 quilômetros. Muito provavelmente não é sua primeira opção de férias – a não ser que seja apaixonado por esportes radicais (ou kiwi…). Mas os vinhos da Nova Zelândia percorrem todo este trajeto até você. Apesar da tímida presença nas prateleiras brasileiras – o volume de importação no Brasil é pequeno –, não são tão difíceis de encontrar. O barato do vinho, um chavão sempre pertinente, é esta diversidade: o legal é experimentar vinhos de diferentes países. 

kiwi

País do kiwi e dos vinhos. Eu prefiro os vinhos, e você?

O que que é que a Nova Zelândia tem

Se você nunca provou um rótulo da Nova Zelândia, está perdendo a oportunidade de conhecer brancos e tintos comprometidos com a qualidade e o frescor. Se já bebeu um rótulo neozelandês, provavelmente foi um Sauvignon Blanc, a clássica uva branca de Bordeaux que encontrou na Nova Zelândia um solo para chamar de seu. Não é à toa que tenha topado com uma taça de Sauvignon Blanc: 86,4% das garrafas exportadas pelo país são desta variedade de caráter fresco e acidez competente.

Sem preconceitos, tá? Se você é daquele tipo  que torce um pouco o nariz para a Sauvignon Blanc, está aqui a oportunidade de mudar esta visão.  Tem gente que acha que Sauvignon Blanc é sinônimo de um vinho meio aguado. De fato, alguns rótulos pecam pela timidez olfativa ou pela baixa intensidade em boca e criam esta aversão. O inverso é verdadeiro, o excesso de exuberância dos maracujás e cítricos forçam a barra e cansam as narinas.

Mas aqui o bicho é outro. A uva criou um estilo próprio no país dos kiwis, virou referência. E são muito bons. Desde os rótulos de base até aqueles que levam parte substancial do seu salário. A Sauvignon Blanc da Nova Zelândia tem um perfil no geral identificável: aromas de frutas tropicais, cítricos, pimentão, toque herbáceo, verde (até aí tudo bem), melão, abacaxi (não muito comum) e trazem um conjunto harmônico de boa acidez, boca limpa e final fresco e intenso. Resultado do clima e do lugar. A Nova Zelândia tem um clima influenciado pelo oceano, com brisas marítimas e noites frescas, repleto de planícies próximas do Pacífico e cercadas de cadeias de montanhas. E daí? Daí que este padrão de clima mais fresco e influência do oceano permite um longo processo de amadurecimento das uvas gerando acidez alta e boa fruta. O solo em geral é de areia, pedregulhos e sedimentos. Estes detalhes fazem a diferença. A foto que abre este blog é o padrão dos vinhedos de lá… Já começou a repensar a possibilidade de umas férias na Nova Zelândia? Vamos em frente!

Duas ilhas e regiões

O país é constituído de duas ilhas: do Norte e do Sul. É emoldurado por paisagens lindas, natureza exuberante (filmaram Senhor dos Anéis ali), renda per capita alta, população contida (4,7 milhões de habitantes espalhado em todo território), cidades organizadas, economia arrumada. E, naquilo que nos interessa, bons vinhos. As exportações crescem nos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Holanda e China. Os vinhedos ocupam 10 regiões, compostas de 2040 vinícolas. Nenhuma delas muito extensa. Para completar o cenário, 98% dos vinhedos têm certificado de produção sustentável. Dá até raiva, né não? Vai ser correto assim lá… na Oceania!

A maior e mais famosa região vinícola é de Marlborough, que tem apenas 24.356 hectares e representa mais de 70% da área plantada com vinhedos – para efeito de comparação: só em Mendoza, na Argentina, são 160.000 hectares de vinhedos. Fica a dica. Se tiver de memorizar uma região da Nova Zelândia, é a de Marlborough. Como o Blog do Vinho não tem vocação para Wikipédia, não vale a pena listar todas. As mais representativas, aquelas que você vai achar uma garrafa para comprar ou provar, são: a já comentada Marlborough, Central Otago, Nelson (Ilha Sul), Wairarapa/Martinborough; Hawke’s Bay (Ilha Norte).

Sobre uvas e ovelhas

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Ovelhas, vinhedos e sustentabilidade: tem uma lógica! (Foto: Peter Burge)

A fama da Sauvignon Blanc é relativamente recente. Se engana quem pensa  que a uva branca está plantada nas principais regiões desde o início dos tempos. Ledo “uva” engano. Durante muitos anos predominou em solo neozelandês as uvas de garrafão de lá, depois substituídas pela superprodução da nefasta Müller-Thurgau (aquela do vinho da garrafa azul que proporcionou muito porre nos anos 80 e 90), que viveu seu apogeu e decadência na década de 1980 também na Nova Zelândia. Passou.

A Sauvignon Blanc começou a ser cultivada na década de 1970, mais precisamente 1973, e os vinicultores adotaram a vinificação em tanques de aço inox. A razão é mais prática do que teórica: sobravam tanques de aço inox nas ilhas por conta da produção de laticínios de ovelhas, bicho abundante naquela parte do planeta (há mais ovelhas do que gente por lá). O resultado foi surpreendente. Sucesso de crítica e público. A Sauvignon Blanc virou sinônimo de vinho de boa qualidade da Nova Zelândia e dominou o cenário. Dos 36.000 hectares de vinhedos plantados, 21.000 são da Sauvignon Blanc, que desbancou a Chardonnay que chegou a ter seus 5 minutos de fama e hoje é a segunda variedade branca mais cultivada.

Outras uvas

Mas a Nova Zelândia não é só Sauvignon Blanc. Os rótulos de Pinot Noir da Nova Zelândia também são conhecidos e reconhecidos. Os muito bons rivalizam com bons exemplares da Borgonha, e o preço é mais amigável. Os apenas bons já proporcionam um prazer imenso para os apreciadores desta uva tinta de casca fina e personalidade grossa. Mas há outros tintos que também brilham, em produções menores ainda, mas de qualidade bem bacana.

Recentemente fui apresentado a um Syrah e um corte bordalês de regiões da Ilha do Norte. Outra dica: quem quiser arriscar um Merlot, um Syrah procure aquelas garrafas que têm estampado no rótulo a região de Hawke’s Bay e Auckland & Northland, ambas da Ilha Norte.

Tampa de rosca

Outra característica que diferencia os vinhos da Nova Zelândia é a tampa de rosca. Mais de 90% das garrafas são tampadas assim. Sem muita polêmica: é legal, fácil de abrir, conserva melhor os vinhos, e é mais sustentável. Se perde na liturgia ganha na eficiência. Nada contra a cortiça. Mas evitar um vinho por conta da tampa de rosca é um erro tão estúpido quanto desprezar o charme da cortiça por que agride as cascas dos sobreiros – que são plantados com este propósito.

BRANCOS
Sauvignon Blanc e Gewürztraminer

Peter Yealands 2016

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Uva :100% Sauvignon Blanc

Produtor: Yealands Estate

Região: Marlborough

Importador: vários importadores

Preço: R$ 79,90

Uma historinha. O primeiro Sauvignon Blanc que provei da Yealands Estate foi às cegas, como jurado da TOP Ten da Expovinis 2010. Era o  Sauvignon Blanc Yealands Estate 2008  – e eles faturaram o prêmio de melhor branco importado. De lá para cá  negociaram com importadores e grandes redes, como o Pão de Açúcar, e são fáceis de encontrar. E muitas vezes entram em oferta. São dois destaques que fazem a diferença: logística e preço. Por isso começamos com o Sauvignon  Blanc da Yealands. Fácil de encontrar e acessível. Vinícola de grande estatura e pegada sustentável (tem o certificado de Carbon Zero), é um bom começo para conhecer a tipicidade e potencialidade da uva na Nova Zelândia. Aqui tem aquela sensação agradável de frescor, boa acidez, e frutas como maracujá e o toque herbáceo.

Kim Crawford Sauvignon Blanc 2014

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Uva: 100% Sauvignon Blanc

Produtor: Kim Crawford

Região: Marlborough

Importador: Interfood

Preço: R$ 207,00

Vinícola criada em 1996 (tradição não é o forte da Nova Zelândia, né?). Ganhou prêmios e reconhecimento. Na nariz e na boca um cítrico, um pimentão verde (que os especialistas chamam de pirazina), grama (é a forma de indicar algo vegetal) e a esperada acidez correta que estimula ao próximo gole.

Framingham Sauvignon Blanc 2014

Framingham-Zahil

Uva:100% Sauvignon Blanc

Região: Marlborough

Importador: Zahil

Preço: R$ 238,00

Aqui a complexidade aumenta, o investimento traz como retorno um vinho mais intenso nos aromas e sabores. A acidez é mais marcante, a persistência final em boca também. O herbáceo (o vegetal) é agradável e típico. Um toque de mineralidade, por mais difícil que seja definir isso, chega junto.

Cloudy Bay

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Uva: 100% Sauvignon Blanc

Produtor: Cloudy Bay

Região: Marlborough

Preço: R$ 303,00

Um exemplar neozelandes bem conhecido no Brasil, presença frequente em feiras, e em alguns restaurantes. A salada de frutas aqui fica mais complexa: abacaxi (uma fruta que aparece  na Sauvignon Blanc da Nova Zelândia), maçã verde, notas de limão, ervas frescas e toque floral. Acidez marcante, mineralidade, boa presença em boca e saboroso final.

Vinoptima Ormond Gewürzutraminer 2006

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Uva: Gerwüstraminer

Produtor: Vinoptima Ormond

Região: Gisborne (Ilha Norte)

Importador: Premium Wines

Preço: R$ 341,00

Um pirata no meio da onipresente Sauvignon Blanc! E trazida pela importadora, a Premium,  que começou seu portfólio em um ousada estratégia de privilegiar os vinhos da Nova Zelândia! Trata-se de um  Gerwüstraminer de enciclopédia. O enólogo deu uma de chef de cozinha e encheu garrafa de temperos e especiarias, destaque para  o gengibre. E ainda  salpicou baunilha e notas de lichia. É menos exibidão aromaticamente, não tem aquele floral excessivo  típico da variedade. O adocicado (tem 13 graus de álcool) é contrabalanceado pelo frescor que é a impressão digital, como já vimos, dos vinhos da Nova Zelândia. Uma untuosidade  envolve a boca antes de descer goela abaixo. Show de bola, mas tem seu preço. 

TINTOS

Pinot Noir, Syrah e Corte Borldalês

Peter Yealands Pinot Noir

peter yelands pinot noir

Uva: 100% Pinot Noir

Produtor: Peter Yealands Estate

Região: Marlborough

Importador: vários

Preço: R$ 79,90

Do mesmo produtor  da Sauvignon Blanc, um vinho de base para quem quer começar a navegar pelos Pinot Noir de Marlborough. Você desembolsa menos e começa a entender a pegada de frescor, leveza e fruta fresca também nos tintos,  influência que o clima aporta nos rótulos da Nova Zelândia. Aquela típica cor mais clara, uma delicadeza em boca que vai conquistando. Uma cereja de menor ou maior intensidade vai aparecendo. Bem-vindo à Pinot Noir!

Sileni Cellar Selection

sileni pinot noir

Uva: 100% Pinot Noi

Produtor: Sileni Estates

Região: Hawke’s Bay

Importador: Mistral

Preço: R$ 135,00

Um Pinot Noir correto, um patamar (ou dois) acima. Vinho é isso aí. Bom quando traduz as características da uva e aí vai acrescentando camadas de aromas e sabores. Aqui percebe-se a fruta madura, a maciez em boca e final elegante de um produtor de vinhos de excelência.

Villa Maria Private Bin Pinot Noir 2013

Villa Maria

Uva: 100% Pinot Noir

Produtor: Villa Maria

Região: Marlborough

Importador:  Winebrands

Preço: R$ 277,00
Vinícola de respeito de Marlborough, apesar do nome estranho para um vinho da Nova Zelândia. Um Pinot Noir de intensidade média, como uma boa fruta, aquela cereja aguardada que é porta-bandeira da variedade e toques de especiarias. Um bom exemplo da capacidade em domar esta uva difícil e entregar delicadeza e refinamento.

Wild Rock Gravel Pit Red 2008

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Uvas: 71% Merlot, 25% Malbec, 4% Cabernet Franc

Produtor: Wild Rock Wine Company

Região: Hawke’s Bay

Importador: Decanter

Preço: R$ 176,00

Um vinho de corte é sempre uma escolha do enólogo, que combina as uvas como um artista mistura tintas. Aqui a Merlot predomina, acompanhada de Malbec (viu, não tem só na Argentina!) e um toque da Cabernet Franc.  O vinho mais antigo da lista (2008), mas sem sinais visíveis de evolução na cor (o bicho aguenta muito tempo), mas com alguma evolução na fruta, que lembra ameixa doce, fruta negra madura. Os 14 meses de madeira estão marcados no nariz e no final de boca. É Wild Rock: potência e elegância em três acordes.  

Crossroads Milestone Series Syrah Hawke’s Bay 2013

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Uva: 100% Syrah

Produtor: Crossroasd Milestone

Região: Hawke’s Bay/Gimblett Gravels

Importador: Vinho & Ponto

Preço: R$ 224,00

Opa! Um inesperado Syrah da Nova Zelândia. Uma surpresa apresentada pelo especialista Arthur Azevedo numa degustação da ABS-São Paulo. Multo legal. Syrah com muita fruta negra, tostados, especiarias (como todo syrah deve ter), eu achei ali um cravo, algo assim. Para completar, aquela  característica de identifica os vinhos da Nova Zelândia, acidez que embala o conjunto da obra. 

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