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quarta-feira, 27 de março de 2013 Harmonização | 09:10

Bacalhau e vinho: tinto ou branco?

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“Vocês querem bacalhau?”
Bordão do apresentador Abelardo Barbosa, o Chacrinha

Provavelmente você vai encarar um bacalhau nesta sexta-feira santa. E o vinho? Já escolheu? Está em dúvida entre um branco e um tinto?

Saiba que você não está sozinho. Muito gente fica em dúvida sobre qual o vinho que combina com este peixe, que nem parece peixe, pois é um pescado com estrutura mais firme e sabor persistente.

Nem todo bacalhau é igual também. Eles variam de tipo e nível de qualidade: do Cod Gadus Morhua, o mais nobre, ao Gadus macrocephalus, o tipo mais simples. Saiba mais na reportagem “Quinze respostas sobre o bacalhau”

E assim como nunca se vê cabeça de bacalhau, também nunca se chegou a um consenso sobre a combinação ideal entre o pescado e o fruto da videira fermentado.

O escritor português Eça de Queiroz (1845-1900), que entendia da alma lusitana e também se interessava por sua culinária, não tinha dúvidas. “Em Portugal é tradicional acompanhar os pratos de bacalhau com vinho tinto. Este ‘casamento’ feliz explica-se pela ação do tipo de sabores frutados presentes nos vinhos tintos que, dando-nos uma sensação gustativa indireta da doçura, amenizam o gosto ‘oposto’ salgado do bacalhau”, escreve.

De fato, em Portugal é a harmonização mais comum. Os introdutores da bacalhoada na colônia apostam nos tintos com boa estrutura, que dá robustez ao caldo, mas de taninos mais leves e boa acidez para cortar a gordura do azeite, sempre presente nas receitas.

Outros (como eu) preferem brancos mais  encorpados, com passagem em barricas de carvalho, mais maduros, com aquela untuosidade que combina bem com o forte sabor do bacalhau: um não passa em cima do outro. O saudoso critico Saul Galvão era assertivo: “Com um boa posta de bacalhau, preparada com simplicidade para ressaltar o seu sabor, não tenho dúvidas de que um branco encorpado é ótima opção.”

Quem está com a razão? Ambos, eu arriscaria.

Aí está, pois, a boa notícia. Há brancos e tintos que escoltam bem as receitas da bacalhoada, um prato que entrou no cardápio do brasileiro: a semana santa é só uma desculpa a mais para saboreá-lo.

Bacalhau ao forno

Bacalhau ao forno: brancos com madeira e tintos equilibrados

As versões mais consumidas são a clássica ao forno (veja receita), com lascas ou postas grelhadas enriquecidas com tomates, batatas, pimentão, azeitonas, ovos e regado no azeite – aqui não tem erro as escolhas de  brancos encorpados, com estágio em madeira ou tintos de boa fruta e estrutura.

Bacalhau a Bráz

Bacalhau a Bráz, vinhos brancos verdes com madeira

As receitas com consistência mais cremosa, como o bacalhau com natas, bacalhau a Bráz (veja receita), ou brandade de bacalhau pedem um branco mais fresco, como os vinhos verdes da uva alvarinho, de preferência aqueles com passagem em madeira.

Bolinho de bacalhau

Bolinho de bacalhau: para a entrada um espumante vai bem

A versão do bacalhau com broa tostada e uma entrada de bolinho de bacalhau (veja receita) permite uma inovada com espumantes portugueses e espanhois.

Eu costumo iniciar os trabalhos com um belo branco lusitano, das castas arinto e antão vaz, ou ainda com toques de chardonnay –  os brancos amadeirados chilenos, argentinos e nacionais também seguram a onda. Em seguida, desarrolho um tinto também português, agora sem madeira excessiva, mas com muita fruta, equilíbrio e acidez. Evite os tintos muito fortes, que podem passar por cima do prato.

Abaixo, algumas possibilidades  portuguesas e nacionais

Espumantes

Espumante Filipa Pato Bical Arinto 3B 

Espumante Caves São João Bruto

Espumante Vertice

Freixenet Reserva Real

Murganheira Reserva Bruto Branco 1995

 

Brancos (vinhos verdes)

Quinta dos Loridos Alvarinho 2008 

Alvarinho Deu La Deu 2012 

Paço de Teixeiró 2010

Muros de Melgaço 2008  


Brancos

Paulo Laureano Premium Branco 2011

Filipa Pato FP Branco 2009 

Dourum Colheita 

Esporão Reserva Branco 2011

Luis Pato vinhas velhas 2009

Pêra Manca Branco 2010

 

Tintos

Paulo Laureano Clássico Tinto

Marquês de Borba Tinto

Saes tinto 2010 (Quinta da Pellada)

Cabriz Reserva, Dão, 2008 

Quinta do Vallado

Vertente Tinto Niepoort 2009

Quinta dos Murças Reserva 2008

Quinta do Crasto Vinhas Velhas 2011

 

BRASIL

Brancos

Aurora Pinto Bandeira Chardonnay 2011 – Aurora

Salton Virtude Chardonnay 2011 Salton

Chardonnay Gran Reserva 2011 – Casa Valduga

Villa Francioni Chardonnay – Lote II – Villa Francioni

Da’divas Chardonnay 2012 – Lídio Carraro

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terça-feira, 13 de março de 2012 Blog do vinho, Harmonização | 17:49

A busca de Baco: vinhos, lojas e harmonizações

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Quando este Blog do Vinho estreou, em 30 de julho de 2008, as informações sobre os mais de 20.000 rótulos e tipos de vinho disponíveis no Brasil de então estavam difusas em anotações pessoais, catálogos das importadoras, artigos, blogs, fóruns, e na incipiente rede social que se engendrava na web.

Encontrar uma fonte única confiável que reunisse o maior número de informações atualizadas sobre um vinho, vinícola ou região era um problema em busca de uma solução. A sistematização das informações e o compartilhamento dos usuários no entanto promoveu uma verdadeira revolução nesta aparente simples tarefa: buscar informações sobre um tinto, um branco, um espumante ou um vinho doce. Uma das experiências mais bem-sucedidas neste campo é a rede social de vinhos WineTag, novo parceiro do Portal iG.

A WineTag é uma rede social de vinhos que reúne várias experiências virtuais em um só espaço: avaliações pessoais (são mais de 10.000 opiniões de usuários), rótulos de vinhos (mais de 28.000 cadastros), fóruns de discussão, sugestões de combinações de pratos com vinhos (publicados  em parceria com canal Receitas do iG), artigos e opinião de especialistas, informações sobre regiões, lojas, eventos e restaurantes. Ou seja, o vinho cumpre seu ciclo completo: da compra até a degustação, passando pela harmonização. A parte social é exercida pela avaliação publicada e compartilhada na rede.

Busca WineTag

O leitor um pouco mais atento do Blog do Vinho deve ter observado no menu lateral direito um novo bloco. Trata-se da Busca WineTag (em destaque na imagem abaixo), um atalho para o leitor usufruir deste serviço. Este pequeno componente abre espaço para um mundo de informações que todo consumidor precisa saber sobre o mundo do vinho: rótulos, vinícolas, restaurantes, lojas e harmonizações.

Para buscar um vinho, por exemplo o blockbuster chileno Casillero del Diablo. Digite o nome do rótulo e deixe definido o filtro “vinhos” no combo abaixo. Uma página de resposta da WineTag apresentará uma lista de 41 itens, com várias uvas e safras deste rótulo, além de apresentar uma busca de preços, quando disponível.

Para uma busca mais generalista, a uva malbec, a página de resposta traz um elenco de 916 rótulos. Ao escolher uma das opções, por exemplo o Uxmal Malbec, 2008 (veja imagem abaixo), é apresentada a ficha do vinho com as avaliações disponíveis dos usuários da WineTag, harmonizações recomendadas, preço e eventualmente restaurantes que possuem a garrafa na carta. É possível ainda criar sua própria avaliação

Harmonização

Outros  filtros podem ser selecionados para buscas por: usuários, restaurantes, vinícolas, lojas e pratos. A busca por pratos é a mais bacana de todas. Trata-se de uma experiência inédita que reúne indicações de rótulos para mais de 1.300 pratos publicados no site de Receitas do iG.

Selecionada uma receita qualquer, como rosbife,  a ferramenta faz o cruzamento entre as características do prato e das uvas dos mais de 28.000 vinhos cadastrados e avaliados pelos usuários da WineTag e recomenda alguns rótulos (ver imagem abaixo). Todas os pratos publicados no canal de Receitas do iG trazem sugestões de harmonizações.

Aprovou as sugestões de harmonização, as avaliações dos vinhos? Não gostou? O usuário cadastrado gratuitamente  – são quase 20.000 perfis publicados no site  – pode interferir no resultado e avaliar a indicação ou mesmo criar sua própria harmonização ou incluir um novo vinho na lista, criando sua própria adega. A contribuição e participação dos usuários é fundamental para o sucesso desta ideia e para o contínuo enriquecimento deste banco de dados de Baco.

Móvel

E como ninguém carrega o computador numa loja ou no restaurante, no máximo um tablet, o usuário pode também consultar seus registros ou fazer sua busca de vinhos na hora da compra pelos aplicaticos móveis desenvolvidos pela WineTag para iPhone ou Android. Fica combinado que não cola mais aquela desculpa “não tenho nenhuma informação sobre este vinho”

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segunda-feira, 28 de novembro de 2011 Harmonização | 14:17

Peixe com vinho tinto: um casamento diferente que pode dar certo

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Em uma cena do filme Moscou contra 007 (From Russia with Love), James Bond (Sean Connery) é atacado por Red Grant  (Robert Shaw) com uma coronhada, após um jantar regado a vinho e peixe no vagão-restaurante de um trem. Durante a refeição 007 pede um blanc de blancs; seu oponente opta por um tinto (um chianti). Após recobrar a consciência, Bond mira seu adversário e recorda: “Vinho tinto e peixe.” E conclui seu raciocínio: “Isso diz muita coisa” (assista o trecho no vídeo acima).

Pois é, combinar vinho tinto com peixe não é um sintoma de mau-caratismo, mas para muita gente trata-se de um pecado mortal. Até James Bond desconfia de quem propõe tal harmonização… Para os ursos do cartum abaixo, para os homens que cospem vinho e para os xiitas de Baco não dúvida de que se trata de um crime de lesa-pátria, mas nem tudo é preto no branco quando se trata do gosto pessoal e das possibilidades do casamento entre vinho e comida.

Nem só no vinho branco nada o peixe

Não é novidade pra ninguém. Um dos mandamentos da harmonização estabelece que peixes e frutos do mar são servidos com variedades brancas (sauvignon blanc, chardonnay, sémillon, riesling, alvarinho, etc). Isso é fato, eu também prefiro – até com bacalhau, que dizem por aí que nem peixe é. A razão é simples: a combinação por peso. Vinhos leves combinam com pratos mais leves. As explicações mais científicas sobre o tema são enumeradas mais abaixo.

Mas se o cidadão gosta de peixe, aprecia a companhia de um vinho nas refeições mas não tolera as uvas brancas não merece a fama de vilão da harmonização. James Bond que me perdoe, mas há opções que  combinam um prato de peixe e talagadas de vinho tinto. O Blog do Vinho destaca algumas destas alternativas

Para peixes leves e grelhados

Já foi dito. Vinhos leves combinam com pratos mais leves. A mesma regra vale para tintos. Portanto, escolha tintos de baixo teor alcoólico (de preferência até 12,5o), taninos suaves (a sensação de adstringência que deixa a boca seca) e boa acidez.

Sugestões: os vinhos da uva pinot noir do Chile (principalmente da região de Leyda, do Limarí), da Nova Zelândia, da Argentina (destaque para os provenientes da fria Patagônia), dos Estados Unidos (aqueles produzidos na região de Oregon) e os clássicos tintos da região da Borgonha, na França (geralmente não vem destacado no rótulo a uva, mas sendo da Borgonha obrigatoriamente são feitos da uva pinot noir); gammay (tanto Beaujolais Nouveau francês, um vinho-evento, distribuído todo dia 18 de novembro em todo o mundo, bem leve e refrescante), além de suas versões nacionais de gammay da Miolo e Salton. Ainda na França, tintos mais leves, baixo teor alcoólico, frutados e pouco conhecidos no Brasil (e por isso mesmo não muito caros) da região de Chinon e do Loire.

Para pratos do mar mais pesados

Para os peixes mais gordurosos, como atum, salmão, e aqueles seres aquáticos de consistência mais forte, como lulas e lagostas, ou mesmo pratos regados a molhos mais potentes, os tintos podem ser um pouco mais estruturados, mas nunca aqueles blockbusters com muita madeira, explosão de frutas no nariz e quase doce na boca (bom, nunca é sempre um conselho muito forte quando o tema é gosto pessoal, mas a ideia é sempre tentar fundir melhor os dois sabores: do prato e da bebida, sem um sobrepor o outro).

Sugestões: os vinhos das uvas cabernet franc e merlot, o mesmo pinot noir acima, de preferência de regiões mais quentes, os italianos dolcetto d’alba, espanhois como  mencia e portugueses como baga são combinações possíveis.

E tem o bacalhau, né? Os portugueses, que têm Phd no tema, preferem com tintos do Douro, do Dão e do Alentejo. Veja a lista no link abaixo.

Bacalhau e vinho: tinto ou branco?

As razões para combinar peixe com vinho branco

Ok, os ursos, os homens que cospem vinho e os xiitas de baco às vezes são meio fundamentalistas do gosto. Mas também há razões cintíficas que corroboram suas verdades.

O fator tanino – é comum o alerta de que o vinho tinto produz um sabor metalizado quando combinado com peixes em geral. Este gosto metalizado, amargo,  é resultado, seguno o senso comum, da reação dos taninos com o iodo dos peixes (principalmente os de água salgada). Faça o teste do encontro de uma porção de peixe e um tinto robusto – no geral proporciona este travo amargo na boca.

O fator ferro – já um pesquisa realizada no Japão 2009 constatou outro responsável por esta sensação metalizada, o ferro. Entre várias amostras de tintos e brancos consumidos juntos a um prato de vieiras, aqueles que causavam maior alteração no paladar tinham uma alta concentração de ferro. Aqueles que harmonizavam melhor com o molusco apresentavam  um teor de ferro mais baixo. A quantidade de ferro presente no vinho depende de uma série de fatores, como o solo e a fermentação da bebida. Mas infelizmente esta graduação não é explicitada nos rótulos. Outra conclusão do estudo que reforça a ligação dos brancos com os peixes é o papel da elevada acidez destas uvas, que provoca uma reação química que reduz a quantidade de ferro  na combinação.

Resumo da ópera: os brancos são parceiros ideiais do peixes e frutos do mar, mas tintos leves também trazem alegria e possibilidades à mesa. Portanto, não se intimide ao propor um tinto com seu peixe preferido. A não ser que esteja na companhia de James Bond…

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quarta-feira, 2 de março de 2011 Harmonização | 19:31

Como combinar vinho e comida – e quando quebrar as regras

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Harmonizar  vinho e comida é simples no atacado e complicado no varejo. A regrinha básica desta difícil – e prazerosa – arte impõe: carnes vermelhas com tintos e peixes com brancos.

Fácil? Engano. Aí entram outros ingredientes, texturas e uma infinidade de variedades e sabores que complicam a combinação perfeita, isto é, aquela que maximiza o sabor do alimento e propõe uma parceria com o vinho. Para tentar ajudar aqueles que estão atrás da harmonização ideal são produzidas inúmeras e extensas listas que só confundem e atrapalham. Este Blog do Vinho prefere passar uma receita mais simples, mesmo que redutora das possibilidades.

Harmonização por cor

Uma associação cromática por similaridade pode facilitar o entendimento da regra básica da combinação comida e vinho.

  • Vinhos brancos combinam com alimentos menos coloridos, como as carnes brancas de peixes, aves e frutos do mar, e pratos com molhos igualmente brancos
  • Vinhos tintos combinam com alimentos mais escuros, como carnes vermelhas, molhos de tomate, de tonalidades mais escuras e, claro, molhos feitos com o próprio vinho tinto.

Harmonização por peso

Outra boa linha de harmonização aconselha a harmonização pelo peso dos alimentos. Aqui vale a reprodução do trecho do livro Comida e Vinho, dos especialistas José Ivan Santos e José Maria Santana (a gente sempre deve recorrer aos mestres que já se debruçaram sobre o tema, em vez de reeditar o que já foi escrito, certo?)

“Alimentos e vinhos têm peso, e ele deve ser levado em conta na harmonização. Um vinho potente vai atropelar uma comida leve e o contrário também é verdadeiro. As proporções de um e outro devem ser parecidas. Sabores delicados pedem vinhos delicados. A gente sabe quase naturalmente o que é uma comida leve ou pesada.

  • Peixe grelhado ou um espaguete fininho com molho de manteiga de sálvia são pratos sutis, um convite para um branco leve.
  • Uma refeição à base de pão e queijos de massa mole está mais para peso médio, acolhendo bem um branco de corpo médio, como um chardonnay sem muita madeira ou tinto jovem, um pinot noir ou malbec.
  • Cordeiro, caça, carnes e massas com molhos copiosos e com queijos de pasta dura são comidas de sabor forte. De maior peso, que pedem um vinho à altura, com um musculoso cabernet sauvignon, um barolo, um tannat ou um shiraz australiano potente.”

Quebrando regras

Mas as regras só existem para serem quebradas, não é mesmo? Você tem de agir conforme as circunstâncias. Em uma festa não cabe buscar a combinação perfeita, em um restaurante, quando um casal se divide entre um peixe e um cordeiro ou alguém sai perdendo ou ambos cedem – e se escolhe um tinto ou branco de corpo médio. Mas perder também pode significar arriscar. E tirar proveito da situação.

E branco com carne vermelha, pode?

Cheguei em casa e tinha um delicioso alvarinho aberto, Reguengo de Melgaço 2007 – um branco saboroso da uva de mesmo nome, da região do vinho verde, no Minho, noroeste de Portugal. Há vinhos verdes mais rústicos e populares, daqueles com elevada acidez e um toque frisante, há outros com mais equilíbrio, fruta presente, uma boca mais ampla e bastante aromático e gastronômico, como este rótulo que tinha desarrolhado ou os soberbos vinhos de Anselmo Mendes, um craque do alvarinho (na Espanha conhecido como albarinho).

Na mesa uma delicioso prato preparado pela minha mulher: pinóia, uma receita passada por uma amiga querida. Trata-se de um rocambole de carne temperado e recheado de presunto, queijo e uma pitada secreta. Sem molhos para acompanhar.  Acompanhou arroz e maionese. Ou seja, comida daquelas que se tem em casa, e não no restaurante.

O que eu fiz? Aproveitei o alvarinho aberto, despejei na taça e fui sorvendo aos goles antes da refeição. Boca amaciada continuei com os goles do branco português entre uma bocada e outra do rocambole e seus acompanhamentos. Harmonizou? Desceu que foi uma beleza, não brigou com a comida, o rocambole era leve, a maionese refrescava o palato e o vinho verde limpava a boca e agüentava o tranco com uma boa estrutura. Um tinto era a melhor saída? Sem sombra de duvidas, mas o objetivo aqui era experimentar – e aproveitar o vinho aberto.

Lição da noite: nada é tão rígido que não deva ser desafiado no mundo do vinho. Quem faz as regras é o seu paladar. Quando o resultado é positivo, é puro prazer.  O preço do erro é quebrar a cara, e passar a considerar o copo de água a combinação mais interessante. Audácias eventuais na harmonização merecem o aplauso, mas convém não exagerar e cair no mau gosto que pode render algumas vaias. Dos especialistas e do seu amigo enófilo? Não, essas não importam.  Vaias do seu paladar mesmo, seu melhor crítico.

Participe: você já tentou alguma harmonização fora do padrão? Compartilhe com os leitores  na área de comentários sua experiência.

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quinta-feira, 4 de novembro de 2010 Harmonização | 19:47

Porto e comida, por Carlos Cabral

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Como comentei no post Vinho do Porto Colheita 1937: bebendo história, na minha opinião o Porto é um vinho à capela. Harmoniza mais com a leitura, com o pensar e o diálogo do que necessariamente com comida. Para quem aprecia, um charuto também é um bom companheiro. Mas na verdade o Porto é uma bebida versátil que permite várias combinações. Assim como existe uma carne para cada tipo de churrasco, existe um Porto para cada ocasião. Há alguns anos, o maior especialista em Vinho do Porto no Brasil, Carlos Cabral, autor de uma obra fundamental sobre o tema, Porto Um Vinho e Sua imagem e consultor de vinhos, propôs harmonizações com vários estilos de Porto. Republico aqui para os leitores do Blog do Vinho, estas dicas de um mestre no tema.

– VINHO DO PORTO BRANCO SECO (ou mais conhecido como Porto White)

Há 20 anos foi criado um drinque à base de Porto White, trata-se do Porto de Verão ou Portonic: uma dose de Porto Branco em um copo de Long Drink, 3 pedras de gelo, uma rodela de limão e completa-se com água tônica.

Harmonização: refrescante, combina bem com os acepipes, ou aperitivos de entradas, salgadinhos, canapés e presunto cru.

Vinho recomendado: Porto Comenda White.

Profiteroles com Porto: tem coisa melhor?

VINHO DO PORTO RUBY (jovem) ou Ruby mais robusto ( PORTO LBV)

Estes Portos têm aromas e sabores pronunciados de frutas vermelhas maduras, como framboesas, amoras e ameixas.

Harmonização: aqui os chocolates reinam. Desde os trufados, até os meio amargos, todos ganham destaque quando saboreados com estes Portos, pois a untuosidade destes tipos de Porto casam-se bem com as gorduras do chocolate.

Vinho recomendado: Vinho do Porto Ferreira Ruby

– PORTO COM DENOMINAÇÃO DE IDADE, 10, 20, 30 ou 40 anos.

Estes vinhos passam uma vida em tonéis de carvalho, oxidando e absorvendo os aromas de baunilha das pipas de carvalho. Seus aromas lembram caramelo e madeira defumada.

Harmonização: a companhia destes vinhos são as frutas secas como nozes, ameixas, damascos, avelãs, noz pecã, castanhas de caju, e principalmente amêndoas. Os marzipans e as tortas de frutas secas, regadas com estes vinhos, são de um sabor sublime.

Vinho recomendado: Vinho do Porto J.W. Burmester 10 anos

– PORTO COLHEITA

Vinhos que passam de 7 anos em diante envelhecendo em tonéis de carvalho. São de uma só colheita e não são resultado de blends entre outros vinhos. Têm todas as características de seus anos de colheita preservados. Geralmente existem no mercado vinhos dos últimos 7 anos e alguns até mais velhos, com décadas de idade.

Harmonização: estes vinhos acompanham bem as tradicionais sobremesas portuguesas à base de ovos e amêndoas. O Pudim do Abade de Priscos, os Pastéis de Belém, os Pastéis de Santa Clara, os Fios de Ovos são a pedida.

Vinho recomendado: Porto Weise Krohn Colheita 1991

– VINHO DO PORTO LBV

Com uma concentração de aromas de frutas vermelhas maduras, este tipo de Porto é um dos mais apreciados nos dias de hoje. De cor tinta escura, bem concentrada, o LBV tem particularidades de um caldo de framboesa.

Harmonização: os queijos azuis, como o gorgonzola, o roquefort ou o stilton ( inglês) harmonizam-se soberbamente com este vinho.

Vinho recomendado: Graham’s LBV 1995

– VINHO DO PORTO VINTAGE

O Porto Vintage “é uma seleção apertada de uma colheita excepcional”. É o que a natureza pode dar de melhor ao homem em termos de vinho. A quem os prefira jovem, para obter o melhor proveito de suas frutas maduras e sua pujança nervosa, e os que o preferem mais velhos, onde o tempo afina seus aromas e sabores.

Harmonização: em ambos os casos aqui impõe-se o queijo da serra da estrela, a grande jóia da gastronomia lusitana, um queijo de ovelha, rico em aromas e paladar único em todo o mundo.

Vinho recomendado: Vinho do Porto Vintage Quinta do Crasto 1997.

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domingo, 1 de agosto de 2010 Harmonização | 16:30

Como escolher um vinho em um restaurante, mesmo sem entender muito do assunto

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Jamais perca o sorriso diante da carta de vinhos

O sommelier, o maitre ou mesmo o garçom chega com o menu aberto, se coloca à sua frente e pergunta à queima-roupa: “Gostaria de escolher um vinho?”

Se você conhece e aprecia tintos e brancos, problema zero. A carta de vinhos é um catálogo dos rótulos à sua disposição na adega – a escolha é uma conseqüência de seu conhecimento e uma tradução de seu desejo naquele momento. O problema é que, para a maioria dos pobres mortais, este cardápio de rótulos traz mais desconforto do que orientação.

A reação mais comum é abrir aquele sorriso amarelo e admitir humildemente que não entende nada de vinho. Ok, os profissionais estão aí para aconselhar e orientar sua escolha. Mas se a ocasião for um almoço de negócios você não vai querer  mostrar ignorância diante de seu convidado; se for um jantar romântico, a escolha de um bom vinho é um ingrediente a mais na sedução de sua (ou seu) parceira(o).

As cartas de vinho, assim como a crase, não estão aí para intimidar ninguém. Basta saber a forma correta de usá-las. O Blog do Vinho reuniu algumas sugestões para ajudar os neófitos a se dar bem diante de seus convidados Afinal, escolher o vinho ideal para a refeição de negócios ou aquele encontro amoroso também é uma forma de valorizar o momento.

Quer pagar quanto? – Primeira regra de ouro. Estabeleça um limite de gasto. Nem tão barato que pareça avareza nem tão caro que comprometa o orçamento e soe elitista. Mas não seja tão rigoroso, muitas vezes um pequeno acréscimo de dez ou vinte reais pode mudar de patamar a qualidade do rótulo selecionado. Tenha em mente porém que o preço nos restaurantes tem uma boa margem em relação à etiqueta das lojas e importadoras. Portanto, não fique reclamando para seu convidado dos valores da carta e nem comparando com o preço da prateleira. É, no mínimo, deselegante.

Não tenha pressa – Alguns garçons e sommeliers devem cronometrar, por puro sadismo, o tempo entre a entrega da carta e o pedido do vinho. Em geral, o tempo não é suficiente nem para você passar da primeira página do menu, lembrando que alguns cardápios são praticamente da mesma espessura dos catálogos das importadoras. Para escapar desta arapuca, reaja com calma e explique que antes de selecionar o rótulo vai escolher os pratos. Ponto a seu favor. o fato de demonstrar que se preocupa em harmonizar a comida com o vinho mostra que você tem alguma intimidade com o assunto, mesmo que seja um blefe.

Há cartas e cartas – Dependendo da carta de vinhos, há ums estratégia diferente de seleção. As que mais intimidam os consumidores são aquelas que simplesmente listam os rótulos, organizando no máximo por país. Não há qualquer dica. Outras classificam os vinhos como leves, médios ou potentes. Algumas, mais didáticas ainda, descrevem as características do produtor, da uva e do vinho e ainda propõem harmonizações. Uma mão na roda numa situação de embaraço.

RP, WS, Tre Bicchieri – Desconfie das rótulos com pontuações dos críticos em destaque. Um vinho com 95 RP (Robert Parker) ou 94 WS (Wine Spectator) ou com distinção no guia italiano Gambero Rosso são garantia de qualidade (nem sempre, vai), mas geralmente custam os olhos da cara. Afinal,  o primeiro efeito de uma boa pontuação destes übercriticos é a inflação do preço, geralmente desproporcional à qualidade a mais que distinção entrega.

Mostre que vai combinar vinho e comida

Tinto ou branco? – Pergunte ao seu convidado se prefere um tinto ou um branco. Antes de cometer alguma heresia, no entanto, siga algumas regras básicas: se estiver numa churrascaria, pule esta parte e encare logo a lista dos tintos. Se o restaurante for de pescados, o branco é quase uma obrigação. Massas italianas regadas a molhos vermelhos também pedem um tinto, de preferência não muito potente. Por fim, indague se tem predileção por algum país. Se o seu interlocutor tiver uma preferência, já dá para separar alguns rótulos da lista.

Não se arrisque – Este não é o momento de buscar novidades. Concentre sua atenção em rótulos mais conhecidos, em uvas internacionais. Lembre-se, seu objetivo não é surpreender, é não errar. Prefira as variedades tradicionais e mais conhecidas. A chance de acertar o paladar do seu convidado é tanto maior se você navegar por uvas do tipo blockbuster. Tintos? Cabernet sauvignon, merlot, carmenère (para os chilienos) e malbec (para os argentinos) – estes dois últimos fazem sucesso entre os consumidores brasileiros. Brancas? Chardonnay e sauvignon blanc, e olhe lá. Deixe para se arriscar entre amigos ou em outro tipo de ocasião.

Vinhos portugueses em restaurantes idem – Soa meio óbvio, mas em um restaurante especializado na culinária de algum país, escolha um vinho daquela região do mundo. Numa casa especializada em  bacalhau, por exemplo, a chance de a carta ter uma boa variedade de rótulos portugueses é maior. É a escolha por afinidade, mesmo ferindo a regra anterior das uvas conhecidas, ou você é doutor em antão vaz, baga e touriga nacional, cepas de origem lusitana? A lógica vale para todos os restaurantes especializados: sejam eles franceses, portugueses ou italianos de alta gastronomia. Nem sempre funciona, porém. Em pizzarias e cantinas italianas é mais comum a lista de vinhos ser repleta de opções chilenas e argentinas por conta da variedade e preço. Aí vale a equação uvas mais conhecidas X valor.

Barato pode sair caro – Evite o rótulo mais barato da casa, mas se for esta sua opção  não demonstre que este foi o critério. Nunca alardeie que a opção foi pelo menor preço. Justifique sua indicação com rasgos e elogios ao produtor, ao país, à uva ou à harmonização desejada. Se não der certo, culpe a safra. Se o vinho agradar, o baixo custo não vai fazer diferença, se for um fiasco, porém, sua sovinice ficará explícita e pode deixá-lo em maus guardanapos…

Recomendação da casa – Fuja da seleção do sommelier ou da adega especial da casa, geralmente destacada na primeira folha da carta de vinhos, muitas vezes com um moldura dourada. São os vinhos mais caros do restaurante e nem sempre combinam com os pratos, muito menos com o seu bolso.

Escolhendo o vinho, afinal – Após escanear a carta, escolher os pratos e fazer uma triagem inicial, concentre-se em dois ou três  rótulos e finalmente aconselhe-se com o sommelier. Você mostra que valoriza o conhecimento do profissional, mas também demonstra que sabe o que quer e quanto está disposto a pagar. Mas não peça para ele escolher o vinho, mas sim para discorrer sobre as características de cada rótulo e apontar qual seria o mais adequada para aquela ocasião. Aí sim, aceite sua recomendação. E ao provar o primeiro gole mantenha o estilo. Gostando ou não do vinho, confirme a escolha com uma simples manear de cabeça e uma frase curta: “Está ótimo!”. E sorria.

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quarta-feira, 8 de abril de 2009 Brancos, Harmonização, Porto, Tintos, Velho Mundo | 23:45

Vinho e bacalhau: um casamento que dá certo

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Para ninguém me acusar de ficar indiferente ao dilema do almoço da sexta-feira Santa ou da Páscoa, aqui vão, de última hora, os meu pitacos para a melhor combinação de vinho com o bacalhau.
Para início de conversa, não existe unanimidade: os portugueses, os artesãos do bacalhau, preferem os tintos. Eu, que só fui apreciar a iguaria há poucos anos e ainda acho a melhor receita a preparada pela minha mulher, prefiro os brancos encorpados, de preferência das uvas chardonnay, arinto ou antão vaz. Mas cai bem também um chardonnay mais untuoso do Chile, da Argentina e mesmo do Brasil

Para satisfazer portugas e brazucas uma lista reduzida de brancos e tintos para acompanhar o baca da Páscoa. Mas só os vinhos da terrinha, até por respeito à sua culinária

Os brancos
Como já disse, minha preferência, de todos os preços.
Esporão Reserva Branco 2007 – Qualimpor

Redoma branco 2007 (Niepoort) – Mistral

Borba Antão Vaz e Arinto Branco 2005 – Adega Alentejana

Paulo Laureano Premium Branco 2006 – Adega Alentejana

Filipa Pato Ensaios Branco – Casa Flora

Luis Pato Vinhas Velhas Branco 2007 – Mistral
(Filipa e Luiz, pai e filha, os dois com brancos bacanas)

Tintos
Mas se você insiste nos tintos para a ocasião, vá de rubros da Bairrada, como os da linha do Luis Pato, elaborados com a uva baga. Duas escolhas:
Luis Pato Baga 2005 – Mistral

Vinhas Velhas tinto 2005 – Mistral

Ou então a coleção de rótulos do Alentejo do enólogo Paulo Laureano:

Casa de Sabicos Reserva Tinto 2005 – Adega Alentejana

Villa Romannu Tinto 2005 – Interfood

Paulo Laureano Clássico Tinto 2006 – Adega Lentejana

E o chocolate?
Quanto ao chocolate, o ovo de Páscoa e outras surpresas do coelhinho, vamos combinar que:

1. ovo de Páscoa e chocolate é coisa de criança, e não convém criança beber vinho;

2. não precisa combinar vinho com tudo. Abre seu celofane, pegue o bombom mais desejado, ou arrebente a casca do ovo, e deixe derreter na boca, à capela, e curta este momento calórico sem culpas;

3. se mesmo assim você quer fazer o tal casamento, vai de Porto Ruby ou Tawny, os mais simples na cadeia alimentar dos fortificados do Douro. Se você tiver muita grana um Tokay Aszu 6 Puttonyos manda muito bem. Mas aí, minha gente, o Tokay sozinho já é a festa completa.

Boa Páscoa a todos.

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domingo, 29 de março de 2009 Harmonização, Livros | 22:24

Cabral descobre o que o cerimonial brasileiro tem

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O enófilo, consultor e escritor Carlos Cabral é uma exceção no mundo dos vinhos. Em vez de ocupar o tempo dos leitores com sua opinião, ele é um dos raros conhecedores da boa mesa e das melhores garrafas que se dedica à pesquisa. Seu mergulho em documentos, coleções e arquivos já resultaram em dois importantes livros para quem tem interesse pelo tema: Presença do Vinho no Brasil (2004) e Porto e Um Vinho e sua Imagem (2006).

Nesta segunda-feira chega às livrarias um terceiro volume desta faceta de escriba e de pesquisador de Cabral. Trata-se do elegante e bem-cuidado volume A Mesa e a Diplomacia Brasileira – O Pão e o vinho da concórdia. Neste volume, o vinho deixa de ser o protagonista, mas é parte integrante do itinerário que leva o leitor para uma viagem pelo cerimonial e pelo protocolo dos banquetes e recepções da diplomacia brasileira desde a fundação da nação.

À primeira vista o tema parece ser aborrecido, como tudo que envolve protocolos, fraques e cerimonial. Algo como o vinho de polainas; o prato de abotoaduras. Mas não, o livro é um importante registro histórico, conduzido com competência por um autor acostumado com o rigor na pesquisa, e revela a importância do banquete na vida pública. Cabral dedicou 3 anos de pesquisa no Itamaraty do Rio de Janeiro, onde explorou mais de 6,5 milhões de documentos. “O pessoal responsável, que tem em media 30 anos de trabalho no arquivo, adorou o ineditismo da obra”, revela o escritor. O leitor também deve se deliciar.

A obra está dividida em três partes. Em o Banquete, traça uma rápida linha do tempo da importância do banquete ao longo da história da humanidade. Em o Itamaraty, conta-se sobre a instituição do edifício-sede do serviço diplomático, no Rio de Janeiro, que virou sinônimo da diplomacia brasileira e seu sucedâneo, no Palácio do Planalto. Mas a parte que se escaneia com curiosidade de lupa é aquele que trata da Mesa Diplomática propriamente dita: o intrincado papel do cerimonial na organização das mesas (ótimas as curiosas reproduções de desenhos que mostram a distribuição dos lugares à mesa de uma recepção – isso sim é serviço diplomático!), os utensílios e pratarias utilizados e finalmente os banquetes, cardápios e cerimoniais. O relato cobre desde o tempo do Barão do Rio Branco, que normatizou o serviço – período dominado pela gastronomia francesa e vinhos idem, com um espaço para o Porto e o Madeira -, até chegar aos anos mais recentes, com a inclusão do cardápio brasileiro e do vinho nacional, introduzido pelo presidente Collor, em 1990. As reproduções  dos cardápios e fotos dos eventos são saborosas crônicas visuais de um estado que se senta à mesa para receber, negociar e comemorar acordos diplomáticos.

Um cardápio típico do início do século passado
Potage à la royale
Filet de robalo hollandaise
Jambom à la gelée
Mignonnette de veau niçoise
Asperges chantilly
Dindonneau trouffé aus marrons
Charlotte siberienne
Mignardises

Vins
Xerez, Sauternes, Margaux, Côte de Nuits, Veuve Clicqout et Porto
Café et liqueurs

Cardápio oferecido ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, em 22 de novembro de 2004:
Camarão flambado ao molho de ragu
Purê de mandioca
Filé mignon ao me pimenta verde
Souflé de goiabada com nuvem de catupiry

Vinhos
Casa Valduga Premium Chardonnay 2004
Casa Valduga Cabernet Sauvignon Premium 1999
E Casa Valduga Asti

O autor
Carlos Cabral foi o fundador da primeira confraria de vinho do Brasil, a Sbav – Sociedade Brasileira dos Amigos do vinho, em 1980, e proprietário da Casa Cabral, famosa por seu bacalhau, que, dizem, é insuperável. Nos últimos anos ficou marcado como consultor de vinhos do grupo Pão de Açúcar. Provavelmente você já topou com um retrato de Cabral nos folhetos do supermercado. Além de decidir quais tintos, brancos, espumantes e fortificados vão para a prateleira, formou e treinou mais de 100 atendentes de vinho da rede, conhecidos como Cabralzinhos. Espécie de embaixador do vinho do Porto no Brasil, aliás uma de suas maiores paixões, prepara um Dicionário do Vinho do Porto, em parceria com outro craque do fortificado, este de além mar, o português Manuel Joaquim Poças Pintão.

Este personagem múltiplo, capaz traduzir com uma enorme facilidade o vinho para plateias leigas em suas palestras, dono de um humor fino, daquele tipo que conta piada até em velório sem sair do tom, se mostra cada vez mais o autor mais credenciado para mostrar às atuais e futuras gerações uma parte oculta da cultura de um povo e de uma nação. Talvez a mais divertida, a da gastronomia e do vinho.

Serviço
A Mesa e a Diplomacia Brasileira – O Pão e o Vinho da Concórdia (Editora de Cultura, 263 páginas, R$ 90,00)
Lançamento:
Livraria Cultura.Avenida Paulista, 2073 (Conjunto Nacional), tel 3170-4033, Metrô Consolação. Segunda (30), 19h.

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terça-feira, 24 de março de 2009 Harmonização, Novo Mundo | 18:07

Tannat: o tinto uruguaio que combina com churrasco

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Quando se fala em vinho sul-americano a imagem que vem à cabeça é um chileno ou um argentino, respectivamente o primeiro e segundo maiores exportadores da bebida para o Brasil, com 34,38% e 26,54% do mercado, em volume. Cabe ao Uruguai, a posição de primo pobre, com a sétima posição, com apenas 1,70% das prateleiras.

Apesar da pequena presença no imaginário do consumidor, o Brasil é um parceiro importante da indústria vinícola uruguaia: boa parte da exportação – foram 13,4 milhões de litros em 2008 – tem como destino a taça dos brasileiros. Mesmo assim, talvez você nunca tenha provado um tinto uruguaio, ou, no mínimo, não é esta sua primeira opção. Pois saiba que pode estar perdendo um ótimo parceiro para o churrasco, o tinto feito com tannat.

A tannat é uruguaia, mas não é do Uruguai
Se a malbec dança tango na Argentina e a carmenère sobe as cordilheiras do Chile, a tannat é a representante legítima deste pequeno país de apenas 176 quilômetros quadrados. 32,2% da produção das uvas viníferas são desta variedade francesa, que assim como suas primas latino-americanas encontrou em solo uruguaio sua melhor expressão. A origem é da região de Madiran, no sudeste da França. Curioso isso, algumas variedades esquálidas no velho mundo acabam mostrando sua musculatura na América do Sul. O responsável pela introdução da variedade no Uruguai foi Don Pascual Harriague, em 1870, e com seu sobrenome a uva foi chamada até a década de 80, quando foi reconhecida como a tannat francesa.

O que esperar do vinho
Um tinto da uva tannat tem como características a concentração: de cores, sabores, corpo e do tanino (daí nome), aquele elemento importantíssimo da uva  que dá cor e uma sensação de adstringência na boca (pois tem a capacidade de coagular a saliva) que pode ser muito intensa ou bem trabalhada. Aí entram  a qualidade do produtor e das uvas. Esta é a virtude, e o pecado, da tannat. Muita gente torce, literalmente, o nariz para a uva pois tem na memória um vinho muito adstringente. Tem muito rótulo  assim por aí. Dá até para sugerir ao dentista substituir aquele sugador irritante por umas borrifadas de um tannat ordinário no tratamento. Mas quando domado, amaciado e bem elaborado, esta característica marcante da uva ressalta suas qualidades e torna este estilo de vinho uma boa alternativa para as carnes, como as parrillas, o corte uruguaio por excelência.

Tão perto e tão longe
Selecionei uma lista dos rótulos bacanas do Uruguai – aqui ordenados pelo nome dos produtores em ordem alfabética – comercializados no Brasil. Há desde vinhos de preço médio até exemplos mais salgados, ideais para quem quiser tirar o atraso e se iniciar pelos vinhos do vizinho, ou então ampliar seus horizontes. As safras no Uruguai são mais homogêneas, mas a tannat, segundo o responsável pela exportação da América do Sul e México da Bodegas Carrau, Nicolas Neme, tem se adaptado melhor aos anos pares. A conferir.

Aos vinhos, então
CARRAU- site
Juan Carrau Tannat de Reserva 2005, R$ 52,00
Uma ótima opção de preço médio, com boa intensidade, acidez e taninos macios que vai bem com o churrasco

Amat Tannat 2004, R$ 122,00
Um bom exemplo do que pode alcançar um tannat superpremium
Quem traz: Zahil

CASTILLO VIEJO – site
Catamayor Tannat Reserva de La Família 2005, R$ 62,00
Castillo Viejo tem uma enorme área de vinhedos e elabora rótulos confiáveis, como este.
Quem traz: World Wine

JUANICÓ – site
Don Pascual Tannat Roble 2006, R$ 45,00
Caprichado e típico
Quem traz: Todovino

PISANO – site
RPF (Reserva Especial da Família) Tannat 2005,  R$ 61,87
Outro exemplo de como um tannat bem elaborado pode agradar e combinar com carne

Axis Mundi Tannat 2002, R$ 312,00
Um tannat  na linha superpremium, surpreendente, mas um pouco pesado no bolso
Quem traz: Mistral

PIZZORNO – site
Pizzorno Don Próspero Tannat 2004, R$ 34,00
Mesmo mais simples, agradável e típico
Quem traz: Grand Cru

Não é só tannat
Eu gosto muito de vinhos de corte, que é um trabalho mais de arquitetura do enólogo que vai dosando o melhor de cada uva de determinada safra para finalizar sua alquimia. No Uruguai, os blends de tannat com cortes típicos de Bordeaux (merlot, cabernet sauvignon e cabernet franc) também são boas alternativas, geralmente mais caras, que merecem ser provadas. Dois exemplos:

CASTILLO VIEJO
El Preciado Gran Reserva 2002, R$ 150,00
(cabernet franc, merlot, tannat e cabernet sauvignon)

JUANICÓ
Prelúdio Barrel Select Lote nº 60 2004, R$ 156,00
(cabernet sauvignon, merlot e tannat)

Dois brancos
Por fim, prosseguindo na eterna catequese pela valorização do branco levada a cabo por este blog, um sauvignon blanc e um viognier, que se dão  bem no clima do país. Os dois bastante frescos e aromáticos, na linha que eu mais gosto: bom e barato

CARRAU
Juan Carrau Sauvignon Blanc 2007, R$ 33,00

JUANICÓ
Don  Pascual Viognier Reserve 2005, R$ 39,90

Inavi – Instituto Nacional de Vinicultura do Uruguai

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quarta-feira, 22 de outubro de 2008 Harmonização, Livros | 00:37

Vinho e comida: a arte de combinar lé com cré

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O sujeito se esforça, e depois de certo tempo acaba finalmente aprendendo um pouco sobre vinho: conhece as principais uvas, regiões, países, decora alguns rótulos e até adquire certa aptidão para identificar aromas e sabores. Jargões como terroir e tânico começam a fazer parte de seu vocabulário. Todos os mistérios dos tintos, brancos e espumantes estão desvendados, certo?

Infelizmente, não!

Agora é preciso harmonizar – ou seja, desenvolver aquela habilidade de combinar a comida do prato com o vinho na taça.

Frescura? Bom, se você coloca na balança o dinheiro investido na bebida, somado ao da refeição, e o resultado da mistura é ruim para ambos os lados, aí talvez a percepção mude um pouco.

Como tudo que envolve o vinho, este é mais um capítulo cercado de preconceitos. Ninguém condena quem torce o nariz para combinações esdrúxulas como camarão com bisteca de porco, feijoada com macarrão ou então goiabada com presunto, tudo isso regado a licor de menta no copo. Por que então o casamento entre vinho e comida também não pode ter seus princípios e recomendações?

Tudo bem, vamos combinar que não é das tarefas mais fáceis, dificultada pela quantidade enorme de rótulos e receitas. O que torna também a brincadeira mais divertida. Para isso que existem os sommeliers em restaurantes (não é só para te empurrar o vinho mais caro da carta). Mas a experiência mostra que é possível também desenvolver este talento pessoalmente. Há dois caminhos, o empírico e as indicações de especialistas e amigos. Ambos só funcionam, evidente, com sua certificação pessoal. Harmonização boa é aquela que combina, antes de tudo, com o seu gosto.

O livro dos dois “Zés” dá uma mãozinha
Na área da indicação de especialistas, há uma boa novidade nas livrarias. Dois craques do mundo vinho juntaram seus talentos e histórico degustativo para ajudar os incautos nesta tarefa. O resultado é o livro Comida e Vinho, Harmonização Essencial (José Ivan Santos e José Maria Santana, Editora Senac). Os dois “Zés” do vinho têm uma enorme folha de serviços prestados na área, o primeiro especializou-se pela Wine & Spirit Education, de Londres, e é autor de diversos livros sobre o tema, o segundo é jornalista de fino texto e contribui há muitos anos para publicações especializadas. Taí uma harmonização que deu certo!

A grande sacada do livro é facilitar a vida do leitor. Quem quiser se aprofundar um pouco mais, há detalhadas explanações de princípios e métodos de harmonização. Para quem quer ir direto ao ponto, quadros e tabelas resumem o que interessa. Qual vinho combina com que tipo de comida, organizados por tintos, brancos, rosés e espumantes e suas respectivas uvas.

Claro, não existe regra fixa. Dá tranqüilamente para desconectar as coisas. Se o vinho e a comida se estranharem – por exemplo, um linguado com espinafre orgânico e um tinto potente espanhol da Rioja -, basta intercalar um copo de água entre eles e a vida segue feliz. Mas se junto ao Rioja acompanhar um naco de picanha sangrando, ou o linguado for amparado por um fresco Chablis, que é um branco sem madeira da França, com certeza o seu índice de felicidade vai aumentar. E muito. Os vinhos e as receitas estão no mundo, só é preciso aprender.

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