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sábado, 21 de novembro de 2015 Livros | 02:38

Livro: tudo o que você queria saber sobre queijos

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Foto_livro_Amarante

Para quem tem fome de saber e de queijo: um livro-referência

Você curte um “concentrado proteico-gorduroso, resultante da coagulação do leite?” Lendo assim parece pouco atraente, né? Mas trata-se apenas da definição do queijo.  A descrição consta do início de um livro essencial para o amantes e simpatizantes do “caseus” (queijo em latim), lançado recentemente: “Queijos do Brasil e do Mundo – Para Iniciantes e Apreciadores”,  de José Osvaldo Albano do Amarante, ou simplesmente Amarante, como chamam os amigos de taça e de garfo. Para Amarante, comida e bebida são, claro, fonte de muito prazer, mas também assunto sério, muito sério. Em especial o vinho e o queijo, onde dedicação, estudo e organização harmonizam com serviço e muita informação de qualidade. Além deste manual do queijo, Amarante, que entre tantas qualidades mantém uma das mais longevas confrarias de vinho do Brasil,  também é autor de outra obra de referência que frequenta minha biblioteca há anos: “Os Segredos do Vinho”. (Vale um disclaimer aqui: eu participo desta – onde sou aprendiz – e de outra confraria com o Amarante, leia aqui)

O livro, fruto das experiências e da vivência do autor no mundo dos queijos que começa na década de 1970, é uma obra de referência que pode ser lida em ordem cronológica. Mas passados os capítulos iniciais, mais enciclopédicos, talvez o leitor seja atraído para aqueles de maior interesse particular, como por exemplo, os dos queijos brasileiros. Além de dados estatísticos – você sabia que em 2013 foram produzidas 1.075 toneladas de queijo no Brasil (os fiscalizados) e que a muçarela é a campeã com 26,7% do total seguida do requeijão culinário 19,5%? –, o livro é recheado de informações curiosas, didáticas e até legais (de leis mesmo). Todo queijo nacional  – de leite, cabra, ovelha e búfala – tem sua descrição quanto a  características, processo, conservação e consumo.

Prato ou Fynbo?

O queijo prato, por exemplo, aquele que vai muito bem no misto quente, surgiu em 1920 e foi desenvolvido por imigrantes dinamarqueses e é baseado no queijo Fynbo (dinamarquês) que por sua vez é espelhado no Gouda holandês e tinha o formato cilíndrico. Seu nome de guerra foi atribuído por um fiscal do Ministério da Agricultura que o descreveu como um queijo em formato de “prato” para contornar a dificuldade do nome original dinamarquês. Sua versão mais consumida, o Prato Langhe, surgiu nos anos 1960, e é fabricado em formato de pão de forma (não por acaso), mas o nome “prato” ficou. O queijo prato é classificado como um queijo semiduro de massa prensada semicozida, casca natural e maturado.

O atual momento do queijo tupiniquim, com uma grande variedade de queijos de alta qualidade, foi um dos motivos que levaram Amarante a concluir e publicar seu livro iniciado em 2007. Não é à toa que das 330 páginas do livro 100 são dedicadas aos queijos nacionais. Há muitas histórias e informações dos queijos de todas as regiões do Brasil. Amarante dá seu toque pessoal sempre listando os seus favoritos.

16 países, o mundo dos queijos

Outra forma deliciosa e didática de percorrer o livro é procurar entre os 16 países listados, os queijos mais representativos e importantes. Além dos óbvios França, Itália e Portugal, há curiosidades como Bélgica, Grécia e Noruega. Este blogueiro, que tem um conhecimento bastante raso de queijos, mas nem por isso deixa de apreciar os bons e raros, correu para a página 200 onde é descrito o queijo do Azeitão, uma maravilha de leite de ovelha que tive o prazer de experimentar em recente viagem a Portugal. O bicho, um DOP (Denominação de Origem Protegida, tem disso também nos queijos), chega à mesa envolto em papel vegetal, apresenta “uma massa semimole, amanteigada, untuosa e tem sabor muito delicado”, segundo palavras do Amarante, que assino embaixo. Se o queijo do Azeitão lembrou um Serra Estrela, acertou. Mas na minha laica opinião é melhor (e mais caro).

O panorama mundial mostra que há queijo em todo o mundo. Os Estados Unidos, sempre eles, são o maior produtor do planeta com quase 5 mil toneladas por ano, seguido de Alemanha e França. No consumo per capita, no entanto, quem faz a fama deita na cama e a França constava em 2012 como a número 1, com um consumo per capita de 26,2 quilos por habitante, seguida de perto pela improvável Islândia, com 25,2 quilos por habitante. O Brasil do queijo de minas, do queijo prato, do requeijão e da muçarela fica na rabeira com 3,6 quilos por habitante

Amarante: o mestre dos vinhos se revela um baita conhecedor de queijos

Amarante: o mestre dos vinhos se revela um baita conhecedor de queijos

Queijo & Vinho

E se esta obra sobre queijos invade este espaço dedicado ao vinho é por que a combinação das duas fermentações (da uva e do leite) é clássica e saborosa. Aliás, há um tópico “Harmonização com vinhos” no capítulo de “Serviço e Consumo” para você não errar mais na sinergia do vinho com o queijo. Afinal, atire o primeiro parmesão quem nunca organizou uma reunião de queijo e vinho com os amigos! E provavelmente desarrolhou um tinto bem pesadão – acompanhado de uma tábua de queijos comprada no supermercado ou na padoca mais próxima. Com o livro do Amarante você poderá selecionar com mais propriedade os queijos para sua tábua com as sugestões da página 285 (“Tábua de queijos”). Quanto ao vinho: #FicaaDica! Ao contrário do que se pensa – e se pratica – os vinhos brancos combinam melhor com os queijos do que os tintos, já que “acidez do vinho branco associa-se perfeitamente com a  do queijo”.

A leitura Queijos do Brasil e do Mundo mostra que a pergunta que importa não é “Quem comeu o meu queijo?”, mas “Qual tipo de queijo”. O livro tem aquela pegada que responde todas as suas dúvidas sobre sobre queijos e serve tanto como um manual na hora de decidir uma compra como uma bússola para navegar pelo universo dos queijos de todo o mundo: dá norte e segurança na viagem. Tá na dúvida na escolha do próximo queijo? Seus problemas se acabaram-se!

 Ficha:
Queijos do Brasil e do Mundo – Para Iniciantes e Apreciadores
José Osvaldo Albano do Amarante
Mescla Editorial
R$ 115,00
340 páginas

 

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sexta-feira, 17 de outubro de 2014 Brancos, Degustação, Livros, Novo Mundo, Tintos, Velho Mundo | 11:59

Eduardo Chadwick: a história das degustações que colocaram o vinho chileno entre os melhores do mundo e a aposta nos brancos e na pinot noir da safra de 2014

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Eduardo Chadwick: o homem que desafiou os ícones da europa e colocou o vinho chilena no mapa

Eduardo Chadwick: o homem que desafiou os ícones da europa e colocou o vinho chileno no mapa

O que você faz para provar que é bom? Compara-se aos melhores. E se esta comparação se repetir 22 vezes e em 20 delas você estiver entre os três mais bem avaliados? Significa que você conseguiu provar a sua qualidade, seu potencial. Você apostou. E ganhou. É o que fez em 2004 o produtor e empresário Eduardo Chadwick com a já conhecida Berlin Tasting (ou Cata de Berlim), quando inaugurou a série de degustações às cegas que iria confrontar vinhos de alta qualidade de seus vinhedos do Chile (Don Maximiano, Seña e Viñedo Chadwick) com clássicos de Bordeaux e supertoscanos. 39 especialistas provaram onze vinhaços das safras 2000 e 2001 sem ver os rótulos. O resultado é este abaixo, seguido de um sucessão de OOOhhhhs! em 23 de janeiro de 2004. David vencia Golias.

2004

1.  Viñedo Chadwick 2000

2.  Seña 2001

3.  Château Lafite-Rothschild 2000

4. Château Margaux 2001

4.   Seña 2000

6.   Viñedo Chadwick 2001

6 .  Château Margaux 2000

6.  Château Latour 2000

9. Don Maximiano Founder’s Reserve 2001

10. Château Latour 2001

10. Solaia 2000

 

Don Max 2010

Don Maximiano: mescla bordalesa com potência e elegância e capacidade de envelhecimento

Com a visão de homem de negócios que banca o produto que tem, Chadwick resume numa pergunta sua aposta: “Você se lembra do nome do segundo homem a pousar na lua?” Dificilmente alguém se recorda – foi Buzz Aldrin, mas eu precisei recorrer ao google para incluir neste texto. Era preciso criar  uma fórmula para mostrar ao  mercado mundial e ao mundo o potencial dos vinhos de seus vinhedos de Aconcagua e Maipo, no Chile.

VCH 2000 bottle

Chadwick: clássico cabernet sauvignon de clima frio

 

A inspiração foi a prova de Paris de 1976  – que catapultou os vinhos dos Estados Unidos, não por acaso também comparando os rótulos da Califórnia aos franceses, e vencendo -, comandada pelo mesmo mestre de cerimônias, Steven Spurrier, que tornou o evento uma espécie de grife pessoal. Leia aqui a reportagem publicada na época pela revista TIME (texto original, em inglês).

Seña 1995

Seña: complexo e sensual, com importante participação da carmenère

Eduardo é um alpinista, ou seja um aventureiro com planejamento. E ele não apostou tão no escuro assim, um ano antes, numa degustação às cegas num restaurante na Alemanha, com bem menos gente e sem qualquer repercussão na mídia, havia colocado em disputa seus rótulos contra os grandes franceses e tinha obtido um bom resultado. “Mas de que adiantava, se ninguém soube?”, indaga ele. Eduardo Chadwick é um empresário do vinho e aprendeu com o mestre Robert Mondavi – seu parceiro e mentor por 10 anos do Seña – que a propaganda é alma do negócio. A isso damos hoje o nome de marketing. E não há qualquer demérito nisso.

Para provar que o resultado surpreendente não foi obra do acaso, Eduardo Chedwick organizou mais 19 degustacões em 17 importantes cidades ao longo dos últimos 10 anos. São Paulo e Seul receberam duas delas, e em 3 ocasiões houve dois júris, um de conhecedores e outro de especialistas, totalizando 22 provas. “O importante a partir daí não era mais estar na primeira posição, mas mostrar a consistência dos nossos vinhos e o potencial de guarda, pois sempre tínhamos rótulos nos três primeiro lugares”, ensina Eduardo Chadwick, com um sorriso vencedor. “E assim trabalhamos a imagem do vinho chileno e mostramos que não havia vinhos de qualidade apenas na europa.”

Um colunista de vinho e seu extenuante trabalho de provar 12 supervinhos

Um colunista de vinho e seu extenuante trabalho de provar 12 supervinhos em 2013

Eu sou testemunha da lisura de todo o processo pois estive presente nos dois eventos realizados em São Paulo, em 7 de novembro de 2005 e 4 de julho de 2013. E uau! Os vinhos são todos de alto nível, não há perdedor, mas aquele que está melhor na taça naquele momento e revela a qualidade de seu terroir, o tratamento e escolha de suas uvas e do blend, o cuidado na vinificação e aquele mistério da natureza que às vezes aponta o dedo para aquela safra e lugar e com a ajuda de um enólogo competente produz um caldo de beber de joelhos, e pensando que afinal a vida vale a pena.

Curioso com os resultados de São Paulo? Vamos lá

2005

1 Château Margaux 2001

2 Viñedo Chadwick 2000

3 Seña 2001

4 Château Latour 2001

5 Seña 2000

6 Viñedo Chadwick 2001

7 Don Maximiano 2001

8 Guado al Tasso 2000

9 Château Lafite-Rotschild 2000

10 Sassicaia 2000

 

São Paulo Tasting 2013: 11 garrafas e nenhum segredo

São Paulo Tasting 2013: 11 garrafas e nenhum segredo

2013

1 Château Margaux 2001

2 Seña 2007

3. Don Maximiano 2009

4 Château Mouton Rotschild 1995

5 Château Latour 2007

6 Seña 2010

7 Viñedo Chadwick 2000

8 Don Maximiano 1995

9 Don Maximiano 2005

10 Sassicaia 2000

11 Seña 2000

12 Tignanello 2009

Percebe-se um acerto apreço dos paulistas pelo Château Margaux, que prima pela elegância. Mas os vinhos de Chadwick estão sempre lá entre os primeiros.

capa.livro

Luxuosa edição que documenta os 10 anos de provas por todo o mundo

Todo este importante trabalho de divulgação do vinho de alta qualidade chileno, os vinhedos, as provas, e o depoimento de importantes críticos e especialistas, está documentado no luxuoso livro que comemora este feito: “The Berlin Tasting – Uncorking the Potencial of Chile’s Terroir” .

autografo

O meu exemplar está autografado, sorry, periferia

Vem aí: um chardonnay e um pinot noir ícones para brigar com os franceses

Termindao um cicl,  outro se impõe. Qual a próxima montanha que Eduardo Chadwick pretende escalar? Além de manter vivo o espaço conquistado com seus rótulos de alto coturno, o empresário mira no potencial dos brancos chilenos e no tinto mais desafiador aos enólogos que é a pinot noir. Ele conta que quando se juntou a Robert Mondavi, em 1995, a ideia era repetir o feito de Nappa Valley e criar um ícone tinto, de corte bordalês, e um ícone branco, com a chardonnay. “Chegamos a criar o vinho e comparar com os melhores brancos da Borgonha, mas chegamos à conclusão que não tinha a mesma qualidade do Seña tinto”. Passados 20 anos, Eduardo acha  que é o momento de colocar à prova as conquistas no conhecimento do solo e dos novos vinhedos de qualidade superior que possui em Aconcagua Costa e Casablanca – uma região mais fria, com muitas ladeiras, solo de xisto – e lançar um grande  branco chardonnay e um tinto pinot noir da safra de 2014 no mercado internacional. “O futuro da indústria é elevar a qualidade de nossos grandes vinhos de chardonnay, sauvignon blanc e pinot noir “, preconiza.  “Acho que estamos preparados. Temos em mente o desafio de conquistar um espaço entre os grandes vinhos da Borgonha”. Eduardo Chadwick, como já se disse mais de uma vez, praticou  alpinismo. Os alpinistas sempre buscam uma montanha mais alta e difícil. A meta de Chadwick para seu chardonnay e pinot noir? “Temos em mente Domaine de La Romanée-Conti”, diz soltando uma risada desafiadora. “Bora” aguardar a próxima rodada de “Tastings”? A primeira aposta, diante do ceticismo de todos, ele ganhou.

Serviço: os rótulos Don Maximiano e Chadwick são importados pela  importadora Vinci e o Seña pela Expand

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quarta-feira, 25 de maio de 2011 Livros | 19:12

Dicionário do vinho, o abc de Baco

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Dicionário do Vinho: 17.000 verbetes

Você abre um site, um livro ou revista especializada em vinho e topa com termos como chaptalização, fermentação malolática, perlage, brettanomyces. Hein? Estamos falando mesmo de vinho?

É, meus amigos, o vinho tem seu vocabulário próprio, um dialeto para entendidos, jargões usados entre enólogos, sommeliers, viticultores e profissionais do setor e que podem dificultar a vida de quem está se iniciando nesta área.

Quer desvendar este dialeto? Seus problemas se acabaram-se.  Um dicionário de verdade, com todos os vocábulos do mundo do vinho, acaba de ser lançado pela Companhia Editora Nacional. Trata-se do Dicionário do Vinho, 572 páginas, R$ 120,00, compilado pelos jornalistas Rogério Campos e  Mauricio Tagliari, que também é produtor musical, enófilo e colunista de vinhos.

De aatchkik (uva cultivada na Geórgia e na Ucrânia, empregada na elaboração de vinhos rosés) até zypern (equivalente em alemão de Chipre) são mais de 17.000  termos listados e definidos com precisão, fruto de um trabalho de fôlego e de pesquisa que se torna obrigatório na estante de qualquer enófilo (apreciador e/ou estudioso de vinho) que se preze e também é muito útil para a turma dos “homens que cospem vinho”. Há definições de regiões, tipos de uva, termos químicos, aromas, técnicas e descritivos do vinho.

Um dicionário é uma forma organizada de transmitir conhecimento, normatizar regras e colocar ordem nas coisas. Esta compilação tem uma capilaridade maior, inclui termos equivalentes em outras línguas – o que facilita na leitura do seu Robert Parker preferido – e até aqueles tecnicamente menos corretos, pois o objetivo, segundo os autores, é “ajudar o nosso leitor a entender o que o mundo do vinho fala, mesmo que este fale com a gramática supostamente incorreta”.

Também muito útil para os apreciadores dos fermentados são as variações de nome para um mesmo tipo de uva. São mais de 2.000 uvas descritas no dicionário. Por exemplo, o nome mais conhecido da uva tinta é tempranillo, mas ela também atende se chamada de  aragonês (ou aragonez) no Alentejo, cencibel (centro e sul da Espanha), tinta aragonês, roriz (Douro), ull de llebre (Catalunha), tinta de toro, tinto de toro, tinta del pais, tinto del pais, ramont, tinta roseira, gotim bru e tinto fino. Mesmo as uvas mais internacionais, como a merlot, também têm variações: sémillon rouge, crabulet, médoc noir, merlau, bigney rouge, vitraille, sème de La Canau, merlô, petit merle, bégney e vitraille.

Para quem adora descrever os caldos o dicionário, além das definições, dá uma mão nos sinônimos. Um vinho aveludado (macio, suave, com textura agradável e baixa acidez) é o mesmo que um vinho redondo, e um tinto equilibrado (que mostra harmonia entre seus componentes organolépticos – acidez, taninos e álcool -, aromas, sabores, peso, força, ataque, corpo e persistência) também é descrito como afinado, balanceado e estruturado.

Sem querer comparar a extensão e os objetivos do trabalho, os leitores deste Blog do Vinho também têm um glossário para consultar nos momentos de dúvidas, trata-se da seção ABC de Baco.

A propósito, para quem não entendeu os termos que iniciam este texto, aqui vão as definições do Dicionário do Vinho:

Chaptalização – vinicultura. Prática de acrescentar Açúcar ao mosto, antes ou durante a fermentação, com o objetivo de aumentar o grau alcoólico do vinho.

Fermentação malolática – vinicultura. Transformação do ácido málico em ácido lático, com a liberação do geas carbônico, realizado por bactérias láticas. Tem a função de suavizar o paladar do vinho, já que o ácido lático é mais suave que o málico, e alem disso traz aromas de manteiga e iogurte. Porém, alguns argumentam que  os tintos que passam por esta fermentação perdem em cor e aromas varietais.

Perlage – característica do vinho. Conjunto de bolhas que se formam no vinho espumante

Brettanomyces – microorganismo. Levedura que produz certas substâncias que podem, em baixas quantidades, dar complexidade ao vinho, mas que em geral causam defeitos.

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terça-feira, 25 de maio de 2010 Livros | 12:28

Os melhores vinhos do Chile, da Argentina e do Brasil

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Edição 2010

Descorchados 2010
Guia de Vinhos de Argentina, Brasil e Chile
Patricio Tapia
Degustadores: Jorge Lucki, Fabrício Portelli e Hector Riquelme
Editora Planeta
RS 120,00/R$ 150,00

Responda rápido: qual o melhor vinho do Chile, da Argentina e do Brasil? Difícil? Pois  quatro mosqueteiros da degustação – profissionais das taças meio cheio e meio vazias – levaram ao pé da letra o titulo do guia que editam  (Descorchados) e chegaram nesta resposta. Para isso desarrolharam mais de 2.000 amostras de vinhos sul-americanos e após uma peneira de 1.387  garrafas selecionadas montaram um painel de 50 rótulos e enfim chegaram a um vencedor: o argentino Catena Zapata DV Catena Nicasia Vineyard Malbec 2003. Os onze primeiros lugares e as surpresas brasileiras da lista você confere no final deste post.

Descorchados: enfim, um guia de vinhos para o mercado nacional

Guia de vinhos tem aos montes. Aqui mesmo neste blog, na seção de livros, é possível encontrar alguns dos títulos disponíveis nas livrarias. A maioria, no entanto, tem uma visão americana ou europeia. Mas o que adianta um guia recheado de indicações francesas, italianas e americanas que raramente você vai encontrar nas prateleiras e na carta de vinhos dos restaurantes e, pior ainda, dificilmente terá dinheiro para comprar?

O Guia Descorchados vem suprir esta lacuna. Comandado pelo reconhecido critico chileno Patricio Tapia, o guia é uma seleção que reúne os melhores vinhos do Chile, da Argentina e do Brasil – aqueles que você encontra nas prateleiras dos supermercados e nas boas importadoras. São exatos 1.387 rótulos recomendados e comentados e uma boa novidade: pela primeira vez é realizada uma avaliação de 86 vinhos nacionais, entre tintos, brancos e espumantes.

Didático e fácil de consultar, o guia organiza os produtores dos três países por cores: azul para a Argentina; verde para o Brasil e bordô para o Chile. Cada produtor é introduzido por um pequeno texto e os vinhos selecionados são empilhados pelo critério de pontuação, com símbolos que indicam seu tipo (branco,  tinto, espumante, rosé ou doce), preço médio e até indicação de boas barganhas. A parte inicial – uma descrição dos vales e vinhedos de cada país e uma descrição das principais varietais e sua melhor combinação com comida – é pura informação, mas o leitor só vai se ater a este conteúdo após folhear as páginas de rankings . Além da já citada lista dos top 50, há outros rankings organizados por variedade de uva e de país. Afinal, concordando ou não, quem resiste a uma lista? O melhor malbec argentino? Noemía; o melhor cabernet sauvignon chileno? Manso de Velasco; o melhor espumante brasileiro?  Chandon Excellence, e por aí vai…

O que a esquerda utópica do final da década de 70 tentou na ideologia Tapia e seus colaboradores conseguiram em um guia, a tal unidade da América Latina, pelo menos no mundo do vinho. Publicado no Chile há treze anos, desde 2008 incluiu no time de degustadores os craques Fabrício Portelli (Argentina) e Jorge Lucki (Brasil). Em um primeiro passo ampliou o leque de opções com garrafas argentinas. Este ano incorporou os produtores brasileiros e o próximo candidato lógico, e anunciado, são os vizinhos uruguaios, que serão incluídos numa próxima edição.

Entre os 50 melhores, 4 brasileiros

DV Catena Zapata

A prova coordenada por Jorge Lucki é feita às cegas – isto é, o rótulo não é mostrado para os degustadores, explica ele no início do guia. Um julgamento desses tem sempre um lado pessoal, mas as listas foram ordenadas seguindo o conhecido critério de pontuação (até 100 pontos), critério este que o próprio Tapia não considera ideal: “As pontuações, muito no fundo, escondem é essa mania ocidental de acreditar que a perfeição existe”, escreve no prefácio, para logo adiante tentar se explicar sobre o  “método Parker” aplicado. “Mas é a única maneira que eu conheço de mostrar a vocês de que vinhos gosto mais, qual prefiro, de até onde vai minha subjetividade neste assunto.” Vamos então ao gosto de Tapia & Cia, extraindo do Descorchados 2010 uma amostra dos onze primeiros colocados. Por que onze? Para registrar o maravilhoso branco chileno Sol de Sol, que tanto aprecio….

1º – Catena Zapata DV Catena Nicasia Vineyard Malbec 2003 – Argentina – importadora Mistral

2º – Caliboro Erasmo Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc 2006 (Maule) – Chile – importadora Casa do Porto

3º – Maycas del Limarí Reserva Especial Syrah 2007 (Limarí) – Chile –Importadora Enoteca Fasano

4º – Ribera del Lago Cabernet-Sauvignon, Merlot 2007 (Colbún) – Chile – Importadora Casa do Porto

5º – Catena Zapata, Nicolas Catena Zapata Malbec 2006 – Argentina – Importadora Mistral.

6º – Casa Marin, Cipreses Vineyard Sauvignon Blanc 2009 (Lo Abarca)– Chile – Importadora Vinea

7º – Concha y Toro, Carmín de Peumo Carmenère 2007 (Peumo) – Chile –  Importadora  VCT

8º – Villard Tanagra Syrah 2007 (Casablanca) – Chile –  Importadora Decanter

9º – Finca La Anita Malbec 2006 – Argentina – Importadora Bodegas de los Andes

10– Morandé, House of Morandé Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc 2006 (Maipo) – Chile– Importadora Carvalhido

11º- Aquitania, Sol de Sol Chardonnay 2007 (Traiguén) – Chile– Importadora Zahil

O jogo é equilibrado. Se entre os primeiros onze colocados o Chile fez mais bonito (8 x 3), na batalha geral dos Andes a Argentina levou 24 posições contra 22 do Chile, restando 4 honrosos lugares ao Brasil.

Pode ser que o bebedor mais requintado sinta falta de ícones chilenos como Almaviva, Chadwick ou Dom Melchor nesta lista. Eles também foram avaliados, fazem parte do guia, claro, mas não chegaram lá… não estão entre os top 50.  Outro ponto que chama a atenção é que a uva syrah está mostrando seu valor em vinhedos chilenos. Isso é muito bom.

Vila Francioni Sauvignon Blanc

Grata surpresa, no entanto, é encontrar quatro produtores nacionais entre os top 50. Surpresa maior é que o rótulo brasileiro melhor colocado no ranking (37º posição) não é um espumante, muito menos um tinto, e sim a branca sauvignon blanc 2009 da Vinícola Villa Francioni, da região de  São Joaquim, em Santa Catarina. Os outros brasileiros classificados sao tintos: 43º Casa Valduga Storia Merlot 2005;  45º Salton Talento 2005; 47º Miolo RAR 2005. Bacana, não?

O melhor das indicações deste guia, porém, é que você vai encontrar tanto os pesos-pesados nas páginas de seus respectivos produtores como muitos dos rótulos do dia a dia que você depara nos supermercados e lojas de vinho – todos devidamente descritos e  pontuados. Enfim um guia pragmático e mais próximo das nossas taças.

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terça-feira, 6 de abril de 2010 Livros | 20:50

10 livros para conhecer mais sobre vinho

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“Para apreciar um vinho não é necessário devorar uma enciclopédia,
mas é preciso prestar atenção. E praticar.”

Hugh Johnson, crítico inglês e autor do Atlas Mundial do Vinho

Uma das perguntas mais frequentes que um colunista de vinho ouve é a seguinte:

“Adoro vinho, mas não conheço muito. Onde eu posso aprender mais sobre a bebida?”

Há várias opções, os cursos são uma delas, mas os livros especializados me parecem uma solução mais fácil e eficiente para iniciar esta jornada junto ao conhecimento dos tintos, brancos e espumantes.

Enfiar o nariz entre as páginas dos livros, em vez de mergulhá-lo na taça, pode ajudá-lo na escolha e a compreender melhor o que vai dentro da garrafa. Alternar o mergulho nasal entre as folhas impressas e a taça, então, é uma possibilidade que merece ser considerada. Afinal, a leitura de um guia de vinhos só faz sentido se for seguida de uma experiência prática, na taça.

Conheça dez livros que podem ajudar os interessados em desvendar o ABC do Baco:

  • LAROUSSE DO VINHO

    Editora Lafonte

    384 páginas

    R$ 198,00

    Adaptação do original francês. Um clássico da enciclopédia gastronômica da bebida, revisado e atualizado em sua edição de 2007. Os consultores nacionais são especialistas do mais alto calibre. O enólogo Michel Rolland assina o prefácio. A obra tem a divisão clássica deste tipo de livro. No início estão princípios de vinificação, tipos de uva e noções de degustação. O restante da obra é dedicada aos principais países produtores. Claro que a França merece maior destaque, assim como o velho mundo. No final de cada região, uma lista das principais vinícolas ajudam na escolha do vinho.

    Indicado: para quem está começando e quer se aprofundar no assunto e precisa de uma boa obra de referência. Essencial.

ATLAS MUNDIAL DO VINHO
  • ATLAS MUNDIAL DO VINHO

    Hugh Johnson e Jancis Robinson

    Nova Fronteira

    400 páginas

    R$ 140,00

    Para os apreciadores de vinho, o nome Hugh Johnson está associado à qualidade. O famoso enólogo – autor do Guia de vinhos – é o responsável, em parceria com Jancis Robinson, pela sexta edição do Atlas mundial do Vinho, um amplo estudo das regiões produtoras de vinho de todo o mundo. Com mapas e fotografias de altíssima qualidade, Johnson e Robinson analisam as particularidades geográficas, climáticas e agrícolas dos lugares onde cada vinho é produzido e como influenciam seu sabor e sua qualidade. Além disso, o Atlas não aborda apenas produtores tradicionais da bebida, como França e Itália, mas também países onde a produção não é tão conhecida, como Austrália, Grécia, Canadá e até mesmo o Brasil. Em sua mais recente edição, o Atlas Mundial do Vinho ganha mais 40 páginas, 20 novos mapas e fotos de página inteira. Show de bola.

    Indicado: para quem se interessa em saber como as regiões e terrenos influenciam os vinhedos e seus vinhos.

OS SEGREDOS DO VINHO - PARA INICIANTES E INICIADOS
  • OS SEGREDOS DO VINHO – PARA INICIANTES E INICIADOS

    José Osvaldo Albano do Amarante

    Mescla Editorial

    566 páginas

    R$ 160,00

    O especialista José Osvaldo Albano do Amarante divide com seus leitores trinta anos de experiência no mundo do vinho em textos claros e diretos com muita informação prática. Os destaques nos quadros cinza permitem uma rápida localização dos melhores produtores de dezesseis países e outras referências importantes para os leitores.

    Indicado: para quem quer contar com a experiência de quem já degustou muito.

TINTOS & BRANCOS
  • TINTOS & BRANCOS

    Saul Galvão

    Editora Conex

    640 páginas

    R$ 120,00

    Saul Galvão foi um jornalista conhecido no mundo enogastronômico e, mais importante, uma referência para os leitores. Suas dicas de vinho podiam ser acompanhadas semanalmente no jornal O Estado de S. Paulo, no caderno “Paladar”. É autor, entre outras obras, do Guia de Tintos e Brancos (e Rosados). Este livro se diferencia do seu guia pois além dos rótulos, fruto de sua intensa experiência gustativa, apresenta um perfil dos países e regiões produtores, em uma obra de referência para iniciantes e iniciados.

    Indicado: para quem acompanhava as críticas de Saul Galvão e confia em sua avaliação.

VINHOS, O ESSENCIAL
  • VINHOS, O ESSENCIAL

    José Ivan dos Santos

    Editora Senac

    300 páginas

    R$ 79,00

    Um dos livros de referência de vinho mais vendidos no Brasil. Está na sua 7ª edição. Didático, é ideal para quem está começando a se interessar sobre o assunto e pretende ampliar seu aprendizado. Os países do cone sul, como Chile, Argentina, Uruguai e o Brasil, com maior presença no mercado nacional, merecem um tratamento especial, diferente do que acontece em enciclopédias traduzidas.

    Indicado: para quem está se iniciando no tema e precisa de informações precisas.

INTRODUÇÃO AO MUNDO DO VINHO
  • INTRODUÇÃO AO MUNDO DO VINHO

    Ciro Lilla

    Editora Martins Fontes

    289 páginas

    R$ 29,80

    Num texto que trata o assunto de forma simples e clara, o autor, proprietário das importadoras Mistral e Vinci, busca descomplicar os mitos que envolvem a bebida.

    Indicado: para iniciantes que não querem complicar o conteúdo da taça.

A BÍBLIA DO VINHO
  • A BÍBLIA DO VINHO

    Karen MacNeil

    Ouro

    800 páginas

    R$ 189,00

    Recheado de informações e escrito numa linguagem muito agradável, tem uma leitura fluente, com destaques e quadros que resumem os pontos principais de cada tema. França, Itália e Estados Unidos merecem mais atenção da autora, que é americana. Países como Argentina e Chile não têm o merecido destaque e Portugal fica restrito ao vinho do Porto.

    Indicado: para quem busca uma enciclopédia e que tenha certa predileção pelos vinhos americanos.

A ARTE DE DEGUSTAR O VINHO - PELO MELHOR SOMMELIER DO MUNDO

  • A ARTE DE DEGUSTAR O VINHO – PELO MELHOR SOMMELIER DO MUNDO

    Enrico Bernardo

    Companhia Editora Nacional

    206 páginas

    R$ 70,00

    Este belo livro do sommelier Enrico Bernardo faz uma viagem sensorial pelo mundo do vinho. Ricamente ilustrado, traz ainda entrevistas com importantes produtores, além de mostrar, passo a passo, os processos da degustação e da apreciação de um bom tinto, um refrescante branco, um explosivo espumante, um reflexivo doce…

    Indicado: para quem quer seguir as regras da degustação.

GUIA ILUSTRADO ZAHAR VINHOS DO MUNDO
  • GUIA ILUSTRADO ZAHAR VINHOS DO MUNDO TODO

    Paulo Nocolay (consultor para edição brasileira)

    Jorge Zahar

    672 páginas

    R$ 80,00

    Este guia entrega o que promete. Padrão das obras produzidas pela editora inglesa Dorling Kindersley. É ricamente ilustrado com mapas, fotos e quadros das principais regiões vinícolas do mundo, como sugere o título. Outro ponto forte é a indicação de rótulos mais importantes de cada região descrita. Seu formato menor (13 x 22 cm) permite carregá-lo até uma loja, levá-lo em viagens ou mesmo em restaurantes.

    Indicado: para quem prefere um guia mais direto e com tratamento gráfico caprichado.

O GUIA FUNDAMENTAL PARA O APRECIADOR MODERNO
  • O GUIA FUNDAMENTAL PARA O APRECIADOR MODERNO

    Oz Clark

    Marco Zero

    144 páginas

    R$ 70,00

    Oz Clark é um critico inglês conceituado e bem-humorado. Neste guia ele reúne todo o seu conhecimento adquirido em anos de degustações e viagens em mapas bem ilutrados e impressos, dicas de compras, sugestões de safras e aquele apanhado sobre as principais regiões vitivinícolas, comum a toda obra com pretensão de guiar seu leitor pelo mundo do vinho.

    Indicado: para quem está querendo um texto mais leve e uma obra com imagens caprichadas.

Conheça na seção de livros Outras indicações de livros de vinho

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quinta-feira, 16 de abril de 2009 Livros, Porto, Velho Mundo | 21:59

O Douro, o Porto e as letras

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Você fez o teste do Vinho do Porto? De qualquer forma, se você curtiu o aperitivo e quer entender um pouco mais sobre este fermentado fortificado, uma obra essencial é o já citado Porto e Um Vinho e sua Imagem (2006), do especialista e entusiasmado Carlos Cabral. O livro recupera a história da bebida desde o século XVII com base em mais de vinte viagens que o autor realizou a região e apresenta imagens de cerca de 300 rótulos, incluindo raridades.

Junta-se agora à bibliografia do Porto um livro mais abrangente na temática mas nem por isso menos didático em seu intuito: Os Sabores do Douro e do Minho (Editora Senac), do jornalista Marcelo Copello, que esquadrinha duas importantes regiões vinícolas lusitanas, que produzem dois caldos típicos e únicos: o Porto e o vinho verde. Copello leva pela mão o leitor apresentando a história das regiões, de seus mais importantes produtores e finalmente conta tudo que você precisa saber sobre seus vinhos, elaborados com as curiosas castas típicas das quintas portuguesas. Complementam esta “ementa” editorial receitas que nasceram e cresceram junto a estes vinhos, uma harmonização onde a gastronomia e os tintos, brancos e fortificados, mais do que complementos, são parceiros de vida.

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domingo, 29 de março de 2009 Harmonização, Livros | 22:24

Cabral descobre o que o cerimonial brasileiro tem

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O enófilo, consultor e escritor Carlos Cabral é uma exceção no mundo dos vinhos. Em vez de ocupar o tempo dos leitores com sua opinião, ele é um dos raros conhecedores da boa mesa e das melhores garrafas que se dedica à pesquisa. Seu mergulho em documentos, coleções e arquivos já resultaram em dois importantes livros para quem tem interesse pelo tema: Presença do Vinho no Brasil (2004) e Porto e Um Vinho e sua Imagem (2006).

Nesta segunda-feira chega às livrarias um terceiro volume desta faceta de escriba e de pesquisador de Cabral. Trata-se do elegante e bem-cuidado volume A Mesa e a Diplomacia Brasileira – O Pão e o vinho da concórdia. Neste volume, o vinho deixa de ser o protagonista, mas é parte integrante do itinerário que leva o leitor para uma viagem pelo cerimonial e pelo protocolo dos banquetes e recepções da diplomacia brasileira desde a fundação da nação.

À primeira vista o tema parece ser aborrecido, como tudo que envolve protocolos, fraques e cerimonial. Algo como o vinho de polainas; o prato de abotoaduras. Mas não, o livro é um importante registro histórico, conduzido com competência por um autor acostumado com o rigor na pesquisa, e revela a importância do banquete na vida pública. Cabral dedicou 3 anos de pesquisa no Itamaraty do Rio de Janeiro, onde explorou mais de 6,5 milhões de documentos. “O pessoal responsável, que tem em media 30 anos de trabalho no arquivo, adorou o ineditismo da obra”, revela o escritor. O leitor também deve se deliciar.

A obra está dividida em três partes. Em o Banquete, traça uma rápida linha do tempo da importância do banquete ao longo da história da humanidade. Em o Itamaraty, conta-se sobre a instituição do edifício-sede do serviço diplomático, no Rio de Janeiro, que virou sinônimo da diplomacia brasileira e seu sucedâneo, no Palácio do Planalto. Mas a parte que se escaneia com curiosidade de lupa é aquele que trata da Mesa Diplomática propriamente dita: o intrincado papel do cerimonial na organização das mesas (ótimas as curiosas reproduções de desenhos que mostram a distribuição dos lugares à mesa de uma recepção – isso sim é serviço diplomático!), os utensílios e pratarias utilizados e finalmente os banquetes, cardápios e cerimoniais. O relato cobre desde o tempo do Barão do Rio Branco, que normatizou o serviço – período dominado pela gastronomia francesa e vinhos idem, com um espaço para o Porto e o Madeira -, até chegar aos anos mais recentes, com a inclusão do cardápio brasileiro e do vinho nacional, introduzido pelo presidente Collor, em 1990. As reproduções  dos cardápios e fotos dos eventos são saborosas crônicas visuais de um estado que se senta à mesa para receber, negociar e comemorar acordos diplomáticos.

Um cardápio típico do início do século passado
Potage à la royale
Filet de robalo hollandaise
Jambom à la gelée
Mignonnette de veau niçoise
Asperges chantilly
Dindonneau trouffé aus marrons
Charlotte siberienne
Mignardises

Vins
Xerez, Sauternes, Margaux, Côte de Nuits, Veuve Clicqout et Porto
Café et liqueurs

Cardápio oferecido ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, em 22 de novembro de 2004:
Camarão flambado ao molho de ragu
Purê de mandioca
Filé mignon ao me pimenta verde
Souflé de goiabada com nuvem de catupiry

Vinhos
Casa Valduga Premium Chardonnay 2004
Casa Valduga Cabernet Sauvignon Premium 1999
E Casa Valduga Asti

O autor
Carlos Cabral foi o fundador da primeira confraria de vinho do Brasil, a Sbav – Sociedade Brasileira dos Amigos do vinho, em 1980, e proprietário da Casa Cabral, famosa por seu bacalhau, que, dizem, é insuperável. Nos últimos anos ficou marcado como consultor de vinhos do grupo Pão de Açúcar. Provavelmente você já topou com um retrato de Cabral nos folhetos do supermercado. Além de decidir quais tintos, brancos, espumantes e fortificados vão para a prateleira, formou e treinou mais de 100 atendentes de vinho da rede, conhecidos como Cabralzinhos. Espécie de embaixador do vinho do Porto no Brasil, aliás uma de suas maiores paixões, prepara um Dicionário do Vinho do Porto, em parceria com outro craque do fortificado, este de além mar, o português Manuel Joaquim Poças Pintão.

Este personagem múltiplo, capaz traduzir com uma enorme facilidade o vinho para plateias leigas em suas palestras, dono de um humor fino, daquele tipo que conta piada até em velório sem sair do tom, se mostra cada vez mais o autor mais credenciado para mostrar às atuais e futuras gerações uma parte oculta da cultura de um povo e de uma nação. Talvez a mais divertida, a da gastronomia e do vinho.

Serviço
A Mesa e a Diplomacia Brasileira – O Pão e o Vinho da Concórdia (Editora de Cultura, 263 páginas, R$ 90,00)
Lançamento:
Livraria Cultura.Avenida Paulista, 2073 (Conjunto Nacional), tel 3170-4033, Metrô Consolação. Segunda (30), 19h.

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quarta-feira, 22 de outubro de 2008 Harmonização, Livros | 00:37

Vinho e comida: a arte de combinar lé com cré

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O sujeito se esforça, e depois de certo tempo acaba finalmente aprendendo um pouco sobre vinho: conhece as principais uvas, regiões, países, decora alguns rótulos e até adquire certa aptidão para identificar aromas e sabores. Jargões como terroir e tânico começam a fazer parte de seu vocabulário. Todos os mistérios dos tintos, brancos e espumantes estão desvendados, certo?

Infelizmente, não!

Agora é preciso harmonizar – ou seja, desenvolver aquela habilidade de combinar a comida do prato com o vinho na taça.

Frescura? Bom, se você coloca na balança o dinheiro investido na bebida, somado ao da refeição, e o resultado da mistura é ruim para ambos os lados, aí talvez a percepção mude um pouco.

Como tudo que envolve o vinho, este é mais um capítulo cercado de preconceitos. Ninguém condena quem torce o nariz para combinações esdrúxulas como camarão com bisteca de porco, feijoada com macarrão ou então goiabada com presunto, tudo isso regado a licor de menta no copo. Por que então o casamento entre vinho e comida também não pode ter seus princípios e recomendações?

Tudo bem, vamos combinar que não é das tarefas mais fáceis, dificultada pela quantidade enorme de rótulos e receitas. O que torna também a brincadeira mais divertida. Para isso que existem os sommeliers em restaurantes (não é só para te empurrar o vinho mais caro da carta). Mas a experiência mostra que é possível também desenvolver este talento pessoalmente. Há dois caminhos, o empírico e as indicações de especialistas e amigos. Ambos só funcionam, evidente, com sua certificação pessoal. Harmonização boa é aquela que combina, antes de tudo, com o seu gosto.

O livro dos dois “Zés” dá uma mãozinha
Na área da indicação de especialistas, há uma boa novidade nas livrarias. Dois craques do mundo vinho juntaram seus talentos e histórico degustativo para ajudar os incautos nesta tarefa. O resultado é o livro Comida e Vinho, Harmonização Essencial (José Ivan Santos e José Maria Santana, Editora Senac). Os dois “Zés” do vinho têm uma enorme folha de serviços prestados na área, o primeiro especializou-se pela Wine & Spirit Education, de Londres, e é autor de diversos livros sobre o tema, o segundo é jornalista de fino texto e contribui há muitos anos para publicações especializadas. Taí uma harmonização que deu certo!

A grande sacada do livro é facilitar a vida do leitor. Quem quiser se aprofundar um pouco mais, há detalhadas explanações de princípios e métodos de harmonização. Para quem quer ir direto ao ponto, quadros e tabelas resumem o que interessa. Qual vinho combina com que tipo de comida, organizados por tintos, brancos, rosés e espumantes e suas respectivas uvas.

Claro, não existe regra fixa. Dá tranqüilamente para desconectar as coisas. Se o vinho e a comida se estranharem – por exemplo, um linguado com espinafre orgânico e um tinto potente espanhol da Rioja -, basta intercalar um copo de água entre eles e a vida segue feliz. Mas se junto ao Rioja acompanhar um naco de picanha sangrando, ou o linguado for amparado por um fresco Chablis, que é um branco sem madeira da França, com certeza o seu índice de felicidade vai aumentar. E muito. Os vinhos e as receitas estão no mundo, só é preciso aprender.

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Harmonização, Livros | 00:26

O peso: se tiver de apostar em um critério, escolha este

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Para os interessados em tirar melhor proveito do casamento entre refeição e bebida, reproduzo um trecho do livro Comida e Vinho, de José Ivan Santos e José Maria Santana. Trata-se de uma regra de ouro simples e direta de harmonização, resumida no título acima. Há muito mais dicas nos outros capítulos:

Uma regrinha de ouro diz que a força de um prato não deve sobrepujar a do vinho e vice-versa. Alimentos e vinhos têm peso, e ele deve ser levado em conta na harmonização. Um vinho potente vai atropelar uma comida leve e o contrário também é verdadeiro. As proporções de um e outro devem ser parecidas. Sabores delicados pedem vinhos delicados. A gente sabe quase naturalmente o que é uma comida leve ou pesada. Peixe grelhado ou um espaguete fininho com molho de manteiga de sálvia são pratos sutis, um convite para um branco leve.
Uma refeição à base de pão e queijos de massa mole está mais para peso médio, acolhendo bem um branco de corpo médio, como um chardonnay sem muita madeira ou tinto jovem, um pinot noir ou malbec. Cordeiro, caça, carnes e massas com molhos copiosos e com queijos de pasta dura são comidas de sabor forte. De maior peso, que pedem um vinho à altura, com um musculoso cabernet sauvignon, um barolo, um tannat ou um shiraz australiano potente.

Além de prático, bem escrito. Aos talheres e taças, então.

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