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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014 Novo Mundo, Tintos | 10:28

Weinert, um vinho argentino para quem gosta de tintos mais envelhecidos

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Cavas de Weinert, em Mendoza, Argentina: um vinho com tempo de garrafa

Cavas de Weinert, em Mendoza, Argentina: um vinho que já nasce com anos de adega

O que têm em comum um brasileiro que montou uma vinícola em Mendoza, um enólogo suíço que atravessou o mundo para fazer vinhos na Argentina, um argentino que prepara as empanadas mais deliciosas da região e um jornalista paulista que teve sua mala inundada por uma garrafa de vinho que espatifou dentro da mala? A Cavas de Weinert.

Parada obrigatório das fotos: barrica de 150 anos e com malbec 2013

Parada obrigatória para fotos: tonel de 130 anos, 44 mil litros, e  malbec 2013

Um brasileiro em Mendoza

A Bodegas y Cavas de Weinert é uma criação do brasileiro Bernardo Weinert, chamado de “Don Bernardo” na Argentina. O empresário de origem alemã e nascido em uma pequena colônia no sul do Brasil resolveu ter um vinho para chamar de seu em meados da década de 70 e após alguma pesquisa escolheu os solos de Luján de Cuyo, em Mendoza, Argentina. Adquiriu uma cantina construída em 1890, fez as reformas necessárias, estabeleceu um estilo para os vinhos (a marca registrada é de envelhecimento por no mínimo dois anos antes de lançar no mercado) e colocou os rótulos à venda a partir de 1976. Em 1995 uma nova reforma adequou os equipamentos as mudanças e avanços tecnológicos. Há dois anos a empresa teve a entrada de novos sócios. Uma visita pela cantina (há vários horários durante a semana) revelam entre seus corredores escuros de pedras gastas pelo tempo grandes tonéis de carvalho e pilhas de garrafas empoeiradas, ainda sem rótulo, apenas com uma placa indicando a safra. Um enorme tonel de 130 anos, adquirido na Itália, é o foco das câmeras dos celulares e ponto alto da visita. O bichão tem capacidade para 44 mil litros, e vale algo como 240 mil euros, está instalado desde 1998 e ainda é utilizado. Nestes tóneis – também conhecidos como foudres – e garrafas repousam o segredo e o diferencial da Weinert: o tempo de maturação dos vinhos que lhe confere um perfil de tinto mais evoluído, do velho mundo. Ou como eles se definem, uma bodega de vinhos de guarda.

Hubert Weber: e a provas dos noves (vinhos)

Hubert Weber: o enólogo que veio da Suíça e a prova dos vinhos (o sem rótulo é de 1978)

Um suíço em Mendoza

O mestre de cerimônias e responsável pela elaboração dos vinhos também não tem um sobrenome muito mendocino. Hubert Weber é suíço. Está na Cavas de Weinert há 18 anos. Um vinho em especial o trouxe para o outro lado do Atlântico. Em 1991 Hubert provou um Cavas de Weinert Gran Vino numa feira em Berna e se apaixonou pela bebida. Sabendo de seu interesse uma amiga conseguiu contato para ele trabalhar na Bodega na Argentina. Hoje em dia Hubert abre com orgulho as garrafas da Weinert para mostrar os caldos onde aplica seus conceitos de enologia. “Não vim aqui para mudar a filosofia da casa, ao contrário, vim por causa dela”, explica. “Fiz poucas mudanças, o principal foi manter e respeitar o estilo do vinho”.

Os vinhos da Cavas de Weinert, de Mendoza

Por estas características todas, os rótulos da Weinert vão agradar aqueles que gostam de tintos mais envelhecidos, maduros, com boa evolução de aromas e diversidade no gosto das frutas, com toques de couro, canela, tabaco, terroso, enfim aqueles aromas do tempo em garrafa e influência de tonéis de carvalho – conhecido no jargão como terciários. O mais legal é que o consumidor não precisa aguardar para curtir estas características, as garrafas são lançadas já com certa evolução. E é possível comprar safras anteriores. Haviam 1500 garrafas do Carrascal 1978 em estoque, por exemplo. E podem ser compradas por 120 dólares.

A linha de entrada, Pedro del Cartillo*, é um bom cartão de apresentação dos tintos da Weinert. O tempranillo da safra 2013, de vinhas de 40 anos, tinha uma boa pegada de fruta e de terra. O cabernet sauvignon 2012 estava mais fechado, um toque de especiaria estava lá, no entanto, os taninos precisam de um pouco mais de tempo para amaciarem. O malbec 2012 vai mais para o lado da fruta fresca, como cerejas, é macio e fácil de beber.

Carrascal 2009: pronto para hoje, amanhã e depois

Carrascal 2009: pronto para hoje, amanhã e depois

A linha seguinte, a Carrascal, vem de vinhedos de 30 a 60 anos de Luján de Cuyo. É uma mescla de malbec (45%), merlot (35%) e cabernet sauvignon (20%). Passa dois anos em tonéis grandes de carvalho. Provamos a safra 2009. O tempo já mostrou seus efeitos de evolução da fruta madura e negra integrada com o carvalho, um licoroso chega junto no final de boa intensidade. No Brasil estará em torno de 60 e 65 reais. Não gosto do termo, mas é um belo custo-benefício.

Zezinho, Huguinho e Luizinho: varietais de malbec, merlot e cabernet sauvignon

Zezinho, Huguinho e Luizinho: varietais de cabernet sauvignon, malbec, merlot de 2006

A linha varietal é mais seletiva e, claro, procura expressar o potencial da carreira-solo de uma variedade. Hubert comenta que é raro ter na mesma safra três rótulos de três variedades no mesmo ano no mercado. Por exemplo, em 2005 não teve merlot. Mas em 2006 estão disponíveis os varietais merlot, malbec e cabernet sauvignon. São todos bons tintos, meus comentários no bloco de notas (um iPad, na verdade) foram superlativos. Para o merlot: velho estilo, de impacto terroso, ótima acidez, corpo médio, umas flores chegaram numa segunda fungada. Para o malbec: baita ataque no nariz, flores, frutas (ameixa madura), final estupendo, couro, canela, sândalo (sândalo? Pois é, pela primeira vez senti isso num vinho). Para o cabernet sauvignon: chocolate, fruta negra, couro, taninos fortes mas evoluídos, vinhaço para beber e namorar os aromas de fim de taça. Os varietais – note bem, da safra 2006, já chegam com 8, 9 anos nas costas – custam entre 100 e 110 reais no país da alta carga tributária. Não precisa falar onde, né?

Cavas de Weinert Gran Vino 2004: não leve na mala...

Cavas de Weinert Gran Vino 2004: beba na origem, não leve na mala…

E para o final o Cavas de Weinert Gran Vino 2004, um ícone, mas que ao contrário de muitos de seus pares não é pesado, feito para tomar com garfo e faca. Aqui a cabernet sauvignon e a malbec disputam a mescla com 40% cada uma, sobrando 20% para a merlot. Passa três anos em barricas. Prima pela elegância, atributo um tanto difícil de explicar mas fácil de entender no copo. Um nariz que até deixa um pouco zonzo, um licor de cereja que começa no aroma e se traduz em boca, tostados finos, muita fruta, um champignon, final longo, persistente. Esta belezinha de 2004, lá se vão 10 anos, chega às prateleiras por volta de 150 e 160 reais.

Diferente da maioria das vinícolas que se orgulham de contar com vinhedos próprios, a Weinert compra todas as uvas. “Compro apenas o que necessito”, ensina Hubert Weber. São uvas das variedades malbec, cabernet sauvignon, merlot (90% do total), complementadas com syrah, bonarda, tempranillo e cabernet franc – esta última com destino certo, a Suíça. A colheita é feita à mão e uma relação antiga com os produtores permite uma pré-seleção dos cachos. Os vinhedos onde Hubert vai às compras são todos antigos, de solo argiloso e de pé franco (ou seja, não tem enxerto na raiz; traduzindo, traz maior autenticidade à uva). E quando não considera a safra com a qualidade ideal, simplesmente não compra e não produz os vinhos naquele ano. É o que aconteceu com a safra de 2014. Mas e aí, como faz?, pergunto eu. “Não faz”, responde ele, “temos uma adega com capacidade para 3 milhões de litros, e atualmente temos 900 mil litros dentro de casa. Esta é a filosofia da Weinert”

Empanadas, empanadas, empanadas, alguém quer empanadas?

Empanadas, empanadas, empanadas, alguém quer empanadas?

Um mendocino (e suas empanadas) em Mendoza

Assim que terminamos a prova dos principais vinhos, foram servidas umas empanadas (na foto quase dá para sentir seu perfume quente) feitas por um mendocino vizinho à bodega. Sugestionado ou não pelo ambiente, pelos vinhos provados e pela surpresa final –  um Carrascal 1978, engarrafado em 1982 e com aromas de tabaco e evolução deliciosa do tempo, mas muito vivo na boca -, elegi como as melhores empanadas da minha vida, e a partir desta data a harmonização perfeita para um Carrascal.

Malbec 2009, esperando seu tempo de ganhar as prateleiras

Malbec 2009, esperando seu tempo de ganhar as prateleiras das lojas

Um brasileiro em Mendoza

O jornalista que teve sua mala alagada por um vinho, meio óbvio, é este que vos escreve, que trouxe em sua bagagem, devidamente protegido em um desses sacos de plástico-bolha uma garrafa do Cavas 2004 Gran Vino. A garrafa era uma lembrança da visita realizada à cantina de “Don Bernardo”, escoltada pela cativante Hubert Weber, onde provei os rótulos da Weinert acompanhados das inesquecíveis empanadas. A ampola, que ia repousar mais um tempo na minha humilde adega, não resistiu ao delicado serviço de bagagens do aeroporto e trincou uma parte do vasilhame. Se tive o azar de perder o precioso líquido que tingiram minhas roupas (literalmente uma camiseta branca ganhou tons de vinho…), a boa notícia é que a partir do primeiro trimestre os rótulos da Weinert voltarão a ser importados ao Brasil, agora pelas mãos da Mercovino. Esqueci de comentar no início, os vinhos da Weinert não estavam sendo importados para o Brasil nos últimos anos, mas encontram-se algumas garrafas em lojas especializadas. Devem estar disponíveis nas prateleiras no primeiro trimestre de 2015. Os preços citados neste texto são os sugeridos pela operação da Weinert no Brasil para o momento, enquanto o dólar se encontra neste patamar de 2,60/2,65. *A linha Pedro del Cartillo ainda está em negociação se entra ou não neste pacote de importação.

 

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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014 Novo Mundo, Tintos | 18:15

Don Melchor 2010, um clássico chileno entre os melhores tintos do mundo

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Enrique Tirado 02

Enrique Tirado, enólogo do Don Melchor: fazendo pose no solo cavado nos vinhedos de Puente Alto, no Chile

A Concha y Toro é uma das maiores marcas de vinho do planeta. É uma referência, para o bem o para o mal, desde o iniciante dos tintos chilenos até para os amantes de bons rótulos. Na indústria local também se sente seu peso. Estive recentemente no Chile e não há produtor ou enólogo que não cite a empresa pelo seu tamanho, importância e volume para efeito de comparação, ou para se diferenciar em qualidade ou tamanho.

A Concha y Toro produz tanto tintos de consumo de massa, como a linha mais básica Reservado, ou de entrada como o Casillero del Diablo, como elabora ícones importantes. Don Melchor é joia da coroa. E tem suas regalias. É tratada como uma pequena vinícola dentro empresa, com equipe própria e dedicada. A safra de 2010 foi eleita entre os 10 melhores tintos do planeta pela lista anual da revista especializada Wine Spectator. A propósito, o Don Melchor já carimbou sua presença sete vezes na lista, sendo que três vezes entre os Top Ten (as safras de 2001 e 2003 em quarto lugar, a de 2010 em nono lugar).

Enólogo e galã

O cidadão da foto acima, com pinta de galã, atende pelo nome de Enrique Tirado. Ele é o responsável, desde a safra de 1997, pelo vinho que reúne uma pequena e exclusiva legião de admiradores brasileiros que transformaram o Don Melchor (muitas vezes chamado equivocadamente de “Don Melchior”) um objeto de desejo a cada safra lançada. Enrique Tirado, que tem um irmão gêmeo que também é enólogo (para diferenciá-los pessoalmente, basta reparar na cabeleira, seu irmão tem o penteado mais bagunçado que ele), é uma espécie de guardião do estilo e da tradição do Don Melchor. Ele mesmo explica o que vem a ser este estilo: “O que queremos é a expressar o cabernet sauvignon de Puente Alto, no Vale do Alto Maipo, nos Andes, com uma fruta viva e fresca”. Longe de entrar na discussão de mudança de estilo que atualmente atinge quase todas as vinícolas do Chile (menos madeira, mais fruta e acidez), para Tirado o objetivo permanece o mesmo: elaborar o melhor cabernet sauvignon que o vinhedo pode  oferecer: “Não sigo moda que vai para um lado e depois vai para outro”, explica.

 O que é que o Don Melchor tem

Basicamente o vinho tem uma consistência de qualidade e de estilo que revelam que ali naquele lugar o cabernet sauvignon é ator principal (90%) – também são cultivados poucos hectares de merlot (1,9%), petit verdot (1%) e cabernet franc (7,1%). Os vinhedos de Puente Alto, aos pés da Cordilheira Andes, são vizinhos dos terrenos de Chadwick e de Almaviva. Traduzindo: a papa fina do vinho chileno está reunida na região. Mas a elaboração de um vinho de exceção deste tipo não é mamão com açúcar. Para atender a alta expectativa em torno de cada safra e a fama conquistada, há muito estudo do terreno e das parcelas que compõem os vinhedos que vão fornecer as uvas que serão fermentadas e engarrafadas. São sete parcelas divididas em 127 hectares de terreno analisados minuciosamente em relação ao solo (se há mais ou menos pedras, profundidade das raízes, drenagem etc), clima, exposição ao sol.

Vinhedo de Puente Alto, aos pés das Cordilhieras: expressão meaxima do cabernet sauvignon

Vinhedo de Puente Alto, aos pés das Cordilheiras: expressão máxima da cabernet sauvignon

Os frutos destes vinhedos são experimentados nas parreiras ao longo dos meses e para a mescla final são provadas entre 120 e 150 mostras de diferentes parcelas já vinificadas que vão determinar o vinho que vai na taça. As provas selecionadas são enviadas para Bordeaux, na França, onde Enrique Tirado e o enólogo francês Eric Boissenot passam de três a quatro dias, em meados de julho, fazendo as escolhas  que vão determinar o resultado final. Esta maratona de provas de cabernets de variadas parcelas, mais as outras variedades que podem ou não aportar outras notas ou complexidade ao vinho, têm um único objetivo: “expressar o melhor cabernet sauvignon daquele lugar”.

Dos 127 hectares cultivados, se aproveitam cerca de 60% a 70% das uvas, o que tem produzido em média cerca de 150.000 garrafas por ano. As uvas que são descartadas, que são de boa qualidade mas de alguma forma não ajudariam a compor o estilo Don Melchor, são usadas para outras linhas da Concha y Toro, como o Marques de Casa Concha. “Mas não passa de 5%, o que não vai alterar no resultado final do produto”, alerta Tirado, frustrando aqueles que podiam achar que comprando um Marques de Casa Concha estão adquirindo um segundo vinho do Don Melchor.

Como já se disse mais de uma vez, o Don Melchor é uma mescla de cabernet sauvignon com a possibilidade de adição, principalmente a partir de 1999, de cabernet franc, que raramente ocupa mais do que 3 a 6% na proporção total do blend. A safra premiada de 2010 e que está sendo trabalhada agora tem 97% cabernet sauvignon e 3% cabernet franc. A novidade que Tirado trouxe em primeira mão aos amantes da cabernet franc – como este que vos escreve – é que uma pequena produção da varietal da safra de 2013, sem a denominação de Don Melchor, já está engarrafada. E deve vir ao mercado em breve. A ver.

Don Melchor 2010: o rótulo mudou mas o vinho continua o mesmo

Don Melchor 2010: o rótulo mudou mas o vinho continua o mesmo

Novo rótulo

A safra de 2010 vem com uma novidade. O rótulo teve uma pequena alteração. Perde espaço o “brand” Concha y Toro, discretamente reduzido a um selo no canto superior do rótulo e ganham destaque a uva predominante (vou falar pela última vez, cabernet sauvignon, ok?) e o lugar de procedência: Puente Alto. Esta ação de marketing gerou uma discussão de um ano até a aprovação da mudança que deixou a etiqueta mais elegante, mas que em nada altera o vinho e sua percepção. Talvez para os novos entusiastas deste ícone, ou para aqueles esnobes que não queriam misturar a marca de volume (Concha y Toro) ao seu caldo de alto valor agregado, a mudança faça mais sentido. Na verdade todo mundo sabe que Don Melchor é Concha y Toro.

• Leia também: 50 vinhos argentinos que vale a pena conhecer

O Don Melchor 2010 de fato tem uma coerência e uma linha de qualidade que impressiona. Provados numa vertical (várias safras) se notam diferenças aqui e ali, resultado do clima, da evolução e até mesmo da garrafa. “Há uma personalidade”, insiste Enrique Tirado, “mas claro que há diferenças que representam o ano da safra”. Ele passa em média 15 meses em barricas francesas de médio tostado. O que se prova não são os efeitos da barrica, mas a fruta, as especiarias, um toque de tabaco talvez. Tem a persistência dos grandes vinhos, a elegância de um cabernet sauvignon clássico, suculento como raros tintos e a percepção de um estilo.

Não é vinho para todos os dias (custa algo em torno de 430, 450 reais a garrafa), mas para um dia especial. Um vinho para se beber com atenção e prazer. Como um bom livro, dedicando um pouco mais de tempo ao seu consumo. Eu tenho um 2001 aguardando um momento na minha adega. A safra de 2010 promete. Para beber agora ou depois de alguma evolução, quando a data ideal chegar.

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sexta-feira, 28 de novembro de 2014 Degustação, Tintos, Velho Mundo | 12:34

Vinhos da Borgonha, no céu e na terra

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Gevrey-Chambertin da Domaine Armand Rousseau: joias raras

Gevrey-Chambertin da Domaine Armand Rousseau 2009 e 2008: o paraíso é aqui

Proibido na terra o vinho é uma das promessas do paraíso muçulmano. É descrito no Alcorão como “Branco, delicioso para quem o bebe, livre de intoxicantes e, com ele, não se embriagarão” (Alcorão 37:46-47). Não sei qual a graça deste vinho sem álcool, mas no meu paraíso particular, o vinho também seria contemplado, e se precisasse escolher apenas uma região – o que na teoria seria uma contradição, já que estaria no paraíso, né? – seria a Borgonha. Então, cada vez que tenho a oportunidade de provar rótulos realmente representativos desta região da França, um pedacinho do paraíso se realiza em vida. Foi o que aconteceu esta semana, quando fui convidado para uma degustação exclusiva de tintos e brancos de alta patente da Borgonha (ou Bourgogne, para os puristas).

A Borgonha é grande e é pequena. Grande por que produz os pinot noirs e chardonnays mais encantadores do planeta. Pequena por que ocupa apenas 3% de todos vinhedos plantados na França. Está localizada há duas horas de Paris e é fragmentada por natureza e por uma decisão de Napoleão Bonaparte, que dividiu grandes propriedades da Igreja em pequenas parcelas que foram subdivididas por heranças ao longo do tempo. Uma imagem possível para descrever o mapa da Borgonha é um vitral, ou uma colcha de retalhos. A parte mais importante, de onde vêm os melhores vinhos, é a Côte d’Or, que é dividida entre a parte sul (Côte de Beaune) e a parte norte (Côte de Nuits). A partir daí surgem as apelações, as comunas e os vinhedos com suas distintas personalidades e proprietários. E para piorar a algaravia de nomes, diversos produtores têm pequenos lotes espalhados por toda a Côte. Para se ter uma ideia, a apelação Clos Vougeot tem 50 hectares divididos entres mais de 90 produtores. Se fosse um “bread crumb”, aquelas sinalizações no alto de uma página de internet que indicam o caminho percorrido pelas navegação do usuário, seria algo assim: França->Borgonha->Côte d’Or->Côte de Nuits->Clos Vougeot->Produtor->classificação de vinhedo (grand cru, premier cru etc). Difícil – e inútil – decorar todas apelações e descrevê-las aqui. Eu confesso que tenho sempre de recorrer aos livros e à internet. Quem realmente domina a região não precisa disso, quem não conhece vai achar enfadonho e esquecer tudo no parágrafo seguinte. Para aqueles que quiserem se aprofundar em todos os detalhes da Borgonha o site Bourgognes é bastante útil.

Por conta destas características que unem qualidade, pequena produção e muita procura, a comercialização destes vinhos é outra particularidade da Borgonha que tem entre tantos ícones, talvez a vinícola mais cultuada do planeta, a Domaine de La Romanée-Conti. A distribuição, ou realocação, é uma batalha travada pelos importadores de todo país que é agraciado, após muita negociação e espera, com algumas poucas garrafas de determinado rótulo. É uma distribuição pontual e global. Quando se fala em poucas garrafas, não é exagero, às vezes 12 garrafas de um grand cru (o topo da cadeia alimentar da classificação da Borgonha) são exportadas para um país. Resultado: são vinhos caros, caríssimos, o que aumenta a mística em torno destes caldos que passam a ser objeto de desejo de quem gosta muito de vinho ou de quem gosta muita de ostentação, ou de ambos.

 Para um importador se não chega a ser um grande negócio é sempre sinônimo de qualificação ter rótulo bacanas de produtores de renome da Borgonha no catálogo. E talvez uma satisfação pessoal. Para os produtores, que têm a venda mundial praticamente garantida, trata-se de uma estratégia. “Para eles é mais importante ter o produto espalhado e cultuado em diversos países por todo o mundo do que concentrado em um único lugar”, esclarece Raphael Zanette, proprietário da Magum Importadora, que tem entre seus produtores pequenas joias como Arnoux Lachaux, Domaine Dujac e Armand Rousseau. Foram rótulos destes senhores que me inspiraram este post. Os preços, que provocam em geral um olhar de espanto seguido de um sorriso amarelo, são consequência do que foi relatado no parágrafo anterior somado ao custo Brasil.

Só existe Borgonha inacessível? Não, há as classificações mais básicas, como os Regionais e Village, vinhos realmente de entrada, de cor mais rala, pouca persistência e que podem até decepcionar quem espera encontrar na taça um líquido em forma de poesia. Por isso, é importante o nome do produtor que garante uma qualidade mínima ao vinho desde a linha básica e também o entendimento que há vários estilos de vinhos na região, como em todas do mundo, aliás.

De modo geral a pinot noir apresenta uma coloração de clara para média, são típicos aromas de cereja, framboesa, flores e algo de caça e terroso (húmus). Os mais evoluídos são uma viagem sensorial com várias camadas e variações de aromas e sabores. A pinot noir é tão típica e diferenciada que na minha opinião o melhor descritivo seria: tem gosto e aroma de pinot noir. Afinal, as coisas não têm um gosto que as represente?

Dos dez rótulos bebidos – ninguém ousou cuspir desta vez -, destaco cinco tintos que de alguma forma me encantaram mais e mostraram mais uma vez o que é que a Borgonha tem, tem pinot noir como ninguém.

Aloxe-Corton Domaine Tollot-Beaut 2009

R$ 375,00

Diante de um painel estrelado, o tinto de melhor custo-benefício, se é que cabe o termo aqui. Localizado em Chorey, é comandado pela quinta geração de uma família que está há mais de 100 anos fazendo vinhos. Correto, frutado, com boa expressão de aromas e boa estrutura. Tem um bom ataque e bela persistência. Isolado dos outros faz o maior sucesso.

Morey-Saint-Denis Domaine Dujac 2011

R$ 475,00

Entre os entendidos de Borgonha no Brasil, a Domaine Dujac é uma vinícola conhecida e que teve um trabalho importante de divulgacão anteriormente em outra importadora. Diante dos vizinhos ancestrais é uma produtora relativamente recente, fundada em 1967 por Jacques Dujac. Ironia ou não a atual enóloga responsável é uma americana, Diana Snowden Seysses, casada com Jeremy Dujac, filho de Jacques. Desde 1986 promove-se a conversão dos vinhedos para cultivo orgânico. Foi tinto mais terroso de todos – toque que apareceu também no Morey-Saint-Dennis Domaine Dujac 1er Cru 2011 (R$ 860,00) -, que deu maior pinta de orgânico e com um intensidade bem bacana.

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 Gevrey-Chambertain Domaine Armand Rousseau 2008

R$ 620,00

Gevrey-Chambertain 1cru Clos Saint Jacques Armand Rousseau 2009

R$ 1.900,00

Meu vinho preferido entre todos foi Gevrey-Chambertain Domaine Armand Rousseau 2008, vejam que modesto que sou (comparado a outros preços). Na família desde o início do século XX a propriedade comandada pela terceira geração iniciou em 1982 um processo de direcionamento dos vinhedos para a viticultura orgânica, com a menor intervenção possível. O safra 2008 era o mais exibido e intenso. Elegante nos aromas frutas e flores, fino na boca, licor de cereja, defumados, champigon. O Gevrey-Chambertain, em um painel de borgonhas, costuma ser um vinho mais potente, juntando estrutura e elegância. Este aqui mostrou tudo isso. Seu parente mais caro é igualmente bom, mas além da diferença de preço, havia uma diferença de paladar que conquistou a todos presentes (único vinho que teve a garrafa toda esvaziada). Papai Noel, se estiver precisando de uma dica para este escrevinhador…

Romanée-Saint-Vivant Grand Cru Domaine Arnoux-Lachaux 2007

R$ 3.300,00

Olha a colcha de retalhos aqui: com 13 hectares localizados em 14 apelações da Côte de Nuits, esta vinícola é obra de Pascal Lachaux e Robert Arnoux, que são respectivamente genro e sogro. Eles juntaram seus conhecimentos e afinidades para produzir tintos de excelente padrão e alta gama. Os vinhedos deste exemplar aqui são vizinhos do Romanée-Conti. Quem compra um vinho de R$ 3.300,00? Não sei, mas o que se avalia aqui é a qualidade, a tipicidade e o encanto que um caldo desses é capaz de proporcionar. E não o preço, se não nem começava a escrever. E este mostra tudo isso. Todos os “ades” possíveis: complexidade, intensidade, longevidade e tipicidade da pinot noir. São produzidos de 5 a 6 barricas por ano deste vinho. Um grand cru deste naipe é um tinto de guarda, como recomenda o produtor – deve ser fenomenal com mais de 20 anos. Mas não sei se estarei vivo até lá. É o chamado vinho para otimistas, que apostam em uma vida longeva.

 Curioso este fascínio que a Borgonha exerce no mundo do vinho. É muito comum perguntar a enólogos e produtores de todo o mundo quais seus vinhos preferidos – além daqueles que eles produzem, claro – e a resposta é quase sempre o pinot noir da Borgonha. Talvez por serem realmente a melhor definição para expressão do lugar. “Não existe mágica, tudo se deve à qualidade das uvas, o restante é secundário”, diz o produtor Pascal Lachaux. Ou talvez pela enorme variação que uma única uva – os tintos e brancos são sempre varietais (feitos apenas das uvas pinot noir para tintos e chardonnay para brancos) – pode proporcionar em vinhedos tão próximos; ou pela finesse do seu paladar, pela evolução das grandes safras e até mesmo pela dificuldade que é cultivar e fermentar esta uva em outros solos e regiões. Junte-se a isso o respeito ao vinhedo, à agricultura orgânica e biodinâmica executada por muito dos produtores – antes mesmo de virar moda. É a singularidade da pinot noir da Borgonha, em especial dos grandes vinhos, que atrai aos apaixonados pelo vinho. O fascínio enfim talvez ocorra por que a difícil tradução de um vinho elegante e com tipicidade encontre aqui um exemplo quase palpável. O vinho da Borgonha não é explosivo e potente como um gol, está mais próximo  da beleza e da elegância do drible de um craque.

 

 

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terça-feira, 4 de novembro de 2014 Brancos, Novo Mundo, Tintos | 08:30

Bons goles argentinos: o conhecido Luigi Bosca e o menos conhecido Familia Cassone

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Os vinhos argentinos são um sucesso no Brasil. Só ficam atrás dos chilenos em volume – o que não impede que grupos chilenos tentem morder uma fatia a mais do mercado ao investir também na Argentina, como a Trivento e a Kaiken. Alguns rótulos argentinos já são bastante conhecidos entre os consumidores, como o Luigi Bosca, outros tantos ainda precisam ser desbravados, como os rótulos da Família Cassone. As duas vinícolas são tema deste post.

Por isso mesmo é comum a visita de enólogos e produtores ao Brasil para exibir seus vinhos em degustações, almoços, feiras e eventos. Os predicados são sempre poéticos (fruta, flores, tostados, macio, envolvente, etc), mas eles estão atrás mesmo é de mercado.

Para isso os produtores esmeram-se em mostrar seus vinhos mais elaborados, aqueles que exibem como um troféu, símbolo da qualificação de seus cachos de uvas maceradas e fermentadas. Se a isca funciona para chamar atenção, nem sempre revelam o melhor custo-benefício, ou o mais inusitado e surpreendente. Por dois motivos simples:

1. Estes vinhos top são muito mais caros, e por isso mesmo pouco acessíveis à maioria dos consumidores e incautos leitores deste blog

2. E por serem o topo da cadeia alimentar têm quase a obrigatoriedade de serem, no mínimo, bons. E geralmente são ótimos. Beberia todos os dias da minha vida se fosse possível. Mas não é disso que se trata.

Ocorre que junto à exibição dos seus rótulos pesos-pesados (geralmente tintos), outros vinhos são mostrados, como uma espécie de “esquenta” para a grande atração. Pois é neste prefácio que, muitas vezes, os caldos mais surpreendem. É preciso, pois, provar com atenção todos os vinhos.

Recentemente dois produtores vieram mostrar de seus vinhos. O conhecida Luigi Bosca e o menos conhecida Familia Cassone. Após provar seus vinhos verifiquei mais uma vez o raciocínio descrito acima (isso vale para o Chile também, mas fica para outra coluna)

Luigi Bosca

O motivo da visita de Alberto Arizu, comandante em chefe da vinícola da família, a Luigi Bosca, foi uma vertical (a prova de várias safras de um mesmo vinho) do tinto Ícono. Foram cinco safras, da primeira de 2005 até aquela que nem está ainda no mercado, de 2009. Trata-se de um vinho excepcional, de vinhedos com mais de 90 anos das regiões de Luján de Cuyo, Vistalba, Las Compuertas e Finca Los Nobles e da mistura das variedades malbec (60%) e cabernet sauvignon (40%), sempre nesta proporção. As fermentação é feita em separado, de cada vinhedo e a degustação às cegas de cada terroir decide o corte final. É bárbaro! “Um equilíbrio entre a elegância e a potência”, segundo Arizu, que bebeu todas as taças até o fim, o que é raro entre os produtores que vêm mostrar suas crias. A boa nova para os bebedores de vinhos desta categoria é que a safra que está no mercado, a de 2008, está prontíssima para beber. Mas… para ter na adega uma das 6.000 garrafas produzidas deste caldo por ano é preciso desembolsar 500 reais, o que nos remete aos pontos número 1 e 2 acima.

malbec-miradores-luigi-bosca

Por um quinto deste preço (R$ 114,00), a mesma Luigi Bosca elabora um malbec de vinhas também antigas que é o bicho!  Malbec Terroir los Miradores 2011. Já tinha provado este vinho em primeira mão em viagem a Mendoza este ano. Este segundo gole confirmou minhas primeiras impressões. Encorpado, mas com alguma frescura a acidez, ótima fruta, final longo. Macio. Coisa fina mesmo, e o rótulo, que mostra a raiz se aprofundando no solo representa bem a importância do solo (aluvial).  “É importante a Argentina mostrar a importância e relevância do terroir”, indica Arizu.

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E se a ideia for algo que abra o paladar para novas sensações, a dica é um riesling surpreendente de vinhas de 60 anos. Riesling Las Compuertas 2014. Floral no primeiro impacto, com muita fruta cítrica no nariz um toque de maça verde (zero da clássica descrição de “notas de petróleo”), na boca confirmam o cítrico e o pêssego envolvidos numa acidez que alarga o vinho no paladar e traz aquela salivação gostosa. R$ 86,00

Os vinhos de Luigi Bosca são vendidos pela Importadora Decanter

Familia Cassone

Meu primeiro contato com os vinhos da Familia Cassone foi em abril de 2014 no Encontro de Vinhos Off, organizado pelos competentes Beto Duarte e Daniel Perches. É aquele esquema de sempre, de um lado o produtor oferecendo seus tintos e brancos e do outro os consumidores curiosos estendendo a taça para conhecer os vinhos. No geral o paladar costuma dar “tilt” depois de vários goles meio sem critério, tamanha oferta de rótulos. Fui lá com minha taça, atraído pela mescla de cabernet franc – uma uva que sou fã – junto com a malbec e syrah de seu rótulo principal. O nome é meio presunçoso: Obra Prima Maximus Gran Reserva Familiar. Mas mostrou a que veio este gladiador de Mendoza. A safra 2011 levou 95 pontos do conceituado Guia Descorchados e a de 2008 90 pontos do Parker. Provei outros vinhos, seus malbecs, e cabernet sauvignon e no meio de tantos produtores foi uma marca que ficou na lembrança. O responsável pela operação brasileira, Marcelo Cassone, é daquele tipo que vende areia para camelo e fala e gesticula até convencer o consumidor. Acabei levando umas garrafas para casa.

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Recentemente a Familia Cassone veio a São Paulo apresentar toda sua linha e o braço brasileiro da operação: 80% da produção é exportada e o mercado brasileiro é sempre importante. Os destaques eram o já comentado Obra Prima Maximus Gran Reserva Familiar 2011, que realmente é um belo trabalho do enólogo Federico Cassone, que na contramão da presunção do nome do vinho é de uma simplicidade cativante. O que vale é o vinho, não tem muita mistificação. E o vinho tem aquela boa potência, estrutura, 18 meses de barricas de primeiro uso, frutas, especiarias, mas tudo na medida que se encaixa num fim de boca muito atraente e macio. É o topo de linha da Família Cassone, e nem chega a ser tão caro assim (R$ 230,00). Mas…

Blend

…mas mais uma vez o que me encantou foi um outro rótulo que Federico trouxe na mala, que chegará em breve ao Brasil. O Obra Prima Blend Reserva 2012. Um blend de malbec (65%), cabernet sauvignon (20%) e cabernet franc (15%). Também uma expressão dos vinhedos de Luján de Cuyo, em Mendoza, mas mostra um caminho de leveza e fruta mais fresca que o enólogo vai impondo aos vinhos da casa. Aquele frescor que começa a ser privilegiado em alguns tintos sul-americanos (leia O Novo Vinho Chileno, mas gastronômico, mais natural) aliado a uma fruta gostosa, mais pura, menos pesada. O assemblage faz um balanço das frutas e a violeta do malbec se combina com uma amora do cabernet sauvignon (ou seria do cabernet franc?), um toque defumado e um tantinho herbáceo do cabernet franc. Um vinhaço que custará R$ 107,00 nas gôndolas de delicatessens e grandes lojas (não serão vendidos em supermercado)

 Os vinhos da Familia Cassone são vendidos pela BFC/Brasil 

 

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quinta-feira, 30 de outubro de 2014 Tintos, Velho Mundo | 10:03

Atibaia, um vinho do Líbano em homenagem ao Brasil

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Jean Massoud explica seu tinto do líbano com pegada francesa e nome brasileiro

Jean Massoud explica o Atibaia: um tinto do Líbano com pegada francesa e nome brasileiro

A primeira surpresa costuma acontecer quando é declarada a procedência do vinho. Existe vinho libanês? Sim, existe, e com uma história milenar. A segunda está relacionada ao nome no rótulo: Atibaia. Teria alguma relação com a cidade no interior do Estado de São Paulo? Sim, tem. A terceira surpresa, a melhor de todas, trata-se da qualidade. Será um bom vinho? Sim, é um ótimo vinho e provando sem conhecer sua origem muito provável você irá confundi-lo com um vinho francês. A quarta surpresa é o preço. É barato? Não, trata-se um vinho cheio de cuidados e mumunhas, pequena produção. Vai daí que… Vamos por partes e falamos do preço.

 Vinho do Líbano, breve relato

O Líbano é um país pequeno, tem 225 quilômetros de extensão e 70 de largura. Sua história com o vinho é tão conflituosa e rica quanto a região – o país tem fronteiras com a Síria e Israel. Relíquias e monumentos indicam que no ano 3.000 a.C. já se produzia ali algum tipo de vinho. Em 1517 o Império Otomano domina a região e proíbe a produção de vinho. A retomada está relacionada às missões jesuíticas (sempre eles) que trazem videiras francesas para serem plantadas no país. Em 1918 os franceses assumem o governo administrativo. Em 1975 explode a Guerra Civil, que praticamente inviabiliza a produção de vinho no Líbano – com exceção de alguns abnegados, como Serge Houchar, do Château Musar  que mantém a produção durante os 20 anos do conflito, em meio a bombas e morteiros. Em 1992 com a estabilidade de volta ao país a situação finalmente começa a melhorar.

Para se ter uma ideia da evolução que a estabilidade política trouxe ao vinho. Em 1999 eram apenas seis produtores, atualmente são 45, com uma produção anual de 8 milhões de garrafas. Três deles dominam o mercado: Chateau Ksara, Kefraya e o valoroso Musar. A maior parte dos vinhedos estão localizados numa região chamada Vale do Bekaa. Predominam as uvas francesas, como cabernet sauvignon, cinsault, carignan, syrah e petit verdot. Ou seja, os vinhos são visões das regiões de Bordeaux e do Rhône, na França, em solo libanês. Não por acaso, os rótulos disponíveis são sempre de mesclas de uvas.

E o país começa a apostar no mercado exterior. Bom lembrar que parte da população do Líbano é islâmica, e não consome vinho. O Consulado do Líbano de São Paulo vai sediar, no final de novembro, uma inédita degustação de vinhos libaneses no Brasil, com a presença de nove produtores.

 Nasce um vinhedo

A história do tinto Atibaia começa com o desejo do libanês Jean Massoud de produzir um vinho para chamar de seu. Apaixonado pela bebida – e com capital suficiente para bancar um sonho -, adquiriu terras na costa norte do Líbano conhecida como Batroun (condenada pela etimologia a fazer vinho, já que vem do grego botrys, que significa uva). Ela fica a 50 quilômetros de Beitute e apenas 4 quilômetros do mar. Um belo dia, recebeu a visita do proprietário do Chateau Angélus, Hubert de Boüard, de Bordeuax, que desafiou a fazer um vinho ali naquele terroir. Nascia ali o projeto de uma vinícola butique, que incluiu a compra de terrenos em volta, o estudo do solo e das uvas que melhor iriam se adaptar ao local. Importaram e plantaram em 2004 as variedades syrah, cabernet sauvignon e petit verdot nos 5 hectares da propriedade. “Queria fazer um bom vinho que desse prazer a mim e aos meus amigos”, comenta Jean. “Se fosse bom eu comercializava, se não fosse, não venderia.”

Sonho caro este. A adega conta com os melhores fornecedores de tanques, barricas, linha de engarrafamento da mais alta tecnologia. A colheita (apenas dois a três cachos por planta) é manual, realizada de madrugada, e a seleção das uvas é feita grão a grão. Trabalho de chinês preso. As três variedades são vinificadas e envelhecidas separadamente entre 12 e 16 meses. Só então é feita a mistura das uvas (assemblage) que vai para o tanque por mais dois meses e ainda um período na garrafa. A produção também é pequena. 12.000 garrafas, e não deve aumentar.

 Conexão Atibaia-Batroun

As cidades de Atibaia e Batroun ficam mais ou menos a 11.000 quilômetros de distância uma da outra, com um oceano no meio. Mas existe uma ligação afetiva que as aproxima. Jean Massoud vem ao Brasil desde 1978 e sempre passa 15 dias na casa de amigos em Atibaia, uma estância no interior do Estado de São Paulo. Quando foi lançar seu vinho de Batroun, ele resolveu homenagear a cidade no rótulo que tem  o mapa do Líbano representado em pinceladas leves. E este nome não atrapalha um pouco no mercado? Fiz esta pergunta a Jean Massoud que rebateu: “Não, tem até um sonoridade oriental que ajuda, pois “tayeb” em árabe quer dizer de paladar bom, agradável”

 Atibaia, três safras

Atibaia 2010

Este escrevinhador de vinhos teve a oportunidade de provar as três safras produzidas do Atibaia: 2009, 2010 e 2011. “Quando fiz a primeira safra eu não sabia ao certo o que ia dar. Quando recebi o comentário de Jorge Lucki (critico de vinhos e consultor da Zahil), que declarou ser o melhor tinto do Líbano que havia provado Líbano, eu chorei de alegria”, confessa Jean Massoud.

“Não há muito diferença de clima nas safras, quase não chove, lembra um pouco o que acontece em Mendoza”, conta. Os vinhos, de fato, mantêm um perfil gustativo semelhante entre os anos. E vamos combinar não são muitas safras e nem muito antigas para dar tanta diferença. Parece uma mistura entre o Rhône e Bordeaux, um corte bordalês com especiarias, se é que existe isso. “Não temos uma identidade como na França, isso não acontece com os vinhos libaneses”, pondera Massoud, apesar de usarem as cepas do país do Axterix.

2009 tem um belo aroma e já mostra sinais de alguma evolução, a madeira interagiu bem com o caldo, boa acidez, bastante longo. Adorei o 2009. Já 2010 tem uma fruta negra mais presente, as especiarias mais explícitas, mais fácil de gostar de imediato e um bom final de boca também. Finalmente 2011 (que ainda não está à venda). Ainda está um pouco verde e merece ficar na garrafa por mais um tempo, mas pela boa estrutura e o frutão promete fazer bonito.

A Zahil – que traz o Atibia – não é a importadora do vinho por acaso: seus proprietários são libaneses, atuam há muitos anos no Brasil  e Tony Zahil foi amigo de infância de Jean Massaud. São importados apenas 600 garrafas do Atibaia por ano. A primeira safra, de 2009, foi totalmente vendida (a colônia é fiel). A segunda safra, de 2010, se você ficou curioso, pode ser sua, se desembolsar 285 reais.

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quinta-feira, 23 de outubro de 2014 Brancos, Novo Mundo, Tintos | 12:53

O novo vinho chileno da De Martino: mais gastronômico, mais leve, mais natural

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Vinhedos orgânicos da De Martino no Maule. "Os vinhedos são lindos, mas o que importa é o solo", diz o enólogo Marcelo Retamar

Vinhedos orgânicos da De Martino no Maule. “Os vinhedos são lindos, mas o que importa é o solo”, diz o enólogo Marcelo Retamal

Um espectro ronda o Chile, o espectro da reinvenção do vinho chileno. Aquele tinto amadeirado, carnudo, alcoólico e com uma geleia doce que eleva qualquer curva glicêmica tem seus dias contados. Pelo menos na visão da De Martino, uma bodega familiar que completa 80 anos com disposição de mudança de um adolescente. “Definimos a partir de 2010 produzir vinhos mais gastronômicos, com maior acidez, que deem prazer de beber”, pontifica o enólogo Marcelo Retamal. “E que expressem os nossos vinhedos”.

Saem de cena as barricas de primeiro uso, o tostado excessivo, as leveduras de prateleiras, os aditivos químicos, ou seja, todos os componentes artificiais que deixam todos os vinhos parecidos.

Entram no jogo os princípios da agricultura orgânica, uso de leveduras indígenas (naturais do lugar), as barricas usadas e maiores. “A madeira não é ruim , mas não pode ser norma. Tem de saber manejá-la”, explica. “Tonéis de 5 mil e 2,5 mil litros são 22 vezes maior que um barril pequeno e impacta 22 vezes menos o vinho.” Resultado: vinhos frescos, nervosos, mais fáceis de beber, com maior expressão da fruta e “diferentes”. “Este é o estilo que queremos”, aponta Retamal. Antes, explica ele, o vinho era construído do nariz para a boca, ou seja dava-se muito importância aos aromas. “Hoje, quero saber como fazer a boca, afinal o vinho é feito para beber, o nariz é uma consequência.”

Os vinhedos da De Martino são orgânicos desde 1988 e o trabalho é feito de forma sustentável, a vinícola exibe todos os certificados de agricultura orgânica e redução de emissão de carbono. Sorte ou não, a partir da decisão de um estilo com menor intervenção, mais pureza e uma busca às origens, veio a safra de 2011, considerada excepcional no Chile. Os oito rótulos que são uma espécie porta-bandeiras desta proposta são de vinhedos únicos (single vineyard) espalhados em seis diferentes vales chilenos e com características próprias. “Os vinhedos são todos lindos, mas tem de olhar para baixo, é o solo, e sua composição que determina qual a uva mais apropriada e as características que vai aportar qualidades ao vinho”

Os vinhos que representam os single vineyards são: Quebrada Seca, Chardonnay (Limari), Parcela 5 Sauvignon Blanc (Casablanca) – vinhos da Costa, com influência marítima; Carmenère Alto de Piedras e Las Águilas Cabernet Sauvigon (Maipo); Las Cruces (Cachapoal), Limávida (Maule); Vigno Carignan (Maule) – vinhedos antigos; e Alto Los Toros (Elqui) – vinhos de altura

Três vinhos que valem a pena conhecer

quebradaseca

Quebrada Seca Chardonnay 2011
Limarí
100% chardonnay
R$ 131,00
Importador: Decanter

Cansado daqueles chardonnays superuntuosos, com tanta manteiga que dá para passar no pão? Seus problemas se acabaram-se! Este exemplar do novo estilo da De Martino de solos vulcânicos e distante 25 quilômetros do oceano Pacífico, com muitos componentes calcários, prima pela frescura, pela mineralidade, uma doçura leve e um longo final de boca, que também revela um toque salgado.

limavida

Limávida 2011
Maule
85% malbec, 15% carmenère e cabernet sauvignon
R$ 131,00
Importador: Decanter

O meu vinho preferido entre os oito apresentados. Os vinhedos, plantados em 1945, mantêm a característica de uma época em que as uvas eram cultivadas juntas e misturadas. Boa entrada, fruta fresca, boca bastante delicada e limpa, boa acidez, taninos macios. Tem madeira sim, fica dois anos em barricas francesas, mas usadas, que faz seu trabalho sem atravessar o vinho.

vigno

Vigno Carignan 2011
Maule
85% carignan, 15% malbec e cinsault
R$ 131,00
Importador: Decanter

Também de vinhas velhas, estas de 1955, este é um vinho que busca recuperar o prestígio da carignan, ligado à Associação dos Produtores de Carignan do Maule, que mostra ótimos resultados no Chile. É o estilo de vinho que os especialistas costumam rotular de mediterrâneo, com uma acidez cortante, fresco e com notas bacanas de especiarias. Acho que é um ótimo exemplo da pegada gastronômica do novo estilo da De Martino. Foi o vinho chileno com maior pontuação do Guia Parker, 95 pontos.

Falando nisso, se a minha opinião não tem lá muito peso, vamos aos peso-pesados. A crítica especializada tirou o chapéu para os vinhos. Todos os seis rótulos receberam pontuação acima de 94 pontos do mais importante Guia de Vinhos do Chile e Argentina, o Descorchados, merecendo o título de “Marca Revelação do Ano”. Também mereceram notas acima de 90 pontos do Guia de Robert Parker. “Uma revolução está acontecendo na De Martino, desde a safra 2011”, alerta o colaborador de Parker, Luis Gutierrez. É, companheiros. Tudo que é sólido se desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado.

E o consumidor? “O consumidor também está mudando e se voltando a este estilo de vinho e não apenas aquele alcoólico, com madeira excessiva”, aposta Retamar, afinal há que se vender as garrafas. Para finalizar, contextualiza seu papel nesta mudança: “O estilo é o que é importante, é o que fica. Os enólogos são passageiros, assim como na Fórmula 1.  Os pilotos mudam, uma hora é o Schumacher, outra o Alonso. O que importa é a Ferrari”.

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sexta-feira, 17 de outubro de 2014 Brancos, Degustação, Livros, Novo Mundo, Tintos, Velho Mundo | 11:59

Eduardo Chadwick: a história das degustações que colocaram o vinho chileno entre os melhores do mundo e a aposta nos brancos e na pinot noir da safra de 2014

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Eduardo Chadwick: o homem que desafiou os ícones da europa e colocou o vinho chilena no mapa

Eduardo Chadwick: o homem que desafiou os ícones da europa e colocou o vinho chileno no mapa

O que você faz para provar que é bom? Compara-se aos melhores. E se esta comparação se repetir 22 vezes e em 20 delas você estiver entre os três mais bem avaliados? Significa que você conseguiu provar a sua qualidade, seu potencial. Você apostou. E ganhou. É o que fez em 2004 o produtor e empresário Eduardo Chadwick com a já conhecida Berlin Tasting (ou Cata de Berlim), quando inaugurou a série de degustações às cegas que iria confrontar vinhos de alta qualidade de seus vinhedos do Chile (Don Maximiano, Seña e Viñedo Chadwick) com clássicos de Bordeaux e supertoscanos. 39 especialistas provaram onze vinhaços das safras 2000 e 2001 sem ver os rótulos. O resultado é este abaixo, seguido de um sucessão de OOOhhhhs! em 23 de janeiro de 2004. David vencia Golias.

2004

1.  Viñedo Chadwick 2000

2.  Seña 2001

3.  Château Lafite-Rothschild 2000

4. Château Margaux 2001

4.   Seña 2000

6.   Viñedo Chadwick 2001

6 .  Château Margaux 2000

6.  Château Latour 2000

9. Don Maximiano Founder’s Reserve 2001

10. Château Latour 2001

10. Solaia 2000

 

Don Max 2010

Don Maximiano: mescla bordalesa com potência e elegância e capacidade de envelhecimento

Com a visão de homem de negócios que banca o produto que tem, Chadwick resume numa pergunta sua aposta: “Você se lembra do nome do segundo homem a pousar na lua?” Dificilmente alguém se recorda – foi Buzz Aldrin, mas eu precisei recorrer ao google para incluir neste texto. Era preciso criar  uma fórmula para mostrar ao  mercado mundial e ao mundo o potencial dos vinhos de seus vinhedos de Aconcagua e Maipo, no Chile.

VCH 2000 bottle

Chadwick: clássico cabernet sauvignon de clima frio

 

A inspiração foi a prova de Paris de 1976  – que catapultou os vinhos dos Estados Unidos, não por acaso também comparando os rótulos da Califórnia aos franceses, e vencendo -, comandada pelo mesmo mestre de cerimônias, Steven Spurrier, que tornou o evento uma espécie de grife pessoal. Leia aqui a reportagem publicada na época pela revista TIME (texto original, em inglês).

Seña 1995

Seña: complexo e sensual, com importante participação da carmenère

Eduardo é um alpinista, ou seja um aventureiro com planejamento. E ele não apostou tão no escuro assim, um ano antes, numa degustação às cegas num restaurante na Alemanha, com bem menos gente e sem qualquer repercussão na mídia, havia colocado em disputa seus rótulos contra os grandes franceses e tinha obtido um bom resultado. “Mas de que adiantava, se ninguém soube?”, indaga ele. Eduardo Chadwick é um empresário do vinho e aprendeu com o mestre Robert Mondavi – seu parceiro e mentor por 10 anos do Seña – que a propaganda é alma do negócio. A isso damos hoje o nome de marketing. E não há qualquer demérito nisso.

Para provar que o resultado surpreendente não foi obra do acaso, Eduardo Chedwick organizou mais 19 degustacões em 17 importantes cidades ao longo dos últimos 10 anos. São Paulo e Seul receberam duas delas, e em 3 ocasiões houve dois júris, um de conhecedores e outro de especialistas, totalizando 22 provas. “O importante a partir daí não era mais estar na primeira posição, mas mostrar a consistência dos nossos vinhos e o potencial de guarda, pois sempre tínhamos rótulos nos três primeiro lugares”, ensina Eduardo Chadwick, com um sorriso vencedor. “E assim trabalhamos a imagem do vinho chileno e mostramos que não havia vinhos de qualidade apenas na europa.”

Um colunista de vinho e seu extenuante trabalho de provar 12 supervinhos

Um colunista de vinho e seu extenuante trabalho de provar 12 supervinhos em 2013

Eu sou testemunha da lisura de todo o processo pois estive presente nos dois eventos realizados em São Paulo, em 7 de novembro de 2005 e 4 de julho de 2013. E uau! Os vinhos são todos de alto nível, não há perdedor, mas aquele que está melhor na taça naquele momento e revela a qualidade de seu terroir, o tratamento e escolha de suas uvas e do blend, o cuidado na vinificação e aquele mistério da natureza que às vezes aponta o dedo para aquela safra e lugar e com a ajuda de um enólogo competente produz um caldo de beber de joelhos, e pensando que afinal a vida vale a pena.

Curioso com os resultados de São Paulo? Vamos lá

2005

1 Château Margaux 2001

2 Viñedo Chadwick 2000

3 Seña 2001

4 Château Latour 2001

5 Seña 2000

6 Viñedo Chadwick 2001

7 Don Maximiano 2001

8 Guado al Tasso 2000

9 Château Lafite-Rotschild 2000

10 Sassicaia 2000

 

São Paulo Tasting 2013: 11 garrafas e nenhum segredo

São Paulo Tasting 2013: 11 garrafas e nenhum segredo

2013

1 Château Margaux 2001

2 Seña 2007

3. Don Maximiano 2009

4 Château Mouton Rotschild 1995

5 Château Latour 2007

6 Seña 2010

7 Viñedo Chadwick 2000

8 Don Maximiano 1995

9 Don Maximiano 2005

10 Sassicaia 2000

11 Seña 2000

12 Tignanello 2009

Percebe-se um acerto apreço dos paulistas pelo Château Margaux, que prima pela elegância. Mas os vinhos de Chadwick estão sempre lá entre os primeiros.

capa.livro

Luxuosa edição que documenta os 10 anos de provas por todo o mundo

Todo este importante trabalho de divulgação do vinho de alta qualidade chileno, os vinhedos, as provas, e o depoimento de importantes críticos e especialistas, está documentado no luxuoso livro que comemora este feito: “The Berlin Tasting – Uncorking the Potencial of Chile’s Terroir” .

autografo

O meu exemplar está autografado, sorry, periferia

Vem aí: um chardonnay e um pinot noir ícones para brigar com os franceses

Termindao um cicl,  outro se impõe. Qual a próxima montanha que Eduardo Chadwick pretende escalar? Além de manter vivo o espaço conquistado com seus rótulos de alto coturno, o empresário mira no potencial dos brancos chilenos e no tinto mais desafiador aos enólogos que é a pinot noir. Ele conta que quando se juntou a Robert Mondavi, em 1995, a ideia era repetir o feito de Nappa Valley e criar um ícone tinto, de corte bordalês, e um ícone branco, com a chardonnay. “Chegamos a criar o vinho e comparar com os melhores brancos da Borgonha, mas chegamos à conclusão que não tinha a mesma qualidade do Seña tinto”. Passados 20 anos, Eduardo acha  que é o momento de colocar à prova as conquistas no conhecimento do solo e dos novos vinhedos de qualidade superior que possui em Aconcagua Costa e Casablanca – uma região mais fria, com muitas ladeiras, solo de xisto – e lançar um grande  branco chardonnay e um tinto pinot noir da safra de 2014 no mercado internacional. “O futuro da indústria é elevar a qualidade de nossos grandes vinhos de chardonnay, sauvignon blanc e pinot noir “, preconiza.  “Acho que estamos preparados. Temos em mente o desafio de conquistar um espaço entre os grandes vinhos da Borgonha”. Eduardo Chadwick, como já se disse mais de uma vez, praticou  alpinismo. Os alpinistas sempre buscam uma montanha mais alta e difícil. A meta de Chadwick para seu chardonnay e pinot noir? “Temos em mente Domaine de La Romanée-Conti”, diz soltando uma risada desafiadora. “Bora” aguardar a próxima rodada de “Tastings”? A primeira aposta, diante do ceticismo de todos, ele ganhou.

Serviço: os rótulos Don Maximiano e Chadwick são importados pela  importadora Vinci e o Seña pela Expand

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quinta-feira, 16 de outubro de 2014 Brancos, Doce, Tintos, Velho Mundo | 11:01

Tour de Mirambeau: um Bordeaux bom de beber e que dá para comprar

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Vídeo do Château Tour de Mirambeau: parece propaganda. E é. Mas é bonito.

Os amantes e aficionados do vinho que costumam frequentar feiras – aqueles eventos onde o produtor fica servindo goles de seus rótulos e o público vai enchendo a caneca meio sem critério – manjam a figura: Jean-Louis Despagne. Todo ano lá está ele com sua indefectível gravata borboleta, a barba cerrada e seus Bordeaux para oferecer. Ele e sua família são proprietários de vinícolas desta região mítica da França: como o Château Tour de Mirambeau (importado pela Mistral) e Bel Air (importado pela Decanter).

Bordeuax é aquela região confusa de entender da França de diversas classificações e regiões, dos premier cru classé do Médoc, Graves e Sauternes, dos premier grand cru classé A e B de St. Émilion e dos rótulos míticos que aprendemos a admirar nos livros e cursos mas raramente comprovamos na taça sua glória e fama já que o preço é proibitivo. Estes nomes devem querer dizer alguma coisa para você, não? Château Latour, Château Lafite Rothschild, Château Margaux, Mouton Rothschild e Château Haut-Brion (Médoc), Château Haut-Brion (Graves); Château d’Yquem (Sauternes); Château Angélus, Château Ausone, Château Cheval Blanc e Château Pavie (St. Émilion) e finalmente Château Petrus (Pomerol, que tem fama mas não classificação). Mas já provou algum? Então…

E o Bordeaux tirou a gravata borboleta

Mas há sim rótulos de Bordeaux para os mortais. Mas atenção, muitos deles são ruins, não valem o investimento ou a barganha. Ter a região de Bordeaux gravada em um rótulo não é indicativo de boa procedência, e pode decepcionar. Mas há uma produção de tintos e brancos de excelente nível e preços compatíveis. Tour de Mirambeau é uma de seus melhores representantes. E com isso voltamos ao nosso personagem Jean-Louis Despagne, desta vez sem a gravata borboleta e de barba feita, que veio apresentar os rótulos de sua Bordeaux, da região de Entre-deux-Mers. Não sei se foi o canícula que castiga São Paulo nos últimos tempos ou a proximidade com o Brasil (Despagne visita com frequência o Brasil, em especial Paraty e Trancoso, e fala um português fluente), mas a descontração talvez traduza melhor os seus caldos, que são descomplicados.

A família Despagne vem cultivando vinhedos por mais de 250 anos. O histórico Château Tour de Mirambeau, localizado em frente a St Emilion, tem cerca de 80 hectares. Começou produzindo mais vinhos brancos, hoje a proporção é 50% para tintos e 50% para brancos, refletindo um pouco o mercado consumidor mundial. Hoje os três filhos de Jean-Louis cuidam da enologia à venda, sendo que a filha, Basaline, é a executiva principal do negócio. Jean-Louis Despagne, como ou sem gravata borboleta, é uma simpatia e com apresentou seus vinhos:

Dois brancos

Ch Tour de Mirambeau_Reserve_BB

Château Tour de Mirambeau La Réserve Blanc 2012
Uvas: sauvignon blanc 58%; sémillon 38% e muscadelle 10%
A sauvignon blanc é predominante nos brancos de Bordeaux, e o resultado deste blend que passa apenas pelos tanques de aço inox, é pura fruta, clássica, com aquelas notas cítricas agradáveis e final fresco. Não melhora com o tempo. Compre e beba! Um Bordeaux na borda da piscina. U$ 38,90 (a Mistral tem por política tabelar seu preços em dólar)

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Château Tour de Mirambeau Cuvée Pasion Blanc 2010
Uvas: sauvignon blanc 60%; sémillon 30%; sauvignon gris 10%
Aqui um branco mais imponente, com maior volume em boca, cítricos e algo amanteigado e um toque tostado delicado. Ao contrário de seu colega de adega aguenta uns cinco anos na garrafa. U$ 49,90

 Dois tintos

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Château Tour de Mirambeau La Resérve rouge 2011
Uvas: merlot 85%; cabernet sauvignon 10%; cabernet franc 5%
O tinto de entrada do catálogo, com predominância na merlot no corte bordalês e muita fruta e pouca complicação, sem grandes vôos ou pretensões, mas bem equilibrado. A revista Decanter qualificou como melhor Bordeaux para o dia-a-dia. Jean-Louis, no entanto, enxerga que para o futuro é um vinho que tende a desaparecer do portfólio pois os consumidores esperam um tinto com maior capacidade de envelhecimento. U$ 45,50

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Château Tour de Mirambeau Gran Vin rouge 2008
Uvas: merlot 70%; cabernet sauvignon 30%
Um tinto com corte típico bordalês, mas como convém à região com um peso maior na merlot. Fermentaçãoo malolática nas barricas , o que ajuda no casamento, sem DR, entre a madeira e os aromas do vinho, ou seja, um não discute om o outro de quem é  a palavra final: há uma boa integração. Tem uma fruta vermelha nítida (no nariz e na boca), gostosa, um tanino presente, um belo representante da região de Bordeux. Este sim, com potencial de guarda e futuro no mercado consumidor. U$ 65,90

E um doce

Tour de Mirambeau blanc

Château Tour de Mirambeau Sénillon Noble 2003
Uva: Sémillon 100%
De produção limitadíssima (3 barricas, e produzido a cada 2 ou 3 anos) e venda idem – “Nem sei por que o Ciro Lilla (proprietário da Mistral) importa este vinho”, comentou Despagne – este vinho de sobremesa mostra a beleza do fenômeno da botrytis, o fungo que quando ataca as frutas aumenta a doçura, a densidade dos aromas de mel, pêssego em calda e é espetacular para acompanhar um creme ou uma torta na  sobremesa. Funciona até como uma sobremesa em carreira-solo. “Não é para ganhar dinheiro”, sinaliza Despagne, “mas para deixar os trabalhadores orgulhosos”. U$ 96,50.

É dele também o surpreendente Girolate, fruto de um sistema de fermentação em barrica que vai girando, uma criação sua e do consultor Michel Rolland. Premiadíssimo e concorrendo e ganhando de grandes de Pomerol e St. Émilion (lembra deles, ali em cima?), é um outro bicho. Mas o Girolate sobe muito a régua, custa 350 dólares, e pode ser tema de outra nota, em outro contexto.

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terça-feira, 14 de outubro de 2014 Degustação, Espumantes, Velho Mundo | 12:51

Tem beija-flor brasileiro no champagne do monsieur e da madame

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Garrafas da Perrier-Jouët perfiladas em dia de gala: as flores desenhadas por Emile Gallé são a marca registrada

Garrafas da Perrier-Jouët perfiladas em dia de gala: as flores desenhadas por Emile Gallé são a marca registrada

Champagne é para poucos, fato. Mas se em algum momento da vida uma tacinha passar pela frente, não deixe escapar. Tanto melhor se for um champagne que alia beleza e sofisticação na garrafa e dentro dela, não é? Um dos expoentes desta linha que esbanja elegância e paladar é a Maison Perrier-Jouët, aquela da etiqueta florida, de estilo art nouveau, que dá dó de jogar a garrafa fora, mas um prazer danado de jogar as borbulhas para dentro.

Provar vários rótulos de Perrier-Jouët é uma viagem sensorial que revela a marca desta casa que existe desde 1811, desde que o sobrenome do monsieur (Pierre Nicolas Perrier) e da madame (Adéle Jouët) se juntaram em matrimônio. A Maison teve apenas sete Chefs de Cave – o sujeito que é responsável pelo assemblage final, pelo estilo do champagne, pela mágica da borbulhas. O último deles, Hervé Deschamps, esteve em São Paulo no último dia 9 de outubro para apresentar seu portfólio. Em especial a edição limitada – 10.000 garrafas para o mundo; 200 para o Brasil – da Pierre Jouët Belle Epoque Rosé 2005.

Vai uma tacinha de champagne?

Vai uma tacinha de champagne?

O que tem de especial neste champagne, além do champagne? O marketing. Um beija-flor do artista plástico Vik Muniz pousou na garrafa comemorativa e se misturou às tradicionais anêmonas – as flores verde ou rosa e branca – que definem e distinguem o visual da Pierre-Jouët desde 1902, quando o então maior representante da art nouveau, Emile Gallé, desenhou esta representação típica da Escola de Nancy, que usava e abusava de flores na sua arte decorativa em vasos e peças.

O beija-flor do artística plástico Vik Muniz entre as flores de Emile Gillé.

O beija-flor do artista plástico Vik Muniz entre as flores de Emile Gillé.

As flores, a propósito, não são uma mera representação artística de Emile Gallé, elas traduzem a elegância e as notas florais características do estilo do champagne da Pierre-Jouët. A Belle Epoque Rosé é um assemblage de 50% de pinot noir, 45% de chardonnay e 5% da pinot meunier – a mistura clássica de Champagne. O toque floral tá lá, o cítrico e, claro, frutas vermelhas que se esperam de um rosé, envolvidas em um tostado marcante, finalizadas com uma acidez necessária. Outro “detalhe” distingue esta peça artística. O preço. Por R$ 1.600,00 ela pode ser adquirida nas melhores lojas e delicatessens.

Pierre-Jouët: vale o refrão dos Titãs "Eu vejo flores em você"

Pierre-Jouët: vale o refrão dos Titãs “Eu vejo flores em você”

Este colunista teve chance de provar mais do que uma tacinha, diga-se de passagem. E não deixou a chance escapar. Passaram por estas papilas gustativas que a terra há de fermentar a Perrier-Jouët Brut, a Belle Epoque Blanc de Blancs 2002, A Belle Epoque Brut 2004 e 2002 (2002 com maior potência, pois 2004 teve mais sol e calor), a Blason Rosé, e a estrela do dia, a Belle Epoque Rosé 2005.

Belle Epoque Blanc de Blancs 2002: passaria o dia bebendo

Belle Epoque Blanc de Blancs 2002: passaria o dia bebendo

Meu preferido: o Belle Epoque Blanc de Blancs 2002. O nome já entrega que é um blend apenas da branca chardonnay (lembrando que pinot noir e meunier são uvas tintas e na elaboração dos espumantes as cascas não são fermentadas junto com o mosto). São uvas dos melhores vinhedos da Pierre-Jouët: Bourons Leroy e Bourons du Midi, em Cramant, no miolo de Côte des Blancs. O crème de la créme da chardonnay da região demarcada de Champagne. Para quem se interessa pelo universo da minhoca, trata-se de um terroir de solo calcário que retém a umidade e aprofunda as raízes das vinhas. Mas a gente não prova o solo calcário nem as raízes, mas seu fruto fermentado: flores brancas, torrefação, cremoso, um bom volume de boca, um ótimo frescor e uma inacreditável lembrança de gengibre e laranja. Passaria a tarde descobrindo (e inventando) novas camadas de aromas e sabores deste Blanc de Blancs, isso sim é Belle Epoque, aqui e agora.

Belle Epoque Brut: grandes garrafas para grandes vinhos

Belle Epoque Brut 2002: grandes garrafas para grandes vinhos

A visita de Hervé Deschamps proporcionou um aumento per capita de rolhas de champagne Perrier-Jouët abertas nunca antes visto neste país, incluindo algumas garrafas Magnum (3 litros) de Belle Epoque Brut que segundo Hervé permitem um maior contato da bebida com as leveduras e consequentemente uma capacidade de envelhecimento maior. O Chef de Cave ensinou que as uvas da Belle Epoque Brut são provenientes de vários vinhedos, e que a porcentagem é resultado de inúmeras provas às cegas realizadas por ele e sua equipe, mas um número mágico sempre se impõe: 50% de chardonnay, 45% de pinot noir e 5% de pinot meunier. Para Hervé, esta porcentagem nada mais é do que o reflexo dos terrenos da Perrier-Jouët. O Chef de Cave descreve o Belle Epoque 2002 com algumas palavras: equilibrado, estruturado, leveza, flores, frutas (pêssego, pera), tostado no final, mineral e complexo. Uma frase do release de Hervé distribuído pela assessoria se encaixa aqui: “Cada cuvée é uma obra única e inesquecível e toda degustação é uma arte, como a do assemblage”

Hervé Deschamps (7)

Hervé Dechamps: o sétimo Chef de Cave em 200 anos de Perrier-Jouët. Só alegria!

Hervé Dechamps? Não lembra o personagem de UP?

Hervé Dechamps? Não lembra o personagem de UP?

Perguntei a Hervé Deschamps – que lembra um pouco o velhinho do desenho UP, mas sem aquele mau humor – o que faria um consumidor escolher um Perrier-Jouët entre tantas outras Maisons de Champagne disponíveis. Sua resposta fecha esta coluna e define um estilo: “Nós procuramos reproduzir na assemblage o mesmo conceito artístico, e com os mesmos valores, representados pelo rótulo criado por Emile Gallé: elegância, delicadeza e prazer.”

As flores, as frutas, a cremosidade: um representação do Belle Epoque Rosé

As flores, as frutas, a cremosidade: uma representação do Belle Epoque Rosé

 

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segunda-feira, 4 de agosto de 2014 Velho Mundo | 11:56

Parente é serpente: a briga em família pelo Vega-Sicilia

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O Vega-Sicilia, mítico tinto da Ribera del Duero, está mais para Sicília do que para Vega. A família se encontra em litígio. E por conta de um problema de sucessão familiar na empresa até o evento que comemorou os 150 anos da Bodega ficou um tanto eclipsado. A história, que tem todos os ingredientes que alimentam as fofocas na imprensa coloca em lados opostos o patriarca da holding, David Alvarez, de 87 anos, que controla os negócios da família, e cinco dos sete filhos. Entre eles Pablo Alvarez, um senhor com cara de poucos amigos que batalha com o pai pelo controle do Vega Sicilia. A disputa, diz a imprensa espanhola, foi deflagrada após o terceiro casamento – o segundo com uma secretaria da empresa – do patriarca. Da série parente é serpente, Pablo sugere que o pai esteja sofrendo as instabilidades da idade: “Acredito que este é um processo que ocorre com muitos idosos, que depois de deixar seu papel executivo retornam a ele”.

Pablo Alvarez e o ator da família Soprano:

Pablo Alvarez e o ator da família Soprano:

(abre parênteses)

Quando esteve no Brasil, em julho de 2008, Pablo Alvarez me chamou atenção por uma semelhança com o ator já falecido James Gandolfine, que interpreta Tony Soprano, o chefe mafioso em crise da série de TV Família Soprano. A vida imita a arte? Na época escrevi:

Pablo Alvarez é um empresário calado e tímido, é o antimarketing em pessoa. Ao contrário da maioria dos produtores e enólogos, que pousam por aqui munidos de apresentações em power point, catálogos caprichados e discursos irritantemente didáticos (e não há mais quem aguente o batido discurso de que “não se faz bom vinho com uva ruim”), Don Pablo parece implorar para não ser instado a falar. Inundado de perguntas, suas respostas são curtas e diretas. Uma definição para o Vega-Sicília Único? Elegância. Qual o melhor dos seus vinhos? O melhor ainda está para ser feito.

(fecha parênteses)

Um dos homens mais ricos da Espanha, David Alvarez adquiriu a Bodega Vega-Sicilia em 1982 (a vinícola foi fundada em 1864) e colocou Pablo para cuidar do negócio. Ele mesmo declara em entrevista ao jornal The New York Times: “Meu pai comprou a Vega-Sicilia por que era a vinícola mais prestigiosa que havia na Espanha. Não fosse isso eu jamais teria entrado no mundo do vinho”. O profissionalismo que a família impôs à empresa é responsável por seu sucesso comercial ao redor do mundo. Um produto especial com uma estratégia comercial exemplar, mesmo com preços pouco amigáveis – o mais barato sai por 419 doletas, ver abaixo. A empresa exporta mais da metade de sua produção para mais de 11o países, entre eles o Brasil.

O Vega-Sicilia – um vinho para poucos – tem uma legião de seguidores no mundo, como os atores Kurt Russel e a atriz Goldie Hawn. O mais famoso aqui no Brasil é o Rei Roberto Carlos. É unanimidade entre os críticos. Para o inglês Michael Broadbent trata-se do “Lafite da Espanha”, Parker deu 99 pontos para as safras 1991, 1994 e 1998 do Vega-Sicilia Reserva Especial.

Vega Sicilia02

O Vega-Sicilia é uma instituição, um vinho de muita expressão, potência, elegância e longevidade. Seus disputados rótulos, no centro da discórdia, são os seguintes:

  • Vega-Sicilia Valbuena 5º Año Reserva 2006 (180.000 garrafas/ano – U$ 415);
  • Vega-Sicilia Único Gran Reserva 2003 (80 a 110.000 garrafas/ano – U$ 989),
  • Vega Sicilia e Único Reserva Especial (U$ 1066)

Todos os vinhos fazem parte do catálogo da Mistral (preço em dólar do dia).

Site oficial: http://www.vega-sicilia.com/

 

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