Publicidade

quinta-feira, 30 de outubro de 2014 Tintos, Velho Mundo | 10:03

Atibaia, um vinho do Líbano em homenagem ao Brasil

Compartilhe: Twitter
Jean Massoud explica seu tinto do líbano com pegada francesa e nome brasileiro

Jean Massoud explica o Atibaia: um tinto do Líbano com pegada francesa e nome brasileiro

A primeira surpresa costuma acontecer quando é declarada a procedência do vinho. Existe vinho libanês? Sim, existe, e com uma história milenar. A segunda está relacionada ao nome no rótulo: Atibaia. Teria alguma relação com a cidade no interior do Estado de São Paulo? Sim, tem. A terceira surpresa, a melhor de todas, trata-se da qualidade. Será um bom vinho? Sim, é um ótimo vinho e provando sem conhecer sua origem muito provável você irá confundi-lo com um vinho francês. A quarta surpresa é o preço. É barato? Não, trata-se um vinho cheio de cuidados e mumunhas, pequena produção. Vai daí que… Vamos por partes e falamos do preço.

 Vinho do Líbano, breve relato

O Líbano é um país pequeno, tem 225 quilômetros de extensão e 70 de largura. Sua história com o vinho é tão conflituosa e rica quanto a região – o país tem fronteiras com a Síria e Israel. Relíquias e monumentos indicam que no ano 3.000 a.C. já se produzia ali algum tipo de vinho. Em 1517 o Império Otomano domina a região e proíbe a produção de vinho. A retomada está relacionada às missões jesuíticas (sempre eles) que trazem videiras francesas para serem plantadas no país. Em 1918 os franceses assumem o governo administrativo. Em 1975 explode a Guerra Civil, que praticamente inviabiliza a produção de vinho no Líbano – com exceção de alguns abnegados, como Serge Houchar, do Château Musar  que mantém a produção durante os 20 anos do conflito, em meio a bombas e morteiros. Em 1992 com a estabilidade de volta ao país a situação finalmente começa a melhorar.

Para se ter uma ideia da evolução que a estabilidade política trouxe ao vinho. Em 1999 eram apenas seis produtores, atualmente são 45, com uma produção anual de 8 milhões de garrafas. Três deles dominam o mercado: Chateau Ksara, Kefraya e o valoroso Musar. A maior parte dos vinhedos estão localizados numa região chamada Vale do Bekaa. Predominam as uvas francesas, como cabernet sauvignon, cinsault, carignan, syrah e petit verdot. Ou seja, os vinhos são visões das regiões de Bordeaux e do Rhône, na França, em solo libanês. Não por acaso, os rótulos disponíveis são sempre de mesclas de uvas.

E o país começa a apostar no mercado exterior. Bom lembrar que parte da população do Líbano é islâmica, e não consome vinho. O Consulado do Líbano de São Paulo vai sediar, no final de novembro, uma inédita degustação de vinhos libaneses no Brasil, com a presença de nove produtores.

 Nasce um vinhedo

A história do tinto Atibaia começa com o desejo do libanês Jean Massoud de produzir um vinho para chamar de seu. Apaixonado pela bebida – e com capital suficiente para bancar um sonho -, adquiriu terras na costa norte do Líbano conhecida como Batroun (condenada pela etimologia a fazer vinho, já que vem do grego botrys, que significa uva). Ela fica a 50 quilômetros de Beitute e apenas 4 quilômetros do mar. Um belo dia, recebeu a visita do proprietário do Chateau Angélus, Hubert de Boüard, de Bordeuax, que desafiou a fazer um vinho ali naquele terroir. Nascia ali o projeto de uma vinícola butique, que incluiu a compra de terrenos em volta, o estudo do solo e das uvas que melhor iriam se adaptar ao local. Importaram e plantaram em 2004 as variedades syrah, cabernet sauvignon e petit verdot nos 5 hectares da propriedade. “Queria fazer um bom vinho que desse prazer a mim e aos meus amigos”, comenta Jean. “Se fosse bom eu comercializava, se não fosse, não venderia.”

Sonho caro este. A adega conta com os melhores fornecedores de tanques, barricas, linha de engarrafamento da mais alta tecnologia. A colheita (apenas dois a três cachos por planta) é manual, realizada de madrugada, e a seleção das uvas é feita grão a grão. Trabalho de chinês preso. As três variedades são vinificadas e envelhecidas separadamente entre 12 e 16 meses. Só então é feita a mistura das uvas (assemblage) que vai para o tanque por mais dois meses e ainda um período na garrafa. A produção também é pequena. 12.000 garrafas, e não deve aumentar.

 Conexão Atibaia-Batroun

As cidades de Atibaia e Batroun ficam mais ou menos a 11.000 quilômetros de distância uma da outra, com um oceano no meio. Mas existe uma ligação afetiva que as aproxima. Jean Massoud vem ao Brasil desde 1978 e sempre passa 15 dias na casa de amigos em Atibaia, uma estância no interior do Estado de São Paulo. Quando foi lançar seu vinho de Batroun, ele resolveu homenagear a cidade no rótulo que tem  o mapa do Líbano representado em pinceladas leves. E este nome não atrapalha um pouco no mercado? Fiz esta pergunta a Jean Massoud que rebateu: “Não, tem até um sonoridade oriental que ajuda, pois “tayeb” em árabe quer dizer de paladar bom, agradável”

 Atibaia, três safras

Atibaia 2010

Este escrevinhador de vinhos teve a oportunidade de provar as três safras produzidas do Atibaia: 2009, 2010 e 2011. “Quando fiz a primeira safra eu não sabia ao certo o que ia dar. Quando recebi o comentário de Jorge Lucki (critico de vinhos e consultor da Zahil), que declarou ser o melhor tinto do Líbano que havia provado Líbano, eu chorei de alegria”, confessa Jean Massoud.

“Não há muito diferença de clima nas safras, quase não chove, lembra um pouco o que acontece em Mendoza”, conta. Os vinhos, de fato, mantêm um perfil gustativo semelhante entre os anos. E vamos combinar não são muitas safras e nem muito antigas para dar tanta diferença. Parece uma mistura entre o Rhône e Bordeaux, um corte bordalês com especiarias, se é que existe isso. “Não temos uma identidade como na França, isso não acontece com os vinhos libaneses”, pondera Massoud, apesar de usarem as cepas do país do Axterix.

2009 tem um belo aroma e já mostra sinais de alguma evolução, a madeira interagiu bem com o caldo, boa acidez, bastante longo. Adorei o 2009. Já 2010 tem uma fruta negra mais presente, as especiarias mais explícitas, mais fácil de gostar de imediato e um bom final de boca também. Finalmente 2011 (que ainda não está à venda). Ainda está um pouco verde e merece ficar na garrafa por mais um tempo, mas pela boa estrutura e o frutão promete fazer bonito.

A Zahil – que traz o Atibia – não é a importadora do vinho por acaso: seus proprietários são libaneses, atuam há muitos anos no Brasil  e Tony Zahil foi amigo de infância de Jean Massaud. São importados apenas 600 garrafas do Atibaia por ano. A primeira safra, de 2009, foi totalmente vendida (a colônia é fiel). A segunda safra, de 2010, se você ficou curioso, pode ser sua, se desembolsar 285 reais.

Autor: Tags: , , , , , , ,

quinta-feira, 23 de outubro de 2014 Brancos, Novo Mundo, Tintos | 12:53

O novo vinho chileno da De Martino: mais gastronômico, mais leve, mais natural

Compartilhe: Twitter
Vinhedos orgânicos da De Martino no Maule. "Os vinhedos são lindos, mas o que importa é o solo", diz o enólogo Marcelo Retamar

Vinhedos orgânicos da De Martino no Maule. “Os vinhedos são lindos, mas o que importa é o solo”, diz o enólogo Marcelo Retamal

Um espectro ronda o Chile, o espectro da reinvenção do vinho chileno. Aquele tinto amadeirado, carnudo, alcoólico e com uma geleia doce que eleva qualquer curva glicêmica tem seus dias contados. Pelo menos na visão da De Martino, uma bodega familiar que completa 80 anos com disposição de mudança de um adolescente. “Definimos a partir de 2010 produzir vinhos mais gastronômicos, com maior acidez, que deem prazer de beber”, pontifica o enólogo Marcelo Retamal. “E que expressem os nossos vinhedos”.

Saem de cena as barricas de primeiro uso, o tostado excessivo, as leveduras de prateleiras, os aditivos químicos, ou seja, todos os componentes artificiais que deixam todos os vinhos parecidos.

Entram no jogo os princípios da agricultura orgânica, uso de leveduras indígenas (naturais do lugar), as barricas usadas e maiores. “A madeira não é ruim , mas não pode ser norma. Tem de saber manejá-la”, explica. “Tonéis de 5 mil e 2,5 mil litros são 22 vezes maior que um barril pequeno e impacta 22 vezes menos o vinho.” Resultado: vinhos frescos, nervosos, mais fáceis de beber, com maior expressão da fruta e “diferentes”. “Este é o estilo que queremos”, aponta Retamal. Antes, explica ele, o vinho era construído do nariz para a boca, ou seja dava-se muito importância aos aromas. “Hoje, quero saber como fazer a boca, afinal o vinho é feito para beber, o nariz é uma consequência.”

Os vinhedos da De Martino são orgânicos desde 1988 e o trabalho é feito de forma sustentável, a vinícola exibe todos os certificados de agricultura orgânica e redução de emissão de carbono. Sorte ou não, a partir da decisão de um estilo com menor intervenção, mais pureza e uma busca às origens, veio a safra de 2011, considerada excepcional no Chile. Os oito rótulos que são uma espécie porta-bandeiras desta proposta são de vinhedos únicos (single vineyard) espalhados em seis diferentes vales chilenos e com características próprias. “Os vinhedos são todos lindos, mas tem de olhar para baixo, é o solo, e sua composição que determina qual a uva mais apropriada e as características que vai aportar qualidades ao vinho”

Os vinhos que representam os single vineyards são: Quebrada Seca, Chardonnay (Limari), Parcela 5 Sauvignon Blanc (Casablanca) – vinhos da Costa, com influência marítima; Carmenère Alto de Piedras e Las Águilas Cabernet Sauvigon (Maipo); Las Cruces (Cachapoal), Limávida (Maule); Vigno Carignan (Maule) – vinhedos antigos; e Alto Los Toros (Elqui) – vinhos de altura

Três vinhos que valem a pena conhecer

quebradaseca

Quebrada Seca Chardonnay 2011
Limarí
100% chardonnay
R$ 131,00
Importador: Decanter

Cansado daqueles chardonnays superuntuosos, com tanta manteiga que dá para passar no pão? Seus problemas se acabaram-se! Este exemplar do novo estilo da De Martino de solos vulcânicos e distante 25 quilômetros do oceano Pacífico, com muitos componentes calcários, prima pela frescura, pela mineralidade, uma doçura leve e um longo final de boca, que também revela um toque salgado.

limavida

Limávida 2011
Maule
85% malbec, 15% carmenère e cabernet sauvignon
R$ 131,00
Importador: Decanter

O meu vinho preferido entre os oito apresentados. Os vinhedos, plantados em 1945, mantêm a característica de uma época em que as uvas eram cultivadas juntas e misturadas. Boa entrada, fruta fresca, boca bastante delicada e limpa, boa acidez, taninos macios. Tem madeira sim, fica dois anos em barricas francesas, mas usadas, que faz seu trabalho sem atravessar o vinho.

vigno

Vigno Carignan 2011
Maule
85% carignan, 15% malbec e cinsault
R$ 131,00
Importador: Decanter

Também de vinhas velhas, estas de 1955, este é um vinho que busca recuperar o prestígio da carignan, ligado à Associação dos Produtores de Carignan do Maule, que mostra ótimos resultados no Chile. É o estilo de vinho que os especialistas costumam rotular de mediterrâneo, com uma acidez cortante, fresco e com notas bacanas de especiarias. Acho que é um ótimo exemplo da pegada gastronômica do novo estilo da De Martino. Foi o vinho chileno com maior pontuação do Guia Parker, 95 pontos.

Falando nisso, se a minha opinião não tem lá muito peso, vamos aos peso-pesados. A crítica especializada tirou o chapéu para os vinhos. Todos os seis rótulos receberam pontuação acima de 94 pontos do mais importante Guia de Vinhos do Chile e Argentina, o Descorchados, merecendo o título de “Marca Revelação do Ano”. Também mereceram notas acima de 90 pontos do Guia de Robert Parker. “Uma revolução está acontecendo na De Martino, desde a safra 2011”, alerta o colaborador de Parker, Luis Gutierrez. É, companheiros. Tudo que é sólido se desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado.

E o consumidor? “O consumidor também está mudando e se voltando a este estilo de vinho e não apenas aquele alcoólico, com madeira excessiva”, aposta Retamar, afinal há que se vender as garrafas. Para finalizar, contextualiza seu papel nesta mudança: “O estilo é o que é importante, é o que fica. Os enólogos são passageiros, assim como na Fórmula 1.  Os pilotos mudam, uma hora é o Schumacher, outra o Alonso. O que importa é a Ferrari”.

Autor: Tags: , , , , , , ,

sexta-feira, 17 de outubro de 2014 Brancos, Degustação, Livros, Novo Mundo, Tintos, Velho Mundo | 11:59

Eduardo Chadwick: a história das degustações que colocaram o vinho chileno entre os melhores do mundo e a aposta nos brancos e na pinot noir da safra de 2014

Compartilhe: Twitter
Eduardo Chadwick: o homem que desafiou os ícones da europa e colocou o vinho chilena no mapa

Eduardo Chadwick: o homem que desafiou os ícones da europa e colocou o vinho chileno no mapa

O que você faz para provar que é bom? Compara-se aos melhores. E se esta comparação se repetir 22 vezes e em 20 delas você estiver entre os três mais bem avaliados? Significa que você conseguiu provar a sua qualidade, seu potencial. Você apostou. E ganhou. É o que fez em 2004 o produtor e empresário Eduardo Chadwick com a já conhecida Berlin Tasting (ou Cata de Berlim), quando inaugurou a série de degustações às cegas que iria confrontar vinhos de alta qualidade de seus vinhedos do Chile (Don Maximiano, Seña e Viñedo Chadwick) com clássicos de Bordeaux e supertoscanos. 39 especialistas provaram onze vinhaços das safras 2000 e 2001 sem ver os rótulos. O resultado é este abaixo, seguido de um sucessão de OOOhhhhs! em 23 de janeiro de 2004. David vencia Golias.

2004

1.  Viñedo Chadwick 2000

2.  Seña 2001

3.  Château Lafite-Rothschild 2000

4. Château Margaux 2001

4.   Seña 2000

6.   Viñedo Chadwick 2001

6 .  Château Margaux 2000

6.  Château Latour 2000

9. Don Maximiano Founder’s Reserve 2001

10. Château Latour 2001

10. Solaia 2000

 

Don Max 2010

Don Maximiano: mescla bordalesa com potência e elegância e capacidade de envelhecimento

Com a visão de homem de negócios que banca o produto que tem, Chadwick resume numa pergunta sua aposta: “Você se lembra do nome do segundo homem a pousar na lua?” Dificilmente alguém se recorda – foi Buzz Aldrin, mas eu precisei recorrer ao google para incluir neste texto. Era preciso criar  uma fórmula para mostrar ao  mercado mundial e ao mundo o potencial dos vinhos de seus vinhedos de Aconcagua e Maipo, no Chile.

VCH 2000 bottle

Chadwick: clássico cabernet sauvignon de clima frio

 

A inspiração foi a prova de Paris de 1976  – que catapultou os vinhos dos Estados Unidos, não por acaso também comparando os rótulos da Califórnia aos franceses, e vencendo -, comandada pelo mesmo mestre de cerimônias, Steven Spurrier, que tornou o evento uma espécie de grife pessoal. Leia aqui a reportagem publicada na época pela revista TIME (texto original, em inglês).

Seña 1995

Seña: complexo e sensual, com importante participação da carmenère

Eduardo é um alpinista, ou seja um aventureiro com planejamento. E ele não apostou tão no escuro assim, um ano antes, numa degustação às cegas num restaurante na Alemanha, com bem menos gente e sem qualquer repercussão na mídia, havia colocado em disputa seus rótulos contra os grandes franceses e tinha obtido um bom resultado. “Mas de que adiantava, se ninguém soube?”, indaga ele. Eduardo Chadwick é um empresário do vinho e aprendeu com o mestre Robert Mondavi – seu parceiro e mentor por 10 anos do Seña – que a propaganda é alma do negócio. A isso damos hoje o nome de marketing. E não há qualquer demérito nisso.

Para provar que o resultado surpreendente não foi obra do acaso, Eduardo Chedwick organizou mais 19 degustacões em 17 importantes cidades ao longo dos últimos 10 anos. São Paulo e Seul receberam duas delas, e em 3 ocasiões houve dois júris, um de conhecedores e outro de especialistas, totalizando 22 provas. “O importante a partir daí não era mais estar na primeira posição, mas mostrar a consistência dos nossos vinhos e o potencial de guarda, pois sempre tínhamos rótulos nos três primeiro lugares”, ensina Eduardo Chadwick, com um sorriso vencedor. “E assim trabalhamos a imagem do vinho chileno e mostramos que não havia vinhos de qualidade apenas na europa.”

Um colunista de vinho e seu extenuante trabalho de provar 12 supervinhos

Um colunista de vinho e seu extenuante trabalho de provar 12 supervinhos em 2013

Eu sou testemunha da lisura de todo o processo pois estive presente nos dois eventos realizados em São Paulo, em 7 de novembro de 2005 e 4 de julho de 2013. E uau! Os vinhos são todos de alto nível, não há perdedor, mas aquele que está melhor na taça naquele momento e revela a qualidade de seu terroir, o tratamento e escolha de suas uvas e do blend, o cuidado na vinificação e aquele mistério da natureza que às vezes aponta o dedo para aquela safra e lugar e com a ajuda de um enólogo competente produz um caldo de beber de joelhos, e pensando que afinal a vida vale a pena.

Curioso com os resultados de São Paulo? Vamos lá

2005

1 Château Margaux 2001

2 Viñedo Chadwick 2000

3 Seña 2001

4 Château Latour 2001

5 Seña 2000

6 Viñedo Chadwick 2001

7 Don Maximiano 2001

8 Guado al Tasso 2000

9 Château Lafite-Rotschild 2000

10 Sassicaia 2000

 

São Paulo Tasting 2013: 11 garrafas e nenhum segredo

São Paulo Tasting 2013: 11 garrafas e nenhum segredo

2013

1 Château Margaux 2001

2 Seña 2007

3. Don Maximiano 2009

4 Château Mouton Rotschild 1995

5 Château Latour 2007

6 Seña 2010

7 Viñedo Chadwick 2000

8 Don Maximiano 1995

9 Don Maximiano 2005

10 Sassicaia 2000

11 Seña 2000

12 Tignanello 2009

Percebe-se um acerto apreço dos paulistas pelo Château Margaux, que prima pela elegância. Mas os vinhos de Chadwick estão sempre lá entre os primeiros.

capa.livro

Luxuosa edição que documenta os 10 anos de provas por todo o mundo

Todo este importante trabalho de divulgação do vinho de alta qualidade chileno, os vinhedos, as provas, e o depoimento de importantes críticos e especialistas, está documentado no luxuoso livro que comemora este feito: “The Berlin Tasting – Uncorking the Potencial of Chile’s Terroir” .

autografo

O meu exemplar está autografado, sorry, periferia

Vem aí: um chardonnay e um pinot noir ícones para brigar com os franceses

Termindao um cicl,  outro se impõe. Qual a próxima montanha que Eduardo Chadwick pretende escalar? Além de manter vivo o espaço conquistado com seus rótulos de alto coturno, o empresário mira no potencial dos brancos chilenos e no tinto mais desafiador aos enólogos que é a pinot noir. Ele conta que quando se juntou a Robert Mondavi, em 1995, a ideia era repetir o feito de Nappa Valley e criar um ícone tinto, de corte bordalês, e um ícone branco, com a chardonnay. “Chegamos a criar o vinho e comparar com os melhores brancos da Borgonha, mas chegamos à conclusão que não tinha a mesma qualidade do Seña tinto”. Passados 20 anos, Eduardo acha  que é o momento de colocar à prova as conquistas no conhecimento do solo e dos novos vinhedos de qualidade superior que possui em Aconcagua Costa e Casablanca – uma região mais fria, com muitas ladeiras, solo de xisto – e lançar um grande  branco chardonnay e um tinto pinot noir da safra de 2014 no mercado internacional. “O futuro da indústria é elevar a qualidade de nossos grandes vinhos de chardonnay, sauvignon blanc e pinot noir “, preconiza.  “Acho que estamos preparados. Temos em mente o desafio de conquistar um espaço entre os grandes vinhos da Borgonha”. Eduardo Chadwick, como já se disse mais de uma vez, praticou  alpinismo. Os alpinistas sempre buscam uma montanha mais alta e difícil. A meta de Chadwick para seu chardonnay e pinot noir? “Temos em mente Domaine de La Romanée-Conti”, diz soltando uma risada desafiadora. “Bora” aguardar a próxima rodada de “Tastings”? A primeira aposta, diante do ceticismo de todos, ele ganhou.

Serviço: os rótulos Don Maximiano e Chadwick são importados pela  importadora Vinci e o Seña pela Expand

Autor: Tags: , , , , , , , ,

quinta-feira, 16 de outubro de 2014 Brancos, Doce, Tintos, Velho Mundo | 11:01

Tour de Mirambeau: um Bordeaux bom de beber e que dá para comprar

Compartilhe: Twitter

Vídeo do Château Tour de Mirambeau: parece propaganda. E é. Mas é bonito.

Os amantes e aficionados do vinho que costumam frequentar feiras – aqueles eventos onde o produtor fica servindo goles de seus rótulos e o público vai enchendo a caneca meio sem critério – manjam a figura: Jean-Louis Despagne. Todo ano lá está ele com sua indefectível gravata borboleta, a barba cerrada e seus Bordeaux para oferecer. Ele e sua família são proprietários de vinícolas desta região mítica da França: como o Château Tour de Mirambeau (importado pela Mistral) e Bel Air (importado pela Decanter).

Bordeuax é aquela região confusa de entender da França de diversas classificações e regiões, dos premier cru classé do Médoc, Graves e Sauternes, dos premier grand cru classé A e B de St. Émilion e dos rótulos míticos que aprendemos a admirar nos livros e cursos mas raramente comprovamos na taça sua glória e fama já que o preço é proibitivo. Estes nomes devem querer dizer alguma coisa para você, não? Château Latour, Château Lafite Rothschild, Château Margaux, Mouton Rothschild e Château Haut-Brion (Médoc), Château Haut-Brion (Graves); Château d’Yquem (Sauternes); Château Angélus, Château Ausone, Château Cheval Blanc e Château Pavie (St. Émilion) e finalmente Château Petrus (Pomerol, que tem fama mas não classificação). Mas já provou algum? Então…

E o Bordeaux tirou a gravata borboleta

Mas há sim rótulos de Bordeaux para os mortais. Mas atenção, muitos deles são ruins, não valem o investimento ou a barganha. Ter a região de Bordeaux gravada em um rótulo não é indicativo de boa procedência, e pode decepcionar. Mas há uma produção de tintos e brancos de excelente nível e preços compatíveis. Tour de Mirambeau é uma de seus melhores representantes. E com isso voltamos ao nosso personagem Jean-Louis Despagne, desta vez sem a gravata borboleta e de barba feita, que veio apresentar os rótulos de sua Bordeaux, da região de Entre-deux-Mers. Não sei se foi o canícula que castiga São Paulo nos últimos tempos ou a proximidade com o Brasil (Despagne visita com frequência o Brasil, em especial Paraty e Trancoso, e fala um português fluente), mas a descontração talvez traduza melhor os seus caldos, que são descomplicados.

A família Despagne vem cultivando vinhedos por mais de 250 anos. O histórico Château Tour de Mirambeau, localizado em frente a St Emilion, tem cerca de 80 hectares. Começou produzindo mais vinhos brancos, hoje a proporção é 50% para tintos e 50% para brancos, refletindo um pouco o mercado consumidor mundial. Hoje os três filhos de Jean-Louis cuidam da enologia à venda, sendo que a filha, Basaline, é a executiva principal do negócio. Jean-Louis Despagne, como ou sem gravata borboleta, é uma simpatia e com apresentou seus vinhos:

Dois brancos

Ch Tour de Mirambeau_Reserve_BB

Château Tour de Mirambeau La Réserve Blanc 2012
Uvas: sauvignon blanc 58%; sémillon 38% e muscadelle 10%
A sauvignon blanc é predominante nos brancos de Bordeaux, e o resultado deste blend que passa apenas pelos tanques de aço inox, é pura fruta, clássica, com aquelas notas cítricas agradáveis e final fresco. Não melhora com o tempo. Compre e beba! Um Bordeaux na borda da piscina. U$ 38,90 (a Mistral tem por política tabelar seu preços em dólar)

Ch Tour de Mirambeau_Cuvee Passion_BB

Château Tour de Mirambeau Cuvée Pasion Blanc 2010
Uvas: sauvignon blanc 60%; sémillon 30%; sauvignon gris 10%
Aqui um branco mais imponente, com maior volume em boca, cítricos e algo amanteigado e um toque tostado delicado. Ao contrário de seu colega de adega aguenta uns cinco anos na garrafa. U$ 49,90

 Dois tintos

Ch Tour de Mirambeau_Reserve_RG

Château Tour de Mirambeau La Resérve rouge 2011
Uvas: merlot 85%; cabernet sauvignon 10%; cabernet franc 5%
O tinto de entrada do catálogo, com predominância na merlot no corte bordalês e muita fruta e pouca complicação, sem grandes vôos ou pretensões, mas bem equilibrado. A revista Decanter qualificou como melhor Bordeaux para o dia-a-dia. Jean-Louis, no entanto, enxerga que para o futuro é um vinho que tende a desaparecer do portfólio pois os consumidores esperam um tinto com maior capacidade de envelhecimento. U$ 45,50

BT_RQTM_trad (2)

Château Tour de Mirambeau Gran Vin rouge 2008
Uvas: merlot 70%; cabernet sauvignon 30%
Um tinto com corte típico bordalês, mas como convém à região com um peso maior na merlot. Fermentaçãoo malolática nas barricas , o que ajuda no casamento, sem DR, entre a madeira e os aromas do vinho, ou seja, um não discute om o outro de quem é  a palavra final: há uma boa integração. Tem uma fruta vermelha nítida (no nariz e na boca), gostosa, um tanino presente, um belo representante da região de Bordeux. Este sim, com potencial de guarda e futuro no mercado consumidor. U$ 65,90

E um doce

Tour de Mirambeau blanc

Château Tour de Mirambeau Sénillon Noble 2003
Uva: Sémillon 100%
De produção limitadíssima (3 barricas, e produzido a cada 2 ou 3 anos) e venda idem – “Nem sei por que o Ciro Lilla (proprietário da Mistral) importa este vinho”, comentou Despagne – este vinho de sobremesa mostra a beleza do fenômeno da botrytis, o fungo que quando ataca as frutas aumenta a doçura, a densidade dos aromas de mel, pêssego em calda e é espetacular para acompanhar um creme ou uma torta na  sobremesa. Funciona até como uma sobremesa em carreira-solo. “Não é para ganhar dinheiro”, sinaliza Despagne, “mas para deixar os trabalhadores orgulhosos”. U$ 96,50.

É dele também o surpreendente Girolate, fruto de um sistema de fermentação em barrica que vai girando, uma criação sua e do consultor Michel Rolland. Premiadíssimo e concorrendo e ganhando de grandes de Pomerol e St. Émilion (lembra deles, ali em cima?), é um outro bicho. Mas o Girolate sobe muito a régua, custa 350 dólares, e pode ser tema de outra nota, em outro contexto.

Autor: Tags: , , , , , , , ,

terça-feira, 14 de outubro de 2014 Degustação, Espumantes, Velho Mundo | 12:51

Tem beija-flor brasileiro no champagne do monsieur e da madame

Compartilhe: Twitter

 

Garrafas da Perrier-Jouët perfiladas em dia de gala: as flores desenhadas por Emile Gallé são a marca registrada

Garrafas da Perrier-Jouët perfiladas em dia de gala: as flores desenhadas por Emile Gallé são a marca registrada

Champagne é para poucos, fato. Mas se em algum momento da vida uma tacinha passar pela frente, não deixe escapar. Tanto melhor se for um champagne que alia beleza e sofisticação na garrafa e dentro dela, não é? Um dos expoentes desta linha que esbanja elegância e paladar é a Maison Perrier-Jouët, aquela da etiqueta florida, de estilo art nouveau, que dá dó de jogar a garrafa fora, mas um prazer danado de jogar as borbulhas para dentro.

Provar vários rótulos de Perrier-Jouët é uma viagem sensorial que revela a marca desta casa que existe desde 1811, desde que o sobrenome do monsieur (Pierre Nicolas Perrier) e da madame (Adéle Jouët) se juntaram em matrimônio. A Maison teve apenas sete Chefs de Cave – o sujeito que é responsável pelo assemblage final, pelo estilo do champagne, pela mágica da borbulhas. O último deles, Hervé Deschamps, esteve em São Paulo no último dia 9 de outubro para apresentar seu portfólio. Em especial a edição limitada – 10.000 garrafas para o mundo; 200 para o Brasil – da Pierre Jouët Belle Epoque Rosé 2005.

Vai uma tacinha de champagne?

Vai uma tacinha de champagne?

O que tem de especial neste champagne, além do champagne? O marketing. Um beija-flor do artista plástico Vik Muniz pousou na garrafa comemorativa e se misturou às tradicionais anêmonas – as flores verde ou rosa e branca – que definem e distinguem o visual da Pierre-Jouët desde 1902, quando o então maior representante da art nouveau, Emile Gallé, desenhou esta representação típica da Escola de Nancy, que usava e abusava de flores na sua arte decorativa em vasos e peças.

O beija-flor do artística plástico Vik Muniz entre as flores de Emile Gillé.

O beija-flor do artista plástico Vik Muniz entre as flores de Emile Gillé.

As flores, a propósito, não são uma mera representação artística de Emile Gallé, elas traduzem a elegância e as notas florais características do estilo do champagne da Pierre-Jouët. A Belle Epoque Rosé é um assemblage de 50% de pinot noir, 45% de chardonnay e 5% da pinot meunier – a mistura clássica de Champagne. O toque floral tá lá, o cítrico e, claro, frutas vermelhas que se esperam de um rosé, envolvidas em um tostado marcante, finalizadas com uma acidez necessária. Outro “detalhe” distingue esta peça artística. O preço. Por R$ 1.600,00 ela pode ser adquirida nas melhores lojas e delicatessens.

Pierre-Jouët: vale o refrão dos Titãs "Eu vejo flores em você"

Pierre-Jouët: vale o refrão dos Titãs “Eu vejo flores em você”

Este colunista teve chance de provar mais do que uma tacinha, diga-se de passagem. E não deixou a chance escapar. Passaram por estas papilas gustativas que a terra há de fermentar a Perrier-Jouët Brut, a Belle Epoque Blanc de Blancs 2002, A Belle Epoque Brut 2004 e 2002 (2002 com maior potência, pois 2004 teve mais sol e calor), a Blason Rosé, e a estrela do dia, a Belle Epoque Rosé 2005.

Belle Epoque Blanc de Blancs 2002: passaria o dia bebendo

Belle Epoque Blanc de Blancs 2002: passaria o dia bebendo

Meu preferido: o Belle Epoque Blanc de Blancs 2002. O nome já entrega que é um blend apenas da branca chardonnay (lembrando que pinot noir e meunier são uvas tintas e na elaboração dos espumantes as cascas não são fermentadas junto com o mosto). São uvas dos melhores vinhedos da Pierre-Jouët: Bourons Leroy e Bourons du Midi, em Cramant, no miolo de Côte des Blancs. O crème de la créme da chardonnay da região demarcada de Champagne. Para quem se interessa pelo universo da minhoca, trata-se de um terroir de solo calcário que retém a umidade e aprofunda as raízes das vinhas. Mas a gente não prova o solo calcário nem as raízes, mas seu fruto fermentado: flores brancas, torrefação, cremoso, um bom volume de boca, um ótimo frescor e uma inacreditável lembrança de gengibre e laranja. Passaria a tarde descobrindo (e inventando) novas camadas de aromas e sabores deste Blanc de Blancs, isso sim é Belle Epoque, aqui e agora.

Belle Epoque Brut: grandes garrafas para grandes vinhos

Belle Epoque Brut 2002: grandes garrafas para grandes vinhos

A visita de Hervé Deschamps proporcionou um aumento per capita de rolhas de champagne Perrier-Jouët abertas nunca antes visto neste país, incluindo algumas garrafas Magnum (3 litros) de Belle Epoque Brut que segundo Hervé permitem um maior contato da bebida com as leveduras e consequentemente uma capacidade de envelhecimento maior. O Chef de Cave ensinou que as uvas da Belle Epoque Brut são provenientes de vários vinhedos, e que a porcentagem é resultado de inúmeras provas às cegas realizadas por ele e sua equipe, mas um número mágico sempre se impõe: 50% de chardonnay, 45% de pinot noir e 5% de pinot meunier. Para Hervé, esta porcentagem nada mais é do que o reflexo dos terrenos da Perrier-Jouët. O Chef de Cave descreve o Belle Epoque 2002 com algumas palavras: equilibrado, estruturado, leveza, flores, frutas (pêssego, pera), tostado no final, mineral e complexo. Uma frase do release de Hervé distribuído pela assessoria se encaixa aqui: “Cada cuvée é uma obra única e inesquecível e toda degustação é uma arte, como a do assemblage”

Hervé Deschamps (7)

Hervé Dechamps: o sétimo Chef de Cave em 200 anos de Perrier-Jouët. Só alegria!

Hervé Dechamps? Não lembra o personagem de UP?

Hervé Dechamps? Não lembra o personagem de UP?

Perguntei a Hervé Deschamps – que lembra um pouco o velhinho do desenho UP, mas sem aquele mau humor – o que faria um consumidor escolher um Perrier-Jouët entre tantas outras Maisons de Champagne disponíveis. Sua resposta fecha esta coluna e define um estilo: “Nós procuramos reproduzir na assemblage o mesmo conceito artístico, e com os mesmos valores, representados pelo rótulo criado por Emile Gallé: elegância, delicadeza e prazer.”

As flores, as frutas, a cremosidade: um representação do Belle Epoque Rosé

As flores, as frutas, a cremosidade: uma representação do Belle Epoque Rosé

 

Autor: Tags: , , , , , , , ,

segunda-feira, 4 de agosto de 2014 Velho Mundo | 11:56

Parente é serpente: a briga em família pelo Vega-Sicilia

Compartilhe: Twitter

O Vega-Sicilia, mítico tinto da Ribera del Duero, está mais para Sicília do que para Vega. A família se encontra em litígio. E por conta de um problema de sucessão familiar na empresa até o evento que comemorou os 150 anos da Bodega ficou um tanto eclipsado. A história, que tem todos os ingredientes que alimentam as fofocas na imprensa coloca em lados opostos o patriarca da holding, David Alvarez, de 87 anos, que controla os negócios da família, e cinco dos sete filhos. Entre eles Pablo Alvarez, um senhor com cara de poucos amigos que batalha com o pai pelo controle do Vega Sicilia. A disputa, diz a imprensa espanhola, foi deflagrada após o terceiro casamento – o segundo com uma secretaria da empresa – do patriarca. Da série parente é serpente, Pablo sugere que o pai esteja sofrendo as instabilidades da idade: “Acredito que este é um processo que ocorre com muitos idosos, que depois de deixar seu papel executivo retornam a ele”.

Pablo Alvarez e o ator da família Soprano:

Pablo Alvarez e o ator da família Soprano:

(abre parênteses)

Quando esteve no Brasil, em julho de 2008, Pablo Alvarez me chamou atenção por uma semelhança com o ator já falecido James Gandolfine, que interpreta Tony Soprano, o chefe mafioso em crise da série de TV Família Soprano. A vida imita a arte? Na época escrevi:

Pablo Alvarez é um empresário calado e tímido, é o antimarketing em pessoa. Ao contrário da maioria dos produtores e enólogos, que pousam por aqui munidos de apresentações em power point, catálogos caprichados e discursos irritantemente didáticos (e não há mais quem aguente o batido discurso de que “não se faz bom vinho com uva ruim”), Don Pablo parece implorar para não ser instado a falar. Inundado de perguntas, suas respostas são curtas e diretas. Uma definição para o Vega-Sicília Único? Elegância. Qual o melhor dos seus vinhos? O melhor ainda está para ser feito.

(fecha parênteses)

Um dos homens mais ricos da Espanha, David Alvarez adquiriu a Bodega Vega-Sicilia em 1982 (a vinícola foi fundada em 1864) e colocou Pablo para cuidar do negócio. Ele mesmo declara em entrevista ao jornal The New York Times: “Meu pai comprou a Vega-Sicilia por que era a vinícola mais prestigiosa que havia na Espanha. Não fosse isso eu jamais teria entrado no mundo do vinho”. O profissionalismo que a família impôs à empresa é responsável por seu sucesso comercial ao redor do mundo. Um produto especial com uma estratégia comercial exemplar, mesmo com preços pouco amigáveis – o mais barato sai por 419 doletas, ver abaixo. A empresa exporta mais da metade de sua produção para mais de 11o países, entre eles o Brasil.

O Vega-Sicilia – um vinho para poucos – tem uma legião de seguidores no mundo, como os atores Kurt Russel e a atriz Goldie Hawn. O mais famoso aqui no Brasil é o Rei Roberto Carlos. É unanimidade entre os críticos. Para o inglês Michael Broadbent trata-se do “Lafite da Espanha”, Parker deu 99 pontos para as safras 1991, 1994 e 1998 do Vega-Sicilia Reserva Especial.

Vega Sicilia02

O Vega-Sicilia é uma instituição, um vinho de muita expressão, potência, elegância e longevidade. Seus disputados rótulos, no centro da discórdia, são os seguintes:

  • Vega-Sicilia Valbuena 5º Año Reserva 2006 (180.000 garrafas/ano – U$ 415);
  • Vega-Sicilia Único Gran Reserva 2003 (80 a 110.000 garrafas/ano – U$ 989),
  • Vega Sicilia e Único Reserva Especial (U$ 1066)

Todos os vinhos fazem parte do catálogo da Mistral (preço em dólar do dia).

Site oficial: http://www.vega-sicilia.com/

 

Autor: Tags: , ,

sexta-feira, 1 de agosto de 2014 Blog do vinho | 00:20

10 motivos para tomar vinho no inverno – e 10 vinhos para tornar o inverno mais quente

Compartilhe: Twitter

vinho-lareira

 E o frio chegou com tudo! Quem resiste a um vinhozinho com um tempo desses? Se você é do tipo  que precisa de alguma desculpa para isso, este blog  dá um empurrãozinho e lista 10 motivos para tomar vinho no inverno – acompanhado de dez dicas de rótulos:

1. O inverno é uma ótima ocasião para beber sem culpa aqueles vinhos potentes, escuros, complexos, com boa passagem na madeira, quase mastigáveis,  com aquela fruta em compota, intenso e longo. E sem ter de se justificar para aquele amigo esnobe que só aprecia tintos leves e orgânicos do velho mundo e torce o nariz para o topo de linha do novo mundo.

 

  • Cousino Macul – Lota Reserva Especial 2007 – para iniciar as dicas de inverno um peso-pesado (até o peso de sua garrafa é excessivo) da vinicultura chilena. Da tradicional família Cousino (150 anos de vinhos), um tintão que reúne potência e complexidade, frutas negras, e aquele não sei o quê de baunilha -16 meses descansando em barricas de carvalho e 18 meses na garrafa. Vinhão de respeito. Para arrebentar neste inverno. E namorar o fundo da taça. Importador: Santar

Leia também: Seis safras de três décadasa de um supervinho chileno: Don Melchor

2. Apreciar seu tinto na temperatura mais adequada. Você nem precisa ter uma adega climatizada em casa. Basta se livrar da cápsula, retirar a rolha e despejar o néctar na taça. Se precisar de um choque rápido de temperatura, deixe a garrafa do lado de fora da janela.

 

  • Finca las Moras – Gran Shiraz 3 Valleys 2009 – este encantador shiraz de três diferentes vales de uma região menos conhecida da Argentina, San Juan, é poderoso, longo, com uma fruta envolvente e especiarias. Para quem acha que Argentina só produz bons malbecs, este shiraz pode ser uma bela experiência invernal. Importador: Decanter

Leia também: 50 vinhos argentinos que vale a pena conhecer

 3. Chamar os amigos em casa para tomar uma garrafa de vinho e brindar a amizade – cada um traz a sua e todos compartilham a bebida.

 

  • Vallontano – Masi – Oriundi 2011 –  uma amizade também uniu a Itália e o Brasil nesta experiência de um vinho elaborado na Serra Gaúcha com a técnica do Vêneto, na Itália, de apassimento das uvas, a mesma usada nos amarones. As uvas são secas em caixas abertas e só depois passam para a fermentação. Este exemplar de terroir brasileiro e alma italiana é feito com as uvas tannat (70%), teroldego (15%), e vinhas velhas de corvina, recantina e turqueta (10%) e ancelotta (5%) – algumas delas bem desconhecidas e redescobertas nos vinhedos gaúchos. Se o vinho brilha na sua execução correta e num sabor que encanta, peca na pretensão do marketing, ao disputar o título de melhor vinho brasileiro. Pra quê, né? Basta ser bom e agradar. E agrada. Importador: Mistral

Leia também: Angelo Gaja, o porta-voz do vinho italiano de qualidade

4. Apreciar comidas pesadas, molhos densos e pratos elaborados, parceiros ideais para vinhos mais potentes. Clássico da harmonização, a compatibilidade por peso pode ser colocada à prova: pratos pesados pedem vinhos idem.

 

  •  Casa Ferreirinha- Vinha Grande 2010 – um clássico do Douro (Portugal), de uma vinícola clássica, elaborado só em safras excepcionais. Tradicional na seleção das uvas nos brinda com porções de touriga nacional, touriga francesa, tinta barroca e tinta Roriz. No nariz tem aquelas frutas maduras, a madeira está bem integrada ao caldo, e um final bem legal completam suas qualidades. Um vinho que cresce muito com o passar dos anos. Numa prova horizontal, de várias safras, de 1996 a 2010, os melhores rótulos foram os dos anos 2000 e 2007; de características diferentes, mostraram como o tempo beneficia os mais antigos e na entrada reforça a exuberância da fruta dos mais novos. Importador: Zahil

Leia também: 50 grandes vinhos de Portugal e algumas escolhas pessoais

5. Carne & vinho & lenha & brasa. Quer combinação mais adequada para uma noite ideal de inverno? Cenário de revista de decoração, foto que ilustra este poat. Não é à toa. Existe harmonização de ambiente também e o vinho é o toque de classe.

 

  • Dal Pizzol – Dal Pizzol 40 Anos –para celebrar seus quarenta anos a vinícola brasileira Dal Pizzol produziu 3.520 garrafas de um lote único de um assemblage de quatro variedades da safra de 2012: merlot (40%), cabernet sauvignon (30%), tannat (15%) e nebbiolo (15%). A Dal Pizzol tem uma identidade no sabor e nos aromas de seus vinhos, uma espécie de impressão digital de seus caldos que revelam a autoria. Neste exemplar premium e comemorativo, a mescla das uvas rende um vinho potente, com boas frutas, um toque de couro, terroso e uma carga boa de concentração tânica. Vinícola: Dal Pizzol

Leia também: Os rótulos da Aurora: vinhos nacionais corretos, saborosos  e acessíveis 

 6. Viver – ou reviver – uma noite romântica. Ninguém nega: o vinho é uma bebida sedutora. Abra uma bela garrafa em casa e a vida se transforma. Já as chances de um convite para um vinho no inverno ser aceita é proporcionalmente maior do que no verão. E melhor, não soa falso, afinal… inverno, um vinhozinho, quem resiste?

 

  • Bueno-Cipresso – Brunello de Montalcino 2007 – um tinto maduro e com taninos bem acentuados. Um clássico com 100% da uva sangiovese grosso, sob a batuta do enólogo Roberto Cipresso, em parceria com ele mesmo, Galvão Bueno, que é sócio desta produção da região de Montalcino, na Toscana. E se é para seduzir, nada com um vinho italiano. E se no Oriundi (acima)  temos um italiano em terras gaúchas aqui temos a assinatura de um brasileiro em terras da Toscana. Importadora: Bueno Wines

Leia também: Galvão Bueno também torce para a Itália, pode isso Arnaldo?

7. Vinhos fortificados e doces são ótimas companhias de entrada e de saída nas refeições no inverno. E companhia da noite inteira do bom papo. E para quem aprecia, do charuto.

 

  •  Nederburg Winemaster’s Reserve Noble Late Harvest 2011. Um porto,  um  Twany, com aqueles aromas evoluídos, e untuosidade, classudo, talvez seja a sugestão mais óbvia. Mas um colheita tardia (que é a traducão de Late Harvest) da África do Sul tem lá o seu charme. É um vinho de sobremesa bastante doce (220 gramas por litro), mas com uma acidez que segura este melaço todo. As uvas brancas chenin blanc (60%), weisser riesling (27%) e muscat (13%) são colhidas tardiamente, próximo do estado de uva passa, ou seja com maior concentração de açúcar natural. Linda cor dourada, muito aromático, flores, abacaxi em compota, mel. Importador: Casa Flora.

Leia também: Conheça os vários tipos de vinhos do Porto

 8. É tempo de aproveitar as ofertas da estação. O inverno é o Natal do comércio de vinhos. As vendas aumentam, as ofertas pipocam para todo lado e os supermercados atraem seus clientes com ofertas de vinhos do dia a dia e de preço médio. Afinal, vinho todo dia requer planejamento financeiro, para completar o mês.

 

  • Luis Felipe Edwards – Family Selection Gran Reserva Carmenère 2012 –  alguns dos tintos indicados aqui são para ocasiões especiais e carteiras mais forradas. Tradução, não são muito baratos. Mas há aquelas que são chamados de boa relação custo-qualidade. Este Luis Felipe Edwards Gran Reserve – encontrado exclusivamente na rede Pão de Açúcar – é um tinto correto, com passagem de 12 meses em barricas (dá para notar), com corpo médio, muita fruta na boca e no nariz e especiarias. Fácil de gostar e bem feito como toda linha Luis Felipe.

Leia também: O dia em que a carmenère avinagrou a tempranillo

 9. Aproveitar a hora do almoço para tomar uma tacinha. Taí sua chance, e não é algo que cause espanto!  Principalmente nestes tediosos tempos politicamente corretos – onde os sucos naturais ganham as mesas nos almoços executivos (argh!). Nem o seu chefe vai fazer cara de reprovação.

 

  •  Bodega Septima – Septima Gran Reserva 2009 – ok, vamos nos render também à malbec argentina, mas tanto melhor se vier misturada a pitadas de outras variedades. Este tinto perfumado, encorpado, com frutas em compota deliciosas, vai melhorando na taça e chega até um chocolate e café no fundo da taça. A malbec (55%) vem das regiões de Altamira e Luján de Cuyo, e a cabernet sauvignon (35%) e tannat (10%) de Luján de Cuyo. Ótima companhia para um grelhado. Importador: Interfood

Leia também: Você conhece vinho argentino? Um passeio pelas regiões vinícolas da Argentina 

 10. Mandar a dieta paras as favas. Por que vamos combinar que fazer dieta no inverno é a treva, e o vinho vira um parceiro infalível e sem culpa de ser feliz.

 

  •  Solera 1847 Jerez Oloroso – como o inverno dá mais oportunidades ter um vinho como companhia, por que não sair do lugar comum e provar rótulos diferenciados e pouco comuns, como um Jerez? Há várias estilos de Jerez, do seco e salgado ao doce. Este se encaixa neste último estilo, um Jerez fortificado (tem adição de aguardente vínica) elaborado com as uvas palomino fino (70%) e pedro ximénez (25%). Ideal para acompanhar doces e chocolates, é um vinho doce, denso, caudaloso e com bom final. E que se dane o regine. Importador: Inovinni

Leia também: Bacalhau e vinho: tinto ou branco?

Fala a verdade, você precisa mesmo de dez motivos para desarolhar um vinho neste – e em outros – invernos? Se sim, e nenhum das razões listadas acima te convence, invente a sua desculpa.

 

Autor: Tags: , , , , , , , , , ,

quinta-feira, 19 de junho de 2014 Novo Mundo, Tintos, Velho Mundo | 14:23

O dia em que a carménère avinagrou a tempranillo

Compartilhe: Twitter
Gol do Chile e ressaca da seleção espanhola.

Gol do Chile e ressaca da seleção espanhola. Foto AP

Você deve ter visto, ou lido, a humilhação que seleção do Chile impingiu ao time da Espanha ontem (dia 18), não? Um 2 x 0 que eliminou a seleção campeã da Copa de 2010 no segundo jogo da primeira fase da Copa do Mundo do Brasil. No dia em que o Rei Juan Carlos abdicou do trono, parece que o time espanhol abdicou também das glórias do passado. #NãoVaiTerCopa para a Espanha!

Tá. Mas o que isso tem a ver com uma coluna de vinhos?

Bão, além de ser uma oportunidade de o Blog surfar no tema da copa, traz uma analogia que cabe neste espaço. O embate no campo de futebol pode ser transportado para o terroir dos vinhedos, onde disputam a carménère, a uva símbolo dos vinhedos chilenos, e a tempranillo, cultivada amplamente na Espanha.

A tempranillo, em espanhol, significa prematuro, ou seja, uma uva que amadurece antes das outras tintas. Assim, amadurece na primeira fase e não vai até o final, por exemplo….Recebe outros nomes na Espanha: tinto fino, tinta del país, tinta toro e ull de llebre. Em Portugal também atende pelo nome de tinta roriz (no Douro e Dão) e agaronês (no Alentejo). Sinônimo de vinho de qualidade nas regiões de Ribera del Duero e Rioja, e em boa parte da Espanha, produz rótulos estrelados e caros, como aquele reunido pela seleção espanhola: o mítico Vega-Sicilia  Único, o Aalto, Marquês de Riscal, Viña Ardanza, Pesquera, Pingus, Bodegas Mauro e a lista segue grande. É uma uva que cresce quando envelhecida em barricas de carvalho americano, sugere tintos com muita frutas maduras, aromas de coco, baunilha, tostados e um baita potencial de envelhecimento – e uma legião de fãs.

Leia também: A Família Vega-Sicilia 

A carménère, de origem francesa, mas atualmente pouco cultivada em Bordeaux, seu berço primário, encontrou no solo chileno um terroir para chamar de seu. Seu nome vem da cor da casca, carmim, que colore o vinho com a mesma matiz. A história é conhecida, mas vale contar aqui. A carménère era confundida com a merlot, até quem em 1994 um exame de DNA confirmou a paternidade. Aí o marketing chileno caiu matando e tornou esta como sua uva símbolo, mesmo que raramente produza os melhores caldos do país e também seja apenas a terceira uva mais plantada, atrás da cabernet sauvignon e da merlot. Melhor quando usada em corte com outras uvas, aos poucos vem encontrando seu canto à capela e já exibe alguns varietais excelentes, principalmente aqueles provenientes da região de Peumo, no Vale do Cachapoal. Em uma seleção vitoriosa de varietais (vinhos elaborados como apenas uma única uva)  é obrigatório  constar: Carmín de Peumo, da Concha y Toro, Terrunyo, da mesma vinícola, Herência, da Santa Carolina e Pehuén, da Santa Rita.

Leia também: Vinhateiros Independentes do Chile: pequenas vinícolas, grandes vinhos

Leia também: Felipe Toso, o “cozinheiro” dos vinhos chilenos Grey, comemora dez safras, explora novos terrenos e lança rótulos

 

 Tempranillo X Carménère

A disputa é muito parecida com a das seleções da Espanha e do Chile. Velho Mundo X Novo Mundo. Tradição X Novo. Campeão X Promessa. Se a tempranillo amadurece mais cedo, como sugere o nome, a carmenénère alcança seus melhores dias mais tarde do que outras tintas, como a merlot, por exemplo, com a qual era confundida (e por isso mesmo anos atrás revelava muitos traços vegetais e verdes). Na taça elas são muito diferentes. O brasileiro se acostumou com o sabor da carménère, é um tinto mais fácil de beber, macio, às vezes com toques de ervas, uma pimenta negra e amoras. A tempranillo da linha mais básica apresenta tintos  estruturados, macios e não  tão potentes como seus colegas envelhecidos por longo tempo em barricas de carvalho. Depende muito da ocasião, da comida, e da qualidade da vinícola obviamente, para um chileno ser melhor que um espanhol ou vice-versa. Mas ambos merecem estar classificados numa copa de vinhos.

Mas estamos falando de seleções, aqui. Dos melhores do mundo.

Carmín-de-Peumo-05-cópia

E colocar numa disputa no campo dos vinhedos um Vega-Sicilia e um Carmín de Peumo, por exemplo, é algo fora de propósito. Quase uma sacanagem. E claro uma provocação deste colunista. O Vega-Sicilia é uma instituição, um vinho de muita expressão, potência, elegância e longevidade e um copo cheio para aqueles que adoram enfileirar descrições de aromas e sabores percebidos (ou inventados). O Carmín de Peumo é um vinho excelente, merece sempre altas notas dos críticos e já tem uma legião de apreciadores que apostam na evolução de suas garrafas. Mas é outra pegada. Outro estilo de jogo, talvez surpreenda desde o primeiro minuto, pois já entra pronto para jogar. Um Vega-Sicilia está mais para um jogo que precisa de aquecimento e um campeonato mais longo para mostrar seu valor.

Vega Sicilia02Mas há sempre uma chance de uma disputa entre um top tempranillo, estrelado como uma seleção espanhola, ser eliminado por um carménère de alto coturno, mesmo se avaliado pelos paladares mais exigentes. Uma garrafa bouchonée, ou mesmo avinagrada, onde a qualidade se esvai, o aroma desagrada e o sabor decepciona pode derrubar qualquer ícone. Acontece nos melhores rótulos. E, pelo visto, com as melhores seleções. Chi-chi-chi le-le-le!

Leia também: Bouchonée, o vinho Tiririca. Pior que está, fica

Agradeço ao colunista Silvestre Tavares Gonçalves, do Blog Vivendo a Vida, que começou esta provocação num post de seu Facebook, e me inspirou a criar o título e a cometer este texto.

 

Autor: Tags: , , , ,

domingo, 1 de junho de 2014 Nacionais, Tintos, Velho Mundo | 21:28

Vinho nacional pode ser caro?

Compartilhe: Twitter

Dez entre dez especialistas de vinho reconhecem que a qualidade dos vinhos brasileiros vem aumentando e – principalmente – se diversificando. Hoje temos experiências em diferentes regiões do país, e o mapa de produção inclui latitudes inimagináveis tempos atrás como Minas Gerais, Goiás e Pernambuco.  Santa Catarina, com seus vinhos de altitude, mostram caldos de valor, além é claro do Rio Grande do Sul, avançando cada vez mais para os terrenos mais próximos da fronteira com o Uruguai. Também há experiências com diferentes variedades de uvas, métodos, cultivos orgânicos, biodinâmicos, pequenas parcelas, produtores experimentais e diferentes concepções de espumantes.

Leia também:  Primeira Estrada: vinho fino de Minas Gerais abre caminho para rótulos do Sudeste do Brasil

Leia também: Conheça os vinhos do sertão de Amores Roubados

Dez entre dez especialistas também são unânimes em bater na mesma tecla. O preço. O vinho nacional é muito caro, dizem, e muitas vezes também digo. Seguido do preconceituoso axioma “Para um vinho nacional até que é bom”, junta-se o “Por este preço eu tomava um bom vinho italiano ou argentino”, por exemplo. Será que esta máxima é sempre válida? Então vou contar uma historinha recente.

Leia também: O Merlot brasileiro é o melhor do mundo?

Prova às cegas: nove homens e nove sangioveses

Prova às cegas: nove homens e nove sangioveses

Um grupo de degustação do mais alto gabarito do qual tenho a honra de participar promoveu recentemente uma prova às cegas – para quem é novo aqui eu explico, trata-se de uma degustação na qual os rótulos são revelados apenas no final, para não influenciar a avaliação – cujo tema era a uva italiana sangiovese. A sangiovese é a uva-símbolo da Toscana, responsável pelo vinho Chianti, Chianti Riserva, Chianti Classico, o Brunello di Montalcino e também parte da receita de alguns supertoscanos, onde a sangioveses é misturada às internacionais cabernet sauvignon ou merlot. A sangiovese é, enfim, uma  uva que fala italiano, e tem sotaque dos habitantes da Toscana!

Leia também: Galvão Bueno também torce pela Itália, pode isso Arnaldo?

Nove participantes marcaram presença e a mesa do restaurante escolhido exibia nove taças dos tintos na frente de cada degustador, para espanto dos demais clientes do estabelecimento que contornavam a mesa de olhos arregalados. O nível dos goles estava excepcional. Alguns caldos se destacavam dos demais,  eclipsando seus concorrentes, pois apresentavam maior talento para desenvolver aromas e sabores deliciosos, sempre escoltados por uma acidez característica. Alguns incautos arriscavam um palpite, este aqui trata-se de um Chianti, aquele tem uma pegada mais concentrada, pode ser um Brunello. E por aí vai. É um grupo que reveza comentários mundanos com pitacos sobre a bebida. Rodada de goles completa, anotações feitas, pontuação finalizada, os rótulos começam a ser revelados, dos menos apreciados aos mais votados.

Vale destacar que entre os bebedores sempre há um provocador que resolve levar um curinga, que geralmente é um vinho que obedece o critério do tema e/ou país e região mas é uma surpresa pelo preço, pelo produtor, pela região ou mesmo pela uva. Nosso grupo não foge à regra e um doutor renomado cumpre este papel. Dito isso, voltemos ao rótulos. O grande vencedor (as notas não foram todas compiladas) foi um Ceparello, Isole e Olena do ano 2000, um toscano mais evoluído, com grande expressão em boca e aromas muito elegantes.  A lista completa está abaixo.

  • Col D’Orcia, Brunello di Montalcino, 1991
  • Fontalloro, 2008, Toscana
  • Le Potazzine, Gorelli 2011, Rosso di Montalcino
  • Fonterutoli, Mazzei, 2009, Chianti Classico
  • Berandenga, 2008, Fèlsina, Chianti Classico
  • Badia a Passignano, 2008, Antinori, Chianti Classico
  • Cepparello 2009, Isole e Olena, IGT
  • Michelli, 2003, Villa Francioni, Brasil
  • Cepparello 2000, Isole e Olena, IGT
As garrafas devidamente esvaziadas. Oito italianos e um infiltrado brasileiro

As garrafas devidamente esvaziadas. Oito italianos e um infiltrado brasileiro

Leia também: Sob o sol da Toscana, uma visita à nova vinícola de Antinori

Se você leu a lista com atencão, já reparou uma intromissão. Pois é,  a grande surpresa, um dos vinhos que ficou entre o segundo e terceiro rótulos mais apreciados pelo coletivo, ombreado por outros sangiovese importados da Itália, foi o Michelli, da Villa Francioni, que apesar do nome é um tinto verde-amarelo de Santa Catarina. Surpresa na mesa (para ser honesto um dos integrantes da mesa não gostou do vinho). Confesso que foi meu segundo melhor vinho, entre as tais nove garrafas. Bom salientar que ele é 80% sangiovese, o restante cabernet sauvignon e merlot. Belo vinho, equilibrado, muito saboroso. Sangiovese brasileiro, mas com sotaque italiano. Bom pra caramba, belo!

Você pagaria mais de 250 reis por este vinho nacional?

Você pagaria  250 reis por este vinho nacional?

E 450 reais por este italiano?

E 450 reais por este vinho italiano da mesma uva sangiovese?

Diante da incredulidade de alguns veio a questão do preço: “mas quanto custa?” É um vinho de mais de 250 reais. O quêêêêê?!?! Um vinho nacional custando mais de 250 reais?!?!?! Pois é, mas às cegas foi elogiado por todos, bebido com rigor e prazer. O que nos  permite uma reflexão, que é mais uma provocação e nos remete ao título deste post: vinho nacional pode ser caro? Por que não? O que vale não é o teste da taça? Se é um vinho bom, de produção limitada, ótima qualidade, qual o problema de ser caro? Apenas por que é brasileiro? Se fosse italiano, de mesmo preço, portanto caro, não seria bom seguindo apenas um critério gustativo? Alguém iria reclamar do preço se o Michelli fosse um rótulo do Antinori? Basta comparar que o mesmo Cepparello Isole e Olena, este da safra de 2009, estava à mesa, custa 450 reais, e ficou atrás do Michelli…

Leia também: Angelo Gaja, o porta-voz do vinho de qualidade

Leia também: Espumantes e tintos – conheça os vinhos do sertão de Amores Roubados

Esta mesma discussão vale para vários bons exemplares nacionais de baixa produção, excepcional qualidade, que podem vir de pequenos e audaciosos  produtores como Marco Danielle, Era dos Ventos, Domínio Vicari ou mesmo grandes vinícolas, em safras excepcionais ou selos comemorativos. Não se trata de defender preços altos, nem de ter uma postura ingênua. Eu duvido que desembolsaria 250 reais pelo Michelli se não conhecesse, como raramente desembolso 250 reais por uma garrafa de vinho qualquer.  Há vinhos realmente muito caros pelo que oferecem: nacionais e importados. A questão é mais de poscionamento. Quando é bom e é importado então vale pagar caro? É bom, mas é nacional, então não vale? Qual a régua para medir a relação preço e qualidade: a bandeira ou o vinho? Fica aqui a provocação. Atire a primeira garrafa quem nunca parou para refletir sobre o assunto…

Leia também: Marco Danielle: da Tormenta ao Preludio

Autor: Tags: , , , , , , ,

segunda-feira, 7 de abril de 2014 Novo Mundo, ViG | 08:31

50 vinhos argentinos que vale a pena conhecer. Parte 4. Vinhos de Mendoza sem malbec

Compartilhe: Twitter

Você gosta de malbecs argentinos, de Mendoza? Ok, temos uma coluna só sobre isso. Malbecs de outras regiões, como Salta e Patagônia também podem ser encontados neste post aqui, é só clicar. Há recomedações também para quem aprecia  a malbec misturada a outras uvas. Mas nesta quarta e última parte da série de 50 vinhos saborosos da Argentina que vale a pena conhecer, as dicas são de vinhos de Mendoza em que a  uva malbec é deixada de lado. São vinhos produzidos com outras uvas. Para mim, as melhores surpresas de uma viagem à Argentina para explorar um pouco mais o universo dos tintos (mais esses) e brancos do país.

Atenção, não é uma lista dos melhores vinhos da Argentina, mas uma seleção da rica amostra de tintos e brancos que provei em uma semana em viagem por lá. Trata-se, como só pode ser, de uma seleção pessoal.

Região de Mendoza – varietais de outras uvas

80% da produção de vinhos da Argentina está concentrada nos vales de Mendoza, limítrofes à Cordilheira dos Andes. Apesar da fama – justa – da malbec, muitas outras variedades são plantadas aqui com excelente resultado. Esta lista mostra algumas delas que resultam em vinhos varietais de respeito, deliciosos e que expressam o potencial de cada uva. O meu destaque fica por conta da cabernet franc (a variedade que mais cresce) e da cabernet sauvignon. Mas há surpresas, como uma boa branca verdelho, outra viognier, dois syrah explêndidos e outras experiências. Diversidade é a palavra do vinho.

 

Numina-Cabernet-Franc-2011

40 Numina Cabernet Franc

Bodegas Salentein

Região: Vale do Uco

Site oficial: http://www.bodegassalentein.com/

Uva: abernet franc

Importador: Zahil

R$ (entre 20 e 30 dólares na Argentina)

 Voz do vinho: grande vencedor da AWA (Argentina Wine Awards) 2014 na categoria cabernet franc de 20 a 30 dólares, lá na Argentina. Tem uma característica da fruta de Mendoza, que é um toque defumado, um boa doçura de taninos, além de especiarias e frutinhas vermelhas.

Por que escolhi: bom representante da qualidade do cabernet franc argentino

 

largardecabfranc41 Lagarde Cabernet Franc 2011

Bodega Lagarde

Região: Luján de Cuyo, Mendoza

Site oficial: www.lagarde.com.ar

Uva: cabernet franc

Importador: DeVinum

R$ 80,00

Voz do vinho: aroma intenso de geleia de frutas vermelhas, notas de eucalipto, herbáceas e o mesmo toque defumado que caracteriza o Numina. doce, suavidade cativante. Tem um final longo e persistente.

Por que escolhi: bela presença em boca

 

CAsarenaCabernetFranc42 Casarena Single Vineyard Cabernet Franc 2011

Casarena Bodega y Viñedos

Região: Agrelo, Luján de Cuyo

Site oficial: www.casarena.com

Uva: cabernet franc

Importador: Magnum

R$ 130,00

A voz do vinho: quem acompanhou esta série de indicações da Argentina percebeu uma certa queda pelos rótulos da Casarena, da Pascual Toso e da Lagarde. Mais uma vez o cuidado do jovem enólogo Bernardo Bossi Bonilla se traduz neste cabernet franc de grande estrutura, potência, com a fruta (amoras) e o toque herbáceo em perfeita comunhão e que se beneficiam do tempo em barrica francesa (18 meses).

Por que escolhi: por que eu quero insistir na tecla da cabernet franc argentina de boa qualidade

 

Tomero-petit-verdot43 Tomero Petit Verdot 2011

Vistalba

Região; Luján de Cuyo

Site oficial: http://www.carlospulentawines.com/

Uva:  petit verdot

Importador: Domno Brasil

R$ 90,00

A voz do vinho: linha varietal da Bodega Vistalba, que também tem ótimos vinhos de corte, denominados de Corte A, B e C. Aqui a petit verdot se destaca por frutas vermelhas marcantes acrescidas de um eucalipto aparecidinho. Bem macio e doce na entrada, um bom corpo e um belo final.

Por que escolhi: por ser um varietal agradável de petit verdot

 

La_Espera_Syrah44 La Espera Reserva Syrah 2007

Funckenhausen Vineyards

Região: San Rafael, Mendoza

Site oficial: www.funckenhausen.com

Uva: syrah

Sem importador no Brasil

A voz do vinho:  envolvido em negócios marítimos, o alemão Kurt Hienlein aos 74 anos resolveu investir em seu sonho e adquire um vinhedo em Mendoza. Seu objetivo é montar uma vinícola butique, com vinhos de alta qualidade e expressão. Este trabalho do tempo que o vinhedo exige, combinado ao tempo que aguardou para investir em vinhos se traduz no poético rótulo que mostra um banco vazio e representa graficamente o nome do vinho: La Espera. O clima mais frio da região de San Raphael permitiu uma ótima maturação da syrah e a variedade revela suas características de potência, corpo e especiarias com grande elegância e persistência. Passa 12 meses na barrica. Safra de 2007, com mais alguns anos de maturação na garrafa. Mais uma espera, antes de ir para a taça. Um vinho para se decantar e conhecer aos poucos.

Por que escolhi: um vinho que encanta o paladar e um rótulo que encanta os olhos

 

Argento45  Argento 2013 

Bodega Argento

Região: Maipú

Site oficial: http://www.argentowine.com/pt/

Uva: bonarda

Importador: Domno

R$ 25,00

A voz do vinho: um bonarda fresco, jovem e fácil de beber, doce na entrada e com uma boa  fruta

Por que escolhi: tinha de selecionar um bonarda, não? Preferi este de caráter mais jovem e fácil de gostar, de encontrar e com ótimo preço

 

 

PAscualTosoALtaSyrah

46. Pascual Toso Alta Reserva  Syrah 2012

Pascual Toso

Região: Maipu, Mendoza

Site oficial: www.bodegastoso.com.ar

Uva: syrah

Importador: Vinoteca Dibeal Brasil CIEBA

R$ 100,00

A voz do vinho: Pascual Toso Alto Reserva é o vinho argentino mais vendido, em valor, no exigente mercado japonês. A grife do enólogo americano Paul Hobs ajuda um pouco, mas vamos combinar que o homem entrega. Este syrah de solo pedregoso interage por 24 meses em barricas de carvalho o que lhe aporta uma fruta madura, uma potência importante e envolventes notas de especiarias, revelando um tinto de classe e vigoroso. Trata-se da primeira safra da linha Alta Reserva. Começou arrasando. Quem disse que o papel dos consultores é sempre nocivo para o vinho e sua identidade, hein, Jonathan Nossiter?

Por que escolhi: apesar de seu colega cabernet sauvigon da linha Alto Reserva também impressionar este syrah arrasou no vigor da uva

 

SeptimaCS47. Septima Obra Cabernet Sauvignon 2012

Bodega Septima

Região: Luján de Cuyo e Tunuyán

Site official: http://www.bodegaseptima.com/

Uva: cabernet sauvignon

Importador: Interfood

R$ 115,00

Voz do vinho: cria do grupo Cordoniu, a Bodega Septima é comandada por enólogas mulheres. O cabernet sauvignon passa  10 meses por barricas de segundo uso francesas e americanas, que aporta um café com leite, baunilha e notas tostadas (quase um café da manhã, não?). Tem uma boca ampla, gostosa onde se destacam aquelas frutas vermelhas como cerejas e o defumado percebido no nariz.

Por que eu escolhi: cabernet sauvignon saboroso e bem feito argentino

 

IMG_253948 Lagarde Viognier 2013

Bodega Lagarde

Região: Luján de Cuyo, Mendoza

Site oficial: www.lagarde.com.ar

Uva: viognier

Importador: DeVinum

R$ 46,00

A voz do vinho: um vinho é um vinho e seu contexto. Este expressivo, refrescante e untuoso viognier eu provei numa sacada à beira de um vinhedo nas franjas da cordilheira dos Andes. Seus aromas de flores eram delicados e não carregados como costuma apresentar a viognier do novo mundo. E a acidez dava uma bela sensação de frescor.

Por que escolhi: delicioso para bebericar sem compromisso, ou com compromisso pelo prazer.

 

Verdelho

49 Cristóbal 1492 Verdelho 2013

Don Cristóbal

Região: Rivadavia, Mendoza

Site oficial: www.doncristobal.com.ar

Uva: verdelho

R$ 30,00 a R$ 35,00

A voz do vinho: ora pois, o que a uva nativa da Ilha da Madeira, em Portugal, vem fazer aqui nos vinhedos argentinos? O resultado é bem interesse é merece ser provado. Aromático, fresco, com ampla acidez, e com uma untuosidade gostosa.

Por que escolhi: por que até um argentino pode arriscar um fado de vez em quando

 

Chardonnaypenedo50 Chardonnay Reserva 2012

Otaviano Bodega & Viñedos

Região: Luján de Cuyo, Mendoza

Site official: www.bodegaotaviano.com

Uva: chardonnay

R$ 45,00

A voz do vinho: para quem aprecia um estilo de chardonnay mais potente, exibido, este é uma boa pedida e por um bom preço. Tem notas doces de abacaxi em compota, as contribuições da barrica são a presence de caramelo e baunilha, além do tostado. Um vinho bem untuoso e de um chardonnay novo mundo

Por que escolhi: bom exemplo de um certo estilo de chardonnay

 

Preços coletados em abril de 2014

Declaração: Este colunista esteve na Argentina a convite da Wines of Argentina, onde provou 228 vinhos, visitou várias vinícolas e teve contato com dezenas de produtores. Desta boca-livre resultou o texto produzido neste post sobre os vinhos argentinos.

Autor: Tags: , , , , ,

  1. Primeira
  2. 2
  3. 3
  4. 4
  5. 5
  6. 6
  7. 10
  8. 20
  9. Última