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sexta-feira, 28 de novembro de 2014 Degustação, Tintos, Velho Mundo | 12:34

Vinhos da Borgonha, no céu e na terra

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Gevrey-Chambertin da Domaine Armand Rousseau: joias raras

Gevrey-Chambertin da Domaine Armand Rousseau 2009 e 2008: o paraíso é aqui

Proibido na terra o vinho é uma das promessas do paraíso muçulmano. É descrito no Alcorão como “Branco, delicioso para quem o bebe, livre de intoxicantes e, com ele, não se embriagarão” (Alcorão 37:46-47). Não sei qual a graça deste vinho sem álcool, mas no meu paraíso particular, o vinho também seria contemplado, e se precisasse escolher apenas uma região – o que na teoria seria uma contradição, já que estaria no paraíso, né? – seria a Borgonha. Então, cada vez que tenho a oportunidade de provar rótulos realmente representativos desta região da França, um pedacinho do paraíso se realiza em vida. Foi o que aconteceu esta semana, quando fui convidado para uma degustação exclusiva de tintos e brancos de alta patente da Borgonha (ou Bourgogne, para os puristas).

A Borgonha é grande e é pequena. Grande por que produz os pinot noirs e chardonnays mais encantadores do planeta. Pequena por que ocupa apenas 3% de todos vinhedos plantados na França. Está localizada há duas horas de Paris e é fragmentada por natureza e por uma decisão de Napoleão Bonaparte, que dividiu grandes propriedades da Igreja em pequenas parcelas que foram subdivididas por heranças ao longo do tempo. Uma imagem possível para descrever o mapa da Borgonha é um vitral, ou uma colcha de retalhos. A parte mais importante, de onde vêm os melhores vinhos, é a Côte d’Or, que é dividida entre a parte sul (Côte de Beaune) e a parte norte (Côte de Nuits). A partir daí surgem as apelações, as comunas e os vinhedos com suas distintas personalidades e proprietários. E para piorar a algaravia de nomes, diversos produtores têm pequenos lotes espalhados por toda a Côte. Para se ter uma ideia, a apelação Clos Vougeot tem 50 hectares divididos entres mais de 90 produtores. Se fosse um “bread crumb”, aquelas sinalizações no alto de uma página de internet que indicam o caminho percorrido pelas navegação do usuário, seria algo assim: França->Borgonha->Côte d’Or->Côte de Nuits->Clos Vougeot->Produtor->classificação de vinhedo (grand cru, premier cru etc). Difícil – e inútil – decorar todas apelações e descrevê-las aqui. Eu confesso que tenho sempre de recorrer aos livros e à internet. Quem realmente domina a região não precisa disso, quem não conhece vai achar enfadonho e esquecer tudo no parágrafo seguinte. Para aqueles que quiserem se aprofundar em todos os detalhes da Borgonha o site Bourgognes é bastante útil.

Por conta destas características que unem qualidade, pequena produção e muita procura, a comercialização destes vinhos é outra particularidade da Borgonha que tem entre tantos ícones, talvez a vinícola mais cultuada do planeta, a Domaine de La Romanée-Conti. A distribuição, ou realocação, é uma batalha travada pelos importadores de todo país que é agraciado, após muita negociação e espera, com algumas poucas garrafas de determinado rótulo. É uma distribuição pontual e global. Quando se fala em poucas garrafas, não é exagero, às vezes 12 garrafas de um grand cru (o topo da cadeia alimentar da classificação da Borgonha) são exportadas para um país. Resultado: são vinhos caros, caríssimos, o que aumenta a mística em torno destes caldos que passam a ser objeto de desejo de quem gosta muito de vinho ou de quem gosta muita de ostentação, ou de ambos.

 Para um importador se não chega a ser um grande negócio é sempre sinônimo de qualificação ter rótulo bacanas de produtores de renome da Borgonha no catálogo. E talvez uma satisfação pessoal. Para os produtores, que têm a venda mundial praticamente garantida, trata-se de uma estratégia. “Para eles é mais importante ter o produto espalhado e cultuado em diversos países por todo o mundo do que concentrado em um único lugar”, esclarece Raphael Zanette, proprietário da Magum Importadora, que tem entre seus produtores pequenas joias como Arnoux Lachaux, Domaine Dujac e Armand Rousseau. Foram rótulos destes senhores que me inspiraram este post. Os preços, que provocam em geral um olhar de espanto seguido de um sorriso amarelo, são consequência do que foi relatado no parágrafo anterior somado ao custo Brasil.

Só existe Borgonha inacessível? Não, há as classificações mais básicas, como os Regionais e Village, vinhos realmente de entrada, de cor mais rala, pouca persistência e que podem até decepcionar quem espera encontrar na taça um líquido em forma de poesia. Por isso, é importante o nome do produtor que garante uma qualidade mínima ao vinho desde a linha básica e também o entendimento que há vários estilos de vinhos na região, como em todas do mundo, aliás.

De modo geral a pinot noir apresenta uma coloração de clara para média, são típicos aromas de cereja, framboesa, flores e algo de caça e terroso (húmus). Os mais evoluídos são uma viagem sensorial com várias camadas e variações de aromas e sabores. A pinot noir é tão típica e diferenciada que na minha opinião o melhor descritivo seria: tem gosto e aroma de pinot noir. Afinal, as coisas não têm um gosto que as represente?

Dos dez rótulos bebidos – ninguém ousou cuspir desta vez -, destaco cinco tintos que de alguma forma me encantaram mais e mostraram mais uma vez o que é que a Borgonha tem, tem pinot noir como ninguém.

Aloxe-Corton Domaine Tollot-Beaut 2009

R$ 375,00

Diante de um painel estrelado, o tinto de melhor custo-benefício, se é que cabe o termo aqui. Localizado em Chorey, é comandado pela quinta geração de uma família que está há mais de 100 anos fazendo vinhos. Correto, frutado, com boa expressão de aromas e boa estrutura. Tem um bom ataque e bela persistência. Isolado dos outros faz o maior sucesso.

Morey-Saint-Denis Domaine Dujac 2011

R$ 475,00

Entre os entendidos de Borgonha no Brasil, a Domaine Dujac é uma vinícola conhecida e que teve um trabalho importante de divulgacão anteriormente em outra importadora. Diante dos vizinhos ancestrais é uma produtora relativamente recente, fundada em 1967 por Jacques Dujac. Ironia ou não a atual enóloga responsável é uma americana, Diana Snowden Seysses, casada com Jeremy Dujac, filho de Jacques. Desde 1986 promove-se a conversão dos vinhedos para cultivo orgânico. Foi tinto mais terroso de todos – toque que apareceu também no Morey-Saint-Dennis Domaine Dujac 1er Cru 2011 (R$ 860,00) -, que deu maior pinta de orgânico e com um intensidade bem bacana.

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 Gevrey-Chambertain Domaine Armand Rousseau 2008

R$ 620,00

Gevrey-Chambertain 1cru Clos Saint Jacques Armand Rousseau 2009

R$ 1.900,00

Meu vinho preferido entre todos foi Gevrey-Chambertain Domaine Armand Rousseau 2008, vejam que modesto que sou (comparado a outros preços). Na família desde o início do século XX a propriedade comandada pela terceira geração iniciou em 1982 um processo de direcionamento dos vinhedos para a viticultura orgânica, com a menor intervenção possível. O safra 2008 era o mais exibido e intenso. Elegante nos aromas frutas e flores, fino na boca, licor de cereja, defumados, champigon. O Gevrey-Chambertain, em um painel de borgonhas, costuma ser um vinho mais potente, juntando estrutura e elegância. Este aqui mostrou tudo isso. Seu parente mais caro é igualmente bom, mas além da diferença de preço, havia uma diferença de paladar que conquistou a todos presentes (único vinho que teve a garrafa toda esvaziada). Papai Noel, se estiver precisando de uma dica para este escrevinhador…

Romanée-Saint-Vivant Grand Cru Domaine Arnoux-Lachaux 2007

R$ 3.300,00

Olha a colcha de retalhos aqui: com 13 hectares localizados em 14 apelações da Côte de Nuits, esta vinícola é obra de Pascal Lachaux e Robert Arnoux, que são respectivamente genro e sogro. Eles juntaram seus conhecimentos e afinidades para produzir tintos de excelente padrão e alta gama. Os vinhedos deste exemplar aqui são vizinhos do Romanée-Conti. Quem compra um vinho de R$ 3.300,00? Não sei, mas o que se avalia aqui é a qualidade, a tipicidade e o encanto que um caldo desses é capaz de proporcionar. E não o preço, se não nem começava a escrever. E este mostra tudo isso. Todos os “ades” possíveis: complexidade, intensidade, longevidade e tipicidade da pinot noir. São produzidos de 5 a 6 barricas por ano deste vinho. Um grand cru deste naipe é um tinto de guarda, como recomenda o produtor – deve ser fenomenal com mais de 20 anos. Mas não sei se estarei vivo até lá. É o chamado vinho para otimistas, que apostam em uma vida longeva.

 Curioso este fascínio que a Borgonha exerce no mundo do vinho. É muito comum perguntar a enólogos e produtores de todo o mundo quais seus vinhos preferidos – além daqueles que eles produzem, claro – e a resposta é quase sempre o pinot noir da Borgonha. Talvez por serem realmente a melhor definição para expressão do lugar. “Não existe mágica, tudo se deve à qualidade das uvas, o restante é secundário”, diz o produtor Pascal Lachaux. Ou talvez pela enorme variação que uma única uva – os tintos e brancos são sempre varietais (feitos apenas das uvas pinot noir para tintos e chardonnay para brancos) – pode proporcionar em vinhedos tão próximos; ou pela finesse do seu paladar, pela evolução das grandes safras e até mesmo pela dificuldade que é cultivar e fermentar esta uva em outros solos e regiões. Junte-se a isso o respeito ao vinhedo, à agricultura orgânica e biodinâmica executada por muito dos produtores – antes mesmo de virar moda. É a singularidade da pinot noir da Borgonha, em especial dos grandes vinhos, que atrai aos apaixonados pelo vinho. O fascínio enfim talvez ocorra por que a difícil tradução de um vinho elegante e com tipicidade encontre aqui um exemplo quase palpável. O vinho da Borgonha não é explosivo e potente como um gol, está mais próximo  da beleza e da elegância do drible de um craque.

 

 

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terça-feira, 19 de novembro de 2013 Brancos, Velho Mundo | 16:40

Chablis, um chardonnay com “gosto de pedra”

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O solo kimmeridgiano de Chablis,150 milhões de anos depois: argila, calcário e mineralidade

O solo kimmeridgiano de Chablis,150 milhões de anos depois: argila, calcário e mineralidade

Você gosta de vinho branco? Não? Então pode parar por aqui. O tema desta coluna é Chablis, uma pequena região da Borgonha, na França, distante 2 horas de Paris, de apenas 6.800 hectares, cortada pelo Rio Serein, e que cultiva (e é cultuada) há muitos anos apenas uma uva: a chardonnay, (Ou então siga um dos conselhos deste blog e prove mais vinhos brancos).

Leia também: Vinho branco, você ainda vai beber um 

Se você gosta de vinho branco, em especial da chardonnay, então siga em frente. Mas é bom avisar, a internacional chardonnay, cultivada em todo o mundo, tem na região uma assinatura que a define e a diferencia, que pode ser descrita com a imprecisa e ao mesmo tempo acertada expressão de mineralidade (vamos falar disso mais tarde). “Nós não fazemos chardonnay, nós fazemos Chablis”, filtra Christophe Cardona, diretor de exportação da La Chablisienne, a cooperativa que representa cerca de 25% dos produtores da apelação de Chablis.

Mas o que torna esta apelação única e seus vinhos apreciados pelos admiradores de goles brancos? Como sempre, é uma soma de fatores: solo, clima, posição e a experimentação do homem que desde o século 12 começou a plantar e testar as uvas mais adequadas para aquele pedaço de terra. No caso prevaleceu a chardonnay, a uva branca da Borgonha. Devemos mais essa aos monges cistercienses, os “inventores” do estilo da Borgonha.

Mas o solo, formado no período jurássico superior, há 150 milhões de anos atrás, é o segredo de Chablis, o toque que a diferencia. No tempo dos dinossauros a região era coberta por oceano e ali, onde séculos depois seriam plantadas as parreiras, viviam pequenas ostras e moluscos que forneceram a matéria-prima para a composição do solo calcário e argiloso que se formou, conhecido como kimmeridgiano. Devemos essa às ostras e moluscos.

Traduzindo os diferentes terrenos – e rótulos

São quatro estilos de vinho, oriundos das quatro apelações de terrenos, com diferentes graduações de qualidade e estilo: Petit Chablis, Chablis, Premiers Crus e Grands Crus.

Petit Chablis. É a base da pirâmide, são plantados em terrenos mais planos e o solo de formação geológica um pouco mais recente, o portlandiano (140 a 130 milhões de anos). É um vinho mais fresco, frutado, leve, para ser bebido jovem, um belo aperitivo e uma porta de entrada do estilo de Chablis.

Chablis. Trata-se área mais extensa da apelação, o terreno já é de encosta e pode ser encontrado nos dois lados do Rio Serein. Eles já são mais bacanas, com maior estrutura, uma mineralidade e uma tensão maior na boca. Podem ser abertos mais novos, quando se destacam suas qualidades de frescor ou depois de 3 anos até 8 anos de idade, principalmente quando os vinhedos são mais antigos, e aí se obtém maior complexidade riqueza de aromas. Já dá para ser bem feliz com uma garrafa destas e entender o que Cordona quis dizer com a diferença entre chardonnay e Chablis.

Premiers Crus. A compreensão das qualidades do solo kimmeridgiano e sua influência no vinho sobe um degrau no Chablis Primiers Crus. Os terrenos, também distribuídos nas duas margens do Rio Serein, têm exposição do sol a sudeste e sudoeste, que traz mais expressão de fruta ou uma mineralidade mais pronunciada. Quem tiver paciência de aguardar seis anos vai beber um vinho mais complexo, denso e estruturado. Com ou sem tempo de garrafa, o decanter é um instrumento que vale usar, pois amplia as qualidades gustativas e olfativas do vinho.

Grands Crus. É o topo da pirâmide, a maior expressão do chardonnay desta apelação única. Um pequeno trecho de apenas 103 hectares e sete áreas delimitadas  (somente o Château Lafite-Rothschilde, Bordeaux, tem 178 hectares). Aqui a mineralidade quase se materializa com todos os elementos que podem criar um grande chardonnay de um terroir exclusivo. Um vinho que melhora com o tempo na garrafa – algo como oito anos de envelhecimento para atingir sua plenitude. E que cobra caro por isso.

Neste vídeo 3D de quatro minutos da cooperativa La Chabliseinne, com versões em francês e inglês, fica fácil entender os terrenos de Chablis, sua localização e características.

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Mineralidade: quem botou pedra no meu vinho?

“As primeiras grossas gotas de chuva que antecedem uma tempestade de um dia quente e seco expressam perfeitamente o que é a mineralidade”, ilustra o diretor-geral da La Chablisienne, Damien Leclerc. Ajudou? Não muito, né? O conceito de mineralidade do vinho, para aqueles que estranharam seu uso aqui neste texto, é um discussão que vale um outro artigo, afinal pedra não tem aroma ou gosto. Mas pode ser resumido em uns quatro parágrafos. Como a pedra vai parar no vinho então? Trata-se de uma descrição, uma sensação ou um neologismo?

O enólogo e professor Denis Dubourdieu no artigo “Quelques réflexions sur la minéralté des vins”, vai direto ao ponto:  “Se as rochas têm um gosto, é do material orgânico impregnado nela”. E o chamado aroma da faísca de pedras que se atritam (ou pedra de isqueiro) é resultado do componente químico benzenemethanethiol, encontrado sobretudo na chardonnay. Tem gente que afirma que as pedras transmitem esta mineralidade ao vinho. Muitos críticos chegam a definir certos chardonnays como suco de seixos. Para os cientistas isso é uma balela. As pedras não têm como transmitir minerais para a uva.

Mas algo misterioso liga esta sensação, esta particularidade de certos vinhos brancos a algum lugar, afinal há vinhos que expressam esta sensação e outros não. E não há chardonnay como os de Chablis. Para o produtores da região a mineralidade incorporada aos vinhos é o resultado do solo kimmeridgiano e não se fala mais nisso. Provavelmente a mineralidade sentida no vinho seja resultado de uma série de combinações do solo argiloso e calcário kimmeridgiano e dos microorganismos que se formam em seu entorno e do material orgânico do lugar que transmitem à planta os minerais que ela precisa. Esta é uma tese em uso na região também. O processo é mais complicado, e envolve o processo de fotossíntese, de interação com bactérias que extraem das pedras minerais como fósforo, iodo, magnésio.

A mineralidade, e aqui todos concordam, é mais uma sensação, uma definição que inclui numa mesma cesta um vinho natural, puro, ligado ao seu terroir, com uma acidez cortante, uma tensão viva, um frescor pungente, uma leveza fina, que provoca um salivação gostosa, que se opõe a um vinho opulento, alcoólico, concentrado, pesado, aromático e excessivo na boca e no nariz. Para Damien Leclerc, “ A mineralidade revela uma certa forma de pureza, uma visão cristalina do vinho”. De qualquer forma é uma expressão muito utilizada hoje pelo mercado, pelos consumidores e define o estilo Chablis de ser.

É fácil encontrar Chablis para comprar no Brasil?

Os vinho Chablis são muito adaptáveis ao nosso clima e culinária. São refrescantes, amplos, gostosos de beber e pouco alcóolicos. Expressam esta sensação mineral que é uma delícia – mesmo que você não a perceba e desconfie deste lenga-lenga todo – e traz uma experiência diferente no conjunto da obra. É um vinho solar, um vinho litorâneo por excelência. É o chamado par perfeito para ostras (todo mundo diz isso, mas tenho de confessar que não aprecio ostras, portanto não é uma conclusão empírica), combina maravilhosamente com saladas, peixes e num patamar acima segura um leitãozinho, frutos do mar, cremes etc. Ao mesmo tempo que não são rótulos exatamente populares (não estão naquela faixa abaixo dos 50 reais, começam lá pela casa do 80, 90 reais), também não são difíceis de encontrar. As principais marcas estão representadas no país pelas grandes importadoras: La Roche (World Wine), Louis Jadot, Faiveley, Joseph Drouphin (Mistral), William Fevre (Grand Cru), Domanine de La Cour du Roy (Casa Flora), J.M. Brocard (Zahil). Recentemente este Blog do Vinho provou os rótulos da Chablisienne (Interfood) e Sebastien Dampt (St Marché).

Chablisienne

A Chablisienne é uma espécie de Vinícola Aurora da França. Ambas são cooperativas compostas por um grande grupo de vinicultores. São 300 em Chablis, 1.100 no Rio Grande do Sul. E controlam à sua maneira e com seus respectivos objetivos a qualidade e a distribuição dos produtos. Criada em 1923, é responsável 25% do Chablis que é produzido na região, com propriedades espalhadas nas quatro apelações disponíveis e dona do único Château de Grand Cru da região, o Grenouilles.

Seus dois Chablis importados no Brasil são deliciosos, mas de personalidades diferentes:

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O La Chablisienne “La Pierrelée” 2011 traz aquela sensação mineral e de pureza de paladar discutida aqui, mas tem um corpo mais denso, um frutado mais persistente e uma pequena untuosidade. Um Chablis com estutura e intensidade. Um vinho que segura bem uma carreira-solo, não pede comida, e tem preço similar ao Petit Chablis. (R$ 98,00)

 

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O La Chablisienne “La Sereine” tem um lado mais elegante, a acidez presente, o que provoca uma salivação persistente. As frutas são mais cítricas, se escondem para depois se revelar e o tal toque mineral é mais sutil, mas mais nobre. Melhor acompanhado com um prato de comida, um peixe grelhado com algum creme. Elegância é um conceito tão volátil quanto mineralidade, mas se encaixa com perfeição a este vinho. (R$ 115,90)

 

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Já no mundo dos Primiers Crus, este “Mont de Milieu” foi decantado por uma hora antes de ser servido. Ainda estava jovem, mas mostrava sua força e o resultado de passar 15 meses em contato com as borras no tanque, que traz um tostado, persistência na boca, e uma sensação que amplia os sentidos do frescor e da tensão da fruta e da acidez. Uma delícia que merece um minuto de contemplação. (R$ 151,90).

Sébastien Dampt

Como a rede de supermercado de São Paulo St Marché também atua como importadora – são 100 rótulos atualmente importados diretamente, com a perspectiva de triplicar a oferta em três anos –, não deixa de ser curioso encontrar caixas de Chablis disputando espaço com caixas de suco de laranja e pés de alface. E saber que há público para este branco de estirpe. Tem algo mudando nos hábitos do consumidor.

Petit-Chablis-Sebastien-1O Sébastien Dampt Petit Chablis “Terroir de Milly” 2012 é um representante honesto de sua classe. Leve, fresco, jovial, fácil de beber, boa acidez no final da boca, provoca uma salivação que enche a boca e pede outro gole. Você coloca o vinho na taça e em vez de subir aquele aroma  amanteigado da fermentação e do uso de barrica aparece um cítrico suave, um flor branca harmoniosa. O corpo é leve, a bebida refrescante. Um vinho branco para abrir a refeição, acompanhar uma saladinha, um  papo descontraído. (R$ 92,00)

 

CHABLIS-2008-1ER-CRU-PETIT-FORMATO Sebastien Dampt Premier Cru “Vaillons” tem uma proposta de uma amizade mais longa. São vinhas de mais de 60 anos, o que aporta uma sensação mais consistente de mineralidade ao vinho. Bebê-lo agora significa usufruir seu caráter de fruta e a sensação mais cortante da mineralidade. Com o tempo deve evoluir suas camadas aromáticas, uma fruta mais potente e uma sensação mineral mais fina e persistente. São duas experiências válidas. Provei a safra recente e já estava uma delícia. (R$ 149,00)

 

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terça-feira, 26 de junho de 2012 Velho Mundo | 12:01

E o Romanée-Conti foi parar na novela das 9

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Não há rótulo mais cultuado, desejado e comentado – mas raramente provado – como o Romanée-Conti. Apontado pelos críticos e especialistas como a joia da coroa entre os tintos da Borgonha, ou mesmo entre todos os vinhos do mundo, o pinot noir plantado e vinificado na região de Vosné-Romanée, numa pequena parcela de 1,8 hectares e com preços que batem facilmente a casa dos dois dígitos, virou pop e tomou parte do enredo da novela das 9 Avenida Brasil, da TV Globo.

Avenida Brasil é uma novela que tem os melhores elementos de um folhetim. Carrega nas tintas nos conflitos entre seus personagens principais e sempre deixa margem para dúvida de suas reais intenções. O núcleo central é formado por moradores do subúrbio, no fictício bairro do Divino, que batalham pelo sustento ou até venceram na vida – seja pelo talento, seja pelo esforço ou mesmo  pela esperteza de se associar a quem chegou lá. O pequeno núcleo rico,  contraponto ao anterior, serve apenas de moldura para uma caricatura de um Don Juan casamenteiro e suas mulheres dondocas.

Max e um exemplar de Romanée-Conti: "Eu também tenho direito a um bom vinho"

O foco porém,  é a população do bairro do Divino, afastado da Zona Sul, e sua caricata descontração, de uma alegria histriônica e permanente que só se rivaliza com o barraco rápido que se forma entre os personagens em quase todo capítulo. No Divino, a dança é o Kuduro, o esporte, o futebol e a pelada – que fez a fortuna de Tufão, que sustenta a família que é o eixo principal da novela. A bebida, claro, é a cerveja, a breja, destampada em quase todo capítulo, sorvida no gargalo em casa ou nos bares da região.

No capítulo desta segunda-feira, dia 25, porém, o vinho virou protagonista de diversas cenas, mas como sempre irrompeu o enredo na sua forma caricata, como símbolo de soberba  e status de um personagem de poucos predicados: Max, o cunhado traíra de Tufão, e amante da mulher do ex-craque do Flamengo, um autêntico representante do gênero sanguessuga. É mau caráter, e está diminuído diante da amante e da falta de verba para se divertir. Resolve abrir um vinho e fumar um charuto.

Mas evidente que não se trata de um rótulo qualquer. “E um Romanée-Conti!”, exclama a cozinheira da casa, que morou na França e é mais refinada que todos os habitantes do palácio cafona que a turma habita  – trata-se de uma novela, é sempre bom ressaltar. “Este vinho é caríssimo”, aponta ela.

E como um exemplar de um Romanée-Conti vai parar na adega de um jogador de origem humilde do subúrbio? Presente de um xeque árabe. Pronto, está completa a caracterização. O vinho, sempre que entra na nossa ficção, serve como suporte do mau caratismo de um personagem, assim como caiu como uma luva para tipificar o enriquecimento ilícito e a soberba do senador Demóstenes.

Para evitar que personagem tão asqueroso como Max cometa este sacrilégio, sua mulher, também traída, intercepta a ação e resolve levá-lo para um restaurante bacana. Max, ainda imbuído no seu objetivo de se dar bem, e com um conhecimento invejável dos rótulos estrelados, escolhe um Mouton Rothschild 1996, rapidamente vetado por sua esposa-mala.

Max, no entanto, parece que tem uma ideia fixa. Larga a mulher no restaurante e se manda para um hotel de luxo e no conforto de sua suíte ordena um vinho. E não é que volta à cena a garrafa cenográfica do Romanée-Conti? E não apenas uma, mas duas ampolas deste borgonha mítico, com seu rótulo identificável a milhas de distância por qualquer enófilo digno do título. A conta fica cara, 20 mil reais, talvez até um bom preço para um rótulo deste nível num hotel de luxo, mas vá lá, está dado o recado. Claro que não soubemos a opinião de Max sobre o vinho, não há espaço ali para a fruição de um vinho de exceção. Ele é desarrolhado aos pares, e entornado aos borbotões, mas esta rebordosa é apenas sugerida pelas garrafas vazias. O Romanée-Conti chegou enfim à classe C pelas mãos da ficção. E o vinho, mais uma vez, entrou pela porta da frente e de nariz empinado, compondo um personagem vil.

Lula e o Romanée

Quando Lula comemorou sua primeira eleição com goles de Romanée-Conti, ofertados por seu guru de marketing de então, Duda Mendonça, a classe operária foi finalmente ao paraíso. Surgiu até um movimento  “romannecontiparatodos”, que defendia que o objetivo dos socialistas era tornar todos ricos, para que também pudessem beber o vinho. É divertido, mas impossível. Nunca haverá Romanée-Conti para todos. São produzidas somente só 5.500 garrafas por ano. E o preço, evidente, é a maior barreira.

Recentemente, no já histórico aperto de mãos com o antigo rival político Paulo Maluf, proprietário de uma das mais desejadas adegas do país, repletas de rótulos da Domaine de La Romanée-Conti, Lula cobrou: “Ô Maluf, quando é que você vai me convidar para beber um Romanée Conti?.”

Esta garrafa é de verdade

Conhece o Romanée? Um pouco da história, então

No século XVIII, o historiador da Borgonha Claude Courtépée escreveu: “Em Vosné-Romanée não existem vinhos comuns”. Em pleno século XXI, especialistas e enófilos de todas os cantos do mundo ainda compartilham da mesma opinião deste cronista sobre os tintos da Borgonha. Os vinhedos da Domaine de la Romanée-Conti – conhecida pela sigla DRC – representam, no entanto, um milagre deste abençoado trecho de terra. Para o escritor de vinhos inglês Hugh Johnson, por exemplo “faltam sinônimos para definir a intensidade e o poder” dos tintos engarrafados na propriedade. O poderoso, e controverso, crítico americano Robert Parker define a Domaine de la Romanée-Conti como a mais importante vinícola do planeta em seu livro “The World’s Greatest Wine Estates”, em que lista as 50 principais propriedades do mundo do vinho: “Não há pinot noir que chegue perto dos que são produzidas ali”, conclui

A opinião é compartilhada pelos críticos nacionais. Para o especialista da revista Gosto, Guilherme Rodrigues, nas melhores safras “não há vinho que se aproxime em termos de qualidade, intensidade de aromas, elegância, longevidade e paladar como os rótulos produzidos nos vinhedos da Domaine de la Romanée-Conti.”

Todos os vinhos grand crus da DRC são tratados com o mesmo cuidado. A produção é natural. Aubert de Villaine, sexta geração à frente dos vinhedos,  é adepto da prática orgânica desde 1986 e mais recentemente da biodinâmica, aquele método que rejeita o uso de defensivos químicos e acredita na influência dos astros sobre as vinhas e de outros preceitos que seguem uma orientação mais holística no vinhedo. A colheita é tardia, com o objetivo de obter a maturação perfeita das uvas, e extrair taninos de alta qualidade. Os cachos nem sempre são desengaçados, ou seja, os cabos não são retirados em toda colheita. A fermentação, com maceração, dura um mês, com temperatura controlada que jamais ultrapassa 33ºC. A bebida envelhece por no mínimo 18 meses em barris de carvalho francês novo. Os vinhos nunca são filtrados no engarrafamento. O resultado final é disputado por milionários de todo o mundo. Max, em Avenida Brasil, contribuiu com a cota nacional derrubando duas de suas garrafas de cenário.

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quinta-feira, 4 de março de 2010 Entrevista | 09:53

Aubert de Villaine, o monsieur Romanée-Conti, é escolhido o homem do ano pela revista Decanter

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Capa da ediçnao da Decanter de Abril destaca De Villaine como Homem do ANo do vinho

Capa da Decanter de abril destaca De Villaine como Homem do Ano

A revista de vinhos inglesa Decanter, colecionada pelos enófilos, respeitada pelo mercado e invejada pelos concorrentes, estampa em sua edição de abril, lançada dia 3 de março, a escolha do produtor Aubert de Villaine como homem do ano de 2010. A eleição é feita pela revista desde 1984 e pela primeira vez um representante da Borgonha, na França, é agraciado com o título. Veja lista completa no final do post.

Para quem não sabe, Aubert de Villaine é ninguém menos do que o proprietário da Domaine de La Romanée-Conti (DRC), um pedaço abençoado de terra de apenas 250.000 metros quadrados, onde se concentram seis grand crus — a mais alta categoria que um vinhedo pode alcançar na região da Borgonha. Ali são elaborados os rótulos Grands Échézeaux, Romanée-Saint-Vivant, La Tâche, além da estrela da casa, o Romanée-Conti. Para quem fica especulando o valor de um vinhedo desta qualidade, De Villaine é curto e elegante, como sempre: “A DRC não tem preço”. Mais comentado do que bebido, o Romanée-Conti é um desses vinhos que ultrapassa sua natureza de produto e ganha status de obra de arte.

Sexta geração à frente dos vinhedos, Aubert de Villaine é adepto da prática orgânica desde 1986 e mais recentemente da biodinâmica, aquela prática que rejeita o uso de defensivos químicos e acredita na influência dos astros sobre as vinhas. “É uma importante ferramenta para fazer vinhos”, justifica De Villaine, que mantém uma equipe permanente de 25 funcionários no campo que fazem uso da tração animal no tratamento do solo. Para ele, a melhor maneira de lidar com um terroir perfeito como a Domaine de la Romanée-Conti é a menor interferência possível: “Este pedaço de terra tem sido dedicado à excelência em fazer vinho há séculos. Meu trabalho é de guardião deste terreno”, diz.

Tive a oportunidade de entrevistá-lo no final de 2007, quando De Villaine veio ao Brasil apresentar a safra 2004 de seus vinhos. Abaixo reproduzo alguns trechos:

Blog do Vinho – Como se sente sendo o responsável pelo vinhedo onde são produzidos os melhores vinhos do planeta?
De Villaine – Sou um privilegiado, mas também muito consciente de minha responsabilidade. Este pedaço de terra onde eu faço vinho tem se dedicado à excelência há séculos. Minha missão não é colocar uma marca pessoal, mas manter uma tradição.

Blog do Vinho – O que faz o Romanée-Conti ser um vinho cultuado pelos especialistas e desejado pelos milionários do mundo?
De Villaine – A principal razão é que ele é um vinho de terroir. O Romanée-Conti é uma espécie de símbolo desta ideia. Seu vinhedo está localizado num local privilegiado, um grand cru de apenas 1,8 hectare (18.000 metros quadrados), no centro nervoso de nossa Domaine, em Vosne-Romanée. O resultado é um vinho elegante, suave, feminino e com grande personalidade e finesse, qualidades que já eram observadas pelo príncipe Conti, no século XVIII, quando ele adquiriu o vinhedo. Outra explicação é a escassez. A produção é muito pequena e a demanda alta. São cerca de 5.500 garrafas por ano, que são disputadas em todo o mundo. E esta produção não vai se alterar nunca, ela é determinada pelo tamanho do vinhedo.

Blog do Vinho – Seus vinhos alcançam preços estratosféricos nos mercados de investimento e na internet. O que acha disso?
De Villaine – Isso é algo completamente fora de nosso controle e que lamento profundamente. São valores tão altos que transformam os vinhos em item de colecionador, em troféus. Quando um produto atinge esta faixa de preço, eu acredito que as pessoas temem abri-los. Isso é um erro. Vinho não é para colecionar, nem para especular, mas para beber e dividir entre os amigos.

Blog do Vinho – Como explicar, para um leigo, o significado de terroir e sua influência?
De Villaine – Terroir é um pedaço de solo delimitado pelo homem, com certas condições climáticas, ideal para um certo tipo de vinho. É uma alquimia entre o homem e a natureza estabelecida pela história. Os monges começaram este trabalho, no século XI ou XII, ao delimitar os vinhedos da Borgonha e as uvas que seriam plantadas: a pinot noir, para os tintos, e a chardonnay para os brancos. Este conceito alcançou o nível mais elevado na Borgonha. Um bom exemplo da influência do terroir vem de dois vinhedos nossos: o Grands-Échézeaux e o Échézeaux. Mesmo sendo vizinhos, há diferenças de solo entre eles. Em Échézeaux, há muitas pedras; no Grands-Échézeaux, o solo é mais profundo, nunca serão encontradas grandes pedras saltando para fora da superfície — ou seja, em Échézeaux é possível caminhar usando sapatos finos, já no Grands-Échézeaux é necessário calçar botas. O vinho que resulta de cada um desses solos tem a sua personalidade. O aroma e o paladar não são as coisas mais importantes — isso se altera a cada safra —, mas sim esta personalidade, que vem da terra. Uma energia que percebemos quando provamos, a cada ano, um Échézeaux e um Grands-Échézeaux.

Rótulo do Romanée Saint Vivant autografado por Aubert de Villaine

Rótulo do Romanée-Saint-Vivant autografado por De Villaine em sua visita ao Brasil em 2007

Blog do VinhoA propósito, os especialistas costumam descrever uma infinidade de aromas, alguns meio esquisitos, nas taças de vinho. Isso não intimida um pouco os consumidores que não conseguem distinguir estas coisas?
De Villaine – Não fico surpreso que as pessoas não identifiquem estes aromas todos nos vinhos que compram. Eu mesmo não sou capaz de reconhecê-los. Aliás, acho muito aborrecido. Não estou interessado nisso, e sim na personalidade do vinho. Até admiro quem tem esta capacidade. Mas para mim, não há interesse algum.

Blog do Vinho – Como o senhor avalia a influência do megacrítico americano Robert Parker e de seu critério de avaliação de 100 pontos?
De Villaine – Eu acho que ele é um dos maiores responsáveis pelo crescimento do consumo de vinhos no mundo — é claro que o fato de as pessoas estarem mais ricas também ajudou. Quanto às notas, me parece bizzaro. Nós achamos impossível justificar uma avaliação com números. O que Parker diz sobre a bebida é mais interessante que suas notas. Mas é o jeito que funciona, e não podemos fazer nada contra isso. Eu espero que os consumidores aprendam que isso não é importante.

Blog do Vinho – O presidente Lula, quando eleito para seu primeiro mandato, em 2002, comemorou sua vitória com uma garrafa de Romanée-Conti 1997. Era uma boa safra?
De Villaine – Não é uma grande safra, mas eu me sinto muito orgulhoso que seu presidente tenha escolhido este vinho para celebrar sua vitória. Eu espero que tenha sido porque ele ama vinho e não por conta do rótulo.

Blog do Vinho – Nem uma coisa nem outra, a garrafa foi um presente de seu marqueteiro de então, Duda Mendonça, e a notícia gerou muita polêmica na opinião pública.
De Villaine – O curioso, me contaram depois, é que foi criado uma página na internet com o nome “romannecontiparatodos”, que defendia que o objetivo dos socialistas era tornar todos ricos, para que também pudessem beber o vinho. É divertido, mas impossível. Nunca haverá Romanée-Conti para todos. Como eu disse, são só 5.500 garrafas por ano.

Todos os homens do ano da Decanter

2010 Aubert de Villaine – Borgonha, França
2009 Nicolas Catena – Mendoza, Argentina
2008 Christian Moueix – Pomerol, França
2007 Anthony Barton – Bordeaux, França
2006 Marcel Guigal – Rhône, França
2005 Ernst Loosen – Mosel, Libano
2004 Brian Croser – Adelaide Hills, Austrália
2003 Jean-Michel Cazes – Bordeaux, França
2002 Miguel Torres – Penedès, Espanha
2001 Jean-Claude Rouzaud – Champagne, França
2000 Paul Draper – Califórnia, EUA
1999 Jancis Robinson MW – Londres
1998 Angelo Gaja – Piemonte, Itália
1997 Len Evans, OBE AO -Austrália
1996 Georg Riedel – Áustria
1995 Hugh Johnson – Londres
1994 May-Eliane de Lencquesaing – Bordeaux, França
1993 Michael Broadbent – Londres
1992 André Tchelistcheff – Califórnia, EUA
1991 José Ignacio Domecq – Jerez, Espanha
1990 Prof Emile Peynaud – Bordeaux, França
1989 Robert Mondavi – Califórnia, EUA
1988 Max Schubert – Austrália
1987 Alexis Lichine – Bordeaux, França
1986 Marchese Piero Antinori – Florença, Itália
1985 Laura and Corinne Mentzelopoulos – Bordeaux , França
1984 Serge Hochar – Líbano

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terça-feira, 28 de abril de 2009 Brancos, Tintos, Velho Mundo | 18:58

Dominique Laurent: o doceiro que virou vinho

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Para vender, Borgonha com gougères
Para comprar, Borgonha com pão
(ditado dos négociants da região)

Provar um vinho bem elaborado da Borgonha é um experiência única. O que é melhor, então, do que um bom Borgonha na taça? É um bom Borgonha acompanhado de receitas típicas desta região situada no leste da França. Dá para melhorar este cenário? Sim, se você puder contar com a presença do négociant que elaborou o vinho à mesa e desfrutar das histórias sobre seus tintos.

Foi esta a experiência que transformou minha segunda-feira em um sábado de aleluia. Dominique Laurent é o négociant. O chef responsável pela harmonização atende pelo nome de Emmanuel Bassoleil e os vinhos gravados com o nome de Dominique Laurent na etiqueta são: Bourgogne Cuvée “Numero 1”, Chambolle-Musigny Vieilles Vignes 2005 e, para grand finale, Gevrey-Chambertin Vieilles Vignes 2003, em garrafa magnum, de 1,5 litro, por que o moço não atravessou um oceano para brincar!

Négociant não é atravessador

Um vinhedo da Borgonha é uma colcha de retalhos com inúmeros pequenos produtores: gente simples que por inúmeras razões históricas herdou um pedaço de terra abençoada, de solo calcário, e vende seus cachos de uva para cidadãos que tratam de vinificar, afinar os vinhos, criar uma identidade e por fim vender pelos olhos da cara. São os tais négociants.

Tem gente que pode ter a ideia errada de que o négociant é uma espécie de vampiro dos vinhedos que explora os humildes agricultores e só coloca a etiqueta e fica com a parte do leão. Na verdade este é um sistema tão antigo quanto a Borgonha, criado para resolver o problema de produção e comercialização do vinho em uma região de terrenos tão pulverizados. O négociant não é um atravessador, e sim um facilitador, mas obviamente, como em qualquer cadeia produtiva leva uma grana maior do que quem planta a uva.

Como tudo na vida, porém, há os négociants preocupados em produzir grandes volumes e acabam engarrafando um “pinóquio noir”, um vinho mentiroso, que não traduz o potencial da uva desta região. Outros, ao contrário, resgatam a qualidade desta uva refinada, e até um pouco pedante, com excelentes caldos, de variados níveis. Há mais do primeiro grupo do que do segundo, por isso é sempre necessário conhecer o produtor. Difícil, não é? Por isso, sempre que topar com um Borgonha que seja do agrado e caiba no orçamento é bom anotar o nome diretinho ou fotografar o rótulo pelo celular.

Dominique Laurent está na linha dos pequenas empresas, grandes negócios & ótimos vinhos. Também representa a simplicidade da região, antípoda em todos os sentidos da nobreza de Bordeuax. Mas é o simples que engana, pois não existe um Borgonha que valha a pena que seja barato. Ele iniciou sua carreira como chef pâtissier – se fosse no interior de Minas, seria chamado de doceiro mesmo –  e em 1987 decidiu fazer o que mais gostava, e se transformou em négociant na subregião de Nuit-Saint-Georges (Cote d’Or, Borgonha), onde selou uma rede de  relacionamentos com os pequenos produtores que lhe garantem a uva para seus quase 60 cuvées anuais. Todas de produção limitada.

E o que os vinhos de Dominique Laurent têm de tão especial?

Vieille Vignes
– vieille vigne aqui não é só uma força de expressão, mas se traduz no tempo em que as raízes do vinhedo estão agarradas ao solo (pardon, terroir). Vinhas antigas são sinônimo de qualidade e de intensidade, na fruta e nos  aromas. O Chambole-Musigny Vieilles Vignes 2005, por exemplo, é resultado da frutas de parreiras de 1902, 1920, 1930 e por aí vai; o Gevrey-Chambertin Vieilles Vignes 2003 tem plantas de 1910.

Barricas mágicas – é reconhecido o trabalho de Laurent com as barricas, que o marketing transformou em “mágicas”, mas que o próprio négociant simplificou como “nostálgicas”. “Trata-se de um trabalho de recuperar o que era feito no passado, dava certo, e foi esquecido”, resume ele, ao explicar o uso de madeiras com 300 e 400 anos de idade, que levam de 5 a 7 anos para secar. O mosto (o suco de uva) fica em contato com as borras por vários meses, “sem marcar o vinho com a madeira”, como gosta de enfatizar. Cada barril sai por 900 euros, contra 500 a 600 das barricas tradicionais.

Assemblage
– parece estupidez falar de assemblage (mistura de uvas) em um vinho varietal (de uma só variedade de uva). Não custa lembrar aos incautos, Borgonha tinto é da uva pinot noir e c’est fini. Mas é isso que Laurent faz, desde seu vinho mais básico. Ele seleciona uvas de diferentes perfis e parcelas de terreno para compor uma palheta de sabores mais rico para seus vinhos. “Assemblage é um vinho mais de alta-costura onde várias parcelas compõem o perfil de um vinho”, explica.

Outra ousadia do négociant é “rebaixar” seus vinhedos. Explica-se: na cadeia alimentar das regiões e subregiões da Borgonha (um prêmio para quem souber o nome de todas de cor, sua localização no mapa e importância) os terrenos ainda sofrem a divisão de quatro grandes apelações (AOC). São elas: regional (23 apelações, responsáveis por 65% da produção total); comunal ou village (44 AOC, 36%); premier cru (635 climats classé, 10%); grand cru (33 AOC, somente 2% da produção, o crème-de-la-crème). Pois Dominique Laurent, a fim de aportar mais qualidade aos seus pinot noir de classificações inferiores, comete e heresia de usar uvas de premier cru em garrafas que não ostentam esta classificação no rótulo.

Os vinhos

Bourgogne Cuvée Numero 1
2005 (R$ 144,00) – não, não tem número 2, 3 etc. O número 1 aqui é sinônimo de melhor couvée (colheita). Seguindo o preceito de assemblage, trata-se de uma seleção das melhores parcelas criando um Borgonha mais simples – que lá fora tem preço de vinho mais simples mas aqui é preço de gente grande mesmo -, mas já com alguma complexidade e que vai melhorando bastante descansando na taça. Curioso que Laurent prefere bebê-lo mais frio, quase gelado. Perguntei a razão, e ele respondeu: “Por que é assim que se bebe”. Definitivamente, sem frescuras o sujeito.

Chambolle-Musigny 2005 (R$ 368,00) – trata-se da seleção de uvas de diversos terroir. Aqui Laurent “rebaixa” seus premiers crus para aumentar a qualidade dos vinhos. Permanece por 20 meses na barrica e sua palheta aromática inicia com flores, cedro e revela um forte café no fundo da taça. Bastante complexo e intenso. Um vinho respeitável.

Gevrey-Chambertin Vieilles Vignes 2003 (R$ 1.153,00 a magun, R$ 464,00 a garrafa de 750 ml). Année Exceptionnelle. É assim que Dominique Laurent define o vinho em seu rótulo. Aqui vai a mão de mestre do négociant. 2003 foi o ano da canícula que matou os velhinhos na França e rendeu vinhos medíocres na Borgonha, pois as uvas foram colhidas em agosto, antes do tempo, prejudicando a acidez da safra. Dominique Laurent pagou para ver e colheu as uvas somente em setembro. Ok, teve a sorte de ser agraciado por uma mudança no tempo que refrescou a temperatura e permitiu colher uvas de imensa extração de cor, aromas e taninos. Mas foi ousado. Ou seja, ele é uma exceção à regra. A garrafa comprovou sua tese.

Para quem está costumado a um Borgonha de cor mais pálida, este aqui é mais musculoso, como são em geral os Gevrey-Chambertin. Apresenta cor intensa, aromas que lembram um porto, um toque de especiarias e é muito  longo. A boca aveludada
tem sabor de frutas (cerejas mais doces), sempre com uma potência mais fina, se é que dá para definir algo desta maneira. Um Borgonha de macho com diploma. Detalhe, Laurent produziu uma edição especial em garrafas de 1,5 litro, magum, só vendida aqui no Brasil e na França.

Para comprar e vender

Bom, Borgonha não é para amadores, mas para amantes. E endinheirados. Mas tudo bem, cabe aqui neste blog uma extravagância de quando em vez, afinal não se discute uma obra pelo seu preço – é uma conseqüência – mas pela capacidade de atingir o seu público. E Dominique Laurent nem é dos mais caros, apesar de estar um degrau acima na alas dos négociants.

O ditado que inicia este texto é recorrente entre négociants da Borgonha. Gougères são uma espécie de pão de queijo da região e sua textura mascara, como todo queijo, alguns defeitos do vinho. Por isso é o melhor acompanhamento no momento da venda, do ponto de vista do négociant. Quem quer provar – e comprar – um autêntico Borgonha, com seus aromas e sabores multifacetados, deve escolher um pedaço de pão, que não engana o palato, mas mostra a verdade do vinho. Os rótulos de Dominique Laurent foram servidos com gougères e fatias de pão.

Saiba mais sobre a Borgonha

Site oficial (em inglês)
(em francês)

Onde comprar:
World Wine

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