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sexta-feira, 25 de setembro de 2015 Novo Mundo, Tintos | 00:32

Marques de Casa Concha: um clássico chileno em mutação

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Marcelo Papa: enólogo há mais de dez anos da Marques da Casa Concha. Mudanças à vista.

Marcelo Papa: enólogo há mais de dez anos da Marques de Casa Concha. Mudanças no estilo de um clássico chileno.

Um fantasma ronda a cabeça do enólogo Marcelo Papa, responsável há 10 anos pela linha Marques de Casa Concha – o fantasma dos vinhos menos potentes, mais frutados e com menos madeira. O Marques de Casa Concha é um clássico do “vinho bão” chileno, e um dos grandes representantes dos tintos e brancos varietais (de uma só uva) de grande expressão e potência. E foi esta mudança de rumo que Papa veio mostrar em seu último giro pelo Brasil, quando apresentou um Cabernet Sauvignon Edição Limitada de 2013 e um carignan que faz parte de um projeto dedicado à esta uva no Chile, o Vigno (Vignadores de Carignan).

Time que está ganhando não se mexe, certo? Errado, mexe sim, mas com todo cuidado e paciência, afinal se trata de um ícone de uma gigante do vinho (Concha y Toro), com uma legião de consumidores fieis e, claro, sucesso de vendas (e de receita). Esta nova visão poderia ser resumida no clássico conselho do “menos é mais”: menos álcool, menos potência, menos doce, menos madeira. “Começamos a colher as uvas mais cedo, para obter teor alcoólico mais baixo, mas mantendo uma boa fruta e a usar tonéis (barricas maiores, de 5.000 litros)”, conta Papa.

Mas se o consumidor gostava dos vinhos como eles eram, por que mudar? “Há quatro anos eu percebi que não estava tomando mais Marques de Casa Concha em casa”, diz Marcelo Papa. Era um sinal claro que mudanças precisavam ser feitas. “Os formadores de opinião – especialistas e críticos – começaram a ficar cansados de um estilo muito potente de vinho, pois nem todos os vinhos têm de ser assim e apontaram uma tendência”. Os consumidores (ou parte deles) também começaram a seguir esta onda, a buscar vinhos mais gastronômicos, com maior presença da fruta, acidez e menos efeitos da madeira nova que marca muito a bebida “Acho que terá uma boa aceitação”, aposta Papa.

E a mudança começou no uso da madeira. Ela não foi abandonada, mas seus efeitos aliviados com o recurso de recipientes maiores. Marcelo Papa testou tonéis de várias partes do mundo e acabou elegendo a matéria-prima do Piemonte, na Itália, usada na guarda dos barbarescos e barolos – o que já indica um caminho rumo à fineza. Em seguida, começou a misturar os vinhos em barricas tradicionais e nos tais tonéis. Foi uma maneira cautelosa de introduzir um novo estilo e ao mesmo tempo não assustar o consumidor acostumado à pegada do Marques clássico. O Cabernet Sauvignon 2013 tradicional de Puente Alto, no Vale do Maipo, continuará com 80% do seu caldo estagiando 18 meses em barricas francesas, mas 20% ficará nos tonéis; no Syrah os 14 meses de barrica serão divididos 50% em barricas e 50% em tonéis. Foram adquiridos 38 destes grandes barris para este primeiro momento, e o mesmo número já está encomendado para as próximas safras.

Mais tensão e menos intensidade

Marques de Casa Concha Edição Limitada 2013 e Vigno: qual deles vai para a taça vazia? Os dois.

Marques de Casa Concha Edição Limitada 2013 e Vigno: qual deles vai para a taça vazia? Os dois.

O Marques de Casa Concha Cabernet Sauvignon Edição Limitada 2013, de Pirque, Puente Alto, sul do Rio Maipo, já é uma boa amostra do que vem por aí em termos de qualidade e frescor. O solo aluvial, com calcário, transmite uma certa “tensão ao vinho”, como defende Marcelo Papa. Como entrega o nome, a produção é mesmo limitada, principalmente para o nível Concha y Toro de ser. São apenas 6.000 garrafas. É um vinho meio “revival” no estilo dos anos 70, as uvas são colhidas mais jovens para obter menos álcool. Passou 22 meses em tonéis italianos e barricas francesas sem tosta, que também gera a tal tensão ao vinho, ou seja ele não é marcado pelas notas abusivas de chocolate, madeira, grafite. Não tem aquela opulência muitas vezes exagerada. A fruta, mais para a vermelha do que a preta mais comum no Marques clássico, é a expressão mais pura do vinhedo. Ganhou muito aberto mais de uma hora antes de servir e foi encontrando mais camadas aromáticas com um tempo na taça. Menos é mais aqui não é uma frase de efeito, mas um vinho elaborado com a intenção de ser menos intenso e com mais tensão.

O Vigno, é outra boa surpresa para aqueles que gostam de experimentar e valorizam o vinho mais franco e com maior “bebabilidade”. O rótulo faz parte de uma associação de pequenos produtores, algo como Vinhateiros de Carignan, que produzem o varietal desta uva na região sul de Maule, em variadas vinícolas (entre quinze e vinte) com o propósito de divulgar a Carignan chilena. Todos os produtores identificam no rótulo o vinho com o nome de Vigno. “Um dos fundadores da associação foi o Gilmore, há 4 anos. Hoje tem Vigno na Undurraga, do Montes, e agora da Concha y Toro”, explica Marcelo Papa.  As uvas são originárias de parreiras de 70 anos e 10% delas sofrem o processo conhecido como fermentação carbônica (a transformação do açúcar em álcool se dá dentro da fruta), que resulta num tinto de muita, mas muita expressão de fruta negra, e uma acidez marcante e frescor em boca que pede mais um gole. Um vinho agradável de beber e ótimo para acompanhar pratos mais leves.

Esta belezinha deve aportar ao Brasil no final do ano. Também nesta linha de privilegiar uvas menos conhecidas e até originais do Chile, estão as garrafas do Cinsault e Pais, infelizmente longe do mercado brasileiro. São algo como os vinhos alternativos da Marques da Casa Concha.

 Tradição e inovação

Mas se existe uma mudança anunciada com orgulho e cautela por seu criador e mentor (era visível sua satisfação com os resultados obtidos  e com a carta branca da empresa para seguir adiante) é por que existe também uma história bem-sucedida dos rótulos do Marques de Casa Concha, lançados em 1976. Trata-se de um vinho de autor, nas versões atuais e que estão por vir.

Aqui no Brasil são encontradas as versões: Chardonnay e Pinot Noir, do Vale do Limarí; Merlot e Carmenère, do Vale do Cachapoal, Vinhedo Peumo; Cabernet Sauvignon e Syrah, Vale do Maipo.

Confesso que este novo estilo era algo que eu colocava um pouco em dúvida: não por que não concorde com esta vertente do “menos é mais”, mas por que me parecia que poderia descaracterizar um pouco o tradicional Marques de Casa Concha, mudar seu caráter e desagradar seu consumidor, afinal de contas para quem é feito o vinho. O Marques “tradicional” – podemos já chamar assim –  sempre me agradou dentro do seu estilo e potência, valorizando comidas mais fortes numa harmonização por “paridade”. Mas colocando lado a lado os dois caldos ficou clara a diferença que faz o nível alcoólico, a fruta vermelha versus a negra, a influência mais sutil da madeira contra a potência das barricas nos aromas e no paladar menos doce e mais gastronômico. E fiquei com vontade de ter um gole a mais da edição limitada em minha taça.

Marcelo Papa adiantou ainda uma novidade, fruto de uma curiosidade deste colunista, que tem uma certa predileção pela uva cabernet franc. Com tantas varietais por que não tem um Marques de Casa Concha Cabernet Franc? Ah… Não tinha, mas terá, de pequena produção. A Safra 2014 chega ao mercado no segundo semestre de 2016. Nós, devotos do cabernet franc aguardamos ansiosos.

 32 milhões de caixas

A Concha y Toro é uma potência. Produz vinhos de vários estilos e preços. Além da vinícola que dá nome à empresa a holding controla a Cono Sur, Vina Maipo, Palo Alto, Canepa, Maycas del Limari (no Chile), Trivento (na Argentina) e Fretzer (Estados Unidos). Juntas produziram uma bagatela de 33,2 milhões de caixas de 12 garrafas de vinho em 2014, distribuídas em 145 países. Só a Vinícola Concha y Toro é responsável por 14,2 milhões de caixas. A Viña Concha y Toro coleciona prêmios, rótulos e um resultado inédito de 1 bilhão de dólares em vendas. Carrega também as virtudes (uma legião de consumidores fieis) e as mazelas (o mimimi dos puristas que criticam a estandardização de seus vinhos) que acompanham as grandes marcas de sucesso. Por isso mesmo é com alguma surpresa que experiências como esta defendida por Marcelo Papa na linha Marques de Casa Concha apontam que o mercado está mesmo mudando, que tudo que é sólido pode mesmo se desmanchar no ar.

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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014 Novo Mundo, Tintos | 18:15

Don Melchor 2010, um clássico chileno entre os melhores tintos do mundo

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Enrique Tirado 02

Enrique Tirado, enólogo do Don Melchor: fazendo pose no solo cavado nos vinhedos de Puente Alto, no Chile

A Concha y Toro é uma das maiores marcas de vinho do planeta. É uma referência, para o bem o para o mal, desde o iniciante dos tintos chilenos até para os amantes de bons rótulos. Na indústria local também se sente seu peso. Estive recentemente no Chile e não há produtor ou enólogo que não cite a empresa pelo seu tamanho, importância e volume para efeito de comparação, ou para se diferenciar em qualidade ou tamanho.

A Concha y Toro produz tanto tintos de consumo de massa, como a linha mais básica Reservado, ou de entrada como o Casillero del Diablo, como elabora ícones importantes. Don Melchor é joia da coroa. E tem suas regalias. É tratada como uma pequena vinícola dentro empresa, com equipe própria e dedicada. A safra de 2010 foi eleita entre os 10 melhores tintos do planeta pela lista anual da revista especializada Wine Spectator. A propósito, o Don Melchor já carimbou sua presença sete vezes na lista, sendo que três vezes entre os Top Ten (as safras de 2001 e 2003 em quarto lugar, a de 2010 em nono lugar).

Enólogo e galã

O cidadão da foto acima, com pinta de galã, atende pelo nome de Enrique Tirado. Ele é o responsável, desde a safra de 1997, pelo vinho que reúne uma pequena e exclusiva legião de admiradores brasileiros que transformaram o Don Melchor (muitas vezes chamado equivocadamente de “Don Melchior”) um objeto de desejo a cada safra lançada. Enrique Tirado, que tem um irmão gêmeo que também é enólogo (para diferenciá-los pessoalmente, basta reparar na cabeleira, seu irmão tem o penteado mais bagunçado que ele), é uma espécie de guardião do estilo e da tradição do Don Melchor. Ele mesmo explica o que vem a ser este estilo: “O que queremos é a expressar o cabernet sauvignon de Puente Alto, no Vale do Alto Maipo, nos Andes, com uma fruta viva e fresca”. Longe de entrar na discussão de mudança de estilo que atualmente atinge quase todas as vinícolas do Chile (menos madeira, mais fruta e acidez), para Tirado o objetivo permanece o mesmo: elaborar o melhor cabernet sauvignon que o vinhedo pode  oferecer: “Não sigo moda que vai para um lado e depois vai para outro”, explica.

 O que é que o Don Melchor tem

Basicamente o vinho tem uma consistência de qualidade e de estilo que revelam que ali naquele lugar o cabernet sauvignon é ator principal (90%) – também são cultivados poucos hectares de merlot (1,9%), petit verdot (1%) e cabernet franc (7,1%). Os vinhedos de Puente Alto, aos pés da Cordilheira Andes, são vizinhos dos terrenos de Chadwick e de Almaviva. Traduzindo: a papa fina do vinho chileno está reunida na região. Mas a elaboração de um vinho de exceção deste tipo não é mamão com açúcar. Para atender a alta expectativa em torno de cada safra e a fama conquistada, há muito estudo do terreno e das parcelas que compõem os vinhedos que vão fornecer as uvas que serão fermentadas e engarrafadas. São sete parcelas divididas em 127 hectares de terreno analisados minuciosamente em relação ao solo (se há mais ou menos pedras, profundidade das raízes, drenagem etc), clima, exposição ao sol.

Vinhedo de Puente Alto, aos pés das Cordilhieras: expressão meaxima do cabernet sauvignon

Vinhedo de Puente Alto, aos pés das Cordilheiras: expressão máxima da cabernet sauvignon

Os frutos destes vinhedos são experimentados nas parreiras ao longo dos meses e para a mescla final são provadas entre 120 e 150 mostras de diferentes parcelas já vinificadas que vão determinar o vinho que vai na taça. As provas selecionadas são enviadas para Bordeaux, na França, onde Enrique Tirado e o enólogo francês Eric Boissenot passam de três a quatro dias, em meados de julho, fazendo as escolhas  que vão determinar o resultado final. Esta maratona de provas de cabernets de variadas parcelas, mais as outras variedades que podem ou não aportar outras notas ou complexidade ao vinho, têm um único objetivo: “expressar o melhor cabernet sauvignon daquele lugar”.

Dos 127 hectares cultivados, se aproveitam cerca de 60% a 70% das uvas, o que tem produzido em média cerca de 150.000 garrafas por ano. As uvas que são descartadas, que são de boa qualidade mas de alguma forma não ajudariam a compor o estilo Don Melchor, são usadas para outras linhas da Concha y Toro, como o Marques de Casa Concha. “Mas não passa de 5%, o que não vai alterar no resultado final do produto”, alerta Tirado, frustrando aqueles que podiam achar que comprando um Marques de Casa Concha estão adquirindo um segundo vinho do Don Melchor.

Como já se disse mais de uma vez, o Don Melchor é uma mescla de cabernet sauvignon com a possibilidade de adição, principalmente a partir de 1999, de cabernet franc, que raramente ocupa mais do que 3 a 6% na proporção total do blend. A safra premiada de 2010 e que está sendo trabalhada agora tem 97% cabernet sauvignon e 3% cabernet franc. A novidade que Tirado trouxe em primeira mão aos amantes da cabernet franc – como este que vos escreve – é que uma pequena produção da varietal da safra de 2013, sem a denominação de Don Melchor, já está engarrafada. E deve vir ao mercado em breve. A ver.

Don Melchor 2010: o rótulo mudou mas o vinho continua o mesmo

Don Melchor 2010: o rótulo mudou mas o vinho continua o mesmo

Novo rótulo

A safra de 2010 vem com uma novidade. O rótulo teve uma pequena alteração. Perde espaço o “brand” Concha y Toro, discretamente reduzido a um selo no canto superior do rótulo e ganham destaque a uva predominante (vou falar pela última vez, cabernet sauvignon, ok?) e o lugar de procedência: Puente Alto. Esta ação de marketing gerou uma discussão de um ano até a aprovação da mudança que deixou a etiqueta mais elegante, mas que em nada altera o vinho e sua percepção. Talvez para os novos entusiastas deste ícone, ou para aqueles esnobes que não queriam misturar a marca de volume (Concha y Toro) ao seu caldo de alto valor agregado, a mudança faça mais sentido. Na verdade todo mundo sabe que Don Melchor é Concha y Toro.

• Leia também: 50 vinhos argentinos que vale a pena conhecer

O Don Melchor 2010 de fato tem uma coerência e uma linha de qualidade que impressiona. Provados numa vertical (várias safras) se notam diferenças aqui e ali, resultado do clima, da evolução e até mesmo da garrafa. “Há uma personalidade”, insiste Enrique Tirado, “mas claro que há diferenças que representam o ano da safra”. Ele passa em média 15 meses em barricas francesas de médio tostado. O que se prova não são os efeitos da barrica, mas a fruta, as especiarias, um toque de tabaco talvez. Tem a persistência dos grandes vinhos, a elegância de um cabernet sauvignon clássico, suculento como raros tintos e a percepção de um estilo.

Não é vinho para todos os dias (custa algo em torno de 430, 450 reais a garrafa), mas para um dia especial. Um vinho para se beber com atenção e prazer. Como um bom livro, dedicando um pouco mais de tempo ao seu consumo. Eu tenho um 2001 aguardando um momento na minha adega. A safra de 2010 promete. Para beber agora ou depois de alguma evolução, quando a data ideal chegar.

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terça-feira, 4 de novembro de 2014 Brancos, Novo Mundo, Tintos | 08:30

Bons goles argentinos: o conhecido Luigi Bosca e o menos conhecido Familia Cassone

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Os vinhos argentinos são um sucesso no Brasil. Só ficam atrás dos chilenos em volume – o que não impede que grupos chilenos tentem morder uma fatia a mais do mercado ao investir também na Argentina, como a Trivento e a Kaiken. Alguns rótulos argentinos já são bastante conhecidos entre os consumidores, como o Luigi Bosca, outros tantos ainda precisam ser desbravados, como os rótulos da Família Cassone. As duas vinícolas são tema deste post.

Por isso mesmo é comum a visita de enólogos e produtores ao Brasil para exibir seus vinhos em degustações, almoços, feiras e eventos. Os predicados são sempre poéticos (fruta, flores, tostados, macio, envolvente, etc), mas eles estão atrás mesmo é de mercado.

Para isso os produtores esmeram-se em mostrar seus vinhos mais elaborados, aqueles que exibem como um troféu, símbolo da qualificação de seus cachos de uvas maceradas e fermentadas. Se a isca funciona para chamar atenção, nem sempre revelam o melhor custo-benefício, ou o mais inusitado e surpreendente. Por dois motivos simples:

1. Estes vinhos top são muito mais caros, e por isso mesmo pouco acessíveis à maioria dos consumidores e incautos leitores deste blog

2. E por serem o topo da cadeia alimentar têm quase a obrigatoriedade de serem, no mínimo, bons. E geralmente são ótimos. Beberia todos os dias da minha vida se fosse possível. Mas não é disso que se trata.

Ocorre que junto à exibição dos seus rótulos pesos-pesados (geralmente tintos), outros vinhos são mostrados, como uma espécie de “esquenta” para a grande atração. Pois é neste prefácio que, muitas vezes, os caldos mais surpreendem. É preciso, pois, provar com atenção todos os vinhos.

Recentemente dois produtores vieram mostrar de seus vinhos. O conhecida Luigi Bosca e o menos conhecida Familia Cassone. Após provar seus vinhos verifiquei mais uma vez o raciocínio descrito acima (isso vale para o Chile também, mas fica para outra coluna)

Luigi Bosca

O motivo da visita de Alberto Arizu, comandante em chefe da vinícola da família, a Luigi Bosca, foi uma vertical (a prova de várias safras de um mesmo vinho) do tinto Ícono. Foram cinco safras, da primeira de 2005 até aquela que nem está ainda no mercado, de 2009. Trata-se de um vinho excepcional, de vinhedos com mais de 90 anos das regiões de Luján de Cuyo, Vistalba, Las Compuertas e Finca Los Nobles e da mistura das variedades malbec (60%) e cabernet sauvignon (40%), sempre nesta proporção. As fermentação é feita em separado, de cada vinhedo e a degustação às cegas de cada terroir decide o corte final. É bárbaro! “Um equilíbrio entre a elegância e a potência”, segundo Arizu, que bebeu todas as taças até o fim, o que é raro entre os produtores que vêm mostrar suas crias. A boa nova para os bebedores de vinhos desta categoria é que a safra que está no mercado, a de 2008, está prontíssima para beber. Mas… para ter na adega uma das 6.000 garrafas produzidas deste caldo por ano é preciso desembolsar 500 reais, o que nos remete aos pontos número 1 e 2 acima.

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Por um quinto deste preço (R$ 114,00), a mesma Luigi Bosca elabora um malbec de vinhas também antigas que é o bicho!  Malbec Terroir los Miradores 2011. Já tinha provado este vinho em primeira mão em viagem a Mendoza este ano. Este segundo gole confirmou minhas primeiras impressões. Encorpado, mas com alguma frescura a acidez, ótima fruta, final longo. Macio. Coisa fina mesmo, e o rótulo, que mostra a raiz se aprofundando no solo representa bem a importância do solo (aluvial).  “É importante a Argentina mostrar a importância e relevância do terroir”, indica Arizu.

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E se a ideia for algo que abra o paladar para novas sensações, a dica é um riesling surpreendente de vinhas de 60 anos. Riesling Las Compuertas 2014. Floral no primeiro impacto, com muita fruta cítrica no nariz um toque de maça verde (zero da clássica descrição de “notas de petróleo”), na boca confirmam o cítrico e o pêssego envolvidos numa acidez que alarga o vinho no paladar e traz aquela salivação gostosa. R$ 86,00

Os vinhos de Luigi Bosca são vendidos pela Importadora Decanter

Familia Cassone

Meu primeiro contato com os vinhos da Familia Cassone foi em abril de 2014 no Encontro de Vinhos Off, organizado pelos competentes Beto Duarte e Daniel Perches. É aquele esquema de sempre, de um lado o produtor oferecendo seus tintos e brancos e do outro os consumidores curiosos estendendo a taça para conhecer os vinhos. No geral o paladar costuma dar “tilt” depois de vários goles meio sem critério, tamanha oferta de rótulos. Fui lá com minha taça, atraído pela mescla de cabernet franc – uma uva que sou fã – junto com a malbec e syrah de seu rótulo principal. O nome é meio presunçoso: Obra Prima Maximus Gran Reserva Familiar. Mas mostrou a que veio este gladiador de Mendoza. A safra 2011 levou 95 pontos do conceituado Guia Descorchados e a de 2008 90 pontos do Parker. Provei outros vinhos, seus malbecs, e cabernet sauvignon e no meio de tantos produtores foi uma marca que ficou na lembrança. O responsável pela operação brasileira, Marcelo Cassone, é daquele tipo que vende areia para camelo e fala e gesticula até convencer o consumidor. Acabei levando umas garrafas para casa.

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Recentemente a Familia Cassone veio a São Paulo apresentar toda sua linha e o braço brasileiro da operação: 80% da produção é exportada e o mercado brasileiro é sempre importante. Os destaques eram o já comentado Obra Prima Maximus Gran Reserva Familiar 2011, que realmente é um belo trabalho do enólogo Federico Cassone, que na contramão da presunção do nome do vinho é de uma simplicidade cativante. O que vale é o vinho, não tem muita mistificação. E o vinho tem aquela boa potência, estrutura, 18 meses de barricas de primeiro uso, frutas, especiarias, mas tudo na medida que se encaixa num fim de boca muito atraente e macio. É o topo de linha da Família Cassone, e nem chega a ser tão caro assim (R$ 230,00). Mas…

Blend

…mas mais uma vez o que me encantou foi um outro rótulo que Federico trouxe na mala, que chegará em breve ao Brasil. O Obra Prima Blend Reserva 2012. Um blend de malbec (65%), cabernet sauvignon (20%) e cabernet franc (15%). Também uma expressão dos vinhedos de Luján de Cuyo, em Mendoza, mas mostra um caminho de leveza e fruta mais fresca que o enólogo vai impondo aos vinhos da casa. Aquele frescor que começa a ser privilegiado em alguns tintos sul-americanos (leia O Novo Vinho Chileno, mas gastronômico, mais natural) aliado a uma fruta gostosa, mais pura, menos pesada. O assemblage faz um balanço das frutas e a violeta do malbec se combina com uma amora do cabernet sauvignon (ou seria do cabernet franc?), um toque defumado e um tantinho herbáceo do cabernet franc. Um vinhaço que custará R$ 107,00 nas gôndolas de delicatessens e grandes lojas (não serão vendidos em supermercado)

 Os vinhos da Familia Cassone são vendidos pela BFC/Brasil 

 

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segunda-feira, 7 de abril de 2014 Novo Mundo, ViG | 08:31

50 vinhos argentinos que vale a pena conhecer. Parte 4. Vinhos de Mendoza sem malbec

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Você gosta de malbecs argentinos, de Mendoza? Ok, temos uma coluna só sobre isso. Malbecs de outras regiões, como Salta e Patagônia também podem ser encontados neste post aqui, é só clicar. Há recomedações também para quem aprecia  a malbec misturada a outras uvas. Mas nesta quarta e última parte da série de 50 vinhos saborosos da Argentina que vale a pena conhecer, as dicas são de vinhos de Mendoza em que a  uva malbec é deixada de lado. São vinhos produzidos com outras uvas. Para mim, as melhores surpresas de uma viagem à Argentina para explorar um pouco mais o universo dos tintos (mais esses) e brancos do país.

Atenção, não é uma lista dos melhores vinhos da Argentina, mas uma seleção da rica amostra de tintos e brancos que provei em uma semana em viagem por lá. Trata-se, como só pode ser, de uma seleção pessoal.

Região de Mendoza – varietais de outras uvas

80% da produção de vinhos da Argentina está concentrada nos vales de Mendoza, limítrofes à Cordilheira dos Andes. Apesar da fama – justa – da malbec, muitas outras variedades são plantadas aqui com excelente resultado. Esta lista mostra algumas delas que resultam em vinhos varietais de respeito, deliciosos e que expressam o potencial de cada uva. O meu destaque fica por conta da cabernet franc (a variedade que mais cresce) e da cabernet sauvignon. Mas há surpresas, como uma boa branca verdelho, outra viognier, dois syrah explêndidos e outras experiências. Diversidade é a palavra do vinho.

 

Numina-Cabernet-Franc-2011

40 Numina Cabernet Franc

Bodegas Salentein

Região: Vale do Uco

Site oficial: http://www.bodegassalentein.com/

Uva: abernet franc

Importador: Zahil

R$ (entre 20 e 30 dólares na Argentina)

 Voz do vinho: grande vencedor da AWA (Argentina Wine Awards) 2014 na categoria cabernet franc de 20 a 30 dólares, lá na Argentina. Tem uma característica da fruta de Mendoza, que é um toque defumado, um boa doçura de taninos, além de especiarias e frutinhas vermelhas.

Por que escolhi: bom representante da qualidade do cabernet franc argentino

 

largardecabfranc41 Lagarde Cabernet Franc 2011

Bodega Lagarde

Região: Luján de Cuyo, Mendoza

Site oficial: www.lagarde.com.ar

Uva: cabernet franc

Importador: DeVinum

R$ 80,00

Voz do vinho: aroma intenso de geleia de frutas vermelhas, notas de eucalipto, herbáceas e o mesmo toque defumado que caracteriza o Numina. doce, suavidade cativante. Tem um final longo e persistente.

Por que escolhi: bela presença em boca

 

CAsarenaCabernetFranc42 Casarena Single Vineyard Cabernet Franc 2011

Casarena Bodega y Viñedos

Região: Agrelo, Luján de Cuyo

Site oficial: www.casarena.com

Uva: cabernet franc

Importador: Magnum

R$ 130,00

A voz do vinho: quem acompanhou esta série de indicações da Argentina percebeu uma certa queda pelos rótulos da Casarena, da Pascual Toso e da Lagarde. Mais uma vez o cuidado do jovem enólogo Bernardo Bossi Bonilla se traduz neste cabernet franc de grande estrutura, potência, com a fruta (amoras) e o toque herbáceo em perfeita comunhão e que se beneficiam do tempo em barrica francesa (18 meses).

Por que escolhi: por que eu quero insistir na tecla da cabernet franc argentina de boa qualidade

 

Tomero-petit-verdot43 Tomero Petit Verdot 2011

Vistalba

Região; Luján de Cuyo

Site oficial: http://www.carlospulentawines.com/

Uva:  petit verdot

Importador: Domno Brasil

R$ 90,00

A voz do vinho: linha varietal da Bodega Vistalba, que também tem ótimos vinhos de corte, denominados de Corte A, B e C. Aqui a petit verdot se destaca por frutas vermelhas marcantes acrescidas de um eucalipto aparecidinho. Bem macio e doce na entrada, um bom corpo e um belo final.

Por que escolhi: por ser um varietal agradável de petit verdot

 

La_Espera_Syrah44 La Espera Reserva Syrah 2007

Funckenhausen Vineyards

Região: San Rafael, Mendoza

Site oficial: www.funckenhausen.com

Uva: syrah

Sem importador no Brasil

A voz do vinho:  envolvido em negócios marítimos, o alemão Kurt Hienlein aos 74 anos resolveu investir em seu sonho e adquire um vinhedo em Mendoza. Seu objetivo é montar uma vinícola butique, com vinhos de alta qualidade e expressão. Este trabalho do tempo que o vinhedo exige, combinado ao tempo que aguardou para investir em vinhos se traduz no poético rótulo que mostra um banco vazio e representa graficamente o nome do vinho: La Espera. O clima mais frio da região de San Raphael permitiu uma ótima maturação da syrah e a variedade revela suas características de potência, corpo e especiarias com grande elegância e persistência. Passa 12 meses na barrica. Safra de 2007, com mais alguns anos de maturação na garrafa. Mais uma espera, antes de ir para a taça. Um vinho para se decantar e conhecer aos poucos.

Por que escolhi: um vinho que encanta o paladar e um rótulo que encanta os olhos

 

Argento45  Argento 2013 

Bodega Argento

Região: Maipú

Site oficial: http://www.argentowine.com/pt/

Uva: bonarda

Importador: Domno

R$ 25,00

A voz do vinho: um bonarda fresco, jovem e fácil de beber, doce na entrada e com uma boa  fruta

Por que escolhi: tinha de selecionar um bonarda, não? Preferi este de caráter mais jovem e fácil de gostar, de encontrar e com ótimo preço

 

 

PAscualTosoALtaSyrah

46. Pascual Toso Alta Reserva  Syrah 2012

Pascual Toso

Região: Maipu, Mendoza

Site oficial: www.bodegastoso.com.ar

Uva: syrah

Importador: Vinoteca Dibeal Brasil CIEBA

R$ 100,00

A voz do vinho: Pascual Toso Alto Reserva é o vinho argentino mais vendido, em valor, no exigente mercado japonês. A grife do enólogo americano Paul Hobs ajuda um pouco, mas vamos combinar que o homem entrega. Este syrah de solo pedregoso interage por 24 meses em barricas de carvalho o que lhe aporta uma fruta madura, uma potência importante e envolventes notas de especiarias, revelando um tinto de classe e vigoroso. Trata-se da primeira safra da linha Alta Reserva. Começou arrasando. Quem disse que o papel dos consultores é sempre nocivo para o vinho e sua identidade, hein, Jonathan Nossiter?

Por que escolhi: apesar de seu colega cabernet sauvigon da linha Alto Reserva também impressionar este syrah arrasou no vigor da uva

 

SeptimaCS47. Septima Obra Cabernet Sauvignon 2012

Bodega Septima

Região: Luján de Cuyo e Tunuyán

Site official: http://www.bodegaseptima.com/

Uva: cabernet sauvignon

Importador: Interfood

R$ 115,00

Voz do vinho: cria do grupo Cordoniu, a Bodega Septima é comandada por enólogas mulheres. O cabernet sauvignon passa  10 meses por barricas de segundo uso francesas e americanas, que aporta um café com leite, baunilha e notas tostadas (quase um café da manhã, não?). Tem uma boca ampla, gostosa onde se destacam aquelas frutas vermelhas como cerejas e o defumado percebido no nariz.

Por que eu escolhi: cabernet sauvignon saboroso e bem feito argentino

 

IMG_253948 Lagarde Viognier 2013

Bodega Lagarde

Região: Luján de Cuyo, Mendoza

Site oficial: www.lagarde.com.ar

Uva: viognier

Importador: DeVinum

R$ 46,00

A voz do vinho: um vinho é um vinho e seu contexto. Este expressivo, refrescante e untuoso viognier eu provei numa sacada à beira de um vinhedo nas franjas da cordilheira dos Andes. Seus aromas de flores eram delicados e não carregados como costuma apresentar a viognier do novo mundo. E a acidez dava uma bela sensação de frescor.

Por que escolhi: delicioso para bebericar sem compromisso, ou com compromisso pelo prazer.

 

Verdelho

49 Cristóbal 1492 Verdelho 2013

Don Cristóbal

Região: Rivadavia, Mendoza

Site oficial: www.doncristobal.com.ar

Uva: verdelho

R$ 30,00 a R$ 35,00

A voz do vinho: ora pois, o que a uva nativa da Ilha da Madeira, em Portugal, vem fazer aqui nos vinhedos argentinos? O resultado é bem interesse é merece ser provado. Aromático, fresco, com ampla acidez, e com uma untuosidade gostosa.

Por que escolhi: por que até um argentino pode arriscar um fado de vez em quando

 

Chardonnaypenedo50 Chardonnay Reserva 2012

Otaviano Bodega & Viñedos

Região: Luján de Cuyo, Mendoza

Site official: www.bodegaotaviano.com

Uva: chardonnay

R$ 45,00

A voz do vinho: para quem aprecia um estilo de chardonnay mais potente, exibido, este é uma boa pedida e por um bom preço. Tem notas doces de abacaxi em compota, as contribuições da barrica são a presence de caramelo e baunilha, além do tostado. Um vinho bem untuoso e de um chardonnay novo mundo

Por que escolhi: bom exemplo de um certo estilo de chardonnay

 

Preços coletados em abril de 2014

Declaração: Este colunista esteve na Argentina a convite da Wines of Argentina, onde provou 228 vinhos, visitou várias vinícolas e teve contato com dezenas de produtores. Desta boca-livre resultou o texto produzido neste post sobre os vinhos argentinos.

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sexta-feira, 4 de abril de 2014 Novo Mundo, ViG | 01:49

50 vinhos argentinos que vale a pena conhecer. Parte 3 – vinhos de corte de Mendoza

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Nesta terceira parte da lista de 50 vinhos saborosos da Argentina que vale a pena conhecer, o destaque são os vinhos de corte (blend, ou mistura de várias uvas na elaboração do vinho) de Mendoza.

Atenção, não se trata de uma lista dos melhores vinhos da Argentina, mas uma seleção da rica amostra de tintos e brancos que provei em uma semana em viagem por lá. Trata-se, como só pode ser, de uma seleção pessoal.

Na próxima e última nota desta série, os destaques são os  vinhos varietais (feitos de uma única uva)  de outras variedades  diferentes da malbec da região de Mendoza.

Região de Mendoza – vinhos de corte (blends)

A região de Mendoza também é pródiga em blends ou vinhos de corte do tipo bordalês ou tendo a malbec como protagonista, mas sendo escoltada por outra variedade, aportando mais estrutura, acidez, potência e diversos sabores. No geral, os tintos  top de linha das principais vinícolas são blends de malbec,. Esta escolha pela mistura no principal rótulo já diz  muita coisa sobre este estilo de vinho.

unanimemascota 26 Unânime 2009

Mascota Vineyards/Santa Ana

Região: Vale de Uco

Site official: http://www.bodegas-santa-ana.com.ar/sitio-Por/index.php

Uvas: cabernet sauvignon, malbec, cabernet franc

R$ 78,00

A voz do vinho: para começar uma lista de vinhos de corte, nada melhor que uma unanimidade, pelo menos no rótulo. O vinho ícone da Mascota é um blend espetacular que tem este nome pois na hora de decidir o corte ideal para o rótulo existiu um consenso entre todos os envolvidos. Complexo na boca, entrega as frutas da malbec e a estrutura da cabernet sauvignon. Gostoso na entrada e com bom fim de boca.

Por que escolhi: bom exemplo de blend por um bom preço

 

casarena50527 505 essência Blend 2013

Casarena Bodega y Viñedos

Região: Agrelo, Luján de Cuyo

Site oficial  www.casarena.com

Uvas: malbec 50%, cabernet  sauvignon 30% e merlot  20%

Importador: Magnum

R$ 35,00

A voz do vinho: quem disse que os vinhos de corte precisam ser caros? Boa mescla, belo exemplo de blend macio, fruta franca, vinho correto, redondo, fácil de beber e de gostar.

Por que escolhi: bom blend de entrada

 

amanodecero28. Decero Amano Remolinos Vineyard 2011

Finca Decero

Região: Agrelo

Site oficial: http://www.decero.com/about/remolinos-vineyard/

Uvas: malbec 60%, cabernet sauvignon 30%, tannat 1%, petit verdot 4%

Importador: era da Ana Import

R$ 264,00

A voz do vinho: outro que levou o Trophie de melhor blend acima de 50dólares do AWA  (Argentine Wine Awards) 2104. Muito perfumado, bem malbec no nariz, muita fruta do cabernet sauvignon e taninos e estrutura do tannat e petit verdot, que também dá acidez. Passa 22 meses na barrica amaciando, apurando seus sabores e desenvolvendo seus aromas. Vinho de gente grande

Por que escolhi: paixão ao primeiro gole

 

expressiones29. Expresiones Reserve 2012

Finca Flichman

Região: Mendoza

http://www.flichman.com.ar/home.html

Uvas: malbec 60% e cabernet sauvignon 40%

Importador La Pastina

R$ 60,00

A voz do vinho: esta medida de 60% malbec e 40% cabernet sauvignon com um tempo de passagem pela barrica  parece que dá certo. Aparece em muitos rótulos de Mendoza. As frutas vermelhas e as notas de especiarias aparecem, criam volume em boca e um tanino delicado traz maciez e um final prolongado.

Por que escolhi:  boa “impressão” ao primeiro gole que se confirma com o tempo em taça

 

lagarde-henry-gran-guarda,jpg30 Henry Grand Guarda nº 1 2009

Lagarde

Região: Luján de Cuyo, Mendonza

Site oficial: www.lagarde.com.ar

Uvas: cabernet sauvignon 39%, malbec 35%, petit verdot 13% e cabernet franc 13%

Importador: DeVinum

R$ 210,00

A voz do vinho: o vinho número 1 da Lagarde só é elaborado em safras especiais e passa dois anos em barricas de carvalho de primeiro uso. A palheta de aromas é ampla, com destaques para café, couro, tostado, tabaco do tempo em madeira, pimenta, fruto maduro. O paladar confirma esta impressão, tanto na intensidade como na qualidade dos sabores. Potente, sério, final longo. O corte muda bastante a cada ano, o que sugere a visão do enólogo como resultado do  que a natureza lhe oferece. Já havia provado o 2007, onde a cabernet franc predominava. Este aqui é um senhor mais sério.

Por que escolhi: um corte bordalês de respeito, vinho de decanter, de reflexão

Trivento-AMADA-SUR31 Trivento Amado Sur Malbec 2012

Bodega Trivento

Região: variadas em Mendoza

Site oficial: http://www.trivento.com/triv/site2.php

Uvas: malbec 70%, bonarda 18% e syrah 12%

Importador: VCT

R$ 58,00

A voz do vinho: da série dormindo com o inimigo, a Trivento é um investimento da gigante chilena Concha y Toro na Argentina. O vinho de corte busca um equilíbrio e puxa o que melhor tem cada variedade. Aqui a malbec aportou elegância, a syrah a estrutura e a bonarda ampliou a acidez e completou com frutas vermelhas. Um tinto macio, suave, com uma boa fruta fresca. Sempre na lista dos vinhos smart buys (boas compras) da Argentina.

Por que escolhi: pela suavidade da mescla e preço

 

 

premios_phi-eng32 Phi– Finca el Origen 2009

Finca el Origen

Região: Vale do Uco

Site oficial: http://www.fincaelorigen.com/

Uvas: malbec 79%, cabernet franc 11%, cabernet sauvignon 7% e petit verdot 3%

Importador: Casa Rio Verde BH

R$ 150,00

A voz do vinho: a Finca El Origen também tem suas raízes no Chile, são os mesmos proprietários da Santa Carolina. Vinhaço. Elegante, complexo, com todas as qualidades que um blend aporta a uma garrafa. Tem um estilo bordalês de ser. Passa 18 meses em barricas de carvalho. A malbec torna o vinho macio e floral, a cabernet franc traz especiarias e complexidade ao caldo, a cabernet sauvignon dá envergadura e mais aromas, frutas e aquele tiquinho de petit verdot ajuda na acidez, dando mais longevidade ao vinho. Um vinho de corte por excelência. O nome Phi é letra grega que representa a proporção, o número encontrado na natureza. Muito bom também o Finca el Origen Cabernet Sauvignon, um cabernet de zona fria com 12 meses de barrica, bons taninos, fruta negra.

Por que escolhi: pela complexidade e bom uso da madeira, que não encobre a fruta

 

enamore33 Enamore 2011

Renacer e Allegrini

Região: Luján de Cuyo

Site oficial: http://www.bodegarenacer.com.ar/

Uvas: malbec 45%, cabernet sauvignon 40% e bonarda 10%

Importador Vinhos do Mundo

R$ 165,00

Voz do vinho: o que acontece quando se junta um enólogo da região do Veneto (Paolo Mascanzoni, da Allegrini) com outro da Mendoza  (Alberto Antonini, Renacer)? Um tinto vinificado como um amarone do hemisfério norte mas com uvas do hemisfério sul, ambos representados pelas linhas em forma de novelo desenhadas no topo e na base do rótulo. As uvas ficam expostas ao sol e ao vento para perder cerca de um terço de sua água. Este método tradicional do Amarone se chama apassimento, que acaba concentrando mais o açúcar da fruta. Na boca a fruta vermelha é mais doce, o vinho macio, redondo. Interessante esta transferência de método para as uvas locais.

Por que escolhi: fácil de beber e agradar e, vamos combinar, um belo nome para um vinho

 

Durigutti34 Durigutti Familia 2008

Familia Durigutti

Região: Maipú e La Consulta

Site oficial: www.durigutti.com

Uvas: malbec 85%,  cabernet franc 3%, cabernet sauvignon 3%, syrah, 5% e bonarda 4%

Importador (sem importador no Brasil)

Voz do vinho: destaque para o belo aroma de ameixas,  floral e de especiarias. Na boca mostra um sabor delicioso, equilibrado e com boa persistência de seus frutos. Passou dois anos em barricas francês e foi engarrafado em outubro de 2010. Mostrou boa evolução e vai em frente.

Por que escolhi: tem um paladar encantador

 

diamandes35 DiamAndes de Uco Gran Reserva 2008

DiamAndes

Região: Vale de Uco

Site oficial: www.diamandes.com

Uvas: malbec 70% e cabernet sauvignon 25%

Importador: Magnum

R$ 180,00

A voz do vinho: para não dizer que esqueci de Michel Rolland, aqui uma ótima contribuição de seu expertise no estilo bordalês transportado para as características do hemisfério sul. A vinícola é um empreendimento do casal Alfred-Alexandre e  Michèle Bonnie, proprietário do Château Malartic-Lagravière e do Château Gazin Rocquencourt, em Bordeaux. 15 milhões de dólares de investimento depois eles inauguraram a estonteante Bodega DiamAndes onde elaboram parte das 1 milhão de garradas do vinho-consórcio Clos de los 7. Além desses rótulos também produzem a linha DiamAndes. Um bom viognier de entrada, um malbec e este gran reserva. O vinho passa 24 meses em barricas francesas de primeiro uso, é bem escurão, muito macio na boca, potente. As frutas negras e tostados são expressivas e elegantes. O conceito de viticultura de precisão alcança pontos de maturação mais precisos para as uvas selecionadas.

Por que escolhi: um novo clássico argentino

 

piatelli36  Trinitá Piatelli

Piatelli Vineyards

Regiões: Agrelo, Luján  de Cuyo e Vale do Uco

Site oficial: http://www.piattellivineyards.com/

Uvas: malbec, cabernet sauvignon, merlot

Importador: Vinhos do Mundo

R$ 205,00

A voz do vinho: vinhedos de 30 a 70 anos de cabernet sauvignon, malbec e merlot  fornecem a matéria-prima para esta belezinha. As varietais são afinadas em separado por 12 meses em pequenas barricas de primeiro e segundo uso preservando a fruta na composição do corte. A boca mostra cerejas negras maduras que aparecem antes nos aromas. Potente, de grande volume, vale decantar ou pelo menos deixar um tempo na taça para revelar seus frutos, toques de especiarias e os efeitos da barrica que ampliam o vinho mas não o esconde.

Por que escolhi: por que é delicioso de beber

 

Gonzalezodonnel37 Gongález O’ Donnell

Hacienda del Plata

Região: Luján de Cuyo

Site official http://haciendadelplata.com/

Uvas: malbec 50% e cabernet sauvigon 50%

Importador: Wine to Go

R$ 232,00

A voz do vinho: a hacienda del Plata é um vinícola boutique de uma família de origem irlandesa, daí o nome no rótulo. São apenas 750 garrafas deste rótulo. O caldo passa 36 meses em barricas de carvalho francês de primeiro uso seguidos de mais 18 meses de envelhecimento em garrafa antes de ser comercializado. Elegante no nariz e na boca, combina em parcelas iguais a cabernet sauvignon e a malbec e desta disputa por espaço nasce um tinto de corte que é longo e de bastante impacto. Merece decantar antes de servir.

Por que eu escolhi: pelo privilégio de ter provado uma das 750 garrafas

 

bcrux38 Bcrux 2010 tempranillo

O Fournier

Região: La Consulta

Site oficial: http://www.ofournier.com/web/ar_00_es.html

Uvas: tempranillo, malbec e touriga nacional

Importador: Vinci Vinhos

R$ 114,00

A voz do vinho: o espanhol José Manuel Ortega Gil-Fournier tem uma história curiosa, largou a vice-presidência do Santander para se dedicar aos vinhos. Hoje possui vinícolas no Chile, Argentina e na Espanha natal. Mas montou morada na Mendoza, onde a mulher tem um premiado restaurante na vinícola e deve abrir outro na cidade. Os vinhos de O Fournier se distinguem por uma busca de qualidade sem exagero no preço. A linha BCrux é intermediária, é muito amplo na boca e apetitiso no paladar. O BCrux sempre foi uma mescla em que a tempranillo, não por acaso a uva de expressão da Espanha, foi protagonista, mas as outras uvas  que compõem a mescla  variam. Desde 2009 Gil-Fournier começou a acrescentar a portuguesa touriga nacional, que tem dado bons resultados e acrescentado mais  aroma ao tinto.

 Por que escolhi: os vinhos de Fournier merecem ser conhecidos, a linha Urban, na média de 50 reais, é um bom início

 

PascualTosoMagdalena39 Magdalena Toso 2011

Pascual Toso

Região: Maipu, Mendoza

Site oficial: www.bodegastoso.com.ar

Uva: malbec 60%, cabernet sauvignon 40%

Importador: Vinoteca Dibeal Brasil CIEBA

R$ 370,00

 A voz do vinho: expressão sublime da malbec, mostrando todo o potencial da região de Barrancas, em Maipú, Mendoza, combinado ao cabernet sauvignon. As uvas rigorosamente selecionadas em colheita manual, e depois fermentadas e enriquecidas em barricas de carvalho francês se transformam num vinho estupendo.  Muito intenso nos aromas, vai se abrindo aos poucos e revelando camadas de frutas, compotas, chocolate, a boca é o que mais me impressionou, um veludo, e um final longo e telúrico. A madeira integrada acrescenta e não doma o vinho. Potente e expressivo.

Por que escolhi: em degustações grandes costumo dar estrelas aos vinhos que provo como referência para o futuro. A memória gustativa era boa, a memória escrita marcou  cinco estrelas neste aqui.

Preços coletados em abril de 2014

Declaração: Este colunista esteve na Argentina a convite da Wines of Argentina, onde provou 228 vinhos, visitou várias vinícolas e teve contato com dezenas de produtores. Desta boca-livre resultou o texto produzido neste post sobre os vinhos argentinos.

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segunda-feira, 1 de julho de 2013 Degustação, Novo Mundo, ViG | 13:41

A Argentina não é só malbec, mas é malbec também

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É, o mundo do vinho (world wine) e o Cone Sul se renderam ao idioma do Tio Sam (Uncle Sam) mesmo. O evento chama-se Grand Tasting Argentina 2013, quem promove é o Wines of Argentina, a degustação principal atende pelo nome de Master Class, as visitas guiadas entre os participantes ganharam o título de Wine Walks e um dos malbecs mais surpreendentes da feira tem estampado no rótulo o nome The Apple Doesn’t Fall Far From The Tree. Tudo isso em São Paulo, é claro. O  objetivo é “mostrar ao mercado brasileiro a grande diversidade dos vinhos argentinos.” Mas nem tudo está perdido na defesa do purismo latino-americano, no mapa do belíssimo folder preparado pela Wines of Argentina com as principais regiões vitivinícolas do país, as Falklands continuam identificadas no mapa geral como Islas Malvinas…

Tertúlias idiomáticas e ideológicas à parte, havia um cheiro de frutas vermelhas e violetas no ar: um mar de malbecs invadiu os salões do hotel onde os argentinos expunham seus rótulos. Mas não só de malbec. Mais de 40 produtores desarrolharam suas garrafas e mostraram a qualidade e variedade de estilos de vinhos numa exposição significativa das três principais regiões vitivinícolas da Argentina. São elas:

Norte – Salta, Catamarca e Tucumán; aqui estão os vinhedos de maior altitude da Argentina.

Cuyo – Mendoza, San Juan e La Rioja; você provavelmente bebeu um malbec desta região, por aqui são produzidos 80% dos vinhos do país, sendo Mendoza a principal estrela.

Patagonia – Neuquém, Río Negro e La Pampa; os vinhedos mais ao sul do planeta são próprios para caldos mais delicados, tanto de brancas como sauvignon blanc como as tintas pinot noir e refinados malbec.

Vinhos argentinos, consumidor brasileiro

A Argentina ocupa o segundo lugar no ranking de importação de vinhos para o Brasil, com 20,38% em volume, só perdendo para o Chile (39,72%), com folgada dianteira de Portugal e França que estão respectivamente em terceiro ou quarto lugares, dependendo do critério que se use (volume ou valor). Nossos vizinhos colocaram no mercado brasileiro mais de 1,6 milhões de caixas de vinho em 2012.

Ou seja, inimigos no campo de futebol, a rivalidade é superada na taça. É o vinho do dia-a-dia de muito brasileiro, de iniciação para muita gente, incluindo alguns especialistas que deram seus primeiros goles em malbecs e cabernets dos pampas e hoje olham com desdém para os fermentados vizinhos.

Côt, mas pode chamar de malbec

Não tem como escapar do chavão: a malbec é sinônimo de vinho argentino. E com justiça.  É o maior produtor mundial da uva. Só para contextualizar, do total de hectares plantados um terço é de malbec.  De origem francesa, de Cahors, em Bordeaux, onde atende o nome de Côt, a malbec encontrou abrigo em terras argentinas e com melhorias no plantio e cuidados na adega mostrou um enorme potencial; há caldos belíssimos, de variados estilos, e uma grande massa muito padronizada para o consumo de massa. Vinho do dia a dia é importante. Afinal de contas, às vezes a gente só quer um vinho palatável para acompanhar um prato ou matar a sede do fermentado de uva – e não pagar muito por isso.

Abaixo um vídeo da Wines Of Argentina com um pouco da história do Malbec e suas principais regiões

Os descritivos da malbec são unânimes na questão da cor: é um vinho profundamente escuro, nos aromas aparecem frutos negros, frutas vermelhas e algum floral em algumas regiões. Na boca se caracteriza pela maciez e doçura (quando doce demais é enjoativo), ganha grande expressão ao passar por madeira, adquirindo aí lembranças de cafém chocolate, tabaco e baunilha.

Uma frase do enólogo Angel Mendoza, citada no livro Vino Argentino, de Laura Catena, filha de Nicolás Catena, o grande responsável pela evolução na qualidade dos malbecs argentinos, resume bem as sensações que um malbec deve transmitir ao consumidor:

“Eu tenho uma agradável lembrança de Robert Mondavi, na ocasião em que ele visitou a vinícola Trapiche, em 1994, e me disse: ‘Um grande malbec deve impressionar por sua profunda e atraente cor escura, seu intenso aroma de frutas negras combinado com um toque de carvalho e seu paladar doce, macio como o bumbum de um bebê recém-nascido…’ “

VIG (Vinho Indicado pelo Gerosa) – Argentinos do Grand Tasting 2013

Como o evento quis demonstrar, existe uma Argentina além do malbec e ela merece ser conhecida. O Grand Tasting 2013 mostrou ainda que a uva tem potencial tanto para vinhos de primeira qualidade, em vôo solo, os chamados varietais, como acompanhada  de outras variedades (os blends).

O Blog do Vinho preparou um seleção de 15 vinhos exibidos na feira, que na opinião deste colunista representam uma amostra da qualidade e do potencial da Argentina de hoje (portanto estão de fora clássicos argentinos que você está acostumado ver por aí, como os do pai da Laura, ok?).

A seção especial VIG (Vinho Indicado pelo Gerosa) Argentinos do Grand Tasting 2013 está dividida em três blocos:

  1. 100% Malbec;
  2. Além do Malbec;
  3. Cortes: Malbec e Outras Uvas

VIG 100% Malbec

A pura expressão do malbec com seus aromas de frutas negras, frutado marcante, aveludado e até um pouco doce, onde flores e frutas se encontram, o álcool, às vezes alto, se integra com a madeira que entrega complexidade e um fôlego para um final mais prolongado.

Vallisto 2010
Vallisto – Valle de Cafayate – (http: www.vallisto.com)
Uva: 100% malbec
Importador: não tem

Este malbec é especial. É aquele tipo de vinho que tem identidade, personalidade e uma boa história. Três enólogos, Francisco Lavaque, Marcelo Pelleriti e Hugh Ryman se uniram para elaborar um blend (uma mistura) de malbecs. Cada um elegeu 5 parcelas dos vinhedos do Valle de Cafayate e juntos chegaram à concepção deste caldo surpreendente que ficou amaciando 12 meses em barrica e traz concentração de fruta e complexidade na boca e um nariz sutil de fruta queimada. De vida longa na garrafa. De se beber exclamando: ohhh!
Sem importador no Brasil. Ahhhh!

The Apple Doesn’t Fall Far from the tree
Matias Riccitelli  – www.matiasriccitelli.com
Uva: 100% malbec
Importador: não tem

Um vinho com este nome chama a atenção de imediato. A explicação dada pelo jovem enólogo Matias Riccitelli é a que segue: “Assim como uma maçã não cai longe da árvore, um vinho não pode ser elaborado sem uma história. Minha história reflete os ensinamentos de minha família e a paixão que caracteriza a todos e cada um de nós.” Matias, vale destacar, é filho  do prestigiado enólogo da Norton, Jorge Ricitelli.  Este malbec de vinhedos de mais de 15 anos, que estagia em barricas francesas por 12 meses, tem no seu DNA a tradição do aprendizado e a fagulha da inovação. É moderno, concentrado, com boa fruta e final longo. A suavidade e doçura dos taninos interagem com a boa acidez. Matias tem mais dois outros malbecs: Vineyard Selection e Republica del Malbec, este último ele considera a máxima expressão da malbec, elaborado a partir de vinhedos de 80 a 100 anos. São vinhos mais complexos – passam 16 e 18 meses em barrica -, mais sérios, mas eu aposto mais na proposta quase irreverente do The Apple Doesn’t Fall Far The Tree. Algum importador disposto a apostar no rapaz?

Casarena Lauren’s 2010
Casarena Bodega y Viñedos (www.casarena.com) – Mendoza/Agrelo
Uva: 100% malbec
Importador: Magnum
R$ 130,00

O rótulo é uma vista área geométrica e estilizada do vinhedo em Agrelo. Uma parcela única  abastece este vinho de floral intenso, a tal da violeta, quase um vidro de perfume em forma de vinho, e de boca ampla e sedutora. Um malbec feminino e sedutor, para aqueles que apreciam a exuberância do primeiro impacto, mas exigem estrutura no paladar.

Sottano Judas Malbec 2009
Bodega Sottano (www.bodegasottano.com) Mendoza
Uva: 100% malbec
Importador: Max Brands
R$ 300,00

Um tinto superlativo em tudo, inclusive no preço. Começa pela garrafa pesada – para muitos um quesito de qualidade, para mim apenas um esforço maior em manusear o vasilhame e um custo maior ao meio ambiente -, passa pela tinta escura, por uma explosão de aromas, pela madeira presente (18 meses de primeiro uso, francês e americano) e por uma estrutura marcante, um corpo e final intensos. Vinhão, mostrando todo o potencial da malbec. São produzidas apenas 5.000 garrafas desta belezinha que justifica seu nome por meio de sua história. Este caldo era produzido para consumo interno. Um dos filhos que comanda a bodega começou comercializá-lo, sem contar para a família. Desvendada a experiência, o tinto entrou em linha e foi  batizado como Judas, por conta da traição familiar. Tipo da história que ajuda a compor um mito, não faria muito sucesso em alguns bairros de São Paulo…

Terrazas Single Vineyard las Compuertas Malbec
Terrazas de Los Andes (www.terrazasdelosandes.com) – Mendoza –
Importador: Moët Hennessy do Brasil
R$: 205,00

Terrazas é um velho conhecido do consumidor brasileiro. Sua bem feita linha reserva é presença constante nas prateleiras dos supermercados. Sua etiquetas ensinaram ao consumidor a importância dos vinhos varietais de altitude. O malbec macerado e fermentado nesta garrafa vem de vinhedos antigos e únicos plantados a  1067 metros do nível do mar. O caldo é rico, concentrado, fino, de uma riqueza aromática e uma boca ampla. Aquelas frutas vermelhas doces, os florais típicos da malbec, mas sem excesso.

VIG Além do Malbec

As três grandes regiões da Argentina produzem também outros tipos de uvas, como cabernet sauvignon, cabernet franc, petit verdot. Destaque para a bonarda, outra variedade que merece representar o país como melhor expressão de sua terra. Entre as indicações um surpreendente semillon de 1942 de tomar de joelhos.

Pascual Toso Alta Reserva 2009
Pascual Toso – Mendoza (www.bodegastoso.com.ar)
Uva: 100% cabernet sauvignon
Importador: Vinoteca Dibeal Brasil CIEBA
R$ 100,00

A Pascual Toso é o vinho argentino mais vendido, em valor, no exigente mercado japonês. A consultoria do enólogo americano Paul Hobs ajuda um pouco, mas vamos combinar que o homem entrega. Este cabernet sauvignon de solo pedregoso interage por 24 meses em barricas de carvalho o que lhe aporta uma fruta madura, uma potência importante e revela tinto de classe e vigoroso. Trata-se da primeira safra da linha Alta Reserva. Começou arrasando. Quem disse que o papel dos consultores é sempre nocivo para o vinho e sua identidade, hein, Jonathan Nossiter?

Bonarda 2007 – Reserva Edição Limitada
Nieto Senetier (www.nietosenetiner.com.ar) – Mendoza
Uva: 100% bonarda
Importador: Casa Flora
R$: 100,00

Há anos este bonarda Reserva Edição Limitada é uma unanimidade. O tradicional rótulo dourado, meio brega, parece uma fivela, nunca decepciona. Vinhedos de 35 anos, 12 anos de madeira francesa. Um top bonarda. Tem um bom volume,  muita  expressão de fruta em boca, e uma boca redonda, ampla, que convida novos goles. Quer conhecer o potencial e a grandeza da bonarda? Prove este vinho.

Decero Petit Verdot 2010
Finca Decero (ww.decero.com) – Mendoza
Uva: petit verdot
Importador: Anna Import
R$: 145,00

Um varietal 100% petit verdot é quase uma ousadia. Não é uma unanimidade. Mas a mim me agrada muito. Comum em cortes, este petit verdot é parte do vinho ícone da Finca Decero, o Amano Remolinos Vineyard (R$ 240,00), que leva doses de malbec, cabernet sauvignon, petit verdot e tannat e exibe todo pimpão um final longo e harmonioso.  Para esta “Mini Edição” são selecionadas pequenas parcelas de petit verdot colhidas à mão, com baixo rendimento – o que dá frutos mais vigorosos. Na cantina passa 16 meses em barris de carvalho francês. Um ataque floral no nariz é seguido por um bom volume em boca  macio e boa acidez. O vinho redondo, sem arestas, agradável de beber. De petit, ele não tem nada.

Don Baltazar Cabernet Franc
Bodegas y Viñedos Casa Montes S.A. (www.casamontes.com.ar) – San Juan.
Uva: cabernet franc
Importador: Itanav Food & Beverages
R$: 60,00

A Argentina tem bons cabernets francs. Este Don Baltazar ainda tem o mérito de ser um vinho acessível. Uma fruta gostosa é seu principal mérito, que persiste no final da boca. Tem um nariz agradável algo de ervas e baunilha. Um vinho que convence, mas não é convencido. E demonstra a qualidade desta uva pouco conhecida em carreira-solo.

Lagarde Semillon 1942
Lagarde – Mendoza (www.lagarde.com.ar)
Uva: semillon
Importador: DeVinum
R$: 500,00 (quando decidem vender)

Você não vai conseguir comprar este vinho. Nem eu. Este é aquele tipo de vinho de exibição que algumas vinícolas têm a sorte – e o privilégio – de exibir em eventos como este. Vale pela história, vale pelo vinho. Quando adquiriu a bodega em 1975 a família Pescarmona deparou com um tonel com capacidade de 1.800 litros de um semillon (uma uva branca) de 1942! É quase como ganhar na loteria sozinho. Conta-se que era comum em Mendoza, em meados do século passado, usar 5% de vinho branco para dar uma amenizada no caldo tinto. No caso da Lagarde a fórmula era 95% de malbec com 5% de semillon. Em raros anos era elaborado em semillon de colheita tardia. Este foi o tonel encontrado. O vinho terminou de ser engarrafado em 1990 e restam apenas 250 garrafas que somente em ocasiões especiais são abertas e raramente comercializadas. A última garrafa foi vendida por cerca de 500 dólares. O vinho tem uma cor amarelo ouro, um aroma intenso de frutas secas, seco na boca, tem um toque oxidativo típico que lhe confere uma nobreza e um final longo. Às cegas você jura que está bebendo um Jerez, do estilo amontillado. Uma raridade premiada em todo o mundo e exibida como joia da coroa da Lagarde. Foi um privilégio, eu sei. É um vinho de exibição e eu fui um pouco exibido. Espero não ser alvo de passeatas…

VIG Cortes: Malbec e Outras Uvas

Vinhos de corte são basicamente vinhos de autor, onde o enólogo mais exerce sua influência no resultado final da bebida, pois sua decisão de quais uvas e usar e em qual quantidade desenham o estilo do vinho. A malbec é quase sempre protagonista, mas enriquece muito escoltada por outras uvas.

Norton Privado 2009
Norton (www.norton.com.ar) – Mendoza
Uvas: Malbec 40%, merlot 30%, cabernet sauvignon 30%
Importador: Wine Brands
R$ 93,00

Jorge Riccitelli, o chef de cozinha dos vinhos da Norton, foi escolhido o enólogo do ano pela Revista Wine Enthusiast em 2012. Ele comandou uma degustação no evento Wines of Chile e apresentou, com alguma modéstia, sua criação. Trata-se do top de linha da Norton, Privado da safra 2009. Um bom vinho, agradável nos aromas de frutas maduras e uma lembrança de café da manhã na boca, com traços de café no final de boca (olha a barrica aí, gente!). Os 14,8 graus de álcool não são perceptíveis. Descansa (ou trabalha depende de como se vê as coisas) 16 meses em barricas de carvalho francês e ainda aguardar mais uma ano na garrafa antes de sair para a mesa do consumidor. E o preço não assusta.

Trapiche Iscay 2008  Malbec Cabernet Franc
Trapiche (www.trapiche.com.ar) – Mendoza
Uvas: malbec 70%, cabernet franc 30%
Importador: Interfood
R$ 200,00

Este negócio de juntar dois enólogos (ou mais), duas uvas de parcelas diversas e fazer um vinho parece que dá mais certo do que errado.  Daniel Pi, o enólogo-chefe da Trapiche, e Marcelo Belmonte, diretor de viticultura, elaboram este belo blend que varia na seleção das uvas de acordo com a safra. Iscay, na linguagem quéchua, dos incas, significa dois. A mistura da emblemática malbec com a cabernet franc traz a junção da sensação da fruta madura e notas de especiarias com um delicioso toque balsâmico. A safra de 2010 traz a combinação syrah (97%) e viognier (3%) e é simplesmente soberbo, às cegas, dir-se-ia, nobre colega, tratar-se de um legítimo Rhone, com suas características de especiarias, toques terrosos e bela acidez. Já que Iskay é sempre duplo, fica a indicação dos dois blends, ambos a 200 contos.

Tukma Gran Corte 2010
Tukma (www.bodegatukma.com.ar) – Salta
Uvas: malbec 65%, tannat 26%, cabernet sauvigon 15%
Sem importador no Brasil

Um vinho de altura, ou seja com vinhedos plantados a 1700 metros do nível do mar. O malbec se mostra na entrada, com o floral gostoso, na boca uma mistura de chocolate com tabaco, como aqueles aromas de cigarrilhas aromatizadas, no final um toque de especiarias. Boa estrutura, belo exemplar da capacidade da malbec ganhar quando misturada com outras uvas. Deve envelhecer bem na garrafa.

Henry Grand Guarda nº 1 2007
Lagarde – Mendoza (www.lagarde.com.ar)
Uva: cabernet franc 40%, malbec 31%, syrah 29%
Importador: DeVinum
R$ 210,00

O vinho número 1 da Lagarde,  como sugere o nome, só é elaborado em safras especiais e passa dois anos em barricas de carvalho de primeiro uso. A palheta de aromas é ampla, com destaques para café, couro, tostado, tabaco, pimenta, fruto do tempo em madeir. O paladar confirma esta impressão, quase um ambiente de uma charutaria em taça. Potente, sério, final longo e, curiosamente, a malbec não é protagonista, com a cabernet franc dando o tom nas frutas pretas e no toque floral.

Cheval des Andes 2007
Terrazas de Los Andes (www.terrazasdelosandes.com) – Mendoza
Uvas: malbec, cabernet sauvignon, merlot, cabernet franc e petit
verdot
Importador: Moët Hennessy do Brasil
R$ 320,00

Você chegou até aqui? Respeito a persistência. O mundo é dos perseverantes. E o prêmio é este clássico argentino, que poderia muito bem ser um clássico bordalês ou internacional. Trata-se de um Grand Cru dos Andes. A comparação não lhe cai mal. Até por suas origens: o Cheval des Andes é fruto da fusão do Chateau Cheval Blanc, de Saint Emillion e o Terrazas de los Andes. Refinado desde o rótulo simples, é uma combinação de complexidade e elegância de sabores, que vai crescendo com o tempo na taça, que deve evoluir lindamente na garrafa. Ficar enumerando aqui as frutas e aromas não transmitiria o principal do vinho: sua persistência, elegância e o prazer que se tem bebendo.

Torrontés

Um incauto pode indagar, e a Torrontés? A uva branca clássica e nativa argentina? Ela estava lá, eu tomei alguns goles destes frascos de perfume em ampolas de vinho. Mas como bem pontuou o enólogo da Norton, o premiadíssimo Jorge Ricitelli: “A torrontés não tem meio termo, ou se gosta ou se odeia”. Eu estou no segundo grupo e não me sinto isento para julgar ou indicar. Que a entenda que o ƒaça. Fui.

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sexta-feira, 24 de abril de 2009 Nacionais, Novo Mundo, Tintos | 20:28

Churchill engarrafado

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Estou sempre disposto a aprender,
mas nem sempre gosto que me ensinem.

Winston Churchill

Um tinto elaborado com a uva cabernet franc, engarrafado num vasilhame de formato bordalês, etiquetado com um rótulo idêntico ao Romanée-Conti, elaborado por um americano no Brasil e com nome de estadista inglês. Contando assim,  parece mentira. Mas este vinho existe. Trata-se do Churchill Cabernet Franc 2006, um vinho potente,  amadeirado, com um tostado no estilo dos tintos do Napa Valley, da Califórnia, com muita fruta madura e de baixíssima produção (só 600 garrafas).

Propagada de forma viral, a safra de 2006 foi bastante comentada entre os poucos que tomaram seus goles. 2007 não teve. Para 2008 serão cerca de 1500 garrafas. Ainda é um universo pequeno, mas são estes achados que fazem o charme dos caçadores de novidades brancas e tintas. Para quem está sempre aberto a aprender, mas ao contrário do Churchill estadista aceita um sugestão com gosto, é uma boa aposta. Principalmente se o perfil dos tintos californianos for a sua praia.

Para apresentar a criatura, nada melhor do que o criador. O Blog do Vinho, depois de provar o vinho, foi ouvir o produtor. Com a palavra, Mr. Nathan J. Churchill:

Como surgiu a ideia de produzir um vinho no Brasil?
A ideia de investir no vinho brasileiro surgiu pelo contato e amizade com a Valmarino, eles têm um produto excelente, e ofereceram um pouco de seu vinho para eu experimentar com o uso de barricas.

Por que escolheu a uva cabernet franc?
O cabernet franc é uma uva tinta que se dá bem no Brasil, principalmente em Bento Gonçalves e particularmente em Pinto Bandeira, onde fica a vinícola Valmarino, do meu amigo e colaborador Marco Antônio Salton. Tive acesso a este vinho, estava muito bom, e achei que seria diferente. A uva já foi mais comum no Brasil, e acho que deveria ser mais explorada. Os cabernet franc da Valmarino consistentemente recebem as melhores notas no Brasil.

Quantas garrafas você produziu?
Foram produzidas duas barricas de vinho, portanto 600 garrafas. 2006 foi o primeiro ano. Ainda restam umas 200 garrafas (em São Paulo é vendida pela Enoteca Saint VinSaint). 2007 não houve. Para 2008 aumentei a produção para cinco barricas (1500 garrafas). O Churchill 2008 está há dois meses na barrica e está evoluindo bem, com bastante café e toffee. As barricas do 2008 são de 36 meses de secagem enquanto as do 2006 foram de 24 meses. A tostagem foi a mesma. A uva também. A nova vinificação do Marco Antônio, porém, proporcionou mais fruta.

Como funciona sua parceria com a Valmarino?
O Marco Antônio faz o vinho e me cede uma quantidade para elaborar nas minhas barricas. Eu não participo no cultivo. O processo de vinificação é feito na Valmarino. Para a safra 2006 o Marco Antônio adquiriu um novo tipo de tanque fermentador (de alta tecnologia) que dá resultados ainda melhores. Toda esta parte é feito pelo Marco.

O uso da madeira é muito marcante no Churchill. Era esta mesma a intenção?
O vinho Churchill surgiu de duas coisas. A primeira era minha frustração com o uso de barricas pelas vinícolas no Brasil. Minha empresa representa umas das mais conceituadas tonelarias do mundo, a Taransaud, e como vendedor de barricas eu sabia quanto agrega a barrica ao vinho. Em termos simples, a barrica aumenta exponencialmente a complexidade e qualidade do vinho. Por isso, praticamente todos vinhos top a nível mundial passam por barricas novas. Porém, no Brasil a prática de usar barricas novas não é usual – são sempre poucas barricas, misturadas com as de vários usos, para muito vinho. Eu queria ver pessoalmente se a barrica usada de forma “correta” faria também uma grande diferença no vinho brasileiro. Fiquei feliz em comprovar que a barrica faz a sua mágica aqui também.

A segunda coisa que eu queria comprovar ou verificar era o uso do carvalho americano no vinho. A Taransaud tem uma subsidiaria, a Canton, em Kentucky, EUA, que fabrica barricas exclusivamente com carvalho americano. A Canton usa a mesma técnica tradicional de secagem da madeira que a matriz na França (36 meses ao ar livre). O que se descobre é que o carvalho americano, que é mal visto no Brasil, quando bem trabalhado proporciona excelentes resultados (a um custo muito menor, diga-se de passagem).

O senhor esperava a crítica positiva que o vinho teve?
Quando provei a primeira garrafa eu achava que o vinho era bom. Fiquei muito surpreso e feliz com o entusiasmo nas degustações na SBAV (Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho) e depois em outras aonde o Churchill foi considerado o melhor vinho. Tenho muita sorte de trabalhar com o Marco Antônio, que me dá um excepcional vinho base para fazer a élevage nas minhas barricas.

É inegável que o rótulo do Churchill é uma referência à etiqueta do Romanée-Conti (veja fotos acima). Foi proposital?
Pois é… a ideia original era usar uma arte de um designer, porém ele estava com a agenda cheia e não pôde fazer um desenho para mim. Portanto, tive de fazer eu, e como sempre admirei os rótulos da Romanée-Conti, La Tache e seus companheiros (leia entrevista com o produtor Aubert de Villaine ), resolvi fazer algo parecido. Para 2008 o rótulo vai mudar um pouco. Para melhor, espero.

O Churchill é um vinho de  guarda?
Pergunta difícil.  Preparei o vinho para ser guardado. Como eu não sabia se iria vender ou se ficaria com 600 garrafas para meu próprio consumo, utilizei uma rolha especial para vinhos de guarda: a rolha francesa Diam (100% isento de TCA). Gostaria de ter utilizado o screw-cap de alumínio, porém não existem garrafas no Brasil para esta embalagem.
A evolução depois de 15 meses na garrafa tem sido muito positiva. O veredicto sobre a guarda do cabernet franc é dividido. Alguns franceses melhoram, enquanto uns californianos nem tanto. Eu não recomendaria guardar o Churchill por muito tempo em altas temperaturas (fora de uma adega climatizada), porém, a uns 14 graus acredito que vai continuar melhorando até 2012. O tempo dirá. O vinho está muito bom agora. Se fizer um churrasco, recomendo tomar em vez de guardar.

Por que o preço inicial da garrafa, 32 reais, aumentou para cerca de 68 reais?
Gostaria que o preço fosse mais baixo, porém se tivesse deixado no preço original teria vendido todas as 600 garrafas na primeira semana.

Qual sua avaliação do vinho nacional?
O Brasil é um lugar ideal para produzir vinhos excepcionais e únicos, exatamente por ser fora da rota de exportação de vinhos globalizados.  Como nós não exportamos muito, não temos sofrido pressão para fazer um vinho que agrada ao consumidor americano, inglês ou holandês. É um dos poucos lugares aonde ainda existem vinhos autênticos. E temos também o nosso terroir. O produtores brasileiros são verdadeiros heróis, pois os insumos custam o dobro do preço mundial, fora outras complicações de todo tipo.
Há excelentes vinhos aqui, principalmente aqueles de Bento Gonçalves e da serra Santa Catarinense. Gosto dos vinhos da Valmarino, Salton, Villa Francioni. Acho que o 130 da Valduga é o melhor espumante nacional.

O espumante é mesmo o melhor vinho brasileiro?
O Brasil tem uma vocação natural para espumantes. O clima favorece tanto a produção das uvas como o consumo do vinho em si. A meu ver, os espumantes do Brasil só perdem para os franceses (champagne).
É uma oportunidade fantástica. O espumante pode ser tomado no calor que é muito refrescante, e já existe o hábito do balde de gelo à mesa com a cerveja.Com um pouco de marketing tem tudo para crescer muito.

E os tintos verde-amarelos?
Quanto aos tintos, não é fácil. Algumas safras são boas e outras mais complicadas. As boas estão se tornando mais comuns, talvez pelas mudanças climáticas.

Conte-me um pouco sobre o senhor.
Sou norte-americano e resido continuamente no Brasil desde 1987. O nome Churchill vem da Inglaterra, porém minha família está há 13 gerações nos EUA. Antes de chegarem na Inglaterra, os Churchills vieram da França. Conheço razoavelmente bem Napa (Califórnia) devido a alguns projetos que tive lá.  Admiro muito o vinho americano. Embora caro, a qualidade é alta.

Seu amigos americanos já provaram o Churchill?
Sim, meus amigos e família já provaram o Churchill.  Quase todos gostaram, com a exceção da minha mãe.
(Nota deste blog: espero que a safra 2008 agrade a mãe de Nathan Churchill: crítica negativa de mãe ninguém merece, não é não?)

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terça-feira, 9 de setembro de 2008 Tintos, Velho Mundo | 14:37

Bordeaux em três rótulos

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Os melhores perfumes podem até estar nos menores frascos. Mas os melhores vinhos, certamente não. Um Château Pichon-Lalande 2004 (R$ 597,00), um Bordeaux da subregião de Pauillac, em garrafa tradicional de 750 ml, já é um luxo. O mesmo rótulo numa magnun (1,5 litro), e um pouco mais envelhecido, da safra de 2001, é uma benção numa segunda-feira nublada. Foram essas garrafas que o francês Gildas d’Ollone, diretor-geral do Château Pichon-Longueville Comtesse de Lalande, ofereceu para um pequeno grupo em um almoço recente em São Paulo.

Na intrincada classificação do Médoc, de 1885 (é, lá as coisas duram), cabe ao Pichon-Lalande a categoria de Deuxièmes Crus Classé, algo como o segundo time entre os seis superfantásticos. Mas mesmo entre os segundos, ele se distancia, pela qualidade e consistência de suas safras, dos vinhos da mesma categoria. Daí inventaram a designação de “supersegundo”. Para Robert Parker, as safras posteriores aos anos 80 podem “rivalizar facilmente com os três famosos Premiers Crus Classé da comuna: Lafite-Rotschild, Latour, Margaux. A propósito, o übercrítico deu 100 pontos para a safra 1982, que ele jura ter provado pelo menos meia-dúzia de vezes em 2002 e que classifica como “tanto de reflexão como hedonista”.

Reserve de La Comtesse
Os “segundos” também têm seus segundos vinhos. No caso, o Réserve de La Comtesse (R$ 239,00), um sucesso de vendas em sua categoria; só na importadora World Wine são 5.000 garrafas ao ano (os rótulos do Pichon-Lalande, como de costume em Bordeaux, não têm representação exclusiva de importadores no Brasil). Este ano chegarão ao mercado vasilhames fora do padrão usual, de 500 ml, ou seja, nem é uma meia garrafa nem uma garrafa inteira. Uma boa solução para restaurantes e para quem tem nessa medida seu consumo e não quer arriscar de guardar o vinho depois de desarrolhado. “O Réserve mantém o mesmo estilo do Lalande”, garante Gildas. “Mas como menos concentração.” O que os difere é o resultado obtido após a segunda fermentação de cada uva que entra na composição – cabernet sauvignon, merlot, cabernet franc e petit verdot -, realizada em barricas separadas. “Após a prova de cada barrica, selecionamos quais vão para cada rótulo”, explica Gildas.

Château Bernadotte
Mas quem disse também que os rótulos mais caros são os que mais surpreendem? No caso, secondo me, brilhou forte a estrela de um rótulo que começa a ser mais trabalhado agora no Brasil e é uma opção muito mais interessante de sabor, maciez e aromas – e sempre com aquele teor alcoólico mais baixo de Bordeaux que convida para mais um gole. Trata-se do Château Bernadotte 2004 (59 % cabernet sauvignon, 36 % merlot, 3% cabernet franc, 2 % petit verdot), localizado na subregião do Haut-Médoc, praticamente vizinho ao Lalande – só alguns quilômetros separam os dois vinhedos. Por 115 reais, você ganha em prazer e sabor, uma boa amostra do que um bom Bordeaux pode oferecer. Tem bastante rótulo do novo mundo mais pobre de espírito e elegância com preço muito mais elevado. Bordeaux não precisa ser, necessariamente, uma bebida para milionários. Faz assim, junta a grana de dois argentino médios e faça um investimento no velho mundo. Depois me diga se não vale a pena variar.

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domingo, 7 de setembro de 2008 Novo Mundo, Tintos | 02:11

Um sonho engarrafado

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Eduardo Chadwick vem com uma certa regularidade ao Brasil para apresentar novas safras, fazer seu marketing e, claro, aparecer na mídia. Dá certo, esta nota é um exemplo. Na sexta-feira, 5 de setembro, ele desarolhou o Seña 2005 e aproveitou para compará-lo às safras de 2003 e 2004, todas elas a 348 reais a garrafa. O Seña 2005 sai pronto da garrafa, com uma complexidade e intensidade que qualquer mortal com pupilas gustativas e um nariz capaz de distinguir aromas é capaz de perceber. Na receita  do enólogo misturaram-se 57% de cabernet sauvignon, 25% de merlot, 9% de carmenère, 6% de cabernet franc e 3% de petit verdot: mais bordalês impossível! É o Chile derrotando a França com as mesmas armas dos gauleses! Aromas de frutas e tabaco, um bom corpo na boca, e um delicioso chocolate no final, sempre intenso. Chadwick comentou que os taninos ainda podem amaciar, eu juro que não sinto necessidade. O 2005 é muito semelhante ao perfil do 2003, com a diferença dos dois anos que o separam. Mas creio que o 2005 tem uma pegada mais sedutora. Os incríveis 14,5% de álcool registrados na etiqueta passam  ao largo. Muita gente reclama dos vinhos muito alcoólico, que se tornam pesados e enjoativos. No Seña, o equilíbrio de seus elementos encobrem este álcool todo. Além da minivertical de Seña, um bônus track: um Chadwick (R$ 480,00, um dos rótulos mais caros do Chile) da difícil safra de 2004. A linha Chadwick é de estilo mais clássico, um pouco mais velho mundo do que o Seña – não tem tanta doçura e a acidez é mais preponderante. Por essas e outras que Eduardo monta, junto com Steven Spurrier seu show às cegas com tops de Bordeaux. O estilo é o mesmo, e, já se disse aquí, degustação às cegas é a prova dos noves. Sempre. Para finalizar, foi servido um refrescante  Arboleda Chardonnay 2005 (R$ 85,00).
Por que um branco no final? Foi aí que começaram a ser servidos os pratos. À medida que o almoço foi avançando tivemos a difícil tarefa de retomar aos tintos cima, agora acompanhados de comida, por ironia ou provocação, francesa. Ficou sensacional. Seña é o vinho de todos os dias do importador Otávio Piva de Albuquerque. Ok, ele pode. Mas também pode ser aquele vinho para você em um momento especial. Não tem erro. Seña, a propósito, não significa sonho, e sim “rasgo de distinción” ou “firma personal”, mas bem que poderia.

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