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segunda-feira, 19 de outubro de 2015 Brancos, Novo Mundo, Tintos | 23:13

Viña Carmen, uma vinícola chilena “especialista em carmenère”

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Sebatian Sabbe e a linha Premiere e Gran Resevra: de roupa nova

O enólogo Sebastian Labbe e a linha Premier e Gran Reserva: de roupa nova

A uva carmenère é responsável por um vinho assim meio Paulo Coelho. Os consumidores adoram, incluindo os brasileiros, e os especialistas torcem o nariz. É justo. E é injusto – com a carmenère, não com o Paulo Coelho. E esta implicância tem lá sua razão de ser. “Redescoberta” em 1994 no Chile (era confundida com a merlot), precisou passar por um aprendizado para encontrar seu lugar no mundo do vinho. Os primeiros exemplares – e curiosamente os que fizeram seu sucesso e marketing – tinham um sabor exageradamente vegetal, verde, pois ainda não se conhecia o tempo correto de maturação, mas já tinha como característica um toque mais macio que o da cabernet sauvignon. Mesmo assim ganhou o carimbo de uva porta-estandarte do Chile. Com o tempo, foi encontrando o solo mais adequado, tempo correto de colheita e um perfil mais refinado – além de ser usada com sucesso para cortes (misturas com outras uvas).

A Viña Carmen é parte importante desta historia. Foi em suas terras que se deu o reconhecimento da varietal carmenère em 1994 após a desconfiança do ampelógrafo francês Jean-Michel Boursiquot de que algumas uvas consideradas como merlot não maturavam no tempo correto. Comprovada sua teste em exames laboratoriais, a certidão de “renascimento” da carmenère foi lavrada e a notícia ganhou o mundo. Originária da França, da região de Bordeaux, como a maioria das uvas blockbusters internacionais, é raridade em sua terra natal. Esta história, repetida “ad nauseam” por todo produtor e enólogo chileno que vem ao Brasil, confere uma certa paternidade da carmenère à Viña Carmen. “Como fomos os pioneiros, temos a obrigação de ser especialistas em carmenère”, diz o enólogo-chefe da Carmen, Sebastian Labbe, que começou na empresa em 2005 limpando cubas.

De cara nova

A Viña Carmen não é uma novidade nas taças dos brasileiros, um volume razoável é consumido por aqui, o bastante para colocar o Brasil como o terceiro mercado mais importante para a vinícola, atrás da Irlanda e do Canadá, A Viña Carmen, tão pouco, é uma estreante no ramo. Terceiro maior grupo vinícola do Chile, também ostenta o título de a mais antiga vinícola do país  ainda em atuação (foi fundada em 1850), além de ser a primeira considerada orgânica.

Estes eram os rótulos que você encontrava nas prateleiiras das lojas e na importadora

Estes eram os rótulos que você encontrava nas prateleiras das lojas

Atenta ao tamanho que as vendas no Brasil representam em seu balanço financeiro, a empresa trouxe em primeira mão o novo figurino de suas garrafas. Os rótulos de fundo branco, “meio apagados e sem destaque nas prateleiras de lojas e supermercados”, segundo o diretor de exportações Luis Carlos Andrade, ganharam texturas mais escuras (azul escuro, vinho) e molduras que transmitem mais nobreza e os distinguem entre outros rótulos. A repaginada também reclassificou o antigo Reserva que agora atende pelo nome de  Premier.

É assim que você vai encontrá-los nas lojas agora

É assim que você vai encontrá-los agora nas lojas


Carmenère

Mas e aquela desconfiança dos especialistas com a carmenère? Preciso confessar que estou naquele time que se tiver de escolher um rótulo chileno não será da uva carmenère. Mas é preciso dar a mão à palmatória: os vinhos vêm evoluindo e, às vezes, surpreendendo. Como ensina Sebastian Labbe, houve um aprendizado. O tipo do solo, por exemplo, é importante. “Pedra não é bom para carmenère”, ensina. “Regra número 1: solo bom para cabernet sauvignon não é bom para carmenère.” E por aí vai.

Um bom exemplar desta prova nos noves é o Carmen Gran Reserva Carmenère 2012 (R$ 128,00), com uvas da região de Apalta, no Vale de Colchagua. Em uma frase: é um caramenère com acidez, frescor e boa fruta madura no nariz e no final da boca. Totalmente varietal? Quase, uma pitada de 5% de carignan na receita “dá uma levantada no final de boca evidenciando o frescor”, revela Sebastian Labbe, que costuma decidir o ponto ideal da colheita das frutas pela velha e boa prova da boca (prática que o enólogo Felipe Toso,  da linha Grey da Ventisquero, também adota. (Leia em Felipe Toso, o “cozinheiro” dos vinhos chilenos Grey, comemora dez safras, explora novos terrenos e lança rótulos).

Um ou dois degraus abaixo o Carmen Premier Carmenère 2014 (R$ 90,00), também de Colchagua, suaviza o vegetal da carmenère mas mantém seus traços um pouco mais exibidos. A nova linha Premier inova no rótulo, mas não abandonou o estilo típico do carmenère que atendia  pelo nome de Reserva  e que você provou por aí. Corpo médio, é correto, mas não empolga. Os 40 reais que os separam fazem diferença.

Cabernet Sauvignon e Chardonnay

Mas nem só de carmenère vive a Viña Carmen. Seu Cabernet Sauvignon Gold Reserve 2009 já ganhou destaque no Guia Descorchados – a referencia dos vinhos chilenos e argentinos – e a chardonnay levou 90 pontos do Robert Parker (que na realidade não quer dizer nada, mas também quer dizer alguma coisa, depende da sua visão do mundo do vinho).

Carmen Gran Reserva Cabernet Sauvignon 2012 (R$ 128,00). Com uvas de vinhedos próprios da região do Alto Maipo, berço nobre da cabernet sauvignon no Chile, este tinto tem um perfil de boa tipicidade da varietal, carnudo e uma acidez que é resultado da diferença da temperatura entre o dia e a noite. “Nem sempre uma grande amplitude térmica é algo bom. Como à noite a temperatura baixa muito, a cabernet sauvignon precisa ter um maior teor alcóolico”, observa Labbe, que acredita que “a cabernet sauvignon precisa se reposicionar no Chile”. Aqui a concentração e a estrutura dão as mãos para acidez e resultam num caldo que aponta um direcionamento  mais marcado para a expressão da fruta

Pra finalizar um vinho que costuma iniciar os trabalhos, um branco. O Carmen Gran Reserva Chardonnay 2013 (R$128,00), da região certa para as uvas brancas, Casablanca, vem de vinhedos de mais de 22 anos. Passa por uma fermentação em barricas francesas de 25% do seu caldo e 9 meses em contato com as leveduras. Resultado: notas amanteigadas e tostadas na medida (tem que não goste, me agrada na medida certa), toques frutados de pêssegos maduros e fechando o conjunto uma acidez equilibrada.

Os vinhos da Viña Carmen são importados pela Mistral.

 

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sexta-feira, 25 de setembro de 2015 Novo Mundo, Tintos | 00:32

Marques de Casa Concha: um clássico chileno em mutação

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Marcelo Papa: enólogo há mais de dez anos da Marques da Casa Concha. Mudanças à vista.

Marcelo Papa: enólogo há mais de dez anos da Marques de Casa Concha. Mudanças no estilo de um clássico chileno.

Um fantasma ronda a cabeça do enólogo Marcelo Papa, responsável há 10 anos pela linha Marques de Casa Concha – o fantasma dos vinhos menos potentes, mais frutados e com menos madeira. O Marques de Casa Concha é um clássico do “vinho bão” chileno, e um dos grandes representantes dos tintos e brancos varietais (de uma só uva) de grande expressão e potência. E foi esta mudança de rumo que Papa veio mostrar em seu último giro pelo Brasil, quando apresentou um Cabernet Sauvignon Edição Limitada de 2013 e um carignan que faz parte de um projeto dedicado à esta uva no Chile, o Vigno (Vignadores de Carignan).

Time que está ganhando não se mexe, certo? Errado, mexe sim, mas com todo cuidado e paciência, afinal se trata de um ícone de uma gigante do vinho (Concha y Toro), com uma legião de consumidores fieis e, claro, sucesso de vendas (e de receita). Esta nova visão poderia ser resumida no clássico conselho do “menos é mais”: menos álcool, menos potência, menos doce, menos madeira. “Começamos a colher as uvas mais cedo, para obter teor alcoólico mais baixo, mas mantendo uma boa fruta e a usar tonéis (barricas maiores, de 5.000 litros)”, conta Papa.

Mas se o consumidor gostava dos vinhos como eles eram, por que mudar? “Há quatro anos eu percebi que não estava tomando mais Marques de Casa Concha em casa”, diz Marcelo Papa. Era um sinal claro que mudanças precisavam ser feitas. “Os formadores de opinião – especialistas e críticos – começaram a ficar cansados de um estilo muito potente de vinho, pois nem todos os vinhos têm de ser assim e apontaram uma tendência”. Os consumidores (ou parte deles) também começaram a seguir esta onda, a buscar vinhos mais gastronômicos, com maior presença da fruta, acidez e menos efeitos da madeira nova que marca muito a bebida “Acho que terá uma boa aceitação”, aposta Papa.

E a mudança começou no uso da madeira. Ela não foi abandonada, mas seus efeitos aliviados com o recurso de recipientes maiores. Marcelo Papa testou tonéis de várias partes do mundo e acabou elegendo a matéria-prima do Piemonte, na Itália, usada na guarda dos barbarescos e barolos – o que já indica um caminho rumo à fineza. Em seguida, começou a misturar os vinhos em barricas tradicionais e nos tais tonéis. Foi uma maneira cautelosa de introduzir um novo estilo e ao mesmo tempo não assustar o consumidor acostumado à pegada do Marques clássico. O Cabernet Sauvignon 2013 tradicional de Puente Alto, no Vale do Maipo, continuará com 80% do seu caldo estagiando 18 meses em barricas francesas, mas 20% ficará nos tonéis; no Syrah os 14 meses de barrica serão divididos 50% em barricas e 50% em tonéis. Foram adquiridos 38 destes grandes barris para este primeiro momento, e o mesmo número já está encomendado para as próximas safras.

Mais tensão e menos intensidade

Marques de Casa Concha Edição Limitada 2013 e Vigno: qual deles vai para a taça vazia? Os dois.

Marques de Casa Concha Edição Limitada 2013 e Vigno: qual deles vai para a taça vazia? Os dois.

O Marques de Casa Concha Cabernet Sauvignon Edição Limitada 2013, de Pirque, Puente Alto, sul do Rio Maipo, já é uma boa amostra do que vem por aí em termos de qualidade e frescor. O solo aluvial, com calcário, transmite uma certa “tensão ao vinho”, como defende Marcelo Papa. Como entrega o nome, a produção é mesmo limitada, principalmente para o nível Concha y Toro de ser. São apenas 6.000 garrafas. É um vinho meio “revival” no estilo dos anos 70, as uvas são colhidas mais jovens para obter menos álcool. Passou 22 meses em tonéis italianos e barricas francesas sem tosta, que também gera a tal tensão ao vinho, ou seja ele não é marcado pelas notas abusivas de chocolate, madeira, grafite. Não tem aquela opulência muitas vezes exagerada. A fruta, mais para a vermelha do que a preta mais comum no Marques clássico, é a expressão mais pura do vinhedo. Ganhou muito aberto mais de uma hora antes de servir e foi encontrando mais camadas aromáticas com um tempo na taça. Menos é mais aqui não é uma frase de efeito, mas um vinho elaborado com a intenção de ser menos intenso e com mais tensão.

O Vigno, é outra boa surpresa para aqueles que gostam de experimentar e valorizam o vinho mais franco e com maior “bebabilidade”. O rótulo faz parte de uma associação de pequenos produtores, algo como Vinhateiros de Carignan, que produzem o varietal desta uva na região sul de Maule, em variadas vinícolas (entre quinze e vinte) com o propósito de divulgar a Carignan chilena. Todos os produtores identificam no rótulo o vinho com o nome de Vigno. “Um dos fundadores da associação foi o Gilmore, há 4 anos. Hoje tem Vigno na Undurraga, do Montes, e agora da Concha y Toro”, explica Marcelo Papa.  As uvas são originárias de parreiras de 70 anos e 10% delas sofrem o processo conhecido como fermentação carbônica (a transformação do açúcar em álcool se dá dentro da fruta), que resulta num tinto de muita, mas muita expressão de fruta negra, e uma acidez marcante e frescor em boca que pede mais um gole. Um vinho agradável de beber e ótimo para acompanhar pratos mais leves.

Esta belezinha deve aportar ao Brasil no final do ano. Também nesta linha de privilegiar uvas menos conhecidas e até originais do Chile, estão as garrafas do Cinsault e Pais, infelizmente longe do mercado brasileiro. São algo como os vinhos alternativos da Marques da Casa Concha.

 Tradição e inovação

Mas se existe uma mudança anunciada com orgulho e cautela por seu criador e mentor (era visível sua satisfação com os resultados obtidos  e com a carta branca da empresa para seguir adiante) é por que existe também uma história bem-sucedida dos rótulos do Marques de Casa Concha, lançados em 1976. Trata-se de um vinho de autor, nas versões atuais e que estão por vir.

Aqui no Brasil são encontradas as versões: Chardonnay e Pinot Noir, do Vale do Limarí; Merlot e Carmenère, do Vale do Cachapoal, Vinhedo Peumo; Cabernet Sauvignon e Syrah, Vale do Maipo.

Confesso que este novo estilo era algo que eu colocava um pouco em dúvida: não por que não concorde com esta vertente do “menos é mais”, mas por que me parecia que poderia descaracterizar um pouco o tradicional Marques de Casa Concha, mudar seu caráter e desagradar seu consumidor, afinal de contas para quem é feito o vinho. O Marques “tradicional” – podemos já chamar assim –  sempre me agradou dentro do seu estilo e potência, valorizando comidas mais fortes numa harmonização por “paridade”. Mas colocando lado a lado os dois caldos ficou clara a diferença que faz o nível alcoólico, a fruta vermelha versus a negra, a influência mais sutil da madeira contra a potência das barricas nos aromas e no paladar menos doce e mais gastronômico. E fiquei com vontade de ter um gole a mais da edição limitada em minha taça.

Marcelo Papa adiantou ainda uma novidade, fruto de uma curiosidade deste colunista, que tem uma certa predileção pela uva cabernet franc. Com tantas varietais por que não tem um Marques de Casa Concha Cabernet Franc? Ah… Não tinha, mas terá, de pequena produção. A Safra 2014 chega ao mercado no segundo semestre de 2016. Nós, devotos do cabernet franc aguardamos ansiosos.

 32 milhões de caixas

A Concha y Toro é uma potência. Produz vinhos de vários estilos e preços. Além da vinícola que dá nome à empresa a holding controla a Cono Sur, Vina Maipo, Palo Alto, Canepa, Maycas del Limari (no Chile), Trivento (na Argentina) e Fretzer (Estados Unidos). Juntas produziram uma bagatela de 33,2 milhões de caixas de 12 garrafas de vinho em 2014, distribuídas em 145 países. Só a Vinícola Concha y Toro é responsável por 14,2 milhões de caixas. A Viña Concha y Toro coleciona prêmios, rótulos e um resultado inédito de 1 bilhão de dólares em vendas. Carrega também as virtudes (uma legião de consumidores fieis) e as mazelas (o mimimi dos puristas que criticam a estandardização de seus vinhos) que acompanham as grandes marcas de sucesso. Por isso mesmo é com alguma surpresa que experiências como esta defendida por Marcelo Papa na linha Marques de Casa Concha apontam que o mercado está mesmo mudando, que tudo que é sólido pode mesmo se desmanchar no ar.

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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015 Novo Mundo, Tintos | 11:50

Os incríveis (e caros) vinhos chilenos do suíço Mauro von Siebenthal

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Mauro Von Siebenthal: exibe suas crias: "Grandes vinhos têm de ser profundos e persistentes"

Mauro Von Siebenthal: exibe suas crias: “Grandes vinhos têm de ser profundos e persistentes”

Mauro von Siebenthal (pronuncia-se “Fon Zibental”) é um homem do mundo. Advogado suíço, de família de origem italiana, e experiência profissional global, realizou seu projeto de vida produzindo vinhos de personalidade e qualidade no Chile. Mauro é um pequeno grande produtor, pequeno por que adota o conceito de Vinícola Boutique, e grande na ambição de produzir vinhos de  reconhecimento internacional e com “alma”  – mais precisamente em Panquehue, no Vale de Aconcágua, a 100 quilômetros de Santiago

A Von Siebenthal é parte integrante de um dos grupos mais inovadores e instigantes do Chile, o Movi, Movimento dos Vinhateiros Independentes, que reúne produtores de pequeno e médio porte. Independente, mas nada ingênuo. Não desdenha, nem esconde, por exemplo que um de seus rótulos premium, o Tatay 2007, um carmenère de boa estirpe, levou 97 pontos na lista da Wine Advocate, de Robert Parker. Um feito só igualado duas outras vezes por um vinho chileno: as duas pelo Terrunyo Carmin de Peumo, também da uva carmenère, das safras 2003 e 2005, produzidos pela Concha y Toro.

À primeira vista Mauro von Siebenthal lembra um pouco aquele colega nerd da escola, ou um estereótipo de uma personagem suíço: um pouco acima do peso, pele clara, com as bochechas rosadas, um par de óculos grandes que lhe toma o rosto arredondado e diminuem os olhos e uma calvície que alonga a testa. Logo no primeiro contato, porém, o lado italiano expresso no nome Mauro se impõe. Dono de uma personalidade forte, com opiniões firmes sobre vinhos e críticos, tem um discurso afinado com boas frases de efeito, metáforas incomuns na descrição dos seus vinhos e ótimo senso de humor. Também revela-se um extraordinário anfitrião, um cozinheiro de mão cheia e a melhor propaganda de seus rótulos.

Mauro no meio de seus vinhedos: "O lugar tem de te eleger"

Mauro no meio de seus vinhedos: “O lugar tem de te eleger”

Mas como ele veio parar neste pedaço do mundo, trocando a toga pelas botas do campo? “Desde os 16 anos sou apaixonado por vinho”, ele dá a dica. A bem–sucedida carreira de advocacia lhe deu eira e beira, e a oportunidade de provar os melhores tintos, brancos e espumantes da Europa e do mundo, formando sua palheta de sabores e aromas. Mauro alimentava um sonho de ter um vinhedo para chamar de seu e já tinha idealizado seu objetivo: elaborar “vinhos com identidade”. Em 1998 um pintor amigo organizou uma exposição no Chile que ele veio visitar. “Tudo que eu havia idealizado para um excelente vinhedo estava concentrado aqui”, conta se referindo à região de Panquehue, no Vale do Aconcágua, onde a Viña Errazuriz também tem seus vinhedos. “Decidi em 5 minutos”, recorda. A região foi a primeira produtora de vinhos no período colonial do Chile, mas naquele momento o terreno era selvagem, não tinha nada. “Começamos a plantar o vinhedo em 1998”.

“O terreno escolhe você, não é você quem escolhe o terreno. O lugar tem de te eleger”, teoriza, em um estilo limítrofe à autoajuda. Os lugar é mesmo de tirar o fôlego. Mauro costuma levar seus convidados a uma parte mais alta do vinhedo onde pode-se mirar toda a propriedade, as filas de parreiras criando desenhos e a Cordilheira do Andes ao fundo.  “Se você escuta a natureza, ela diz alô, alô”, sustenta Mauro numa pegada prosopopeica. São dois vinhedos nas montanhas e outros dois no plano, como solos graníticos (para cabernet franc, merlot, carmenère) e aluvial (para cabernet sauvignon, petit verdot e carmenère). “Em 1998, comecei a comprar essas terras, com ajuda de amigos investidores, até chegar a 52 hectares.” A adega, de estilo arquitetônico  colonial chileno, não aposta na linha de impacto visual. É eficiente e dotada de tecnologia necessária, e conta uma estrutura adequada para receber pequenos grupos. Mauro se orgulha de manter um mesmo time de onze leais funcionários desde o início, incluindo seu braço-direito Darwin Oyarce, que nos acompanhou na prova de vinhos ainda em barrica, e do enólogo Stefano Gandolini. Em 2003 já estava produzindo os primeiros tintos “já era um Tatay” e seguiu ampliando sua linha de forma controlada (são sete rótulos). Em 2009 mudou-se em definitivo para o Chile e hoje vive na vinícola, junto com sua mulher, Soledad La Torre. Ao contrário do que possa parecer não é um empreendimento para aventureiros, mas para quem tem crédito no banco. Mauro Von Siebenthal lembra que foram 12 anos no vermelho, perdendo dinheiro (mas talvez ganhando em felicidade, como diria com certeza, se é que não disse).

Rio_Mistico

Mauro nos conta sua história na mesa de sua sala de almoço, onde será servido uma refeição preparada pelo próprio, na casa que construiu dentro da vinícola. Estávamos eu, Mauro, sua mulher Soledad, Susana Gonzales, a representante de uma empresa chilena de promoção de vinhos, e o escritor de vinhos do Paladar, da revista Prazeres da Mesa, Marcel Miwa, um dos melhores críticos do momento e um degustador de primeira. Mauro me pergunta se conheço os vinhos. Digo que não. Perplexo ele me questiona: “Mas em que mundo você vive?”, achando que era obrigatório alguém como eu ter um conhecimento mínimo de seus rótulos. Sorri sem graça (na realidade eu já havia provado o Cabrantes e mais tarde mostrei ao Mauro o post neste Blog do Vinho, como foto sua e tudo. Vergonha dupla, pelo esquecimento e por não ter feito a lição de casa). Mauro serve a primeira amostra, uma novidade. Um vinho branco de um produtor reconhecido pelos caldos tintos. Trata-se do Rio Mistico, um viognier impactante e encantador. Diferente da maioria que já provei. Cremoso, potente, untuoso e amanteigado, tem um floral delicado e uma personalidade própria. “Uso muito oxigênio na hora de vinificar”, explica. Ele diz que será sua única incursão no mundo dos brancos. Estimulo a continuar, pois de fato fiquei impressionado. Acho que consigo recuperar um pouco a moral com ele.

 

Montelig_2009

Começamos então uma sequência de tintos (os vinhos não são filtrados): Montelig 2009 (R$ 343,00*), cabernet sauvignon (40%) carmenère (30%) e petit verdot (30%). O vinho passa 24 meses em barricas francesas e 3 a 4 anos na garrafa até ser desarrolhado e entregar uma bebida de taninos muito aveludados, bom corpo, boca envolvente, boa acidez. Tem um primeiro ataque de pimenta branca e em seguida chegam as frutas negras a cereja. Para comparar, abre uma outra garrafa de Montelig, agora da safra de 2006, três anos mais velho. “Tem mais coisas aqui”, analisa enquanto gira a taça. De fato, mais fruta madura, mais notas de couro, boa evolução na garrafa.

Tatay_2010Aponto para uma taça enorme que ele guarda dentro de uma prateleira e o assunto passa a girar em torno dos terremotos e de como perderam copos e vasos durante os tremores, além de vinho na adega, claro. Desafio ele a produzir uma foto com a megataça recomendando beber “uma taça de Von Siebenthal por dia”. Ele prontamente pede para Soledad tirá-la do armário, faz graça e posa para foto. Chega a vez então do aclamado Tatay de Cristóbal da safra 2010 (R$ 1024,00!!!), 90% carmenère e 10% petit verdot. “Nunca pensei em fazer um carmenère usual”, comenta enquanto gira a taça. Complexo. Muito macio, persistência incrível. Aromas de bosque e frutas negras. O final de boca chama a atenção, muito longo, com uma percepção em boca das frutas negras presentes no nariz e bala de café que prolonga no retrogosto (ô palavrinha que não ajuda…). Deve se agigantar com mais paciência e tempo na garrafa. “Grandes vinhos têm de ser profundos e persistentes”, teoriza Mauro. Mais tarde provamos o Tatay 2012, que ficou 26 meses em barrica e só terá suas 3.800 garrafas lançadas  em 2018. Já tinha uma classe e persistência marcantes, com muitos aromas de fruta negras. “A petit verdot dá mais tempo e punch ao vinho”, explica.

Terminada a refeição vamos para a prova na adega: começamos pelo Carabantes Syrah 2013 (R$ 161,00). O syrah não navega sozinho, mas é protagonista (syrah 85%, cabernet. sauvignon 10% e petit verdot 5%). Passa 14 meses em carvalho francês novo. Tem um belo nariz, especiarias delicadas e não exibidas, ervas finas, boca envolvente, doçura final e muita fruta vermelha como framboesa. Sobre a safra 2016, ele vislumbra sua beleza: “Será uma bailarina turca oriental”. Em seguida provamos o Carmenère Gran Reserva (R$ 124,00) – carmenère 85% e cabernet sauvignon 15%, com 10 meses em carvalho americano. Fruta bem desenhada, persistente, boa acidez e já “bebível” para um vinho que será lançado em 2016. Provamos ainda alguns varietais vinificados e amadurecidos em separados que ainda repousam em barricas e farão parte de outros vinhos, como o Parcela #7 (R$ 124,00) – um corte bordalês com 40% de cabernet sauvignon, 35% de merlot, 10% de petit verdot e 15% de cabernet franc) do primeiro vinhedo cultivado na Von Siebenthal. “O Blend perfeito não existe, é uma inspiração”, conta Mauro em um vídeo na sua página no Facebook reproduzido abaixo. “Neste nível de vinho fazer escolhas das uvas é uma questão intelectual”

toknar_2006

Para o final ficam as impressões do Toknar (R$ 410,00), um surpreendente 100% petit verdot. Como diz Mauro, “só se memorizam vinhos extraordinários”. Este grudou na memória. Os 26 meses de barrica e dois de garrafa aportaram um baita aroma (frutas negras, café, eucalipto), um toque de grafite, potente, grande presença em boca, uma cereja inunda no paladar, mineral, acidez marcante, muita expressão da petit verdot que raramente é protagonista e aqui atua num monólogo magnífico. Na minha modesta opinião – já disse mais de uma vez aqui que sou um degustador mais intuitivo e menos técnico – foi o meu tinto inesquecível do dia. “Os vinhos não são iguais todos os anos – são similares, mas não iguais. Usamos as mesmas uvas, dos mesmos vinhedos, mas a natureza muda a cor a cada ano”, compara Mauro Von Siebenthal.

Mauro é adepto de uma taça de vinho por refeição.

Mauro “recomenda uma taça de vinho por refeição”

Depois de alguns goles, Mauro soltou mais sua verve: soltava fogo pelas ventas toda vez que mencionava o Guia Descorchados e seu autor, o crítico Patricio Tapias. Acusava-o de não ter critério, de não entender a qualidade dos rótulos Von Siebenthal e outros ressentimentos de quem não foi bem avaliado no ranking elaborado todos os anos pelo guia (recente reportagem da revista Decanter, com dicas de Tapias com os melhores cabernet sauvignon chilenos, também passa ao largo dos rótulos de Von Siebenthal). Curiosamente foi outro crítico, muito mais enxovalhado pelos produtores e outros especialistas, Robert Parker, que catapultou os tintos Von Siebenthal entre os vinhos de qualidade e exceção do Chile. “Em 1997 tivemos quatro vinhos acima de 90 pontos”, conta desenhando um sorriso no rosto e arregalando os olhos. Além dos 97 pontos do Tatay, receberam boas notas o Toknar (94), Montelig (92) e o Cabrantes (91). São vinhos boutique, de alta gama, e cobram seu preço. Segundo o site de cotação  de vinhos Wine Searcher o Tatay está entre os três vinhos mais caros do Chile e com os preços subindo nos últimos três anos.  Mais uma vez Mauro Von Siebenthal define a situação: “Eu prefiro uma Ferrari a um Fiat 500”.

Assista ao vídeo onde Mauro mostra sua propriedade e conta um pouco de sua história (em inglês)

 Neste outro vídeo, além de Mauro, o enólogo Stefano Gandolini fala um pouco sobre o terroir e os vinhos (em espanhol)

* Os valores dos vinhos no Brasil foram pesquisados em fevereiro de 2015, no site de vendas online Fine Wines  

 

 

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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014 Brancos, Novo Mundo, Sem categoria, Tintos | 09:36

Vinhos e vinícolas do Chile: anotações de uma viagem. Vale de Colchagua

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Vale de Colchagua, Chile: uma viagem pelos rótulos conhecidos

Vale de Colchagua, Chile: uma viagem pelos rótulos conhecidos

Viajar pelo Chile, mais especificamente em suas “rutas del viño”, é quase como passear pelos corredores dos supermercados e prateleiras de lojas de vinho: o nome das vinícolas, iguais aos rótulos mais conhecidos dos consumidores, vão se sucedendo em forma de placas, edifícios e vinícolas. Há rotas nas diversas regiões vinícolas do país, algumas praticamente dentro de Santiago, como Vale do Maipo. Outras mais afastadas, mas a poucas horas da capital. Todas oferecem restaurantes, visitas guiadas e às vezes até hospedagem dentro dos vinhedos.

Não é à toa que o viajante reconheça as vinícolas pelo nome. O Chile foi responsável por mais de 40% de volume de vinho exportado no Brasil no primeiro semestre de 2014 segundo estudo realizado semestralmente pelo consultor Adão Morellato. Em segundo lugar vem a Argentina com uma diferença de 25,22%. O Chile é também o 8º maior produtor de vinhos do mundo – são 600 vinícolas, 300 empresas -,  e o 5º país que mais exporta tintos e brancos, são 60 as principais exportadoras.

A divisão das regiões por vale estabelece os limites das zonas vinícolas no Chile, mas alguns nomes têm o poder de confundir os menos atentos: Colchagua, Aconcagua, Cachapoal viram uma salada de fruta na cabeça do incauto viajante que depois de um tempo já não se lembra mais onde está ou por onde passou. Por sua vez, Concha y Toro, Cusiño Macul, Viña Montes, Casa Silva, Santa Rita, Viu Manent, Santa Helena, Ventisquero, Miguel Torres, Morandé entre outros tantos soa familiar aos olhos e ouvidos dos brasileiros. É o efeito prateleira de supermercado que dá conforto e bússola ao viajante-enófilo verde-amarelo.

Conhecer de perto onde é produzido o seu vinho preferido, aquele que está à mão, ou aproveitar e provar rótulos de outras variedades é uma experiência bacana. Acompanhado de uma boa refeição nos restaurantes preparados para receber turistas, às vezes aos pés da Cordilheira dos Andes, às vezes em torno de vinhedos, também é parte do roteiro. Assim como é parte da experiência arriscar uma garrafa de um rótulo de qualidade superior. Afinal o preço dos vinhos é de matar de inveja qualquer consumidor que paga o que paga pelas garrafas no Brasil, fruto de uma carga tributária extorsiva, margens de lucro nem sempre razoáveis – e agora um dólar em disparada.

O Chile é abençoado pela localização geográfica e pela natureza para produzir vinhos. Tem o Oceano Pacífico de um lado e a Cordilheira dos Andes do outro, formando um corredor de proteção sanitária para os vinhedos e criando todas as condições climáticas para produzir qualidade e variedade: seco e quente de dia – cheguei a pegar mais de 34 graus no meio do dia -, frio ou fresco à noite, motivado pelos ventos que descem as cordilheiras e lambem as plantas.

Um pequeno giro recente pelo Chile mostrou esta capacidade de produzir rótulos de todas as linhas. A conversa com enólogos e produtores apontou a profissionalização cada vez maior desta indústria, sua inserção tecnológica, e atenção com as mudanças no gosto do consumidor, que aparentemente está pedindo vinhos mais leves, frescos, bebíveis, com menos potência e menos influência da madeira.

Também está presente, pelo menos no discurso de todas as empresas visitadas, uma preocupação com o meio ambiente, com o processo de produção e com uma agricultura mais sustentável, quando não orgânica e mais voltada para princípios naturais

Para mim não ficou claro todavia se esta mudança de perfil dos vinhos se dá desde a linha mais básica e ficou uma dúvida sobre o que aconteceu de repente com aquele consumidor da base da pirâmide que amava o vinho amadeirado, aquela doçura em boca e com alguns aromas, mesmo artificiais, que davam reconhecimento aos vinhos consumidos. Foram abduzidos? Aliás o mesmo discurso e dúvida valem para os vinhos argentinos.

 

Visita ao Vale de Colchagua

Trecho do Vale do Cachapoal, no Chile

Vinhedos do Vale de Colchagua: daqui para sua adega

Colchagua – este vale chileno reúne a grande maioria das vinícolas, entre as grandes estão: Bisquertt, Casa Silva, Cono Sur, Lapostolle, Los Vascos, Luis Felipe Edwards, Montes, Montgras, Santa Cruz, Santa Helena, Siegel, Ventisquero e Viu Manent. O vale de Colchagua corta o país no meio, começando nas Cordilheiras dos Andes, passando pela Cordilheira da Costa e terminando no Oceano Pacífico. Como ensina o enólogo chileno da Casa Silva Mario Geisse: “Esta característica lhe confere uma diversidade de condições microclimáticas para variedades diferentes com características marcantes”. O rio principal que vai influenciar a região é o Tinguiririca. A uva cabernet sauvignon domina a área plantada: são 12 mil hectares contra 3,4 da carmenère, 3,2 da merlot e 2,2 da syrah. Entre as brancas predominam chardonnay e a sauvignon blanc. Por aqui a visita se limitou a duas representativas vinícolas da região, Viña Montes e Viu Manent. Os enólogos, como de costume, nos apresentaram seus rótulos mais significativos, nem sempre os mais baratos, mas que demonstram o potencial e o estilo de cada empresa.

A ponte, a água, os vinhedos ao fundo: feng chui e vinhos especiais

Viña Montes: a ponte leva à adega, os vinhedos ao fundo: feng chui e vinhos especiais

Viña Montes – A Viña Montes é velha conhecida dos amantes dos tintos e brancos chilenos no Brasil. Tem bons vinhos na sua base e cultuados tintos no topo da pirâmide, como o Montes Alpha M, o Purple Angel e o Folly. A arquitetura da Bodega é uma viagem dentro da viagem, com linhas arrojadas e integração com a natureza adota o conceito feng shui assim explicado no site da empresa: “Na entrada da vinícola há uma ponte de acesso de madeira sobre uma pequena lagoa, cuja água flui em direção ao prédio, seguindo o princípio fundamental do feng shui, que diz que a prosperidade apenas chegará se a água, representando energia, fluir em direção ao centro do prédio, não o contrário, para longe dele. No centro da vinícola há uma fonte, logo abaixo de uma claraboia em formato de lírio, representando o sol e a lua: o ponto a partir do qual a energia é distribuída, conectando o prédio ao universo externo.” Na sala de degustações, o visitante fica diante de barricas de carvalho que repousam sob uma iluminação controlada e som de música clássica e cantos gregorianos. Se isso influencia ou não o vinho eu não sei, mas é sempre uma boa história para contar e torna toda visita mais agradável.

Da série a vida vale a pena num lugar assim: área externa do restaurante da Viña Montes

Da série a vida vale a pena num lugar assim: área externa do restaurante da Viña Montes

O restaurante, próximo à ponte e à lagoa, completam a visita juntando a comida ao vinho, ambos de excelente qualidade.

Quatro vinhos da Viña Montes

Outer Limits – esta é uma linha mais recente da Montes que explora vinhedos “além das fronteiras”, como indica o nome. São vinhedos em três regiões diferentes (Aconcagua, Colchagua e Itata), cada um com características próprias: próximo do mar, grande declive do terreno e vinhedos centenários e históricos.

Technical Data Sauvignon Blanc 2014
Outer Limits Sauvignon Blanc 2014
– o Guia Descorchados, de Patricio Tapias, uma referência para vinhos do Chile e da Argentina, deu 94 pontos e elegeu o melhor sauvignon do Chile. É um sauvignon blanc mais macho, intensa acidez, provoca uma boa salivação, cítrico, muito mineral e com um toque salgado. Este vem da Costa de Zappalar, no Vale de Aconcagua, a uma distância bem próxima do oceano pacífico: 7 quilômetros. R$ 120,00

Bottle Cinsault 2014

Outer Limits, Old Roots, Cinsault 2014 – este é um vinho para aqueles que querem provar algo diferente e com mais pegada. Um Cinsault que passa por maceração carbônica (a fermentação e feita dentro da uva e não há esmagamento da fruta), não passa por barrica, tem um corpo leve, um sabor que lembra morangos frescos, o finalzinho terroso. Pra comprar e beber logo, de preferência mais resfriado, como um beaujolais. A primeira safra é de 2013, uma novidade que não consta do catálogo do importador no Brasil, mas se chegar vale provar.

 

mon tesalpha

Montes Alpha Cabernet Sauvignon 2012 – quem é consumidor de vinho e nunca tomou um Montes Alpha numa churrascaria em São Paulo levanta a mão! São três tintos: malbec, cabernet sauvignon, carmenère. O cabernet sauvignon foi, já em sua primeira safra, de 1987, reconhecido internacionalmente como um vinho premium. O que mais chama atenção é a consistência ano a ano, a boa fruta, o uso integrado da madeira (passa 12 meses na barrica), o final intenso e taninos prontos para beber. As uvas, cabernet sauvignon (90%) e merlot (10%) são representantes do Vale de Colchagua, em Apalta e Marchigüe. R$ 112,00

MontesAlphaM11Montes Alpha M 2011 – talvez a grande estrela da Viña Montes, apesar de não ser o mais caro, este corte tem como protagonista a cabernet sauvignon (80%) e a colaboração das também uvas bordalesas cabernet franc (10%), merlot (5%) e petit verdot (5%). A belezinha passa 18 meses em barricas 100% francesas e tem todos aqueles descritores clássicos de um bom vinho deste nível: muita fruta vermelha mais madura, cassis, os aromas chegam num primeiro ataque de frutas e evoluem para cheiros de terra, trufas, bosque, tabaco. Taninos doces e belo final. Tá tudo lá. Uma decantada abre mais as percepções, vale a pena pela grana que você vai investir no bichão (em torno de 450 reais). E se alguém te oferecer uma safra 2002, recuse, é falsificado. Não teve Montes Alpha M 2002, ok? A safra de 2006, provada em uma degustação promovida pela associação “Viños de Colchagua” em São Paulo, mostrou o potencial de evolução do caldo, com integração das frutas e uma estupenda concentração e cor. Entre 12 tintos provados foi um dos meus preferidos. Detalhe, seguindo a filosofia natural e holística da vinícola o Montes Alpha M é etiquetado a mão para manter a energia da bebida. Ah, tá!

Os vinhos da Viña Montes são importador pela: Mistral

Fachada da Viu Manent: não deixe de conhecer o restaurante

Viu Manent: não deixe de conhecer o restaurante  Rayuela Wine & Grill

Viu Manent – propriedade familiar, é tocada pela família Viu Bottini desde 1935. A Viu Manent é uma vinícola de tamanho médio e se tem uma marca resgistrada é da excelência dos malbecs chilenos, que junto a outras variedades são plantados nos três vinhedos em Colchagua: San Carlos (o mais antigo), El Capilla e El Olivar. O enólogo-chefe, Patricio Celedon, explica que desde 2010 uma série de estudos foram realizados nos vinhedos para conhecer melhor o terreno e o solo. O conceito anterior de blocos foi substituído por setores, limitados não apenas pelas características do solo (mais pedra, menos pedra, areia, argila etc), mas também pela condutividade eletromagnética do solo que determina uma maturação ótima para as frutas de cada trecho do vinhedo. Ou seja, a colheita das uvas é feita de forma pontual, por parreira. Para o visitante além do tradicional tour e degustação é imperdível uma parada no restaurante Rayuela Wine & Grill, claro que acompanhado de um dos rótulos da casa.

Quatro vinhos de Viu Manent

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Secreto Sauvignon Blanc 2014 – a linha Secreto tem três características que a definem: o frescor do estilo, pois são vinhos mais joviais e fáceis de beber; o rótulo, que é uma criação da artista chilena Catalina Aboot que desenhou seis interpretações marcantes para cada varietal (sauvignon blanc, viognier, pinot noir, malbec, carmenère e syrah) e o marketing, pois cada varietal é mesclado com uma pequena porcentagem de outra uva que não é revelada, é o “segredo” que batiza o vinho. Este sauvignon blanc de vinhedos de Casablanca, a 11 quilômetros do mar, de solo granítico e com quartzo, traz a seguinte sensação ao vinho: salinidade e mineralidade. Com ótima acidez tem um curioso cítrico salgado, limão com sal, manja? R$ 75,00

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El Olivar Syrah 2013 – um Viu Manent Single Vineyard, também conhecido como um vinho de um único vinhedo. A safra 2013 ainda não chegou às prateleiras, mas quando se materializar, vale provar. Um vinho que dá muito prazer e mostra o potencial da syrah do Chile (em dezembro de 2014 um vinho da uva syrah, o Syrah Gran Reserva 2012, da Viña Casas del Bosque, foi eleito o melhor vinho chileno pela concurso Wines of Chile realizado no Brasil pela primeira vez). Bom aromas de pimenta, especiarias, mas com uma fruta fresca. Fino e elegante na boca, profundo com ótima acidez natural. R$ 150,00

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 El Incidente Carménère 2010 – carmenère, não? Afinal estamos no Chile!!! Mas não é voo-solo. Agregam-se à mescla um tanto de petit verdot e outro de malbec. Trata-se de um carmenère com belo potencial de guarda com taninos redondos e doces, macio, uma nota de pimenta negra, bastante concentrado, redondo, amplo na boca com fruta vermelha e evolução de tabaco e café depois de um tempo na taça. Taí, uma carmenère para rever algum eventual preconceito contra a uva. R$ 280,00.

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Viu 1 2011 – o chamado vinho ícone da casa, não podia deixar de ser, é um malbec 100% das tais parreiras centenárias, de edição limitada e garrafas numeradas. Também agraciado como o melhor malbec pelo Guia Descorchados. Homenageia o fundador da empresa, Don Miguel Viu Manent. As uvas sempre vieram de um mesmo setor, o de número 4. E sempre que a decisão é contestada pelos enólogos a degustação às cegas prova que algo ali naquele pedaço de terra, de excelente drenagem, gera uma qualidade inigualável para o malbec da Viu Manent. E o vinho? Floral intenso no nariz, fruta negra, boa estrutura, espalha a bebida tirando-a do centro boca, um vinho largo que proporciona um final bastante longo. Este mesmo caldo, da safra de 2007, provado em São Paulo, mostrou sua evolução com a mesma estrutura parruda, potência, fruta madura e uma alta acidez, que vem do petit verdot e do vento fresco da cordilheira. R$ 600,00.

Os vinhos da Viu Manent são importados por: Hannover

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Enólogo e equilibrista: Patricio Celedon tira uma amostra de um vinho de barrica

Outras três grandes vinhos de Colchagua

Como já foi dito, a associação “Viñas de Colchagua”, que junta 13 importantes vinícolas da região, promoveu em São Paulo no mês de outubro uma grande degustação, coordenada pelo craque Mario Geisse. O evento contou com a participação de 12 enólogos-chefes que apresentaram seus rótulos mais representativos das melhores safras. Além dos dois tintos comentados acima, destaco outros três grandes que impressionaram na comparação com seus pares.

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Ventisquero Pangea 2009 – a Ventisquero produz vinhos em todas as linhas, sendo o Grey, um tinto de preço mais acessível, um dos meus favoritos (leia mais aqui). O Pangea faz parte do escalão de cima dos títulos da empresa, denominados ultrapremium. Mais uma vez a syrah brilha no Vale de Colchagua. O vinho permanece 20 meses em barricas de carvalho francês (50% novas) e ainda descansa mais 18 meses na garrafa. Estiloso na boca, muita fruta vermelha e negra e mineral (os enólogos costumam citar o grafite para vinhos “minerais” de Colchagua, já que o solo é de granito e com minerais como ferro e quartzo). Taninos macios e doces, baita estrutura. Melhor decantar, até por que não é filtrado e podem sobrar um resíduos na garrafa. R$ 260,00

Importado por: Cantu

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Bisquertt Family Vineyards Tralca 2010 – um vinho do ano do grande último terremoto no Chile. Trata-se de um blend de cabernet sauvignon (65%), carmenère (31%) e syrah (4%). Outro ícone que  faz um tributo aos fundadores da vinícola familiar que existe desde 1978. Eu não conhecia e foi uma grata surpresa. Bom volume em boca, arredondado e aveludado. Também tem seus quase dois anos de barricas novas francesas. (lembra aquela história de usar menos barrica? Bom, nestas safras mais antigas não me parece que gerou algum problema.) O que define este vinho é a fruta elegante, madura, de excelente paladar em boca. Ou como define o enólogo da casa: “Como enólogos precisamos de uma palheta de cores variadas (as frutas) para produzir um bom vinho”. Acho que ele tem razão. R$ 280,00

Importado por World Wine 

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Casa Silva Microterroir de los Lingues Carmenère 2007 – a carmenère do Chile tem um história conhecida entre os entendidos. Era confundida com a merlot e colhida e vinificada junto. Depois de descoberta – e transformada como uva símbolo pelo Chile, apesar de não ser a melhor – houve um período de aprendizado que resultou em bons caldos como este excepcional carmenère elaborado pela Casa Silva. Diz Mario Geisse: “Existia um preconceito de que a carmenère seria um vinho de vida curta. O Microterroir mostra o contrário”. São produzidas 20.000 garrafas por ano deste tinto elegante com aromas de ameixa preta, especiarias, frutas vermelhas e uma bala toffe depois de um tempo. Tem taninos sedosos (desce maneiro, entende?), boa estrutura, final longo e na boca confirmam as frutas (eu percebi uma goiaba em compota) e a especiarias (pimenta preta). R$ 250,00

Importado por: Vinhos do Mundo 

 

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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014 Novo Mundo, Tintos | 10:28

Weinert, um vinho argentino para quem gosta de tintos mais envelhecidos

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Cavas de Weinert, em Mendoza, Argentina: um vinho com tempo de garrafa

Cavas de Weinert, em Mendoza, Argentina: um vinho que já nasce com anos de adega

O que têm em comum um brasileiro que montou uma vinícola em Mendoza, um enólogo suíço que atravessou o mundo para fazer vinhos na Argentina, um argentino que prepara as empanadas mais deliciosas da região e um jornalista paulista que teve sua mala inundada por uma garrafa de vinho que espatifou dentro da mala? A Cavas de Weinert.

Parada obrigatório das fotos: barrica de 150 anos e com malbec 2013

Parada obrigatória para fotos: tonel de 130 anos, 44 mil litros, e  malbec 2013

Um brasileiro em Mendoza

A Bodegas y Cavas de Weinert é uma criação do brasileiro Bernardo Weinert, chamado de “Don Bernardo” na Argentina. O empresário de origem alemã e nascido em uma pequena colônia no sul do Brasil resolveu ter um vinho para chamar de seu em meados da década de 70 e após alguma pesquisa escolheu os solos de Luján de Cuyo, em Mendoza, Argentina. Adquiriu uma cantina construída em 1890, fez as reformas necessárias, estabeleceu um estilo para os vinhos (a marca registrada é de envelhecimento por no mínimo dois anos antes de lançar no mercado) e colocou os rótulos à venda a partir de 1976. Em 1995 uma nova reforma adequou os equipamentos as mudanças e avanços tecnológicos. Há dois anos a empresa teve a entrada de novos sócios. Uma visita pela cantina (há vários horários durante a semana) revelam entre seus corredores escuros de pedras gastas pelo tempo grandes tonéis de carvalho e pilhas de garrafas empoeiradas, ainda sem rótulo, apenas com uma placa indicando a safra. Um enorme tonel de 130 anos, adquirido na Itália, é o foco das câmeras dos celulares e ponto alto da visita. O bichão tem capacidade para 44 mil litros, e vale algo como 240 mil euros, está instalado desde 1998 e ainda é utilizado. Nestes tóneis – também conhecidos como foudres – e garrafas repousam o segredo e o diferencial da Weinert: o tempo de maturação dos vinhos que lhe confere um perfil de tinto mais evoluído, do velho mundo. Ou como eles se definem, uma bodega de vinhos de guarda.

Hubert Weber: e a provas dos noves (vinhos)

Hubert Weber: o enólogo que veio da Suíça e a prova dos vinhos (o sem rótulo é de 1978)

Um suíço em Mendoza

O mestre de cerimônias e responsável pela elaboração dos vinhos também não tem um sobrenome muito mendocino. Hubert Weber é suíço. Está na Cavas de Weinert há 18 anos. Um vinho em especial o trouxe para o outro lado do Atlântico. Em 1991 Hubert provou um Cavas de Weinert Gran Vino numa feira em Berna e se apaixonou pela bebida. Sabendo de seu interesse uma amiga conseguiu contato para ele trabalhar na Bodega na Argentina. Hoje em dia Hubert abre com orgulho as garrafas da Weinert para mostrar os caldos onde aplica seus conceitos de enologia. “Não vim aqui para mudar a filosofia da casa, ao contrário, vim por causa dela”, explica. “Fiz poucas mudanças, o principal foi manter e respeitar o estilo do vinho”.

Os vinhos da Cavas de Weinert, de Mendoza

Por estas características todas, os rótulos da Weinert vão agradar aqueles que gostam de tintos mais envelhecidos, maduros, com boa evolução de aromas e diversidade no gosto das frutas, com toques de couro, canela, tabaco, terroso, enfim aqueles aromas do tempo em garrafa e influência de tonéis de carvalho – conhecido no jargão como terciários. O mais legal é que o consumidor não precisa aguardar para curtir estas características, as garrafas são lançadas já com certa evolução. E é possível comprar safras anteriores. Haviam 1500 garrafas do Carrascal 1978 em estoque, por exemplo. E podem ser compradas por 120 dólares.

A linha de entrada, Pedro del Cartillo*, é um bom cartão de apresentação dos tintos da Weinert. O tempranillo da safra 2013, de vinhas de 40 anos, tinha uma boa pegada de fruta e de terra. O cabernet sauvignon 2012 estava mais fechado, um toque de especiaria estava lá, no entanto, os taninos precisam de um pouco mais de tempo para amaciarem. O malbec 2012 vai mais para o lado da fruta fresca, como cerejas, é macio e fácil de beber.

Carrascal 2009: pronto para hoje, amanhã e depois

Carrascal 2009: pronto para hoje, amanhã e depois

A linha seguinte, a Carrascal, vem de vinhedos de 30 a 60 anos de Luján de Cuyo. É uma mescla de malbec (45%), merlot (35%) e cabernet sauvignon (20%). Passa dois anos em tonéis grandes de carvalho. Provamos a safra 2009. O tempo já mostrou seus efeitos de evolução da fruta madura e negra integrada com o carvalho, um licoroso chega junto no final de boa intensidade. No Brasil estará em torno de 60 e 65 reais. Não gosto do termo, mas é um belo custo-benefício.

Zezinho, Huguinho e Luizinho: varietais de malbec, merlot e cabernet sauvignon

Zezinho, Huguinho e Luizinho: varietais de cabernet sauvignon, malbec, merlot de 2006

A linha varietal é mais seletiva e, claro, procura expressar o potencial da carreira-solo de uma variedade. Hubert comenta que é raro ter na mesma safra três rótulos de três variedades no mesmo ano no mercado. Por exemplo, em 2005 não teve merlot. Mas em 2006 estão disponíveis os varietais merlot, malbec e cabernet sauvignon. São todos bons tintos, meus comentários no bloco de notas (um iPad, na verdade) foram superlativos. Para o merlot: velho estilo, de impacto terroso, ótima acidez, corpo médio, umas flores chegaram numa segunda fungada. Para o malbec: baita ataque no nariz, flores, frutas (ameixa madura), final estupendo, couro, canela, sândalo (sândalo? Pois é, pela primeira vez senti isso num vinho). Para o cabernet sauvignon: chocolate, fruta negra, couro, taninos fortes mas evoluídos, vinhaço para beber e namorar os aromas de fim de taça. Os varietais – note bem, da safra 2006, já chegam com 8, 9 anos nas costas – custam entre 100 e 110 reais no país da alta carga tributária. Não precisa falar onde, né?

Cavas de Weinert Gran Vino 2004: não leve na mala...

Cavas de Weinert Gran Vino 2004: beba na origem, não leve na mala…

E para o final o Cavas de Weinert Gran Vino 2004, um ícone, mas que ao contrário de muitos de seus pares não é pesado, feito para tomar com garfo e faca. Aqui a cabernet sauvignon e a malbec disputam a mescla com 40% cada uma, sobrando 20% para a merlot. Passa três anos em barricas. Prima pela elegância, atributo um tanto difícil de explicar mas fácil de entender no copo. Um nariz que até deixa um pouco zonzo, um licor de cereja que começa no aroma e se traduz em boca, tostados finos, muita fruta, um champignon, final longo, persistente. Esta belezinha de 2004, lá se vão 10 anos, chega às prateleiras por volta de 150 e 160 reais.

Diferente da maioria das vinícolas que se orgulham de contar com vinhedos próprios, a Weinert compra todas as uvas. “Compro apenas o que necessito”, ensina Hubert Weber. São uvas das variedades malbec, cabernet sauvignon, merlot (90% do total), complementadas com syrah, bonarda, tempranillo e cabernet franc – esta última com destino certo, a Suíça. A colheita é feita à mão e uma relação antiga com os produtores permite uma pré-seleção dos cachos. Os vinhedos onde Hubert vai às compras são todos antigos, de solo argiloso e de pé franco (ou seja, não tem enxerto na raiz; traduzindo, traz maior autenticidade à uva). E quando não considera a safra com a qualidade ideal, simplesmente não compra e não produz os vinhos naquele ano. É o que aconteceu com a safra de 2014. Mas e aí, como faz?, pergunto eu. “Não faz”, responde ele, “temos uma adega com capacidade para 3 milhões de litros, e atualmente temos 900 mil litros dentro de casa. Esta é a filosofia da Weinert”

Empanadas, empanadas, empanadas, alguém quer empanadas?

Empanadas, empanadas, empanadas, alguém quer empanadas?

Um mendocino (e suas empanadas) em Mendoza

Assim que terminamos a prova dos principais vinhos, foram servidas umas empanadas (na foto quase dá para sentir seu perfume quente) feitas por um mendocino vizinho à bodega. Sugestionado ou não pelo ambiente, pelos vinhos provados e pela surpresa final –  um Carrascal 1978, engarrafado em 1982 e com aromas de tabaco e evolução deliciosa do tempo, mas muito vivo na boca -, elegi como as melhores empanadas da minha vida, e a partir desta data a harmonização perfeita para um Carrascal.

Malbec 2009, esperando seu tempo de ganhar as prateleiras

Malbec 2009, esperando seu tempo de ganhar as prateleiras das lojas

Um brasileiro em Mendoza

O jornalista que teve sua mala alagada por um vinho, meio óbvio, é este que vos escreve, que trouxe em sua bagagem, devidamente protegido em um desses sacos de plástico-bolha uma garrafa do Cavas 2004 Gran Vino. A garrafa era uma lembrança da visita realizada à cantina de “Don Bernardo”, escoltada pela cativante Hubert Weber, onde provei os rótulos da Weinert acompanhados das inesquecíveis empanadas. A ampola, que ia repousar mais um tempo na minha humilde adega, não resistiu ao delicado serviço de bagagens do aeroporto e trincou uma parte do vasilhame. Se tive o azar de perder o precioso líquido que tingiram minhas roupas (literalmente uma camiseta branca ganhou tons de vinho…), a boa notícia é que a partir do primeiro trimestre os rótulos da Weinert voltarão a ser importados ao Brasil, agora pelas mãos da Mercovino. Esqueci de comentar no início, os vinhos da Weinert não estavam sendo importados para o Brasil nos últimos anos, mas encontram-se algumas garrafas em lojas especializadas. Devem estar disponíveis nas prateleiras no primeiro trimestre de 2015. Os preços citados neste texto são os sugeridos pela operação da Weinert no Brasil para o momento, enquanto o dólar se encontra neste patamar de 2,60/2,65. *A linha Pedro del Cartillo ainda está em negociação se entra ou não neste pacote de importação.

 

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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014 Novo Mundo, Tintos | 18:15

Don Melchor 2010, um clássico chileno entre os melhores tintos do mundo

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Enrique Tirado 02

Enrique Tirado, enólogo do Don Melchor: fazendo pose no solo cavado nos vinhedos de Puente Alto, no Chile

A Concha y Toro é uma das maiores marcas de vinho do planeta. É uma referência, para o bem o para o mal, desde o iniciante dos tintos chilenos até para os amantes de bons rótulos. Na indústria local também se sente seu peso. Estive recentemente no Chile e não há produtor ou enólogo que não cite a empresa pelo seu tamanho, importância e volume para efeito de comparação, ou para se diferenciar em qualidade ou tamanho.

A Concha y Toro produz tanto tintos de consumo de massa, como a linha mais básica Reservado, ou de entrada como o Casillero del Diablo, como elabora ícones importantes. Don Melchor é joia da coroa. E tem suas regalias. É tratada como uma pequena vinícola dentro empresa, com equipe própria e dedicada. A safra de 2010 foi eleita entre os 10 melhores tintos do planeta pela lista anual da revista especializada Wine Spectator. A propósito, o Don Melchor já carimbou sua presença sete vezes na lista, sendo que três vezes entre os Top Ten (as safras de 2001 e 2003 em quarto lugar, a de 2010 em nono lugar).

Enólogo e galã

O cidadão da foto acima, com pinta de galã, atende pelo nome de Enrique Tirado. Ele é o responsável, desde a safra de 1997, pelo vinho que reúne uma pequena e exclusiva legião de admiradores brasileiros que transformaram o Don Melchor (muitas vezes chamado equivocadamente de “Don Melchior”) um objeto de desejo a cada safra lançada. Enrique Tirado, que tem um irmão gêmeo que também é enólogo (para diferenciá-los pessoalmente, basta reparar na cabeleira, seu irmão tem o penteado mais bagunçado que ele), é uma espécie de guardião do estilo e da tradição do Don Melchor. Ele mesmo explica o que vem a ser este estilo: “O que queremos é a expressar o cabernet sauvignon de Puente Alto, no Vale do Alto Maipo, nos Andes, com uma fruta viva e fresca”. Longe de entrar na discussão de mudança de estilo que atualmente atinge quase todas as vinícolas do Chile (menos madeira, mais fruta e acidez), para Tirado o objetivo permanece o mesmo: elaborar o melhor cabernet sauvignon que o vinhedo pode  oferecer: “Não sigo moda que vai para um lado e depois vai para outro”, explica.

 O que é que o Don Melchor tem

Basicamente o vinho tem uma consistência de qualidade e de estilo que revelam que ali naquele lugar o cabernet sauvignon é ator principal (90%) – também são cultivados poucos hectares de merlot (1,9%), petit verdot (1%) e cabernet franc (7,1%). Os vinhedos de Puente Alto, aos pés da Cordilheira Andes, são vizinhos dos terrenos de Chadwick e de Almaviva. Traduzindo: a papa fina do vinho chileno está reunida na região. Mas a elaboração de um vinho de exceção deste tipo não é mamão com açúcar. Para atender a alta expectativa em torno de cada safra e a fama conquistada, há muito estudo do terreno e das parcelas que compõem os vinhedos que vão fornecer as uvas que serão fermentadas e engarrafadas. São sete parcelas divididas em 127 hectares de terreno analisados minuciosamente em relação ao solo (se há mais ou menos pedras, profundidade das raízes, drenagem etc), clima, exposição ao sol.

Vinhedo de Puente Alto, aos pés das Cordilhieras: expressão meaxima do cabernet sauvignon

Vinhedo de Puente Alto, aos pés das Cordilheiras: expressão máxima da cabernet sauvignon

Os frutos destes vinhedos são experimentados nas parreiras ao longo dos meses e para a mescla final são provadas entre 120 e 150 mostras de diferentes parcelas já vinificadas que vão determinar o vinho que vai na taça. As provas selecionadas são enviadas para Bordeaux, na França, onde Enrique Tirado e o enólogo francês Eric Boissenot passam de três a quatro dias, em meados de julho, fazendo as escolhas  que vão determinar o resultado final. Esta maratona de provas de cabernets de variadas parcelas, mais as outras variedades que podem ou não aportar outras notas ou complexidade ao vinho, têm um único objetivo: “expressar o melhor cabernet sauvignon daquele lugar”.

Dos 127 hectares cultivados, se aproveitam cerca de 60% a 70% das uvas, o que tem produzido em média cerca de 150.000 garrafas por ano. As uvas que são descartadas, que são de boa qualidade mas de alguma forma não ajudariam a compor o estilo Don Melchor, são usadas para outras linhas da Concha y Toro, como o Marques de Casa Concha. “Mas não passa de 5%, o que não vai alterar no resultado final do produto”, alerta Tirado, frustrando aqueles que podiam achar que comprando um Marques de Casa Concha estão adquirindo um segundo vinho do Don Melchor.

Como já se disse mais de uma vez, o Don Melchor é uma mescla de cabernet sauvignon com a possibilidade de adição, principalmente a partir de 1999, de cabernet franc, que raramente ocupa mais do que 3 a 6% na proporção total do blend. A safra premiada de 2010 e que está sendo trabalhada agora tem 97% cabernet sauvignon e 3% cabernet franc. A novidade que Tirado trouxe em primeira mão aos amantes da cabernet franc – como este que vos escreve – é que uma pequena produção da varietal da safra de 2013, sem a denominação de Don Melchor, já está engarrafada. E deve vir ao mercado em breve. A ver.

Don Melchor 2010: o rótulo mudou mas o vinho continua o mesmo

Don Melchor 2010: o rótulo mudou mas o vinho continua o mesmo

Novo rótulo

A safra de 2010 vem com uma novidade. O rótulo teve uma pequena alteração. Perde espaço o “brand” Concha y Toro, discretamente reduzido a um selo no canto superior do rótulo e ganham destaque a uva predominante (vou falar pela última vez, cabernet sauvignon, ok?) e o lugar de procedência: Puente Alto. Esta ação de marketing gerou uma discussão de um ano até a aprovação da mudança que deixou a etiqueta mais elegante, mas que em nada altera o vinho e sua percepção. Talvez para os novos entusiastas deste ícone, ou para aqueles esnobes que não queriam misturar a marca de volume (Concha y Toro) ao seu caldo de alto valor agregado, a mudança faça mais sentido. Na verdade todo mundo sabe que Don Melchor é Concha y Toro.

• Leia também: 50 vinhos argentinos que vale a pena conhecer

O Don Melchor 2010 de fato tem uma coerência e uma linha de qualidade que impressiona. Provados numa vertical (várias safras) se notam diferenças aqui e ali, resultado do clima, da evolução e até mesmo da garrafa. “Há uma personalidade”, insiste Enrique Tirado, “mas claro que há diferenças que representam o ano da safra”. Ele passa em média 15 meses em barricas francesas de médio tostado. O que se prova não são os efeitos da barrica, mas a fruta, as especiarias, um toque de tabaco talvez. Tem a persistência dos grandes vinhos, a elegância de um cabernet sauvignon clássico, suculento como raros tintos e a percepção de um estilo.

Não é vinho para todos os dias (custa algo em torno de 430, 450 reais a garrafa), mas para um dia especial. Um vinho para se beber com atenção e prazer. Como um bom livro, dedicando um pouco mais de tempo ao seu consumo. Eu tenho um 2001 aguardando um momento na minha adega. A safra de 2010 promete. Para beber agora ou depois de alguma evolução, quando a data ideal chegar.

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terça-feira, 4 de novembro de 2014 Brancos, Novo Mundo, Tintos | 08:30

Bons goles argentinos: o conhecido Luigi Bosca e o menos conhecido Familia Cassone

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Os vinhos argentinos são um sucesso no Brasil. Só ficam atrás dos chilenos em volume – o que não impede que grupos chilenos tentem morder uma fatia a mais do mercado ao investir também na Argentina, como a Trivento e a Kaiken. Alguns rótulos argentinos já são bastante conhecidos entre os consumidores, como o Luigi Bosca, outros tantos ainda precisam ser desbravados, como os rótulos da Família Cassone. As duas vinícolas são tema deste post.

Por isso mesmo é comum a visita de enólogos e produtores ao Brasil para exibir seus vinhos em degustações, almoços, feiras e eventos. Os predicados são sempre poéticos (fruta, flores, tostados, macio, envolvente, etc), mas eles estão atrás mesmo é de mercado.

Para isso os produtores esmeram-se em mostrar seus vinhos mais elaborados, aqueles que exibem como um troféu, símbolo da qualificação de seus cachos de uvas maceradas e fermentadas. Se a isca funciona para chamar atenção, nem sempre revelam o melhor custo-benefício, ou o mais inusitado e surpreendente. Por dois motivos simples:

1. Estes vinhos top são muito mais caros, e por isso mesmo pouco acessíveis à maioria dos consumidores e incautos leitores deste blog

2. E por serem o topo da cadeia alimentar têm quase a obrigatoriedade de serem, no mínimo, bons. E geralmente são ótimos. Beberia todos os dias da minha vida se fosse possível. Mas não é disso que se trata.

Ocorre que junto à exibição dos seus rótulos pesos-pesados (geralmente tintos), outros vinhos são mostrados, como uma espécie de “esquenta” para a grande atração. Pois é neste prefácio que, muitas vezes, os caldos mais surpreendem. É preciso, pois, provar com atenção todos os vinhos.

Recentemente dois produtores vieram mostrar de seus vinhos. O conhecida Luigi Bosca e o menos conhecida Familia Cassone. Após provar seus vinhos verifiquei mais uma vez o raciocínio descrito acima (isso vale para o Chile também, mas fica para outra coluna)

Luigi Bosca

O motivo da visita de Alberto Arizu, comandante em chefe da vinícola da família, a Luigi Bosca, foi uma vertical (a prova de várias safras de um mesmo vinho) do tinto Ícono. Foram cinco safras, da primeira de 2005 até aquela que nem está ainda no mercado, de 2009. Trata-se de um vinho excepcional, de vinhedos com mais de 90 anos das regiões de Luján de Cuyo, Vistalba, Las Compuertas e Finca Los Nobles e da mistura das variedades malbec (60%) e cabernet sauvignon (40%), sempre nesta proporção. As fermentação é feita em separado, de cada vinhedo e a degustação às cegas de cada terroir decide o corte final. É bárbaro! “Um equilíbrio entre a elegância e a potência”, segundo Arizu, que bebeu todas as taças até o fim, o que é raro entre os produtores que vêm mostrar suas crias. A boa nova para os bebedores de vinhos desta categoria é que a safra que está no mercado, a de 2008, está prontíssima para beber. Mas… para ter na adega uma das 6.000 garrafas produzidas deste caldo por ano é preciso desembolsar 500 reais, o que nos remete aos pontos número 1 e 2 acima.

malbec-miradores-luigi-bosca

Por um quinto deste preço (R$ 114,00), a mesma Luigi Bosca elabora um malbec de vinhas também antigas que é o bicho!  Malbec Terroir los Miradores 2011. Já tinha provado este vinho em primeira mão em viagem a Mendoza este ano. Este segundo gole confirmou minhas primeiras impressões. Encorpado, mas com alguma frescura a acidez, ótima fruta, final longo. Macio. Coisa fina mesmo, e o rótulo, que mostra a raiz se aprofundando no solo representa bem a importância do solo (aluvial).  “É importante a Argentina mostrar a importância e relevância do terroir”, indica Arizu.

riesling-luigi-bosca

E se a ideia for algo que abra o paladar para novas sensações, a dica é um riesling surpreendente de vinhas de 60 anos. Riesling Las Compuertas 2014. Floral no primeiro impacto, com muita fruta cítrica no nariz um toque de maça verde (zero da clássica descrição de “notas de petróleo”), na boca confirmam o cítrico e o pêssego envolvidos numa acidez que alarga o vinho no paladar e traz aquela salivação gostosa. R$ 86,00

Os vinhos de Luigi Bosca são vendidos pela Importadora Decanter

Familia Cassone

Meu primeiro contato com os vinhos da Familia Cassone foi em abril de 2014 no Encontro de Vinhos Off, organizado pelos competentes Beto Duarte e Daniel Perches. É aquele esquema de sempre, de um lado o produtor oferecendo seus tintos e brancos e do outro os consumidores curiosos estendendo a taça para conhecer os vinhos. No geral o paladar costuma dar “tilt” depois de vários goles meio sem critério, tamanha oferta de rótulos. Fui lá com minha taça, atraído pela mescla de cabernet franc – uma uva que sou fã – junto com a malbec e syrah de seu rótulo principal. O nome é meio presunçoso: Obra Prima Maximus Gran Reserva Familiar. Mas mostrou a que veio este gladiador de Mendoza. A safra 2011 levou 95 pontos do conceituado Guia Descorchados e a de 2008 90 pontos do Parker. Provei outros vinhos, seus malbecs, e cabernet sauvignon e no meio de tantos produtores foi uma marca que ficou na lembrança. O responsável pela operação brasileira, Marcelo Cassone, é daquele tipo que vende areia para camelo e fala e gesticula até convencer o consumidor. Acabei levando umas garrafas para casa.

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Recentemente a Familia Cassone veio a São Paulo apresentar toda sua linha e o braço brasileiro da operação: 80% da produção é exportada e o mercado brasileiro é sempre importante. Os destaques eram o já comentado Obra Prima Maximus Gran Reserva Familiar 2011, que realmente é um belo trabalho do enólogo Federico Cassone, que na contramão da presunção do nome do vinho é de uma simplicidade cativante. O que vale é o vinho, não tem muita mistificação. E o vinho tem aquela boa potência, estrutura, 18 meses de barricas de primeiro uso, frutas, especiarias, mas tudo na medida que se encaixa num fim de boca muito atraente e macio. É o topo de linha da Família Cassone, e nem chega a ser tão caro assim (R$ 230,00). Mas…

Blend

…mas mais uma vez o que me encantou foi um outro rótulo que Federico trouxe na mala, que chegará em breve ao Brasil. O Obra Prima Blend Reserva 2012. Um blend de malbec (65%), cabernet sauvignon (20%) e cabernet franc (15%). Também uma expressão dos vinhedos de Luján de Cuyo, em Mendoza, mas mostra um caminho de leveza e fruta mais fresca que o enólogo vai impondo aos vinhos da casa. Aquele frescor que começa a ser privilegiado em alguns tintos sul-americanos (leia O Novo Vinho Chileno, mas gastronômico, mais natural) aliado a uma fruta gostosa, mais pura, menos pesada. O assemblage faz um balanço das frutas e a violeta do malbec se combina com uma amora do cabernet sauvignon (ou seria do cabernet franc?), um toque defumado e um tantinho herbáceo do cabernet franc. Um vinhaço que custará R$ 107,00 nas gôndolas de delicatessens e grandes lojas (não serão vendidos em supermercado)

 Os vinhos da Familia Cassone são vendidos pela BFC/Brasil 

 

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quinta-feira, 30 de outubro de 2014 Tintos, Velho Mundo | 10:03

Atibaia, um vinho do Líbano em homenagem ao Brasil

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Jean Massoud explica seu tinto do líbano com pegada francesa e nome brasileiro

Jean Massoud explica o Atibaia: um tinto do Líbano com pegada francesa e nome brasileiro

A primeira surpresa costuma acontecer quando é declarada a procedência do vinho. Existe vinho libanês? Sim, existe, e com uma história milenar. A segunda está relacionada ao nome no rótulo: Atibaia. Teria alguma relação com a cidade no interior do Estado de São Paulo? Sim, tem. A terceira surpresa, a melhor de todas, trata-se da qualidade. Será um bom vinho? Sim, é um ótimo vinho e provando sem conhecer sua origem muito provável você irá confundi-lo com um vinho francês. A quarta surpresa é o preço. É barato? Não, trata-se um vinho cheio de cuidados e mumunhas, pequena produção. Vai daí que… Vamos por partes e falamos do preço.

 Vinho do Líbano, breve relato

O Líbano é um país pequeno, tem 225 quilômetros de extensão e 70 de largura. Sua história com o vinho é tão conflituosa e rica quanto a região – o país tem fronteiras com a Síria e Israel. Relíquias e monumentos indicam que no ano 3.000 a.C. já se produzia ali algum tipo de vinho. Em 1517 o Império Otomano domina a região e proíbe a produção de vinho. A retomada está relacionada às missões jesuíticas (sempre eles) que trazem videiras francesas para serem plantadas no país. Em 1918 os franceses assumem o governo administrativo. Em 1975 explode a Guerra Civil, que praticamente inviabiliza a produção de vinho no Líbano – com exceção de alguns abnegados, como Serge Houchar, do Château Musar  que mantém a produção durante os 20 anos do conflito, em meio a bombas e morteiros. Em 1992 com a estabilidade de volta ao país a situação finalmente começa a melhorar.

Para se ter uma ideia da evolução que a estabilidade política trouxe ao vinho. Em 1999 eram apenas seis produtores, atualmente são 45, com uma produção anual de 8 milhões de garrafas. Três deles dominam o mercado: Chateau Ksara, Kefraya e o valoroso Musar. A maior parte dos vinhedos estão localizados numa região chamada Vale do Bekaa. Predominam as uvas francesas, como cabernet sauvignon, cinsault, carignan, syrah e petit verdot. Ou seja, os vinhos são visões das regiões de Bordeaux e do Rhône, na França, em solo libanês. Não por acaso, os rótulos disponíveis são sempre de mesclas de uvas.

E o país começa a apostar no mercado exterior. Bom lembrar que parte da população do Líbano é islâmica, e não consome vinho. O Consulado do Líbano de São Paulo vai sediar, no final de novembro, uma inédita degustação de vinhos libaneses no Brasil, com a presença de nove produtores.

 Nasce um vinhedo

A história do tinto Atibaia começa com o desejo do libanês Jean Massoud de produzir um vinho para chamar de seu. Apaixonado pela bebida – e com capital suficiente para bancar um sonho -, adquiriu terras na costa norte do Líbano conhecida como Batroun (condenada pela etimologia a fazer vinho, já que vem do grego botrys, que significa uva). Ela fica a 50 quilômetros de Beitute e apenas 4 quilômetros do mar. Um belo dia, recebeu a visita do proprietário do Chateau Angélus, Hubert de Boüard, de Bordeuax, que desafiou a fazer um vinho ali naquele terroir. Nascia ali o projeto de uma vinícola butique, que incluiu a compra de terrenos em volta, o estudo do solo e das uvas que melhor iriam se adaptar ao local. Importaram e plantaram em 2004 as variedades syrah, cabernet sauvignon e petit verdot nos 5 hectares da propriedade. “Queria fazer um bom vinho que desse prazer a mim e aos meus amigos”, comenta Jean. “Se fosse bom eu comercializava, se não fosse, não venderia.”

Sonho caro este. A adega conta com os melhores fornecedores de tanques, barricas, linha de engarrafamento da mais alta tecnologia. A colheita (apenas dois a três cachos por planta) é manual, realizada de madrugada, e a seleção das uvas é feita grão a grão. Trabalho de chinês preso. As três variedades são vinificadas e envelhecidas separadamente entre 12 e 16 meses. Só então é feita a mistura das uvas (assemblage) que vai para o tanque por mais dois meses e ainda um período na garrafa. A produção também é pequena. 12.000 garrafas, e não deve aumentar.

 Conexão Atibaia-Batroun

As cidades de Atibaia e Batroun ficam mais ou menos a 11.000 quilômetros de distância uma da outra, com um oceano no meio. Mas existe uma ligação afetiva que as aproxima. Jean Massoud vem ao Brasil desde 1978 e sempre passa 15 dias na casa de amigos em Atibaia, uma estância no interior do Estado de São Paulo. Quando foi lançar seu vinho de Batroun, ele resolveu homenagear a cidade no rótulo que tem  o mapa do Líbano representado em pinceladas leves. E este nome não atrapalha um pouco no mercado? Fiz esta pergunta a Jean Massoud que rebateu: “Não, tem até um sonoridade oriental que ajuda, pois “tayeb” em árabe quer dizer de paladar bom, agradável”

 Atibaia, três safras

Atibaia 2010

Este escrevinhador de vinhos teve a oportunidade de provar as três safras produzidas do Atibaia: 2009, 2010 e 2011. “Quando fiz a primeira safra eu não sabia ao certo o que ia dar. Quando recebi o comentário de Jorge Lucki (critico de vinhos e consultor da Zahil), que declarou ser o melhor tinto do Líbano que havia provado Líbano, eu chorei de alegria”, confessa Jean Massoud.

“Não há muito diferença de clima nas safras, quase não chove, lembra um pouco o que acontece em Mendoza”, conta. Os vinhos, de fato, mantêm um perfil gustativo semelhante entre os anos. E vamos combinar não são muitas safras e nem muito antigas para dar tanta diferença. Parece uma mistura entre o Rhône e Bordeaux, um corte bordalês com especiarias, se é que existe isso. “Não temos uma identidade como na França, isso não acontece com os vinhos libaneses”, pondera Massoud, apesar de usarem as cepas do país do Axterix.

2009 tem um belo aroma e já mostra sinais de alguma evolução, a madeira interagiu bem com o caldo, boa acidez, bastante longo. Adorei o 2009. Já 2010 tem uma fruta negra mais presente, as especiarias mais explícitas, mais fácil de gostar de imediato e um bom final de boca também. Finalmente 2011 (que ainda não está à venda). Ainda está um pouco verde e merece ficar na garrafa por mais um tempo, mas pela boa estrutura e o frutão promete fazer bonito.

A Zahil – que traz o Atibia – não é a importadora do vinho por acaso: seus proprietários são libaneses, atuam há muitos anos no Brasil  e Tony Zahil foi amigo de infância de Jean Massaud. São importados apenas 600 garrafas do Atibaia por ano. A primeira safra, de 2009, foi totalmente vendida (a colônia é fiel). A segunda safra, de 2010, se você ficou curioso, pode ser sua, se desembolsar 285 reais.

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sexta-feira, 17 de outubro de 2014 Brancos, Degustação, Livros, Novo Mundo, Tintos, Velho Mundo | 11:59

Eduardo Chadwick: a história das degustações que colocaram o vinho chileno entre os melhores do mundo e a aposta nos brancos e na pinot noir da safra de 2014

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Eduardo Chadwick: o homem que desafiou os ícones da europa e colocou o vinho chilena no mapa

Eduardo Chadwick: o homem que desafiou os ícones da europa e colocou o vinho chileno no mapa

O que você faz para provar que é bom? Compara-se aos melhores. E se esta comparação se repetir 22 vezes e em 20 delas você estiver entre os três mais bem avaliados? Significa que você conseguiu provar a sua qualidade, seu potencial. Você apostou. E ganhou. É o que fez em 2004 o produtor e empresário Eduardo Chadwick com a já conhecida Berlin Tasting (ou Cata de Berlim), quando inaugurou a série de degustações às cegas que iria confrontar vinhos de alta qualidade de seus vinhedos do Chile (Don Maximiano, Seña e Viñedo Chadwick) com clássicos de Bordeaux e supertoscanos. 39 especialistas provaram onze vinhaços das safras 2000 e 2001 sem ver os rótulos. O resultado é este abaixo, seguido de um sucessão de OOOhhhhs! em 23 de janeiro de 2004. David vencia Golias.

2004

1.  Viñedo Chadwick 2000

2.  Seña 2001

3.  Château Lafite-Rothschild 2000

4. Château Margaux 2001

4.   Seña 2000

6.   Viñedo Chadwick 2001

6 .  Château Margaux 2000

6.  Château Latour 2000

9. Don Maximiano Founder’s Reserve 2001

10. Château Latour 2001

10. Solaia 2000

 

Don Max 2010

Don Maximiano: mescla bordalesa com potência e elegância e capacidade de envelhecimento

Com a visão de homem de negócios que banca o produto que tem, Chadwick resume numa pergunta sua aposta: “Você se lembra do nome do segundo homem a pousar na lua?” Dificilmente alguém se recorda – foi Buzz Aldrin, mas eu precisei recorrer ao google para incluir neste texto. Era preciso criar  uma fórmula para mostrar ao  mercado mundial e ao mundo o potencial dos vinhos de seus vinhedos de Aconcagua e Maipo, no Chile.

VCH 2000 bottle

Chadwick: clássico cabernet sauvignon de clima frio

 

A inspiração foi a prova de Paris de 1976  – que catapultou os vinhos dos Estados Unidos, não por acaso também comparando os rótulos da Califórnia aos franceses, e vencendo -, comandada pelo mesmo mestre de cerimônias, Steven Spurrier, que tornou o evento uma espécie de grife pessoal. Leia aqui a reportagem publicada na época pela revista TIME (texto original, em inglês).

Seña 1995

Seña: complexo e sensual, com importante participação da carmenère

Eduardo é um alpinista, ou seja um aventureiro com planejamento. E ele não apostou tão no escuro assim, um ano antes, numa degustação às cegas num restaurante na Alemanha, com bem menos gente e sem qualquer repercussão na mídia, havia colocado em disputa seus rótulos contra os grandes franceses e tinha obtido um bom resultado. “Mas de que adiantava, se ninguém soube?”, indaga ele. Eduardo Chadwick é um empresário do vinho e aprendeu com o mestre Robert Mondavi – seu parceiro e mentor por 10 anos do Seña – que a propaganda é alma do negócio. A isso damos hoje o nome de marketing. E não há qualquer demérito nisso.

Para provar que o resultado surpreendente não foi obra do acaso, Eduardo Chedwick organizou mais 19 degustacões em 17 importantes cidades ao longo dos últimos 10 anos. São Paulo e Seul receberam duas delas, e em 3 ocasiões houve dois júris, um de conhecedores e outro de especialistas, totalizando 22 provas. “O importante a partir daí não era mais estar na primeira posição, mas mostrar a consistência dos nossos vinhos e o potencial de guarda, pois sempre tínhamos rótulos nos três primeiro lugares”, ensina Eduardo Chadwick, com um sorriso vencedor. “E assim trabalhamos a imagem do vinho chileno e mostramos que não havia vinhos de qualidade apenas na europa.”

Um colunista de vinho e seu extenuante trabalho de provar 12 supervinhos

Um colunista de vinho e seu extenuante trabalho de provar 12 supervinhos em 2013

Eu sou testemunha da lisura de todo o processo pois estive presente nos dois eventos realizados em São Paulo, em 7 de novembro de 2005 e 4 de julho de 2013. E uau! Os vinhos são todos de alto nível, não há perdedor, mas aquele que está melhor na taça naquele momento e revela a qualidade de seu terroir, o tratamento e escolha de suas uvas e do blend, o cuidado na vinificação e aquele mistério da natureza que às vezes aponta o dedo para aquela safra e lugar e com a ajuda de um enólogo competente produz um caldo de beber de joelhos, e pensando que afinal a vida vale a pena.

Curioso com os resultados de São Paulo? Vamos lá

2005

1 Château Margaux 2001

2 Viñedo Chadwick 2000

3 Seña 2001

4 Château Latour 2001

5 Seña 2000

6 Viñedo Chadwick 2001

7 Don Maximiano 2001

8 Guado al Tasso 2000

9 Château Lafite-Rotschild 2000

10 Sassicaia 2000

 

São Paulo Tasting 2013: 11 garrafas e nenhum segredo

São Paulo Tasting 2013: 11 garrafas e nenhum segredo

2013

1 Château Margaux 2001

2 Seña 2007

3. Don Maximiano 2009

4 Château Mouton Rotschild 1995

5 Château Latour 2007

6 Seña 2010

7 Viñedo Chadwick 2000

8 Don Maximiano 1995

9 Don Maximiano 2005

10 Sassicaia 2000

11 Seña 2000

12 Tignanello 2009

Percebe-se um acerto apreço dos paulistas pelo Château Margaux, que prima pela elegância. Mas os vinhos de Chadwick estão sempre lá entre os primeiros.

capa.livro

Luxuosa edição que documenta os 10 anos de provas por todo o mundo

Todo este importante trabalho de divulgação do vinho de alta qualidade chileno, os vinhedos, as provas, e o depoimento de importantes críticos e especialistas, está documentado no luxuoso livro que comemora este feito: “The Berlin Tasting – Uncorking the Potencial of Chile’s Terroir” .

autografo

O meu exemplar está autografado, sorry, periferia

Vem aí: um chardonnay e um pinot noir ícones para brigar com os franceses

Termindao um cicl,  outro se impõe. Qual a próxima montanha que Eduardo Chadwick pretende escalar? Além de manter vivo o espaço conquistado com seus rótulos de alto coturno, o empresário mira no potencial dos brancos chilenos e no tinto mais desafiador aos enólogos que é a pinot noir. Ele conta que quando se juntou a Robert Mondavi, em 1995, a ideia era repetir o feito de Nappa Valley e criar um ícone tinto, de corte bordalês, e um ícone branco, com a chardonnay. “Chegamos a criar o vinho e comparar com os melhores brancos da Borgonha, mas chegamos à conclusão que não tinha a mesma qualidade do Seña tinto”. Passados 20 anos, Eduardo acha  que é o momento de colocar à prova as conquistas no conhecimento do solo e dos novos vinhedos de qualidade superior que possui em Aconcagua Costa e Casablanca – uma região mais fria, com muitas ladeiras, solo de xisto – e lançar um grande  branco chardonnay e um tinto pinot noir da safra de 2014 no mercado internacional. “O futuro da indústria é elevar a qualidade de nossos grandes vinhos de chardonnay, sauvignon blanc e pinot noir “, preconiza.  “Acho que estamos preparados. Temos em mente o desafio de conquistar um espaço entre os grandes vinhos da Borgonha”. Eduardo Chadwick, como já se disse mais de uma vez, praticou  alpinismo. Os alpinistas sempre buscam uma montanha mais alta e difícil. A meta de Chadwick para seu chardonnay e pinot noir? “Temos em mente Domaine de La Romanée-Conti”, diz soltando uma risada desafiadora. “Bora” aguardar a próxima rodada de “Tastings”? A primeira aposta, diante do ceticismo de todos, ele ganhou.

Serviço: os rótulos Don Maximiano e Chadwick são importados pela  importadora Vinci e o Seña pela Expand

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quinta-feira, 16 de outubro de 2014 Brancos, Doce, Tintos, Velho Mundo | 11:01

Tour de Mirambeau: um Bordeaux bom de beber e que dá para comprar

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Vídeo do Château Tour de Mirambeau: parece propaganda. E é. Mas é bonito.

Os amantes e aficionados do vinho que costumam frequentar feiras – aqueles eventos onde o produtor fica servindo goles de seus rótulos e o público vai enchendo a caneca meio sem critério – manjam a figura: Jean-Louis Despagne. Todo ano lá está ele com sua indefectível gravata borboleta, a barba cerrada e seus Bordeaux para oferecer. Ele e sua família são proprietários de vinícolas desta região mítica da França: como o Château Tour de Mirambeau (importado pela Mistral) e Bel Air (importado pela Decanter).

Bordeuax é aquela região confusa de entender da França de diversas classificações e regiões, dos premier cru classé do Médoc, Graves e Sauternes, dos premier grand cru classé A e B de St. Émilion e dos rótulos míticos que aprendemos a admirar nos livros e cursos mas raramente comprovamos na taça sua glória e fama já que o preço é proibitivo. Estes nomes devem querer dizer alguma coisa para você, não? Château Latour, Château Lafite Rothschild, Château Margaux, Mouton Rothschild e Château Haut-Brion (Médoc), Château Haut-Brion (Graves); Château d’Yquem (Sauternes); Château Angélus, Château Ausone, Château Cheval Blanc e Château Pavie (St. Émilion) e finalmente Château Petrus (Pomerol, que tem fama mas não classificação). Mas já provou algum? Então…

E o Bordeaux tirou a gravata borboleta

Mas há sim rótulos de Bordeaux para os mortais. Mas atenção, muitos deles são ruins, não valem o investimento ou a barganha. Ter a região de Bordeaux gravada em um rótulo não é indicativo de boa procedência, e pode decepcionar. Mas há uma produção de tintos e brancos de excelente nível e preços compatíveis. Tour de Mirambeau é uma de seus melhores representantes. E com isso voltamos ao nosso personagem Jean-Louis Despagne, desta vez sem a gravata borboleta e de barba feita, que veio apresentar os rótulos de sua Bordeaux, da região de Entre-deux-Mers. Não sei se foi o canícula que castiga São Paulo nos últimos tempos ou a proximidade com o Brasil (Despagne visita com frequência o Brasil, em especial Paraty e Trancoso, e fala um português fluente), mas a descontração talvez traduza melhor os seus caldos, que são descomplicados.

A família Despagne vem cultivando vinhedos por mais de 250 anos. O histórico Château Tour de Mirambeau, localizado em frente a St Emilion, tem cerca de 80 hectares. Começou produzindo mais vinhos brancos, hoje a proporção é 50% para tintos e 50% para brancos, refletindo um pouco o mercado consumidor mundial. Hoje os três filhos de Jean-Louis cuidam da enologia à venda, sendo que a filha, Basaline, é a executiva principal do negócio. Jean-Louis Despagne, como ou sem gravata borboleta, é uma simpatia e com apresentou seus vinhos:

Dois brancos

Ch Tour de Mirambeau_Reserve_BB

Château Tour de Mirambeau La Réserve Blanc 2012
Uvas: sauvignon blanc 58%; sémillon 38% e muscadelle 10%
A sauvignon blanc é predominante nos brancos de Bordeaux, e o resultado deste blend que passa apenas pelos tanques de aço inox, é pura fruta, clássica, com aquelas notas cítricas agradáveis e final fresco. Não melhora com o tempo. Compre e beba! Um Bordeaux na borda da piscina. U$ 38,90 (a Mistral tem por política tabelar seu preços em dólar)

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Château Tour de Mirambeau Cuvée Pasion Blanc 2010
Uvas: sauvignon blanc 60%; sémillon 30%; sauvignon gris 10%
Aqui um branco mais imponente, com maior volume em boca, cítricos e algo amanteigado e um toque tostado delicado. Ao contrário de seu colega de adega aguenta uns cinco anos na garrafa. U$ 49,90

 Dois tintos

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Château Tour de Mirambeau La Resérve rouge 2011
Uvas: merlot 85%; cabernet sauvignon 10%; cabernet franc 5%
O tinto de entrada do catálogo, com predominância na merlot no corte bordalês e muita fruta e pouca complicação, sem grandes vôos ou pretensões, mas bem equilibrado. A revista Decanter qualificou como melhor Bordeaux para o dia-a-dia. Jean-Louis, no entanto, enxerga que para o futuro é um vinho que tende a desaparecer do portfólio pois os consumidores esperam um tinto com maior capacidade de envelhecimento. U$ 45,50

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Château Tour de Mirambeau Gran Vin rouge 2008
Uvas: merlot 70%; cabernet sauvignon 30%
Um tinto com corte típico bordalês, mas como convém à região com um peso maior na merlot. Fermentaçãoo malolática nas barricas , o que ajuda no casamento, sem DR, entre a madeira e os aromas do vinho, ou seja, um não discute om o outro de quem é  a palavra final: há uma boa integração. Tem uma fruta vermelha nítida (no nariz e na boca), gostosa, um tanino presente, um belo representante da região de Bordeux. Este sim, com potencial de guarda e futuro no mercado consumidor. U$ 65,90

E um doce

Tour de Mirambeau blanc

Château Tour de Mirambeau Sénillon Noble 2003
Uva: Sémillon 100%
De produção limitadíssima (3 barricas, e produzido a cada 2 ou 3 anos) e venda idem – “Nem sei por que o Ciro Lilla (proprietário da Mistral) importa este vinho”, comentou Despagne – este vinho de sobremesa mostra a beleza do fenômeno da botrytis, o fungo que quando ataca as frutas aumenta a doçura, a densidade dos aromas de mel, pêssego em calda e é espetacular para acompanhar um creme ou uma torta na  sobremesa. Funciona até como uma sobremesa em carreira-solo. “Não é para ganhar dinheiro”, sinaliza Despagne, “mas para deixar os trabalhadores orgulhosos”. U$ 96,50.

É dele também o surpreendente Girolate, fruto de um sistema de fermentação em barrica que vai girando, uma criação sua e do consultor Michel Rolland. Premiadíssimo e concorrendo e ganhando de grandes de Pomerol e St. Émilion (lembra deles, ali em cima?), é um outro bicho. Mas o Girolate sobe muito a régua, custa 350 dólares, e pode ser tema de outra nota, em outro contexto.

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