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segunda-feira, 31 de março de 2014 Novo Mundo, ViG | 16:00

50 vinhos argentinos que vale a pena conhecer. Parte 1 – Salta e Patagônia

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A felicidade, dizia o modernista Oswald de Andrade, é a prova dos noves. A escolha de um (ou mais) vinho, tentando plagiar, é a prova dos 228. Explico, recentemente tive o privilégio de experimentar exatos 228 rótulos argentinos “in loco”. Foram almoços, degustações, minifeiras e visitas a vinícolas em território Argentino a convite da Wines of Argentina*. Deste mar de vinhos provados selecionei 50 rótulos que traduzem de alguma maneira a atual produção de tintos (mais estes) e brancos de qualidade que se faz hoje no país.

Fui checar minhas anotações, as fotos dos rótulos e buscar na memória gustativa os vinhos que de alguma forma me impressionaram para esta seleção ViG (Vinho indicado pelo Gerosa) Argentina. Atenção, não se trata de uma lista dos melhores vinhos da Argentina, mas uma seleção da rica amostra de tintos e brancos que provei em uma semana em viagem por lá. Trata-se, como só pode ser, de uma seleção pessoal.

Por ser uma lista um pouco extensa, dividi a nota em várias partes, que serão publicadas ao longo da  semana.

Para começar os vinhos de Salta/Cafayate e da Patagônia

Nas próximas notas, os vinhos indicados são da região de Mendoza – responsável por 80% da produção de tintos, brancos e espumantes no país

  •  grandes malbecs
  •  melhores vinhos de corte (blends).
  •  varietais de outras uvas

Vinhos de Salta e Cafayate

As parreiras estão localizadas entre 1.500 e 3.000 metros sobre o nível do mar (a região vitivinícola mais alta do mundo). A chuva é rara, 200 milímetros por ano. A colheita na região é realizada uma semana antes do que em Mendoza. Os vinhos têm uma ótima acidez e são mais amigáveis. A branca torrontés produz caldos mais sutis e menos exibidos na região. Os tintos são mais intensos pois o sol, mais próximo pela altitude, faz com que as frutas engrossem as cascas para proteger as sementes, e como se sabe é nas cascas que se concentram aromas, cor e outros elementos dos tintos. Além do malbec, vale conhecer os cabernet sauvignon e cabernet franc da região.

colomé-torrontes1 Colomé Torrontés 2013

Bodega Colomé

Site oficial: http://www.bodegacolome.com/

Uva: torrontés

Importador: Decanter

R$ 56,00

A voz do vinho: a uva branca porta-estandarte da Argentina encontra aqui um representante à altura de seu marketing. A Bodega Colomé, do suíço Donald Hess, tem vinhedos plantados muito perto do céu. Localizados entre 2.300 e 3.100 metros de altura são considerados os vinhedos mais altos do mundo. Esta torrontés tem uma pegada mais seca, elegante e mostra uma ótima acidez, com bom frescor e frutas tropicais na boca. Levou o prêmio Trophie da AWA (Argentina Wine Awards) 2014.

Por que escolhi: torrontés menos floral e mais seca, mostra o potencial da variedade.

 

cafayatecabsauvignon2. Cafayate Reserve Cabernet Sauvignon – 2012 

Bodegas Etchart

Site oficial: http://www.bodegasetchart.com/

Uva: cabernet sauvignon

Importador: Pernod Ricard

R$: 31,00

A voz do vinho: a Etchart faz parte do grupo de bebidas Pernod Ricard. O vinho não chega a ser uma prioridade numa empresa que produz vodcas, uísques e licores. Mas o vinho é bem tratado aqui. Na região de Cafayate, de maior altitude, os tintos são mais intensos. Este cabernet sauvignon é da linha de entrada e agrada bastante no paladar. Sem complicações mas com uma boa fruta, passa seis meses em barrica, o suficiente para uma amaciada nos taninos e dar uns toques de baunilha. A cabernet sauvignon surpreendeu bastante nos vinhos argentinos. Em uma linha superior, o também Cabernet Sauvignon Gran Linaje é mais complexo e maduro e agradou bastante também.

Por que escolhi: bom vinho para o dia a dia.

 

CiclosMalbec3. Ciclos Malbec 2012

Bodega El Esteco

Site Oficial: http://www.elesteco.com/bodega/

Uva: malbec 100%

Importador: Bruck

R$ 85,00

A voz do vinho: talvez o nome Bodega El Esteco não seja familiar, mas certamente Michel Torino é. Trata-se da mesma vinícola em fase de transição de nome. Dentro da vinícola o Hotel & Spa Patios de Cafayate oferece 32 suítes para quem quer se esbaldar de vinho e sossego. Este malbec de Cafayate passa 12 meses em barricas francesas e americanas. No nariz ele entra um pouco alcoólico, mas revela-se na boca com uma fruta vermelha gostosa, bem macio e com boa intensidade. Provei novamente este vinho em um restaurante em São Paulo e estava fantástico. Medalha de ouro no AWA 2014.

Por que escolhi: malbec de boa extração e fruta saborosa.

 

CiclosIcone4. Ciclos Ícono

Bodega El Esteco

Site Oficial: http://www.elesteco.com/bodega/

Uvas: malbec e merlot

Importador: Bruck

R$ 85,00

A voz do vinho: apesar do nome, não é o tinto ícone da El Esteco. O top de linha leva o nome de Altimus, e é um blend das melhores uvas do ano selecionadas pelo enólogo Alejandro Pepa. O ícono é uma mescla bem realizada de malbec e merlot, macio, longo, com uma fruta ampla. Muito gostoso. Eu sempre sou da opinião que a malbec é sempre beneficiada quando misturada a outras uvas. Aqui está um exemplo. O rótulo, um sol desenhado pelo artista plástico uruguaio Carlos Paez Vilaró, recentemente falecido, se transformou em uma bela homenagem e traduz o clima da região.

Por que escolhi: um vinho ensolarado e feliz na homenagem.

 

LAborum-Tannat5. Laborum Tannat 2012

Bodega El Porvenir de Cafayate

Site oficial: http://www.elporvenirdecafayate.com/

Uva: tannat

Importador: Vinhos do Mundo

R$ 79,00

A voz do vinho: primeiro da série de vinhos com assessoria do consultor Paul Hobbs que vai aparecer nesta lista. Alguns acusam Hobbs de pesar a mão. Discordo, ele tem vinhos de perfis diferentes em cada região. E boas surpresas. Mas aqui a estrela é o jovem e inovador enólogo Mariano Quiroga, que comanda a alquimia sob supervisão do americano. Este tannat é muito persistente no nariz, tem boa acidez natural. Prima mais pela elegância e longevidade. Um tannat oposto daquele estilo agressivo e ao mesmo tempo potente que estamos acostumados a tomar.

Por que escolhi: pela elegância. Este tannat não é agressivo, não luta UFC, pratica ioga.

 

elporvneirtannat-amauta6. Amauta Corte IV Cabernet Franc e Malbec  2013

Bodega El Porvenir de Cafayate

Site oficial: http://www.elporvenirdecafayate.com/

Uvas: cabernet franc e malbec

Importador: Vinhos do Mundo

R$ 79,00

A voz do vinho: o trabalho de Mariano Quiroga merece uma segunda indicação. Este rótulo está ainda para sair no mercado e é aquilo que Mariano define como vinho de autor. A cada ano a composição muda, com a decisão dos enólogos de usar as melhores uvas das melhores parcelas no corte do vinho. Aqui ele combinou o floral do malbec com a potência e o final de boca da cabernet franc e o resultado é espetacular. Belo trabalho de fusão da uva símbolo da argentina (a malbec) com aquele que os especialistas estão apontando como a grande vedete os próximos anos (a cabernet franc)

Por que escolhi: pelo trabalho do enólogo e a escolha das duas variedades de grande expressão na Aregrntina – malbec e cabernet franc

IMG_22397. Cafayate Gran Linaje 2013

Bodegas Etchart

Site oficial: http://www.bodegasetchart.com/

Uva: torrontés

Importador: Pernod Ricard

R$: 55,00

 A voz do vinho: olha o Paul Hobbs aí geeente! a safra 2009 deste vinho levou 92 pontos de Robert Parker, o que é espantoso para um branco sul-americano, ainda mais da uva torrontés. Tem uma pegada mais floral, característica da uva, mas com um belo rastro cítrico e boa acidez

Por que escolhi: um outro exemplo do potencial da torrontés, com bela expressão da uvas

 

Vinhos da Patagônia

Se Salta possui os vinhedos mais altos do mundo, a Patagônia exibe os vinhedos mais ao sul do planeta, no paralelo 39. Ao contrário das regiões de Salta e Mendoza, seus vinhedos estão entre 300 e 500 metros do nível do mar, proporcionando uma maturação mais prolongada das uvas. Por conta de suas condições climáticas, dos ventos frequentes, baixa umidade e ampla diferença térmica entre dia e noite (algo como 20 graus) na época da maturação das uvas, o nível de acidez que se obtém é alto, o que resulta em um bom potencial de guarda. O baixo rendimento dos cachos de uva impõe a produção de vinhos de qualidade. Inicialmente a região ficou marcada pelos pinot noir especiais, muito elegantes, de ótimo final de boca (temos alguns exemplos abaixo). Mas há um enorme potencial também para um malbec mais fino, sem tanta extração, mais sutil nos aromas e paladar e com uma fruta que enche a boca

humbertocanale-riesling8. Humberto Canale Old Vineyard Riesling 2013

Humberto Canale

Site oficial: http://www.bodegahcanale.com/

Uva: riesling

Importador: Grand Cru

R$ 78,00

A voz do vinho: uma uva incomum na Argentina, a riesling, assume na região dominada pelos ventos da Patagônia um caráter untuoso e ao mesmo tempo fresco. Um riesling que não pretende imitar os alemães ou da Alsácia, e por isso mesmo agrada por sua personalidade

Por que escolhi: pela inusitada variedade branca na Argentina

 

Saurus-Familia-Schroeder9. Saurus Barrel Fermented 2012 Pinot Noir/Malbec

Familia Schroeder

Site oficial: http://www.familiaschroeder.com/

Uvas: malbec 50% e pinot noir 50%

Importador: Decanter

R$ 206,00 (safra 2005)

A voz do vinho: interessante mescla com as duas melhores uvas da Patagônia, a malbec e a pinot noir, em porcentagens semelhantes. Difícil identificar nos aromas a uva predominante. Vem um perfume que lembra a malbec, depois outra cafungada e surge um toque terroso e de cereja  da pinot noir. Bem legal. Tem a estrutura da malbec, a cor e a fineza da pinot noir.

Por que escolhi: pela ousadia do blend

 

desierto_pampa10. Desierto Pampa 2009

Bodegas del Desierto

Site oficial: http://www.bodegadeldesierto.com.ar/

Uva: malbec

Importador: sem importador no Brasil

Preço médio: 30 dólares

 A voz do vinho:  outra vinícola com assessoria do consultor Paul Hobbs. São 18 meses de barricas francesas, o que aporta um toque de café e tabaco. Boa fruta fresca, macio, tem um bom frescor e uma fineza do malbec da região. Termina bem na boca. Algum importador se habilita?

Por que escolhi: pelo frescor e novidade

 

IMG_Fin-del-mundo220011. Fin Single Vineyard Cabernet Franc 2009

Bodega del Fin del Mundo

Site oficial: http://www.bodegadelfindelmundo.com/

Uva: cabernet franc

Importador: Mr Mann

R$ 175,00 (safra 2008)

A voz do vinho: a cabernet franc da argentina é uma variedade que merece atenção, vou insistir neste tema e trazer outras alternativas de cabernet franc de Mendoza na próxima lista. Os 18 meses de barrica dão toques de baunilha e coco, uma fruta mais madura no nariz e na boca, bem típica, um perfil de cabernet franc mais internacional, com toques de ervas. Equilibrado e delicioso. Medalha de ouro no AWA 2014.

Por que escolhi: belo exemplo de cabernet franc da Argentina

 

Malma NQN-pinot noir12. Malma – Pinot Noir 2012

Bodega NQN

Site oficial http://www.bodeganqn.com.ar/home.php

Uva: pinot noir

Importador: Vinhos do Mundo

R$ 59,00

A voz do vinho: no terroir da Patagônia a pinot noir se beneficia do clima da região desértica e da altitude menos elevada. A região ficou marcada pelo marketing da pinot noir, mas nem sempre o resultado é assim uma bandeira a ser balançada.  Aqui a pinot noir se revela delicada, fina, com aquela cereja típica da variedade e mostra especiarias no final de boca.

Por que escolhi: é um pinot noir mais acessível da Patagônia e com estilo.

 

vinho-chacra-55-pinot-noir-2011-8261-MLB20002706627_112013-F13. Chacra Cinquenta y Cinco 2012

Bodega Chacra

Site oficial http://www.bodegachacra.com/

Uva: pinot noir

Importador: Ravin

R$ 398,00 (a safra 2010)

A voz do vinho: Vinho fino é outra coisa! Trata-se de um investimento do italiano Piero Incisa dela Roccheta, nada menos que o homem por trás do supertoscano Sassicaia. Tem preço de supertoscanos também. O nome vem do vinhedo antigo, plantado em 1955. Os vinhedos são orgânicos e certificados. O resultado é espetacular e de enorme tipicidade. Apresenta um nariz extraordinário e envolvente, profusão de cerejas na boca, terra molhada, delicadas especiarias. Para ocasiões especiais. Levou medalha de ouro no AWA 2014.

Por que escolhi: para compreender o potencial do pinot noir da Patagônia

 

Noemia

14 Noemía 2011

Bodega Noemía

Site oficial: http://www.bodeganoemia.com/

Uva: malbec

Importador: Vinci

R$ 388,00 (safra 2008)

A voz do vinho: Estes italianos não são bobos. Outro empreendimento europeu na Patagônia, este da Condesa Noemi Marone Cinzano, em parceria com o enólogo Hans Vinding-Diers, o mesmo do Chacra acima, a propósito. Os caldos engarrafados na bodegas Noemía são a prova de que a malbec varia muito de região para região, e aqui a uva se pauta pela finesse, delicadeza, um perfume sedutor, uma intensidade marcante, passeia pelo copo e pelo paladar por um bom tempo. Alia potência e elegância, sempre fino, na busca da excelência do terroir orgânico e biodinâmico.

Por que escolhi: não é barato, mas é um dos melhores malbecs da Argentina, consistente em todas as safras que provei.

 

quimay15. Quimay Manos Negras 2011

Quimay

Site oficial: http://manosnegras.com.ar/

Uva: malbec 100%

Importador: (sem importador)

R$ (em torno de 30 dólares na Argentina)

A voz do vinho: o nome da vinícola– localizada na região de Neuquen -, é uma homenagem aos trabalhadores que botam a mão na terra para dela extrair as uvas que fermentadas se transformam em  uva. Potente, tem aquele licor de cacau exibido no paladar e uma sensação agradável na boca, textura sedosa. Mais um exemplo das possibilidades da malbec da Patagônia. Um belo site apresenta a bodega e a visão dos quatro sócios sobre a missão de seu trabalho.

Por que escolhi: me encantei com o vinho, adorei o site

Preços coletados em abril de 2014

Declaração: Este colunista esteve na Argentina a convite da Wines of Argentina, onde provou 228 vinhos, visitou várias vinícolas e teve contato com dezenas de produtores. Desta boca-livre resultou o texto produzidos neste post sobre os vinhos argentinos.

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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014 Novo Mundo | 12:48

Você conhece vinho argentino? Um passeio pelas regiões vinícolas da Argentina

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Finca Cruz del Alto

Vinhedos da Finca Cruz del Alto, da Bodega Trivento: malbec legendada e cordilheira ao fundo

 Você toma vinho argentino, não? Deve tomar. 20,21% do vinho importado que entra no Brasil vem do nosso vizinho mais ao sul da América de mesma latitude. No copo, pelo menos, nos entendemos. Mas será que você conhece mesmo o vinho argentino? Você já ouviu falar das regiões de Cafayate, Salta, Patagônia, Vale de Uco, Luján de Cuyo, San Juan ou apenas ouviu falar de Mendoza. Ou nem isso?

A maioria das garrafas que chegam ao Brasil são provenientes da região de Mendoza e San Juan, responsáveis por 90% da produção do país (201,441 hectares de vinhedos, para ser mais preciso). Mas há duas outras regiões que produzem tintos e brancos que merecem ser conhecidas: a distante Patagônia, mais ao sul, e a quase boliviana Salta/Cafayate (pronúncia-se Cafajate), localizada mais ao norte. E você pode se perguntar. E qual a importância deste momento Wikipedia para eu continuar desfrutando meu vinhozinho argentino?

Leia também Qual o melhor vinho argentino? Concurso escolhe os melhores rótulos em diferentes faixas de preço

Bom, conhecimento não ocupa espaço, como dizia minha mãe, e o pai dela. E conhecimento alarga nossa visão das coisas e nos amplia a possibilidade de conhecer novos vinhos da Argentina e talvez entender os já conhecidos. Há uma geração de apreciadores de vinho que se iniciou com tintos argentinos e chilenos, e muitos consumidores que apenas bebem vinhos importados destes países. As razões são conhecidas. O  principal argumento é o preço, obtido graças ao acordo tarifário do Mercosul que dá uma livrada na cara da montanha de impostos que incidem sobre a bebida importada. O outro argumento é que o vinho argentino caiu no gosto do brasileiro.

Sebastian Zuccardi e quinze tipos diferentes de malbecs: "É preciso comunicar o lugar"

Sebastián Zuccardi entre quinze tipos diferentes de malbec: “É preciso comunicar o lugar”

Eu achei que conhecia bastante vinho argentino, afinal sou de uma geração que se iniciou com os mesmos tintos argentinos e chilenos que o resto dos brasileiros apreciam. Mas a visita que fiz recentemente à Argentina mostrou na prática o que parece óbvio. As diversas regiões têm características diferentes que agregam sabores específicos para os vinhos produzidos. Afinal, são quilômetros que separam os terrenos, as diferentes altitudes, os climas e as diversas composições do solo. E mesmo dentro das regiões há estilos diferentes. O jovem enólogo Sebastián Zuccardi é um defensor do terroir argentino e de como ele influencia o sabor de um vinho. Para ele, mais importante que a varietal (tipo de uva) é a zona em que ele é cultivado. “A Argentina precisa comunicar o lugar”, defende. Mas nós costumamos uniformizar: é um malbec argentino. Esta é uma lição da viagem na taça. São diferentes.

Leia também: A Argentina não é só malbec. Mas é malbec também

Isso não significa que todo vinho argentino é bom, que alguns vícios do passado estejam totalmente ultrapassados (como vinhos carregados de madeira, desiquilibrados ou mesmo maquiados para atender expectativas do mercado internacional) ou que não existam verdadeiras zurrapas de preço baixo que são empurradas para o mercado brasileiro. Por isso mesmo um pouco mais de conhecimento ajuda na escolha da garrafa. A visita mostrou um cenário de constante evolução e profissionalismo da indústria, a riqueza das diversas regiões e uma boa estrutura ao enoturismo. Contra as ideias preconcebidas – devido ao sucesso de vendas o tinto argentino merece com frequência um ar de desdém por parte dos especialistas e crítica –  nada melhor que o conhecimento.

Argentina, um raio-X

A Argentina tem um consumo per capita de 25 litros por ano, já foi de 90 litros, imagine só. Para efeito de comparação, no Brasil são 2,0 litros per capita. O país consome cerca de 70% de sua produção e exporta entre 25 a 30%. É o oitavo maior produtor do mundo e também o oitavo país em superfície cultivada (mais de 217.750 hectares). Algumas características comuns influenciam e diferenciam a qualidade dos vinhos:

– altitude elevada dos vinhedos

– baixa fertilidade do solo

– baixo índice pluviométrico

– clima continental (sem influência do mar, do contrário do Chile, por exemplo)

– pureza da água (abastecida pela Cordilheira dos Andes)

– e até uma cultuta interna do vinho, que mantém um mercado interno aquecido.

Leia também: O vinho do papa Francisco é ou deveria ser Bonarda

As variedades tintas representam 52,31% da produção e as brancas 20,89%. São 1301 bodegas fermentando uva e engarrafando vinhos.

Principais uvas por volume de cultivo:

Tintas

Malbec 31,71%

Bonarda 17,42%

CabernetSauvignon 15,15%

Syrah 12,12%

Merlot 5,82%

Tempranillo 5,85%

Sangiovese 1,83%

Pinot Noir 1,76%

Outras 6,53%

 

Brancas

Pedro Gimenez  28,04%

Torrontés Riojano 18, 36%

Chardonnay 15,16%

Chenin 5, 68%

Torrontés Sanjuanino 4,78%

Sauvigon Blanc 5,39%

Semillon 1,97%

Vioginer 0,9%

Outras 18,70%

Vinhedos da Lagarde em XX, Mendoza

Terraço dn casa da Bodega Lagarde, em Luján de Cuyo: vista para as cordilheiras e para os vinhedos

Regiões – Mendoza

Mendoza é uma região que vive da fama de seus vinhedos. Diga lá que cidade do mundo tem vinhedos plantados no estacionamento do aeroporto? O município é tomado por ruas largas e arborizadas e grandes praças. 80% da produção de vinhos da Argentina está concentrada em seus vales, limítrofes à Cordilheira dos Andes. Toda a região que produz vinho é donominada de Cuyo, – engloba Mendoza, San Juan e La Rioja. Cuyo significa, no idioma Huarpe Mikayac. país dos desertos (eu tenho uma tese, estas línguas indígenas tanto na Argentina como no Chile só servem para nomear regiões e rótulos de vinho, dando uma pegada de origem e mistério na coisa toda). E a terra é árida mesmo, o que é bom para o vinhedo, irrigado pela água que desce das geleiras, que é fortemente controlada pelo governo. A propósito, o ideal para a planta, segundo nos explicou Carlos Tizio, gerente geral do Clos de Los Siete, não é o estresse pela escassez de água, mas pelo déficit. Traduzindo, não dê 100% da água que a planta precisa, mas uns 50 a 60%, assim ela busca os demais nutrientes no solo, equilibra seu crescimento e mantém a qualidade das uvas produzidas. Os vinhedos estão em altitudes médias de 1.000 metros acima do nível do mar.

Quase todas as variedades de uva são plantadas aqui. Mendoza ainda se divide em cinco zonas: Norte, Leste, Centro, Sul e Vale de Uco. Luján de Cuyo, localizada no Centro,  é conhecida como a “La Tierra del Malbec” e junto com Maipú é a região vitivinícola mais tradicional de Mendoza. São tintos mais estruturados, com frutas bem maduras, floral, com bom volume em boca e taninos macios. Mas também há produção de bons bonardas e de cabernets sauvignon muito interessantes. O corte bordalês costuma ser usado nos rótulos top de gama. Curioso. Mesmo as vinícolas com grande expressão em malbec quando vão elaborar o seu vinho ícone costumam preferir vinhos de corte. Perguntei a razão para um enólogo que preferiu responder sem ser identificado: “O vinho de corte é um trabalho do enólogo, que pode escolher as melhores variedades produzidas naquele ano em seu vinhedo”. Até aí nenhuma novidade. Mas por que não a malbec 100%, insisti? “Talvez por que  por que a malbec não seja ‘a melhor uva’ argentina, mas sim a que melhor representa o país”. Claro que há rótulos de altíssima gama apenas da varietal malbec, e com exclentes resultados, mas é mais comum encontrar os ícones com a malbec acompanhada de cabernet sauvignon, merlot, cabernet franc…

As vinícolas mais conhecidas, aquelas que você esbarra no supermercado e na carta dos restaurantes, estão espalhadas pela região. Nomes como Achaval Ferrer, Terrazas, Finca Flichman, Luigi Bosca, Pascual Toso, Lagarde, Salentein, Catena Zapata, Alta Vista, Alto Las Hormigas, Septima, Argento, Escoruhiela Gastón, Clos de los 7, Doña Paula, Dominio del Plata, La Celia, Kaiken, Chamiza, Rutinni, Nieto Senetiner, Navarro Correas, Norton, O Fornier, Pulenta, Ruca Malen, Trapiche, Trivento, Zuccardi. Além desses as menos conhecidas, mas de excelente qualidade,  como DiamAndes, Ricitteli, Casarena, Finca El Origen, Funckenhausen, Bodega Vistalba, Otaviano, Renacer, Serrera Wines, Durigutti e Hacienda del Plata, algumas sem importador no Brasil.

Cuyo é a maior região vitivinícola da América do Sul. Apenas para ilustrar o gigantismo da operação: a Santa Ana, pertencente ao grupo PeñaFlor, conta com mais de 50 enólogos em sua equipe, 1500 rótulos diferentes e produz mais de 150 milhões de litros de vinho por ano – 6 milhões de caixas apenas do rótulo Santa Ana. Um assombro. Aqui etambém stão concentrados grandes investimentos internacionais – é onde Michel Rolland tem seus vinhedos junto com outros seis proprietários franceses, no projeto Clos de los 7.

Quebrada das Conchas

Marte? Velho Oeste ? Não, Quebrada de las Conchas, na Ruta 68, que liga Salta a Cafayate: a força da natureza

Regiões – Salta/Cafayate

Para chegar até a região de Cafayate, onde está concentrada 70% da producão local de vinhos (pouco mais de 2.500 hectares), o viajante pega a sinuosa Ruta 68, passando pela deslumbrante Reserva Natural de Quebrada de las Conchas. É nada mais do que lindo! A natureza esculpiu lentamente, em milhões de anos, formas que lembram bichos, catedrais, castelos e barcos entre as montanhas de rochas que dominam o cenário. As diferentes formações geológicas tingem de verde, marrom, vermelho, branco e suas nuances multicoloridas as montanhas de pedras. É uma prova inquestionável de que o tempo da terra é diferente do tempo dos homens.

150 anos

Planta de 152 anos e ainda produzindo: raridade

Este cenário antecede a visita aos vinhedos de altitude da região de Cafayate. As parreiras estão localizadas entre 1.500 e 3.000 metros sobre o nível do mar (a região vitivinícola mais alta do mundo). A chuva é rara, 200 milímetros por ano. A colheita na região é realizada uma semana antes do que em Mendoza. Os vinhos têm uma ótima acidez e são mais amigáveis. A branca torrontés produz vinhos mais sutis e menos exibidos na região. Os tintos são mais intensos pois o sol, mais próximo pela altitude, faz com que as frutas engrossem as cascas para proteger as sementes, e como se sabe é nas cascas que se concentram aromas, cor e outros elementos dos tintos. Além do malbec vale conhecer seus cabernet sauvignon e cabernet franc. Uma curiosidade para enófilos de carterinha: na Finca de La Merced, na Bodega Etchart, parreiras de 150 anos ainda produzem uvas da variedade criolla e torrontés. Principais bodegas: Colomé, El Esteco, Amalaya, El Porvenir, Etchart, Michel Torino, Tukma, San Pedro de Yacochuya.

 

 

Regiões – Patagônia

É inacreditável imaginar que no meio daquele deserto cresçam plantas que resultem vinhos tão elegantes. Se Salta possui os vinhedos mais altos do mundo, a Patagônia exibe os vinhedos mais ao sul do planeta, no paralelo 39. Ao contrário das regiões de Salta e Mendoza, seus vinhedos estão entre 300 e 500 metros do nível do mar, proporcionando uma maturação mais prolongada das uvas. Em termos quantitativos, é quase um dedal de vinho comparado às outras regiões. A Patagônia é responsável apenas por 1,69% da area vitivinícola da Argentina.

 

Bodega del Desierto: não é apenas uma força de expressão

Bodega del Desierto: deserto não é apenas uma força de expressão

Por conta de suas condicões climáticas, dos ventos frequentes, baixa umidade e ampla diferença térmica entre dia e noite (algo como 20 graus) na época da maturação das uvas, o nível de acidez que se obtém é alto, com permite um bom potencial de guarda. O baixo rendimento dos cachos de uva impõe a produção de vinhos de qualidade. Inicialmente a região ficou marcada pelos pinot noir especiais, muito elegantes, de ótimo final de boca (o exemplo mais conhecido é o Chacra) e por um sauvignon blanc delicado. Mas há um enorme potencial também para um malbec mais fino, sem tanta extração, mais sutil nos aromas e paladar e com uma fruta que enche a boca.  As principais vinícolas são Bodega del Desierto, Familia Schroeder, Humberto Canale, Bodega del Fin del Mundo, NQN, Noemia, Bodegas Chacra

Declaração: Este colunista esteve na Argentina a convite da Wines of Argentina, onde provou 228 vinhos, visitou várias vinícolas e teve contato com dezenas de produtores. Desta boca-livre resultou o texto produzidos neste post sobre os vinhos argentinos.

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