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segunda-feira, 19 de outubro de 2015 Brancos, Novo Mundo, Tintos | 23:13

Viña Carmen, uma vinícola chilena “especialista em carmenère”

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Sebatian Sabbe e a linha Premiere e Gran Resevra: de roupa nova

O enólogo Sebastian Labbe e a linha Premier e Gran Reserva: de roupa nova

A uva carmenère é responsável por um vinho assim meio Paulo Coelho. Os consumidores adoram, incluindo os brasileiros, e os especialistas torcem o nariz. É justo. E é injusto – com a carmenère, não com o Paulo Coelho. E esta implicância tem lá sua razão de ser. “Redescoberta” em 1994 no Chile (era confundida com a merlot), precisou passar por um aprendizado para encontrar seu lugar no mundo do vinho. Os primeiros exemplares – e curiosamente os que fizeram seu sucesso e marketing – tinham um sabor exageradamente vegetal, verde, pois ainda não se conhecia o tempo correto de maturação, mas já tinha como característica um toque mais macio que o da cabernet sauvignon. Mesmo assim ganhou o carimbo de uva porta-estandarte do Chile. Com o tempo, foi encontrando o solo mais adequado, tempo correto de colheita e um perfil mais refinado – além de ser usada com sucesso para cortes (misturas com outras uvas).

A Viña Carmen é parte importante desta historia. Foi em suas terras que se deu o reconhecimento da varietal carmenère em 1994 após a desconfiança do ampelógrafo francês Jean-Michel Boursiquot de que algumas uvas consideradas como merlot não maturavam no tempo correto. Comprovada sua teste em exames laboratoriais, a certidão de “renascimento” da carmenère foi lavrada e a notícia ganhou o mundo. Originária da França, da região de Bordeaux, como a maioria das uvas blockbusters internacionais, é raridade em sua terra natal. Esta história, repetida “ad nauseam” por todo produtor e enólogo chileno que vem ao Brasil, confere uma certa paternidade da carmenère à Viña Carmen. “Como fomos os pioneiros, temos a obrigação de ser especialistas em carmenère”, diz o enólogo-chefe da Carmen, Sebastian Labbe, que começou na empresa em 2005 limpando cubas.

De cara nova

A Viña Carmen não é uma novidade nas taças dos brasileiros, um volume razoável é consumido por aqui, o bastante para colocar o Brasil como o terceiro mercado mais importante para a vinícola, atrás da Irlanda e do Canadá, A Viña Carmen, tão pouco, é uma estreante no ramo. Terceiro maior grupo vinícola do Chile, também ostenta o título de a mais antiga vinícola do país  ainda em atuação (foi fundada em 1850), além de ser a primeira considerada orgânica.

Estes eram os rótulos que você encontrava nas prateleiiras das lojas e na importadora

Estes eram os rótulos que você encontrava nas prateleiras das lojas

Atenta ao tamanho que as vendas no Brasil representam em seu balanço financeiro, a empresa trouxe em primeira mão o novo figurino de suas garrafas. Os rótulos de fundo branco, “meio apagados e sem destaque nas prateleiras de lojas e supermercados”, segundo o diretor de exportações Luis Carlos Andrade, ganharam texturas mais escuras (azul escuro, vinho) e molduras que transmitem mais nobreza e os distinguem entre outros rótulos. A repaginada também reclassificou o antigo Reserva que agora atende pelo nome de  Premier.

É assim que você vai encontrá-los nas lojas agora

É assim que você vai encontrá-los agora nas lojas


Carmenère

Mas e aquela desconfiança dos especialistas com a carmenère? Preciso confessar que estou naquele time que se tiver de escolher um rótulo chileno não será da uva carmenère. Mas é preciso dar a mão à palmatória: os vinhos vêm evoluindo e, às vezes, surpreendendo. Como ensina Sebastian Labbe, houve um aprendizado. O tipo do solo, por exemplo, é importante. “Pedra não é bom para carmenère”, ensina. “Regra número 1: solo bom para cabernet sauvignon não é bom para carmenère.” E por aí vai.

Um bom exemplar desta prova nos noves é o Carmen Gran Reserva Carmenère 2012 (R$ 128,00), com uvas da região de Apalta, no Vale de Colchagua. Em uma frase: é um caramenère com acidez, frescor e boa fruta madura no nariz e no final da boca. Totalmente varietal? Quase, uma pitada de 5% de carignan na receita “dá uma levantada no final de boca evidenciando o frescor”, revela Sebastian Labbe, que costuma decidir o ponto ideal da colheita das frutas pela velha e boa prova da boca (prática que o enólogo Felipe Toso,  da linha Grey da Ventisquero, também adota. (Leia em Felipe Toso, o “cozinheiro” dos vinhos chilenos Grey, comemora dez safras, explora novos terrenos e lança rótulos).

Um ou dois degraus abaixo o Carmen Premier Carmenère 2014 (R$ 90,00), também de Colchagua, suaviza o vegetal da carmenère mas mantém seus traços um pouco mais exibidos. A nova linha Premier inova no rótulo, mas não abandonou o estilo típico do carmenère que atendia  pelo nome de Reserva  e que você provou por aí. Corpo médio, é correto, mas não empolga. Os 40 reais que os separam fazem diferença.

Cabernet Sauvignon e Chardonnay

Mas nem só de carmenère vive a Viña Carmen. Seu Cabernet Sauvignon Gold Reserve 2009 já ganhou destaque no Guia Descorchados – a referencia dos vinhos chilenos e argentinos – e a chardonnay levou 90 pontos do Robert Parker (que na realidade não quer dizer nada, mas também quer dizer alguma coisa, depende da sua visão do mundo do vinho).

Carmen Gran Reserva Cabernet Sauvignon 2012 (R$ 128,00). Com uvas de vinhedos próprios da região do Alto Maipo, berço nobre da cabernet sauvignon no Chile, este tinto tem um perfil de boa tipicidade da varietal, carnudo e uma acidez que é resultado da diferença da temperatura entre o dia e a noite. “Nem sempre uma grande amplitude térmica é algo bom. Como à noite a temperatura baixa muito, a cabernet sauvignon precisa ter um maior teor alcóolico”, observa Labbe, que acredita que “a cabernet sauvignon precisa se reposicionar no Chile”. Aqui a concentração e a estrutura dão as mãos para acidez e resultam num caldo que aponta um direcionamento  mais marcado para a expressão da fruta

Pra finalizar um vinho que costuma iniciar os trabalhos, um branco. O Carmen Gran Reserva Chardonnay 2013 (R$128,00), da região certa para as uvas brancas, Casablanca, vem de vinhedos de mais de 22 anos. Passa por uma fermentação em barricas francesas de 25% do seu caldo e 9 meses em contato com as leveduras. Resultado: notas amanteigadas e tostadas na medida (tem que não goste, me agrada na medida certa), toques frutados de pêssegos maduros e fechando o conjunto uma acidez equilibrada.

Os vinhos da Viña Carmen são importados pela Mistral.

 

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quinta-feira, 5 de março de 2015 Brancos, Doce, Tintos, Velho Mundo | 10:40

Planeta: vinhos italianos da Sicília aos pés do vulcão Etna

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Vinhedos da Planeta: aos pés do vulcão Etna, na Sicília

Vinhedos da Planeta: ao fundo o vulcão Etna

Em 1994 a vinícola Planeta, um empreendimento familiar da ilha de Sicília, na Itália,  lançou um vinho branco da uva chardonnay que é sucesso até hoje. De um perfil moderno,  de coloração dourada, cremoso, com boa presença em boca e um toque de barrica e de baunilha bem perceptível ganhou o mercado e tornou conhecida a marca, que também se notabilizou pelo syrah e pela merlot. Uvas internacionais, rótulos modernos e fáceis de lembrar, mas legítimos representantes do solo italiano, apesar de perder um pouco aquele sentido de vinhos originais da Bota.

O projeto – Planeta é o nome de família – começou com uma vinícola e 50 hectares fruto de pesquisas de Diego Planeta, e hoje ampliou sua presença na ilha e possui seis cantinas em diferentes pontos da Sicília que juntos somam 390 hectares. São elas: Ulmo/Sambuca di Sicilia (de onde vem o chardonnay famosão); Dispensa/Menfi; Dorilli/Vittoria; Etna/Feudo di Mezzo; Buonivini/Noto e La Baronia/Capo Milazzo. Os campeões de venda no Brasil são os rótulos La Segreta. No mapa as cantinas  permitem um tour em volta da ilha, o que não é má ideia.

A cantina onde os vinhos são produzidos

A cantina de Vittoria/Etna onde os caldos são vinificados

Esta diversidade de solos e territórios entrega uma variedade de estilos de vinho (espumantes, brancos, tintos, doces) com diferentes tipos de uva (as internacionais chardonnay, syrah, merlot e as nativas, carricante, moscato bianco, nero d’avola, frappato, nerello mascalese) que enriquecem a experiência do vinho da Sicília e quebra este carimbo global que marcou o início da Planeta. Um bom exemplo é linha Etna, recém-lançada no Brasil, produzida em um vinícola que fica aos pés do vulcão de mesmo nome, o maior símbolo da ilha. São rótulos onde a  tipicidade da Itália se torna mais presente e os vinhos mais gastronômicos e instigantes, secondo me (termo roubado do meu amigo Didu Russo).

Blog do Vinho provou e palpita:

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Planeta Etna Bianco 2013

Região: Castiglione di Sicilia (Etna)
Uva: carricante
R$ 126,00

Um branco menos exibido que seu primo mais famoso, o citado chardonnay Planeta. A carricante é uma uva nativa da região. Mais fresco, com boa acidez, mineral e nota lá no fundo de madeira. Um branco que tem como principal virtude a vivacidade em boca.

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Planeta Etna Rosso 2013

Região: Castiglione di Sicilia (Etna)
Uva: nerello mascalese
R$ 126,00

Agora um tinto representante legítimo do solo vulcânico do Etna. Algumas fotos impressionantes mostram as lavas fazendo fronteira com os vinhedos. A coloração é mais leve,  corpo médio, tem um aroma gostoso de frutas vermelhas, macio, e boa acidez. Um tinto que pede um prato de comida.

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Dorilli Cerasuolo Di Vittoria Classico DOCG

Região: Dorilli (Vittoria)
Uvas: 70% nero d’avola e 30% frappato
R$: 163,00

Um clássico da Planeta, com aquele rótulo em formato de redemoinho mais famoso. Único vinho DOCG (denominazione di origine controllata e garantita) da Sicília. O nome do vinho já dá a dica: Cerasuolo significa solo de cereja. E não é que o bichão exala aromas marcantes de cereja madura, framboesa, frutas vermelhas em geral? A percepção em boca é mais doce (passa 10 meses em barricas de 500 litros de segundo uso, que não marca tanto o vinho), desce macio, gostoso. Bom final de boca, com mais corpo também. Gastronômico, mas pede um prato mais forte de carne, um molho mais potente.

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Passito di Noto – DOC Noto

Região: Noto (Buonovini)
Uva: moscato bianco
R$ 213,00

Vinho de sobremesa branco italiano. Só por isso é um risco que se deve correr. O processo de vinificação lembra o do amarone, de apassimento (as uvas são deixadas em esteiras por quatro ou cinco meses em vez de serem esmagadas, com isso os frutos perdem peso e ganham açúcar, álcool e aromas). A cor é bem amarela, e a primeira e segunda impressão no nariz é de mexerica (tangerina) doce, um toque de mel. Doce e untuoso como tem de ser, corta o melaço com uma acidez presente. Deve ser o bicho com pastiera di grano

Os rótulos Planeta são importados no Brasil pela Interfood

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sexta-feira, 28 de novembro de 2014 Degustação, Tintos, Velho Mundo | 12:34

Vinhos da Borgonha, no céu e na terra

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Gevrey-Chambertin da Domaine Armand Rousseau: joias raras

Gevrey-Chambertin da Domaine Armand Rousseau 2009 e 2008: o paraíso é aqui

Proibido na terra o vinho é uma das promessas do paraíso muçulmano. É descrito no Alcorão como “Branco, delicioso para quem o bebe, livre de intoxicantes e, com ele, não se embriagarão” (Alcorão 37:46-47). Não sei qual a graça deste vinho sem álcool, mas no meu paraíso particular, o vinho também seria contemplado, e se precisasse escolher apenas uma região – o que na teoria seria uma contradição, já que estaria no paraíso, né? – seria a Borgonha. Então, cada vez que tenho a oportunidade de provar rótulos realmente representativos desta região da França, um pedacinho do paraíso se realiza em vida. Foi o que aconteceu esta semana, quando fui convidado para uma degustação exclusiva de tintos e brancos de alta patente da Borgonha (ou Bourgogne, para os puristas).

A Borgonha é grande e é pequena. Grande por que produz os pinot noirs e chardonnays mais encantadores do planeta. Pequena por que ocupa apenas 3% de todos vinhedos plantados na França. Está localizada há duas horas de Paris e é fragmentada por natureza e por uma decisão de Napoleão Bonaparte, que dividiu grandes propriedades da Igreja em pequenas parcelas que foram subdivididas por heranças ao longo do tempo. Uma imagem possível para descrever o mapa da Borgonha é um vitral, ou uma colcha de retalhos. A parte mais importante, de onde vêm os melhores vinhos, é a Côte d’Or, que é dividida entre a parte sul (Côte de Beaune) e a parte norte (Côte de Nuits). A partir daí surgem as apelações, as comunas e os vinhedos com suas distintas personalidades e proprietários. E para piorar a algaravia de nomes, diversos produtores têm pequenos lotes espalhados por toda a Côte. Para se ter uma ideia, a apelação Clos Vougeot tem 50 hectares divididos entres mais de 90 produtores. Se fosse um “bread crumb”, aquelas sinalizações no alto de uma página de internet que indicam o caminho percorrido pelas navegação do usuário, seria algo assim: França->Borgonha->Côte d’Or->Côte de Nuits->Clos Vougeot->Produtor->classificação de vinhedo (grand cru, premier cru etc). Difícil – e inútil – decorar todas apelações e descrevê-las aqui. Eu confesso que tenho sempre de recorrer aos livros e à internet. Quem realmente domina a região não precisa disso, quem não conhece vai achar enfadonho e esquecer tudo no parágrafo seguinte. Para aqueles que quiserem se aprofundar em todos os detalhes da Borgonha o site Bourgognes é bastante útil.

Por conta destas características que unem qualidade, pequena produção e muita procura, a comercialização destes vinhos é outra particularidade da Borgonha que tem entre tantos ícones, talvez a vinícola mais cultuada do planeta, a Domaine de La Romanée-Conti. A distribuição, ou realocação, é uma batalha travada pelos importadores de todo país que é agraciado, após muita negociação e espera, com algumas poucas garrafas de determinado rótulo. É uma distribuição pontual e global. Quando se fala em poucas garrafas, não é exagero, às vezes 12 garrafas de um grand cru (o topo da cadeia alimentar da classificação da Borgonha) são exportadas para um país. Resultado: são vinhos caros, caríssimos, o que aumenta a mística em torno destes caldos que passam a ser objeto de desejo de quem gosta muito de vinho ou de quem gosta muita de ostentação, ou de ambos.

 Para um importador se não chega a ser um grande negócio é sempre sinônimo de qualificação ter rótulo bacanas de produtores de renome da Borgonha no catálogo. E talvez uma satisfação pessoal. Para os produtores, que têm a venda mundial praticamente garantida, trata-se de uma estratégia. “Para eles é mais importante ter o produto espalhado e cultuado em diversos países por todo o mundo do que concentrado em um único lugar”, esclarece Raphael Zanette, proprietário da Magum Importadora, que tem entre seus produtores pequenas joias como Arnoux Lachaux, Domaine Dujac e Armand Rousseau. Foram rótulos destes senhores que me inspiraram este post. Os preços, que provocam em geral um olhar de espanto seguido de um sorriso amarelo, são consequência do que foi relatado no parágrafo anterior somado ao custo Brasil.

Só existe Borgonha inacessível? Não, há as classificações mais básicas, como os Regionais e Village, vinhos realmente de entrada, de cor mais rala, pouca persistência e que podem até decepcionar quem espera encontrar na taça um líquido em forma de poesia. Por isso, é importante o nome do produtor que garante uma qualidade mínima ao vinho desde a linha básica e também o entendimento que há vários estilos de vinhos na região, como em todas do mundo, aliás.

De modo geral a pinot noir apresenta uma coloração de clara para média, são típicos aromas de cereja, framboesa, flores e algo de caça e terroso (húmus). Os mais evoluídos são uma viagem sensorial com várias camadas e variações de aromas e sabores. A pinot noir é tão típica e diferenciada que na minha opinião o melhor descritivo seria: tem gosto e aroma de pinot noir. Afinal, as coisas não têm um gosto que as represente?

Dos dez rótulos bebidos – ninguém ousou cuspir desta vez -, destaco cinco tintos que de alguma forma me encantaram mais e mostraram mais uma vez o que é que a Borgonha tem, tem pinot noir como ninguém.

Aloxe-Corton Domaine Tollot-Beaut 2009

R$ 375,00

Diante de um painel estrelado, o tinto de melhor custo-benefício, se é que cabe o termo aqui. Localizado em Chorey, é comandado pela quinta geração de uma família que está há mais de 100 anos fazendo vinhos. Correto, frutado, com boa expressão de aromas e boa estrutura. Tem um bom ataque e bela persistência. Isolado dos outros faz o maior sucesso.

Morey-Saint-Denis Domaine Dujac 2011

R$ 475,00

Entre os entendidos de Borgonha no Brasil, a Domaine Dujac é uma vinícola conhecida e que teve um trabalho importante de divulgacão anteriormente em outra importadora. Diante dos vizinhos ancestrais é uma produtora relativamente recente, fundada em 1967 por Jacques Dujac. Ironia ou não a atual enóloga responsável é uma americana, Diana Snowden Seysses, casada com Jeremy Dujac, filho de Jacques. Desde 1986 promove-se a conversão dos vinhedos para cultivo orgânico. Foi tinto mais terroso de todos – toque que apareceu também no Morey-Saint-Dennis Domaine Dujac 1er Cru 2011 (R$ 860,00) -, que deu maior pinta de orgânico e com um intensidade bem bacana.

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 Gevrey-Chambertain Domaine Armand Rousseau 2008

R$ 620,00

Gevrey-Chambertain 1cru Clos Saint Jacques Armand Rousseau 2009

R$ 1.900,00

Meu vinho preferido entre todos foi Gevrey-Chambertain Domaine Armand Rousseau 2008, vejam que modesto que sou (comparado a outros preços). Na família desde o início do século XX a propriedade comandada pela terceira geração iniciou em 1982 um processo de direcionamento dos vinhedos para a viticultura orgânica, com a menor intervenção possível. O safra 2008 era o mais exibido e intenso. Elegante nos aromas frutas e flores, fino na boca, licor de cereja, defumados, champigon. O Gevrey-Chambertain, em um painel de borgonhas, costuma ser um vinho mais potente, juntando estrutura e elegância. Este aqui mostrou tudo isso. Seu parente mais caro é igualmente bom, mas além da diferença de preço, havia uma diferença de paladar que conquistou a todos presentes (único vinho que teve a garrafa toda esvaziada). Papai Noel, se estiver precisando de uma dica para este escrevinhador…

Romanée-Saint-Vivant Grand Cru Domaine Arnoux-Lachaux 2007

R$ 3.300,00

Olha a colcha de retalhos aqui: com 13 hectares localizados em 14 apelações da Côte de Nuits, esta vinícola é obra de Pascal Lachaux e Robert Arnoux, que são respectivamente genro e sogro. Eles juntaram seus conhecimentos e afinidades para produzir tintos de excelente padrão e alta gama. Os vinhedos deste exemplar aqui são vizinhos do Romanée-Conti. Quem compra um vinho de R$ 3.300,00? Não sei, mas o que se avalia aqui é a qualidade, a tipicidade e o encanto que um caldo desses é capaz de proporcionar. E não o preço, se não nem começava a escrever. E este mostra tudo isso. Todos os “ades” possíveis: complexidade, intensidade, longevidade e tipicidade da pinot noir. São produzidos de 5 a 6 barricas por ano deste vinho. Um grand cru deste naipe é um tinto de guarda, como recomenda o produtor – deve ser fenomenal com mais de 20 anos. Mas não sei se estarei vivo até lá. É o chamado vinho para otimistas, que apostam em uma vida longeva.

 Curioso este fascínio que a Borgonha exerce no mundo do vinho. É muito comum perguntar a enólogos e produtores de todo o mundo quais seus vinhos preferidos – além daqueles que eles produzem, claro – e a resposta é quase sempre o pinot noir da Borgonha. Talvez por serem realmente a melhor definição para expressão do lugar. “Não existe mágica, tudo se deve à qualidade das uvas, o restante é secundário”, diz o produtor Pascal Lachaux. Ou talvez pela enorme variação que uma única uva – os tintos e brancos são sempre varietais (feitos apenas das uvas pinot noir para tintos e chardonnay para brancos) – pode proporcionar em vinhedos tão próximos; ou pela finesse do seu paladar, pela evolução das grandes safras e até mesmo pela dificuldade que é cultivar e fermentar esta uva em outros solos e regiões. Junte-se a isso o respeito ao vinhedo, à agricultura orgânica e biodinâmica executada por muito dos produtores – antes mesmo de virar moda. É a singularidade da pinot noir da Borgonha, em especial dos grandes vinhos, que atrai aos apaixonados pelo vinho. O fascínio enfim talvez ocorra por que a difícil tradução de um vinho elegante e com tipicidade encontre aqui um exemplo quase palpável. O vinho da Borgonha não é explosivo e potente como um gol, está mais próximo  da beleza e da elegância do drible de um craque.

 

 

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quinta-feira, 23 de outubro de 2014 Brancos, Novo Mundo, Tintos | 12:53

O novo vinho chileno da De Martino: mais gastronômico, mais leve, mais natural

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Vinhedos orgânicos da De Martino no Maule. "Os vinhedos são lindos, mas o que importa é o solo", diz o enólogo Marcelo Retamar

Vinhedos orgânicos da De Martino no Maule. “Os vinhedos são lindos, mas o que importa é o solo”, diz o enólogo Marcelo Retamal

Um espectro ronda o Chile, o espectro da reinvenção do vinho chileno. Aquele tinto amadeirado, carnudo, alcoólico e com uma geleia doce que eleva qualquer curva glicêmica tem seus dias contados. Pelo menos na visão da De Martino, uma bodega familiar que completa 80 anos com disposição de mudança de um adolescente. “Definimos a partir de 2010 produzir vinhos mais gastronômicos, com maior acidez, que deem prazer de beber”, pontifica o enólogo Marcelo Retamal. “E que expressem os nossos vinhedos”.

Saem de cena as barricas de primeiro uso, o tostado excessivo, as leveduras de prateleiras, os aditivos químicos, ou seja, todos os componentes artificiais que deixam todos os vinhos parecidos.

Entram no jogo os princípios da agricultura orgânica, uso de leveduras indígenas (naturais do lugar), as barricas usadas e maiores. “A madeira não é ruim , mas não pode ser norma. Tem de saber manejá-la”, explica. “Tonéis de 5 mil e 2,5 mil litros são 22 vezes maior que um barril pequeno e impacta 22 vezes menos o vinho.” Resultado: vinhos frescos, nervosos, mais fáceis de beber, com maior expressão da fruta e “diferentes”. “Este é o estilo que queremos”, aponta Retamal. Antes, explica ele, o vinho era construído do nariz para a boca, ou seja dava-se muito importância aos aromas. “Hoje, quero saber como fazer a boca, afinal o vinho é feito para beber, o nariz é uma consequência.”

Os vinhedos da De Martino são orgânicos desde 1988 e o trabalho é feito de forma sustentável, a vinícola exibe todos os certificados de agricultura orgânica e redução de emissão de carbono. Sorte ou não, a partir da decisão de um estilo com menor intervenção, mais pureza e uma busca às origens, veio a safra de 2011, considerada excepcional no Chile. Os oito rótulos que são uma espécie porta-bandeiras desta proposta são de vinhedos únicos (single vineyard) espalhados em seis diferentes vales chilenos e com características próprias. “Os vinhedos são todos lindos, mas tem de olhar para baixo, é o solo, e sua composição que determina qual a uva mais apropriada e as características que vai aportar qualidades ao vinho”

Os vinhos que representam os single vineyards são: Quebrada Seca, Chardonnay (Limari), Parcela 5 Sauvignon Blanc (Casablanca) – vinhos da Costa, com influência marítima; Carmenère Alto de Piedras e Las Águilas Cabernet Sauvigon (Maipo); Las Cruces (Cachapoal), Limávida (Maule); Vigno Carignan (Maule) – vinhedos antigos; e Alto Los Toros (Elqui) – vinhos de altura

Três vinhos que valem a pena conhecer

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Quebrada Seca Chardonnay 2011
Limarí
100% chardonnay
R$ 131,00
Importador: Decanter

Cansado daqueles chardonnays superuntuosos, com tanta manteiga que dá para passar no pão? Seus problemas se acabaram-se! Este exemplar do novo estilo da De Martino de solos vulcânicos e distante 25 quilômetros do oceano Pacífico, com muitos componentes calcários, prima pela frescura, pela mineralidade, uma doçura leve e um longo final de boca, que também revela um toque salgado.

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Limávida 2011
Maule
85% malbec, 15% carmenère e cabernet sauvignon
R$ 131,00
Importador: Decanter

O meu vinho preferido entre os oito apresentados. Os vinhedos, plantados em 1945, mantêm a característica de uma época em que as uvas eram cultivadas juntas e misturadas. Boa entrada, fruta fresca, boca bastante delicada e limpa, boa acidez, taninos macios. Tem madeira sim, fica dois anos em barricas francesas, mas usadas, que faz seu trabalho sem atravessar o vinho.

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Vigno Carignan 2011
Maule
85% carignan, 15% malbec e cinsault
R$ 131,00
Importador: Decanter

Também de vinhas velhas, estas de 1955, este é um vinho que busca recuperar o prestígio da carignan, ligado à Associação dos Produtores de Carignan do Maule, que mostra ótimos resultados no Chile. É o estilo de vinho que os especialistas costumam rotular de mediterrâneo, com uma acidez cortante, fresco e com notas bacanas de especiarias. Acho que é um ótimo exemplo da pegada gastronômica do novo estilo da De Martino. Foi o vinho chileno com maior pontuação do Guia Parker, 95 pontos.

Falando nisso, se a minha opinião não tem lá muito peso, vamos aos peso-pesados. A crítica especializada tirou o chapéu para os vinhos. Todos os seis rótulos receberam pontuação acima de 94 pontos do mais importante Guia de Vinhos do Chile e Argentina, o Descorchados, merecendo o título de “Marca Revelação do Ano”. Também mereceram notas acima de 90 pontos do Guia de Robert Parker. “Uma revolução está acontecendo na De Martino, desde a safra 2011”, alerta o colaborador de Parker, Luis Gutierrez. É, companheiros. Tudo que é sólido se desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado.

E o consumidor? “O consumidor também está mudando e se voltando a este estilo de vinho e não apenas aquele alcoólico, com madeira excessiva”, aposta Retamar, afinal há que se vender as garrafas. Para finalizar, contextualiza seu papel nesta mudança: “O estilo é o que é importante, é o que fica. Os enólogos são passageiros, assim como na Fórmula 1.  Os pilotos mudam, uma hora é o Schumacher, outra o Alonso. O que importa é a Ferrari”.

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terça-feira, 14 de outubro de 2014 Degustação, Espumantes, Velho Mundo | 12:51

Tem beija-flor brasileiro no champagne do monsieur e da madame

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Garrafas da Perrier-Jouët perfiladas em dia de gala: as flores desenhadas por Emile Gallé são a marca registrada

Garrafas da Perrier-Jouët perfiladas em dia de gala: as flores desenhadas por Emile Gallé são a marca registrada

Champagne é para poucos, fato. Mas se em algum momento da vida uma tacinha passar pela frente, não deixe escapar. Tanto melhor se for um champagne que alia beleza e sofisticação na garrafa e dentro dela, não é? Um dos expoentes desta linha que esbanja elegância e paladar é a Maison Perrier-Jouët, aquela da etiqueta florida, de estilo art nouveau, que dá dó de jogar a garrafa fora, mas um prazer danado de jogar as borbulhas para dentro.

Provar vários rótulos de Perrier-Jouët é uma viagem sensorial que revela a marca desta casa que existe desde 1811, desde que o sobrenome do monsieur (Pierre Nicolas Perrier) e da madame (Adéle Jouët) se juntaram em matrimônio. A Maison teve apenas sete Chefs de Cave – o sujeito que é responsável pelo assemblage final, pelo estilo do champagne, pela mágica da borbulhas. O último deles, Hervé Deschamps, esteve em São Paulo no último dia 9 de outubro para apresentar seu portfólio. Em especial a edição limitada – 10.000 garrafas para o mundo; 200 para o Brasil – da Pierre Jouët Belle Epoque Rosé 2005.

Vai uma tacinha de champagne?

Vai uma tacinha de champagne?

O que tem de especial neste champagne, além do champagne? O marketing. Um beija-flor do artista plástico Vik Muniz pousou na garrafa comemorativa e se misturou às tradicionais anêmonas – as flores verde ou rosa e branca – que definem e distinguem o visual da Pierre-Jouët desde 1902, quando o então maior representante da art nouveau, Emile Gallé, desenhou esta representação típica da Escola de Nancy, que usava e abusava de flores na sua arte decorativa em vasos e peças.

O beija-flor do artística plástico Vik Muniz entre as flores de Emile Gillé.

O beija-flor do artista plástico Vik Muniz entre as flores de Emile Gillé.

As flores, a propósito, não são uma mera representação artística de Emile Gallé, elas traduzem a elegância e as notas florais características do estilo do champagne da Pierre-Jouët. A Belle Epoque Rosé é um assemblage de 50% de pinot noir, 45% de chardonnay e 5% da pinot meunier – a mistura clássica de Champagne. O toque floral tá lá, o cítrico e, claro, frutas vermelhas que se esperam de um rosé, envolvidas em um tostado marcante, finalizadas com uma acidez necessária. Outro “detalhe” distingue esta peça artística. O preço. Por R$ 1.600,00 ela pode ser adquirida nas melhores lojas e delicatessens.

Pierre-Jouët: vale o refrão dos Titãs "Eu vejo flores em você"

Pierre-Jouët: vale o refrão dos Titãs “Eu vejo flores em você”

Este colunista teve chance de provar mais do que uma tacinha, diga-se de passagem. E não deixou a chance escapar. Passaram por estas papilas gustativas que a terra há de fermentar a Perrier-Jouët Brut, a Belle Epoque Blanc de Blancs 2002, A Belle Epoque Brut 2004 e 2002 (2002 com maior potência, pois 2004 teve mais sol e calor), a Blason Rosé, e a estrela do dia, a Belle Epoque Rosé 2005.

Belle Epoque Blanc de Blancs 2002: passaria o dia bebendo

Belle Epoque Blanc de Blancs 2002: passaria o dia bebendo

Meu preferido: o Belle Epoque Blanc de Blancs 2002. O nome já entrega que é um blend apenas da branca chardonnay (lembrando que pinot noir e meunier são uvas tintas e na elaboração dos espumantes as cascas não são fermentadas junto com o mosto). São uvas dos melhores vinhedos da Pierre-Jouët: Bourons Leroy e Bourons du Midi, em Cramant, no miolo de Côte des Blancs. O crème de la créme da chardonnay da região demarcada de Champagne. Para quem se interessa pelo universo da minhoca, trata-se de um terroir de solo calcário que retém a umidade e aprofunda as raízes das vinhas. Mas a gente não prova o solo calcário nem as raízes, mas seu fruto fermentado: flores brancas, torrefação, cremoso, um bom volume de boca, um ótimo frescor e uma inacreditável lembrança de gengibre e laranja. Passaria a tarde descobrindo (e inventando) novas camadas de aromas e sabores deste Blanc de Blancs, isso sim é Belle Epoque, aqui e agora.

Belle Epoque Brut: grandes garrafas para grandes vinhos

Belle Epoque Brut 2002: grandes garrafas para grandes vinhos

A visita de Hervé Deschamps proporcionou um aumento per capita de rolhas de champagne Perrier-Jouët abertas nunca antes visto neste país, incluindo algumas garrafas Magnum (3 litros) de Belle Epoque Brut que segundo Hervé permitem um maior contato da bebida com as leveduras e consequentemente uma capacidade de envelhecimento maior. O Chef de Cave ensinou que as uvas da Belle Epoque Brut são provenientes de vários vinhedos, e que a porcentagem é resultado de inúmeras provas às cegas realizadas por ele e sua equipe, mas um número mágico sempre se impõe: 50% de chardonnay, 45% de pinot noir e 5% de pinot meunier. Para Hervé, esta porcentagem nada mais é do que o reflexo dos terrenos da Perrier-Jouët. O Chef de Cave descreve o Belle Epoque 2002 com algumas palavras: equilibrado, estruturado, leveza, flores, frutas (pêssego, pera), tostado no final, mineral e complexo. Uma frase do release de Hervé distribuído pela assessoria se encaixa aqui: “Cada cuvée é uma obra única e inesquecível e toda degustação é uma arte, como a do assemblage”

Hervé Deschamps (7)

Hervé Dechamps: o sétimo Chef de Cave em 200 anos de Perrier-Jouët. Só alegria!

Hervé Dechamps? Não lembra o personagem de UP?

Hervé Dechamps? Não lembra o personagem de UP?

Perguntei a Hervé Deschamps – que lembra um pouco o velhinho do desenho UP, mas sem aquele mau humor – o que faria um consumidor escolher um Perrier-Jouët entre tantas outras Maisons de Champagne disponíveis. Sua resposta fecha esta coluna e define um estilo: “Nós procuramos reproduzir na assemblage o mesmo conceito artístico, e com os mesmos valores, representados pelo rótulo criado por Emile Gallé: elegância, delicadeza e prazer.”

As flores, as frutas, a cremosidade: um representação do Belle Epoque Rosé

As flores, as frutas, a cremosidade: uma representação do Belle Epoque Rosé

 

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terça-feira, 28 de janeiro de 2014 Brancos, Espumantes, Rosé | 12:19

Beber vinho com este calor? Sim: espumantes, brancos, rosés e tintos leves

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Este é o cenário ideal: vai um vinho para acompanhar?

Este é o cenário ideal: vai um vinho para acompanhar?

 Vamos combinar, com esta canícula que estava fazendo lá fora, um calor de rachar mamona, o vinho não é a primeira idéia de bebida alcoólica que vem à cabeça. É a cerveja estupidamente gelada, a caipirinha de frutas. Não é comum se ouvir por aí: “Estou louco para sair do escritório e bebericar um sauvignon blanc”, ou “meu sonho agora é estar na praia secando uma garrafa de espumante” e nem o delírio mais gay pressupõe uma vontade louca de “me acabar com várias taças de um rosé gelado”.

Mas que saber? Todas as opções acima são pra lá de válidas. E cabe até um tinto nesta lista. São bebidas que cumprem a função de refrescar o dia, provocar acidez na boca, dar uma sensação de fruta ampla e leve, e principalmente acompanhar uma refeição com leveza e elegância ou um bate-papo descontraído com uma bebida idem.

Espumantes, brancos, rosés, tintos: opções é o que não faltam

Espumantes, brancos, rosés, tintos: opções é o que não faltam

Todo verão que estou na praia um hábito que sempre provoca pescoços torcidos e um toque de curiosidade é quando carrego para a areia um baldinho de gelo com uma bela garrafa de espumante nacional. Taças de plástico coloridas no formato correto dão um ar alegre e preservam a espuma. Está preparada a festa! O estampido seco da rolha sendo liberada e aquela espuma que sobe ao ser despejada da garrafa causam uma certa inveja. Alguns olham com muxoxo para sua lata de cerveja de sempre, outros cutucam o parceiro(a) para novidade. Não passa despercebido.

Uma deliciosa lembrança de um período de férias passado em Arraial da Ajuda, no sul da Bahia. Caminhada pela praia, o calor que se imagina. Resolvemos estacionar o esqueleto escaldado em um bar de hotel que oferecia um quiosque coberto e avançando sobre a praia. Pedimos um Chandon que veio triscando, na temperatura certa e conservado em um balde de gelo. Uma porção de iscas de peixe acompanhava a bebida. A felicidade estava repleta de borbulhas e nenhum outra bebida traria maior prazer. O espumante, com certeza, é a opção número 1, 2 e 3 para o verão.

Um belo sauvignon blanc lentamente apreciado, acompanhando o passar do dia, ou como parceiro de um peixe grelhado já é uma boa pedida no mundo dos brancos. Delicado e elegante se for um exemplar do Loire, cítrico e com toque de maracujá, se o rótulo for do Mercosul, ou com um toque de grama, da longínqua Nova Zelândia. Um alvarinho ou albarinho, com sua acidez cortante enfrentando os calores dos trópicos também vai bem. A vignoier, cultivada na frança e no novo mundo, faz uma presença mais floral. Há quem se restabeleça com a torrontés argentina,  indicada para paladares mais doces. No cair da tarde um chardonnay mais mineral da região de chablis, na França, ou orgânicos da região de Casablanca, no Chile, ou mesmo os bons exemplares de Santa Catarina. Para aqueles que preferem um chardonnay mais potente, com notas de frutas tropicais doces, mel, baunilha e toque de madeira, alguns rótulos de Mendoza, na Argentina, dos Estados Unidos, Austrália, de outras regiões do Chile ou da Sicília, na Itália. Os portugueses contribuem com outro branco com mais textura, ideal para peixes mais gordurosos, como o antao vaz.

Os rosés ocupam um lugar de destaque no verão. É refrescante até de olhar. Como já foi escrito aqui, o rosé é o vinho com a cor do por-do-sol. Não precisa dizer mais nada. Gastronômico por definição e charmoso pela coloração é o vinho ideal para aperitivos, almoço na praia, para descontrair o cardápio executivo da cidade que derrete no aslfalto. As opções óbvias da Provence, elegantes e de cor mais discreta, lembrando uma casca de cebola, da região do Rhone, ainda na França, do Chile, um pouco ais frutados e potentes, da Argentina com a mesma pegada. Algumas boas opções nacionais e outras do Alentejo, Portugal, são rosés de climas quentes.

Para finalizar, tintos mais leves, por que não? Conservados em uma temperatura mais elevada – mantenha resfriado num balde com água fresca – cumprem o seu papel. Menos alcoólicos, mais ligeiros, frutados, podem ajudar e enfrentar os dias de sol. O Beaujolais, elaborado coma uva gamay, é a indicação com menor possibilidade de erro. No Brasil o Beaujolais Noveau chega com um preço meio proibitivo, uma pena. Mas alguns Beaujolais Village, da região do Rhone, são possíveis. Duas das grandes produtoras nacionais, a Miolo e a Salton têm em sua linha gamays bem-feitos e honestos. Da Itália, os barberas, com boa acidez, pouca poténcia e muita fruta são indicados também. E por que não abrir um espaço para um excitante pinot noir, que deve ser servido mais fresco, mas não gelado! De cor mais clara e maior elegância é uma uva de diferentes matizes de acordo com sua região. Para o verão, os pinot genéricos da Borgonha, que não assaltam seu bolso, os corretos pinot do Chile, de Casablanca e San Antonio, que estão ficando cada vez mais elegantes, bons exemplares da Patagônia, na Argentina, excelentes exemplares da Nova Zelândia e da África do Sul que também chegam com um preço mais competitivo.

Pensando bem, opção é o que não falta. Não acho que os personagens fictícios do primeiro parágrafo vão trocar a cerveja e a caipirinha pelas alternativas de vinho sugeridas, mas aqueles que sabem experimentar e variar não enfrentarão dificuldades.

E aí, vai um vinho para refrescar neste calor?

 

 

 

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terça-feira, 19 de novembro de 2013 Brancos, Velho Mundo | 16:40

Chablis, um chardonnay com “gosto de pedra”

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O solo kimmeridgiano de Chablis,150 milhões de anos depois: argila, calcário e mineralidade

O solo kimmeridgiano de Chablis,150 milhões de anos depois: argila, calcário e mineralidade

Você gosta de vinho branco? Não? Então pode parar por aqui. O tema desta coluna é Chablis, uma pequena região da Borgonha, na França, distante 2 horas de Paris, de apenas 6.800 hectares, cortada pelo Rio Serein, e que cultiva (e é cultuada) há muitos anos apenas uma uva: a chardonnay, (Ou então siga um dos conselhos deste blog e prove mais vinhos brancos).

Leia também: Vinho branco, você ainda vai beber um 

Se você gosta de vinho branco, em especial da chardonnay, então siga em frente. Mas é bom avisar, a internacional chardonnay, cultivada em todo o mundo, tem na região uma assinatura que a define e a diferencia, que pode ser descrita com a imprecisa e ao mesmo tempo acertada expressão de mineralidade (vamos falar disso mais tarde). “Nós não fazemos chardonnay, nós fazemos Chablis”, filtra Christophe Cardona, diretor de exportação da La Chablisienne, a cooperativa que representa cerca de 25% dos produtores da apelação de Chablis.

Mas o que torna esta apelação única e seus vinhos apreciados pelos admiradores de goles brancos? Como sempre, é uma soma de fatores: solo, clima, posição e a experimentação do homem que desde o século 12 começou a plantar e testar as uvas mais adequadas para aquele pedaço de terra. No caso prevaleceu a chardonnay, a uva branca da Borgonha. Devemos mais essa aos monges cistercienses, os “inventores” do estilo da Borgonha.

Mas o solo, formado no período jurássico superior, há 150 milhões de anos atrás, é o segredo de Chablis, o toque que a diferencia. No tempo dos dinossauros a região era coberta por oceano e ali, onde séculos depois seriam plantadas as parreiras, viviam pequenas ostras e moluscos que forneceram a matéria-prima para a composição do solo calcário e argiloso que se formou, conhecido como kimmeridgiano. Devemos essa às ostras e moluscos.

Traduzindo os diferentes terrenos – e rótulos

São quatro estilos de vinho, oriundos das quatro apelações de terrenos, com diferentes graduações de qualidade e estilo: Petit Chablis, Chablis, Premiers Crus e Grands Crus.

Petit Chablis. É a base da pirâmide, são plantados em terrenos mais planos e o solo de formação geológica um pouco mais recente, o portlandiano (140 a 130 milhões de anos). É um vinho mais fresco, frutado, leve, para ser bebido jovem, um belo aperitivo e uma porta de entrada do estilo de Chablis.

Chablis. Trata-se área mais extensa da apelação, o terreno já é de encosta e pode ser encontrado nos dois lados do Rio Serein. Eles já são mais bacanas, com maior estrutura, uma mineralidade e uma tensão maior na boca. Podem ser abertos mais novos, quando se destacam suas qualidades de frescor ou depois de 3 anos até 8 anos de idade, principalmente quando os vinhedos são mais antigos, e aí se obtém maior complexidade riqueza de aromas. Já dá para ser bem feliz com uma garrafa destas e entender o que Cordona quis dizer com a diferença entre chardonnay e Chablis.

Premiers Crus. A compreensão das qualidades do solo kimmeridgiano e sua influência no vinho sobe um degrau no Chablis Primiers Crus. Os terrenos, também distribuídos nas duas margens do Rio Serein, têm exposição do sol a sudeste e sudoeste, que traz mais expressão de fruta ou uma mineralidade mais pronunciada. Quem tiver paciência de aguardar seis anos vai beber um vinho mais complexo, denso e estruturado. Com ou sem tempo de garrafa, o decanter é um instrumento que vale usar, pois amplia as qualidades gustativas e olfativas do vinho.

Grands Crus. É o topo da pirâmide, a maior expressão do chardonnay desta apelação única. Um pequeno trecho de apenas 103 hectares e sete áreas delimitadas  (somente o Château Lafite-Rothschilde, Bordeaux, tem 178 hectares). Aqui a mineralidade quase se materializa com todos os elementos que podem criar um grande chardonnay de um terroir exclusivo. Um vinho que melhora com o tempo na garrafa – algo como oito anos de envelhecimento para atingir sua plenitude. E que cobra caro por isso.

Neste vídeo 3D de quatro minutos da cooperativa La Chabliseinne, com versões em francês e inglês, fica fácil entender os terrenos de Chablis, sua localização e características.

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Mineralidade: quem botou pedra no meu vinho?

“As primeiras grossas gotas de chuva que antecedem uma tempestade de um dia quente e seco expressam perfeitamente o que é a mineralidade”, ilustra o diretor-geral da La Chablisienne, Damien Leclerc. Ajudou? Não muito, né? O conceito de mineralidade do vinho, para aqueles que estranharam seu uso aqui neste texto, é um discussão que vale um outro artigo, afinal pedra não tem aroma ou gosto. Mas pode ser resumido em uns quatro parágrafos. Como a pedra vai parar no vinho então? Trata-se de uma descrição, uma sensação ou um neologismo?

O enólogo e professor Denis Dubourdieu no artigo “Quelques réflexions sur la minéralté des vins”, vai direto ao ponto:  “Se as rochas têm um gosto, é do material orgânico impregnado nela”. E o chamado aroma da faísca de pedras que se atritam (ou pedra de isqueiro) é resultado do componente químico benzenemethanethiol, encontrado sobretudo na chardonnay. Tem gente que afirma que as pedras transmitem esta mineralidade ao vinho. Muitos críticos chegam a definir certos chardonnays como suco de seixos. Para os cientistas isso é uma balela. As pedras não têm como transmitir minerais para a uva.

Mas algo misterioso liga esta sensação, esta particularidade de certos vinhos brancos a algum lugar, afinal há vinhos que expressam esta sensação e outros não. E não há chardonnay como os de Chablis. Para o produtores da região a mineralidade incorporada aos vinhos é o resultado do solo kimmeridgiano e não se fala mais nisso. Provavelmente a mineralidade sentida no vinho seja resultado de uma série de combinações do solo argiloso e calcário kimmeridgiano e dos microorganismos que se formam em seu entorno e do material orgânico do lugar que transmitem à planta os minerais que ela precisa. Esta é uma tese em uso na região também. O processo é mais complicado, e envolve o processo de fotossíntese, de interação com bactérias que extraem das pedras minerais como fósforo, iodo, magnésio.

A mineralidade, e aqui todos concordam, é mais uma sensação, uma definição que inclui numa mesma cesta um vinho natural, puro, ligado ao seu terroir, com uma acidez cortante, uma tensão viva, um frescor pungente, uma leveza fina, que provoca um salivação gostosa, que se opõe a um vinho opulento, alcoólico, concentrado, pesado, aromático e excessivo na boca e no nariz. Para Damien Leclerc, “ A mineralidade revela uma certa forma de pureza, uma visão cristalina do vinho”. De qualquer forma é uma expressão muito utilizada hoje pelo mercado, pelos consumidores e define o estilo Chablis de ser.

É fácil encontrar Chablis para comprar no Brasil?

Os vinho Chablis são muito adaptáveis ao nosso clima e culinária. São refrescantes, amplos, gostosos de beber e pouco alcóolicos. Expressam esta sensação mineral que é uma delícia – mesmo que você não a perceba e desconfie deste lenga-lenga todo – e traz uma experiência diferente no conjunto da obra. É um vinho solar, um vinho litorâneo por excelência. É o chamado par perfeito para ostras (todo mundo diz isso, mas tenho de confessar que não aprecio ostras, portanto não é uma conclusão empírica), combina maravilhosamente com saladas, peixes e num patamar acima segura um leitãozinho, frutos do mar, cremes etc. Ao mesmo tempo que não são rótulos exatamente populares (não estão naquela faixa abaixo dos 50 reais, começam lá pela casa do 80, 90 reais), também não são difíceis de encontrar. As principais marcas estão representadas no país pelas grandes importadoras: La Roche (World Wine), Louis Jadot, Faiveley, Joseph Drouphin (Mistral), William Fevre (Grand Cru), Domanine de La Cour du Roy (Casa Flora), J.M. Brocard (Zahil). Recentemente este Blog do Vinho provou os rótulos da Chablisienne (Interfood) e Sebastien Dampt (St Marché).

Chablisienne

A Chablisienne é uma espécie de Vinícola Aurora da França. Ambas são cooperativas compostas por um grande grupo de vinicultores. São 300 em Chablis, 1.100 no Rio Grande do Sul. E controlam à sua maneira e com seus respectivos objetivos a qualidade e a distribuição dos produtos. Criada em 1923, é responsável 25% do Chablis que é produzido na região, com propriedades espalhadas nas quatro apelações disponíveis e dona do único Château de Grand Cru da região, o Grenouilles.

Seus dois Chablis importados no Brasil são deliciosos, mas de personalidades diferentes:

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O La Chablisienne “La Pierrelée” 2011 traz aquela sensação mineral e de pureza de paladar discutida aqui, mas tem um corpo mais denso, um frutado mais persistente e uma pequena untuosidade. Um Chablis com estutura e intensidade. Um vinho que segura bem uma carreira-solo, não pede comida, e tem preço similar ao Petit Chablis. (R$ 98,00)

 

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O La Chablisienne “La Sereine” tem um lado mais elegante, a acidez presente, o que provoca uma salivação persistente. As frutas são mais cítricas, se escondem para depois se revelar e o tal toque mineral é mais sutil, mas mais nobre. Melhor acompanhado com um prato de comida, um peixe grelhado com algum creme. Elegância é um conceito tão volátil quanto mineralidade, mas se encaixa com perfeição a este vinho. (R$ 115,90)

 

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Já no mundo dos Primiers Crus, este “Mont de Milieu” foi decantado por uma hora antes de ser servido. Ainda estava jovem, mas mostrava sua força e o resultado de passar 15 meses em contato com as borras no tanque, que traz um tostado, persistência na boca, e uma sensação que amplia os sentidos do frescor e da tensão da fruta e da acidez. Uma delícia que merece um minuto de contemplação. (R$ 151,90).

Sébastien Dampt

Como a rede de supermercado de São Paulo St Marché também atua como importadora – são 100 rótulos atualmente importados diretamente, com a perspectiva de triplicar a oferta em três anos –, não deixa de ser curioso encontrar caixas de Chablis disputando espaço com caixas de suco de laranja e pés de alface. E saber que há público para este branco de estirpe. Tem algo mudando nos hábitos do consumidor.

Petit-Chablis-Sebastien-1O Sébastien Dampt Petit Chablis “Terroir de Milly” 2012 é um representante honesto de sua classe. Leve, fresco, jovial, fácil de beber, boa acidez no final da boca, provoca uma salivação que enche a boca e pede outro gole. Você coloca o vinho na taça e em vez de subir aquele aroma  amanteigado da fermentação e do uso de barrica aparece um cítrico suave, um flor branca harmoniosa. O corpo é leve, a bebida refrescante. Um vinho branco para abrir a refeição, acompanhar uma saladinha, um  papo descontraído. (R$ 92,00)

 

CHABLIS-2008-1ER-CRU-PETIT-FORMATO Sebastien Dampt Premier Cru “Vaillons” tem uma proposta de uma amizade mais longa. São vinhas de mais de 60 anos, o que aporta uma sensação mais consistente de mineralidade ao vinho. Bebê-lo agora significa usufruir seu caráter de fruta e a sensação mais cortante da mineralidade. Com o tempo deve evoluir suas camadas aromáticas, uma fruta mais potente e uma sensação mineral mais fina e persistente. São duas experiências válidas. Provei a safra recente e já estava uma delícia. (R$ 149,00)

 

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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013 Novo Mundo, ViG | 18:01

Dois vinhos bons e baratos australianos, uma uva diferente e a incrível história do enólogo que tem alergia a vinho

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Quando você ouve falar de Austrália, qual a primeira ideia que vem à cabeça?

1)   Bichos exóticos como cangurus, coalas e ornitorrincos

2)   Os fogos iluminando a Ópera de Sydney no réveillon

3)   O filme Crocodile Dundee e a atriz Nicole Kidman

4)   A banda de metal AC/DC

5)   Vinho shiraz

Se você optou pelo item número cinco é por que curte e conhece um pouco de vinho.  E sabe da importância do vinho – e da uva símbolo, o shiraz – na terra dos canguros, da Ópera de Sydney, do Crocodilo Dundee, da banda AC/DC e da Nicole Kidman.

Momento enciclopédia

A Austrália é um país-continente com quase 7,7 milhões de quilômetros quadrados, a sexta maior nação do mundo e com um baita deserto ocupando parte de seu território.

O vinho no entanto é um elemento importante de sua economia. A Austrália é sétimo maior produtor de vinho do mundo, com um crescimento de 14% entre 2007 e 2011, e a quarta maior exportadora de tintos (mais estes) e brancos do planeta, ficando atrás apenas da Itália, Espanha e França (dados do Relatório Estatístico da viniticultura Mundial 2012 da OIV – International Organisation of Vine and Wine).

No entanto os vinhos australianos não são tão difundidos no Brasil. No ranking dos vinhos importados divide um sétimo lugar – e pífios 4,13% em volume – com diversas outros países. Mesmo assim não é difícil encontrar rótulos de grande volume como Yellow Tail (a propósito, e não por acaso, a imagem é um canguru),  Jacob’s Creek e Hardys, ou produtores mais conceituados como Lindemans, Penfolds e d’Arenberg. Mesmo assim, a oferta é pequeno e, como consequência, o consumo  idem.

ViG – vinhos indicados pelo Gerosa

Bons e baratos

Pelos números acima, dá para perceber que a Austrália é uma produtora de grandes volumes, mas também é responsável por um padrão constante de qualidade, que se às vezes não surpreende mantém uma segurança na hora da compra. Há no entanto muitos rótulos estrelados que chegam aqui sempre na casa da centena de reais. Entre os bons e baratos (40 reais a garrafa), este Blog do Vinho indica dois exemplares corretíssimos, dignos representantes de suas uvas. São eles

Down Under Chardonnay 2012, região de Reverina, Nova Gales do Sul, 100% chardonnay, 14º de álcool – R$ 39,90

Uma belezura de tipicidade da uva chardonnay. Aromático sem exagero, exala uma fruta que lembra pêssego, mas pode ser outra fruta branca mais madura. Os seis meses de carvalho francês estão presentes no adocicado da boca, que é quebrado pela acidez presente que não deixa transparecer o alto teor de álcool. Um chardonnay refrescante e gostoso, pede uma taça a mais.

Down Under Shiraz 2010, região de Reverina, Nova Gales do Sul, 100% shiraz, 14º de álcool – R$ 39,90

shiraz é a rainha das tintas na Austrália. Tem como características aromas de especiarias, caldo encorpado, fruta madura. Tem tudo isso aqui e a baunilha do carvalho francês e americano (dormiu seis meses antes de ir para a garrafa). Mas o que mais chama a atenção deste tinto é sua maciez, aveludado. Não é cerveja, mas desce redondo e tem uma persistência que agrada.

Diferente e surpreendente

3 Bridges Durif 2007, região de Reverina, Nova Gales do Sul, 100% durif, 15º de álcool – R$ 128,00

A durif é uma uva de nome estranho (não confundir com a cerveja Duff, dos Simpsons) que chama a atenção do tipo “homens que cospem vinho”. Ela é originária do Vale do Rhone e leva o nome de seu “criador”, doutor Durif. Mas ela atende também se chamada de petit syrah, principalmente nos Estados Unidos. Dizem os entendidos que na Califórnia a petit syrah é uma “mistura” de durif e peloursin. Inclusive no Rhone, em grande parte dos vinhedos, hoje em dia, tem essa composição. “Na Austrália, o CSIRO (Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation), agência científica australiana voltada para o agrobusiness, fez o estudo de DNA e comprovou que a uva é 100% Durif”, ensina a importadora Marli Predebon. E daí? Daí que as características da uva preservadas conferem caldos de “cor negra e concentrada, alta carga tânica e alto teor alcoólico”. ainda segundo explicações da Marli.

Se estas são as características da autêntica durif, esta garrafa entrega a tipicidade da uva. O preço é bem mais salgado (R$ 128,00), mas trata-se de uma bela experiência. Este 3 Bridges Duriff, de 15º de álcool, é bastante concentrado, a cor é escura, impenetrável, a boca mostra uma compota de frutas. Os 18 meses de barrica americana inevitavelmente deixam traços de coco e baunilha (se não, não deixavam tanto tempo o bichão amaciando ali). O álcool tá ali, revelando um tinto quente na boca. Encorpado, com taninos firmes (epa, usei o jargão, clica no link…). Caldo de macho, vinho mais para Crocodilo Dundee e AC/DC do que para coala e Nicole Kidman.

O enólogo que tem alergia a vinho

Todas estas criações são da Westend State, vinícola que fica na região de Nova Gales do Sul, mais especificamente em Riverina, segunda maior produtora de vinhos da Austrália. Aqui, desde 1945 funciona esta adega familiar que elevou os tintos desta região para uma categoria superior. Até aí tudo bem, a apresentação oficial da empresa resume sua história. Mas o que mais surpreende é o seu atual proprietário e enólogo, Bill Calabria, da terceira geração da família.

Bill Calabria carrega uma cruz difícil de suportar, principalmente do ponto de vista de quem gosta e produz vinhos. Ele é portador de uma rara alergia aos ácidos presentes no vinho que o impedem de beber suas criações. Para realizar seu trabalho Calabria adota critérios olfativos e gustativos, sem  jamais engolir os vinhos. Para ele “Não é preciso engolir um vinho para saber se ele é bom ou ruim”. Incrível, não? Faz lembrar o fotógrafo cego Even Bavcar. O desafio é parecido. Mais surpreendente é a qualidade de seus vinhos, dos mais básicos aos topo de linha.

Notem o vídeo abaixo, em que Bill Calabria celebra a décima safra do Duriff – a primeira veio ao mundo no ano 2000. Ele comenta o vinho, balança a taça insistentemente e aproxima o nariz do vinho diversas vezes. Mas jamais bebe o líquido.

O vinhos da Westend são comercializados pela importadora KMM, especializada em rótulos australianos.

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sexta-feira, 4 de junho de 2010 Nacionais | 14:56

Bons, básicos, baratos e brasileiros

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Os vinhos de grande volume das principais vinícolas são a base da pirâmide do consumo. Uma espécie de “Caminho Suave” dos tintos e brancos, uma cartilha por onde o iniciante começa a experimentar e gostar de vinho, o reincidente tem a opção do dia-a-dia e aqueles felizardos que são recomendados pelos médicos a tomar uma dose diária de um tinto têm uma alternativa segura.

Vinhos de linhas mas simples de empresas como Almadén, Aurora e Salton fazem parte de um segmento que poderia muito bem ser chamado de BBB do vinho nacional: bons, básicos e baratos. Sim, eles existem, são simples e descomplicados. E o crescimento do mercado de vinho fino nacional (veja abaixo) está produzindo boas novidades no setor: investimentos, qualificação da bebida e até modernização visual dos rótulos.

Agora, em nova embalagem

E se além de bons e baratos estes vinhos mais básicos fossem também bonitos? Almadén e Aurora apostaram em mudanças visuais em seus rótulos. Eles ficaram mais limpos e fáceis de identificar nas prateleiras de supermercado, em ambos os casos cada uva tem uma cor. A Salton mantém seu rótulo mais escuro para a linha Classic, mas também adota a diferenciação de uvas pela cor.

Almadén

Não é à toa que a Miolo Wine Group adquiriu a Almadén em outubro de 2009, e  mexeu com a fórmula dos vinhos produzidos na região de Livramento em um investimento de 2 milhões de reais em melhorias nos processos de vinificação. O resultado foi apresentado oficialmente na última ExpoVinis – feira internacional de vinhos de São Paulo. Primeira boa novidade: diminuiu-se o teor de açúcar. Todos os varietais (vinho de uma única uva) da Almadén estão mais leves, frutados e refrescantes e sem aquele docinho enjoativo que caracterizava a linha. Confesso que fui provar a bebida com um pé atrás, pois a memória gustativa eram daquela bebida demi-sec, acrescida de açúcar. Não era discurso, mudou-se a fórmula. Provei toda a linha: os brancos chardonnay, sauvignon blanc e riesling (safra 2010), o rosé cabernet sauvignon (2010) e os tintos cabernet sauvignon, merlot e tannat (safra 2009). A bela surpresa, para este blog, foram o branco chardonnay, sem madeira, bastante refrescante, boa fruta e características da varietal evidentes e o tinto merlot, macio na entrada, também com fruta fresca e fácil de beber. Preço médio: R$ 15,00.

Aurora

A linha varietal da Aurora é composta de sete rótulos. Os tintos cabernet sauvignon, merlot, pinot noir e carmenère; os brancos chardonnay e gewurztraminer e ainda um rosé de merlot. O cabernet sauvignon, envelhecido em barris de carvalho e um pouco mais encorpado, é o meu preferido: tem um bom corpo e creta presença na boca. Preço médio: R$ 17,00.

Salton

Na lista de bons e baratos já elaborada por este blog em outubro de 2008 o Salton Classic Tannat já merecia destaque. Correto, bem vinificado. Seu preço é imbatível (volta e meia está em ofertas em grandes lojas e supermercados), seus taninos  melhoram se acompanhados de um churrasquinho informal no clube. Em recente viagem à vinícola, a prova dos varietais merlot, cabernet sauvigon e tannat (ainda são comercializadas as brancas riesling e chardonnay) ratificou a preferência por esta uva emblemática do uruguai – de longe o mais prazeroso rótulo da linha. Preço médio: R$ 13,00

O que é bom para o Chile é bom para o Brasil

A aposta na qualificação destes vinhos básicos é importante e necessária para a indústria e para o incremento do consumo do vinho nacional. As gigantes chilenas Concha y Toro, Santa Rita e Santa Helena, por exemplo, têm no seu portfólio desde vinhos para grande massa até premiadíssimos rótulos badalados pela critica e disputados entre os especialistas. Da base para o topo, a qualificação é a melhor propaganda. Até por que, vamos combinar, elaborar vinho caro e bom é até uma obrigação. Prova dos noves é manter qualidade em larga escala e ainda tascar o nome no rótulo…

Crescimento em vendas

No Brasil, o mercado interno de vinho finos – aquele feito de uvas viníferas – vem ganhando musculatura e reagindo ao fraco desempenho dos dois últimos anos. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) apontam para uma retomada da indústria vitivinícola, com um crescimento de 26% no primeiro trimestre de 2010, ou seja não precisava da obrigação do selo fiscal, né? Só no Rio Grande do Sul –  cerca de 90% da produção nacional – foram comercializados 2,32 milhões de litros, o maior volume desde 2007.  Fica claro que é da base da pirâmide que virá esta alavancagem no consumo. Tanto melhor se a qualidade do que se bebe for melhor. Até por que, quem foi fisgado pelo mundo do vinho sabe muito bem, qualidade é um caminho sem volta, tanto para o consumidor como para a indústria.

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009 Novo Mundo | 21:28

Vinhos americanos: os ianques estão chegando

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Você já tomou um vinho americano? Provavelmente, não. Eu mesmo conheço pouca coisa. Na verdade, não há muitas opções no Brasil de tintos e brancos produzidos na terra do Tio Sam. Três razões contribuíam, pelo menos até o final de 2008, para esta tímida presença: os bons rótulos custavam os olhos da cara, o mercado interno consumia quase toda a produção e, como consequência, a oferta dos rótulos made in USA nas grandes importadoras era pífio.

Mas a crise atingiu em cheio também o mercado americano de vinho. Claro, o consumo interno continuará alto, mas o dinheiro ficou mais curto e as vinícolas, que antes tratavam com desdém o mercado externo, começaram a voltar os olhos para fora e a abrir negociações que permitem trazer os vinhos a preços competitivos e em maior escala – o que diminui o preço final.

Portanto, as chances de você – e eu –  provar um rótulo americano em 2009 será maior.

Vai contribuir para isso a iniciativa de duas novas importadoras, a pequena Wine Lovers e a agressiva e recém-chegada BevBrands, que prometem colocar o vinho americano na agenda dos consumidores brasileiros com uma coleção de rótulos dos estados da Califórnia (a maior parte), Oregon, Washington e New York.

2200 vinícolas, em todos os 50 estados
Os Estados Unidos são grandes produtores e consumidores. Todos os 50 estados produzem vinho. Três deles realmente interessam, e é onde estão concentrados os melhores caldos. O estado da Califórnia lidera com folga o ranking, em qualidade e quantidade, com 900 vinícolas, seguido do Oregon (198) e New York (162). Mas há vinho sendo engarrafado até no Alaska (4), Flórida (8) ou Mississipi, com uma única e solitária vinícola. No total, são cerca de 2.200 vinícolas no país. O site do jornal Usa Today produziu um mapa interativo muito legal com essas informações para quem quiser saber mais.

Os EUA no Brasil
Aqui entre nós, no entanto, perdem feio para os chilenos, argentinos e portugueses no ranking de volume importado. E não só para eles. Ocupam a 11º posição, com 0,12%, à frente somente da Nova Zelândia (veja quadro abaixo). Ou seja, o espaço para crescer é grande se for feito um bom trabalho de divulgação, distribuição e, principalmente, uma boa política de preço.

1º  Chile  34,38%
2º  Argentina  26,54%
3º  Itália  17,91%
4º  Portugal  11,24%
5º  França  4,54%
6º  Espanha  1,82%
7º  Uruguai  1,70%
8º  África do sul 0,58%
9º  Alemanha  0,54%
10º Austrália  0,40%
11º EUA  0,12%
12º Nova Zelândia 0,11%

Concentrado, aromático e um pouco doce
O gosto americano vem dominando o mercado mundial. Isso é sabido, criticado e debatido. É a tal parkerização do vinho de todo o planeta. Esta onda de vinhos com muito extrato – quase dá para mastigar a bebida –, com aromas predominantes de compota, muita madeira, quase doces, e com menos espaço para a acidez. Trata-se de uma caricatura da produção do vinho americano. Isso não é uma coisa boa nem ruim, é só uma característica do paladar do americano médio. Claro, há vinhaços também, que em degustações às cegas dão um  banho em Châteaux franceses, em mitos italianos e modernosos do Priorato, na Espanha.

Principais uvas
Como todo grande país produtor, os EUA também têm uma uva para chamar de sua, no caso a zinfandel, que estudos revelaram parentesco com a italiana primitivo. Em solo americano assim como acontece com a malbec na Argentina e a carmenère no Chile, desenvolve características próprias. A zinfandel está na linha de caldos musculosos, um sabor de groselha e bastante alcoólicos. As tintas cabernet sauvignon, merlot, pinot noir (aqui mais no estado do Oregon) e a branca chardonnay, porém, produzem os rótulos mais interessantes, do mais básico ao mais caro e refinado.

Os vinhos da Wine Lovers – estes eu provei
A Wine Lovers – por que esta mania das importadoras, revistas e eventos com nome em inglês? – está há dois anos no mercado, trabalha com  pequenos volumes e tem uma estratégia de negócio que visa a fidelização de seus clientes. Sua filosofia é trabalhar numa faixa de preço médio que vai de 30 a 100 reais. Como todo mundo, eles começaram com os rótulos argentinos e chilenos. Mas graças ao conhecimento de um dos sócios, que passou a parte da vida na Califórnia, resolveram apostar nesta região dos Estados Unidos, com um o seguinte foco: todos os rótulos são de vinícolas pequenas, que eles próprios visitaram. O critério de escolha foi dividido entre os clientes e especialistas em degustaç%C

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