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terça-feira, 22 de agosto de 2017 Novo Mundo, Tintos | 12:15

Precisamos falar sobre o Cabernet Sauvignon do Chile

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Cabernet Sauvignon

Cabernet Sauvignon do Chile: vamos falar dela?

A Cabernet Sauvignon é um viral do vinho. É a uva mais plantada no mundo. É a uva mais plantada também no Chile. Portanto deve ser o vinho tinto mais consumido do planeta. Chegou ao país em 1850 e encontrou na região do Maipo, área chamada atualmente  de Entre Cordilheiras, um solo para chamar de seu. Dali saem os grandes cabernets chilenos, pontuados pela crítica, reverenciados pelos consumidores mas, atualmente, esquecidos pelos entendidos e “hipsters” do vinho. Perdeu o encanto, talvez. Vamos desenvolver.

O Chile tornou-se uma máquina de produzir vinhos de todos os tipos – são 13 milhões de hectolitros por ano. O país sofre três grandes influências que definem as três principais áreas de vinhedos: o Oceano Pacífico, região chamada de Costa; a planície central, conhecida como Entre Cordilheiras e a mais próxima da principal cordilheira, não por acaso conhecida como Andes. É o principal exportador de vinho entre os países do Novo Mundo. O Brasil é o quinto maior mercado para os chilenos, ficando atrás apenas da China, Estados Unidos, Japão e empatando com o Reino Unido. O Chile domina o mercado brasileiro com 50% em volume. Ocupa a liderança nas exportações há 15 anos.

Amo Cabernet Sauvignon. Amo Chile

O Chile também é uma máquina de marketing azeitada para escoar sua vasta produção. Se o vinho é o resultado de um lugar e seu clima, seu consumo é global e sem território definido. A pegada da vez dos marqueteiros de baco chilenos é a campanha “Amo Vinho. Amo Chile”. Pegando carona na ideia, o Blog do Vinho propõe uma variação: “Amo Cabernet Sauvignon. Amo Chile”. Segue o raciocínio.

A Cabernet Sauvignon é uma variedade de colheita tardia, leva mais tempo para amadurecer nas parreiras, e nas últimas três décadas está em relacionamento sério com regiões de climas quentes, como o Chile ou o Norte da Califórnia. No Chile em especial, deu um casamento entre quantidade e qualidade.

No entanto parece que há, por parte dos especialistas, de parte da crítica, dos blogs e da própria agência que cuida dos interesses do vinho no Chile, Wines of Chile, um certo pudor em reverenciar a uva mestre-jedi dos solos chilenos.

Wines of Chile

Evento Wines of Chile 2017: um painel com 10 vinhos, 2 de Cabernet Sauvignon

Em evento recente patrocinado pela Wines of Chile para jornalistas e agentes do mercado, em um painel de 10 tintos, apenas dois tinham a Cabernet Sauvignon como estrela. Injusto, creio eu, dada a importância da uva para o país.

Uma tese possível

Assim como ocorre em todas as áreas de conhecimento, críticos e especialistas e palpiteiros, o inclui este blog, estão sempre em busca de novidades. O inusitado ativa as papilas gustativas de quem já experimentou de tudo um pouco. E dá-lhe vinhos produzidos em desertos, em lugares improváveis, elaborados com uvas nativas e/ou recuperadas de nomes esquisitos, de misturas um pouco fora do comum, vinificados em tanques de formas inusitadas, e, se possível, orquestradas por enólogos que buscam o grito primal da uva e não interfiram no processo conduzido pela mamãe natureza. É a busca pelo novo. Nada contra, também curto. A diversidade, a novidade, o desafio. A busca pela identidade. Tudo isso é bom e contribui para a renovação do mundo do vinho. Mas não dá para virar as costas para sucesso. Precisamos falar sobre a Cabernet Sauvignon do Chile. Mea culpa da Cabernet Sauvingon do Chile. É disso que se trata este post.

Símbolo do Chile

Germán Lyon, enólogo da tradicional vinícola Pérez Cruz, inspirou esta tese. Ele levantou a bandeira da Cabernet Sauvignon quando teve oportunidade de apresentar seu vinho no painel citado acima. Segundo Germán “não podemos deixar de valorizar o Cabernet Sauvignon, que é um símbolo do Chile”. Isso aí! Afinal é o vinho que melhor representa o potencial do Chile de produzir clássicos instantâneos e manter ícones no pedestal. Em conversa reservada,  Germán comentou que poderia ficar horas tratando do tema se tivesse oportunidade.

O Enólogo da Pérez Cruz, que cultiva 180 hectares de Cabernet Sauvgnon de um total de 240 disponíveis, apresentou neste dia o Pircas de Liguai Cabernet Sauvignon 2013. Não conhecia. Um baita Cabernet Sauvignon, com fruta presente, um toque de eucalipto, bons taninos, ótimo fimal, um cabernet de manual, escrito por um conhecedor, mas que traz frescor em boca e intensidade longa que estimula um novo gole.

Descorchados e crítica internacional

A despeito da falta de holofotes, os melhores Cabernets Sauvignon chilenos continuam, no entanto, dando de lavada nas premiações e guias, e junto à massa é campeão em volume de menções em aplicativos de avaliação de vinhos. Para ficar num exemplo próximo: o Guia Descorchados 2017, uma referência de vinhos Chilenos, Argentinos e Uruguaios (o Brasil participa apenas com espumantes), coordenado por Patricio Tapia, elegeu o melhor tinto do ano, com 98 pontos, vejam só, o Cabernet Sauvignon Gandolini, Las Tres Marias Vineyard, não por acaso do Alto Maipo.

Vale observar que outros vinhos com alta pontuação nesta mesma lista de tintos de todas variedades também trazem a Cabernet Sauvignon como protagonista, ou parte da receita: Almaviva 2014 (97 pontos), Terrunyo Bajo las Burras Cabernet Sauvignon 2014 (97 pontos); Don Maximiano Founder’s Reserve 2014 (97 pontos); Viñedo Chadwick Cabernet Sauvigon 2014 (97 pontos).

Um exemplo da crítica gringa. A safra de 2010 do Don Melchor foi eleita entre os 10 melhores tintos do planeta pela lista anual da revista especializada Wine Spectator.

27 tons de Cabernet Sauvignon do Chile

Os primeiros tintos espetaculares que provei na minha vida, quando iniciava minha carreira de provar – e eventualmente cuspir –  vinhos foram, pela ordem: um Don Melchor e um Chadwick. Nada mal para um iniciante. São vinhos bem caros, eu sei. O Don Melchor nem é 100% Cabernet Sauvignon. Mas o DNA é. Os bons Cabernet Sauvignon do Chile não precisam necessariamente coloca-lo na lista do SPC por falta de crédito. Mas estamos falando aqui de porta-estandartes e não da ala dos passistas. E são eles que elevam a imagem do Cabernet Sauvignon chileno e com isso alavancam a venda dos rótulos mais simples; vamos combinar às vezes simples demais. Aqui vai minha lista de vinhos inesquecíveis, apenas aqueles que tive a oportunidade de provar, e que têm a Cabernet Sauvignon como uva principal. Julguem-me.

Antiguas Reservas – Cousiño Macul (um clássico da sofisticação e puxando para um estilo mais velho mundo; prefiro este ao rótulo topo de gama da casa, que também é espetacular, mas um pouco excessivo na minha opinião, o Finis Terrae. O Antiguas é mais autêntico).

Manso de Velasco – Miguel Torres (Miguel Torres foi o primeiro estrangeiro a apostar no potencial do Chile. Ele se firmou na região de Curicó, o que mostra que a uva tem potencial em outras partes do Chile. Um cab de classe e potência)

Viñedo Chadwick – Viñedo Chadwick (um Cabernet que fez história nos concursos às cegas promovidas por seu produtor, Eduardo Chadwick, com a ajuda do crítico inglês Steven Spurrier. Um vinho que enfrenta os grandes franceses de Bordeaux de igual para igual.  Elevou o nome do Chile como produtor de vinhos premium. A fruta vem em camadas no nariz e na boca. A madeira é bem integrada, envolve o vinho, mas não o sufoca.  A intensidade cobra seu preço. Elegância também)

Don Maximiano – Errázuriz (do mesmo proprietário do Chadwick, um assemblage, mas com a Cabernet Sauvignon presente, um vinho que pede contemplação e merece estar em qualquer lista de excelência do potencial chileno)

Almaviva – Almaviva (união dos franceses – Baron de Rotschild – e Chilenos – Concha y Toro -, é o clássico dos clássicos. Um Bordeaux em solo chileno, conduzido pelo enólogo Michel Frou em uma vinícola de arquitetura espetacular criada especialmente para elaborar um vinho saudado em verso e prosa. O caldo deveria render mesuras do tempo, mas nem sempre a paciência é observada pelo consumidor que desarolha as garrafas antes do tempo. Provar uma safra antiga, ou mesmo uma vertical de várias safras, é uma dessas experiências que a vida me proporcionou e didaticamente mostrou o valor do envelhecimento. Corte bordalês, a cab chega quase a 70% da mistura e comanda o jogo)

Don Melchor – Concha y Toro (o Don Melchor é uma mescla de Cabernet Sauvignon com a possibilidade de adição, principalmente a partir de 1999, de cabernet franc, que raramente ocupa mais do que 3 a 6% na proporção total do blend. Talvez o mais emblemático cab entre os consumidores de vinhos premium do Chile no Brasil. Alterna safras frescas com mais potentes, sempre orientado pelo craque Enrique Tirado).

Marques de Casa Concha Cabernet Sauvignon Edição Limitada 2013 Concha y Toro (o enólogo Marcelo Papa trouxe mais leveza nesta edição especial em busca de pureza e elegância. Show! Mais fácil encontrar, o Marques de Casa Concha Cabernet Sauvignon padrão é  outro clássico que não decepciona nunca e tem a marca registrada da uva do Maipo!)

Erasmo – Erasmo (é mais uma mescla bordalesa desta lista, mas que merece estar aqui para os amantes do vinho de guarda. Com menor espaço na mídia, merece ser conhecido)

Terrunyo – Concha y Toro (cabernet com boa extração, fica entre o Marquesde Casa Concha e o Don Melchor.  Sempre prazeroso e de grande intensidade)

 Lázuli  – Aquitania (muito próximo de Santiago, assim como Cousino Macul, os vinhedos de Aquitania resistem à pressão imobiliária de condomínios que o rodeiam. Sorte dos apreciadores de vinho e do clássico cabernet da região que apresenta notas mentoladas, frutas vermelhas e final prolongado. Companheiros do Aquitania: resistam!)

 Alpha M  2011 Viña Montes (80% cabernet sauvignon acompanhados dos outros cortes tradicionais bordaleses. Fruta negra, bastante corpo, um vinho vetusto, de guarda. A linha Montes Alpha é campeã absoluta em restaurantes de carne de São Paulo e uma ótima opção para conhecer o perfil do Cabernet Sauvignon do Chile da região de Colchagua)

Carmen Gran Reserva Cabernet Sauvignon 2012 – Vina Carmen (boa tipicidade da varietal, carnudo e uma acidez que é resultado da diferença da temperatura entre o dia e a noite e que entrega frescor ao caldo)

Santa Rita Casa Real Reserva Especial  – Santa Rita (a enóloga Cecília Torres é um ícone da enologia Chilena. O Santa Rita Casa Real um ícone dos cabernets da região do Maipo com camadas e aromas, sabores em cascatas e final longo, para ficar namorando o final de taça)

El Principal 2013 – Viños El Principal (outra vinícola do Maipo, aos pés da Cordilheira dos Andes, próxima a Santiago. Um golpe de perfumes: floral, groselha, ameixa; na boca confirma as frutas negras, doce, macio, um veludo. Muito elegante. Final envolvente. Safra mais fresca, tem um teco de petit verdot (9%) e outro de cabernet franc (4%))

Les Dix – Los Vascos  (a França, berço da uva Cabernet Sauvignon, não investe à toa no Chile. A Domaines Barons de Rothschild leva este projeto desde 1988. O Le Dix é o principal rótulo de uma linha que tem os Los Vascos, mais simples fáceis de beber e de encontrar, como vinho de entrada)

Cabo de Hornos – Grandes Vinos de San Pedro – (espetacular e pouco lembrado, sempre vence nas degustações às cegas que participo. E não pesa tanto no bolso. Um Cabernet Sauvignon como tem de ser: saboroso, fino e com potência. Uma linha abaixo, o 1808 também é um bom exemplo de um cabernet competente e prazeroso)

Cuvée Alexandre Casa Lapostolle (outro francês em solo chileno – família Mariner Lapostolle – produzindo um tinto classudo da região de Apalta que vale cada gole)

Cono Sur Block 18

Para escrever sobre a Cabernet Sauvignon, goles inspiradores

Cono Sur Single Vineyard Block 18 El Recurso – Cono Sur (a Cono Sur pertence ao grupo Concha y Toro. Disclaimer:  escrevi este artigo acompanhado de uma (ou mais) taça deste rótulo. Ganha pelos aromas intensos de especiarias e fruta negra, confirmados na boca que termina macio e com grande intensidade. Um achado pelo preço em relação aos colegas acima da lista)

Novas Gran Reserva – Emiliana – (a vinícola orgânica Emiliana tem neste Cabernet uma fruta mais pura, mais fresco e um preço bem acessível. Para não esquecer que o caminho dos orgânicos é viável, e bom. Para conhecer e repetir)

Legado Cabernet Sauvignon – De Martino (enólogo Marcelo Retamal vem buscando “vinhos frescos, nervosos, mais fáceis de beber, com maior expressão da fruta e “diferentes”. “Este é o estilo que queremos”, aponta ele. Este é o cabernet que ele entrega aqui)

Orzada – Odfjell Vineyards (outro grupo estrangeiro investindo no Chile. Aqui trata-se de um armador norueguês. Esta é a linha de média gama, do Vale do Maule, que entrega boa fruta, estrutura e taninos corretos)

 Grey Cabernet Sauvigon Single Block – Viña Ventisquero (um clássico dos cabs Chilenos, aqui da região de Apalta do craque Felipe Tosso. Tem o conceito de block, terrenos específicos, como os do Cono Sur Single Vineyard acima. A linha Ventisquero Gran Reserva Cabernet Sauvignon também oferece um tinto correto a um preço mais acessível e fácil de encontrar em supermercados)

 Faça a sua lista

E você? Qual o melhor Cabernet Sauvignon que já provou? Faça sua lista aqui na área de comentários e compartilhe com a gente!

 

 

 

 

 

 

 

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sexta-feira, 12 de agosto de 2016 Blog do vinho, Brancos, Tintos | 00:01

Como escolher o vinho certo para o seu pai

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Família feliz de pais que curtem vinho…

Presentear os pais em seu dia é uma tarefa um pouco mais complicada do que, por exemplo, escolher um agrado para as mães. Quando o segundo domingo de agosto se aproxima sempre surge a dúvida: o que dar para o meu pai? Camisa, gravata, pijama? Socorro! Que tal um vinho? Uma garrafa de vinho é o presente curinga. É um produto com algum toque de sofisticação, um objeto de desejo em alguns casos, um desejo de consumo em outros e no geral causa uma boa impressão tanto em quem sabe a diferença entre um cabernet sauvignon e um merlot como naqueles que se aproximam de uma garrafa do fermentado apenas em ocasiões especiais.

Decidido o presente, vem o segundo passo. Qual vinho comprar para o progenitor em seu dia? Aí a rolha torce o gargalo. São centenas de rótulos, variedades e preços. Como acertar no vinho? Gosto é um sentido muito particular, é resultado do meio que se vive, de experiências gastronômicas, de conhecimento, e de um elemento mais subjetivo ainda, aquela associação entre o paladar e a memória. A escolha de um presente vem acompanhada também de um problema que afeta todos nós neste momento de crise financeira: a grana disponível para gastar no mimo.

Se você conhece o gosto do seu pai, a escolha é fácil, basta escolher a garrafa  na sua loja de confiança ou site preferido. Se não conhece seu gosto, você pode optar por uma solução diferente: escolher o vinho pelo tipo de experiência que seu pai tem com a bebida, ou mesmo baseado no momento atual de sua vida. O Blog do Vinho selecionou alguns perfis de pais possíveis e vai tentar te ajudar nesta tarefa: agradar seu velho.

Para o pai que raramente bebe vinho

Aqui o elemento surpresa e de introdução ao vinho é o diferencial. Ele pode até estranhar a escolha (“Não tinha uísque onde você comprou esta garrafa?”, ele pode pensar). Mas o objetivo é este mesmo, introduzi-lo ao universo dos tintos e brancos. Portanto, não vale a pena gastar muito dinheiro em um rótulo bacana, pois o seu pai não vai perceber a diferença entre um vinho premiado e outro do dia-a-dia. Talvez até prefira o segundo ao primeiro. A dica é escolher mais de um rótulo de até 40 reais de vinícolas nacionais, chilenas, argentinas, portuguesas  fáceis de encontrar em supermercados e em sites de compras. A propósito, com esta crise muitos rótulos entram em oferta próxima a estas datas e vale a pena ficar de olho. Vá de cabernet sauvignon chileno, malbec argentino, merlot nacional. Nestas condições você entrega no mínimo duas, três garrafas de presente. Se ele gostar da brincadeira e o vinho se tornar um hábito, no ano que vem você terá de consultar a sugestão seguinte…

Para o pai que é um bebedor eventual

Seu pai já curte uma garrafa aos domingos, ou com os amigos, mas sempre com aquele argumento de que gosta, mas não entende de vinhos. Aqui vale subir um pouco a régua de valor e qualidade, os mesmos brasileiros, chilenos, argentinos e portugueses (os rótulos mais consumidos no país). É fácil reconhecer, no geral eles têm um selo de reserva, informam no contra-rótulo um estágio em barricas. E o preço médio fica entre 60 e 80 reais. Se possível, tente descobrir algum rótulo que ele já provou e tem boas lembranças, para firmar um hábito.

Para o  pai que está começando a se interessar por vinhos

Seu pai já não é mais um principiante, lê revistas e livros sobre vinho e quem sabe é até leitor deste blog. Pode estar no limite entre o esnobismo (do tipo eu sei tudo) e o amadorismo (gira até copo de água), mas está evoluindo na percepção do gosto e descobrindo novidades Este é o presente que ele espera do seu filho, até como reconhecimento desta sua nova habilidade. Se o seu pai já tem uma adega, consulte os rótulos armazenados, eles podem dar uma dica de suas preferências. Outra saída é procurar algo diversificado, que aumente sua qualificação de  degustador de vinhos, como por exemplo um rótulo do Líbano, uma região menos conhecida da Espanha, como o Priorato, um branco na Eslovênia, ou um vinho laranja, que virou uma certa “modinha” entre os conhecedores nos últimos tempos. Outra opção é escolher um vinho de uma região menos óbvia de um país mais conhecido, como Salta e Patagônia, na Argentina.  Não é difícil achar estes rótulos nos sites e lojas de boas importadoras como Mistral, Decanter, WordWine, Inovini, Grand Cru, Vinci

Para o pai que é especialista

Aqui temos um problema. Todo mundo tem sempre a mesma ideia, afinal papai é um enófilo juramentado, capaz de distinguir um vinho pelo aroma, que reconhece a região pelo rótulo e é capaz de recitar de cor as principais cepas de cada país. Ou seja, para o resto da família papai é um enochato e presentear com uma garrafa pode significar se arriscar em terreno minado. Se você tem dinheiro disponível, a solução é fácil, vá até uma boa loja multimarcas ou sites de importadoras e procure aqueles rótulos com boa pontuação de Robert Parker, Wine Spectator, Gambero Rosso, Decanter etc e aí não tem muito erro (a não ser que ele seja daquele tipo off Broadway, que detesta os críticos de vinho famosões). Se a grana está curta, um conselho, esqueça o vinho e parta para um produto relacionado, por exemplo um bom livro sobre o tema. A chance de você receber um sorriso amarelo diante de um rótulo mais ou menos é muito grande para arriscar seu rico dinheirinho. Outra opção são as acessórios de vinho, uma espécie de brinquedo do enófilo de carteirinha

Para o pai que defende causas verdes

Há vinho para todo estilo de gente. Pais verdes, militantes do planeta e que nem por isso abdicam de uma boa taça de vinho têm uma forte relação com produtos orgânicos e biodinâmicos. Estes tipos de vinho são certificados e seguem algumas regras mínimas: como buscam um vinho mais natural, não usam defensivos agrícolas – apelam para recursos naturais para controle de pestes -, evitam aquelas garrafas muito pesadas, são contra uso de leveduras de laboratório e outros artifícios químicos para correção das safras. Como conceito, o vinho é um produto da natureza e qualquer interferência é condenada. Já os biodinâmicos têm uma relação mais etérea com o cosmo, as estrelas, as fases da Lua e o ciclo da terra. Pode até parecer papo alternativo mas é uma tendência que vem crescendo na indústria do vinho e o resultado de fato surpreende no sabor e aromas menos fabricados e mais instigantes. Para pai verde, um vinho odara! É fácil reconhecê-los, no geral eles alardeiam seu diferencial orgânico ou bio no próprio rótulo.

Para o pai que é estrangeiro ou morou no exterior

Se existe a escolha do vinho por tipo de consumidor, também existe a decisão por afinidades. Pais nascidos em outro país ou que viveram um período fora do Brasil provavelmente vão ter uma afinidade afetiva com caldos de sua origem – ou que remetam a um passado estrangeiro. Pais italianos, portugueses, espanhóis, franceses, chilenos e argentinos estão bem servidos de rótulos no país, e mesmo aqueles libaneses, austríacos, alemães também podem ser contemplados. O Brasil importa vinhos de mais de 25 países. É fácil encontrar um que combine com as origens de seu pai. Em geral eles estão organizados por país nas prateleiras das lojas e nos sites de vinho. É uma maneira bacana de reforçar os laços que envolvem suas raízes. E uma boa desculpa para abrir um vinho com o velho, em memória dos bons tempos… Já se seu pai é japonês, chinês ou russo melhor desistir desta alternativa.

 

Se o seu pai é separado de sua mãe

Se a separação é recente, aposte num tinto encorpado, meio alcoólico, um vinho meio cowboy, quase mastigável, com forte presença de aromas tostados de barrica, daqueles que sua mãe certamente iria odiar. Serão dois prazeres em uma só garrafa. Geralmente são aquelas garrafas pesadonas, malbecs argentinos, tempranilos da Rioja, tannat uruguaios. Tanto melhor se forrem desarolhados junto a um suculento naco de picanha sangrando… Um momento ogro das vinhas.

Para o pai que resolveu assumir que é gay – ou que é gay

Se eventualmente seu pai resolveu sair da adega, então por que não brindar esta opção corajosa do velho com uma garrafa de vinho? Ou mesmo se o seu(s) pai(s) são gays. A ordem do dia é a diversidade de gêneros. Um pai gay merece um espumante rosé nacional – são ótimos -, ou mesmo um champagne, que é a bebida da celebração. Claro que não se trata de uma bebida exclusiva para gays, mas é uma maneira bem-humorada de presenteá-lo e curtir sua opção sexual com um brinde animado.

Para aproximar a relação com seu pai que está estremecida

Pais e filhos são humanos, demasiadamente humanos, e nem sempre a relação é boa. Se o vinho aproxima as pessoas, ele pode também resgatar uma relação familiar que o tempo, por alguma razão, arranhou. Um porto envelhecido, do tipo Tawny, ou de safras exclusivas, do tipo Vintage, são a dica. São fortificados intensos, chamados vinho de meditação, que acompanham bem um charuto e são o elixir da boa conversa. Pode ser um bom empurrão para uma aproximação entre vocês, um momento em que as fraquezas e fortalezas desta relação podem ser aplainadas. Afinal é um consenso entre os bebedores que vinho é para ser compartilhado. E você e seu pai merecem este tempo mais esticado para passar a vida  a limpo, entre um gole ou outro de um Porto.

O melhor vinho que tomei com meu pai

Meu pai (91), eu (52) e um brinde de um Marques de Casa Concha (40)

Meu pai (91), eu (52) e um brinde de um Marques de Casa Concha (40)

O prazer do vinho também está associado à companhia, ao momento, ao entorno. Neste dia dos pais, e em todos que puder, tome um vinho com o seu. E aqui vai minha experiência. O rótulo chileno Marques de Casa Concha, da vinícola Concha y Toro,  comemora 40 anos este ano – foi lançado em 1976. Em vez de simplesmente reunir críticos em uma degustação tradicional convidou alguns clientes, especialistas e amigos para compartilhar algumas garrafas da marca em um jantar no Terraço Itália, tradicional restaurante paulistano,  na companhia de seus pais. Foram servidas três variedades: chardonnay, carmenère e cabernet sauvignon (meu favorito e mais tradicional). Depoimento sincero. Olha, eu já tomei o Marques de Casa Concha em diversas ocasiões: na companhia do seu enólogo principal, Marcelo Papa, que há dez anos elabora os tintos e brancos desta clássica linha; na própria vinícola, próxima de Santiago, no Chile; em almoços em casa e jantares de lançamentos de safras em restaurantes. Mas não tem igual, brindar com meu pai foi outra experiência. Foi o melhor Marques da minha vida, aquele que brindei com meu velho e outros filhos e filhas, acompanhados dos seus. Você não vai perder a chance de brindar com o seu, vai?

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sexta-feira, 25 de setembro de 2015 Novo Mundo, Tintos | 00:32

Marques de Casa Concha: um clássico chileno em mutação

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Marcelo Papa: enólogo há mais de dez anos da Marques da Casa Concha. Mudanças à vista.

Marcelo Papa: enólogo há mais de dez anos da Marques de Casa Concha. Mudanças no estilo de um clássico chileno.

Um fantasma ronda a cabeça do enólogo Marcelo Papa, responsável há 10 anos pela linha Marques de Casa Concha – o fantasma dos vinhos menos potentes, mais frutados e com menos madeira. O Marques de Casa Concha é um clássico do “vinho bão” chileno, e um dos grandes representantes dos tintos e brancos varietais (de uma só uva) de grande expressão e potência. E foi esta mudança de rumo que Papa veio mostrar em seu último giro pelo Brasil, quando apresentou um Cabernet Sauvignon Edição Limitada de 2013 e um carignan que faz parte de um projeto dedicado à esta uva no Chile, o Vigno (Vignadores de Carignan).

Time que está ganhando não se mexe, certo? Errado, mexe sim, mas com todo cuidado e paciência, afinal se trata de um ícone de uma gigante do vinho (Concha y Toro), com uma legião de consumidores fieis e, claro, sucesso de vendas (e de receita). Esta nova visão poderia ser resumida no clássico conselho do “menos é mais”: menos álcool, menos potência, menos doce, menos madeira. “Começamos a colher as uvas mais cedo, para obter teor alcoólico mais baixo, mas mantendo uma boa fruta e a usar tonéis (barricas maiores, de 5.000 litros)”, conta Papa.

Mas se o consumidor gostava dos vinhos como eles eram, por que mudar? “Há quatro anos eu percebi que não estava tomando mais Marques de Casa Concha em casa”, diz Marcelo Papa. Era um sinal claro que mudanças precisavam ser feitas. “Os formadores de opinião – especialistas e críticos – começaram a ficar cansados de um estilo muito potente de vinho, pois nem todos os vinhos têm de ser assim e apontaram uma tendência”. Os consumidores (ou parte deles) também começaram a seguir esta onda, a buscar vinhos mais gastronômicos, com maior presença da fruta, acidez e menos efeitos da madeira nova que marca muito a bebida “Acho que terá uma boa aceitação”, aposta Papa.

E a mudança começou no uso da madeira. Ela não foi abandonada, mas seus efeitos aliviados com o recurso de recipientes maiores. Marcelo Papa testou tonéis de várias partes do mundo e acabou elegendo a matéria-prima do Piemonte, na Itália, usada na guarda dos barbarescos e barolos – o que já indica um caminho rumo à fineza. Em seguida, começou a misturar os vinhos em barricas tradicionais e nos tais tonéis. Foi uma maneira cautelosa de introduzir um novo estilo e ao mesmo tempo não assustar o consumidor acostumado à pegada do Marques clássico. O Cabernet Sauvignon 2013 tradicional de Puente Alto, no Vale do Maipo, continuará com 80% do seu caldo estagiando 18 meses em barricas francesas, mas 20% ficará nos tonéis; no Syrah os 14 meses de barrica serão divididos 50% em barricas e 50% em tonéis. Foram adquiridos 38 destes grandes barris para este primeiro momento, e o mesmo número já está encomendado para as próximas safras.

Mais tensão e menos intensidade

Marques de Casa Concha Edição Limitada 2013 e Vigno: qual deles vai para a taça vazia? Os dois.

Marques de Casa Concha Edição Limitada 2013 e Vigno: qual deles vai para a taça vazia? Os dois.

O Marques de Casa Concha Cabernet Sauvignon Edição Limitada 2013, de Pirque, Puente Alto, sul do Rio Maipo, já é uma boa amostra do que vem por aí em termos de qualidade e frescor. O solo aluvial, com calcário, transmite uma certa “tensão ao vinho”, como defende Marcelo Papa. Como entrega o nome, a produção é mesmo limitada, principalmente para o nível Concha y Toro de ser. São apenas 6.000 garrafas. É um vinho meio “revival” no estilo dos anos 70, as uvas são colhidas mais jovens para obter menos álcool. Passou 22 meses em tonéis italianos e barricas francesas sem tosta, que também gera a tal tensão ao vinho, ou seja ele não é marcado pelas notas abusivas de chocolate, madeira, grafite. Não tem aquela opulência muitas vezes exagerada. A fruta, mais para a vermelha do que a preta mais comum no Marques clássico, é a expressão mais pura do vinhedo. Ganhou muito aberto mais de uma hora antes de servir e foi encontrando mais camadas aromáticas com um tempo na taça. Menos é mais aqui não é uma frase de efeito, mas um vinho elaborado com a intenção de ser menos intenso e com mais tensão.

O Vigno, é outra boa surpresa para aqueles que gostam de experimentar e valorizam o vinho mais franco e com maior “bebabilidade”. O rótulo faz parte de uma associação de pequenos produtores, algo como Vinhateiros de Carignan, que produzem o varietal desta uva na região sul de Maule, em variadas vinícolas (entre quinze e vinte) com o propósito de divulgar a Carignan chilena. Todos os produtores identificam no rótulo o vinho com o nome de Vigno. “Um dos fundadores da associação foi o Gilmore, há 4 anos. Hoje tem Vigno na Undurraga, do Montes, e agora da Concha y Toro”, explica Marcelo Papa.  As uvas são originárias de parreiras de 70 anos e 10% delas sofrem o processo conhecido como fermentação carbônica (a transformação do açúcar em álcool se dá dentro da fruta), que resulta num tinto de muita, mas muita expressão de fruta negra, e uma acidez marcante e frescor em boca que pede mais um gole. Um vinho agradável de beber e ótimo para acompanhar pratos mais leves.

Esta belezinha deve aportar ao Brasil no final do ano. Também nesta linha de privilegiar uvas menos conhecidas e até originais do Chile, estão as garrafas do Cinsault e Pais, infelizmente longe do mercado brasileiro. São algo como os vinhos alternativos da Marques da Casa Concha.

 Tradição e inovação

Mas se existe uma mudança anunciada com orgulho e cautela por seu criador e mentor (era visível sua satisfação com os resultados obtidos  e com a carta branca da empresa para seguir adiante) é por que existe também uma história bem-sucedida dos rótulos do Marques de Casa Concha, lançados em 1976. Trata-se de um vinho de autor, nas versões atuais e que estão por vir.

Aqui no Brasil são encontradas as versões: Chardonnay e Pinot Noir, do Vale do Limarí; Merlot e Carmenère, do Vale do Cachapoal, Vinhedo Peumo; Cabernet Sauvignon e Syrah, Vale do Maipo.

Confesso que este novo estilo era algo que eu colocava um pouco em dúvida: não por que não concorde com esta vertente do “menos é mais”, mas por que me parecia que poderia descaracterizar um pouco o tradicional Marques de Casa Concha, mudar seu caráter e desagradar seu consumidor, afinal de contas para quem é feito o vinho. O Marques “tradicional” – podemos já chamar assim –  sempre me agradou dentro do seu estilo e potência, valorizando comidas mais fortes numa harmonização por “paridade”. Mas colocando lado a lado os dois caldos ficou clara a diferença que faz o nível alcoólico, a fruta vermelha versus a negra, a influência mais sutil da madeira contra a potência das barricas nos aromas e no paladar menos doce e mais gastronômico. E fiquei com vontade de ter um gole a mais da edição limitada em minha taça.

Marcelo Papa adiantou ainda uma novidade, fruto de uma curiosidade deste colunista, que tem uma certa predileção pela uva cabernet franc. Com tantas varietais por que não tem um Marques de Casa Concha Cabernet Franc? Ah… Não tinha, mas terá, de pequena produção. A Safra 2014 chega ao mercado no segundo semestre de 2016. Nós, devotos do cabernet franc aguardamos ansiosos.

 32 milhões de caixas

A Concha y Toro é uma potência. Produz vinhos de vários estilos e preços. Além da vinícola que dá nome à empresa a holding controla a Cono Sur, Vina Maipo, Palo Alto, Canepa, Maycas del Limari (no Chile), Trivento (na Argentina) e Fretzer (Estados Unidos). Juntas produziram uma bagatela de 33,2 milhões de caixas de 12 garrafas de vinho em 2014, distribuídas em 145 países. Só a Vinícola Concha y Toro é responsável por 14,2 milhões de caixas. A Viña Concha y Toro coleciona prêmios, rótulos e um resultado inédito de 1 bilhão de dólares em vendas. Carrega também as virtudes (uma legião de consumidores fieis) e as mazelas (o mimimi dos puristas que criticam a estandardização de seus vinhos) que acompanham as grandes marcas de sucesso. Por isso mesmo é com alguma surpresa que experiências como esta defendida por Marcelo Papa na linha Marques de Casa Concha apontam que o mercado está mesmo mudando, que tudo que é sólido pode mesmo se desmanchar no ar.

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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014 Novo Mundo, Tintos | 18:15

Don Melchor 2010, um clássico chileno entre os melhores tintos do mundo

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Enrique Tirado 02

Enrique Tirado, enólogo do Don Melchor: fazendo pose no solo cavado nos vinhedos de Puente Alto, no Chile

A Concha y Toro é uma das maiores marcas de vinho do planeta. É uma referência, para o bem o para o mal, desde o iniciante dos tintos chilenos até para os amantes de bons rótulos. Na indústria local também se sente seu peso. Estive recentemente no Chile e não há produtor ou enólogo que não cite a empresa pelo seu tamanho, importância e volume para efeito de comparação, ou para se diferenciar em qualidade ou tamanho.

A Concha y Toro produz tanto tintos de consumo de massa, como a linha mais básica Reservado, ou de entrada como o Casillero del Diablo, como elabora ícones importantes. Don Melchor é joia da coroa. E tem suas regalias. É tratada como uma pequena vinícola dentro empresa, com equipe própria e dedicada. A safra de 2010 foi eleita entre os 10 melhores tintos do planeta pela lista anual da revista especializada Wine Spectator. A propósito, o Don Melchor já carimbou sua presença sete vezes na lista, sendo que três vezes entre os Top Ten (as safras de 2001 e 2003 em quarto lugar, a de 2010 em nono lugar).

Enólogo e galã

O cidadão da foto acima, com pinta de galã, atende pelo nome de Enrique Tirado. Ele é o responsável, desde a safra de 1997, pelo vinho que reúne uma pequena e exclusiva legião de admiradores brasileiros que transformaram o Don Melchor (muitas vezes chamado equivocadamente de “Don Melchior”) um objeto de desejo a cada safra lançada. Enrique Tirado, que tem um irmão gêmeo que também é enólogo (para diferenciá-los pessoalmente, basta reparar na cabeleira, seu irmão tem o penteado mais bagunçado que ele), é uma espécie de guardião do estilo e da tradição do Don Melchor. Ele mesmo explica o que vem a ser este estilo: “O que queremos é a expressar o cabernet sauvignon de Puente Alto, no Vale do Alto Maipo, nos Andes, com uma fruta viva e fresca”. Longe de entrar na discussão de mudança de estilo que atualmente atinge quase todas as vinícolas do Chile (menos madeira, mais fruta e acidez), para Tirado o objetivo permanece o mesmo: elaborar o melhor cabernet sauvignon que o vinhedo pode  oferecer: “Não sigo moda que vai para um lado e depois vai para outro”, explica.

 O que é que o Don Melchor tem

Basicamente o vinho tem uma consistência de qualidade e de estilo que revelam que ali naquele lugar o cabernet sauvignon é ator principal (90%) – também são cultivados poucos hectares de merlot (1,9%), petit verdot (1%) e cabernet franc (7,1%). Os vinhedos de Puente Alto, aos pés da Cordilheira Andes, são vizinhos dos terrenos de Chadwick e de Almaviva. Traduzindo: a papa fina do vinho chileno está reunida na região. Mas a elaboração de um vinho de exceção deste tipo não é mamão com açúcar. Para atender a alta expectativa em torno de cada safra e a fama conquistada, há muito estudo do terreno e das parcelas que compõem os vinhedos que vão fornecer as uvas que serão fermentadas e engarrafadas. São sete parcelas divididas em 127 hectares de terreno analisados minuciosamente em relação ao solo (se há mais ou menos pedras, profundidade das raízes, drenagem etc), clima, exposição ao sol.

Vinhedo de Puente Alto, aos pés das Cordilhieras: expressão meaxima do cabernet sauvignon

Vinhedo de Puente Alto, aos pés das Cordilheiras: expressão máxima da cabernet sauvignon

Os frutos destes vinhedos são experimentados nas parreiras ao longo dos meses e para a mescla final são provadas entre 120 e 150 mostras de diferentes parcelas já vinificadas que vão determinar o vinho que vai na taça. As provas selecionadas são enviadas para Bordeaux, na França, onde Enrique Tirado e o enólogo francês Eric Boissenot passam de três a quatro dias, em meados de julho, fazendo as escolhas  que vão determinar o resultado final. Esta maratona de provas de cabernets de variadas parcelas, mais as outras variedades que podem ou não aportar outras notas ou complexidade ao vinho, têm um único objetivo: “expressar o melhor cabernet sauvignon daquele lugar”.

Dos 127 hectares cultivados, se aproveitam cerca de 60% a 70% das uvas, o que tem produzido em média cerca de 150.000 garrafas por ano. As uvas que são descartadas, que são de boa qualidade mas de alguma forma não ajudariam a compor o estilo Don Melchor, são usadas para outras linhas da Concha y Toro, como o Marques de Casa Concha. “Mas não passa de 5%, o que não vai alterar no resultado final do produto”, alerta Tirado, frustrando aqueles que podiam achar que comprando um Marques de Casa Concha estão adquirindo um segundo vinho do Don Melchor.

Como já se disse mais de uma vez, o Don Melchor é uma mescla de cabernet sauvignon com a possibilidade de adição, principalmente a partir de 1999, de cabernet franc, que raramente ocupa mais do que 3 a 6% na proporção total do blend. A safra premiada de 2010 e que está sendo trabalhada agora tem 97% cabernet sauvignon e 3% cabernet franc. A novidade que Tirado trouxe em primeira mão aos amantes da cabernet franc – como este que vos escreve – é que uma pequena produção da varietal da safra de 2013, sem a denominação de Don Melchor, já está engarrafada. E deve vir ao mercado em breve. A ver.

Don Melchor 2010: o rótulo mudou mas o vinho continua o mesmo

Don Melchor 2010: o rótulo mudou mas o vinho continua o mesmo

Novo rótulo

A safra de 2010 vem com uma novidade. O rótulo teve uma pequena alteração. Perde espaço o “brand” Concha y Toro, discretamente reduzido a um selo no canto superior do rótulo e ganham destaque a uva predominante (vou falar pela última vez, cabernet sauvignon, ok?) e o lugar de procedência: Puente Alto. Esta ação de marketing gerou uma discussão de um ano até a aprovação da mudança que deixou a etiqueta mais elegante, mas que em nada altera o vinho e sua percepção. Talvez para os novos entusiastas deste ícone, ou para aqueles esnobes que não queriam misturar a marca de volume (Concha y Toro) ao seu caldo de alto valor agregado, a mudança faça mais sentido. Na verdade todo mundo sabe que Don Melchor é Concha y Toro.

• Leia também: 50 vinhos argentinos que vale a pena conhecer

O Don Melchor 2010 de fato tem uma coerência e uma linha de qualidade que impressiona. Provados numa vertical (várias safras) se notam diferenças aqui e ali, resultado do clima, da evolução e até mesmo da garrafa. “Há uma personalidade”, insiste Enrique Tirado, “mas claro que há diferenças que representam o ano da safra”. Ele passa em média 15 meses em barricas francesas de médio tostado. O que se prova não são os efeitos da barrica, mas a fruta, as especiarias, um toque de tabaco talvez. Tem a persistência dos grandes vinhos, a elegância de um cabernet sauvignon clássico, suculento como raros tintos e a percepção de um estilo.

Não é vinho para todos os dias (custa algo em torno de 430, 450 reais a garrafa), mas para um dia especial. Um vinho para se beber com atenção e prazer. Como um bom livro, dedicando um pouco mais de tempo ao seu consumo. Eu tenho um 2001 aguardando um momento na minha adega. A safra de 2010 promete. Para beber agora ou depois de alguma evolução, quando a data ideal chegar.

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quinta-feira, 13 de março de 2014 Novo Mundo | 19:41

Seis safras de três décadas de um supervinho chileno: Don Melchor

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Don Melchor 1998,1993, 1999, 2001, 2005 e 2007: uau!

Don Melchor 1988,1993, 1999, 2001, 2005 e 2007: uau!

Um vinho com história se conta através da história deste vinho. Parece um pouco óbvio, e é até fácil de demonstrar na teoria. Mas é mais difícil de provar na prática. A gigante chilena Concha y Toro, craque no marketing de seus rótulos, resolveu fazer a prova dos noves com o seu vinho ícone: o Don Melchor, e montou uma edição limitada com uma caixa com a seleção de seis safras representativas do seu tinto top de gama: 1988, 1993 (sob responsabilidade do enólogo Goetz von Gersdorff), 1999, 2001, 2005 e 2007 (sob a batuta de Enrique Tirado). São apenas 50 caixas distribuídas em cinco mercados: França, Estados Unidos, China, Chile e Brasil. Ao Brasil, um dos três principais mercados do Don Melchor, foram reservadas 12 caixas. Degustar história, no entanto, tem seu preço: R$ 5.000,00 cada caixa.

Enrique Tirado: desafio de manter a qualidade da safra

Enrique Tirado: desafio de manter a qualidade da safra

O enólogo Enrique Tirado, responsável desde 1997 por este monstro sagrado do vinho chileno, é o atual embaixador do Don Melchor e veio apresentar e comentar pessoalmente estas safras no Brasil. Mesmo que você nunca tenha provado este rótulo, certamente já ouviu falar. Por aqui o supercabernet andino tem uma legião de admiradores conquistados ao longo dos anos. São consumidores com algum conhecimento de vinho e com uma certa grana para gastar. O preço médio de uma garrafa de um Don Melchor da última safra, a 2009, sai por volta do 410 reais.

Enrique Tirado, além de manter a qualidade dos caldos que elabora, tem outra qualidade rara na fogueira das vaidades dos enólogos que se apresentam por aqui: ele jamais assume sozinho a autoria do vinho. Num mundo do “eu decidi isso, eu fiz aquilo”, Tirado conjuga na terceira pessoa – e produz um vinho de primeira. Segundo o enólogo, o Don Melchor tem uma equipe específica na Concha y Toro para cuidar do vinhedo e da adega. “A cada nova safra é um desafio manter a melhor fruta e manter a qualidade do Don Melchor”, explica Tirado. “O que procuramos sempre é a expressão do terroir, e não alguma técnica nova que possa aportar ao sabor do vinho algo que ele não tenha na sua origem”, completa.

Leia também: Os vinhos chilenos envelhecem bem? E vale apena aguardar esta evolução?

O Don Melchor é uma mescla de cortes da mesma uva cabernet sauvignon, gerado em diferentes parcelas de um mesmo vinhedo de Puente Alto, no Vale do Maipo, ao sul da capital Santiago, aos pés da Cordilheira dos Andes. Cada uma das sete parcelas contribui com algum elemento para o vinho: mais ou menos fruta vermelha, negra, especiarias, acidez taninos macios, suaves, etc. Os127 hectares de vinhedos têm em média 28 anos de idade e além do predomínio da cabernet sauvignon, a espinha dorsal do Don Melchor, também há espaço para uma pequena parcela da cabernet franc e da merlot, que eventualmente participam da composição do Don Melchor, mas em quantidades reduzidas.

Antes de chegar às prateleiras, o Don Melchor fica estagiando de 12 a 14 meses em barricas francesas de primeiro uso (70%) e segundo uso (30%). Depois ainda fica descansando mais um ano e meio na garrafa.

Uma prova vertical, isto é, o mesmo vinho de safras diferentes, é sempre uma experiência sensorial e didática sublime. Ela mostra a evolução do vinho, traduz os efeitos do clima de cada ano no resultado do caldo e a mão do enólogo na condução do resultado final.

Tive o privilégio de provar as seis safras que definem as três décadas do Don Melchor, que teve no total 23 rótulos lançados no mercado até agora. São elas que compõem esta caixa comemorativa. Três décadas não de vinhos, mas vinhos de três décadas diferentes,é bom explicar. Afinal a primeira safra é de 1987, mas como já disse aqui os caras são bons de marketing; o importante é colocar o passado em evidêndia para ajudar a vender o presente, e perpetuar o futuro.

Aqui vão minhas impressões:

Don Melchor 1999: o vinho evolui melhor que o homem,,,

Don Melchor 1999: o vinho evolui melhor que o homem…

A safra de 1988, a mais velhinha de todas, está inteiraça. Uma boa acidez e taninos ainda presentes asseguram sua sobrevivência por mais algum tempo. É precisa apreciar vinhos mais evoluídos, em que aquela fruta ampla é substituída por elementos mais terrosos, um toque de vermute, outro um pouco trufado, aquelas sensações do vinho do porto, um pouco mais contemplativo. Em 1993 a evolução também está presente, misturando os aromas de evolução a uma fruta madura, confitada, que permance no final longo que o vinho proporciona. É complexo e fino, um toque amentolado. Agrada muito, meu segundo preferido. 1999 para mim é a melhor safra da caixa. Enrique Tirado conta que havia uma certa desconfiança da evolução deste ano (apenas ele apostava que se transformaria em um grande vinho), mas a cada ano que passa o caldo se revela mais importante. Ele tem aquilo que os especialistas chamam de aromas terciários (fruto da evolução na garrafa) bem nítidos: couro, caixa de charuto, terra molhada, uma geleia de frutas sensacional e um final que te acompanha por alguns segundos preciosos. Daquele tipo que permite fungadas no vinho quando dele só restou aquele fundinho na taça. Mistura a satisfação de já ter provado o caldo com a permanência dos aromas na taça e uma vontade de repetir a experiência. Fantástica prova da capacidade de evolução de um vinho chileno, da potencialidade da cabernet sauvignon do Chile. Bravo! O enólogo Enrique Tirado enalteceu a elegância da garrafa de 2001, também sua cria, mas foi a que menos me agradou, me pareceu um tinto mais austero, sem as evoluções dos seus colegas veteranos e nem a fruta soberba dos seus parceiros mais novos. Depois de um tempo notas bem reconhecíveis de chocolate invadiram a taça, o que mereceu um novo gole. 2005 é um grande vinho, tem um ataque mais doce, potência, gordo, as frutas em compota, bons taninos, macio, maduro, um vinho pronto e que merece aguardar também para acompanhar sua evolução. Dos mais novos foi meu preferido. Por fim 2007. Aí é preciso uma observação final: se a degustação horizontal permite uma avaliação cronológica do vinho, acaba por vezes prejudicando as safras mais recentes, que se provadas em separado iriam agradar também, até por sua jovialidade, pela fruta bem expressiva, doce, um vinho macio e menos complicado, mas de muita presença na boca. Quando comparadas às safras anteriores perde um pouco o seu brilho, pois não se encontra ali as benesses (quando tudo vai bem) do tempo. Enfim, 2007 é uma delícia de vinho pronto; parece que tem um potencial de guarda que vai deixá-lo mais bacana ainda.

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sexta-feira, 1 de novembro de 2013 Degustação, Novo Mundo | 10:34

O teste da idade: os grandes vinhos chilenos envelhecem bem? (E vale a pena aguardar esta evolução?)

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A Wines of Chile – associação que vende a imagem do vinho chileno pelo mundo – promoveu uma degustação com os homens que cospem vinho e profissionais da área para mostrar o potencial de guarda dos grandes rótulos de seu país. O desafio era saber a opinião desta gente bacana sobre uma questão muito direta: os vinhos chilenos envelhecem bem? Traduzindo: como os grandes tintos reagem à  passagem do tempo, como evoluem (e se evoluem) os aromas, a fruta, a acidez e o tal do tanino? Enfim, o bichão melhora  com o tempo em garrafa ou entrega os pontos?

Esta é uma discussão que na verdade interessa a pouca gente – quem é que guarda uma garrafa de vinho por dez anos na adega ou no armário da cozinha? -, pode parecer muito acadêmica – e é -, mas para os enólogos, sommeliers e especialistas é a prova de fogo para um vinho mostrar o seu valor. Para as marcas é quase como um marketing regressivo – buscando o valor do passado para vender o futuro.

Seis vinhos do primeiro time participaram do evento com uma safra recente (2010) e outra mais antiga. Eles foram escolhidos pois representam o vinhedos de norte a sul do país, e traduzem o sentido do lugar. Foram eles:

Viña Altair

  • Altair 2002 e 2010

Concha y Toro

  • Don Melchor 1996 e 2010

Viña Errázuriz

  • Don Maximiano Founders Reserve 2000 e 2010

Viña Lapostolle

  • Clos Apalta 2002 e 2010

Viña Montes

  • Montes Folly 2000 e 2010

Santa Rita

  • Casa Real 2002 e 2010
Doze vinhos e nenhum segredo de idade

Doze vinhos e nenhum segredo de idade

O maestro que conduziu a degustação foi o jornalista e crítico de vinhos Patricio Tapia, autor do Descorchados, o Guia de Vinhos Chilenos e Argentinos mais respeitado entre os que entendem e não entendem de vinho. Tapia explicou que ambas as safras – mais recentes e mais antigas – eram de anos mais frios e frescos, pois nesta condição climática o terrenos podem mostrar melhor suas características, o pH é mais adequado e a acidez mais presente. Ou seja, se você tinha aprendido lá trás que as melhores safras do Chile eram de anos ímpares, esqueça.

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O onipresente powerpoint mostrava as regiões, os enólogos e um resumo das duas safras de cada vinho. Tapia fez uma introdução, apresentou dois vinhos e passou a palavra aos enólogos convidados – Cecilia Torres (Santa Rita), Gustavo Hormann (Montes), Angélica Carrasco (Lapostolle) e Ana Maria Cumsille (Altair) – que vieram  defender seu terroir. A cada rodada um especialista da plateia era convidado a dar suas impressões (Abre parênteses: é uma situação um pouco constrangedora esta, e com um resultado pra lá de suspeito. Quem vai falar mal do vinho, principalmente na frente dos enólogos? Claro que não há defeitos em rótulos deste gabarito, nem grandes arestas, mas claramente se percebe um desconforto no discurso hesitante ou então se parte para os elogios descarados, num oba-oba que não acrescenta nada ao evento. Mas fica parecendo democrático… Fecha parênteses)

Bom, e chegamos ao sexto parágrafo e ainda não se revela qual a resposta à pergunta: o vinho chileno envelhece bem? Opinião unânime, incluindo deste humilde cuspidor de vinho, é: SIM! Mas envelhecem como um vinho do novo mundo deve envelhecer, sem as características dos colegas da Europa, por exemplo. A impressão que fica, porém, é de que as safras atuais envelhecerão melhor. Têm mais extração de fruta, mais exuberância, um tanino presente e macio, além do aprendizado destes anos todos do manejo de uma região que afinal de contas ainda é jovem comparada ao velho mundo. Como observou Tapia, quanto melhor o vinho evoluir sua fruta, modificando-se sem perder a presença, melhor o vinho chileno passará pelo teste do tempo.

Não era uma prova para ter vencedores, mas como o ser humano tem como padrão de comportamento hierarquizar suas escolhas, foi inevitável. A grande maioria (pelo menos quem eu consultei) elegeu o Casa Real 2002 como a mais fina evolução, com aromas de frutas mais maduras misturadas a toques de tabaco, e as mesmas frutas se confirmando na boca, uma delícia de tomar, de cheirar e de voltar na taça para encontrar novos sabores. O Casa Real 2010 também foi bem, boa extração de fruta, ótimo final, jovem mas pronto para beber. A comparação entre as duas garrafas foi muito didática do efeito do tempo, que aqui só melhorou a bebida, trazendo maior substância e sutileza ao sabor e aromas.

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Outro destaque foi o Don Maximiano – um vinho que sempre me surpreende em degustações e competições. A boa notícia é que a safra atual, 2010, tem uma fruta fresca muito gostosa e presente, um bom corpo, macio, uma doçura envolvente. Passado alguns minutos na taça um chocolatão invade a taça. Seu igual de dez anos atrás (2000) também se comportou bem na garrafa, perdeu um pouco da fruta, mas integrou melhor com a madeira, ganhou uns aromas mais terrosos, um delicadeza e uma boa acidez. O famosão Don Melchor 2010, um tinto mais de macho, concentrado, de fruta negra, um pouco de coco no nariz, ainda precisa amaciar um pouquinho os taninos (pega no final da boca), mas há agrada de imediato, mas o 1996, portanto o exemplar mais antigo, já estava indo embora. A fruta estava escapando da taça, uma sensação química era bem perceptível, aquelas notas de champignon, terroso. O que pode até levantar a sobrancelha da dúvida do tempo que os tops chilenos aguentam na garrafa. Como disse o Tapia, ‘O desafio é prolongar mais ainda o vinho.”

O Montes Folly melhorou com o tempo, sem grandes transformações, ganhando mais acidez e frescura, atenuando a potencia da syrah. O Altair 2002 não alterou tanto, mas também melhorou a bebida trazendo mais frescor e leveza e um toque gostoso de tabaco. E por fim o Lapostolle, que diante dos colegas do embate ficou no empate entre os anos. Pouca diferença de evolução, mantendo suas principais características de potência, de influência marcante da madeira meio deslocada nesta exibição de idade.

O vinho precisa se manter vivo - e você também!

O vinho precisa se manter vivo – e você também!

Mas vale a pena aguardar esta evolução? 

O lado acadêmico e teórico diz que sim. O envelhecimento, na realidade, é uma troca, um pacto entre o consumidor e o vinho. Ganha-se algumas coisas e perdem-se outras. Na sua maioria os vinhos melhoraram com o passar dos anos (ou os anos melhoram com o passar dos vinhos, como se diz por aí). E a melhor prova disso é exatamente a de comparar duas ou mais garrafas de safras diferentes. Os vinhos com capacidade de guarda, mesmo os do novo mundo, podem até perder a exuberância da fruta com o tempo na garrafa, mas os taninos se amaciam e o conjunto fica mais equilibrado e harmonioso, a madeira se integra mais à bebida. Surgem neste estágio aromas e sabores deliciosos e oníricos, tornando o vinho mais complexo e fascinante.

Mas o lado prático diz “depende”. Guardar vinhos para beber lá na frente é visão otimista da vida (o vinho precisa se manter vivo, mas você também…). Há o risco do tempo – pois existe um auge teórico, o Everest da curva de evolução do vinho, em que boa parte da fruta permanece viva e praticamente toda a complexidade do envelhecimento se mostra. Mas também existe a curva descendente, quando o vinho vai perdendo suas qualidades até desaparecer. Outro risco? A garrafa pode sofrer alguma avaria e o caldo virar vinagre. Por fim, há o fato de que você precisa apreciar as mudanças que o tempo provoca no vinho, trazendo maior acidez, menos volume em boca, transformando a fruta exuberante em uma fruta mais delicada, diminuindo a presença da madeira e modificando os aromas originais.  O que pode provocar a seguinte digressão: “Mas este não é o vinho que eu conheço e aprecio.”

Leia também: O envelhecimento do vinho: o mito da idade

Dá para pular esta espera toda para comprovar a veracidade destes dados? Sim, mas aí é preciso investir uma certa grana: safras mais antigas de vinhos de excelência são difíceis de encontrar e pesam no bolso. O jeito é encontrar um amigo rico que possa proporcionar esta brincadeira, ou um incauto sem conhecimento que apareça com um Don Melchor, um Don Maximiano, um Casa Real de safras mais antigas e proponha: “Achei estas garrafas antigas no fundo da adega do meu tio que morreu recentemente. Será que presta?” Pode ser o início de uma grande amizade…

 

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