Publicidade

Posts com a Tag Dão

terça-feira, 22 de dezembro de 2015 Brancos, Tintos, Velho Mundo | 01:28

Vinhos de Portugal: o Dão, o Douro e a dor de dente (parte 1)

Compartilhe: Twitter
Solar do Vinho do Dão: guardião dos vinhos da região

Solar do Vinho do Dão: guardião dos vinhos da região

O pior dos crimes é produzir vinho mau, engarrafá-lo e servi-lo aos amigos
Aquilino Ribeiro, in “Aldeia: terra, gente e bichos”
Inscrição pintada no Solar do Vinho do Dão, em Viseu, Portugal

Portugal é uma experiência rica para os apreciadores dos vinhos brancos, tintos e os fabulosos fortificados do Porto. E prática. Trata-se de um país de distâncias municipais, tendo como referência o mapa brasileiro. É possível percorrer as regiões, os vinhedos e os produtores em poucos dias. O Dão e o Douro são vizinhos, assim como a região dos Vinhos Verdes e da Bairrada. O mapa vitivinícola ajuda, apesar de as estradas sinuosas do Douro complicarem um pouco a vida do motorista. E a experiência, e o cenário, se modificam em poucos quilômetros. Ah, e o preço dos vinhos, mesmo em tempos dilma desvalorização cambial, ainda são uma pechincha diante de nossas etiquetas.

É muito difícil escolher entre tantos tintos e brancos provados aqueles que mais agradam, ou entre várias vinícolas e produtores visitados os que mais impressionam e merecem um comentário e um espaço neste blog. Talvez mais fácil concentrar a seleção em algumas regiões. Se eu precisasse resumir minha viagem a Portugal em um post de Twitter, em poucos caracteres, seria mais ou menos assim: “Os vinhos do Dão são elegantes, os do Douro, importantes, e dor de dente… ah isso ninguém merece.” Como posso ultrapassar os 144 caracteres, e dividir este post em dois, explico a seguir o que quis dizer com esta frase. Comecemos pelo Dão.

O Dão é “bão”

Se você não é useiro e vezeiro de vinhos portugueses, talvez nunca tenha ouvido falar do Dão, ou melhor, prestado atenção à região no rótulos das garrafas que estão por aí. Em rápidas pinceladas podemos nos socorrer aos jargões (eles estão aí para isso mesmo) e definir os caldos desta região pelos seguintes destaques:

mapa.dao

O Dão está marcado em vermelho no mapa de Portugal

  • A região do Dão foi demarcada em 1908, em 1947 a Denominação de Origem é registrada
  • O Dão é considerado a Borgonha portuguesa por manter algumas semelhanças com esta região francesa, expressão máxima da pinot noir (para as tintas) e da chardonnay (para as brancas):; pequenas propriedades (algumas muradas), volumes menores, vinhos mais elegantes, maior equilíbrio entre corpo e acidez.
  • A região seria o berço da tinta Touriga Nacional (não há comprovação científica, a paternidade é dividida com o Douro); a uva dominava o Dão antes da Filoxera, isso lá é verdade.
  • A Touriga Nacional é predominante nos vinhos tintos do Dão, e produz caldos de maior elegância, aveludados, com  capacidade de desenvolver aromas e sabores delicados e persistentes após um tempo emcapsulado na garrafa.
  • Os melhores brancos da região são aqueles produzidos a partir da uva Encruzado, uma “quase” exclusividade do Dão. Seus aromas e corpo são potencializados pelo tempo em barrica e pela temporada em  garrafa (vale aguardar um pouco a evolução), proporcionando uma experiência sensorial onde acidez e persistência dão (ops) prazer.
Osvaldo_Amado

Osvaldo Amado: enólogo do ano

O Solar do Vinho do Dão, Antigo Paço Episcopal do Fontelo (de verão) e também usado por um tempo como prisão, fica localizado na cidade de Viseu. O edifício, reformado e inaugurado em 2004, é sede da Comissão Vitivinícola Regional do Dão. Chegamos ali após pernoitar no Hotel do Buçaco, um local que mistura história, tradição e uma certa aura dos vinhos exclusivos feitos para o Hotel. A ideia era concentrar vários produtores representativos do estilo do Dão e suas criações numa espécie de feira exclusiva para os dois jornalistas de vinho brasileiros que faziam a visita. Foram nove casas, cada qual com direito a expor três rótulos. Total de garrafas desarrolhadas: 32 (algumas roubaram na conta, é fato, mas não vou deletar).

Eram 11 horas da manhã e tínhamos uma hora e meia para provar os vinhos, conversar com os produtores, tirar fotos e fazer algumas anotações. É quase uma minimaratona de Baco, onde a tática para se chegar ao final exige uma rodada inicial de brancos, seguida de outra volta olímpica com os tintos e de preferência cuspindo a bebida na degustação (ok, eu sei; esta parte meio nojenta da coisa causa certo asco no público pouco acostumado, mas é superbem aceita no meio. Juro que não ofendi nenhum produtor devolvendo para o balde seu vinho. Trata-se de um método para manter a sobriedade da análise. E aroma se percebe pelo olfato, sabor pelas papilas gustativas, engolir não é determinante em provas. Mas confesso que vez ou outra um gole mais aprazível vai para dentro). Já disse em outro texto, o Dão me surpreendeu, sua elegância me conquistou – um conceito meio fluido mas perceptível – e tornei seu fã. Às escolhas, pois:

Os brancos e os tintos do Dão e um rosé de contrabando

BRANCOS

Titular_branco

Titular Colheita Branco 2014
Uvas: Encruzado, Malvasia Fina e Bical
Caminhos Cruzados
Site oficial

Trata-se de um vinícola recente (2012) e já com alguns prêmios de crítica para exibir. Muito aromático, fresco, um toque de abacaxi. Vinho para se beber jovem. Teor alcóolico namedida para um branco. Muito subjetivo isso, mas adorei a simplicidade do rótulo, apenas com texto, aparentemente da fonte “currier”. remetendo à tipologia da máquina de escrever. Bateu um banzo. Fácil de identificar na prateleira, de guardar na memória.

 Quinat_perdigão_Encruzado

Quinta do Perdigão Encruzado 2014
Uva: Encruzado
Quinta do Perdigão
Site Oficial

O vinho passa por um processo de bâtonnage (xiii lá vem o cara complicar…) de 4 a 6 meses. Explico, a batonagem (em português mesmo) é um processo comum no processo de alguns vinhos brancos que consiste em agitar as borras que ficam depositadas no fundo da barrica (no caso, carvalho francês) durante a fermentação para submergi-las à superfície. Isso potencializa os aromas e dá mais estrutura. É um branco potente (ui!), encorpado (afe!) e que revela o potencial da uva. Curiosidade: não adianta gravar o vinho pela imagem do rótulo, eles mudam todos os anos, obra da mulher do enólogo, Vanessa Chrystie.

 Quinta_Pedrinha_Branco

Quinta da Ponte da Pedrinha 2014
Uvas: Encruzado e Malvasia
Quinta do Ponte da Pedrinha

Há histórias que só mesmo o velho mundo conta. A propriedade está com a família desde o século 18. Um branco de perfil jovem e fresco, fruta gostosa, bastante cítrico e mineral. A malvasia dá uma quebrada na potencialidade do encruzado. Não passa por carvalho, fermentação em tanques de inox. Para beber ontem.

 falorca_encruzado

Quinta Falorca Encruzado 2012
Uvas: Encruzado (90%) e malvasia (10%)
Quinta da Faloca

A família está à frente da vinícola há 5 gerações. Há uma mistura de vinhas novas e velhas, um branco mais concentrado, com sabores de frutas brancas mais maduras. É untuoso, cremoso, estagia três meses em madeira e também passa por processo de batonagem. Tem uma persistência gostosa e uma acidez que completa o cenário. Um dos grandes brancos do Dão que provei.

 

ROSÉ

Mendes-Pererira_Rosé

Quinta Mendes Pereira Touriga Nacional Reserva 2011
Uva: Touriga Nacional
Quinta Mendes Pereira

Ok, eu sei. Um rosé do Dão não será sua primeira escolha. Para mim, no entanto, foi uma agradável surpresa. Uma cor linda de rosé, vibrante, luminosa: o prazer também se dá pelo visual. No nariz frutas vermelhas frescas como morango e framboesa. Um toque doce na boca, que dá um volume extra, e a fruta detectada nos aromas se repete de forma importante. Uma prova do potencial da Touriga Nacional como matriz de vinhos variados.

 

TINTOS

Quinta_das_Camelias_tinto

Quinta das Camélias Touriga Nacional 2010
Uva: Touriga Nacional
Quinta das Camélias
Site Oficial:

Olha o Touriga Nacional aí gente! Este é o topo de linha da Quinta das Camélias. Passa 10 meses em carvalho francês antes de vir ao mundo. Um touriga muito floral com uma violeta exibida mas elegante. Aveludado na boca, delicado, boa extensão. Apenas 6.600 garrafas produzidas. Um fidalgo perfumado engarrafado!

 Carvalhao_Torto_2005

Quinta do  Carvalhão Torto 2005
Uvas: Jaen e Alfrocheiro
Quinta do Carvalhão Torto
Site oficial

Entre todos os vinhos do Solar, o Quinta do Carvalhão Torto 2005 mostrou uma pegada didática que aponta como o tempo de garrafa age (para melhor) no sabor de um vinho. Um vinho com contraprova: comprei uma garrafa para dividir a experiência com minha mulher aqui no Brasil e a impressão de qualidade e sabor permaneceu em ambientes diversos. As uvas têm excelência de maturação nos 7 hectares de vinha. As 30.000 garrafas deste vinho só são lançadas após envelhecimento por no mínimo cinco anos. Tem um aroma delicado e intenso de terra molhada, húmus. É classudo, com boa estrutura em boca e taninos suaves e macios. 12,5% de álcool completam a elegância e a frescura que combinada com acidez amplia a vivacidade do vinho. Um vinho que não teve pressa de chegar ao mercado; não precisa de rapidez em bebê-lo.

 Quinta dos Carvalhais_Encruzado

Quinta dos Carvalhais Colheita 2011
Uvas: Touriga Nacional (93%), Tinta Roriz (5%) e Alfrocheiro (2%)
Sogrape – Quinta dos Carvalhais

Uma mescla elegante onde a fruta mais escura predomina e o floral mais tímido marca presença nos aromas e no sabor. As uvas são fermentadas em tanques de inox separadamente e depois passam uma temporada em barricas francesas de primeiro e segundo uso. Um Dão de potência, que me pareceu ter menos acidez que seus colegas, mas boa estrutura e longa persistência. Um Dão de bigodes.

 Estremuas_tinto

Quinta das Estrémuas Reserva 2008
Uva: Touriga Nacional
Vinícola de Nelas

Uma Touriga Nacional à capela com muita exuberância de fruta madura, muito macio na boca e ótimo final. Mais fruta e menos flor. Passa por um estágio em madeira francesa por 11 meses antes de ir para a garrafa. Um belo exemplar do potencial do Dão com uma pegada mais estruturada e com suculência marcante.

 Cabriz_Reserva_tinto

Cabriz Reserva 2012
Uvas: Touriga Nacional (40%), Tinta Roriz (30%) e Alfrocheiro (30%)
Wine Soul/Dão Sul – Cabriz
Site oficial

A Dão Sul é um blockbuster do Dão, seus vinhos são facilmente encontrados nos supermercados brasileiros. Produz grande quantidade com qualidade e preço. O enólogo Osvaldo Amado foi eleito o enólogo do ano em 2015. Para conhecer um Dão mais básico experimente o Cabriz Colheita Selecionada. Esta garrafa aqui está posicionada um degrau acima. A linha Reserva passa 9 meses em barrica francesa de tosta fraca (não marca muito o vinho). Destaque para sua boca aveludada, de bons taninos combinados com algum floral. Osvado Amado apenas mostrou na feira a garrafa de um vinho impressionante, 25 Cabriz, uma edição comemorativa às bodas de prata da casa.  No almoço tivemos o prazer de dividir com todos os produtores. Impressionou.

 FAta

Quinta da Fata Touriga Nacional 2010
Uva: Touriga Nacional
Quinta da Fata

Pequena propriedade de apenas 6,5 hectares (oferece hospedagem também), produziu apenas 3.500 garrafas deste Touriga Nacional puro sangue. A propriedade é familiar há algumas gerações, mas as vinhas têm cerca de 15 anos. Segue a tradição de pisa a pé, fermentação em lagares de pedra. Passa seis meses em madeira nova e outros seis em madeira de segundo uso americanas e francesas. Tem um leve toque defumado, macio e com fruta madura intensa.

 Tnac-Tinto

Tnac 2010 by Falorca
Uva: Touriga Nacional
Quinta da Falorca

Outro rótulo moderno que chama a atenção para a descrição da variedade: Tnac = Touriga Nacional. Um tinto vibrante sem passagem por barricas de carvalho. Resultado: um caldo menos afetado aos humores da madeira. Foi um dos últimos vinhos provados e sua jovialidade e proposta foram um refresco para tintos mais compleixos que exibiam mais medalhas. Às vezes menos é mais.

 Perdigão_ALfrocheiro

Quinta do Perdigão Alfrocheiro 2009
Uva: Alfrocheiro
Quinta do Perdigão
Site oficial 

A Quinta da Falorca é um exemplo de produção familiar e cuidado de vinificação que são típicas do Dão. Produtor e enólogo, o próprio José Perdigão escreve os contrarrótulos com uma vocabulário que mistura informação e paixão. É ele também que me serve as garrafas,  comenta sobre a reforma do Solar, o desenho das etiquetas e principalmente do vinho que expõe – e aparentemente bebe com extremo prazer e satisfação. Tem muito disso em Portugal, a simpatia do produtor ajuda o vinho. Como Luis Pato, da Bairrada, tratado em outro post. Ah, o vinho! O Alfrocheiro é outra casta importante do Dão, aqui em carreira-solo. As uvas são colhidas em apenas 1 hectare de vinhedo “amigo do meio ambiente”, como descreve José Perdigão. Um vinho de estrutura firme, um toque defumado gostoso, uma goiabada em compota no nariz e auditada na boca. Frutas negras presentes. Também tem um toque de caixa de tabaco (parece estranho mas aparece), resultado do tempo de garrafa. Complexo, elegante; chega em várias camadas e demora a ir embora. Um Dão bão para fechar.

À mesa com o Dão

Finda prova nos reunimos todos para o almoço, desta vez com todas as garrafas da minifeira abertas e à disposição de todos para acompanhar a refeição. No cardápio a variada gastronomia portuguesa: bacalhau, leitão, embutidos, queijos. À mesa ninguém cuspiu o vinho, ele foi parceiro e ampliou os prazeres da comida. Como tem de ser.

No próximo post  –  Vinhos de Portugal: o Dão, o Douro e a dor de dente (parte 2) – eu conto um pouco sobre a parte da viagem ao Douro, seus vinhos importantes e também sobre a dor dente.

Nota: a viagem a Portugal foi patrocinada pela ViniPortugal, organização que representa o setor vitivinícola português e promove os vinhos de Portugal.

Autor: Tags: , , , , , , , ,

segunda-feira, 30 de novembro de 2015 Degustação, Porto, Velho Mundo | 01:48

É um vinho português, com certeza!

Compartilhe: Twitter
douro

Douro: não existe lugar nem vinho igual no mundo

Há uma assinatura que distingue o vinho português. Um traço que identifica a bebida. Fácil de perceber, mais difícil de explicar. Uma viagem percorrendo os vinhedos de Portugal, conversando com seus produtores e experimentando os seus  vinhos –  acompanhado da gastronomia local – deixa tudo mais claro: “É a diversidade, estúpido”. A diversidade está expressa nas mais de 250 castas nativas (algumas de nomes curiosos, que fazem a festa dos cronistas), nas 14 Indicações Geográficas e nas 28 DOCs (Denominação de Origem Controlada) que cobrem este país de apenas 92.090 quilômetros quadrados, menor que o estado de Santa Catarina, que tem 95.346.

Cerca de 8% do território é coberto por vinhedos em regiões como Lisboa, Alentejo, Bairrada, Dão, Vinho Verde, Porto e Douro e até as ilhas distantes de Açores e  Madeira, para ficar apenas naquelas mais conhecidas dos brasileiros. O vinho representa hoje para Portugal 1,5% do valor total de exportações do país. E o Brasil é um mercado importante – e tradicional – para escoar esta produção toda. No Brasil, Portugal participa de uma fatia consolidada deste bolo, revezando com a França o terceiro e quarto lugares no ranking dos países que mais exportam para cá.

 Amor-não-me-deixes ou Esgana Cão?

Portugal tem um patrimônio genético na variedade de castas (uvas) que não encontra paralelo em lugar algum do mundo – nem mesmo na Itália que também é pródiga de uvas nativas. São mais de 250 castas identificadas (algumas como pequenas variações, claro). Ao contrário da uvas francesas, e em certa medida as espanholas e italianas, as variedades portuguesas ficaram meio isoladas e não se espalharam pelos vinhedos do novo mundo na velocidade e protagonismo de uma cabernet sauvignon, merlot, syrah, chardonnay, sauvignon blanc, sangiovese ou tempranillo. Mas aquilo que beneficia, também dificulta. Não é fácil para um consumidor americano, por exemplo,  pronunciar nem mesmo as uvas mais conhecidas como Touriga Nacional, Castelão e Fernão Pires, imagina então nomes como Carrega Burros, Pé Comprido, Sousão, Amor-não-me-deixes ou Esgana Cão?

 As 10 mais

vinhas250 é um número enorme, a maioria das uvas é de produção tão reduzida que nem mesmo os maiores especialistas da terrinha as reconhecem. Conhecer as 10 mais importantes já permite um belo panorama desta diversidade. São elas que você irá encontrar com maior frequência descrita nos rótulos e contrarrótulos portugueses (a propósito, os descritivos dos contrarrótulos portugueses são em geral bastante detalhados nos descritivos do vinho, vale sempre uma passada de olhos)

  •  BRANCAS

Alvarinho – Apesar de não ser sinônimo de Vinho Verde, é  responsável pelos rótulos de mais alta qualidade desta região. São minerais, aromáticos (cítricos, como limão,  frutos tropicais) e com ótima acidez. Trata-se de uma uva branca com um bom potencial de envelhecimento, tem boa estrutura e maior persistência. Com mais tempo de garrafa ganha alguns aromas associados ao petróleo (parece esquisito mas não é), semelhantes à alemã riesling. Na vizinha Espanha é conhecida como Albarinho

Arinto (Padernã) – Não bastassem as tais mais de 250 castas, algumas delas ganham nomes diferentes em cada região. Espalhada por Portugal, a Arinto é conhecida como Pedernã na região dos Vinhos Verdes. Produz vinhos  com aromas de maçã e pera, quando novos. Tem boa acidez. Proporciona frescor quando misturada a outras uvas. E funciona bem para espumantes.

Encruzado – A casta produz brancos mais intensos e tem uma boa sinergia com o estágio em madeira, própria para caldos com mais corpo e estrutura, beneficiando-se com o tempo na garrafa. Cítrico e floral quando mais jovens, ficam mais cremosos com toques de baunilha quando fermentados em barricas de carvalho. É mais representativa na região do Dão.

Fernão Pires (Maria Gomes) – A Fernão Pires, uma das castas mais antigas de Portugal, tem uma pegada mais leve, frutada e bastante perfumada (se achar que está diante de um moscatel, a impressão é essa mesma). Também usado para espumantes. Encontrada em vinhos de Setúbal, Tejo, Lisboa e Bairrada.

TINTAS

Baga – A Baga tem uma maturação tardia e é difícil de domar. Legal, mas o que isso significa? Que os taninos podem chegar rasgando se não forem bem tratados. São caldos que se beneficiam, portanto, do envelhecimento e agradecem quando cuidadas por um enólogo competente.  Aromas de cereja, ameixa quando mais jovens e ervas e tabaco quando mais vetustos. Sua origem é a Bairrada (Leitão da Bairrada com um Baga é uma combinação clássica entre a culinária local e o vinho da terra), mas pode ser encontrado no Dão. Nas terras e mãos apropriadas podem produzir vinhos bastante complexos.

Castelão – É a uva mais cultivada de Portugal. Também é conhecida como Periquita, mas este nome está registrado pela casa José Maria da Fonseca, produtora do famosão Periquita. Produz tanto vinhos fáceis de beber como aqueles mais intensos e potentes, que se beneficiam do envelhecimento em barris de carvalho. Cultivada mais ao sul de Portugal, em especial  na região da Península de Setúbal.

Touriga Franca (Touriga Francesa) – Umas das cinco castas oficiais do vinho do Porto, muito comum nos cortes dos tintos do Douro, é a casta mais plantada na região. É uva corante, ou seja, dá muita cor ao vinho. Comparada à parceira Touriga Nacional (abaixo), é mais leve e  aromática. É uma casta que mostra mais ao que veio nos vinhos de corte e nos Portos Vintage. Apesar do título de francesa não tem qualquer origem relacionada à França.

Touriga Nacional – Hoje em dia é uma espécie de porta-bandeira da vinicultura portuguesa. Originária da região do Dão (onde proporciona caldos mais elegantes), é importantíssima para a elaboração do vinho do Porto e aqui no Brasil se notabilizou em conhecidos vinhos de mesa do Douro em carreira-solo ou mesclada. Apesar da fama, ocupa pouco espaço nos vinhedos do Douro. Aporta vinhos de muita cor, extração, aromas nítidos de violeta (às vezes exagerado), frutas negras e um baita potencial de envelhecimento. Apelando um pouco, pode-se dizer que a Touriga Nacional é o Cabernet Sauvignon de Portugal, pelo espaço ocupado, pela adaptação às várias regiões e pelo estilo dos vinhos mais encorpados e que ganham com o envelhecimento em carvalho.

Trincadeira (Tinta Amarela) – Conhecida na região do Douro como Tinta Amarela, a Trincadeira é importante nos cortes da região e é ótima parceira da Aragonez (no Alentejo) e da Touriga Nacional (no Douro).  Apresenta aromas de especiarias, ervas, alto teor alcoólico e boa acidez. No Alentejo a Trincadeira vem mostrando bons resultados em vinhos monovarietais (feitos de apenas uma uva).

Tinta Roriz (Aragonez) –  Já ouviu falar da Tempranillo da Espanha? Pois bem,  Tinta Roriz e Tempranillo tratam-se da mesma pessoa, com nomes regionalizados. A Tinta Roriz é importante casta para o vinho do Porto, para os vinhos do Douro (é a segunda uva mais plantada na região) e para os caldos do Dão. Delicado, elegante, frutos vermelhos, bons taninos e potencial de envelhecimento. Também é bem chegada numa madeira e se beneficia desta amizade. Mais comum em cortes. No Alentejo assume o nome de Aragonez e é boa parceira da uva acima, a Trincadeira.

Tudo junto e misturado

E se a variedade é uma benção que distingue os caldos portugueses do restante do mundo, a combinação destas diversas castas é uma marca registrada de uma boa parcela dos vinhos de boa cepa produzidos em Portugal. São inúmeros rótulos do Douro, do Dão e os Vinhos do Porto que são resultado da mistura destas uvas excepcionais e únicas. Eu diria que o DNA dos vinhos portugueses está na mescla das castas nativas. “Os cortes fazem vinhos muito bons”, diz o experiente Mario Neves, diretor comercial da Aliança – Vinhos de Portugal. Mas arrisco a dizer que o DNA de um vinho português se expressa – e aqui entra a influência do solo e do clima de cada região – mesmo nas garrafas elaboradas de uvas de castas internacionais, como por exemplo o suculento Syrah, do Alentejano Cortes de Cima, criação do enólogo dinamarquês Hans Kristian Jorgensen, ou o Quinta do Bacalhoa, um Cabernet Sauvignon da região de Setúbal, conhecido rótulo dos brasileiros. Acho que existe uma certa adaptação da uvas internacionais ao sotaque do solo português, só pode ser isso.

Navegar é preciso!

De carro é possível, no mesmo dia, almoçar com os delicados vinhos na região do Dão e jantar junto aos mais belos vinhedos do mundo, na  região do Douro. Ou então iniciar o dia com os refrescantes e leves vinhos verdes brancos e finalizar com o Porto provado no final da tarde às margens do Rio Douro, em uma das diversas casas tradicionais do ramo. As distâncias curtas às vezes são dificultadas por caminhos mais sinuosos, que por exemplo serpenteiam os terraços do Douro, patrimônio da humanidade. Não é uma estrada para amadores e não é incomum se perder, mas o cenário é tão esplendoroso que é um se perder para se achar. Afinal, como ensina um poeta da terra, Fernando Pessoa: “Se achar que precisa voltar, volte!/ Se perceber que precisa seguir, siga!/ Se estiver tudo errado, comece novamente! / Se estiver tudo certo, continue.”

lisboa

Degustar vinhos tendo Lisboa a seus pés. A vida tem seu momentos…

Mas a viagem por Portugal pode ser feita também de dentro de um restaurante, aí na sua cidade, ou mesmo num restaurante em Lisboa, às margens do Tejo ou próximo do tradicional e boêmio bairro do Chiado. A minha jornada começou assim, e em duas refeições, antes mesmo de sair em périplo pelos vinhedos, um panorama de Portugal já se descortinava. Alguns destaques:

  • Vinhos provados no Restaurante Vítor Claro – no Hotel Solar das Palmeiras

VINHO VERDE

Alvarinho- JRamos

João Portugal Ramos Alvarinho 2014

Uva: 100% Alvarinho

Um bom começo para conhecer o branco Alvarinho com 20% do mosto  fermentado em madeira, que dá mais intensidade. Ataque floral e cítrico. Acidez na medida certa.

 

DOURO

Duorum

Duorum Reserva Vinhas Velhas 2012

João Portugal Ramos

Uvas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Sousão

Um douro tinto por excelência, de solo de xistoso. Passa até 18 meses em barrica novas e antigas. Uma combinação das uvas Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Sousão, consegue equilibrar corpo com acidez e aporta uma fruta madura e suculenta. Como o nome indica, as uvas são proveniente de vinhas velhas, de mais de 100 anos, de uma parte mais quente do Douro. Em tempo, os primeiros exemplares do Duorum tinham uma carga mais potente e uma madeira um pouco excessiva que parece foi sendo equilibrada com o passar das safras.

ALENTEJO

Marques de Borba

Marques de Borba Reserva 2012

João Portugal Ramos

Uvas: Aragonez, Trincadeira, Cabernet Sauvignon, Alicante Bouschet

Um vinho que representa os tintos do Alentejo, mais potentes, mais quentes (alcoólicos), com muita concentração de fruta e aveludado na boca.  Um chocolate  aparece no final da taça. Vinho mais masculino, se é que existe isso, deve ganhar mais complexidade com o tempo. 14,5% de álcool! Como eu escrevi é Alentejo na veia!

  • Vinhos provados na feira Encontro de Vinhos, em Lisboa

ALENTEJO

Verdelho

Paulo Laureano Genus Generationes Maria Teresa Laureano Verdelho 2014

Uva: 100% Verdelho

Paulo Laureano

Os tintos e brancos de Paulo Laureano são conhecidos por aqui. São quase um sinônimo de vinho alentejano no Brasil. Esta leitura da uva branca verdelho para o solo do Alentejo resulta num vinho afiado, uma acidez marcante,  no fio da navalha, mineral, refrescante, diferente. Um vinho para quem aprecia riscos.

LISBOA -BUCELAS

Moragdo

Morgado de Santa Catherina – reserva 2013

Uva: 100% Arinto

Aqui a casta branca Arinto mostra seu valor quando fermentado em barricas de carvalho. De cor dourada, longo, uma fruta mais doce e madura, muito intenso e volumoso e uma acidez que equilibra o jogo.

AÇORES

frei

Frei Gigante – Garrafeira 2011

Denominação de Origem Pico

Uvas: Arinto dos Açores, Verdelho e Terrantez do Pico

Já bebeu um vinho da pequena região de Açores? Eu nunca tinha provado. Deste rótulo aqui provavelmente não provarei mais. Foram produzidas apenas 600 garrafas deste topo de linha, chamado de Garrafeira, que trago aqui mais como exemplo de diversidade em solo português. Também não sabia que seus vinhedos são declarados Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco. Vivendo, provando e aprendendo. Este belo vinho branco é longo, volumoso, bastante aromático e tem um toque salgado (é, existem vinhos com este finalzinho salgado). Uma surpresa de solo vulcânico que passa um pouco da  natureza para o copo

DÃO

kemper

Curiosity 2012

Julia Kemper Wines

Uvas: Alfrocheiro e Touriga Nacional

Os vinhos orgânicos de Julia Kemper são bem-feitos e têm aquele traço terroso comum desta turma “odara”. Tem um perfil franco, de fruta expressiva e gostosa e algo floral nos aromas. A combinação Alfrocheiro e Touriga Nacional pode mudar de acordo com a safra. O detalhe curioso é o marciano que dá um alô no rótulo, explicando o nome Curiosity, do robô que explorou marte no ano de lançamento deste rótulo.

  • Vinhos provados no restaurante Tágide, em Lisboa

BAIRRADA

abibes

Quinta dos Abibes 2012 – Sublime

Uva: Arinto

As 2050 garrafas deste elegante branco foram vinificadas em barricas de carvalho francês e marcam bastante o vinho. Um bom exemplar para quem aprecia brancos de um Arinto influenciados por madeira. Vai bem com um peixe mais gorduroso.

DÃO

uinta do Lemos

Quinta de Lemos – Touriga Nacional 2009

Uva: Touriga Nacional

O Dão foi uma região que conquistou com a qualidade dos vinhos, o que será relatado em próximos posts desta viagem. Aqui a Touriga Nacional em carreira solo proporciona um tinto de boa textura, intensos frutos negros, sedoso na boca. Tem um toque terroso também que agrada.

PORTO

IMG_0366Barros Porto Colheita 1980

Barros, Almeida & Cª – vinhos, S.A.

Uma das mais antigas marcas do Porto, fundada em 1913. Um Porto pode iniciar ou terminar uma refeição. Neste caso ele fechou com chave de ouro. Não é comum em viagem enológicas as garrafas serem esvaziadas.  Há exceções. A excelência deste Porto Colheita (isto é, de uma única safra, no caso 1980, 25 anos passados), com um cor aloirada semelhante aos tawnys de mais idade e aromas de frutas secas, caramelo, creme brûllée, profundidade e elegância em boca nos obrigou esticar a noite e pedir uma tábua de queijos para continuar saboreando este néctar sob uma Lisboa que dormia a nossos pés.

Nota: a viagem a Portugal foi patrocinada pela ViniPortugal, organização que representa o setor vitivinícola português e promove os vinhos de Portugal.

Autor: Tags: , , , , , , , , ,