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sexta-feira, 1 de novembro de 2013 Degustação, Novo Mundo | 10:34

O teste da idade: os grandes vinhos chilenos envelhecem bem? (E vale a pena aguardar esta evolução?)

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A Wines of Chile – associação que vende a imagem do vinho chileno pelo mundo – promoveu uma degustação com os homens que cospem vinho e profissionais da área para mostrar o potencial de guarda dos grandes rótulos de seu país. O desafio era saber a opinião desta gente bacana sobre uma questão muito direta: os vinhos chilenos envelhecem bem? Traduzindo: como os grandes tintos reagem à  passagem do tempo, como evoluem (e se evoluem) os aromas, a fruta, a acidez e o tal do tanino? Enfim, o bichão melhora  com o tempo em garrafa ou entrega os pontos?

Esta é uma discussão que na verdade interessa a pouca gente – quem é que guarda uma garrafa de vinho por dez anos na adega ou no armário da cozinha? -, pode parecer muito acadêmica – e é -, mas para os enólogos, sommeliers e especialistas é a prova de fogo para um vinho mostrar o seu valor. Para as marcas é quase como um marketing regressivo – buscando o valor do passado para vender o futuro.

Seis vinhos do primeiro time participaram do evento com uma safra recente (2010) e outra mais antiga. Eles foram escolhidos pois representam o vinhedos de norte a sul do país, e traduzem o sentido do lugar. Foram eles:

Viña Altair

  • Altair 2002 e 2010

Concha y Toro

  • Don Melchor 1996 e 2010

Viña Errázuriz

  • Don Maximiano Founders Reserve 2000 e 2010

Viña Lapostolle

  • Clos Apalta 2002 e 2010

Viña Montes

  • Montes Folly 2000 e 2010

Santa Rita

  • Casa Real 2002 e 2010
Doze vinhos e nenhum segredo de idade

Doze vinhos e nenhum segredo de idade

O maestro que conduziu a degustação foi o jornalista e crítico de vinhos Patricio Tapia, autor do Descorchados, o Guia de Vinhos Chilenos e Argentinos mais respeitado entre os que entendem e não entendem de vinho. Tapia explicou que ambas as safras – mais recentes e mais antigas – eram de anos mais frios e frescos, pois nesta condição climática o terrenos podem mostrar melhor suas características, o pH é mais adequado e a acidez mais presente. Ou seja, se você tinha aprendido lá trás que as melhores safras do Chile eram de anos ímpares, esqueça.

Leia Também: Chile e Argentina dominam o mercado de importação no Brasil

O onipresente powerpoint mostrava as regiões, os enólogos e um resumo das duas safras de cada vinho. Tapia fez uma introdução, apresentou dois vinhos e passou a palavra aos enólogos convidados – Cecilia Torres (Santa Rita), Gustavo Hormann (Montes), Angélica Carrasco (Lapostolle) e Ana Maria Cumsille (Altair) – que vieram  defender seu terroir. A cada rodada um especialista da plateia era convidado a dar suas impressões (Abre parênteses: é uma situação um pouco constrangedora esta, e com um resultado pra lá de suspeito. Quem vai falar mal do vinho, principalmente na frente dos enólogos? Claro que não há defeitos em rótulos deste gabarito, nem grandes arestas, mas claramente se percebe um desconforto no discurso hesitante ou então se parte para os elogios descarados, num oba-oba que não acrescenta nada ao evento. Mas fica parecendo democrático… Fecha parênteses)

Bom, e chegamos ao sexto parágrafo e ainda não se revela qual a resposta à pergunta: o vinho chileno envelhece bem? Opinião unânime, incluindo deste humilde cuspidor de vinho, é: SIM! Mas envelhecem como um vinho do novo mundo deve envelhecer, sem as características dos colegas da Europa, por exemplo. A impressão que fica, porém, é de que as safras atuais envelhecerão melhor. Têm mais extração de fruta, mais exuberância, um tanino presente e macio, além do aprendizado destes anos todos do manejo de uma região que afinal de contas ainda é jovem comparada ao velho mundo. Como observou Tapia, quanto melhor o vinho evoluir sua fruta, modificando-se sem perder a presença, melhor o vinho chileno passará pelo teste do tempo.

Não era uma prova para ter vencedores, mas como o ser humano tem como padrão de comportamento hierarquizar suas escolhas, foi inevitável. A grande maioria (pelo menos quem eu consultei) elegeu o Casa Real 2002 como a mais fina evolução, com aromas de frutas mais maduras misturadas a toques de tabaco, e as mesmas frutas se confirmando na boca, uma delícia de tomar, de cheirar e de voltar na taça para encontrar novos sabores. O Casa Real 2010 também foi bem, boa extração de fruta, ótimo final, jovem mas pronto para beber. A comparação entre as duas garrafas foi muito didática do efeito do tempo, que aqui só melhorou a bebida, trazendo maior substância e sutileza ao sabor e aromas.

Leia também: Vinhateiros independentes do Chile: pequenas vínicolas, grandes vinhos

Outro destaque foi o Don Maximiano – um vinho que sempre me surpreende em degustações e competições. A boa notícia é que a safra atual, 2010, tem uma fruta fresca muito gostosa e presente, um bom corpo, macio, uma doçura envolvente. Passado alguns minutos na taça um chocolatão invade a taça. Seu igual de dez anos atrás (2000) também se comportou bem na garrafa, perdeu um pouco da fruta, mas integrou melhor com a madeira, ganhou uns aromas mais terrosos, um delicadeza e uma boa acidez. O famosão Don Melchor 2010, um tinto mais de macho, concentrado, de fruta negra, um pouco de coco no nariz, ainda precisa amaciar um pouquinho os taninos (pega no final da boca), mas há agrada de imediato, mas o 1996, portanto o exemplar mais antigo, já estava indo embora. A fruta estava escapando da taça, uma sensação química era bem perceptível, aquelas notas de champignon, terroso. O que pode até levantar a sobrancelha da dúvida do tempo que os tops chilenos aguentam na garrafa. Como disse o Tapia, ‘O desafio é prolongar mais ainda o vinho.”

O Montes Folly melhorou com o tempo, sem grandes transformações, ganhando mais acidez e frescura, atenuando a potencia da syrah. O Altair 2002 não alterou tanto, mas também melhorou a bebida trazendo mais frescor e leveza e um toque gostoso de tabaco. E por fim o Lapostolle, que diante dos colegas do embate ficou no empate entre os anos. Pouca diferença de evolução, mantendo suas principais características de potência, de influência marcante da madeira meio deslocada nesta exibição de idade.

O vinho precisa se manter vivo - e você também!

O vinho precisa se manter vivo – e você também!

Mas vale a pena aguardar esta evolução? 

O lado acadêmico e teórico diz que sim. O envelhecimento, na realidade, é uma troca, um pacto entre o consumidor e o vinho. Ganha-se algumas coisas e perdem-se outras. Na sua maioria os vinhos melhoraram com o passar dos anos (ou os anos melhoram com o passar dos vinhos, como se diz por aí). E a melhor prova disso é exatamente a de comparar duas ou mais garrafas de safras diferentes. Os vinhos com capacidade de guarda, mesmo os do novo mundo, podem até perder a exuberância da fruta com o tempo na garrafa, mas os taninos se amaciam e o conjunto fica mais equilibrado e harmonioso, a madeira se integra mais à bebida. Surgem neste estágio aromas e sabores deliciosos e oníricos, tornando o vinho mais complexo e fascinante.

Mas o lado prático diz “depende”. Guardar vinhos para beber lá na frente é visão otimista da vida (o vinho precisa se manter vivo, mas você também…). Há o risco do tempo – pois existe um auge teórico, o Everest da curva de evolução do vinho, em que boa parte da fruta permanece viva e praticamente toda a complexidade do envelhecimento se mostra. Mas também existe a curva descendente, quando o vinho vai perdendo suas qualidades até desaparecer. Outro risco? A garrafa pode sofrer alguma avaria e o caldo virar vinagre. Por fim, há o fato de que você precisa apreciar as mudanças que o tempo provoca no vinho, trazendo maior acidez, menos volume em boca, transformando a fruta exuberante em uma fruta mais delicada, diminuindo a presença da madeira e modificando os aromas originais.  O que pode provocar a seguinte digressão: “Mas este não é o vinho que eu conheço e aprecio.”

Leia também: O envelhecimento do vinho: o mito da idade

Dá para pular esta espera toda para comprovar a veracidade destes dados? Sim, mas aí é preciso investir uma certa grana: safras mais antigas de vinhos de excelência são difíceis de encontrar e pesam no bolso. O jeito é encontrar um amigo rico que possa proporcionar esta brincadeira, ou um incauto sem conhecimento que apareça com um Don Melchor, um Don Maximiano, um Casa Real de safras mais antigas e proponha: “Achei estas garrafas antigas no fundo da adega do meu tio que morreu recentemente. Será que presta?” Pode ser o início de uma grande amizade…

 

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sexta-feira, 20 de setembro de 2013 Tintos | 10:00

Grenache, ou garnacha, a uva de vinhos versáteis que merecem ser conhecidos

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A grenache cabe nos dedos da sua mão.

Grenache parece nome de doce francês (“aceita uma grenache da nossa patisserie?”), ou então título publicitário para um modelo de carro sofisticado (“Renault Grenache, um carro com sabor”). Grenache, como sabem aqueles com litragem no mundo de Baco, trata-se de uma das uvas viníferas mais plantadas no mundo – algo como 300.000 hectares – e é responsável por vinhos importantes da França, Espanha, Itália e até Austrália.

Mas por que então o nome não soa tão familiar como cabernet sauvignon, merlot ou chardonnay, praticamente sinônimos de vinho? Talvez por que a grenache é mais comum misturada a outras uvas ou por que ela tem nomes diferentes em várias regiões do mundo. Mas é importante salientar que em carreira-solo ela faz bonito e é responsável por vinhos importantes, como os Châteauneuf-du-Pape. É preciso, pois, conhecer.

Injusta, esta quase clandestinidade levou um grupo de entusiastas da uva a criar uma associação da grenache em 2011 e numa sacada de marketing inventou um dia para chamar de seu.

Toda terceira sexta-feira do mês de setembro é o dia da grenache. Em 2013 o dia é comemorado em 20 de setembro: importadoras fazem promoções, confrarias promovem degustações e restaurantes oferecem descontos na carta de vinhos em garrafas com grenache. A grenache entra em pauta, e colunistas de vinho acabam escrevendo sobre a uva.

Quer saber mais sobre a grenache, veja abaixo!

Grenache, garnacha, cononnau…

Assim como poeta Fernando Pessoa, a grenache tem seus heterônimos, e em cada país adquire um nome e estilo diferentes. A grenache também atende quando chamada de garnacha na Espanha. (Momento Wipédia: aliás a origem é espanhola e foi introduzida na França na Idade Média.) Tinta menuda (Priorato, Catalunha, na Espanha), cononnau (Sícilia, Sardenha, na Itália), Tai Rosso (Veneto), Grenache noir (Califórnia, EUA, Languedoc, França) e por aí vai. Quem disse que vinho é uma coisa simples de entender?

O que uma grenache pode oferecer

Começa pela cor – e delicadeza. A grenache lembra muito mais uma pinot noir, mais translúcida e leve, do que uma uva mais tintureira potente como cabernet sauvignon, syrah, merlot, tempranillo. Tem uns toques de frutas vermelhas mais frescas, como framboesas e também cerejas negras, um herbáceo muito aparente, temperos como alecrim, e também um tanto apimentado. Tem gente que acha uma canela escondida. Os tintos mais evoluídos trazem fumo, tabaco, um toque de madeira. Como a grenache é uma uva que se desenvolve em terrenos de climas mais quentes e secos, de estilo mediterrâneo, muitas vezes o nível do álcool é elevado, mas os taninos, aquela adstringência que trava a boca, são mais macios.

Ok, você não precisa sentir todos estes aromas e gostos, mas é bom saber que é um vinho versátil, mais alcoólico, apimentado e com uma fruta presente – e ainda assim com uma delicadeza no corpo e no final de boca. Vai bem com uma gastronomia com uma pegada condimentada, carnes assadas e vegetais. Em vôo solo é agradável por que não cansa. E como nada nesta vida do vinho é tão simples assim, a grenache ainda é responsável por vinhos doces naturais do Roussillon e do mais conhecido Banyuls, um fortificado que é uma alternativa ao Porto para acompanhar chocolates.

6 ViGs (vinho indicado pelo Gerosa) com grenache, garnacha, cannonau…

Teoria sem prática é copy paste do acervo da web. Comemorando este dia da grenache, ou garnacha, o Blog do Vinho recomenda 6 ViGs (vinho indicado pelo Gerosa) provados recentemente. Um deles sorvido enquanto escrevo este artigo, o delicioso, frutado e autêntico Les Chevrefeuilles.

Paul Mas Grenache Noir 2010

Produtor: Domaine Paul Mas

Região: Languedoc, França

Uva: grenache 100%

Importador: Decanter

R$ 57,12

Estão lá as especiarias, um corpo médio que convida para novas taças. E um bom preço. Bom preço no Brasil, claro!

Gigondas 2007

Produtor: Brunei de La Gardine

Região: Rhône, França

Uvas: 80% grenache noir, 15% syrah, 5% mouvedre

Importador: Decanter

R$ 139,50

Grenache em alto nível, frutas negras, herbáceo, um pouco de evolução. Vinhaço para reflexão ou gastronomia. É um belo exemplo do que a grenache é capaz em fruta e evolução.

Tuderi 2006

Produtor: Dettori

Região: Sardenha, Itália

Uva: connonau

Importador: Decanter

R$ 162,30

Trata-se de um produtor orgânico na linha radical. Eu não sou exatamente um sujeito radical mas alguns vinhateiros desta linha produzem vinhos com uma personalidade e complexidade que são admiráveis. É um tinto que mostra a expressão da terra, da fruta natural e que passa 48 meses em tanques de cimento que proporciona uma sensação de amadurecimento em madeira com um toque fino. Vinho da série uau!

Marge 2009

Produtor: Celler de L’Ebcastell

Região: Priorato, Espanha

Uvas: 60% garnacha, 20% cabernet sauvignon, 20% merlot/syrah

Importador: Decanter

R$ 166,10

Priorato é uma conquista recente da Espanha. Mais potente, mostra seus 15º de álcool e a presença marcante das barricas novas e de 2º e 3º uso americanas. Um estilo mais bangue-bangue italiano (os Spaghetti westerneram filmados em regões áridas da Espanha), de potência de fruta e toques amadeirados. Tem seus críticos, mas eu acho uma experiência interessante.

Les Chevrefeuilles 2001

Produtor: Domaine La Réméjeanne

Região: Côtes du Rhône, França

Importador: De la Croix

R$ 58,00

Uvas: 40% grenache, 30%, syrah, 10% carignan, 10% cinsault e 10% counoise

Uma cor mais translúcida dá uma boa dica do que vem por aí. No nariz uma exuberância sem exageros de cerejas e especiarias. Corpo médio (hein? Pense em leite desnatado, semi-desnatado e normal, é uma sensação de semi-desnatado), um final frutado e com bastante persistência são o resultado deste blend classic do Rhône.

Cuvée des Ardoises Château des Erles

Produtor: Domaines François Lurton

Região: Languedoc, França

Uvas: 40% grenache, 30% syrah e 30% carignan

Importador: Zahil

R$ 74,80

Os irmãos Lurton não dão ponto sem nó. Fruta concentrada, corpo médio e bastante agradável. Bela experiência da grenache em associação com outras uvas mediterrâneas.

Obs: Preços de 20/09/2013

  • Saiba mais sobre a grenache

Twitter: #GrenacheDay

Grenache Day

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quarta-feira, 24 de abril de 2013 Degustação, Espumantes, Nacionais, Novo Mundo, Porto, Rosé, Tintos, Velho Mundo | 09:00

Os homens que cospem vinho elegem os onze melhores vinhos da ExpoVinis 2013

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Onde foi parar todo mundo?

Um incauto que invadir uma sala de degustações de um concurso de vinho após uma prova vai deparar com uma visão parecida com a da foto ao lado. Inúmeras taças com bons mililitros de vinho e baldes cheios da bebida. Se tiver a oportunidade de observar, momentos antes, os jurados provando os tintos, brancos, espumantes e fortificados acompanhará um festival de giradas de taça, fungadas, bochechos, caretas de desagrado alternadas com suspiros de aprovação, e finalmente cusparadas leves e elegantes (se é que isso é possível) do vinho em copos de plástico que em seguida serão entornados em baldes maiores. Qual o pensamento que passará por sua cabeça? “Este povo não gosta de vinho!” Na verdade, estão em pleno trabalho Os Homens que Cospem Vinho e sua função nesta sala é escolher os dez melhores vinhos da ExpoVinis 2013– 16º edição da feira mais importante de vinho da América Latina -, no tradicional concurso Top Ten, que tenho a honra de ser convidado pelo sexto ano como jurado (perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem…).

E eles (nós) não bebem todo aquele vinho disponível por um motivo muito simples: são 224 amostras em dois dias, ninguém sobreviveria para contar o final da história. Os doze jurados se reúnem para escolher um vinho de consenso que vai para o trono de cada uma das dez categorias do concurso. Este consenso é resultado das anotações e notas de todos os jurados que somadas chegam a uma média ponderada e ao fermentado campeão.

Este ano os organizadores decidiram dar mais espaço ao vinho nacional e dividiram a categoria “Tintos Nacionais” em duas: os representantes da “Serra Gaúcha”, que produzem cerca de 80% dos tintos do país, e “Outras Regiões”, fruto do potencial de novas áreas vinícolas do Brasil. O Top Ten de 2013, por uma questão de empate na categoria Velho Mundo, acabou elegendo onze vinhos. Abaixo a lista dos vencedores em cada categoria.

Os campeões: 11 vinhos, 12 jurados e nenhum segredo

Vencedores do TOP Ten 2013

ESPUMANTE NACIONAL – total de 13 amostras

Villaggio Grando Espumante Brut Rosé 2012

Região: Água Doce, Santa Catarina

Uvas: pinot noir e merlot

ESPUMANTE IMPORTADO – total de 11 amostras

Aida Maria Rosé Brut Reserva 2007

Região: Douro, Portugal

Uva: touriga nacional

BRANCO NACIONAL – total de 19 amostras

Da’divas Chardonnay 2012, Lidio Carraro

Região: Terras da Encruzilhada do Sul, Rio Grande do Sul

Uva: chardonnay

BRANCO IMPORTADO – total de 30 amostras

Casas Del Bosque Sauvignon Blanc Reserva 2001

Região: Casablanca, Chile

Uva: sauvignon blanc

TINTO NACIONAL  SERRA GAÚCHA – total de 15 amostras

Perini Quatro 2009

Região: Vale do Trentino, Rio Grande do Sul

Uvas: cabernet sauvignon, merlot, tannat, ancellotta

TINTO NACIONAL OUTRAS REGIÕES – total de 14 amostras

Pericó Basaltino Pinot Noir 2012

Região: São Joaquim, Santa Catarina

Uva: pinot noir

ROSÉ – total de 6 amostras

Maquis Rosé 2012

Vale Aconchágua, Chile

Uva: malbec

TINTOS NOVO MUNDO – total de 32 amostras

Vistalba Corte A 2009

Região: Mendoza, Argentina

Uvas: cabernet sauvignon, malbec

TINTO VELHO MUNDO – total de 70 amostras

Santa Vitoria Grande Reserva 2008

Região: Alentejo, Portugal

Uvas: touriga nacional, cabernet sauvignon,  syrah

Sacagliola Sansì Selezione Barbera d’Asti 2009

Região: Piemonte, Itália

Uva: Barbera

DOCES E FORTIFICADOS – total de 14 amostras

Quinta Do Noval Porto Tawny 40 Anos

Região: Porto, Portugal

Uvas: tinta barroca, tinta roriz, touriga francesa, touriga nacional

Todos os vinhos estão expostos na ExpoVinis 2013, que vai abrigar mais de 400 expositores nos dias 24, 25 e 26 de abril no pavilhão azul da Expo Center Norte em São Paulo (veja ficha abaixo)

O nomes dos culpados pela eleição dos onze vinhos acima

Presidentes de mesa

Hector Riquelme – sommelier chileno

Mario Telles Jr –  ABS-SP

Jurados

Jorge Carrara – Prazeres da Mesa

Marcio Pinto – consultor e ABS-MG

Celito  Guerra – Embrapa

Beto Gerosa – Blog do Vinho

Gustavo Andrade de Paulo – ABS-SP

José Luiz Paligliari – Senac

Ricardo Farias – Sbav Rio de Janeiro

José Luis Borges – ABS-SP

Diego Arrebolla  – sommelier grupo Pobre Juan

Manoel Beato – sommelier grupo Fasano

Leia também: Como funcionam as degustações nos concursos

Todas as cores

E os vinhos eram bons?

Quando o painel é tão diverso e com tantas categorias a qualidade varia na mesma proporção do volume oferecido. Vale lembrar que o concurso é sempre às cegas, não sabemos o que estamos bebendo, apenas a categoria. Há grandes disputas entre bons vinhos que se afunilam numa espécie de tira-teima entre os melhores, há categorias que um rótulo se sobressai sobre os demais dada a sua superioridade – um Tawny 40 anos por exemplo é uma covardia – e outras que a média é muito parecida. Em Tintos do Novo Mundo, por exemplo, haviam exemplares com taninos (aquela sensação de adstringência que seca a boca mas é importante na estrutura e envelhecimento dos vinhos) tão agressivos que quase saí da sala e fui abrir um Boletim de Ocorrência. Claro, eram mais de 30 amostras, aparece de tudo. Os tintos nacionais apresentaram uma boa média e sempre surgem novos rótulos que acabam surpreendendo. Estas descobertas são uma das belezas de participar de um concurso desses. Curiosa superioridade dos espumantes rosés no resultado final. Eu gostei da escolha! Os brancos são menos prestigiados pelos produtores e poucos rótulos são enviados, o que prejudica a avaliação. Ah, importante, cada expositor tem direito a enviar dois vinhos na categoria que escolher. São estes os vinhos avaliados e não todos os vinhos da Expovinis, obviamente.

A prova acabou, mas sobrou vinho na taça

Mas dá para avaliar um vinho sem engolir?

Sobre a quantidade de vinho servida para o teste:

Aconselha-se a colocar na boca um volume pequeno de vinho, de cerca de 6 a 10 mililitros. (…) O volume utilizado deve ser sempre o mesmo para cada vinho, caso contrário torna-se impossível qualquer comparação rigorosa. (…) O copo de degustação deve ser simples, com capacidade de cerca de 200 mililitros, sem floreios, de paredes finas, sem cheiro de guardanapo nem de pano de prato. O copo normatizado pelo INAO-AFNOR e suas variantes é muito apropriado. O líquido a um terço de sua capacidade permite leve agitação necessária para liberar as moléculas odoríferas do vinho

Sobre cuspir o vinho nas degustações

Geralmente o degustador, ao longo dos exercícios profissionais, cospe o mais completamente possível o trago de vinho. Não é que a degustação seja melhor quando o vinho é expelido, ao contrário, aliás. Mas, evidentemente, seria impossível para o provador beber sem prejuízo alguns tragos dos dez ou trinta vinhos que frequentemente ele degusta numa mesma seção (…) Algumas pessoas estão convictas de que, se não engolirem, não terão nenhuma sensação; situam na “garganta” o centro da degustação por que, na verdade, elas engolem diretamente mas não degustam.

SERVIÇO

ExpoVinis 2013 – site oficial

DATA
24, 25 e 26 de Abril de 2013

LOCAL
Expo Center Norte – Pavilhão Azul
São Paulo – SP – Brasi

HORÁRIOS
24 de Abril
Profissional → 13h às 21h

25 de Abril
Profissional → 13h às 21h
Consumidor → 17h às 21h

26 de Abril
Profissional → 13h às 20h
Consumidor → 17h às 20h

PREÇOS

Entrada com direito a uma taça de cristal: R$ 70,00 (Valor de 3º lote)
Entrada estudante sem taça: R$ 35,00 (Valor de 3º lote)
Taça Avulso: R$ 30,00

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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013 Degustação | 17:37

O gosto dos críticos de vinho combina com o seu?

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Como você escolhe o seu vinho? Você confia na opinião dos especialistas e segue a pontuação dos críticos na hora de comprar uma garrafa? Afinal são profissionais que provam mais 10.000 vinhos por ano (pelo menos é o que declaram duas das maiores estrelas da degustação, o onipresente americano Robert Parker e sua opositora inglesa Jancis Robinson)! E um vinho com, sei lá,  mais de 90 pontos da crítica é um indicativo poderoso, não é?

O crítico americano Robert Parker: bom ou ruim?

Mas será que a opinião dos experts – que afinal baliza o mercado e até o preço dos rótulos  – bate com o seu gosto? A degustação profissional é absolutamente técnica ou leva em consideração a preferência dos provadores? Se Robert Parker gosta de tintos maduros e potentes e Jancis Robinson prefere os tintos menos alcóolicos e com uma fruta mais fresca, como saber se suas notas combinam com o seu paladar? E as indicações de centenas de blogueiros – incluindo alguns palpites deste que vos escreve – e das publicações especializadas? Dá pra confiar nelas?

Dá. Apenas é preciso separar o bago da casca e colocar as coisas no seu contexto – e encontrar as indicações com maior afinidade com o seu paladar. O gosto é pessoal, mas ele também muda e pode ser moldado pela experiência. É bom lembrar também que o mundo também muda. Você que está aí do outro lado e milhões de outros usuários de redes sociais, aplicativos de vinho e blogs são protagonistas nas escolhas ao compartilhar e discutir suas preferências e escolhas.

Mas eu só quero a indicação de um bom vinho…

Claro que mesmo encontrando sua alma gêmea do vinho, não existe uma unanimidade. Nem em casa, para ser honesto. Alguns vinhos que declamo maravilhas quando tiro da minha adega e coloco na taça às vezes provocam um muxoxo na avaliação da minha mulher. Outros porém são praticamente louvados em uníssono. O crítico, ou especialista, nada mais é do que um consumidor profissional, que por conta de sua atividade, de seus conhecimentos e sua vivência tem mais elementos para julgar um produto, um alimento, uma atividade cultural. O crítico tem acesso ao mesmo produto e provavelmente consome de maneira idêntica, mas tem outras ferramentas para analisá-lo.

Mas é uma questão complicada. Os críticos são uma referência, mas aquilo que os distingue – o conhecimento – é o mesmo que pode distanciar do paladar médio dos consumidores. Um especialista em vinhos prova um oceano de tintos e brancos e não se compraz com um vinho massificado, de grande volume e sem relação com sua região. O crítico está sempre a procura de caldos que expressem um terroir específico, que contenham camadas de aromas infinitos, com a menor interferência tecnológica possível. O mesmo acontece, por exemplo, com o crítico de cinema. Ele assiste a milhares de filmes por ano e está sempre em busca de originalidade, de um roteiro inteligente, de atuações arrebatadoras; raramente consegue ter prazer naquele filme apenas correto ou no blockbuster que tem o objetivo de entreter enquanto se come pipoca. Ou seja, aquilo que os especialistas buscam no vinho – ou nos filmes – não é necessariamente o que o consumidor procura. Muitas vezes o que se quer é apenas a indicação de um vinho bom e barato para comer com a pizza, acompanhando de um filminho divertido. E a gente fica falando dos taninos…

O seu amargor é diferente do meu

Há até algumas explicações científicas que demonstram a diferença de percepção dos especialistas versus a dos consumidores do dia-a-dia. Um estudo realizado em Ontário, no Canadá, “Wine Expertise Predicts Taste Phenotype”, e publicado em março de 2012 no American Journal of Enology and Viticulture, se propôs a avaliar se especialistas e pessoas sem experiência com vinho tinham a mesma percepção ao sabor amargo. Para isso foi utilizada uma substância química inodora, o propylthiouracil, que é testada para medir a reação de uma pessoa ao gosto amargo. Em contato com a substância, participantes do teste que tinham habilidades de degustação identificaram um sabor extremamente amargo, enquanto pessoas com habilidades de degustação normais perceberam um sabor ligeiramente amargo. Ou seja, quando um crítico de vinho identifica um amargor no vinho muito provavelmente o consumidor não terá a mesma percepção, pois não está treinado para isso.

Rankings: o meu, o seu e o nosso

A outra variável é aquilo que poderia ser chamado de vinho 2.0 (apesar do desgaste do termo). As notas nas redes sociais, a indicação via aplicativos e banco de dados e a crítica dos usuários bebedores de vinho estão ajudando a construir uma avaliação coletiva, um ranking formado pela opinião compartilhada. Assim como na preparação de uma viagem é comum pesquisar tanto as informações de publicações especializadas como as avaliações de usuários para tomar uma decisão, no vinho este comportamente tende a se repetir. As notas e avaliações dos especialistas podem ser ou não referendadas e compartilhadas pelos usuários. A curadoria ainda é uma necessidade da indústria do vinho. Mas a rede permite a comparação e a análise a partir de uma massa crítica nunca antes imaginada. O que até ajuda a filtrar e desconsiderar os comentários favoráveis com interesses comerciais ou a “crítica oficial” subsidiada. A discussão é mais democrática, o profissional tem seu espaço e o amador de hoje pode formar uma legião de seguidores amanhã que o qualifique como referência.

A internet, mais uma vez, muda as regras do jogo cria um  padrão digital para um mercado ancestral. Uma amostragem realmente importante que traduz o gosto do consumidores – e uma poderosa ferramenta de marketing para a indústria. Há espaço para a discussão de todas as ideias, de todos as tribos –  dos defensores do vinho mais puro, do ativistas do terroir, do consumidores do custo-benefício, dos mantenedores da tradição das regiões, dos adoradores do vinho amadeirado e por aí vai.

A crítica de vinhos inglesa Jancis Robinson" gosta ou não gosta?

Estamos no momento em que talvez os cardeais do paladar, ou os ditadores do gosto, como querem os mais xiitas, tenham seu poder reduzido. E você dê menos importância a eles. E olhe mais para o que seu vizinho de rede está dizendo e compare o seu paladar com o de vários usuários que tiveram a mesma experiência e também com o ranking do master of wine, sem menosprezar sua experiência, mas também sem se ajoelhar perante sua avaliação. Pode dar um bom caldo. Literalmente.

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sexta-feira, 30 de novembro de 2012 Blog do vinho | 12:16

Nove razões para escrever – e ler – sobre vinho

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O vinho pode até instigar intelectualmente, mas antes de tudo é uma bebida para dar prazer

Recente post neste Blog do Vinho, e respectiva chamada na capa do iG, gerou o seguinte comentário do Fabrício:

“IG precisa de conteúdo urgente! O que um BLOG DE VINHO pode agregar a vida de um povo que na sua imensa maioria não tem um prato decente de comida todos os dias?”

O comentário provocou a resposta de outro frequentador deste espaço.

“Bem, Fabrício, o sol nasce para todo mundo. Então, esse espaço é reservado àqueles que se dão ao direito de consumir um vinho quando podem. Sorte de quem pode! E isso não desprestigia os que não podem.
 Seja mais tolerante!
 Esse blog é de um nível mesmo superior, talvez seja este o motivo por não ter se encontrado aqui.
 Com um abraço por dias melhores”,
 Guilherme.

Parece uma discussão estéril e fora do contexto em um espaço reservado aos tintos, brancos, espumantes e fortificados de todos os naipes, e para a discussão da bebida. Mas tanto a bronca do Fabrício como a defesa do Guilherme me levaram a uma reflexão: Por que escrever –  e ler –  sobre vinho? E a nove tentativas de respostas.

1. A mais simples. Por que eu gosto de vinho, e os leitores que frequentam este espaço também. Em  primeiríssimo lugar  está o prazer em beber o vinho, depois o prazer de conhecer mais sobre ele. Aprender sobre vinhos é um ato voluntário e não obrigatório.

2. Por que há milhares de rótulos para conhecer. E escrever, e ler, sobre vinhos significa acumular informações para realizar nossas próprias escolhas, baseadas em nosso próprio gosto! Informação – e litragem – são fundamentais para ganhar confiança no paladar e nas escolhas.

3. Por que o vinho que valoriza a comida torna a experiência mais completa, e aprender a melhor combinação é um exercício intelectual, gastronômico e prazeroso.

4. Por que o vinho está sempre mudando. Todo ano traz novas experiências, mesmo que seja o mesmo rótulo de sempre, da mesma uva. O produtor tem uma chance por ano para realizar seu trabalho, depende dos caprichos da natureza, das manhas da uva, da chuva e da falta dela. E por fim do resultado na adega. Esta é a magia que difere o vinho de todas as bebidas e que se traduz em milhares de textos escritos no papel e no digital.

5. Por que há sempre novas descobertas, surpresas, regiões e uvas para serem conhecidas, comentadas e compartilhadas.

6. Por que vinho é de fato um assunto complicado se você deseja se aprofundar. E uma das propostas mais falsas sobre vinho são aqueles livros  e autores que prometem desmistificar o vinho, mas precisam de mais 300 páginas para tentar cumprir a tarefa. Talvez a tarefa possível seja trocar experiências e impressões, sem querer impor uma opinião. É o que eu me proponho.

7. Por que grandes vinhos são sempre de grandes regiões, com microclimas e solos com condições favoráveis ao cultivo de determInada variedade de uva. O vinho é a tradução de um  lugar, de sua origem. Fruto da experiência e do trabalho do homem, às vezes durante séculos, em busca do seu estilo.

8. Por que o vinho excepcional é aquele que proporciona prazer ao paladar e nos instiga intelectualmente. Mas principalmente servem para nos dar prazer. Vinhos complexos são aqueles com perfis aromáticos e gustativos com muitas camadas, várias descobertas e mudanças na taça à medida que a garrafa esvazia. São caldos que nos instigam a descrevê-los, compratilhá-los. Não se trata de um problema filosófico, mas com certeza faz fronteira com a arte.

9. Por que há momentos na nossa vida que são especiais, e merecem um brinde. E nada melhor que um bom vinho para isso.

E por que não dez respostas? Por que um decálogo soa como definitivo, algo como um vinho de 100 pontos do Robert Parker. E um  vinho nunca é definitivo, é sempre uma bebida com uma dose de subjetividade, que se transforma e se dilui com o tempo. Por isso o vinho gera mais perguntas e argumentos do que respostas.

Putz, criei a décima razão!

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terça-feira, 12 de abril de 2011 Degustação | 20:51

Para que servem as degustações de vinho?

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“A técnica de beber é aprendida, o prazer não se situa no mesmo nível“
Émile Peynaud e Jacques Blouin, em O Gosto do Vinho

Toda vez que você depara com a descrição de um vinho feita por um especialista, com aquele texto cifrado, talvez passe pela cabeça o seguinte questionamento: para que servem as degustações de vinho?

Bom, a degustação de vinhos se situa naquela frágil fronteira do conhecimento que coloca um especialista e um apreciador da mesma bebida em trincheiras opostas. Para o primeiro trata-se de decifrar uma mensagem contida em uma bebida, revelada por sensações olfativas e gustativas e traduzidas em um vocabulário específico. Para o segundo trata-se apenas de uma questão de gosto, de encontrar um vinho que lhe agrade hoje e sempre. Para o degustador, o apreciador deveria prestar mais atenção no que bebe. Para o apreciador eventual, o degustador é uma afetado que não tem mais com o que se preocupar na vida.

É muito comum na área de comentários deste Blog do Vinho manifestações de leitores neste sentido, os exemplos abaixo são uma amostra deste universo

“Que coisa de fresco ficar discutindo isso…vão se preocupar com coisas mais importantes! Ficar falando de harmonização e entre vinho e comida é para quem já desistiu de fazer algo útil na vida!”

“É uma frescura mesmo, bom é beber cerveja, que harmoniza com qualquer comida e com mais cerveja. Coisa de fru-fru ficar vendo cor de vinho”

O critico de bebidas do New York Times, Eric Asimov, radicalizou o discurso em um artigo recente e propôs “uma abordagem simples e eficiente para orientar e libertar o consumidor em suas escolhas”.  Para Asimov  “uma descrição sucinta dos pontos marcantes, como densidade, textura, aroma e sabor podem ser muito mais úteis em determinar se você vai gostar daquela garrafa do que mil outros detalhes.” Pode ser um caminho para conciliar estas duas espécies que apreciam uma boa garrafa de vinho.

Olfato e sabor – as origens da degustação atual

A degustação atual, segundo os autores de O Gosto do Vinho, a bíblia dos degustadores, é uma interpretação de duas correntes francesas na arte da prova de vinhos, ou de uma forma um pouco mais poética, do encontro do humano com o vinho.

A escola de Beaujolais e da Borgonha trouxe o avanço na análise e na descrição olfativa, já que o julgamento é feito com vinhos de uma única variedade: pinot noir para os tintos da Borgonha; gammay para os tintos de Beaujolais  (uma região é extensão da outra) e a chardonnay para os brancos. Portanto, os degustadores dão mais importância à olfação e à persistência aromática.

Já a escola de Bordeaux é mais atenta ao equilíbrio dos sabores e ao volume em boca, pois analisa cepas misturadas, o chamado corte bordalês com as uvas cabernet sauvignon, merlot, cabernet franc, petit verdot e malbec, esta última em menores proporções. Estes vinhos se qualificam pela qualidade dos taninos e da sua estrutura.

Como se sabe, hoje tanto olfato como os sabores em boca são igualmente relevantes na avaliacão de um vinho, ou seja a combinação das duas escolas acabou formando as bases da degustação atual.

Degustação profissional serve para alguma coisa?

Para início de conversa, uma verdade incômoda para os patrulheiros dos homens que cospem vinho (como esta coluna simpaticamente denomina a classe dos provadores). A degustação profissional é necessária, é um elo importante na cadeia da indústria vinífera. Os enólogos e produtores são os primeiros degustadores desta corrente. Eles vão provando os caldos desde o mosto – quando formam a primeira opinião sobre o potencial daquele vinho e de suas uvas – até o momento da seleção de uvas e tempo de maturação nas barricas. É um processo exaustivo e praticamente diário, quase uma degustação reversa, que exige muita técnica e conhecimento. O enólogo tem um vinho ideal desenhado na cabeça. O vinho deve expressar as principais características de sua terra, de sua região e/ou de sua uva.  A degustação visa encontrar este ponto de expressão máxima possível do vinho e sua origem. Na mesma linha de ofício se encontram os técnicos dos países e regiões que exigem certificados de origem para atestar a autenticidade de um vinho.

Mais próximo do nosso dia-a-dia está outro profissional do gosto do vinho: o somellier. Seu leque de ação costuma ser limitado pela carta do restaurante que representa e pelos clientes que pode influenciar de alguma maneira. Mas seu conhecimento geral é importante para garantir uma recomendação adequada.

Por fim, aparecem as estrelas da degustação profissional atual. São os críticos, como o americano Robert Parker (sempre ele), com o poder de elevar o preço de uma garrafa com uma pontuação muito alta ou declarar sua desgraça no mercado com notas abaixo do esperado. Como a pontuação no geral usa a casa da centena, o número mágico que os vendedores começam a exibir nas prateleiras para vender mais um determinado rótulo começa em 90 pontos – você já deve ter visto etiquetas assim em catálogos e lojas -, o resto não interessa muito.

Tem gente que desdenha este modelo, mas produtores de mente aberta, como o revolucionário italiano Ângelo Gaja, reconhecem seu valor. Para Gaja, Parker tem uma enorme importância para a difusão do vinho, pois ao contrario da resenha literária da escola inglesa dominante até o fim do século passado, a escala Parker é quase binária: “Qualquer cretino reconhece que 100 é melhor que 80”, resume. Gaja defende a arte dos artesãos, dos pequenos produtores, dos tintos e brancos de excelência, afinal é um de seus maiores representantes, mas sabe também que o vinho não deixa de ser um negócio.

A sua (e a nossa) degustação

Entre o brucutu que não tem sensibilidade de diferenciar uma garapa de uva de um rótulo mais elaborado e um especialista que traduz suas avaliações em sânscrito e não consegue transmitir conceitos acessíveis ao consumidor existe a degustação de quem simplesmente aprecia vinho, se encanta com sua variedade de uvas e que também foi fisgado pela beleza de uma bebida de sabores ricos, prazerosos e às vezes surpreendentes.

Para quem faz parte deste time (nós?), degustar é a arte de medida e bom senso. Trata-se de um processo de conhecer melhor para apreciar melhor; uma busca pela expressão dos sentidos. É uma delícia falar do vinho que apreciamos, descrevê-lo de alguma maneira, assim como fazemos com naturalidade diante de um prato de comida. O degustador casual busca a memorização do gosto, um aprendizado que só faz sentido se trouxer recompensas sensoriais e até materiais – uma das vantagens de conhecer mais é poder escolher vinhos não tão caros que proporcionem um bom índice de satisfação. É saber comprar pelo vinho e não pelo rótulo premiado e bem pontuado.

Voltando ao início do texto e tentando responder a provocação: para que servem as  degustações? As profissionais para estabelecer critérios de produção, qualidade e consumo. As amadoras para você beber melhor e curtir mais o seu vinho. Sem jamais, no entanto, se transformar em uma caricatura de um conhecedor de vinho, como mostra o vídeo abaixo.

Vídeo do grupo humorístico espanhol Martes y Trece (1978-1997) encontrado nos arquivos do Youtube

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Degustação: Irritando Fernanda Young

Como descrever um vinho?

Salvem os enochatos

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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011 Blog do vinho | 11:33

Quinze sugestões para aproveitar melhor o vinho em 2011

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Este blog se propôs a listar quinze sugestões para turbinar sua experiência com o vinho – um projeto de puro prazer para 2011. Missão cumprida agora com a publicação dos cinco últimos tópicos. Se você acompanhou os dois últimos posts da série, vá direto para a a dica número 11 (Experimente um rótulo mais antigo). Se chegou aqui pela primeira vez, basta ler na sequência as 15 sugestões e colocar em prática aquilo que fizer sentido para você aproveitar melhor o seu vinho – neste e os próximos anos.

1/15 – Faça um curso de vinho

Nove entre dez consumidores costumam argumentar que adoram vinho, mas não entendem muito do assunto. Um curso básico é sempre uma maneira fácil de organizar o conhecimento e obter informações que vão ajudá-lo a escolher melhor sua próxima garrafa e a compreender as características de cada região, as diferenças entre as uvas e a história de cada país. Há cursos variados em associações, importadoras, lojas de vinho e até restaurantes  Confira na lista abaixo alguns destes lugares.

ENTIDADES Associação Brasileira dos Sommeliers A ABS São Paulo mantém um cronograma de cursos básicos e avançados e oferece boa infra-estrutura para  degustações. São oito aulas para quem pretende se iniciar no mundo do vinho (R$ 840,00).
Informações: ABS

A ABS também mantém afiliadas com agenda de cursos e degustações  em BrasíliaCampinas e Rio de Janeiro.

Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho Na Sbav, a mais antiga das associações de vinho do país, o curso básico é de 4 aulas (R$ 390,00).
Informações: Sbav

A Sbav possui grupos com agenda de cursos e degustações em São José dos Campos, PernambucoMinas GeraisRio Grande do Sul.

Senac O Senac tem cursos básicos de vinho com carga horária de quinze horas e também cursos profissionalizantes para sommeliers. Faz parte do material didático o livro Vinhos: O Essencial, de José Ivan dos Santos. O Senac ainda tem unidades espalhadas pelo Brasil com cursos de  especialização, harmonização e básico de vinho.

Informações: SenacSP e Senac Brasil

PARTICULARES

Belo Horizonte

Belo Vinho Curso de Iniciação à Degustação de Vinhos em dois dias com degustação de onze vinhos. O livro Vinho Sem Segredos de Patricio Tapia está incluído como material de referência.

Informações: Belo Vinho

São Paulo

Ciclo das vinhas A sommelière Alexandra Corvo mantém um simpático e acolhedor espaço para cursos e degustações temáticas. Alexandra é craque em passar a informação de forma simples e descontraída.
Informações: Ciclo das Vinhas

Degustadores Sem Fronteiras O consultor, autor de livros e diretor da Sbav-SP Aguinaldo Záckia Albert organiza viagens, degustações e palestras para quem deseja expandir seu conhecimento.
Informações: Degustadores Sem Fronteiras

Rio de Janeiro

Escola Mar de Vinho O premidado crítico Marcello Copello dá cursos em sua escola no Rio de Janeiro, e palestras temáticas, como “Degustando com Sinatra”, e outros temas.
Informações: Escola Mar de Vinho

Rio Grande do Sul

Escola do Vinho Miolo A vinícola Miolo, com sede em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, tem uma agenda variada de cursos que também são realizados em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Porto Alegre.
Informações: Miolo Curso de Degustação Salton Outra grande vinícola nacional que oferece cursos em seu auditório, no distrito de Tuiuty, em Bento Gonçalves.
Informações: Salton

Aulas em vídeo pela internet

Outra opção para quem, como você, é um ser digital é acompanhar as lições em vídeos on-line, mestres interncionais como Jancis Robinson Canal dos vídeos de Jancis no Youtube, Oz Clark Site oficial do programa, Gary Vaynerchuk Canal do programa Wine Library têm páginas disponíveis na rede.

Leia mais sobre cursos no Blog do Vinho

2/15 Compre um rótulo mais caro

Ok, o melhor de conhecer um pouco mais de vinho – e os cursos acima são apenas uma das maneiras de fazer isso – é não precisar gastar uma fortuna para degustar um bom rótulo. Mas, sendo muito sincero, os grandes vinhos são um pouco mais caros mesmo. E depois que o consumidor sobe um pouco a régua da qualidade é difícil voltar atrás. Os caldos mais bacanas são resultado de uvas selecionadas, e mais caras; de terrenos mais nobres, com um cuidado quase artesanal na vinificação e envelhecimento em barris de carvalho (no caso dos grandes tintos). Claro, muitos rótulos aproveitam-se do sucesso para cobrar exorbitâncias, mas não é deste tipo de vinho que estamos tratando aqui.

Então, você pode se presentear, de quando em vez, com um bom rótulo, gastando um pouco alem do que está acostumado. Às vezes 30, 50 reais de diferença fazem a diferença. 100 reais fazem toda a diferença. Outra opção é trocar duas ou três garrafas de preço médio por outra mais especial. Se for um daqueles rótulos na casa das centenas, uma boa alternativa é dividir o preço da etiqueta com os amigos, tanto na hora de meter a mão no bolso quanto no doce momento de prová-lo. Mais barato e divertido. Aumenta seu cardápio de possibilidades e não ofende o orçamento de ninguém.

3/15 Visite uma vinícola

O chamado enoturismo é um segmento da indústria do vinho que vem crescendo no Brasil e no mundo. Viagens podem ser organizadas em grupos ou fazer parte de um pacote turístico. Pela proximidade, e profissionalismo, as vinícolas do Chile e Argentina oferecem muitas ofertas. No Brasil, o movimento também cresce na região de Bento Gonçalves. Mas não exagere no número de produtores. Depois da terceira visita a uma vinícola, os barris de madeira empilhados na adega que tanto impressionam na primeira vez começam a perder a graça e mesmo o discurso dos enólogos e guias sobre a importância da qualidade da uva e o detalhamento do processo de vinificação começam a ficar repetitivos. O melhor da festa são as degustações. Aproveite para provar rótulos novos, lançamentos e quem sabe participar de uma degustação mais longa acompanhada da culinária local e do enólogo que pode explicar sua criação.

4/15 Harmonize vinho e comida

Toda vez que um especialista ou um apaixonado tenta falar em harmonização entre um vinho e uma comida a maioria leiga em volta torce o nariz, suspira com desdém, e decreta que o sujeito é um exibido gastronômico. Uma boa maneira de tentar provar se a harmonização é  um conceito válido ou apenas uma afetação de experts é fazer a experiência com um grupo de amigos. Diante de um prato de massas com molho vermelho, por exemplo, prove pelo menos três tipos diferentes de tintos; um Chianti italiano (feito com a uva sangiovese), um merlot brasileiro e um cabernet sauvignon chileno. E aí tire suas conclusões. Fica claro como cada estilo de vinho tem um efeito diferente com a comida. O processo pode se repetir com um churrasco (aconselho dividir os nacos de carne com um malbec argentino, um tannat uruguaio e um tempranillo espanhol para sentir as diferenças), um peixe grelhado (vai melhor com um sauvingon blanc da Nova Zelândia, um chardonnay francês ou um alvarinho português?). Sem pose e sem mistificação você e sua turma estarão fazendo escolhas que poderão definir qual a combinação mais adequada para vocês. Com o perdão da palavra, estarão harmonizando vinho e comida.

Leia mais sobre harmonização no Blog do Vinho

5/15 Experimente rótulos de países diferentes

O consumo de vinhos no Brasil, por uma questão de preço e proximidade, é dominado pelas garrafas do Chile, Argentina, Portugal e Itália, mas com predominância de rótulos dos dois primeiros. Estima-se que existam no Brasil mais de 20.000 rótulos de 20 países nas prateleiras e catálogos. Se o vinho te fisgou a ponto de você acompanhar um blog deste tema, você não pode se limitar a vinhos de poucos países. Permita-se aventurar-se por rótulos de países diferentes que está acostumado. A graça está aí.

Este blog propõe então uma aventura mais radical, prove vinhos de países vinícolas tradicionais mas pouco conhecidos. Você sabia, por exemplo, que há bons rótulos, de conceituados produtores, de Israel, do Líbano, da Grécia e da Suíça à venda no Brasil? O Blog do Vinho selecionou quatro opções certeiras:

Israel

Chillag Primo Merlot 2004. Uvas:  merlot (90%) e cabernet sauvignon (10%). R$ 163,00

Importadora: Vinhos de Israel

Líbano

Château Kefraya, Uvas: cabernet sauvignon, mourvèdre, carignan e grenache. R$ 129,00

Importadora: Zahil

Grécia

Agiorgitiko by Gaia. Uva: agiorgitiko. R$, 90,00

Importadora: Mistral

Suíça

Petite Arvine du Valais Maître de Chais 2008. Uva: petite arvine (100%). R$ 109,00

Importadora: VitisVinifera

Leia mais sobre tintos do novo mundo e do velho mundo no Blog do Vinho

6/15 Participe de uma degustação às cegas

Uma degustação às cegas, como o nome sugere, guarda um segredo. No caso é o próprio vinho que você vai beber: o rótulo não é mostrado. As garrafas são ensacadas, numeradas e servidas. Provar diferentes vinhos sem saber quais são os rótulos, o tipo de uva ou mesmo país pode ser um estímulo divertido que vai demonstrar como às vezes somos influenciados por fatores externos ao nosso gosto. É uma das provas mais didáticas que existe. E exige muita humildade do provador. O que vale aqui é a avaliação sensorial da bebida que está na taça, e um pouco de experiência, sem qualquer interferência, como a nota do Robert Parker, a fama do produtor, o preço do vinho ou seu hábito de consumo. Uma pesquisa realizada no Instituto de Tecnologia de Stanford, na Califórnia, juntou vinte voluntários que provaram  às cegas cinco vinhos de diferentes níveis de preço – 5, 10, 35, 45 e 90 dólares. O objetivo da avaliação era identificar qual vinho era mais prazeroso. O teste tinha uma pegadinha. Dois dos cinco vinhos eram idênticos, mas os preços exibidos em cada garrafa eram diferentes: um marcava 10 dólares e outro 90 dólares. Quando estimulados a apontar o melhor vinho, escolheram o mais caro, de 90 dólares, o mesmo da garrafa de 10 dólares. Ou seja, as aparências no vinho também enganam. E uma degustação às cegas, além de divertida, pode revelar que um rótulo mais barato pode agradar tanto ou mais que um mais caro.

Leia mais sobre degustações

7/15 Compre taças adequadas e compare

Você gosta de extrair o máximo de seu vinho? Então está na hora de investir em taças apropriadas para a bebida. Assim como a moda desenvolve tecidos, cortes e modelos para realçar cada tipo de corpo e estilo de vida, a tecnologia e o design também concebem taças para diversos tipos e estilos de vinho. Um cabernet sauvignon ou um pinot noir, só para ficar em dois exemplos clássicos, revelam todo o seu potencial quando servidos em tacas desenvolvidas especialmente para o perfil destas uvas. Frescura demais?

O austríaco Georg Riedel, proprietário da Riedel, e décima geração da família que produz taças em cristal desde 1756  —   e dono de outra marca importante, a Spiegelau  —, é capaz de comprovar esta tese em um jogo lúdico. Ele começa seu show servindo um sauvignon blanc em uma taça produzida para esta uva e pede para a plateia sentir os aromas e o sabor da bebida. Aí, com ares de prestidigitador, solicita ao público presente que verta o sauvignon blanc em uma taça de chardonnay (um pouco mais bojuda embaixo e mais aberta no topo). Troca de olhares entre os presentes. Ohhhh! O sauvignon blanc, antes de aromas cítricos expansivos e acidez correta, se transforma numa bebida desprovida de aromas e de boca chata. Basta voltar o líquido à taça original, e, voilà, está tudo de volta. O processo é repetido com um chardonnay chileno, um pinot noir da Borgonha (este então fica irreconhecível numa taça de bordeaux, perde os aromas, o gosto das frutas e se torna ralinho) e por fim com a célebre cabernet sauvignon. “Não melhoramos o vinho”, insiste Mr. Riedel. “Nós evidenciamos seus aromas.”

Mas como ele consegue isso? Aqui a mágica desaparece. Os engenheiros e designers da Riedel encaram as características olfativas e gustativas do vinho como elas são: processos químicos. E trabalham fortemente na valorização dos aromas – a primeira impressão é a que fica, não é? – e na engenharia do formato da taça, planejada para atingir determinadas áreas da língua que identificam o doce, o salgado, a acidez e o amargo. O desenho da taça de um Bordeaux, por exemplo, faz o líquido escorrer para o centro da língua, o ponto que se percebe a sensação encorpada do vinho. Há modelos para cada uva e região, e antes de serem lançados no mercado são testados junto aos produtores, sommeliers e especialistas, até se chegar no ponto de excelência.

O que isso quer dizer, afinal? Que um amante de vinhos tem de ter toda uma linha de taças possíveis para usufruir a adega cuidadosamente formada em casa? Nem tanto, há taças que acabam cumprindo a função de agradar tintos gregos e brancos troianos, na média. Se o que você mais bebe é um cabernet, adquira uma taça do tipo “bordeaux” e a vida está resolvida também para a maioria dos outros tintos. E assim voltamos à proposta inicial desta sugestão. Faça um teste e descubra o que a taça pode fazer pelo seu vinho e seu prazer. Encare a coisa com uma aplicação que vai mudar o perfil do seu investimento maior, que são as garrafas de vinho. Frescura? Preciosismo? Quem tem suas taças não acha.

Leia mais sobre taças

8/15 Beba mais vinho branco

Você conhece aquela da mulher que morreu de vinho branco?
- Ela estava atravessando a rua, veio um carro vermelho,
ela desviou, mas aí vinho branco…

“Vinho, pra mim, tem de ser tinto”, é uma das frases que mais ouço. Trata-se de uma injustiça. Os brancos são insubstituíveis com determinadas comidas, são refrescantes no verão e podem ser tão intensos, aromáticos e oníricos quanto os festejados tintos de alta qualidade.

Este blog não tem a pretensão de mudar o gosto de ninguém, muito menos educar quem quer que seja – militância até em vinho, que é um prazer, não dá! A idéia aqui é despertar a curiosidade. Se você realmente é um apreciador de vinho, os brancos merecem fazer parte do seu registro sensorial e gustativo. Portanto uma das sugestões para 2011 é: beba mais vinho branco! Uma importante importadora nacional, a Decanter, aposta nesta tendência e teve um crescimento de 37,5% no comercialização de seus brancos em 2010, informa o proprietário Adolar Herman. Deve querer dizer alguma coisa.

Vinho branco, aliás,  já começa errado no nome – a única bebida branca que eu conheço é leite, e não é o nosso business aqui. A cor, na realidade, vai do palha clarinho aos tons dourados, quase ouro. Branco se contrapõe a tinto, só isso.

O serviço deve ser em temperatura entre 8 a 10 graus. Mas se você gelar demais a bebida corre o risco de perder o leque aromático e as características de suas uvas. O gelado excessivo aplaina as papilas gustativas. O resultado é insípido. Preste atenção, então, para não esquecer a garrafa no baldinho de gelo, muito menos dentro do freezer! O inverso, quente demais, também é um desastre, a acidez ferve na boca e ninguém merece vinho branco quente!

Eles podem ser refrescantes, fáceis e leves, quase uma bebida de verão, aquela para começar os trabalhos (exemplo clássico: a sauvignon blanc) ou cremosos, amanteigados, untuosos e de maior corpo (aqui reina a chardonnay que passa pela barrica), quem vão melhor junto às refeições. Sem esquecer os intensos, longos, minerais e aromáticos rieslings da Alemanha e da Alsácia, os vinhos brancos preferidos dos especialistas. Mas só para chatear e evitar a monotonia, a regra não é engessada: há chardonnays refrescantes, ligeiros e minerais, sauvignon blancs profundos e de meditação, e rieslings doces, ok?

Por fim… ou quem sabe o começo.
Fica combinado que da próxima vez que estiver em uma festa, numa reunião ou no restaurante e um garçom vier com o branco, não decline. Aceite. Experimente. Ao contrário da piada infame do começo deste texto, ninguém morre de vinho branco.

Bons, Brancos, nem sempre baratos  (post com preços de 2008)

Vinho branco, você ainda vai beber um

9/15 Arrisque um rosé

Considere em sua próxima compra, ou em um almoço em dia de calor, um rosé. Topas?  Ou você é do tipo que acha que vinho rosé é uma coisa meio gay? Pois fique sabendo que esta bebida de aromas ligeiros, frutas frescas e cor exuberante  bateu o consumo de vinho brancos na Espanha em 2010. É outra tendência de consumo que vem crescendo, até no Brasil, apesar da aposta exagerada do mercado e importadoras no final em 2009.  Há rosés que lembram morangos frescos, aqueles de caixinha mesmo que é o que a gente conhece, outros têm um toque mais floral, bem de leve, o suficiente para perfumar a bebida. É uma bebida mais com o perfil de aperitivo, dos goles descompromissados. Mas vai bem também com a comida. Na boca, tem força para interagir bem com frutos do mar, pescados e até um grelhado sem molhos.

E ainda tem a cor, um dos maiores charmes deste vinho. As tonalidades variam daquela casca de  cebola, bem clarinha – clássico dos exemplares de Provence, na França -, passando pelo salmão até um rosa bem vivo. Além do mais, é o vinho com a cara do verão: tem cor de pôr-do-sol. É refrescante até de olhar. Ta bom, é um pouco gay, mas quem não precisa provar – ou esconder – sua opção sexual não tem que temer um fermentado rosinha, certo?

Sinônimo de vinho na região da Provence, há bons rosés espalhados por todo o mundo. Aqui vão alguns goles por onde começar (preço médio)

França

Château de Pourcieux 2009 (França) – Château de Pourcieux (um rosé das uvas, syrah, grenache e cinsault), importado pela Cantu. R$ 65,00

Château des Chaberts – Cuvée Prestige, 2006, da Appellation Coteaux Varois En Provence. (um rosé das uvas grenache e cinsault), importado pela Casa Flora. R$ 77,00

Mas de Cadenet Rosé, Côtes de Provence (um rosé das uvas grenache , cinsaut, syrah), importado pela Le Tire-Bouchon. R$ 75,00

Chateau Reynon Rosé 2006, Bordeaux (um rosé das uvas cabernet sauvignon e merlot), importado pela Casa Flora. R$ 80,00

Brasil

Villa Francioni Rosé, Villa Francioni (um rosé meio salada de fruta: cabernet sauvignon, cabernet franc, sangiovese, syrah, petit verdot, pinot noir, merlot e malbec), R$ 52,00

Chile

Santa Digna, Miguel Torres, Curicó, (rosé de cabernet sauvignon), importado pela Miguel Torres. R$ 38,00

Argentina

Crios Susana Balbo Rosé, Mendoza, Argentina (rosé de malbec), importado pela Cantu. R$ 38,00

Alamos Malbec Rosé, Mendoza, (rose de malbec), importado pela Mistral. R$, 29,00

Portugal

Esporão Vinha da Defesa Rosé, Herdade do Esporão, Alentejo, (rosé de aragonês e syrah) R$ 62,00

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10/15 Experimente um vinho doce

O vinho doce, ou de sobremesa, está sempre no fim da lista dos consumidores de vinho. Talvez este seja o seu caso. Mas tente servir um vinho de sobremesa no final de uma refeição ou pedir uma taça para acompanhar a sobremesa (peça ajuda ao sommelier). Aposto que um novo mundo vai se descortinar.

Há vinhos de sobremesa brancos e tintos fortificados (os vinhos do Porto, Madeira, Moscatel de Setúbal). Nos brancos se destacam os de colheita tardia (ou late harvest) e os botritizados. Os vinhos doces de  colheita tardia têm preços mais acessíveis e próximos do bolso. Como o nome indica, as uvas são colhidas com várias semanas de atraso, provocando a desidratação e concentração de açúcar na fruta. Já o processo de botritis (ou podridão nobre)  as  uvas são atacadas por um fungo benéfico – o tal Botrytis cinerea -, que somente ocorre em certas condições climáticas e em regiões mais úmidas. Os frutos perdem água e concentram açúcar e ácidos. Uvas botritizadas produzem vinhos licorosos de grande estirpe, como o Sauternes, da França, ou o Tokay, da Hungria. O representante maior desta turma é o Châteu d’Yquem (elaborado com as uvas semillon e sauvignon blanc), uma jóia rara produzida na França (sempre lá…). Aliás, este é o tipo de vinho de enciclopédia, uma referência que aparece mais nos livros e artigos do que na sua taça por conta do alto preço.

Também se destacam nesta turma os vinhos doces brancos aqueles que literalmente vêm do gelo, os icewines, produzidos em países de clima realmente frios, como Alemanha, onde recebem o nome de Eiswein, Áustria e no Canadá. Antes de serem colhidas congeladas, no mês de dezembro, as uvas derretem e congelam novamente umas oito vezes. Cada vez que se congelam, mais sabores se concentram na fruta. O resultado é um branco doce, de baixo teor alcoólico, com aqueles aromas etéreos que os bons vinhos de sobremesa exalam e que qualquer nariz mais cético é capaz de perceber. Na boca costuma vir uma sensação de compotas de frutas brancas ou cítricas, muito mel e certa untuosidade.

No campo dos fortificados, o destaque são os Portos e os Madeira, ambos de Portugal, aquelas garrafas que nossos avós tinham em casa e que possuem uma infinidade de matizes. O acréscimo de aguardente vínica corta o processo de fermentação preservando parte do açúcar residual e garantindo muitos anos na garrafa.

Há sete tipos principais de vinhos do Porto (conheça aqui os estilos). O fortificado não é doce à toa. Portos mais novos, como os ruby e  tawny são bebidas mais frutadas e encorpadas, mais fáceis de beber. Já os Portos vintage e com indicação de idade são coisa mais séria. Os descritivos de um Porto envelhecido são todos superlativos: aromas infinitos de frutas secas e mel que chegam em ondas e volatizam na taça mesmo depois de esvaziadas – um Porto virtual fica suspenso no ar. A intensidade de boca e de fim de boca são longuíssimas. Para quem é adepto de um charuto, são bons parceiros também.

O vinho de sobremesa cumpre um outro papel social, que é o de esticar o tempo da convivência, um vinho que sai da mesa e acompanha a conversa no sofá. Vale incluir na sua receita de vida.

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11/15 Experimente um rótulo mais antigo

Quando instigado a aconselhar os mais jovens sobre a vida, o dramaturgo carioca Nelson Rodrigues (1921-1980) tinha a resposta na ponta da língua: “Envelheçam”. O mesmo vale para o vinho? Nem sempre. Você já deve ter visto isso, a recomendação para abrir um determinado rótulo em 5, 10 ou até 20 anos! O que significa isso? O que você ganha bebendo um vinho mais velho, e o que pode perder? A sugestão aqui é você experimentar rótulos mais antigos e checar na prática se a evolução de alguns caldos te agrada ou não.

A longevidade do vinho depende de alguns fatores, como o índice de teor alcoólico, nível de açúcar e quantidade de acidez da bebida e, para os tintos, da qualidade dos taninos. Muito importante também nesta equação é a qualidade da adega, da rolha, de onde afinal as garrafas acompanharão o passar dos anos.  Nem todos os vinhos envelhecem igual. O envelhecimento, na realidade, é uma troca, um pacto entre o consumidor e o vinho. Ganha-se algumas coisas e perdem-se outras.

Os tintos mais jovens, com muita fruta e potência, por exemplo, não ganham muito com esta troca. Ao contrário, perdem suas principais características e qualidades, pois não têm estrutura para envelhecer.  Já os vinhos com capacidade de guarda, mesmo os do novo mundo, podem até perder a exuberância de frutas mais frescas com o tempo na garrafa, mas os taninos se amaciam e o conjunto fica mais equilibrado e harmonioso, a madeira se integra mais à bebida. Surgem neste estágio aromas e sabores deliciosos e oníricos, tornando o vinho mais complexo e fascinante. Quem já provou um tinto que evoluiu bem com os anos sabe do que eu estou falando. Estes vinhos, ao contrário dos mais simples, perdem se forem abertos muito novos.

Trata-se, portanto, de uma aposta no futuro. Existe um auge teórico – o Everest da curva de evolução -, em que boa parte da fruta permanece viva e praticamente toda a complexidade do envelhecimento se mostra. Quem tem  paciência de esperar anos até que uma garrafa atinja seu ponto máximo, definitivamente tem fé na vida. Eventualmente, pode deparar com um vinho decrépito ou mesmo oxidado. Mas esta é parte da magia que seduz milhares de bebedores pelo planeta, e que afasta outros tantos desta esperança no apogeu. Como se diz entre os entendidos, “não há grandes vinhos, mas grandes garrafas”. O tempo só vem comprovar este ditado. E a prova de um vinho mais antigo, e evoluído, é obrigatória para quem deseja se aprimorar no tema.

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12/15 Tome mais vinho nacional

“Para um vinho nacional, até que é bom”. Quantas vezes você já ouviu – ou quem sabe até proferiu – esta frase? Se você está no time dos que julgam os tintos, brancos e espumantes nacionais desta maneira, está na hora de mudar os seus conceitos. Tratar o vinho brasileiro só pela régua do vinho de mesa é um jeito torto e preconceituoso de medir a qualidade dos rótulos nacionais. A produção de vinhos finos no Brasil, apesar da predominância dos fermentados mais simples, surfou na onda da qualificação desde a década de 90, acompanhando uma tendência do mercado mundial de substituição de uvas comuns por cepas viníferas, além de mudanças promovidas nas técnicas de plantio e de vinificação que impactam drasticamente na qualidade do que é engarrafado.

O mercado interno de vinho finos – aquele feito de uvas viníferas – vem ganhando musculatura e reagindo ao fraco desempenho dos dois últimos anos. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) apontam para uma retomada da indústria vitivinícola, com um crescimento de 10% no consumo em 2010. Só no Rio Grande do Sul –  região que concentra cerca de 90% da produção nacional – foram comercializados 2,32 milhões de litros, o maior volume desde 2007.

Engana-se quem limita o consumo do vinho nacional  à excelência e dos espumantes. Segundo declaração de Carlos Raimundo Paviani, diretor executivo do Ibravin, ao Guia do Vinho do iG, a produção local é de 80% de tintos e 20% de brancos e espumantes: “o que significa que nosso público gosta muito dos tintos que fazemos”. Mas são os espumantes que vêm crescendo ano a ano sua fatia no mercado do vinho fino nacional. Então, vai encarar?

Leia mais sobre vinho nacional

13/15 Monte sua confraria

Uma confraria se forma para que amigos compartilhem suas melhores garrafas, experimentem as novidades, comparem o rótulo A com o rótulo B, cotizem uma garrafa que é objeto de desejo, isso tudo em clima de camaradagem e descontração. É também aquele momento em que o vinho é protagonista. Em que  ninguém vai ficar olhando torto para a sequência de rótulos, reclamando do balé de taças girando sem parar e ironizando o festival de aromas que cada degustador encontra nos caldos. Afinal, como conclama um dos  primeiros posts deste blog: Salvem os enochatos! E se o objetivo é só beber comentando o jogo de domingo, qual o problema? A regra é não ter regra. O importante é o encontro.

Então, que tal criar a sua confraria? Reúna os amigos, e monte um grupo.

Algumas dicas para aproveitar melhor suas reuniões.

1. É importante manter uma agenda. Procure estabelecer uma data fixa para os encontros. Todas as primeiras quartas-feiras do mês, algo assim, que facilite o agendamento e continuidade do grupo. Se for esperar o melhor dia para cada participante, é capaz de a confraria nunca passar do primeiro brinde;

2. Aproveite as facilidades da tecnologia e organize as reuniões por e-mail ou então crie contas nas redes de relacionamento como Facebook ou Orkut, onde os encontros podem ser registrados com imagens e textos, ou até mesmo em tempo real, pelo Twitter, com apreciações de no máximo 140 toques de cada gole;

3. Escolha um tema para o encontro. Pode ser um país (vinhos argentinos), uma região mais específica (Borgonhas), um tipo de vinho (brancos), uma uva (riesling) ou mesmo uma determinada safra (Barolos de 2001);

4. A experiência pode ficar mais rica também se alguém se dispuser a pesquisar sobre os vinhos que vão ser degustados, as principais características, um pouco de sua história e algumas curiosidades sobre as uvas, as principais vinícolas, estes detalhes que fazem a alegria dos enófilos de carteirinha, mas que também atiçam a curiosidade de quem está chegando neste mundo;

5. Se for harmonizar com comida, combine com seus colegas as garrafas que serão abertas, a fim de ter pelo menos um representante de cada estilo de vinho na mesa: um espumante, um branco, tintos e um de sobremesa;

6. Anote o nome, safra e produtor do vinho e registre os rótulos com fotos. Assim, você vai criando seu acervo pessoal das provas e pode repetir a garrafa que mais lhe agradar em outra oportunidade;

7. Se o encontro for na casa de um dos confrades, verifique se é preciso levar taças adicionais;

8. Se a reunião for marcada em um restaurante, é importante perguntar, no ato da reserva, se a casa cobra serviço de rolha, se tem taças de vinho adequadas, etc. Se não tiver, não se acanhe em levar suas taças, saca-rolhas, balde de gelo, o que for preciso para aproveitar ao máximo a oportunidade;

9. Se existir serviço de vinho no restaurante, reserve uma taça de um vinho ao sommelier ou proprietário e ouça a avaliação do profissional. É no mínimo uma atenção com a casa;

10. A dica mais importante, no entanto, é tornar este hábito um prazer, uma diversão daquele tipo que você espera ansiosamente pelo próximo encontro.

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14/15 Deixe o preconceito de lado e prove vinhos com tampa de rosca

Muita gente torce o nariz, mas a tampa de rosca (ou screw cap) é comprovadamente eficiente, prática e resolve a vida, imagino, de 90% dos vinhos produzidos pelo mundo. A tampa de rosca é aquela cápsula que se abre girando em rotação invertida até quebrar o lacre.  Muitos desavisados tratam de enfiar o saca-rolhas neste estilo de tampa antes de perceber o tipo de material. Problema! Você estraga a tampa. Mas confesso que já cometi tal atrocidade… Outra  grande vantagem deste tipo de tampa é que ela não passa para o vinho problemas típicos da rolha de cortiça que estragam e deixam o vinho bouchonée.

Ok, a substituição da cortiça ainda é terreno minado. Muito produtor ainda tem receio de perder mercado com o preconceito do consumidor. E com razão. Muito bebedor fica de nariz empinado quando um garçom ou vendedor oferece um vinho com tampa de rosca ou sintética. Ok, tem o charme da cortiça, o ritual da abertura, mas… bobagem. Tome tenência, rapaz! O vinho pode ser tão bom – ou melhor – que aquele selado com uma rolha de cortiça! Experimente, você não vai se arrepender.

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Bouchonée, o vinho Tiririca, pior que está, fica

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15/15 Monte uma adega com um kit básico de vinhos

Bom, se você enfrentou estas quinze sugestões e chegou até aqui está na hora de montar a sua adega. A regra estabelece que uma adega clássica deve ser composta por uma grande quantidade de brancos, rosés, tintos, fortificados, doces e espumantes que reflitam um amplo painel do que de melhor cada uva e região do mundo pode oferecer. Para atender esta premissa seria necessário iniciar seu estoque com no mínimo 200 garrafas. Menos, né? Vamos combinar que não é a situação mais realista para quem está começando a descobrir o vinho ou mesmo para os que já tem o hábito da sua taça eventual. O mais correto é montar a sua adega essencial. Ela deve conter aqueles vinhos que lhe dão maior prazer de beber. Ponto. Uma adega, assim como uma biblioteca, ou mesmo uma coleção de aplicativos para celular, revela muito do gosto e dos hábitos de seu proprietário, por isso seguir um manual é maquiar o inventário do seu paladar só para ficar bem na fita.

Uma adega, qualquer que seja seu critério, também deve estar preparada para atender o paladar de eventuais convidados e estar aberta para novidades que enriqueçam sua experiência com a bebida e que combinem com diversos tipos de comida. Um bom ponto de partida é misturar regiões, safras e tipos de vinho, sem querer com isso esgotar todas as possibilidades existentes, se não você fica maluco. A lista genérica abaixo, organizada por tipo de vinho, serve apenas de orientação.

Espumantes – no mundo das borbulhas uma adega essencial se traduz em garrafas com ótimos espumantes nacionais, cavas espanholas, prosesccos e por fim um exemplar ou outro de um champagne francês para momentos exclusivos.

Brancos – é sempre saudável uma divisão entre brancos frescos, para tomar como aperitivo ou em refeições leves (a sauvignon blanc é sua representante máxima, mas a viognier, o vinho verde, o frascati e a pinot grigio também são protagonistas neste campo), e brancos mais intensos, para acompanhar as refeições (aqui reinam os chardonnays e alguns rieslings). Para quem curte brancos aromáticos algumas garrafas de gerwurztraminer e torrontés são obrigatórias.

Rosés – se você seguiu a dica número 9 e passou a incluir os rosés no seu repertório, é muito bom chegar em casa e ter uma garrafa aguardando na temperatura certa em sua adega. Não esqueça, pois,  dos rosados da Provence, sul-americanos, nacionais, portugueses e italianos.

Tintos – geralmente os tintos ocupam a maior parte de uma adega. Aqui, mais do que tudo, vale uma seleção de vinhos por estilo. Uma boa quantidade de garrafas para beber jovem – o famoso vinho do dia-a-dia – é essencial. Nesta linha cabem também alguns rubros de corpo médio, um pouco mais encorpados, alcoólicos  e complexos (a grande maioria das garrafas à venda). Por fim, os tintos de guarda, com grande capacidade de envelhecimento. Nestes três tipos de vinho a oferta é imensa. Os chilenos e argentinos, junto aos nacionais e alguns portugueses, cumprem a tarefa do vinho do dia-a-dia e um pouco mais encorpados. Franceses, portugueses, espanhóis e tops de linha do Chile e Argentina fazem bonito na categoria dos vinhos de guarda. Quanto às uvas, as francesas de origem mas internacionais no uso são uma aposta certa: cabernet sauvignon, merlot, malbec e syrah. Tempranillo na Espanha, sangiovese na Itália e touriga nacional em Portugal dão um toque regional na sua adega.

Doces e fortificados –  não vá esquecer daquele vinho de sobremesa e doce . Fecham qualquer refeição com chave de ouro, mas raramente são abertos.  Uma garrafa de um late harvest (colheita tardia) ou um Porto resolvem a vida.

Na hora da compra, todo cuidado é pouco.  Aqui vão algumas regras para se dar bem:

1. Observe se a garrafa está bem cheia. Um espaço livre muito grande entre a rolha e o líquido é sinal de vazamento.

2. Se puder, escolha as garrafas que estejam deitadas, nelas o líquido está em contato com a rolha.

3. Verifique o estado de conservação da cápsula e da rolha. A cortiça não pode estar saltada.

4. Cheque a cor do vinho, principalmente os brancos – uma cor amarelo-escura pode indicar oxidação; se estiver na cor âmbar, evite. Um tinto de safra recente de cor alaranjada – uma característica dos tintos mais evoluídos – também é sinal de problema.

5. Fique atento às safras. Tintos mais básicos, assim como os rosés e grande parte dos brancos devem ser servidos jovens, em no máximo três a quatro anos.

10 dicas de como escolher e comprar o seu vinho


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quarta-feira, 24 de novembro de 2010 Degustação | 11:15

Primum Familiae Vini: uma degustação para guardar na memória

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A caixa com onze joias liquidas da Primum Familae Vini. Sonho de uma tarde de primavera

Um vinho premium não é obra cartesiana, muito menos é um acaso da natureza: é o resultado da relação do homem com a agricultura e de sua capacidade de extrair das parreiras a melhor uva que ela pode produzir em um determinado terreno, sob um clima específico. A pinot noir na Borgonha, a riesling na Alsácia, a tempranillo na Ribera Del Duero, o trio cabernet sauvignon, merlot e cabernet franc em Bordeaux são apenas alguns exemplos de uvas que encontraram o seu habitat após séculos de experimentação, observação e refinamento no processo de vinificação.

A tradição foi passada de pai para filho ao longo de séculos e grandes vinícolas ainda em atividade são consequência direta desta curadoria de famílias que dedicaram sua vida a esta atividade. O grupo Primum Familae Vini (PFV), formado oficialmente em 1993, é um resgate destes valores familiares em um mundo em que os negócios do vinho estão cada vez mais globalizados e concentrados nas mãos de grandes investidores. São onze famílias proprietárias de vinícolas consagradas internacionalmente, que ao mesmo tempo que promovem seus rótulos prestigiados pela crítica e adulados pelos conhecedores, levantam a bandeira da manutenção do controle familiar das empresas para as próximas gerações. Leia entrevista de Dominic Symington ao colunista de iG Luxo Mauro Marcelo, onde ele explica como funciona a PFV.

O time do momento teve os seguintes representantes: Hubert de Billy (Champagne Pol Roger); Laurent Drouphin (Maison Joseph Drouphin); Erienne Hugel  (Hugel & Fils, Perrin & Fils); François Perrin (Perrin & Fils,  Château Beaucastel); Albiera Antinori (Marchesi Antinori); Sebastiano Rosa (Tenuta San Guido);  Miguel Torres (Torres); Pablo Alvarez (Vega-Sicilia);  Philippe de Rothschild (Château Mouton Rotschild); Valeska Müller (Egon Muller-Scharzhof) e Dominic Symington (Symington Family States).  É o velho mundo em sua melhor composição – a família Robert Mondavi, responsável pela transformação do vinho americano, foi fundadora do grupo mas deixou a associação após ser vendida. “Nós somos os guardiões da tradição”, resume o italiano Sebastiano Rosa, presidente da PFV na gestão 2009/2010.

Este grupo de nobres representantes das vinhas se reúne anualmente para degustações ao redor do mundo onde juntam especialistas, jornalistas, enófilos e endinheirados em encontros que mesclam doses de hedonismo e benemerência. São Paulo foi escolhida para ser sede do encontro da PFV em 2010. O Blog do Vinho estava lá.

Meninos, eu vi! E bebi…

22 taças de puro hedonismo. Ao fundo Dominic Symington fala de seu Porto no evento da PFV

Um encontro desta magnitude – que reúne pilares como família e tradição – suscita tanto questões mais delicadas, como a discussão sobre a idade ideal em que as crianças devem começar a ter contato com o vinho (ver reportagem Do primeiro gole ao primeiro porre, de Luciano Suassuna), como também é capaz de demonstrar na prática a beleza da evolução dos vinhos de guarda, do leve peso dos anos na construção da complexidade de caldos brancos, tintos, doces e fortificados. Sim! Brancos também criam pérolas líquidas com a idade! Além das 11 amostras representativas de suas vinícolas – que estão distantes do nosso dia-a-dia – os produtores desfilaram sua tropa de elite aos pares, com safras mais recentes escoltadas por outras mais antigas. Era um dia para se acreditar na felicidade!

Se uma champagne Vintage (ou seja, safrada) Pol Roger 2000 já enchia a boca e preenchia a taça de aromas, a safra de 1990 abusava de finesse e toques de panificação. Um Beaune Clos dês Mouches Blanc 2002, de Joseph Drouphin, expunha ao vivo o poder dos grandes brancos de evoluir na garrafa e envolver o paladar em uma doçura branca untada de mel. Da Alsácia, a mineralidade e delicadeza do Riesling Jubilee 2007 contrastava com a leveza da safra 1998, muito fresca. O chateauneuf de Pape do Château de Beaucastel 2004 tinha um aroma animal e de terra característico de sua mescla de 13 diferentes tipos de uva.  O tinto da toscana Solaia 2001 era pura exuberância, já seu colega de Bolgheri, o Sassicaia  2000, era sedutor e tinha um curioso aroma tropical de caju e carambola.

Pausa para um gole de água

Os espanhóis mais antigos representados pela Torres Mas La Plana 2001 (talvez uns dos únicos vinhos mais viáveis de comprar e ter em casa) e Vega-Sicilia Único 1982 (este sem dúvida alguma fora de questão) eram profundos, densos e longos, principalmente o Vega com 18 anos de história na garrafa. Um Mouton Rothschild 2001 (me desculpem, mas neste post listar preços é um deserviço, vamos evitar…) ladeado por outro 1986 é um privilégio que permite comparar  aromas e sabores e comprovar a alquimia que ocorre dentro da garrafa nos grandes bordeaux com o passar dos anos. Fechando o ciclo, um doce e um fortificado. Um riesling de nome impronunciável, como de costume: Scharzhifberger Auselese Goldkpsel 1990, da Muller Scharzhof (Goldkpsel significa o melhor de cada ano…), uma estupenda cor dourada, uma concentração de açúcar apoiada por uma acidez persistente. E por fim um porto Graham’s 1980 Vintage com uma explosão de frutas maduras e concentradas, infinito – a tradução da excelência da ação do tempo no vinho!

Sobre o sublime e o que se tenta descrever

Um vinho premium não é obra cartesiana, muito menos é um acaso da natureza, como já se disse, mas em alguns casos guarda mais semelhanças com uma obra de arte do que com uma mercadoria produzida em série – o que de fato é. Assim como uma pintura ele pode suscitar diferentes interpretações, diversas sensações e atingir emocionalmente um indivíduo de muitas maneiras, Grandes vinhos são capazes ainda de atingir outras áreas sensoriais, olfativas e gustativas, que acionam o gatilho da memória e do prazer e podem marcar para sempre o simples ato de beber um tinto ou um branco. É como aquele ponto de um filme que te joga para dentro da história, aquele acorde que parece abduzir o espectador de um show de música para outra dimensão, o trecho do romance que te engole para dentro das páginas. Por isso o vinho é tão verborrágico entre aqueles que se emocionam com a bebida. Não basta senti-lo, é preciso traduzi-lo e compartilhar as impressões. E aí cada um tem seu repertório descritivo. Como definiu, em inglês, no encontro da PFV, o representante da Mouton Rothschild, Philippe de Rothschild, “Wine is about sharing emotions”.

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Unidos para fazer o melhor vinho
Como descrever um vinho?

Degustação Mas la Plana
Família Vega-Sicilia

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terça-feira, 17 de agosto de 2010 Nacionais | 11:45

O merlot brasileiro é o melhor do mundo?

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No dia 5 de março de 2008 quarenta degustadores se reuniram na Embaixada Brasileira de Londres para uma prova às cegas de 27 vinhos da uva merlot.  Dezessete garrafas eram brasileiras e outras dez representavam outras regiões do mundo. O critério de escolha foi o preço dos exemplares no mercado inglês no período, entre 15 e 45 reais.

O grupo de provadores era da maior competência, quinze deles ostentavam o diploma de Master of Wine – um titulo só concedido após exaustivos e rigorosos testes de conhecimento. Apenas 280 profissionais em todo o mundo têm este privilégio, o paranaense Dirceu Vianna Junior é um eles – e o único  brasileiro. O restante do grupo era composto de jornalistas especializados, sommeliers, enólogos e negociantes do mercado inglês de vinho. A prova era parte fundamental da tese de Dirceu Vianna. Seu objetivo era responder à seguinte questão: os vinhos nacionais do Vale dos Vinhedos poderiam competir num ambiente tão disputado como o mercado inglês?

O ranking de Londres
O resultado foi muito favorável ao vinho brasileiro. Os tintos verde-amarelos ficaram à frente de rótulos conhecidos – e de valor similar em Londres – do Chile, da Itália e da França! “Foi uma surpresa”, contou Dirceu Vianna, que reside e trabalha em Londres, ao Blog do Vinho. “O meu objetivo era de que um ou talvez dois vinhos brasileiros se saíssem bem e demonstrassem o potencial da região.” A partir daí o que era para ser um estudo sobre a viabilidade do vinho nacional no mercado britânico tornou-se em peça de propaganda do merlot nacional. A associação que representa o Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha, no estado do Rio Grande do Sul, divulgou os resultados com estardalhaço, com a seguinte pegada: “Ranking dos 10 melhores merlot do mundo tem oito vinhos brasileiros”. Curioso? Eis o ranking:

Miolo Teroir1º Miolo Merlot Terroir 2005 – Brasil
2º Thelema Merlot 2005 – África do Sul
3º Pizzato Single Vineyard Merlot 2005- Brasil
4º Vallontano Merlot Reserva 2005 – Brasil
5º Concha Y Toro Casillero del Diablo Merlot 2006 – Chile
6º Larentis Reserva Especial Merlot 2004 – Brasil
7º Don Laurindo Merlot Reserva 2005 – Brasil
8º Cavalleri Pecato Merlot Reserva 2005 – Brasil

9º Michelle Carraro Merlot 2005 – Brasil
10º Milantino Merlot Reserva 2004 – Brasil

Completam a lista os seguintes rótulos – alguns bem conhecidos do consumidor nacional

11º Capucho Merlot Ribatejo, Portugal
12º Planeta Merlot 2004, Itália
13º Montana Merlot Reserva 2005, Nova Zelândia
14º Berri States Merlot 2006, Austrália
15º Norton Barrel Select Merlot 2004, Argentina
16º Gallo Merlot 2004, Estados Unidos
17º Reserve Mouton Cadet St Émillion 2005, France

Nota: só entraram na avaliação merlots da regiões delimitada do Vale dos Vinhedos. Rótulos como por exemplo da Vinícola Salton ou da região de Santa Catarina ou de  Pernambuco ficaram de fora.

Os melhores merlot do mundo?
Palmas para a evolução do vinho nacional. Mas será que esta degustação pode nos colocar no patamar dos melhores do mundo? Com a palavra Dirceu Vianna, o autor do projeto: “É legal comunicar os aspectos positivos desse estudo, pois a indústria realmente deveria orgulhar-se disso, mas por outro lado a outra metade dos produtores ficaram entre os últimos dez no ranking”. Well, o que é bom a gente mostra, o que não é a gente esconde, não é mesmo? “Comprar um vinho produzido nessa região, para quem não conhece, ainda é  arriscado, pois não há consistência de um produtor a outro”, alerta Vianna.

O que o estudo conclui, e isso é muito bom, mas está longe de colocar o merlot nacional no pódio mundial, é que é “os vinhos brasileiros são capazes de competir em termos de qualidade com outros países no mercado britânico”. O estudo relativiza, porém, os resultados: “Levando-se em conta a proporção de vinhos do Brasil e do resto do mundo provados na degustação, os oito melhores colocados representam 47% do total  de rótulos nacionais contra 20% de exemplares de outros países”. Vale lembrar ainda que na avaliação geral, nenhum rótulo foi considerado excepcional (outstanding) pelos degustadores. Ou seja, a qualidade geral não era de recordistas mundiais, mas de medalhistas regionais, até pelo corte de preço.

Avaliação detalhada
O fundamentado estudo de Vianna contou ainda com uma avaliação técnica da degustação que revelou tanto as qualidades como as fragilidades do produto nacional. Alguns pontos  levantados pelo estudo:

1. Pelo menos quatro vinícolas produzem vinhos de boa qualidade.

2. Os vinhos  foram considerados de boa estrutura, altos níveis de acidez e álcool moderado. São fáceis de beber, sem excesso de frutas, e complexidade moderada, mais semelhante a um estilo europeu do que do novo mundo. (Comentário deste Blog: O que demonstra que temos uma identidade, que merece ser respeitada pelos vinicultores…)

3. Altos níveis de acidez foram detectados na maioria dos exemplares.  Em alguns casos a acidez foi avaliada como refrescante e balanceada. Na sua maioria, porém, foi considerada excessivamente elevada.

4. Na média foi apontado um mau uso da barrica, com problemas de higiene, qualidade da madeira ou ainda detectado excesso de exposição do vinho aos seus efeitos.  O uso da madeira no atual estágio da viniculura nacional foi comparado ao dos vinhos da Rioja (Espanha) e de Chianti (Itália) de vinte anos atrás.

5. o estudo identificou sete pontos principais que merecem a atenção dos produtores do Vale dos Vinhedos: escurecimento precoce do vinho, falta de maturação e  pouca concentração de fruta, elevados índices de acidez, problemas de manuseio de sulfito, excesso de extração e mau uso de barricas.

Por que merlot e não espumantes?
Cabe a pergunta, certo? Nossos espumantes afinal não conquistam medalhas para lá e para cá em diversos concursos internacionais? Para Vianna a decisão foi pragmática: “Haviam duas alternativas: fazer algo relacionado aos vinhos espumantes ou vinhos da variedade merlot. Como o consumidor brasileiro parece ter preferência por tintos, e também pelos benefícios à saúde, decidi seguir esse caminho.” Vale acrescentar que a merlot é a uva mais plantada entre as variedades de vitis vinifera do Vale dos Vinhedos (dados da Aprovale, 2008)

Merlot  112,5 ha
Cabernet Sauvignon 106, 3 ha
Cabernet Franc 42,2 ha
Chardonnay   31,4 ha
Riesling Itálico 26 ha
Tannat  24 ha

A escolha da merlot significa que esta é a uva com maior potencial no Brasil?
Muitos enólogos e entendidos apostam na merlot como “a uva” nacional, incluindo o consultor globalizado Michel Rolland. Mais uma vez, Vianna pondera: “Eu acho que essa resposta vai levar décadas para  ser respondida com convicção”. E em seguida coloca o dedo na ferida: “Se o produtor tiver força de vontade, determinação e disciplina eu acho que é possível fazer vinhos de boa qualidade, mas eles devem diminuir o rendimento para no máximo 1.5 quilo por planta”. Vianna, no entanto, identificou dificuldades no processo após visitar grande parte dos produtores em três longas viagens ao Vale do Vinhedos. “Não é fácil mudar a mentalidade dos produtores nesse sentido”.

Noves fora?
O estudo de Dirceu Vianna traz uma ótima notícia para o vinho nacional, mas o caminho ainda é longo, exige investimentos e mudança de mentalidade. Mesmo superando rótulos conhecidos do Chile e da Argentina na tabulação final da degustação, Vianna acha  difícil, por exemplo, o vinho brasileiro conseguir disputar de igual para igual o mercado internacional – e seu estudo tinha este objetivo, avaliar as possibilidades de nosso produto no mercado inglês, é sempre bom lembrar. “Tanto o Chile quanto a Argentina avançaram a passos largos nas últimas duas décadas. Um dos motivos foi a ajuda de consultores com experiência internacional. As vinícolas brasileiras deveriam seguir o exemplo – a Miolo é uma exceção. Eu não sei se é timidez, arrogância ou o fato de não querer investir, mas de qualquer forma é uma falsa economia”. A avaliação é seguida de uma previsão. Vianna não tem dúvidas: “Eu tenho certeza que o mercado de vinho no Brasil vai crescer muito nos próximos anos.”

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terça-feira, 25 de maio de 2010 Livros | 12:28

Os melhores vinhos do Chile, da Argentina e do Brasil

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Edição 2010

Descorchados 2010
Guia de Vinhos de Argentina, Brasil e Chile
Patricio Tapia
Degustadores: Jorge Lucki, Fabrício Portelli e Hector Riquelme
Editora Planeta
RS 120,00/R$ 150,00

Responda rápido: qual o melhor vinho do Chile, da Argentina e do Brasil? Difícil? Pois  quatro mosqueteiros da degustação – profissionais das taças meio cheio e meio vazias – levaram ao pé da letra o titulo do guia que editam  (Descorchados) e chegaram nesta resposta. Para isso desarrolharam mais de 2.000 amostras de vinhos sul-americanos e após uma peneira de 1.387  garrafas selecionadas montaram um painel de 50 rótulos e enfim chegaram a um vencedor: o argentino Catena Zapata DV Catena Nicasia Vineyard Malbec 2003. Os onze primeiros lugares e as surpresas brasileiras da lista você confere no final deste post.

Descorchados: enfim, um guia de vinhos para o mercado nacional

Guia de vinhos tem aos montes. Aqui mesmo neste blog, na seção de livros, é possível encontrar alguns dos títulos disponíveis nas livrarias. A maioria, no entanto, tem uma visão americana ou europeia. Mas o que adianta um guia recheado de indicações francesas, italianas e americanas que raramente você vai encontrar nas prateleiras e na carta de vinhos dos restaurantes e, pior ainda, dificilmente terá dinheiro para comprar?

O Guia Descorchados vem suprir esta lacuna. Comandado pelo reconhecido critico chileno Patricio Tapia, o guia é uma seleção que reúne os melhores vinhos do Chile, da Argentina e do Brasil – aqueles que você encontra nas prateleiras dos supermercados e nas boas importadoras. São exatos 1.387 rótulos recomendados e comentados e uma boa novidade: pela primeira vez é realizada uma avaliação de 86 vinhos nacionais, entre tintos, brancos e espumantes.

Didático e fácil de consultar, o guia organiza os produtores dos três países por cores: azul para a Argentina; verde para o Brasil e bordô para o Chile. Cada produtor é introduzido por um pequeno texto e os vinhos selecionados são empilhados pelo critério de pontuação, com símbolos que indicam seu tipo (branco,  tinto, espumante, rosé ou doce), preço médio e até indicação de boas barganhas. A parte inicial – uma descrição dos vales e vinhedos de cada país e uma descrição das principais varietais e sua melhor combinação com comida – é pura informação, mas o leitor só vai se ater a este conteúdo após folhear as páginas de rankings . Além da já citada lista dos top 50, há outros rankings organizados por variedade de uva e de país. Afinal, concordando ou não, quem resiste a uma lista? O melhor malbec argentino? Noemía; o melhor cabernet sauvignon chileno? Manso de Velasco; o melhor espumante brasileiro?  Chandon Excellence, e por aí vai…

O que a esquerda utópica do final da década de 70 tentou na ideologia Tapia e seus colaboradores conseguiram em um guia, a tal unidade da América Latina, pelo menos no mundo do vinho. Publicado no Chile há treze anos, desde 2008 incluiu no time de degustadores os craques Fabrício Portelli (Argentina) e Jorge Lucki (Brasil). Em um primeiro passo ampliou o leque de opções com garrafas argentinas. Este ano incorporou os produtores brasileiros e o próximo candidato lógico, e anunciado, são os vizinhos uruguaios, que serão incluídos numa próxima edição.

Entre os 50 melhores, 4 brasileiros

DV Catena Zapata

A prova coordenada por Jorge Lucki é feita às cegas – isto é, o rótulo não é mostrado para os degustadores, explica ele no início do guia. Um julgamento desses tem sempre um lado pessoal, mas as listas foram ordenadas seguindo o conhecido critério de pontuação (até 100 pontos), critério este que o próprio Tapia não considera ideal: “As pontuações, muito no fundo, escondem é essa mania ocidental de acreditar que a perfeição existe”, escreve no prefácio, para logo adiante tentar se explicar sobre o  “método Parker” aplicado. “Mas é a única maneira que eu conheço de mostrar a vocês de que vinhos gosto mais, qual prefiro, de até onde vai minha subjetividade neste assunto.” Vamos então ao gosto de Tapia & Cia, extraindo do Descorchados 2010 uma amostra dos onze primeiros colocados. Por que onze? Para registrar o maravilhoso branco chileno Sol de Sol, que tanto aprecio….

1º – Catena Zapata DV Catena Nicasia Vineyard Malbec 2003 – Argentina – importadora Mistral

2º – Caliboro Erasmo Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc 2006 (Maule) – Chile – importadora Casa do Porto

3º – Maycas del Limarí Reserva Especial Syrah 2007 (Limarí) – Chile –Importadora Enoteca Fasano

4º – Ribera del Lago Cabernet-Sauvignon, Merlot 2007 (Colbún) – Chile – Importadora Casa do Porto

5º – Catena Zapata, Nicolas Catena Zapata Malbec 2006 – Argentina – Importadora Mistral.

6º – Casa Marin, Cipreses Vineyard Sauvignon Blanc 2009 (Lo Abarca)– Chile – Importadora Vinea

7º – Concha y Toro, Carmín de Peumo Carmenère 2007 (Peumo) – Chile –  Importadora  VCT

8º – Villard Tanagra Syrah 2007 (Casablanca) – Chile –  Importadora Decanter

9º – Finca La Anita Malbec 2006 – Argentina – Importadora Bodegas de los Andes

10– Morandé, House of Morandé Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc 2006 (Maipo) – Chile– Importadora Carvalhido

11º- Aquitania, Sol de Sol Chardonnay 2007 (Traiguén) – Chile– Importadora Zahil

O jogo é equilibrado. Se entre os primeiros onze colocados o Chile fez mais bonito (8 x 3), na batalha geral dos Andes a Argentina levou 24 posições contra 22 do Chile, restando 4 honrosos lugares ao Brasil.

Pode ser que o bebedor mais requintado sinta falta de ícones chilenos como Almaviva, Chadwick ou Dom Melchor nesta lista. Eles também foram avaliados, fazem parte do guia, claro, mas não chegaram lá… não estão entre os top 50.  Outro ponto que chama a atenção é que a uva syrah está mostrando seu valor em vinhedos chilenos. Isso é muito bom.

Vila Francioni Sauvignon Blanc

Grata surpresa, no entanto, é encontrar quatro produtores nacionais entre os top 50. Surpresa maior é que o rótulo brasileiro melhor colocado no ranking (37º posição) não é um espumante, muito menos um tinto, e sim a branca sauvignon blanc 2009 da Vinícola Villa Francioni, da região de  São Joaquim, em Santa Catarina. Os outros brasileiros classificados sao tintos: 43º Casa Valduga Storia Merlot 2005;  45º Salton Talento 2005; 47º Miolo RAR 2005. Bacana, não?

O melhor das indicações deste guia, porém, é que você vai encontrar tanto os pesos-pesados nas páginas de seus respectivos produtores como muitos dos rótulos do dia a dia que você depara nos supermercados e lojas de vinho – todos devidamente descritos e  pontuados. Enfim um guia pragmático e mais próximo das nossas taças.

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