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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016 Brancos, Tintos, Velho Mundo | 00:59

Vinhos portugueses: o Dão, o Douro e a dor de dente (parte 2)

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Os 50 tons do Douro e seus vinhos importantes

Na primeira parte deste post “Vinhos portugueses: o Dão, o Douro e a dor de dente (parte 1)”, o relato chegou até a região do Dão e contou a prova de tintos, brancos e um rosé realizada no Solar do Vinho do Dão. Não leu? Clica ali em cima e dá uma olhada. Na abertura da primeira parte, tentei resumir a viagem a Portugal numa frase que cabe em  um Twitter: “Os vinhos do Dão são elegantes, os do Douro, importantes, e dor de dente… ah isso ninguém merece.” Nesta segunda parte, voltamos ao giro pelos vinhedos e vinhateiros portugueses, mas agora a bússola está apontada para a região do Douro – um lugar que reúne história, diversidade, beleza e vinhos deliciosos. E a dor de dente? Eu esclareço no final.

 Os 50 tons do Douro

Numa escala de 0 a 100, como medem os críticos em suas pontuações de vinhos, a paisagem do Douro alcança fácil a nota máxima. Se o conceito de terroir é junção da geologia, da geografia, do clima e da ação do homem no vinhedo, o Douro é uma confirmação de sua existência. As colinas se sobrepõem em camadas, numa cadeia de elevações e declives que  lambem as margens do Rio Douro. As videiras são plantadas em terraços esculpidos no solo xistoso e talhados pela mão do homem durante séculos a fim de domar as características do terreno e evitar a erosão do solo. O sol atinge de maneira diversa as uvas de acordo com a posição em que são plantadas as videiras neste terreno sinuoso e ao mesmo tempo deslumbrante. Para os visitantes motorizados, o conselho “se dirigir não beba” é quase um redundante apelo à sobrevivência, pois mesmo sóbrio, as curvas, descidas e subidas são um desafio até para o motorista mais atento. Arrume, pois, um motorista, contrate um táxi, pois é impossível não beber no Douro. O Douro é importante, é imponente e produz vinhos espetaculares.

O Douro em 10 destaques

marco-pombalino1. O Douro é a primeira região demarcada de vinho do Mundo. Foi criada em 1756, por iniciativa do Marques de Pombal, que visava equilibrar o déficit do Estado com a venda do vinho do Porto, que já conquistara um mercado global importante no período. Entre 1757 e 1761 marcos de granito – conhecidos como marcos pombalinos (veja foto) – foram colocados nos terrenos do Douro para delimitar geograficamente a região.

2. É no Douro que estão os vinhedos dos vinhos do Porto, mas é em Vila Nova de Gaia, cidade vizinha ao Porto, onde se encontram os grandes armazéns que envelhecem os Portos de marcas mais conhecidas como Taylor’s, Graham’s, Down’s, Warre’s, Symington, Adriano Ramos Pinto, Croft, Kopke, Niepoort, Sanderman, Offley, etc. A razão é histórica e cartorial: até 1982 só era permitido comercializar o vinho do Porto através do entreposto de Gaia, o que obrigava os pequenos produtores a vender sua produção às grandes empresas. A partir de 1986 foi autorizada a exportação do vinho do Porto diretamente da Região Demarcada do Douro (RDD), permitindo que novos players entrassem neste mercado. Mesmo assim Gaia concentra a grande produção, leva a fama e está preparada para receber os turistas. Estando no Porto, é obrigatório visitar uma das grandes casas produtoras e fazer uma degustação dos vinhos.

3. A principal ligação da cidade de Gaia à do Porto é uma ponte de ferro – confesso que tenho uma certa vertigem de atravessá-la a pé – construída por ninguém menos que Gustave Eiffel, aquele que espetou a torre que levou seu nome em Paris e que virou símbolo da cidade.

4. A produção de vinhos no Douro guarda muitas tradições. Ainda é comum a pisa das uvas ser realizada com pés descalços em grandes tanques de pedra (conhecidos como lagares). Parece pouco higiênico, mas na verdade é um instrumento perfeito para esmagar as uvas e extrair das cascas todo seu valor fenólico, já que a pisa pé não tritura as sementes, o que resultaria em amargor para o vinho. Trata-se de um trabalho hercúleo que já é substituído em alguns casos por pisadores hidráulicos que simulam a pisada humana.

5. São vários os tipos de vinhos do Porto. Desde o Branco até os tintos que variam de potência e idade: Tawny (declaro desde já que são os meu prediletos), Ruby, Vintage (engarrafado apenas nos melhores anos), Colheita (produzidos em um único ano).

6. Desde 2001 o Alto Douro é reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial da Humanidade. Demorou, eu diria.

7. A região é dividida em três áreas: Baixo Corgo, Cima Corgo e Douro Superior.

8. Se Portugal se caracteriza pela variedade e pela mistura de suas uvas nativas, é no Douro que a expressão “tudo junto e misturado” é a mais verdadeira. Muitos dos vinhedos são tão mesclados que os proprietários não se dão ao trabalho de identificar cada espécie plantada. Outros fazem um amplo trabalho de pesquisa e classificação de cada videira e as substituem por seus pares para manter a mesma mescla todos os anos.

9. Se o vinho fortificado do Porto é uma exclusividade do Douro, os tintos de mesa ganham cada vez mais adeptos. A história começa com o Barca Velha, criado em 1952, na Casa Ferreirinha. Mas a projeção dos vinhos de mesa – mais tintos do que brancos – ganha dimensão e pompa com o advento dos Douro Boys. Ali pela década de 90 um talentoso grupo de enólogos e proprietários se uniu e usou o marketing para mostrar os caldos de excelência que produziam na região. Deu muito certo. E hoje alguns de seus rótulos são premiadíssimos – e caríssimos.

10. Falar de Douro é falar de xisto, o tipo de granito que predomina no solo dos melhores vinhedos e que absorve e posteriormente irradia o calor e dá um caráter único aos vinhos da região.

 As vinhas, a chuva e os vinhos

Os vinhos do Douro fizeram parte da viagem desde o início até seu final, tanto em restaurantes de Lisboa como em outras provas, mas bebê-lo em seu berço é aquela experiência que explica o produto sem necessidade de bula. A chuva que nos castigou no Dão não nos abandonou no Douro. A dor de dente (ahá!) que estava tímida até então, e que não mereceu entrar na narrativa até agora, começou a mostrar (literalmente) suas garras – mas esta história eu detalho mais abaixo para não avinagrar o vinho que vem a seguir.

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Este colunista e o companheiro de viagem Water Tommasi, do Blog Tomassi no Vinho,  na piscina de fundo infinito da Quinta do Crasto: a foto inevitável

Crasto e a Quinta dos Avidagos

A Quinta do Crasto – que muito gente insiste de chamar do Castro, o que não é de todo errado pois está na origem do nome latino “castrum”, que significa “forte romano” -, tem um visual deslumbrante. Mesmo que seu interesse por vinho seja baixo (duvido, se não não estaria aqui), a visita à vinícola é um colírio para os olhos. É um chavão, mas é um cenário de cinema. A propósito, uma novela portuguesa estava sendo gravada ali. A adega e casa principal ficam no cocuruto do Cima Corgo com vista para as colinas recortadas pelos terraços de vinhedos e divididas ao meio pelo majestoso Rio Douro. No ponto mais alto da propriedade, uma piscina com fundo pra lá de infinito foi projetada criando a ilusão de que suas águas escorrem pelas montanhas de encontro ao rio. Uma foto ali é quase uma obrigação. A Quinta do Crasto mistura tradição e tecnologia. Faz uma espécie de BigData de suas videiras, com uma rastreabilidade total dos vinhedos (70 hectares), com registros de quem colheu, quando, quanto, em que período etc. A Vinha Maria Tereza, onde são cultivadas as uvas para o vinho de mesmo nome, por exemplo, reúne cerca de 49 variedades de uvas no seu terreno que são classificadas e identificadas. Conhecidíssimos no Brasil (a família Roquete, proprietário do Crasto, já morou no Rio de Janeiro e tem uma importadora exclusiva, a Qualimpor, que cuida de seus rótulos e dos alentejanos da Herdade do Esporão), têm uma legião de seguidores e consegue emplacar tanto tintos do dia-a-dia como joias da coroa com preços idem. De uma degustação dos seus rótulos mais vendidos, realizada junto ao enólogo Manuel Lobo de Vasconcellos, destaco duas ampolas abaixo

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Crasto Superior Branco 2014
Uvas: Verdelho e Viosinho

O Crasto Superior tinto é belo vinho que acompanha bem as refeições. Há pouco tempo ganhou sua versão de uvas brancas. Manuel Lobo Vasconcellos queria um branco que mesmo passando pelo processo de “Battonage”, que mantém o caldo em contato com as borras, se caracterizasse pelos aromas florais e cítricos. E na boca se revelasse um frescor gastronômico. Boa alternativa de um Douro branco mais acessível.

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Quinta do Castro Reserva Vinhas Velhas 2013
Uvas: São de 25 a 30 uvas nativas do Douro de vinhas de mais de 70 anos de idade

Concentração e complexidade aromática definem este que para mim é uma das melhores expressões do Douro, e em especial da Quinta do Castro. Tem nariz, boca e profundidade. Macio e longo. Boa integração com a barrica. Se tiver oportunidade de provar safras mais antigas vai constatar o potencial de envelhecimento. Um Douro que define a região. Em 2012 recebeu 92 pontos do site de  Robert Parker.

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Rui Nunes Matos na sala de grandes toneis da Quinta dos Avidagos

 Já a Quinta dos Avidagos, fica mais abaixo, próxima ao Rio Corgo, vizinha à belíssima Quinta do Vallado, onde tive a oportunidade de me hospedar em uma viagem anterior com minha mulher. É uma vinícola também familiar mas com uma estrutura menos tecnológica. São quatro quintas distribuídas num raio de 5 quilômetros. Rui Nunes de Matos está à frente da gestão do negócio. Ele e sua esposa não mediram esforços para nos receber e abriram sua sala de jantar e casa para nossa prova e estadia. Se fosse jurado numa escola de samba dava 10 para o requisito simpatia e generosidade para o casal. Foram fornecedores de uvas para outros produtores até 1996, quando lançaram seu primeiro rótulo. A linha mais básica tem um viés claro para agradar o mercado internacional – o sobrinho Pedro estava na China comercializando um grande lote de vinhos durante nossa visita. Será que os chineses vão consumir todo o vinho do mundo? Da gama dos rótulos provados há uma aposta em vinhos um pouco mais carregados nas tintas e na potência, ao gosto do novo freguês. Mas um rótulo especial se diferenciou e a mim, pelo menos, mostrou melhor o potencial do Douro, e da quinta. É deste que falo abaixo:

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Quinta dos Avidagos – Quinta do Além Tanha Grande Reserva 2008
Uvas: Touriga Nacional, Tinta Amarela, Tinta Roriz, Tinta Cão e Sousão

Provenientes de vinhas com mais de 60 anos de idade, é um típico representante do Douro: bem estruturado, integrado com madeira (14 meses), taninos bem macios e uma boa fruta madura em boca. Um vinho mais quente. A fruta se sobressai. A  mescla contribui para uma maior variedade de aromas e sabores.

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Todas as cores do Douro nos vinhedos de Alves Souza

Domingos Alves de Souza – Quinta da Gaivosa

Perfilar Domingos Alves de Souza é criar correlações entre o homem, sua terra e sua obra. Este engenheiro que virou vinho – e sua bela família – é de uma cordialidade, simplicidade e dedicação aos vinhos do Douro que cativa. A beleza de seus vinhedos, sua visão empresarial e a qualidade de seus brancos, tintos e fortificados fascina. Domingos Alves de Souza é um personagem. Eleito produtor do ano em 1999 e 2006, nos recebe pessoalmente. Domingos exibe cabelos e bigodes brancos, e veste um casaco pesado que protege da chuva e do vento frio – esta que nos acompanha todos os dias. Com muita energia e disposição nos guia em sua SUV percorrendo – com alguma ousadia – parte dos 134 hectares de vinhedos que foram herdados do avô e do pai e posteriormente aumentadas com novas aquisições. Uma montanha-russa de subidas e descidas íngremes que ele enfrenta sem parar de falar um minuto, um olho nos convidados e outro na estrada. O cenário é um espetáculo de cores – as folhagens das parreiras exibem aquela transição das estações, criando uma aquarela de tons amarelos claros e escuros, avermelhados e verdes, como da foto acima. De volta ao ponto inicial fazemos uma visita às modernas instalações da adega. Tudo ali é projetado em benefício da vinificação: condução por gravidade, espaços com iluminação natural e uma espécie de torre de controle onde os enólogos e técnicos podem observar toda a cadeia de produção, da chegada e seleção das uvas à fermentação e guarda em barricas. O próprio Domingos Alves Souza nos serve os goles dos vinhos, uma seleção de primeira que destaco os seguintes rótulos.

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Vale da Raposa Reserva 2011
Uvas: Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinto Cão, Touriga Franca

Esta quinta foi adquirida de um vizinho após muita negociação e trouxe o benefício de um caldo mais acessível. Tem aromas bem marcantes, frescor das uvas do Douro e muita tipicidade. O belo tinto para começar a amar o Douro.

 Personal

Alves de Sousa – Pessoal 2006
Uvas: são 10 castas autóctones (nativas) brancas.

Um dos grandes brancos provados nesta viagem. O vinho foi lançado apenas em 2015, 9 anos após ser produzido. Quem já bebeu o chamado “vinho laranja” vai identificar seu DNA nesta garrafa. As tais castas nativas estão sendo classificadas, mas são provenientes de vinhas velhas e por um processo oxidativo em que a vinificação é feita com as cascas das uvas. O resultado, óbvio, é de aromas mais puxados para um oxidativo que dá profundidade e longevidade ao caldo. Toques de mel e doce de frutas brancas.  Maravilhoso, onírico.

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Quinta da Gaivosa 2009
Uvas: Tinta Roriz, Tinto Cão, Touriga Franca e Touriga Nacional

É uma das estrelas da casa. Resultado de provas cegas feitas na adega de mais de 20 vinhas que definem a mescla. Segundo Domingos, expressa a identidade de seus vinhos e do Douro “Nossa cara está aqui”. Mantém ainda juventude e frescor, muito macio em boca, com um belo potencial de fruta, especiarias e longo final.

 Loredo

Quinta da Gaivosa – Vinha do Lordelo 2011
Uvas: Tinta Amarela, Sousão e outras uvas

Lordelo é um vinhedo exclusivo de Alves de Sousa recuperado em 2003. Este caldo potente, concentrado, tem muita fruta madura, persistência longa, um aroma profundo das frutas negras e boa presença da madeira. Vinho de macho, que prima pela potência mas com estrutura, acidez, e fruta negra madura bem saborosa, e não excessiva, o que é muito importante. Complexidade dada pelo solo de xisto, e muita persistência no final. Um vinho de contemplação, até por que não é nem um pouco barato (mais de 600 reais no Brasil).

Importador no Brasil: Decanter

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Domingos Alves de Sousa e sua mulher Lucinda: recepção calorosa e ambiente familiar

Após a prova dos vinhos, uma refeição, preparada por sua amável esposa, Lucinda, foi servida na sala de jantar da casa onde mora a família Alves de Sousa.  Ali continuamos a beber seus vinhos, acompanhado de uma comida caseira e deliciosa. Acolhidos, juntos à família, jogamos conversa fora. E vinho para dentro. Uma foto de todos reunidos na varanda da casa finalizou a visita. A viagem tinha de continuar.

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Essas uvas um dia estarão engarrafadas em um Porto

Quinta Santa Eufêmia

A história é uma narrativa que nem sempre se vivencia. Deparar com um marco pombalino, o de número 27 de 1756, delimitando a região do Douro, é testemunhar a história de alguma forma. Perscrutar a capela que funcionava como um farol para o Rio Douro na época que suas correntes eram mais selvagens, deparar com a primeira nota de venda de vinho do Porto de 1864 e fotografar um lagar de granito com mais de 100 anos e ainda em uso é respeitar e compreender o conceito de tradição. A Santa Eufêmia é um negócio que está na família há quatro gerações. São 45 hectares de vinha, às margens Sul do Rio Douro, onde também são cultivados legumes e frutas. As oliveiras plantadas, além do seu uso mais óbvio, delimitam o terreno com os vizinhos. Apesar de ter vinhos de mesa em seu catálogo o forte são os Portos. Quem nos guia por esta volta ao passado é uma senhora da família, mas que há pouco tempo se dedica inteiramente ao negócio. Falha deste repórter, não anotei seu nome.

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Lagar de granito de mais de 100 anos

Primeira impressão é que seríamos prejudicados pela ausência do responsável pelo marketing tratado para nos receber. Mas simplicidade não significa desconhecimento. Recebemos uma aula sobre o lugar, sua história, sobre as características dos vinhedos e do processo de produção dos vinhos. “Na adega só trabalham mulheres, elas são mais detalhistas”, comenta para depois entregar um motivo mais prático “e também são mais cuidadosas no manuseio das máquinas. Isso é importante. Estamos no fim do mundo, uma avaria numa máquina leva muito tempo para ser reparada”, conclui. Aliás a presença das mulheres é uma constante aqui. A enóloga-chefe, Alzira Viseu de Carvalho, começou a produzir vinhos aos 7 anos de idade, num tempo em que o politicamente correto não exercia função de polícia dos costumes. É servida uma sequência de tintos de mesa, seguidos de fortificados, mas ela não prova nenhum deles. O motivo é comovente. Ela não consegue provar e cuspir o vinho tamanha adoração que tem pelos caldos, em especial os fortificados; não vê sentido, apesar de compreender que uma prova de vários rótulos por especialistas seja seguida pela devolução do líquido e não a absorção de todo álcool. Tendo a concordar um pouco com ela. Os Tawnys e o Colheita 2004 eu acabei tomando tudo, não devolvendo nada para o baldinho em cima da mesa.

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Quinta Sta Eufêmia – Tawny Branco 30 Years Old White
Uvas: Vinhas velhas com Malvasia Fina, Rabigato, Gouveio e uma parcela de vinha com mais de 50 anos de moscatel Galego.

Numa degustação às cegas os Portos brancos de 20, 30 anos lembram muito os Porto Tawny tinto, tanto na cor dourada característica desta bebida com o passar dos anos como até nos sabores e aromas de frutas secas, amêndoas, mel. Eles vão ganhando uma mesma pegada de complexidade. Talvez para conhecedores mais apurados, o Tawny branco tenha uma delicadeza maior no palato e um nariz mais persistente. Confesso que sempre me confundi. E aprendi a apreciar sua magistral evolução. Espetacular

 

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 Quinta Sta Eufêmia 20 Years Old Twany
Uvas: Tinta da Barca, Mourisco Tinto, Tinta Barroca, Tinta Roriz e Touriga Francesa.

O Tawny com idade declarada é uma seleção de portos diferentes com uma média de idade igual ou superior a 20 anos que confere seus estilo. O Tawny me fascina tanto pela cor castanho, como pelos aromas delicados de frutas secas, tâmara e mel. E principalmente pelo fim de taça. Aquelas aromas que ficam flutuando no fim do copo que mostram o potencial do bichão. O envelhecimento é feito lentamente em barricas com mais de 50 anos, que confere maior complexidade ao caldo. Uma joia.

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Sta Eufêmia – Colheita 2004
Uvas: tradicionais do Douro, Tinta Roriz, Touriga Nacional, Tinta Amarela, Mourisco Tinto, Touriga Franca, Bastardo. Vinhas Velhas com mais de 50 anos

É um vinho uma só colheita cuja comercialização é permitida apenas a partir do 7º ano. O que me atrai no estilo colheita é que ele é mais próximo do Tawny, na complexidade dos sabores, aromas e no persistência. Dourado escuro, para mim apareceram mais aromas de casca de laranja, damascos, as inevitáveis frutas secas.

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Dor de dente

Conforme prometido, aqui vai a o relato da dor. Só nos lembramos de nossos dentes quando vamos escová-los. Ou quando eles começam a incomodar. Eu me lembrarei dos meus para sempre quando recordar esta viagem para Portugal. Alguém com maior talento já deve ter descrito melhor uma dor de dente, mas defini-la como a antessala do inferno não é de todo impreciso.

Aconteceu de sentir um pequeno incômodo logo no segundo dia de viagem, à noite. Tomei uma aspirina. Tolinho. Daí em diante a dor vinha e voltava com graus variados de tensão. O vilão foi o incisivo lateral superior da direita, aquele dente que fica entre o incisivo central e o canino, que começou a latejar sem dó ou piedade. Sônia Vieira, nosso anjo da guarda da ViniPortugal, sugeriu um antiinflamatório. Resolvia. Por algumas horas. Mas claro que de madrugada a dor voltava, avisando que o lado negro da força estava sempre ameaçando meu sossego. Tomava outro comprimido e depois de um tempo parecia que alguém tirava a dor com a mão.

“E por que você não foi a um dentista?”, você pode se perguntar. Por que estava numa viagem recheada de compromissos, que passava por cidades pequenas e eu tentava pesar os prós e contras de me arriscar em um consultório desconhecido. Me iludi com os períodos de calmaria camuflados pelo medicamento. Algumas provas de vinho foram prejudicadas pela dor que ia invadindo meu raciocínio e minha noção de tempo; outras provas tinham efeito anestésico: amenizavam a dor. Mas aos poucos aquele arpão invisível voltava a espetar o interior do meu dente e alcançar a gengiva com seu ferrão.

Ao sair do Porto, após me deliciar com vintages e tawnies, o destino era a região dos vinhos verdes (tema do próximo post). O caminho até a Quinta da Lixa era um misto de pequenas estradas vicinais e finalmente uma autoestrada. Foi naquele momento que a dor atingiu o limite máximo do suportável, expalhou para todos os dentes de trás. Toda bancada da arcada dentária se revoltou e entrou com um pedido de impeachment do dente causador da tragédia bucal. Sofri calado, com galhardia, suando frio. O sertanejo é antes de tudo um forte! Quando notei que íamos passar por um cidade maior, Amarante, vislumbrei que a necessária e urgente ida ao dentista tinha mais chances de dar certo. A bem da verdade nesta altura do campeonato me consultaria até com um veterinário (sem piadas, por favor) na vila mais tristonha de Portugal.

Ao chegar ao hotel Monverde, no início da noite, o enólogo chefe da Quinta da Lixa, Carlos Teixeira, nos aguardava e eu baixei a guarda e clamei pela indicação de um profissional. Acho que meu rosto estava transtornado, meio bouchonée, e ele conseguiu agendar uma consulta para a manhã seguinte na própria vila que nos encontrávamos.

Doutor Luis Filipe, da Clínica Médica Jardim da Lixa, diagnosticou o problema: um canal mal resolvido tinha inflamado, bactérias invadiram os espaços ocos e tomaram conta da região num ataque terrorista que tirou a paz daquele território. Uma dor que iniciou tímida na Bairrada, ficou mais atrevida no Dão e rasgou a fantasia no Douro encontrou finalmente o exército da salvação na região do Minho, do Vinho Verde. Acho que agora está explicado o título deste post e a frase inicial: Os vinhos do Dão são elegantes, os do Douro, importantes, mas dor de dente… ah isso ninguém merece. Não podia deixar de registrar!

No próximo post: Vinhos de Portugal: Verde que te quero Ver-te.

Nota: a viagem a Portugal foi patrocinada pela ViniPortugal, organização que representa o setor vitivinícola português e promove os vinhos de Portugal.

 

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segunda-feira, 30 de novembro de 2015 Degustação, Porto, Velho Mundo | 01:48

É um vinho português, com certeza!

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Douro: não existe lugar nem vinho igual no mundo

Há uma assinatura que distingue o vinho português. Um traço que identifica a bebida. Fácil de perceber, mais difícil de explicar. Uma viagem percorrendo os vinhedos de Portugal, conversando com seus produtores e experimentando os seus  vinhos –  acompanhado da gastronomia local – deixa tudo mais claro: “É a diversidade, estúpido”. A diversidade está expressa nas mais de 250 castas nativas (algumas de nomes curiosos, que fazem a festa dos cronistas), nas 14 Indicações Geográficas e nas 28 DOCs (Denominação de Origem Controlada) que cobrem este país de apenas 92.090 quilômetros quadrados, menor que o estado de Santa Catarina, que tem 95.346.

Cerca de 8% do território é coberto por vinhedos em regiões como Lisboa, Alentejo, Bairrada, Dão, Vinho Verde, Porto e Douro e até as ilhas distantes de Açores e  Madeira, para ficar apenas naquelas mais conhecidas dos brasileiros. O vinho representa hoje para Portugal 1,5% do valor total de exportações do país. E o Brasil é um mercado importante – e tradicional – para escoar esta produção toda. No Brasil, Portugal participa de uma fatia consolidada deste bolo, revezando com a França o terceiro e quarto lugares no ranking dos países que mais exportam para cá.

 Amor-não-me-deixes ou Esgana Cão?

Portugal tem um patrimônio genético na variedade de castas (uvas) que não encontra paralelo em lugar algum do mundo – nem mesmo na Itália que também é pródiga de uvas nativas. São mais de 250 castas identificadas (algumas como pequenas variações, claro). Ao contrário da uvas francesas, e em certa medida as espanholas e italianas, as variedades portuguesas ficaram meio isoladas e não se espalharam pelos vinhedos do novo mundo na velocidade e protagonismo de uma cabernet sauvignon, merlot, syrah, chardonnay, sauvignon blanc, sangiovese ou tempranillo. Mas aquilo que beneficia, também dificulta. Não é fácil para um consumidor americano, por exemplo,  pronunciar nem mesmo as uvas mais conhecidas como Touriga Nacional, Castelão e Fernão Pires, imagina então nomes como Carrega Burros, Pé Comprido, Sousão, Amor-não-me-deixes ou Esgana Cão?

 As 10 mais

vinhas250 é um número enorme, a maioria das uvas é de produção tão reduzida que nem mesmo os maiores especialistas da terrinha as reconhecem. Conhecer as 10 mais importantes já permite um belo panorama desta diversidade. São elas que você irá encontrar com maior frequência descrita nos rótulos e contrarrótulos portugueses (a propósito, os descritivos dos contrarrótulos portugueses são em geral bastante detalhados nos descritivos do vinho, vale sempre uma passada de olhos)

  •  BRANCAS

Alvarinho – Apesar de não ser sinônimo de Vinho Verde, é  responsável pelos rótulos de mais alta qualidade desta região. São minerais, aromáticos (cítricos, como limão,  frutos tropicais) e com ótima acidez. Trata-se de uma uva branca com um bom potencial de envelhecimento, tem boa estrutura e maior persistência. Com mais tempo de garrafa ganha alguns aromas associados ao petróleo (parece esquisito mas não é), semelhantes à alemã riesling. Na vizinha Espanha é conhecida como Albarinho

Arinto (Padernã) – Não bastassem as tais mais de 250 castas, algumas delas ganham nomes diferentes em cada região. Espalhada por Portugal, a Arinto é conhecida como Pedernã na região dos Vinhos Verdes. Produz vinhos  com aromas de maçã e pera, quando novos. Tem boa acidez. Proporciona frescor quando misturada a outras uvas. E funciona bem para espumantes.

Encruzado – A casta produz brancos mais intensos e tem uma boa sinergia com o estágio em madeira, própria para caldos com mais corpo e estrutura, beneficiando-se com o tempo na garrafa. Cítrico e floral quando mais jovens, ficam mais cremosos com toques de baunilha quando fermentados em barricas de carvalho. É mais representativa na região do Dão.

Fernão Pires (Maria Gomes) – A Fernão Pires, uma das castas mais antigas de Portugal, tem uma pegada mais leve, frutada e bastante perfumada (se achar que está diante de um moscatel, a impressão é essa mesma). Também usado para espumantes. Encontrada em vinhos de Setúbal, Tejo, Lisboa e Bairrada.

TINTAS

Baga – A Baga tem uma maturação tardia e é difícil de domar. Legal, mas o que isso significa? Que os taninos podem chegar rasgando se não forem bem tratados. São caldos que se beneficiam, portanto, do envelhecimento e agradecem quando cuidadas por um enólogo competente.  Aromas de cereja, ameixa quando mais jovens e ervas e tabaco quando mais vetustos. Sua origem é a Bairrada (Leitão da Bairrada com um Baga é uma combinação clássica entre a culinária local e o vinho da terra), mas pode ser encontrado no Dão. Nas terras e mãos apropriadas podem produzir vinhos bastante complexos.

Castelão – É a uva mais cultivada de Portugal. Também é conhecida como Periquita, mas este nome está registrado pela casa José Maria da Fonseca, produtora do famosão Periquita. Produz tanto vinhos fáceis de beber como aqueles mais intensos e potentes, que se beneficiam do envelhecimento em barris de carvalho. Cultivada mais ao sul de Portugal, em especial  na região da Península de Setúbal.

Touriga Franca (Touriga Francesa) – Umas das cinco castas oficiais do vinho do Porto, muito comum nos cortes dos tintos do Douro, é a casta mais plantada na região. É uva corante, ou seja, dá muita cor ao vinho. Comparada à parceira Touriga Nacional (abaixo), é mais leve e  aromática. É uma casta que mostra mais ao que veio nos vinhos de corte e nos Portos Vintage. Apesar do título de francesa não tem qualquer origem relacionada à França.

Touriga Nacional – Hoje em dia é uma espécie de porta-bandeira da vinicultura portuguesa. Originária da região do Dão (onde proporciona caldos mais elegantes), é importantíssima para a elaboração do vinho do Porto e aqui no Brasil se notabilizou em conhecidos vinhos de mesa do Douro em carreira-solo ou mesclada. Apesar da fama, ocupa pouco espaço nos vinhedos do Douro. Aporta vinhos de muita cor, extração, aromas nítidos de violeta (às vezes exagerado), frutas negras e um baita potencial de envelhecimento. Apelando um pouco, pode-se dizer que a Touriga Nacional é o Cabernet Sauvignon de Portugal, pelo espaço ocupado, pela adaptação às várias regiões e pelo estilo dos vinhos mais encorpados e que ganham com o envelhecimento em carvalho.

Trincadeira (Tinta Amarela) – Conhecida na região do Douro como Tinta Amarela, a Trincadeira é importante nos cortes da região e é ótima parceira da Aragonez (no Alentejo) e da Touriga Nacional (no Douro).  Apresenta aromas de especiarias, ervas, alto teor alcoólico e boa acidez. No Alentejo a Trincadeira vem mostrando bons resultados em vinhos monovarietais (feitos de apenas uma uva).

Tinta Roriz (Aragonez) –  Já ouviu falar da Tempranillo da Espanha? Pois bem,  Tinta Roriz e Tempranillo tratam-se da mesma pessoa, com nomes regionalizados. A Tinta Roriz é importante casta para o vinho do Porto, para os vinhos do Douro (é a segunda uva mais plantada na região) e para os caldos do Dão. Delicado, elegante, frutos vermelhos, bons taninos e potencial de envelhecimento. Também é bem chegada numa madeira e se beneficia desta amizade. Mais comum em cortes. No Alentejo assume o nome de Aragonez e é boa parceira da uva acima, a Trincadeira.

Tudo junto e misturado

E se a variedade é uma benção que distingue os caldos portugueses do restante do mundo, a combinação destas diversas castas é uma marca registrada de uma boa parcela dos vinhos de boa cepa produzidos em Portugal. São inúmeros rótulos do Douro, do Dão e os Vinhos do Porto que são resultado da mistura destas uvas excepcionais e únicas. Eu diria que o DNA dos vinhos portugueses está na mescla das castas nativas. “Os cortes fazem vinhos muito bons”, diz o experiente Mario Neves, diretor comercial da Aliança – Vinhos de Portugal. Mas arrisco a dizer que o DNA de um vinho português se expressa – e aqui entra a influência do solo e do clima de cada região – mesmo nas garrafas elaboradas de uvas de castas internacionais, como por exemplo o suculento Syrah, do Alentejano Cortes de Cima, criação do enólogo dinamarquês Hans Kristian Jorgensen, ou o Quinta do Bacalhoa, um Cabernet Sauvignon da região de Setúbal, conhecido rótulo dos brasileiros. Acho que existe uma certa adaptação da uvas internacionais ao sotaque do solo português, só pode ser isso.

Navegar é preciso!

De carro é possível, no mesmo dia, almoçar com os delicados vinhos na região do Dão e jantar junto aos mais belos vinhedos do mundo, na  região do Douro. Ou então iniciar o dia com os refrescantes e leves vinhos verdes brancos e finalizar com o Porto provado no final da tarde às margens do Rio Douro, em uma das diversas casas tradicionais do ramo. As distâncias curtas às vezes são dificultadas por caminhos mais sinuosos, que por exemplo serpenteiam os terraços do Douro, patrimônio da humanidade. Não é uma estrada para amadores e não é incomum se perder, mas o cenário é tão esplendoroso que é um se perder para se achar. Afinal, como ensina um poeta da terra, Fernando Pessoa: “Se achar que precisa voltar, volte!/ Se perceber que precisa seguir, siga!/ Se estiver tudo errado, comece novamente! / Se estiver tudo certo, continue.”

lisboa

Degustar vinhos tendo Lisboa a seus pés. A vida tem seu momentos…

Mas a viagem por Portugal pode ser feita também de dentro de um restaurante, aí na sua cidade, ou mesmo num restaurante em Lisboa, às margens do Tejo ou próximo do tradicional e boêmio bairro do Chiado. A minha jornada começou assim, e em duas refeições, antes mesmo de sair em périplo pelos vinhedos, um panorama de Portugal já se descortinava. Alguns destaques:

  • Vinhos provados no Restaurante Vítor Claro – no Hotel Solar das Palmeiras

VINHO VERDE

Alvarinho- JRamos

João Portugal Ramos Alvarinho 2014

Uva: 100% Alvarinho

Um bom começo para conhecer o branco Alvarinho com 20% do mosto  fermentado em madeira, que dá mais intensidade. Ataque floral e cítrico. Acidez na medida certa.

 

DOURO

Duorum

Duorum Reserva Vinhas Velhas 2012

João Portugal Ramos

Uvas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Sousão

Um douro tinto por excelência, de solo de xistoso. Passa até 18 meses em barrica novas e antigas. Uma combinação das uvas Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Sousão, consegue equilibrar corpo com acidez e aporta uma fruta madura e suculenta. Como o nome indica, as uvas são proveniente de vinhas velhas, de mais de 100 anos, de uma parte mais quente do Douro. Em tempo, os primeiros exemplares do Duorum tinham uma carga mais potente e uma madeira um pouco excessiva que parece foi sendo equilibrada com o passar das safras.

ALENTEJO

Marques de Borba

Marques de Borba Reserva 2012

João Portugal Ramos

Uvas: Aragonez, Trincadeira, Cabernet Sauvignon, Alicante Bouschet

Um vinho que representa os tintos do Alentejo, mais potentes, mais quentes (alcoólicos), com muita concentração de fruta e aveludado na boca.  Um chocolate  aparece no final da taça. Vinho mais masculino, se é que existe isso, deve ganhar mais complexidade com o tempo. 14,5% de álcool! Como eu escrevi é Alentejo na veia!

  • Vinhos provados na feira Encontro de Vinhos, em Lisboa

ALENTEJO

Verdelho

Paulo Laureano Genus Generationes Maria Teresa Laureano Verdelho 2014

Uva: 100% Verdelho

Paulo Laureano

Os tintos e brancos de Paulo Laureano são conhecidos por aqui. São quase um sinônimo de vinho alentejano no Brasil. Esta leitura da uva branca verdelho para o solo do Alentejo resulta num vinho afiado, uma acidez marcante,  no fio da navalha, mineral, refrescante, diferente. Um vinho para quem aprecia riscos.

LISBOA -BUCELAS

Moragdo

Morgado de Santa Catherina – reserva 2013

Uva: 100% Arinto

Aqui a casta branca Arinto mostra seu valor quando fermentado em barricas de carvalho. De cor dourada, longo, uma fruta mais doce e madura, muito intenso e volumoso e uma acidez que equilibra o jogo.

AÇORES

frei

Frei Gigante – Garrafeira 2011

Denominação de Origem Pico

Uvas: Arinto dos Açores, Verdelho e Terrantez do Pico

Já bebeu um vinho da pequena região de Açores? Eu nunca tinha provado. Deste rótulo aqui provavelmente não provarei mais. Foram produzidas apenas 600 garrafas deste topo de linha, chamado de Garrafeira, que trago aqui mais como exemplo de diversidade em solo português. Também não sabia que seus vinhedos são declarados Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco. Vivendo, provando e aprendendo. Este belo vinho branco é longo, volumoso, bastante aromático e tem um toque salgado (é, existem vinhos com este finalzinho salgado). Uma surpresa de solo vulcânico que passa um pouco da  natureza para o copo

DÃO

kemper

Curiosity 2012

Julia Kemper Wines

Uvas: Alfrocheiro e Touriga Nacional

Os vinhos orgânicos de Julia Kemper são bem-feitos e têm aquele traço terroso comum desta turma “odara”. Tem um perfil franco, de fruta expressiva e gostosa e algo floral nos aromas. A combinação Alfrocheiro e Touriga Nacional pode mudar de acordo com a safra. O detalhe curioso é o marciano que dá um alô no rótulo, explicando o nome Curiosity, do robô que explorou marte no ano de lançamento deste rótulo.

  • Vinhos provados no restaurante Tágide, em Lisboa

BAIRRADA

abibes

Quinta dos Abibes 2012 – Sublime

Uva: Arinto

As 2050 garrafas deste elegante branco foram vinificadas em barricas de carvalho francês e marcam bastante o vinho. Um bom exemplar para quem aprecia brancos de um Arinto influenciados por madeira. Vai bem com um peixe mais gorduroso.

DÃO

uinta do Lemos

Quinta de Lemos – Touriga Nacional 2009

Uva: Touriga Nacional

O Dão foi uma região que conquistou com a qualidade dos vinhos, o que será relatado em próximos posts desta viagem. Aqui a Touriga Nacional em carreira solo proporciona um tinto de boa textura, intensos frutos negros, sedoso na boca. Tem um toque terroso também que agrada.

PORTO

IMG_0366Barros Porto Colheita 1980

Barros, Almeida & Cª – vinhos, S.A.

Uma das mais antigas marcas do Porto, fundada em 1913. Um Porto pode iniciar ou terminar uma refeição. Neste caso ele fechou com chave de ouro. Não é comum em viagem enológicas as garrafas serem esvaziadas.  Há exceções. A excelência deste Porto Colheita (isto é, de uma única safra, no caso 1980, 25 anos passados), com um cor aloirada semelhante aos tawnys de mais idade e aromas de frutas secas, caramelo, creme brûllée, profundidade e elegância em boca nos obrigou esticar a noite e pedir uma tábua de queijos para continuar saboreando este néctar sob uma Lisboa que dormia a nossos pés.

Nota: a viagem a Portugal foi patrocinada pela ViniPortugal, organização que representa o setor vitivinícola português e promove os vinhos de Portugal.

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domingo, 1 de novembro de 2015 Degustação, Velho Mundo | 07:04

50 grandes vinhos de Portugal e algumas escolhas pessoais

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Douro: além de produzir vinhos fantásticos, é lindo de doer

No segundo semestre de 2013, a Vinhos de Portugal – associação que cuida da imagem do vinho português – promoveu no Brasil a segunda versão do evento “50 Grandes Vinhos de Portugal”.  Para esta tarefa convocou o único master of wines do Brasil, Dirceu Vianna Júnior, que mora e trabalha em Londres. Dirceu teve a árdua missão de selecionar entre 500 rótulos portugueses os 50 mais representativos do país. Não é fácil, mas ele traçou um critério que estabeleceu uma linha de corte. “Eu fiz a seleção baseada no gosto do brasileiro e pensando no consumidor”, explica Dirceu. “Mas o ponto principal foi a abrangência e diversidade – há vinhos para todos os bolsos e todos os gostos”. De fato, entre 50 vinhos selecionados há desde rótulos de 26 reais, Aliança Bairrada Reserva, 2001, até um Porto Colheita Burmester, 1963, por 919 reais. “Escolher só vinhos caros seria fácil, mas eu não acho que é preciso pagar uma fortuna sempre que se quer provar um bom vinho”, defende Dirceu.

Você pode achar que é uma jogada de marketing. E é. O objetivo final sempre é vender mais vinho, aumentar o tamanho do mercado. A Vinhos de Portugal  afinal promove os vinhos, ó pá! Mas uma lista destas, preparada com profissionalismo e lisura por um especialista da envergadura de Dirceu Vianna, é no mínimo um bom começo para enfrentar a variedade de rótulos à disposição. Para os conhecedores trata-se de um bom comparativo com suas preferências pessoais, para os iniciantes é uma oportunidade de orientação para aquele momento em que você se vê diante da prateleira real ou virtual de rótulos e precisa escolher uma garrafa para chamar de sua. Talvez falte o vinho do seu coração, aquele do dia-a-dia, mas uma lista deste tipo nunca é uma seleção definitiva.

Na seleção predominam os vinhos do Douro (19 amostras), seguidos dos brancos da região de Vinho Verde (10 rótulos), Alentejo (9 amostras) e Dão (5 garrafas). As demais regiões são representadas com 1 vinho do Dão, 1 de Lisboa, 1 Tejo, 1 Madeira e 2 da Bairrada. Atenção: a ordem numérica é  apenas uma sequência que inicia nos brancos, passa pelos tintos e finaliza com os fortificados. Este colunista não teve nem o tempo nem tem a mesma capacidade do Dirceu Vianna, mas dos vinhos provados resolvi selecionar os meus prediletos (17), que levam o selo  ViG (Vinho Indicado pelo Gerosa). O que não diminui a qualidade de todos os demais, é claro. Como esta semana (novembro de 2015) recebi um convite da ViniPortugal para conhecer de perto a casa desses vinhos, resolvi repassar os olhos nesta lista.

Importante: os preços são de 2013. Em novembro de 2015 as garrafas estão alguns “Dilmas” mais caros.

BRANCOS

1. Covela Escolha Branco, 2012

Produtor: Lima Smith

Região: Vinho Verde

Uvas: avesso e chardonnay

Importador: Magnum Importadora

R$ 145,00

2. Quinta da Levada, 2012

Produtor: Quinta da Levada Sociedade Agrícola

Região: Vinho Verde

Uva: azal

Sem importador

3. Soalheiro, 2012

Produtor: Quinta do Soalheiro

Região: Vinho Verde

Uva: alvarinho

Importador: Mistral

R$ 95,00

4. Quinta de Gomariz Grande Escolha, 2012

Produtor: Quinta de Gomariz

Região: Vinho Verde

Uva: alvarinho, loureiro e trajadura

Importador: Decanter

R$ 80,00

5. Casa da Senra, 2012

Produtor: Abrigueiros – Produções Agrícolas e Turismo

Região: Vinho Verde

Uva: loureiro

Sem importador

6. Tapada dos Monges, 2012

Produtor: Manoel da Costa Carvalho Lima & Filhos

Região: Vinho Verde

Uvas: loureiro, arinto e trajadura

Importadores: Garrafeira Real e Fadaleal Supermercados

7. Muros Antigos, 2012

Produtor: Alselmo Mendes Vinhos

Região: Vinho Verde

Uva: loureiro

Importador: Decanter

R$ 50,00

8. Portal do Fidalgo, 2011

Produtor: Provam

Região: Vinho Verde

Uva: alvarinho

Importador: Casa Flora Ltda

R$ 54,00

9. Muros de Melgaço, 2011

Produtor: Anselmo Mendes Vinhos

Região: Vinho Verde

Uva: alvarinho

Importador: Decanter

R$ 140,00

10. Royal Palmeira, 2009

Produtor: Ideal Drinks

Região: Vinho Verde

Uva: loureiro

Importador: Idealdrinks & Gourmet

R$ 140,00

11. Quinta da Fonte do Ouro Encruzado, 2011

Produtor: Sociedade Agrícola Boas Quintas

Região: Dão

Uva: encruzado

Importador: Adega dos 3

R$ 80,00

12. Morgado de Santa Catherina, 2010

Produtor: Companhia das Quintas Vinhos

Região: Lisboa

Uva: arinto

Importador: Wine .com

R$ 90,00

13. Redoma Reserva, 2011

Produtor: Niepoort (vinhos)

Região: Douro

Uva: rabigatto, codega, donzelinho e arinto

Importador: Mistral

R$ 218,00

14. Conceito Branco, 2010

Produtor: Conceito Vinhos

Região: Douro

Uva: (mistura de vinhas velhas)

Importador: Épice

R$ 180,00

TINTOS

15. Cortes de Cima Trincadeira, 2011

Produtor: Cortes de Cima

Região: Alentejo

Uva: trincadeira

Importador: Adega Alentejana

R$ 152,00

16. Terra D’Alter Touriga Nacional, 2010

Produtor: Terra D’Alter Companhia de Vinhos

Região: Alentejo

Uva: touriga nacional

Importador: Obra Prima Importadora

R$ 50,00

17. Herdade da Pimenta Grande Escolha, 2010

Produtor: Logowines

Região: Alentejo

Uvas: syrah, touriga nacional e touriga franca

Importador: RJU Comércio e Beneficiamento de Frutas e Verduras

R$ 180,00

18. Tinto da Talha Grande Escolha, 2009

Produtor: Roquevale

Região: Alentejo

Uva: syrah, alicante bouschet e touriga nacional

Importador: Adega Alentejana

R$ 56,00

19. Canto X, 2009

Produtor: Herdade da Madeira Velha

Região: Alentejo

Uvas: alicante bouschet e touriga nacional

Sem importador

20. Cartuxa, 2009

Produtor: Cartuxa – Fundacão Eugénio de Almeida

Região: Alentejo

Uvas: aragonez, trincadeira e alicante bouschet

Importador: Adega Alentejana

R$ 135,00

21. Cortes de Cima Reserva, 2009

Produtor: Cortes de Cima

Região: Alentejo

Uvas: aragonez, syrah, petit verdot e touriga nacional

Importador: Adega Alentejana

R$ 477,00

22. Dona Maria Reserva, 2008

Produtor: Julio Bastos – Dona Maria

Região: Alentejo

Uvas:, alicante bouschet, petit verdot e syrah

Importador: Decanter Vinhos

R$ 179,00

23. Conde D’Ervideira Private Selection Tinto, 2008

Produtor: Ervideira, Sociedade Agrícola

Região: Alentejo

Uvas: aragonez, trincadeira e Alicante bouschet

Importador: Intercom Comércio Internacional

R$ 150,00

24. Aliança Bairrada Reserva, 2011

Produtor: Aliança Vinhos de Portugal

Região: Bairrada

Uvas: touriga nacional, baga e tinta roriz

Sem importador

R$ 26,00

25. Vinha Pan, 2009

Produtor: Luís Pato

Região: Bairrada

Uva: baga

Importador: Mistral

R$ 218,00

26. Marquesa de Alorna Reserva, 2009

Produtor: Quinta da Alorna Vinhos

Região: Tejo

Uvas (não divulgado)

Importador: Adega Alentejana

R$ 165,00

27. Julia Kemper, 2009

Produtor: Cesce Agrícola

Região: Dão

Uvas: touriga nacional, tinta roriz, alfrocheiro e jaen

Importador: Gracciano Com. Imp. Exp. Bebidas

R$ 85,00

28. Quinta Fonte do Ouro Touriga Nacional, 2009

Produtor: Sociedade Agrícola Boas Quintas

Região: Dão

Uva: toruiga nacional

Importador: Adega dos 3

R$ 160,00

29. Casa da Passarela Vinhas Velhas, 2009

Produtor: O Abrigo da Passarela

Região: Dão

Uvas: castas autóctones

Importador: Vinica

R$ 139,00

30. Quinta do Serrado Reserva, 2009

Produtor: Sociedade Agrícola Castro Pena Alba – FTP Vinhos

Região: Dão

Uvas: touriga nacional, alfrocheiro e jaen

Sem importador

31. Quinta do Perdigão Touriga-Nacional, 2008

Produtor: Quinta do Perdigão

Região: Dão

Uva: touriga nacional

Importador: Mistral

R$ 229,00

32. Quinta da Bica Reserva, 2005

Produtor: Quinta da Bica Sociedade Agrícola

Região: Dão

Uvas: touriga nacional, alfrocheiro, tinta roriz e jaen

Importador: Gianno Import

R$ 87,00

33. Quinta do Vallado Reserva Field Blend Douro Tinto, 2011

Produtor; Quinta do Vallado Sociedade Agrícola

Região: Douro

Uvas: vinhas velhas de 100 anos e touriga nacional

Importador: Cantu

R$ 185,00

34. Quinta da Casa Amarela Grande Reserva, 2011

Produtor: Laura Valente Regueiro

Região: Douro

Uvas: touriga franca, tinta roriz e touriga nacional

Importador: Winemundi

R$ 440,00

35. Casa Ferreirinha Callabriga, 2010

Produtor: Sogrape Vinhos

Região: Douro

Uvas: toruiga franca, touriga nacional e tinta roriz

Importador: Zahil

36. Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas, 2010

Produtor: Quinta do Crasto

Região: Douro

Uvas: 25 a 30 uvas diferentes de vinhas velhas

Importador: Qualimpor

R$ 160,00

37. Pintas, 2010

Produtor: Wine & Soul

Região: Douro

Uvas: vinhas velhas

Importador: Adega Alentejana

R$ 439,00

38. Poeira, 2010

Produtor: Jorge Moreira Produção e Comercialização de Vinhos

Região: Douro

Uvas: vinhas velhas

Importador: Mistral

R$ 258,00

39. Batuta, 2010

Produtor: Nieepoort (Vinhos)

Região: Douro

Uvas: touriga franca, tinta roriz, rufete, malvazia entre outras

Importador: Mistral

R$ 428,00

40. Passadouro Touriga Nacional, 2010

Produtor: Quinta do Passadouro Sociedade Agrícola

Região: Douro

Uva: touriga nacional

Importador: Adega Alentejana

R$ 214,00

41. Quinta do Pessegueiro, 2010

Produtor: Quinta do Pessegueiro Sociedade Agrícola

Região: Douro

Uvas: touriga nacional, touriga franca, vinhas velhas e roriz

Importador: World Wine

R$ 155,00

42. CV-Curriculum Vitae, 2010

Produtor: Lemos & Van Zeller

Região: Douro

Uvas: variadas

Importador: World Wine

R$ 282,00

43. Quinta de la Rosa Reserva, 2009

Produtor: Quinta da Rosa Vinhos

Região: Douro

Uvas: touriga nacional, touriga franca e tinta roriz

Importador: Ravin

R$ 288,00

44. Chryseia, 2009

Produtor: Symington Family Estates Vinhos

Região: Douro

Uvas: touriga nacional e touriga franca

Importador: Mistral

R$ 412,00

45. Quinta do Noval Touriga Nacional, 2009

Produtor: Quinta do Noval

Região: Douro

Uvas: touriga nacional

Importador: Adega Alentejana

R$ 367,00

46. Quinta do Portal Auru, 2009

Produtor: Quinta do Portal

Região: Douro

Uvas: touriga nacional, touriga franca e tinta roriz

Importador: Wine & Roses / Chaves & Oliveira

R$ 649,00

FORTIFICADOS

47. Bacalhôa Moscatel Roxo, 2001

Produtor: Bacalhôa Vinhos de Portugal

Região: Península de Setúbal

Uva: muscatel roxo

Importador: Portus Cale Exp. Imp.

R$ 173,00

48. Justino’s Madeira Colheita, 1995

Produtor: Justino’s Madeira Wines

Região: Madeira

Uva: tinta negra

Importador: Porto a Porto / Casa Flora

R$ 170,00

49. Graham’s Tawny 30 anos

Produtor: Symigton Family Estates

Região: Douro

Uvas: touriga nacional, touriga franca, tinta barroca, tinta roriz e tinta cão

Importador: Mistral

R$ 639,00

50. Burmester Porto Colheita, 1963

Produtor: Sogevinus Fine Wines

Região: Douro

Uvas: tradicionais do Douro

Importador: Adega Alentejana

R$ 919,00

O vinho português em dois parágrafos

Portugal tem uma área de 92.090 quilômetros quadrados, menor que o estado de Santa Catarina, que tem 95 346. Neste pequeno pedaço de terra do outro lado do Atlântico há vinhedos em praticamente todas as regiões: são 14 indicações geográficos e 29 DOCs (denominação de origem controlada). Para completar a bênção divina o país exibe 250 castas autóctones, ou seja, uvas nativas de Portugal, o que faz toda a diferança no estilo e sabor único de seus vinhos. As mais representativas, para não cansar muito, são: alvarinho, encruzado, arinto, fernão pires (no time das brancas); baga, castelão, touriga franca, touriga nacional, tinta roriz e trincadeira (no grupo dos tintos).

Resumindo: Portugal é um imenso vinhedo: algo como 8% do território é coberto por vinhedos em regiões como Lisboa, Bairrada, Dão, Vinho Verde, Porto e Douro, Alentejo e Madeira, para ficar naquelas mais próximas aos ouvidos e paladares dos consumidores brasileiros. Estima-se que serão produzidos cerca de 6,7 milhões de hectolitros de vinho em Portugal em 2013. E o Brasil é um mercado importante para escoar esta produção toda. Na lista dos maiores exportadores para o Brasil, Portugal só fica atrás dos onipresentes Chile e Argentina, com 13,21% em valor e de 12,56% em volume. Num país menor que a maioria dos estados brasileiros o vinho é superlativo.

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sexta-feira, 1 de agosto de 2014 Blog do vinho | 00:20

10 motivos para tomar vinho no inverno – e 10 vinhos para tornar o inverno mais quente

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vinho-lareira

 E o frio chegou com tudo! Quem resiste a um vinhozinho com um tempo desses? Se você é do tipo  que precisa de alguma desculpa para isso, este blog  dá um empurrãozinho e lista 10 motivos para tomar vinho no inverno – acompanhado de dez dicas de rótulos:

1. O inverno é uma ótima ocasião para beber sem culpa aqueles vinhos potentes, escuros, complexos, com boa passagem na madeira, quase mastigáveis,  com aquela fruta em compota, intenso e longo. E sem ter de se justificar para aquele amigo esnobe que só aprecia tintos leves e orgânicos do velho mundo e torce o nariz para o topo de linha do novo mundo.

 

  • Cousino Macul – Lota Reserva Especial 2007 – para iniciar as dicas de inverno um peso-pesado (até o peso de sua garrafa é excessivo) da vinicultura chilena. Da tradicional família Cousino (150 anos de vinhos), um tintão que reúne potência e complexidade, frutas negras, e aquele não sei o quê de baunilha -16 meses descansando em barricas de carvalho e 18 meses na garrafa. Vinhão de respeito. Para arrebentar neste inverno. E namorar o fundo da taça. Importador: Santar

Leia também: Seis safras de três décadasa de um supervinho chileno: Don Melchor

2. Apreciar seu tinto na temperatura mais adequada. Você nem precisa ter uma adega climatizada em casa. Basta se livrar da cápsula, retirar a rolha e despejar o néctar na taça. Se precisar de um choque rápido de temperatura, deixe a garrafa do lado de fora da janela.

 

  • Finca las Moras – Gran Shiraz 3 Valleys 2009 – este encantador shiraz de três diferentes vales de uma região menos conhecida da Argentina, San Juan, é poderoso, longo, com uma fruta envolvente e especiarias. Para quem acha que Argentina só produz bons malbecs, este shiraz pode ser uma bela experiência invernal. Importador: Decanter

Leia também: 50 vinhos argentinos que vale a pena conhecer

 3. Chamar os amigos em casa para tomar uma garrafa de vinho e brindar a amizade – cada um traz a sua e todos compartilham a bebida.

 

  • Vallontano – Masi – Oriundi 2011 –  uma amizade também uniu a Itália e o Brasil nesta experiência de um vinho elaborado na Serra Gaúcha com a técnica do Vêneto, na Itália, de apassimento das uvas, a mesma usada nos amarones. As uvas são secas em caixas abertas e só depois passam para a fermentação. Este exemplar de terroir brasileiro e alma italiana é feito com as uvas tannat (70%), teroldego (15%), e vinhas velhas de corvina, recantina e turqueta (10%) e ancelotta (5%) – algumas delas bem desconhecidas e redescobertas nos vinhedos gaúchos. Se o vinho brilha na sua execução correta e num sabor que encanta, peca na pretensão do marketing, ao disputar o título de melhor vinho brasileiro. Pra quê, né? Basta ser bom e agradar. E agrada. Importador: Mistral

Leia também: Angelo Gaja, o porta-voz do vinho italiano de qualidade

4. Apreciar comidas pesadas, molhos densos e pratos elaborados, parceiros ideais para vinhos mais potentes. Clássico da harmonização, a compatibilidade por peso pode ser colocada à prova: pratos pesados pedem vinhos idem.

 

  •  Casa Ferreirinha- Vinha Grande 2010 – um clássico do Douro (Portugal), de uma vinícola clássica, elaborado só em safras excepcionais. Tradicional na seleção das uvas nos brinda com porções de touriga nacional, touriga francesa, tinta barroca e tinta Roriz. No nariz tem aquelas frutas maduras, a madeira está bem integrada ao caldo, e um final bem legal completam suas qualidades. Um vinho que cresce muito com o passar dos anos. Numa prova horizontal, de várias safras, de 1996 a 2010, os melhores rótulos foram os dos anos 2000 e 2007; de características diferentes, mostraram como o tempo beneficia os mais antigos e na entrada reforça a exuberância da fruta dos mais novos. Importador: Zahil

Leia também: 50 grandes vinhos de Portugal e algumas escolhas pessoais

5. Carne & vinho & lenha & brasa. Quer combinação mais adequada para uma noite ideal de inverno? Cenário de revista de decoração, foto que ilustra este poat. Não é à toa. Existe harmonização de ambiente também e o vinho é o toque de classe.

 

  • Dal Pizzol – Dal Pizzol 40 Anos –para celebrar seus quarenta anos a vinícola brasileira Dal Pizzol produziu 3.520 garrafas de um lote único de um assemblage de quatro variedades da safra de 2012: merlot (40%), cabernet sauvignon (30%), tannat (15%) e nebbiolo (15%). A Dal Pizzol tem uma identidade no sabor e nos aromas de seus vinhos, uma espécie de impressão digital de seus caldos que revelam a autoria. Neste exemplar premium e comemorativo, a mescla das uvas rende um vinho potente, com boas frutas, um toque de couro, terroso e uma carga boa de concentração tânica. Vinícola: Dal Pizzol

Leia também: Os rótulos da Aurora: vinhos nacionais corretos, saborosos  e acessíveis 

 6. Viver – ou reviver – uma noite romântica. Ninguém nega: o vinho é uma bebida sedutora. Abra uma bela garrafa em casa e a vida se transforma. Já as chances de um convite para um vinho no inverno ser aceita é proporcionalmente maior do que no verão. E melhor, não soa falso, afinal… inverno, um vinhozinho, quem resiste?

 

  • Bueno-Cipresso – Brunello de Montalcino 2007 – um tinto maduro e com taninos bem acentuados. Um clássico com 100% da uva sangiovese grosso, sob a batuta do enólogo Roberto Cipresso, em parceria com ele mesmo, Galvão Bueno, que é sócio desta produção da região de Montalcino, na Toscana. E se é para seduzir, nada com um vinho italiano. E se no Oriundi (acima)  temos um italiano em terras gaúchas aqui temos a assinatura de um brasileiro em terras da Toscana. Importadora: Bueno Wines

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7. Vinhos fortificados e doces são ótimas companhias de entrada e de saída nas refeições no inverno. E companhia da noite inteira do bom papo. E para quem aprecia, do charuto.

 

  •  Nederburg Winemaster’s Reserve Noble Late Harvest 2011. Um porto,  um  Twany, com aqueles aromas evoluídos, e untuosidade, classudo, talvez seja a sugestão mais óbvia. Mas um colheita tardia (que é a traducão de Late Harvest) da África do Sul tem lá o seu charme. É um vinho de sobremesa bastante doce (220 gramas por litro), mas com uma acidez que segura este melaço todo. As uvas brancas chenin blanc (60%), weisser riesling (27%) e muscat (13%) são colhidas tardiamente, próximo do estado de uva passa, ou seja com maior concentração de açúcar natural. Linda cor dourada, muito aromático, flores, abacaxi em compota, mel. Importador: Casa Flora.

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 8. É tempo de aproveitar as ofertas da estação. O inverno é o Natal do comércio de vinhos. As vendas aumentam, as ofertas pipocam para todo lado e os supermercados atraem seus clientes com ofertas de vinhos do dia a dia e de preço médio. Afinal, vinho todo dia requer planejamento financeiro, para completar o mês.

 

  • Luis Felipe Edwards – Family Selection Gran Reserva Carmenère 2012 –  alguns dos tintos indicados aqui são para ocasiões especiais e carteiras mais forradas. Tradução, não são muito baratos. Mas há aquelas que são chamados de boa relação custo-qualidade. Este Luis Felipe Edwards Gran Reserve – encontrado exclusivamente na rede Pão de Açúcar – é um tinto correto, com passagem de 12 meses em barricas (dá para notar), com corpo médio, muita fruta na boca e no nariz e especiarias. Fácil de gostar e bem feito como toda linha Luis Felipe.

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 9. Aproveitar a hora do almoço para tomar uma tacinha. Taí sua chance, e não é algo que cause espanto!  Principalmente nestes tediosos tempos politicamente corretos – onde os sucos naturais ganham as mesas nos almoços executivos (argh!). Nem o seu chefe vai fazer cara de reprovação.

 

  •  Bodega Septima – Septima Gran Reserva 2009 – ok, vamos nos render também à malbec argentina, mas tanto melhor se vier misturada a pitadas de outras variedades. Este tinto perfumado, encorpado, com frutas em compota deliciosas, vai melhorando na taça e chega até um chocolate e café no fundo da taça. A malbec (55%) vem das regiões de Altamira e Luján de Cuyo, e a cabernet sauvignon (35%) e tannat (10%) de Luján de Cuyo. Ótima companhia para um grelhado. Importador: Interfood

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 10. Mandar a dieta paras as favas. Por que vamos combinar que fazer dieta no inverno é a treva, e o vinho vira um parceiro infalível e sem culpa de ser feliz.

 

  •  Solera 1847 Jerez Oloroso – como o inverno dá mais oportunidades ter um vinho como companhia, por que não sair do lugar comum e provar rótulos diferenciados e pouco comuns, como um Jerez? Há várias estilos de Jerez, do seco e salgado ao doce. Este se encaixa neste último estilo, um Jerez fortificado (tem adição de aguardente vínica) elaborado com as uvas palomino fino (70%) e pedro ximénez (25%). Ideal para acompanhar doces e chocolates, é um vinho doce, denso, caudaloso e com bom final. E que se dane o regine. Importador: Inovinni

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Fala a verdade, você precisa mesmo de dez motivos para desarolhar um vinho neste – e em outros – invernos? Se sim, e nenhum das razões listadas acima te convence, invente a sua desculpa.

 

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terça-feira, 25 de outubro de 2011 Tintos, Velho Mundo | 23:31

Um bate-papo com o Sousão

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Éramos três na mesa. Eu, minha mulher e o Sousão. Ao fundo, a noite caindo sobre as parreiras carregadas de frutos, espalhadas em terraços talhados à mão por gerações de vinicultores do Douro, região histórica de vinhedos de Portugal, declarada Patrimônio da Humanidade pela ONU.

Sousão foi apresentado em uma degustação de vários rótulos por um jovem administrador da Quinta do Vallado, uma vinícola encravada no coração da região de Peso da Régua, mais especificamente junto ao Rio Corgo, afluente do Douro, e conquistou com seu papo diferente e personalidade forte. Tanto é que permaneceu conosco no jantar.

Sousão entretanto não é uma pessoa, como pode sugerir seu nome, mas sim uma uva típica do Douro e do Minho e também o título do rótulo monovarietal (de uma só variedade) que a Quinta do Vallado produz desta especialidade. Aliás, os nomes das uvas portuguesas sempre merecem um comentário adicional. A sousão, por exemplo, também atende pelo nome de: sousão forte, sousão de Correr, negrão de pé de perdiz, tinto antigo, espadeiro preto entre outros.

Mas não é preciso estar embriagado para conversar com uma garrafa de vinho, não é mesmo? Quem aprecia o produto está em constante conversa com os caldos. O papo com o sousão foi uma troca de impressões sobre sabores, aromas e sensações do vinho.

A uva e seus sabores

Quinta do Vallado Sousão 2008

O sousão é uma variedade muito utilizada na região do Douro na produção do vinho do Porto, mas pouco comercializada em carreira-solo. Foi minha primeira experiência com a uva que começou surpreendendo pela cor – quase negra e impenetrável. Fez bonito no aroma (aquele perfume meio indecifrável que no jargão do vinho é traduzida como frutas negras, um toque de tabaco, a baunilha da madeira, tudo muito sedutor). A boca é ampla, potente, com final longo e confirmando a experiência do nariz nas frutas negras, estes jargões que os homens que cospem vinho usam para descrever um sabor. Pra mim, agora, existe o gosto e o aroma do sousão, que vou saber identificar sempre que deparar com um exemplar na taça, assim como existe o gosto e aroma da pinot noir e outras tantas variedades de uva. O nosso bate-papo atravessou a noite, e como toda boa conversa os temas foram variando, com novas camadas de aromas e sabores surgindo, sempre com uma pegada mais diferenciada. Taí uma definição que pouco define mas muito explica o Quinta do Vallado Sousão: diferente.

Garrafa cheia eu não quero ver sobrar...

O bichão foi envelhecido o equivalente a duas gestações (18 meses) em barris de carvalho francês e mantém a tradição de pisa manual em lagares (como são chamados em Portugal os tanques de cimento) por seis dias. A pisa manual, para quem não sabe, é aquela imagem tradicional de homens de braços entrelaçados que esmagam as uvas com seus pés em turnos de seis a oito horas, e que conferem uma extração mais delicada do suco para a fermentação. Para manter o ânimo da moçada são entornadas várias garrafas de vinho no processo (na foto as garrafas vazias ao lado da sousão no tanque), afinal tradição é bom mas a recompensa é melhor ainda.

Pode soar atrasado e pouco higiênico, mas o processo, que vem sendo  substituído por máquinas que simulam a pisada humana, é reservado apenas para vinhos de exceção. E para quem torce o nariz para a cena e suas consequências higiênicas vale lembrar que a fermentação – transformação do açúcar da uva em álcool – passa a régua em qualquer resquício humano.

O lagar onde as uvas sousão são pisadas

Se a  prova de um vinho está associada a um momento, o cenário do Douro, em meio às parreiras onde é cultivado, potencializou meu encontro com o sousão. Esta experiência em ambiente de folhinha e com a melhor companhia possível ajudou, é claro, na decisão de trazer para a coluna o Quinta do Vallado Sousão 2008 (R$ 150,00, importado pela Cantu) como o ViG (Vinho indicado pelo Gerosa) da vez. O preço do papo não é tão amigável, mas assim é a vida. Algumas experiências saem mais caras mesmo…

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quinta-feira, 4 de novembro de 2010 Degustação | 19:50

Vinho do Porto Colheita 1937: bebendo história

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Douro: patrimônio da humanidade em cenário de sonhos

Beber vinho do Porto é saborear um pouco de sua história. A região montanhosa do Douro, em Portugal, onde parreiras são cultivadas em jardins suspensos esculpidos pela mão do homem, foi a primeira região vinícola demarcada no planeta, em 1756, pelo futuro Marquês de Pombal. A região foi declarada pela Unesco patrimônio da humanidade em 2001. A casa mais antiga do Porto, que sempre sofreu influência direta dos ingleses, a Warre & CO, foi fundada em  1670. A tradição está presente em toda garrafa de vinho fortificado aberta.

Colheita 1937

Provar uma safra recente de um Tawny (uma das classificações do Porto), portanto, já é uma experiência que carrega esta rica herança em cada gole. Ter a oportunidade de degustar um Porto Colheita da safra de 1937 (da Casa Burmester), então, é mais que uma oportunidade rara. É um momento sublime para os amantes dos caldos do Douro: é o encontro do trabalho de uma geração do início do século com a elegância revelada na taça décadas depois. Trata-se de uma epifania vinífera. Um Porto desta idade revela cores de matizes acobreadas, aromas oníricos e evoluídos. O doce, e o álcool, na boca é dionísico e a acidez presente confere a vivacidade que mantém o conjunto harmônico e a complexidade exuberante. O vinho não é doce à toa. O acréscimo de aguardente vínica corta o processo de fermentação preservando parte do açúcar residual e garantindo longevidade ao fortificado.

Os descritivos de um Porto desta idade são todos superlativos: aromas infinitos de frutas secas, creme brulê e mel que chegam em ondas e volatizam na taça mesmo depois de esvaziadas – e fica aquela cena bizarra de narizes enfiados em copos sem vinho, mas com um Porto virtual suspenso no ar. A intensidade de boca e de fim de boca são longuíssimos – recomendam evitar a escovação dos dentes pelo menos até a próxima refeição.

Porto e filosofia

O Porto é um vinho contemplativo, como um romance de Machado de Assis, que envolve pelas camadas narrativas. Os Portos mais antigos têm a densidade da filosofia. Aliás, vinho do Porto, com sua doçura e viscosidade, na modesta opinião deste colunista, é um vinho que harmoniza com a leitura, com o pensar e o diálogo.

Há uma aposta audaciosa em produzir um vinho para o futuro, que vai envelhecer por muitos anos. O  potencial de evolução de um vinho é um projeto que pode até ser desenhado na prancheta de uma vinícola, estar na cabeça de um enólogo, e até ser prevista pelos críticos mais doutos, mas só pode ser colocado à prova pelas gerações que estão por vir  – geralmente sem o testemunho de seus criadores. É como planejar uma catedral: os projetistas desenham o edifício e lançam os alicerces, mas as derradeiras torres furam as nuvens sem a presença destes. No entanto, a beleza da obra está presente para ser admirada pelas gerações futuras.

Safras antigas e frascos pequenos

Garrafa de 50 ml

O Colheita 1937 foi desarrolhado na presença de um dos atuais enólogos da Casa Burmester, o engenheiro Pedro Sá,  que desafiou os presentes a identificar o tipo de vinho numa primeira prova às cegas (aquela que é feita sem ver o rótulo). A mim me pareceu um madeira envelhecido.  Pedro Sá não estranhou minha associação, pois é parte da proposta da Burmester privilegiar a acidez de seus caldos a fim de manter um estilo fresco e irreverente, o que aproxima de fato o Colheita provado de alguns Madeiras excepcionais. A joia da coroa tem preço de joia mesmo: 3.100,00 reais e serão embarcadas apenas doze garrafas no Brasil pela Importadora Adega Alentejana. Chegam acompanhadas das safras do Colheita de 1944 (R$ 2.133,00) e de 1955 (R$ 1.750,00). Se você tem uma dívida de eterna gratidão com alguém que seja um apreciador de vinho – e dinheiro para isso -, está aqui o presente dos sonhos de Natal. Ou então faça uma vaquinha na sua confraria e dê um presente a si mesmo.

Antes que me acusem de leviandade, por tratar neste espaço de um rótulo tão inacessível, vale o parêntese:  um vinho de exceção só vem comprovar a qualidade  de uma casa produtora de Porto, no caso a J. W. Burmester. A Burmester é uma dessas vinícolas com história. São 250 anos de tradição – foi fundada em 1750. A casa produz portos de vários estilos: Tawny, Ruby, LBV, Vintages de 10 a 40 anos e brancos – sim, para quem não sabe existem portos brancos (conheça aqui todos os estilos do Porto). Outra curiosidade da Casa são as garrafas de 50 ml, para momentos em que uma taça é a medida ideal de sua sede.  Há pequenos frascos de todos os estilos: Burmester Ruby (R$ 6,80), Burmester Tawny (R$ 6,80), Burmester LBV (R$ 8,20), Burmester 10 anos (R$ 11,10), Burmester 20 anos (R$ 20,40) e Burmester 40 anos (R$ 52,40).

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Velho Mundo | 19:49

Os vários tipos e estilo de Vinho do Porto

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Apesar de 80% da produção de Vinho do Porto ser dos tipos Ruby e Tawny – os mais comuns e baratos -, há uma variedade de estilos que são engendrados pelo tempo. Você sabe reconhecê-los? O guia abaixo mostra a diferença entre cada tipo e estilo de fortificado.

PORTO BRANCO

Elaborado a partir de uvas brancas (malvasia fina, viosinho, donzelinho, gouveio, codega e rabigato), pode variar conforme o grau de açúcar. Os muito doces são conhecidos como Lágrima, em seguida, há os Doces, Meio Secos, Secos e os Extra Secos.

PORTO TINTO

Entre as castas usadas na sua produção destacam-se: tinta amarela, tinta barroca, tinta roriz, touriga francesa, touriga nacional, souzão e tinto cão. O Douro é uma região de assemblage, está implícito na fórmula de seus vinhos de mesa e Porto a mistura destas uvas.

Dependendo da safra e do tipo de envelhecimento, os Porto tintos são divididos em sete grupos

– RUBY: obtido por lotação – mistura de vinhos de diversas safras (até uma quinzena de vinhos de qualidades diferentes). Passa por estágio em grandes barris de madeira (chamado em Portugal de balseiros), adquirindo um bouquet especial. Depois de engarrafado, está pronto para ser apreciado, já que não evolui na garrafa. Este vinho mostra-se ruby na cor, como diz o nome, é jovem, encorpado e frutado.

Depois de aberto: Beber em até 10 dias

– VINTAGE CHARACTER: é um tipo de Ruby melhorado, mais complexo, encorpado e intenso, já que sua lotação inclui Vinhos do Porto de qualidade superior – com uma média de idade entre três e quatro anos.

Depois de aberto: Beber em até 10 dias

– TAWNY: o nome vem da cor alourada. Por causa do envelhecimento prolongado em cascos de carvalho de menor tamanho (525 litros), esse vinhofoi perdendo os tons avermelhados e adquirindo tonalidades alaranjadas. Como o Ruby, o Tawny é fruto de lotação de vinhos de diferentes safras. Quando é denominado apenas Tawny (sem indicação de idade) resulta de uvas com idade média de 3 anos. É um vinho elegante e delicado.

Depois de aberto: beber em até 4 semanas.

– TAWNY COM INDICAÇÃO DE IDADE: resulta da lotação de vinhos de diferentes safras no resultado final da garrafa, cuja idade média é a indicada no rótulo: 10, 20, 30 e mais de 40 anos. A data de engarrafamento costuma aparecer no rótulo ou no contra-rótulo. O longo envelhecimento em madeira permite o desenvolvimento de aromas complexos e persistentes, além da perda de pigmentos. Um bom exercício é comparar os Tawny de diferentes idades, tanto na cor, como no aroma. Todos, sem dúvida, muito especiais.

Depois de aberto: beber entre 1 a 4 meses (quanto mais antigo mais tempo mantém suas características).

– VINTAGE: quando um vinho é considerado de qualidade excepcional – o que é feito com a aprovação do Instituto do Vinho do Porto –, ele segue sozinho (sem lotação) para um estágio de dois anos em madeira. Depois, continua o seu envelhecimento em garrafa  desenvolvendo o seu bouquet, longe do ar e da luz. O Vintage pode ser degustado logo a seguir ao engarrafamento. Nesse momento, tem cor retinta intensa e aromas complexos, muito frutados e florais. Na boca, sentem-se os taninos e certa adstringência, tudo com muita estrutura e persistência. Quem preferir guardar o vinho por alguns anos – uns dez anos — não se arrependerá. Com o tempo, ele adquire complexidade. O rótulo, além de mostrar a data da safra, deve indicar também a do engarrafamento.

Depois de aberto: beber em 1 a 2 dias.

– LBV (Late Bottled Vintage): a data estampada na garrafa indica o verdadeiro ano da safra. Esse vinho passa de quatro a seis anos em madeira, antes de ser engarrafado. De grande qualidade, tem coloração intense, frutas vermelhas maduras e presença de taninos.

Depois de aberto: beber em até 10 dias.

– COLHEITA: é um vinho de uma safra só, indicada no rótulo. Envelhece em madeira (525 litros) por, no mínimo, sete anos, seguindo para o engarrafamento apenas quando se deseja colocá-lo no mercado. De cor alourada, remete a aroma de frutos secos e especiarias. Não evoluem na garrafa. Na boca é suave e complexo ao mesmo tempo.

Depois de aberto: beber entre 1 a 4 meses  (quanto mais antigo mais tempo mantém suas características)

Temperaturas de serviço
Ao contrário do que possa parecer, o Porto também deve ser degustado em temperaturas adequadas, que realçam sua fruta e aromas. Evite tomá-lo mais quente, pois a percepção do álcool, que já é elevado, vai subir ainda mais:

Porto Branco: 6-10ºC
Porto estilo Ruby: 12-16ºC
Porto estilo Tawny: 10-14ºC

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Harmonização | 19:47

Porto e comida, por Carlos Cabral

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Como comentei no post Vinho do Porto Colheita 1937: bebendo história, na minha opinião o Porto é um vinho à capela. Harmoniza mais com a leitura, com o pensar e o diálogo do que necessariamente com comida. Para quem aprecia, um charuto também é um bom companheiro. Mas na verdade o Porto é uma bebida versátil que permite várias combinações. Assim como existe uma carne para cada tipo de churrasco, existe um Porto para cada ocasião. Há alguns anos, o maior especialista em Vinho do Porto no Brasil, Carlos Cabral, autor de uma obra fundamental sobre o tema, Porto Um Vinho e Sua imagem e consultor de vinhos, propôs harmonizações com vários estilos de Porto. Republico aqui para os leitores do Blog do Vinho, estas dicas de um mestre no tema.

– VINHO DO PORTO BRANCO SECO (ou mais conhecido como Porto White)

Há 20 anos foi criado um drinque à base de Porto White, trata-se do Porto de Verão ou Portonic: uma dose de Porto Branco em um copo de Long Drink, 3 pedras de gelo, uma rodela de limão e completa-se com água tônica.

Harmonização: refrescante, combina bem com os acepipes, ou aperitivos de entradas, salgadinhos, canapés e presunto cru.

Vinho recomendado: Porto Comenda White.

Profiteroles com Porto: tem coisa melhor?

VINHO DO PORTO RUBY (jovem) ou Ruby mais robusto ( PORTO LBV)

Estes Portos têm aromas e sabores pronunciados de frutas vermelhas maduras, como framboesas, amoras e ameixas.

Harmonização: aqui os chocolates reinam. Desde os trufados, até os meio amargos, todos ganham destaque quando saboreados com estes Portos, pois a untuosidade destes tipos de Porto casam-se bem com as gorduras do chocolate.

Vinho recomendado: Vinho do Porto Ferreira Ruby

– PORTO COM DENOMINAÇÃO DE IDADE, 10, 20, 30 ou 40 anos.

Estes vinhos passam uma vida em tonéis de carvalho, oxidando e absorvendo os aromas de baunilha das pipas de carvalho. Seus aromas lembram caramelo e madeira defumada.

Harmonização: a companhia destes vinhos são as frutas secas como nozes, ameixas, damascos, avelãs, noz pecã, castanhas de caju, e principalmente amêndoas. Os marzipans e as tortas de frutas secas, regadas com estes vinhos, são de um sabor sublime.

Vinho recomendado: Vinho do Porto J.W. Burmester 10 anos

– PORTO COLHEITA

Vinhos que passam de 7 anos em diante envelhecendo em tonéis de carvalho. São de uma só colheita e não são resultado de blends entre outros vinhos. Têm todas as características de seus anos de colheita preservados. Geralmente existem no mercado vinhos dos últimos 7 anos e alguns até mais velhos, com décadas de idade.

Harmonização: estes vinhos acompanham bem as tradicionais sobremesas portuguesas à base de ovos e amêndoas. O Pudim do Abade de Priscos, os Pastéis de Belém, os Pastéis de Santa Clara, os Fios de Ovos são a pedida.

Vinho recomendado: Porto Weise Krohn Colheita 1991

– VINHO DO PORTO LBV

Com uma concentração de aromas de frutas vermelhas maduras, este tipo de Porto é um dos mais apreciados nos dias de hoje. De cor tinta escura, bem concentrada, o LBV tem particularidades de um caldo de framboesa.

Harmonização: os queijos azuis, como o gorgonzola, o roquefort ou o stilton ( inglês) harmonizam-se soberbamente com este vinho.

Vinho recomendado: Graham’s LBV 1995

– VINHO DO PORTO VINTAGE

O Porto Vintage “é uma seleção apertada de uma colheita excepcional”. É o que a natureza pode dar de melhor ao homem em termos de vinho. A quem os prefira jovem, para obter o melhor proveito de suas frutas maduras e sua pujança nervosa, e os que o preferem mais velhos, onde o tempo afina seus aromas e sabores.

Harmonização: em ambos os casos aqui impõe-se o queijo da serra da estrela, a grande jóia da gastronomia lusitana, um queijo de ovelha, rico em aromas e paladar único em todo o mundo.

Vinho recomendado: Vinho do Porto Vintage Quinta do Crasto 1997.

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quinta-feira, 25 de março de 2010 Velho Mundo | 21:20

Os bons vinhos e o bom papo do português Luis Pato

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Luis Pato: o criador e a criatura

Há enólogos e produtores que são bons no discurso mas ruins de vinho e existem aqueles que são acanhados no papo mas entregam um belíssimo caldo na garrafa. O enólogo e também produtor português Luis Pato é daquele tipo raro que soma duas virtudes: é sedutor na conversa e produz vinhos saborosos e com estilo.

Bairrada

O estilo Luis Pato está marcado pelo manejo de uma variedade de uva da Bairrada chamada baga. Por muito tempo os vinhos desta região portuguesa eram extremamente rústicos, davam aquela travada na língua e desciam rasgando pela goela. Sem abandonar a uva representativa da região Luis Pato amaciou o que a natureza oferecia em estado bruto e fez história. Quem quiser fazer a prova da garrafa pode começar experimentado sua linha mais básica, Luis Pato Baga 2005 (R$ 50,00), subir um degrau e saborear um Vinhas Velhas Tinto 2005 (R$ 107,00), ou meter mais ainda a mão no bolso e saborear um Vinha Pan 2005 (R$ 177,00). As provas vão falar mais sobre o estilo Luis Pato do que uma descrição barroca e pessoal de seu vinho. Mas o registro está sempre lá, um tinto com sabor local, que pede sempre outra taça cheia e que vai aumentando de complexidade e texturas à medida que se sobe na pirâmide de qualidade de seus rótulos.

Aos que forem abduzidos pela baga, e por seu adestrador, há ainda uma experiência mais rica (e cara, como de costume): o Pé Franco 2005 (R$ 703,00!). São pequenas parcelas de vinhedos que, como o nome indica, não usam aqueles enxertos que evitam a praga das parreiras, a filoxera, o que se traduz num tinto de uma pureza rara e instigante, daquele tipo que provoca um “uau” dos conhecedores (além de alguns segundos de nariz enfiado na taça) e inquietação nos neófitos que percebem algo diferente na taça, mas não conseguem identificar. São aquelas camadas de aromas e sabores mais encontradas em vinhos da Borgonha, na França, ou em Barolos italianos. “A baga tem capacidade de envelhecer de um Barolo”, garante o enólogo. O Pé Franco é o testamento em vida de Luis Pato.

Há ainda o capítulo dos espumantes, o rosado elaborado pela uva touriga nacional é um sucesso de fácil assimilação e muito prazer. O Maria Gomes Brut (R$ 70,00), provado recentemente, tem um frescor de boca que é resultado da antecipação da colheita das uvas “o grande problema dos espumantes portugueses é que eles eram pesados”, explica  Luis Pato. A baga bate continência em 10% da composição (maria gomes é o nome da uva protagonista), e mostra sua presença com um fim de boca mais prolongado. E se você, como eu, gosta de brancos, o Maria Gomes 2008 (R$ 40,00) é um baita aperitivo ou vinho de entrada.

Douro

O rei da Bairrada, também faz das suas no Douro, mais ao norte de Portugal. “Há aqueles que são flying winemakers, eu sou um drive winemaker, pois vou de carro”, ironiza. Nesta região, famosa pelos vinhos do Porto, ele maneja os vinhedos da Quinta da Pôpa. O resultado é sublime. O Quinta da Pôpa Vinhas Velhas 2007 (R$ 213,00), como o nome indica, é de vinhedos mais antigos, de mais de 60 anos.

Vinhas velhas? Isso é bom? É. Explica-se: quanto mais antigas as parreiras mais profundas são suas raízes e a extração de componentes e minerais que ela traz à uva; menor também o rendimento por cacho, o que concentra ainda mais os componentes, que se traduz em sabores mais ricos e aromas mais complexos, daí a razão de os produtores anunciarem nos rótulos a idade das vinhas.

O grande barato do Douro, porém, é a complexidade que o conjunto das uvas proporciona e entrega ao vinho. “O Douro é carne sem osso”, diz Luis Pato. Elas estão lá misturadas na garrafa da Quinta do Popa – touriga nacional, touriga franca, tinta barroca e tinta roriz –, e sem abusar da madeira, outra característica do estilo do enólogo “vender madeira no lugar do vinho custa no bolso do consumidor”, explica. Perfumado, mas sem exageros, tem final longo, como suas raízes – o vinho fica rodando no paladar e na lembrança. “Muitas vezes tiro um pouco de aroma, pois quero enviar meu vinho para avaliação da Jancis Robinson (crítica inglesa que prefere a fineza ao exagero) e não para o Robert Parker (poderoso crítico americano que dá mais valor à extração dos cheiros e do suco da uva fermentado)”, explica. Confesso que pedi mais um gole na taça deste Douro repleto de sabores. Melhor indicador de aprovação, não há.

“Baidouro”

Aqui o lado inovador de Luis Pato mostra seu serviço. Se há uva boa no Douro e na Bairrada, por que não soldar o melhor de uma região com o excelente da outra? O TRePA 2007 (R$ 213,00) é a resposta. 50% de baga dos mesmos vinhedos da Vinha Pan, 50% de tinta roriz do Douro. Aí é tirar as conclusões. Características de um e de outro saltando aqui e ali e um conjunto pra lá de harmônico, fácil de beber e com capacidade de envelhecer na garrafa. Um sonho antigo de Luis Pato: “Um Douro com um toque de Bairrada”, diz.

Futuro

No trato pessoal o estilo Luis Pato se mostra na capacidade de ser didático sem aborrecer, moderno sem desprezar a tradição e marqueteiro sem perder a classe ou a autenticidade. Afinal um homem que carimba o nome e sobrenome no rótulo tem de garantir qualidade e bater tambor, não é? No campo estratégico, ele pretende difundir a touriga nacional como uva símbolo de Portugal. Portugal tem uvas nativas que o mundo, principalmente o mercado americano, não conhece. “Podemos tirar vantagem de um problema”, diz. Para Luis Pato o ciclo do mercado consumidor de vinho agora retoma uma busca pela originalidade, pela diferenciação, atrás de um tinto e um branco mais gastronômicos, que vai melhor com a comida do que numa prova de degustação. Aí que ele aposta as fichas das castas portuguesas.

O enólogo inova também seguindo o conselho dos mais jovens. “Minha filha (Filipa Pato, também enóloga. Tente conhecer a linha de seus vinhos de  belíssimo custo benefício chamada Ensaios) me alertou que eu não estava fazendo vinhos para a geração dela e então eu amaciei um pouco mais os tintos” . Inova também nos vinhedos. “Os acertos muitas vezes são produto do acaso”, confidencia. Por exemplo, ele transformou uma técnica –  quando o enólogo decide descartar alguns cachos de uvas para concentrar sabor em outras – em vantagem produtiva. Ao colher algumas uvas em agosto, quando ainda estão verdes, encontrou o ponto certo para seus espumantes (“em Champagne as uvas são verdes”). De quebra, fortalece os cachos remanescentes que são colhidos um mês depois e usados para vinificar outros tipos de vinho. O resultado é que ele extrai de uma mesma parreira, em duas colheitas (agosto e setembro), uvas que serão usadas para elaborar um espumante rosé, um vinho doce rosado, um tinto seco e um tinto doce. É de dar inveja em qualquer consultor especializado em produtividade.

Futuro? Trabalhar vinhos de pequenas tiragens, testar novas técnicas, conquistar os jovens. Ele tenta isso com seus vinhos moleculares, mais docinhos e menos alcoólicos (Abafado Molecular Branco e Tinto R$ 102,00). Sei não, jovem gosta mesmo é de álcool… Aí se revela o marqueteiro: “O sonho é o que manda na vida”.

Importadora: Mistral

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