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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016 Blog do vinho | 12:48

Importação de vinho: em 2015 Chile continuou na liderança, mercado retraiu e o imposto aumentou

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O vinho está caro, não? A vida está cara. Basta percorrer as prateleiras dos supermercados, lojas especializadas e  sites de e-commerce para perceber que mesmo com descontos – é tempo de liquidações de estoque – os preços subiram. E 2016 promete. A contribuição para este cenário tem sempre a mão amiga do governo, que além de toda carga tributária já embutida no produto alterou, a partir de dezembro de 2015, a cobrança do IPI que passou de um valor fixo de  R$ 1,08 por garrafa para um tributo variável de 10% sobre o valor do vinho. A disparada do dólar também contribui – e muito – para esta valoração dos preços.

E como o reflexo econômico de 2015 afetou o mercado de importação de vinhos no Brasil?

Mais uma vez eu pego carona no trabalho do consultor Adão Morellatto (autorizado pelo autor, claro) e publico a situação da importação de vinho no Brasil. O ano é de 2015. Não precisa dizer mais nada, né? Mas a fotografia não é tão feia assim: teve uma retração de 11,28% em valor (a inflação no período foi de 10,673% IPCA), mas  uma leve alta de 1,56% em volume, ou seja há vinhos mais baratos sendo escoados no mercado brasileiro, com enorme participação do Chile nesta pegada (faixa de até 35 reais para o consumidor).

Comparada com a mesma análise de 2014, a posição dos países no ranking continua inalterada. Os vizinhos Chile e Argentina juntos dominam mais de 60% do mercado de vinhos no Brasil. A França vem em seguida empurrada pela inclusão dos Champagnes na conta. Em seguida Portugal e Itália, com Espanha na rabeira entre os principais. Alguns países caíram mais do que outros.

 

O Chile continua líder, a Argentina perde mercado mas mantém segunda posição

Abaixo um resumo das principais informações e dados consolidados pela análise de Adão Morellato

1º. CHILE:   Com um novo recorde de produção com 12,8 milhões de hectolitros (alta de 23%) em 2015, os chilenos batem pesado no mercado brasileiro e é necessário escoar toda esta produção, seja onde for, esteja onde estiver o consumidor, sua participação chegou a 37,34% em Valor e 45,29% em Volume, porém com uma ligeira queda de -5,21% de valor sobre 2014. Seus produtos adentram nosso mercado com uma forte penetração no segmento mais promissor (faixa de até R$ 35,00 consumidor), com uma desvalorização de 8,84% em USD. Também apresenta um crescimento de 3,62% em volume.

2º. ARGENTINA:  Segue a mesma estratégica do Chile em baixar seus vinhos, porém de maneira ainda muito tímida, apenas 3,89% de desvalorização e queda de -14,39% ref. a 2014. Os anos em que a Casa Rosada foi reinada pelos Kirchner, não foram nada satisfatórios aos vinicultores, reduziu em 12% a produção vitivinícola na última safra. Seus vinhos ainda são 31,29% mais caros do que os similares vizinhos. Em 2015 manteve um desempenho idêntico a de 2014, 17,19% em Valor e 15,87% em Volume. Em valor retrocedeu ao período de 6 anos atrás (2009).

3º. FRANÇA:  Como já informado acima, dado ao fato de que o Champagne tem um peso enorme na pauta deste segmento, participando com quase a metade do valor 47,48%, demonstra um marketing Share de 14,19% e Value de 5,91%, com queda cambial de -20,18% e participação negativa de -17,36%, praticamente voltou ao patamar de 2011 em valor.

4º. PORTUGAL:  Também apresenta um retrocesso de 5 anos de seu desempenho de valor, 11,18% em Valor e 12,64% em Volume e queda similar a da França -14,29% e com deflação cambial de -23,17% em seus produtos. Visto que sua produção aumentou em 8% em 2015, há uma grande procura de produtores buscando fincar suas próprias bandeiras em solo brasileiro, por certo não encontram em outros grandes mercados (USA / China) uma classe consumidora mais apropriada sejam pelo hábito e costumes, sejam pela praticidade linguística.

5º. ITÁLIA: Entre os principais player´s o que apresentou o pior desempenho com -22,14% de queda, como comparativo, retorno aos patamares de 2008. Tendo os vinhos tipo Prosecco contribuído com 12,38%. Seu custo médio apresentou queda de -9,76% e sua participação permaneceu em 10,14% em Valor e 11,22% em Volume. Devido a sua grande safra que em 2015 atingiu exponencialmente 48,9 milhões de hectolitros, há que buscar alternativas e seu mercado mais promissor são os EUA, com forte presença, disputando em pé de igualdade com os produtores americanos.

6º. ESPANHA: Depois de alguns anos conquistando mercado com muita velocidade, em 2015 teve queda de -11,27% e atingiu 5,35% de participação em Valor e 1,38% em volume com desvalorização cambial de -23,14%. Os vinhos Cavas contribuem com 26,62% de seu total. Apesar da queda, mantém uma boa estrutura de produtos atrativos. Hoje sem nenhuma dúvida, junto a Itália, são os que melhor oferecem a relação de custo/qualidade.

7º. DEMAIS PAÍSES: Contribuem com menos de 4,70% em Valor e 4,20% em Volume, destaque para crescimento de 25,07% da Austrália e 6,81% do Uruguai.

Leia também: 10 dicas de como escolher e comprar o seu vinho

Dados extraídos do Análise de Mercado de 2015 da análise de

ADAO AUGUSTO A. MORELLATTO

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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015 Blog do vinho, Novo Mundo, Sem categoria, Velho Mundo | 13:34

Chile domina de vez o mercado de vinhos importados no Brasil. Conheça o ranking.

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Sabe aquela história de crise no mercado de vinhos que a gente escuta todos os anos? Pois é, no mundo do espumantes nacionais todas as maiores empresas revelaram crescimento em 2014 (ver post Espumantes brasileiros: preferência nacional e consumo no final do ano). O mundo dos importados, “mesmo com todo o emblema, todo o problema, todo o sistema”, vai levando os números para cima. O crescimento em relação a 2013 foi de 12,5%. É isso que mostram os números consolidados de importação de vinhos de 2014 preparado semestralmente pelo consultor Adão Morellatto.

Em um país com déficit de dados, este levantamento realizado por Morellatto é um trabalho importante que mostra como está o mercado de vinhos importados no Brasil.  Morellato explica: “Em valor estamos próximo de um montante de USD 325.000.000,00 e algo como 9.000 conteiners de 1.000 CX/12; somente por estes números dá-se para imaginar o tamanho, complexidade, versatilidade, dinâmica e valores que envolve este setor. Levantando os dados de 2007 x 2014, a performance foi 93,45% ou uma média ponderada de 13,35% anual. Poucos e segmentados produtos cresceram nesta proporção. E ainda há o fator cambial, que em 2014 aumentou em quase 15%.”  Resultado nada mal em um país que teve um crescimento perto de zero em 2014. 

Para o consumidor, estes números apenas planilham uma constatação que pode ser verificada nas prateleiras dos supermercados, nos sites de e-commerce e cartas de vinho dos restaurantes. A maioria de rótulos é de vinhos chilenos, argentinos, portugueses, franceses e italianos. Além dos brasileiros que não entram, evidentemente, nesta análise de importados.

O Chile está perto de abranger 50% do mercado de vinho fino.

Abaixo um resumo das principais informações e dados consolidados pela análise de Adão Morellato

1º. CHILE:  Existe uma grande possibilidade de o Chile em breve dominar 50% do mercado brasileiro de vinhos finos. Se considerar somente o tipo vinho fino, ele representa quase 46,40% em valor, porém no consolidado, retrai-se um pouco para 35,30% em valor e 44,39% em volume. Seu preço médio está 25% mais econômico que os vinhos argentinos.  O crescimento em 2014 foi de 25,59% alavancado principalmente pela estratégica das grandes empresas chilenas em priorizar os 5 mercados chaves: USA, Reino Unido, China, Japão e Brasil

2º. ARGENTINA: Contrariando os prognósticos locais, apresentou um crescimento de 9,52% e sua participação caiu um pouco, hoje estabelece-se nos patamares de 17% de volume e valor. (para se ter uma ideia em julho de 2013 os vinhos argentinos detinham 21,09% em valor e de 20,21% em volume). As razões? As políticas econômicas do atual governo. Enquanto Chile manteve seu preço médio em USD 3,20 p/ litro, na Argentina houve um aumento de 3,08%, chegando a USD 4,01 p/ litro

3º. FRANÇA: A França apresenta-se em terceiro lugar neste ranking devido ao valor de seus produtos atingirem quase 15% de participação, mesmo com um índice em volume de apenas 5,85%. Isso se explica pelo preço médio de USD 10,30 p/ litro, influenciado pelo alto valor agregado do champagne, que sozinho representa 37,82% de toda exportação francesa.

4º. PORTUGAL: Por uma pequena diferença com a França, Portugal passa para a quarta posição. Participa com quase 12% de Share, com crescimento de 4,50% e preços médio de USD 3,88 p/ litro

5º. ITÁLIA: Em 2014 cresceu 3,97%, com participação bem próxima de Portugal, exatos 11,13% em valor e de 11,68% em volume. Já não há tanta influência do vinho tipo Lambrusco que chegou a representar quase 50% de todo o volume de vinhos deste país há alguns anos. O Vinho Prosecco representa 12,34% de market share no seu montante total.

 

6º. ESPANHA: De 2007 há 2014 a Espanha vinha apresentando um crescimento a uma média de 31% ao ano. Em 2014, contrariando os anos anteriores, apresentou uma ligeira queda de quase -1%, só não caiu mais devido ao vinho (CAVA) ter crescido sua participação em 16,06%, representando 26,17% na totalidade.

7º. DEMAIS PAÍSES: Apresentam menos de 5% de participação, com destaque evolutivo para os países: Alemanha = 16,72%  / Africa do Sul =54,95% / USA = 47,90%, queda abrupta da Austrália em 69% e Uruguay que patina nos números idênticos ao ano de 2007.

Leia também: 10 dicas de como escolher e comprar o seu vinho

Dados extraídos do Análise de Mercado de 2014 da análise de

ADAO AUGUSTO A. MORELLATTO

INTERNATIONAL CONSULTING

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segunda-feira, 4 de agosto de 2014 Velho Mundo | 11:56

Parente é serpente: a briga em família pelo Vega-Sicilia

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O Vega-Sicilia, mítico tinto da Ribera del Duero, está mais para Sicília do que para Vega. A família se encontra em litígio. E por conta de um problema de sucessão familiar na empresa até o evento que comemorou os 150 anos da Bodega ficou um tanto eclipsado. A história, que tem todos os ingredientes que alimentam as fofocas na imprensa coloca em lados opostos o patriarca da holding, David Alvarez, de 87 anos, que controla os negócios da família, e cinco dos sete filhos. Entre eles Pablo Alvarez, um senhor com cara de poucos amigos que batalha com o pai pelo controle do Vega Sicilia. A disputa, diz a imprensa espanhola, foi deflagrada após o terceiro casamento – o segundo com uma secretaria da empresa – do patriarca. Da série parente é serpente, Pablo sugere que o pai esteja sofrendo as instabilidades da idade: “Acredito que este é um processo que ocorre com muitos idosos, que depois de deixar seu papel executivo retornam a ele”.

Pablo Alvarez e o ator da família Soprano:

Pablo Alvarez e o ator da família Soprano:

(abre parênteses)

Quando esteve no Brasil, em julho de 2008, Pablo Alvarez me chamou atenção por uma semelhança com o ator já falecido James Gandolfine, que interpreta Tony Soprano, o chefe mafioso em crise da série de TV Família Soprano. A vida imita a arte? Na época escrevi:

Pablo Alvarez é um empresário calado e tímido, é o antimarketing em pessoa. Ao contrário da maioria dos produtores e enólogos, que pousam por aqui munidos de apresentações em power point, catálogos caprichados e discursos irritantemente didáticos (e não há mais quem aguente o batido discurso de que “não se faz bom vinho com uva ruim”), Don Pablo parece implorar para não ser instado a falar. Inundado de perguntas, suas respostas são curtas e diretas. Uma definição para o Vega-Sicília Único? Elegância. Qual o melhor dos seus vinhos? O melhor ainda está para ser feito.

(fecha parênteses)

Um dos homens mais ricos da Espanha, David Alvarez adquiriu a Bodega Vega-Sicilia em 1982 (a vinícola foi fundada em 1864) e colocou Pablo para cuidar do negócio. Ele mesmo declara em entrevista ao jornal The New York Times: “Meu pai comprou a Vega-Sicilia por que era a vinícola mais prestigiosa que havia na Espanha. Não fosse isso eu jamais teria entrado no mundo do vinho”. O profissionalismo que a família impôs à empresa é responsável por seu sucesso comercial ao redor do mundo. Um produto especial com uma estratégia comercial exemplar, mesmo com preços pouco amigáveis – o mais barato sai por 419 doletas, ver abaixo. A empresa exporta mais da metade de sua produção para mais de 11o países, entre eles o Brasil.

O Vega-Sicilia – um vinho para poucos – tem uma legião de seguidores no mundo, como os atores Kurt Russel e a atriz Goldie Hawn. O mais famoso aqui no Brasil é o Rei Roberto Carlos. É unanimidade entre os críticos. Para o inglês Michael Broadbent trata-se do “Lafite da Espanha”, Parker deu 99 pontos para as safras 1991, 1994 e 1998 do Vega-Sicilia Reserva Especial.

Vega Sicilia02

O Vega-Sicilia é uma instituição, um vinho de muita expressão, potência, elegância e longevidade. Seus disputados rótulos, no centro da discórdia, são os seguintes:

  • Vega-Sicilia Valbuena 5º Año Reserva 2006 (180.000 garrafas/ano – U$ 415);
  • Vega-Sicilia Único Gran Reserva 2003 (80 a 110.000 garrafas/ano – U$ 989),
  • Vega Sicilia e Único Reserva Especial (U$ 1066)

Todos os vinhos fazem parte do catálogo da Mistral (preço em dólar do dia).

Site oficial: http://www.vega-sicilia.com/

 

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quinta-feira, 19 de junho de 2014 Novo Mundo, Tintos, Velho Mundo | 14:23

O dia em que a carménère avinagrou a tempranillo

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Gol do Chile e ressaca da seleção espanhola.

Gol do Chile e ressaca da seleção espanhola. Foto AP

Você deve ter visto, ou lido, a humilhação que seleção do Chile impingiu ao time da Espanha ontem (dia 18), não? Um 2 x 0 que eliminou a seleção campeã da Copa de 2010 no segundo jogo da primeira fase da Copa do Mundo do Brasil. No dia em que o Rei Juan Carlos abdicou do trono, parece que o time espanhol abdicou também das glórias do passado. #NãoVaiTerCopa para a Espanha!

Tá. Mas o que isso tem a ver com uma coluna de vinhos?

Bão, além de ser uma oportunidade de o Blog surfar no tema da copa, traz uma analogia que cabe neste espaço. O embate no campo de futebol pode ser transportado para o terroir dos vinhedos, onde disputam a carménère, a uva símbolo dos vinhedos chilenos, e a tempranillo, cultivada amplamente na Espanha.

A tempranillo, em espanhol, significa prematuro, ou seja, uma uva que amadurece antes das outras tintas. Assim, amadurece na primeira fase e não vai até o final, por exemplo….Recebe outros nomes na Espanha: tinto fino, tinta del país, tinta toro e ull de llebre. Em Portugal também atende pelo nome de tinta roriz (no Douro e Dão) e agaronês (no Alentejo). Sinônimo de vinho de qualidade nas regiões de Ribera del Duero e Rioja, e em boa parte da Espanha, produz rótulos estrelados e caros, como aquele reunido pela seleção espanhola: o mítico Vega-Sicilia  Único, o Aalto, Marquês de Riscal, Viña Ardanza, Pesquera, Pingus, Bodegas Mauro e a lista segue grande. É uma uva que cresce quando envelhecida em barricas de carvalho americano, sugere tintos com muita frutas maduras, aromas de coco, baunilha, tostados e um baita potencial de envelhecimento – e uma legião de fãs.

Leia também: A Família Vega-Sicilia 

A carménère, de origem francesa, mas atualmente pouco cultivada em Bordeaux, seu berço primário, encontrou no solo chileno um terroir para chamar de seu. Seu nome vem da cor da casca, carmim, que colore o vinho com a mesma matiz. A história é conhecida, mas vale contar aqui. A carménère era confundida com a merlot, até quem em 1994 um exame de DNA confirmou a paternidade. Aí o marketing chileno caiu matando e tornou esta como sua uva símbolo, mesmo que raramente produza os melhores caldos do país e também seja apenas a terceira uva mais plantada, atrás da cabernet sauvignon e da merlot. Melhor quando usada em corte com outras uvas, aos poucos vem encontrando seu canto à capela e já exibe alguns varietais excelentes, principalmente aqueles provenientes da região de Peumo, no Vale do Cachapoal. Em uma seleção vitoriosa de varietais (vinhos elaborados como apenas uma única uva)  é obrigatório  constar: Carmín de Peumo, da Concha y Toro, Terrunyo, da mesma vinícola, Herência, da Santa Carolina e Pehuén, da Santa Rita.

Leia também: Vinhateiros Independentes do Chile: pequenas vinícolas, grandes vinhos

Leia também: Felipe Toso, o “cozinheiro” dos vinhos chilenos Grey, comemora dez safras, explora novos terrenos e lança rótulos

 

 Tempranillo X Carménère

A disputa é muito parecida com a das seleções da Espanha e do Chile. Velho Mundo X Novo Mundo. Tradição X Novo. Campeão X Promessa. Se a tempranillo amadurece mais cedo, como sugere o nome, a carmenénère alcança seus melhores dias mais tarde do que outras tintas, como a merlot, por exemplo, com a qual era confundida (e por isso mesmo anos atrás revelava muitos traços vegetais e verdes). Na taça elas são muito diferentes. O brasileiro se acostumou com o sabor da carménère, é um tinto mais fácil de beber, macio, às vezes com toques de ervas, uma pimenta negra e amoras. A tempranillo da linha mais básica apresenta tintos  estruturados, macios e não  tão potentes como seus colegas envelhecidos por longo tempo em barricas de carvalho. Depende muito da ocasião, da comida, e da qualidade da vinícola obviamente, para um chileno ser melhor que um espanhol ou vice-versa. Mas ambos merecem estar classificados numa copa de vinhos.

Mas estamos falando de seleções, aqui. Dos melhores do mundo.

Carmín-de-Peumo-05-cópia

E colocar numa disputa no campo dos vinhedos um Vega-Sicilia e um Carmín de Peumo, por exemplo, é algo fora de propósito. Quase uma sacanagem. E claro uma provocação deste colunista. O Vega-Sicilia é uma instituição, um vinho de muita expressão, potência, elegância e longevidade e um copo cheio para aqueles que adoram enfileirar descrições de aromas e sabores percebidos (ou inventados). O Carmín de Peumo é um vinho excelente, merece sempre altas notas dos críticos e já tem uma legião de apreciadores que apostam na evolução de suas garrafas. Mas é outra pegada. Outro estilo de jogo, talvez surpreenda desde o primeiro minuto, pois já entra pronto para jogar. Um Vega-Sicilia está mais para um jogo que precisa de aquecimento e um campeonato mais longo para mostrar seu valor.

Vega Sicilia02Mas há sempre uma chance de uma disputa entre um top tempranillo, estrelado como uma seleção espanhola, ser eliminado por um carménère de alto coturno, mesmo se avaliado pelos paladares mais exigentes. Uma garrafa bouchonée, ou mesmo avinagrada, onde a qualidade se esvai, o aroma desagrada e o sabor decepciona pode derrubar qualquer ícone. Acontece nos melhores rótulos. E, pelo visto, com as melhores seleções. Chi-chi-chi le-le-le!

Leia também: Bouchonée, o vinho Tiririca. Pior que está, fica

Agradeço ao colunista Silvestre Tavares Gonçalves, do Blog Vivendo a Vida, que começou esta provocação num post de seu Facebook, e me inspirou a criar o título e a cometer este texto.

 

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sexta-feira, 19 de julho de 2013 Blog do vinho | 12:47

Chile e Argentina dominam o mercado de importação de vinhos no Brasil

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Quais os vinhos mais importados no Brasil? Esta é meio fácil. Se você cravou Chile acertou em cheio. Se apostou na Argentina, não ficou longe. Nem é preciso ser especialista no assunto para chegar a esta conclusão. Basta percorrer os corredores dos supermercados e medir o tamanho das prateleiras de vinhos destes dois países para encontrar a resposta. Ou ler o título desta coluna… Mas o que talvez você não conheça são os números. Vamos a eles então.

Chile e Argentina juntos são responsáveis por 63,29% em volume de vinhos que entram no país. Só o Chile contribuiu com 43,08% nesta conta, restando 20,21% em volume para a Argentina. A conta em valor é um pouco diferente, os dois países juntos são responsáveis por 57,65% do bolo, mas o Chile continua na liderança (36,56%), seguido de Argentina (21,09%). Quatro países do chamado velho mundo – Portugal, Itália, França e Espanha – completam a lista.

Claro que há todo um contexto em torno destes números. Mas o maior deles é o mais óbvio: preço. As isenções de impostos do Mercosul, a alta do dólar e do euro (que deixam o vinho do velho mundo mais caro ainda), a proximidade destes dois países com o Brasil tornam o valor das garrafas sul-americanas mais palatáveis.

Quem mostra – e analisa – estes dados é o empresário e consultor internacional Adão Morellatto. Há doze anos, Morellato reúne dados oficiais da Receita Federal, do Banco Central e do Ministério do Desenvolvimento (MDIC) e comparando os números do semestre monta um relatório que distribui para a imprensa especializada e serve como uma radiografia do mercado importador de vinho. Na sua conta é analisado apenas o segmento de vinhos chamados tranquilos, não computando os vinhos tipos Fortificados, Champagne e Espumantes. A partir de janeiro de 2014, porém, serão incorporados à conta, tornando-a mais objetiva e acurada ainda.

Um trabalho que começou por necessidade – Morellatto tem uma empresa de representação comercial -, acabou virando uma referência no mercado. Para Morellatto o levantamento “tem um contexto mais analítico, identificando as causas, consequências, características e perspectivas, sobre meu prisma de visibilidade”. E acrescenta: “Os números em si, não têm a finalidade conclusiva de atribuir bonança ou incredibilidade e sim, uma descrição do momento vivenciado.” .

Os seis maiores países importadores de vinho no Brasil. E o resto.

O relatório e avaliação do semestre de Adão Morellato segue abaixo na íntegra

1º. CHILE: Como já comentei há algumas semanas atrás com alguns jornalistas deste meio, segue forte e firme na dianteira, mantendo sua estratégia de oferecer neste momento vinhos mais econômicos que os da Argentina, em média 23% mais baixos, atraentemente necessário e eficaz neste tempos de volatilidade cambial. Neste semestre analisado, representa 36,56% em valor e 43,08% em volume. Porém apresenta uma ligeira queda de -1,60% em comparação com o primeiro semestre de 2012.

Leia mais: Chadwick, o chileno que desafia (e ganha) dos franceses

Leia Mais: Vinhateiros independentes do Chile: pequenas vinícolas, grandes vinhos

2º. ARGENTINA: Como não poderia ser diferente, idêntico ao Chile, que goza de benefícios aduaneiros de isenção de impostos, por acordos bilaterais (MERCOSUL), estabelece-se neste ranking com 21,09% em valor e de 20,21% em volume.

Leia mais: A Argentina não é só malbec, mas é malbec também

3º. PORTUGAL: Como aqui não são computados os vinhos listados acima [fortificados], aparece nesta posição, 13,21% em valor e de 12,56% em volume, preocupantemente mostra uma queda de -8,13% em valor e de -16,45% em volume, apresentou um índice de valoração cambial dos vinhos em de 4,48%.

Leia também: Bacalhau e vinho: tinto ou branco

4º. ITÁLIA: A Itália, na linha de combate direto com Portugal, apresenta um leve crescimento de 1,77%, contudo uma queda de -16,45% em volume, evidenciado pelo aumento médio de 18,50% dos produtos. Aqui uma pequena pausa, atente-se para este ano, verificarem uma tendência de queda participativa de vinhos tipo Lambrusco, iniciando seu declínio, não por consumo aqui propriamente dito, que ainda tem uma gama considerável de consumidores, mas sim pelos custos de produção na origem e regras mais severas e punitivas dos Consorzios, não serem mais tão competitivos como no passado recente. Participa com 11,02% em valor e de 12,06% em volume.

5º. FRANÇA: O gigante vinícola resolveu por aqui mostrar toda sua capacidade enológica. Contrariando os demais, apresenta um crescimento de 11,41% em valor e de 4,50% em volume. Ainda engatinha para chegar aos 10% de share, mas observando que obteve um aumento de 6,60% no custo médio, podemos imaginar perfeitamente que há aqui consumidores dispostos a pagar algo mais por um produto de melhor qualidade. Sua contribuição é de 8,26% em valor e de 3,85% em volume.

6º. ESPANHA: A fúria não levou o taça, ainda somos os melhores, ao menos até a COPA de 2014, salvo alguns percalços, ainda temos a magia, o encanto e a alegria de jogar futebol. Mas como aqui o assunto é vinhos, vamos ao que interessa. Como em anos anteriores, impulsionado por sua vastidão produtiva e variadas denominações que atuam de maneira independente e sistematicamente apostando no mercado brasileiro, colhe os frutos aqui plantados há quase 6 anos. Em um período que os índices apresentados mostraram baixa performance, neste semestre, aqui chegaram apresentando crescimento de 4,60% em valor e de uma pequena queda de -0,50% em volume. Tem 5,00% de share value e de 3,71% de share marketing. Como já informado em artigos anteriores, vieram para ficar.

7º. DEMAIS PAÍSES: Nenhuma consideração mais aprofundada, na média apresentaram queda de -16,64% em valor e de -13,43% em volume, contribuem com 4,87% em valor e 4,54% em volume.

Leia mais: 10 dicas de como escolher e comprar o seu vinho

Os números em si, não apresentaram queda abrupta, em média uma queda de apenas -1,40% em Share Value e de -4,15% de Share Marketing, que se o câmbio manter-se neste patamar e a cadeia distributiva conseguir no 2º semestre escoar, é possível ainda encerrarmos 2013 com uma leve positividade, mais adiante verificaremos como se manterá esta tendência.

ADAO AUGUSTO A. MORELLATTO

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quarta-feira, 24 de novembro de 2010 Degustação | 11:15

Primum Familiae Vini: uma degustação para guardar na memória

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A caixa com onze joias liquidas da Primum Familae Vini. Sonho de uma tarde de primavera

Um vinho premium não é obra cartesiana, muito menos é um acaso da natureza: é o resultado da relação do homem com a agricultura e de sua capacidade de extrair das parreiras a melhor uva que ela pode produzir em um determinado terreno, sob um clima específico. A pinot noir na Borgonha, a riesling na Alsácia, a tempranillo na Ribera Del Duero, o trio cabernet sauvignon, merlot e cabernet franc em Bordeaux são apenas alguns exemplos de uvas que encontraram o seu habitat após séculos de experimentação, observação e refinamento no processo de vinificação.

A tradição foi passada de pai para filho ao longo de séculos e grandes vinícolas ainda em atividade são consequência direta desta curadoria de famílias que dedicaram sua vida a esta atividade. O grupo Primum Familae Vini (PFV), formado oficialmente em 1993, é um resgate destes valores familiares em um mundo em que os negócios do vinho estão cada vez mais globalizados e concentrados nas mãos de grandes investidores. São onze famílias proprietárias de vinícolas consagradas internacionalmente, que ao mesmo tempo que promovem seus rótulos prestigiados pela crítica e adulados pelos conhecedores, levantam a bandeira da manutenção do controle familiar das empresas para as próximas gerações. Leia entrevista de Dominic Symington ao colunista de iG Luxo Mauro Marcelo, onde ele explica como funciona a PFV.

O time do momento teve os seguintes representantes: Hubert de Billy (Champagne Pol Roger); Laurent Drouphin (Maison Joseph Drouphin); Erienne Hugel  (Hugel & Fils, Perrin & Fils); François Perrin (Perrin & Fils,  Château Beaucastel); Albiera Antinori (Marchesi Antinori); Sebastiano Rosa (Tenuta San Guido);  Miguel Torres (Torres); Pablo Alvarez (Vega-Sicilia);  Philippe de Rothschild (Château Mouton Rotschild); Valeska Müller (Egon Muller-Scharzhof) e Dominic Symington (Symington Family States).  É o velho mundo em sua melhor composição – a família Robert Mondavi, responsável pela transformação do vinho americano, foi fundadora do grupo mas deixou a associação após ser vendida. “Nós somos os guardiões da tradição”, resume o italiano Sebastiano Rosa, presidente da PFV na gestão 2009/2010.

Este grupo de nobres representantes das vinhas se reúne anualmente para degustações ao redor do mundo onde juntam especialistas, jornalistas, enófilos e endinheirados em encontros que mesclam doses de hedonismo e benemerência. São Paulo foi escolhida para ser sede do encontro da PFV em 2010. O Blog do Vinho estava lá.

Meninos, eu vi! E bebi…

22 taças de puro hedonismo. Ao fundo Dominic Symington fala de seu Porto no evento da PFV

Um encontro desta magnitude – que reúne pilares como família e tradição – suscita tanto questões mais delicadas, como a discussão sobre a idade ideal em que as crianças devem começar a ter contato com o vinho (ver reportagem Do primeiro gole ao primeiro porre, de Luciano Suassuna), como também é capaz de demonstrar na prática a beleza da evolução dos vinhos de guarda, do leve peso dos anos na construção da complexidade de caldos brancos, tintos, doces e fortificados. Sim! Brancos também criam pérolas líquidas com a idade! Além das 11 amostras representativas de suas vinícolas – que estão distantes do nosso dia-a-dia – os produtores desfilaram sua tropa de elite aos pares, com safras mais recentes escoltadas por outras mais antigas. Era um dia para se acreditar na felicidade!

Se uma champagne Vintage (ou seja, safrada) Pol Roger 2000 já enchia a boca e preenchia a taça de aromas, a safra de 1990 abusava de finesse e toques de panificação. Um Beaune Clos dês Mouches Blanc 2002, de Joseph Drouphin, expunha ao vivo o poder dos grandes brancos de evoluir na garrafa e envolver o paladar em uma doçura branca untada de mel. Da Alsácia, a mineralidade e delicadeza do Riesling Jubilee 2007 contrastava com a leveza da safra 1998, muito fresca. O chateauneuf de Pape do Château de Beaucastel 2004 tinha um aroma animal e de terra característico de sua mescla de 13 diferentes tipos de uva.  O tinto da toscana Solaia 2001 era pura exuberância, já seu colega de Bolgheri, o Sassicaia  2000, era sedutor e tinha um curioso aroma tropical de caju e carambola.

Pausa para um gole de água

Os espanhóis mais antigos representados pela Torres Mas La Plana 2001 (talvez uns dos únicos vinhos mais viáveis de comprar e ter em casa) e Vega-Sicilia Único 1982 (este sem dúvida alguma fora de questão) eram profundos, densos e longos, principalmente o Vega com 18 anos de história na garrafa. Um Mouton Rothschild 2001 (me desculpem, mas neste post listar preços é um deserviço, vamos evitar…) ladeado por outro 1986 é um privilégio que permite comparar  aromas e sabores e comprovar a alquimia que ocorre dentro da garrafa nos grandes bordeaux com o passar dos anos. Fechando o ciclo, um doce e um fortificado. Um riesling de nome impronunciável, como de costume: Scharzhifberger Auselese Goldkpsel 1990, da Muller Scharzhof (Goldkpsel significa o melhor de cada ano…), uma estupenda cor dourada, uma concentração de açúcar apoiada por uma acidez persistente. E por fim um porto Graham’s 1980 Vintage com uma explosão de frutas maduras e concentradas, infinito – a tradução da excelência da ação do tempo no vinho!

Sobre o sublime e o que se tenta descrever

Um vinho premium não é obra cartesiana, muito menos é um acaso da natureza, como já se disse, mas em alguns casos guarda mais semelhanças com uma obra de arte do que com uma mercadoria produzida em série – o que de fato é. Assim como uma pintura ele pode suscitar diferentes interpretações, diversas sensações e atingir emocionalmente um indivíduo de muitas maneiras, Grandes vinhos são capazes ainda de atingir outras áreas sensoriais, olfativas e gustativas, que acionam o gatilho da memória e do prazer e podem marcar para sempre o simples ato de beber um tinto ou um branco. É como aquele ponto de um filme que te joga para dentro da história, aquele acorde que parece abduzir o espectador de um show de música para outra dimensão, o trecho do romance que te engole para dentro das páginas. Por isso o vinho é tão verborrágico entre aqueles que se emocionam com a bebida. Não basta senti-lo, é preciso traduzi-lo e compartilhar as impressões. E aí cada um tem seu repertório descritivo. Como definiu, em inglês, no encontro da PFV, o representante da Mouton Rothschild, Philippe de Rothschild, “Wine is about sharing emotions”.

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Degustação Mas la Plana
Família Vega-Sicilia

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segunda-feira, 20 de setembro de 2010 Degustação, Velho Mundo | 10:51

Degustação vertical: o tempo, as safras e os mesmos vinhos

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Cinco rótulos do Mas la Plana: de 1970 até 2006. Um tinto que sabe envelhecer

Imagine a cena. Várias garrafas de vinho enfileiradas. Todas da mesma origem e com o mesmo rótulo, e uma única diferença: a certidão de nascimento. A bebida é despejada em taças idênticas e numeradas. E os homens que cospem vinho começam o ritual de provar e avaliar cada amostra e fazer suas comparações. No mundo do vinho esta prática tem nome e sobrenome: degustação vertical. É quando várias safras de um mesmo rótulo são desarrolhadas e provadas simultaneamente.

Sabe toda aquela história da evolução da cor, dos aromas, acidez, frutas e taninos ao longo dos anos listados em todas as enciclopédias de vinho? Este é uma maneira bacana de comprovar – ou não – esta teoria. O vinho mais novo costuma ter mais apelo da fruta, mais frescor, às vezes ainda precisa amaciar na boca (resolver os tais dos taninos), a cor é mais viva. Com o tempo ele vai integrando melhor seus componentes, os aromas vão amadurecendo e criando novas camadas e se tornando mais intensos. Quando atingem o apogeu (uma espécie do ponto G do vinho: dizem que existe, mas é difícil acertar com exatidão) desenvolvem aromas pouco comuns, diversificados, a boca registra nuances e sabores mais complexos e elegantes, que grudam na memória. Se a sabedoria tivesse um sabor, seria a dos vinhos evoluídos. Mas vale dizer, não é para todo mundo. A grande maioria prefere tintos e brancos mais novos.

Aguardar ou não aguardar, eis a questão

Uma das dúvidas mais recorrentes entre os leitores deste blog é sobre a influência e a importância das safras nos vinhos. O que significa quando aquele crítico pontifica que determinada safra vai atingir seu apogeu em dez ou quinze anos? O que vai acontecer com a bebida? Abrir estas garrafas antes do tempo é bom ou ruim? Qual o motivo que leva os enófilos e especialistas a ficar velando seus cascos de safras mais remotas, cuidadosamente deitados em seus armários refrigerados, em vez de desarrolhar de uma vez por todas suas garrafas?

Duas verticais didáticas

Este Blog do Vinho já teve o privilégio de participar de várias degustações verticais. Algumas são um verdadeiro tour de force, com praticamente todas as safras de um produtor de várias décadas provadas de uma só tacada. Mas duas delas, em especial, com modestas cinco e quatro garrafas, foram uma aula de como o tempo age no vinho: a do clássico cabernet sauvignon espanhol Mas La Plana e do tradicional corte bordalês Cos D’Estournel. Todo amante do vinho merecia uma oportunidade dessas.

MAS LA PLANA

Quem é: Mas La Plana é um tinto com berço e DNA do celebrado produtor Miguel Torres – o maior representante do vinho ibérico. Miguel Torres está para o vinho espanhol assim como John Ford está para o western do cinema americano: é um dos pilares da vitivinicultura deste país. Diga-se ainda a seu favor que sua influência atravessou o oceano e fez história na região de Curicó, no Chile,  onde Torres foi  o primeiro investidor internacional a apostar em inovação em tecnologia e no cuidado com a seleção das uvas.

O que ensinou: o teor alcoólico foi aumentando ao longo dos anos, a cabernet sauvignon foi criando seu estilo espanhol, as safras mais recentes já mostram seu valor no nascedouro e, mais do que tudo, a degustação mostrou que aos 40 anos um vinho ainda pode estar vivo e sedutor.

Safras provadas: 1970, 1981, 1997, 2005 e 2006

Mas La Plana 1970 – Cabernet sauvignon 70%, monastrell 10% e Ull de lebre 20%. 12,5% de álcool, envelhecido em carvalho americano e francês (24meses). Não adianta tentar comprar, a garrafa veio direto da adega da Vinícola Torres, da Espanha – foi o rótulo que bateu os grandes Bordeaux em uma prova às cegas realizada em 1979 pela revista francesa Gault-Millau. Não é tão famosa como a Prova de Paris, mas tão representativa quanto. Um vinho ainda vivo, de cor mais atijolada, a acidez ainda está lá, a fruta é menos marcante, no nariz é sensacional, uma mistura de terra, frutos maduros e especiarias, um toque de vinho madeira. 12,5% de álcool. No tempo que os vinhos não precisavam ser potentes e alcoólicos para serem bons.

Mas La Plana 1981 –Cabernet Sauvignon 100% com 12,5% de álcool, envelhecido em carvalho francês e americano (24 meses). Em outra degustação vertical do Mas la Plana foi o mais bem avaliado. Aqui nem tanto, esta é a graça da experiência, aliás. Um pouco mais de fruta presente, se comparado ao seu irmão mais velho, aromas evoluídos, mas não me encantou os sentidos. Ficou espremido entre a sofisticação madura do 1970 e a exuberância mais completa do 1997, este que vem a seguir.

Mas La Plana 1997 – Cabernet sauvignon 100%, 13,5% de álcool, envelhecido em madeira francesa. Esta foi a safra que o carvalho americano perdeu o terreno para o francês.  A evolução está perfeita, a boca é larga, aromas de especiarias, couro, frutas maduras, café. O vinho baila pela boca e desce carregando toda sua complexidade de sabores. E fica grudado na memória, no palato, no olfato. O fundo de copo permanece evoluindo no nariz, uma delícia.

Mas La Plana 2005 –100% cabernet sauvignon, 14% de álcool, envelhecido em carvalho francês por 18 meses. Olha só o álcool subindo, subindo… Me pareceu mais sisudo e fechado, o que talvez que lhe dê mais esperança de sobrevida na garrafa. A cor bem escura, a fruta em construção, de menos impacto.

Mas La Plana 2006 – 100% cabernet sauvignon, 14,7% de álcool, 18 meses em carvalho francês. Esta safra está à venda do Brasil. Por R$ 160,00 você tem uma garrafa dessas em sua adega. Um grande caldo por um preço até modesto perto do que cobram alguns ícones sul-americanos sem a mesma história. Fruta integrada à madeira, profundo, já pronto para beber, com força de frutos maduros, elegância juvenil – uma raridade -, pede uma carne como companhia.

COS D’ESTOURNEL

Quem é: Château Cos d’Estournel. Um dos maiores ícones da região de St.-Estèphe, em Bordeaux, produz vinhos desde 1811; na famosa classificação de 1855, que até hoje determina quem é quem em Bordeaux, foi considerado o melhor château da subregião. Se distingue por uma presença forte de merlot em seu corte bordalês.

O que ensinou: o corte bordalês é uma experiência rica em tradição gustativa, imbatível na sedução quando tudo dá certo; o estilo de Bordeaux também se mostrou mais moderno nas safras recentes – os vinhos já não precisam de alguns anos de garrafa para começar a ser domados e apreciados. Macios, já dão prazer no lançamento da safra.

Safras provadas: 1985, 2003, 2005 e 2009

Cos d’Estournel 1985 – eis um velho sábio, mostrando aos seus herdeiros como envelhecer com classe e elegância. Notas de frutas evoluídas, passadas, o corpo mais leve, vai se modificando na taça, tem uma pegada de um porto Vintage. cabernet sauvignon (60%) e merlot (40%). É um representante da velha guarda, do estilo mais tradicional de Bordeux, mas acho que não vai melhorar mais com o tempo, pelo menos não a garrafa que provei.

Cos d’Estournel 2003 – este foi o ano do calor que matou os velhinhos na França. O corte é de cabernet sauvignon (70%), merlot (27%), petit verdot (2%) cabernet franc (1%). A escassez provocou uma seleção mais apurada das uvas. Entrega intensidade, potência e fineza de boca. Mas não apaixona.

Cos d’Estournel 2005 – cabernet sauvignon (78%), merlot (19%), cabernet franc (3%). Segundo o produtor Jean Guilaume Prats atingirá seu pico de qualidade em 10 anos. Se você agüentar até 2015 para comprovar… Se procurar uma definição para um vinho de textura aveludada, este é um representante legítimo. Muito potência de fruta, evolução fina de aromas de frutas maduras e sedutoras, belíssima integração da madeira. Um hotel cinco estrelas para os sentidos.

Cos d’Estournel 2009 – esta é a safra do século de Bordeuax até agora. Bom, o problema é definir quantas safras do séculos cabem em um século. Já teve 2000, 2005 e agora 2009. Mas o vinho ainda está muito novo, mas promete. Tem cor viva, acidez boa, taninos balanceados, fruta ampla, intensidade. Bebê-lo agora já é um prazer, em dez anos deve ser como rever um grande amigo, e descobrir novas qualidades. Cabernet sauvignon (65%), merlot (33%) e cabernet franc (2%).

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quinta-feira, 25 de setembro de 2008 Novo Mundo, Velho Mundo | 17:35

O investidor que virou vinho

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Em 2004, quando o espanhol José Manuel Ortega Gil-Fournier (foto) largou  a vice-presidência do Banco Santander para se dedicar aos vinhedos, seus amigos do mercado financeiro o chamaram de maluco. Neste dias, em que os bancos de investimento estão derretendo e o mercado trinca os dentes, Ortega Gil-Fournier saboreia o retrogosto da vitória: “Hoje em dia, quem me chamava de louco, me cumprimenta pela decisão”.

A conversão deste alto executivo do mundo das finanças para o mundo dos vinhos começou pelo bolso, mas acabou tomando conta da cabeça. Quando trabalhava com o Goldman Sachs, em Londres, investiu 25 mil euros na aquisição de 2000 garrafas de rótulos espanhóis com forte apelo de investimento: topos de linha como Pesquera, Vega Sicilia, etc

A garimpagem pelas melhores safras aproximou Fournier do assunto. Em 1999, quando era responsável por investimentos do Santander na América do Sul, enxergou o potencial dos vinhedos argentinos e adquiriu terras em Mendoza. O negócio começou a tomar forma com a irmã e um cunhado. Passados oito anos, a O. Fournier tem vinícolas estabelecidas na Argentina, no Chile e na Espanha, na região de Ribera del Duero. São projetos autônomos, mas com afinidades de objetivos (vinhos de alta qualidade) e de características: os três estão localizados em terrenos de altitudes mais elevadas (cerca de 2.400 metros), trabalham na recuperação de vinhedos  antigos e adotam um regime de baixa produção por planta (que geralmente resulta em caldos de maior complexidade e refinamento, e preços idem).

Resultado: rótulos como A Crux (Argentina) e Spiga (Espanha) acumulam prêmios e críticas favoráveis ao redor do planeta. O argentino O. Fournier Syrah 2004 (U$ 159,50) é um dos rótulos mais prestigiados de um linha de excelências da vinícola. Mas de todos que provei fico com outras escolhas, listadas no post seguinte. “Não queremos produzir vinhos muito caros, nem para os top de linha”, argumenta Ortega Gil-Fournier. Não, isso não quer dizer que são produtos baratos, mas comparados a preços de vinhos do mesmo nível, o argumento é válido.

Ortega Gil-Fournier ainda toca num ponto controverso: a capacidade de envelhecimento dos rótulos abaixo do Equador. Contrariando o senso comum, que alega que envelhecimento é prerrogativa dos vinhos europeus, ele aposta na capacidade dos caldos do novo mundo. “Vinhos chilenos e argentinos podem evoluir, sim”, pontifica. “Fizemos uma degustação onde havia um tannat 1944, da Norton, que estava vivíssimo e um Trapiche 64 que evoluiu muito bem”, relata. É beber para crer.

Quanto à adega de safras antigas de seu investimento inicial, Ortega Gil-Fournier não parece muito preocupado. Seu foco, agora, é outro – ampliar seu raio de ação. Os próximos alvos são as regiões do Douro, em Portugal, e de Napa Valley, na Califórnia. Algumas garrafas da coleção foram abertas, claro, mas o restante continua ali, evoluindo seus aromas, afinando seus taninos e aumentando seu preço – o vinho transformou a vida do ex-vice-presidente de banco, mas nem por isso o homem rasga dinheiro, não é mesmo?

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Brancos, Novo Mundo, Tintos, Velho Mundo | 17:24

Três goles de três vinhos de três países…

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…de um mesmo produtor: O. Fournier. Algumas impressões:

O Centauri Sauvignon Blanc 2007 (Chile, Vale de Leyda, San Antonio, U$38,50) vem da primeira safra do projeto do O. Fournier no Chile. Tem ótimo frescor e aquele nariz meio cítrico e de ataque que se espera de um sauvignon blanc do novo mundo.

O tinto Alfa Crux Blend 2002 (Argentina, Mendoza, La consulta, U$ 75,50), como revela o nome, é uma mistura de três uvas: tempranillo (60%), malbec (35%) e merlot (5%). Se tiver de optar, eu costumo preferir os cortes. O produtor Ortega Gil-Forunier também. Neste tipo de vinho o trabalho do enólogo é mais exigido, pois ele pode extrair o melhor de cada uva e reunir num único rótulo. Vinho delicioso, pronto e macio na boca, aromas de frutas mais maduras e flores, tudo isso prolongado por um final longo.

Alfa Spiga 2003 (Espanha, Ribera del Duero 2004, U$ 129,50). Trata-se de um puro-sangue: 100% tempranillo (tinta del país, como é conhecida a uva na região). Ortega Gil-Fournier aposta, e torce, na vocação da tempranillo como uma uva internacional, e cita experiências na Austrália e nos Estados Unidos. E, só para contrariar minha predileção por misturas, mencionada acima, este vinho conquistou de primeira, mas exige um investimento mais alto. O Alfa Spiga, antes de virar garrafa, hiberna 20 meses em barricas novas de carvalho, que dá aquele tempero ibérico e um caldo potente, de cor intensa e fruta madura. Que a tempranillo se espalhe pelo mundo, então.

Site oficial: O. Fournier
Onde encontrar: Importadora Vinci (preços com cotação do dólar do dia)

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quarta-feira, 30 de julho de 2008 Brancos, Tintos, Velho Mundo | 22:53

Família Vega-Sicilia

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Repare nas imagens acima. Há uma certa semelhança entre os dois retratados, não? O sujeito da direita é o ator James Gandolfine, que interpreta Tony Soprano, o chefe mafioso em crise da série de TV Família Soprano. Na esquerda quem comparece é Pablo Alvarez, proprietário das Bodegas Vega-Sicilia, a mítica vinícola espanhola fincada em Ribera del Duero, na Espanha, que esteve em São Paulo, com o filho e enólogos, para compartilhar com uma série de convidados o seu próprio vinho. Curiosa semelhança entre os dois, não me saía da cabeça durante o encontro. O sujeito sentado no meio de uma grande mesa. Sicília, máfia, família, o mesmo jeitão… muita coincidência. Se ele sacasse, nem que fosse um charuto do bolso, eu caía fora!

Bobagem! Pablo Alvarez é um empresário calado e tímido, é o antimarketing em pessoa. Ao contrário da maioria dos produtores e enólogos, que pousam por aqui munidos de apresentações em power point, catálogos caprichados e discursos irritantemente didáticos (e não há mais quem agüente o batido discurso de que “não se faz bom vinho com uva ruim”), Don Pablo parece implorar para não ser instado a falar. Inundado de perguntas, suas respostas são curtas e diretas. Uma definição para o Vega-Sicília Único? Elegância. Qual o melhor dos seus vinhos? O melhor ainda está para ser feito. A região de Toro, onde tem uma propriedade (dali sai o Pintia), pode um dia alcançar a qualidade de Ribeira del Duero? Não, não tem o mesmo clima e o solo encontrados em Ribera del Duero. Questionado sobre as experiências de um branco com o selo Vega-Sicilia, Don Pablo assumiu seu lado Família Soprano, se fechou em copas e negou com veemência. Seu enólogo, um pouco mais falastrão, anunciou, em particular, o lançamento para 2013, da safra 2010. Depois indagou, dissimulado: “Você não é da imprensa, é?”

Don Pablo, como se vê, não é de teorizar muito sobre seus rótulos. Seus vinhos falam por si. Mito espanhol, o Vega-Sicília Único Gran Reserva só é produzido nos melhores anos. Para se ter uma idéia, a safra que está no mercado é a de 1996. É o primeiro vinho da casa, sem dúvida alguma, mas tenho de confessar que o Vega-Sicilia Valbuena 5º Año Reserva 2002 me agradou mais, estava mais pronto e às cegas eu o teria eleito em primeiro lugar, apesar de ser o segundo vinho da casa  – e que segundo! Clássico, elegante, potente, floral no primeiro ataque e com várias camadas de aromas após um tempo na taça. Foi ótimo com um kobe beef, mas vai bem com tudo, mesmo sozinho. Um Armani dos tintos (inclusive no preço), com pinta de Bordeaux e tempero Espanhol.

As estrelas da noite, pela ordem de entrada, foram:
Tokaji Furmint Mandolás 2005 (um branco seco de boa acidez da Hungria, U$ 39,90); Pintia 2004 (um tinto potente e um pouco alcoólico da região de Toro, U$ 126.50); Alión 2003 (240.000 garrafas produzidas ao ano, um clássico da uva tempranillo, U$ 145,50); Vega-Sicilia Valbuena 5º Año Reserva 2002 (180.000 garrafas/ano, clássico, elegante e pronto para beber, US$ 319,50); Vega-Sicilia Único Gran Reserva 1996 (80 a 110.000 garrafas/ano, caldo intenso, muita fruta, mas ainda vai melhorar na garrafa, U$ 749,50), os três últimos da região de Ribera del Duero. Para finalizar um prazeroso vinho doce de sobremesa da Hungria, Tokaji Aszú 5 Puttonyos 2000, U$ 127,50. Nada aqui é barato. Qualidade e reconhecimento têm preço. Mas o que mata são esses 50 cents no valor de tabela, né não?

Todos os vinhos fazem parte do catálogo da Mistral. Os preços da importadora são tabelados pelo dólar do dia.
Bodegas Vega-Sicilia: site oficial

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