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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016 Blog do vinho | 12:48

Importação de vinho: em 2015 Chile continuou na liderança, mercado retraiu e o imposto aumentou

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O vinho está caro, não? A vida está cara. Basta percorrer as prateleiras dos supermercados, lojas especializadas e  sites de e-commerce para perceber que mesmo com descontos – é tempo de liquidações de estoque – os preços subiram. E 2016 promete. A contribuição para este cenário tem sempre a mão amiga do governo, que além de toda carga tributária já embutida no produto alterou, a partir de dezembro de 2015, a cobrança do IPI que passou de um valor fixo de  R$ 1,08 por garrafa para um tributo variável de 10% sobre o valor do vinho. A disparada do dólar também contribui – e muito – para esta valoração dos preços.

E como o reflexo econômico de 2015 afetou o mercado de importação de vinhos no Brasil?

Mais uma vez eu pego carona no trabalho do consultor Adão Morellatto (autorizado pelo autor, claro) e publico a situação da importação de vinho no Brasil. O ano é de 2015. Não precisa dizer mais nada, né? Mas a fotografia não é tão feia assim: teve uma retração de 11,28% em valor (a inflação no período foi de 10,673% IPCA), mas  uma leve alta de 1,56% em volume, ou seja há vinhos mais baratos sendo escoados no mercado brasileiro, com enorme participação do Chile nesta pegada (faixa de até 35 reais para o consumidor).

Comparada com a mesma análise de 2014, a posição dos países no ranking continua inalterada. Os vizinhos Chile e Argentina juntos dominam mais de 60% do mercado de vinhos no Brasil. A França vem em seguida empurrada pela inclusão dos Champagnes na conta. Em seguida Portugal e Itália, com Espanha na rabeira entre os principais. Alguns países caíram mais do que outros.

 

O Chile continua líder, a Argentina perde mercado mas mantém segunda posição

Abaixo um resumo das principais informações e dados consolidados pela análise de Adão Morellato

1º. CHILE:   Com um novo recorde de produção com 12,8 milhões de hectolitros (alta de 23%) em 2015, os chilenos batem pesado no mercado brasileiro e é necessário escoar toda esta produção, seja onde for, esteja onde estiver o consumidor, sua participação chegou a 37,34% em Valor e 45,29% em Volume, porém com uma ligeira queda de -5,21% de valor sobre 2014. Seus produtos adentram nosso mercado com uma forte penetração no segmento mais promissor (faixa de até R$ 35,00 consumidor), com uma desvalorização de 8,84% em USD. Também apresenta um crescimento de 3,62% em volume.

2º. ARGENTINA:  Segue a mesma estratégica do Chile em baixar seus vinhos, porém de maneira ainda muito tímida, apenas 3,89% de desvalorização e queda de -14,39% ref. a 2014. Os anos em que a Casa Rosada foi reinada pelos Kirchner, não foram nada satisfatórios aos vinicultores, reduziu em 12% a produção vitivinícola na última safra. Seus vinhos ainda são 31,29% mais caros do que os similares vizinhos. Em 2015 manteve um desempenho idêntico a de 2014, 17,19% em Valor e 15,87% em Volume. Em valor retrocedeu ao período de 6 anos atrás (2009).

3º. FRANÇA:  Como já informado acima, dado ao fato de que o Champagne tem um peso enorme na pauta deste segmento, participando com quase a metade do valor 47,48%, demonstra um marketing Share de 14,19% e Value de 5,91%, com queda cambial de -20,18% e participação negativa de -17,36%, praticamente voltou ao patamar de 2011 em valor.

4º. PORTUGAL:  Também apresenta um retrocesso de 5 anos de seu desempenho de valor, 11,18% em Valor e 12,64% em Volume e queda similar a da França -14,29% e com deflação cambial de -23,17% em seus produtos. Visto que sua produção aumentou em 8% em 2015, há uma grande procura de produtores buscando fincar suas próprias bandeiras em solo brasileiro, por certo não encontram em outros grandes mercados (USA / China) uma classe consumidora mais apropriada sejam pelo hábito e costumes, sejam pela praticidade linguística.

5º. ITÁLIA: Entre os principais player´s o que apresentou o pior desempenho com -22,14% de queda, como comparativo, retorno aos patamares de 2008. Tendo os vinhos tipo Prosecco contribuído com 12,38%. Seu custo médio apresentou queda de -9,76% e sua participação permaneceu em 10,14% em Valor e 11,22% em Volume. Devido a sua grande safra que em 2015 atingiu exponencialmente 48,9 milhões de hectolitros, há que buscar alternativas e seu mercado mais promissor são os EUA, com forte presença, disputando em pé de igualdade com os produtores americanos.

6º. ESPANHA: Depois de alguns anos conquistando mercado com muita velocidade, em 2015 teve queda de -11,27% e atingiu 5,35% de participação em Valor e 1,38% em volume com desvalorização cambial de -23,14%. Os vinhos Cavas contribuem com 26,62% de seu total. Apesar da queda, mantém uma boa estrutura de produtos atrativos. Hoje sem nenhuma dúvida, junto a Itália, são os que melhor oferecem a relação de custo/qualidade.

7º. DEMAIS PAÍSES: Contribuem com menos de 4,70% em Valor e 4,20% em Volume, destaque para crescimento de 25,07% da Austrália e 6,81% do Uruguai.

Leia também: 10 dicas de como escolher e comprar o seu vinho

Dados extraídos do Análise de Mercado de 2015 da análise de

ADAO AUGUSTO A. MORELLATTO

INTERNATIONAL CONSULTING

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quinta-feira, 30 de abril de 2015 Tintos, Velho Mundo | 11:31

Um vinho francês de bom preço e um sapo arrogante

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Vinhos do Languedos, sul da França: um príncipe entre os sapos!

Vinhos do Languedoc, sul da França: um carignan de vinhas velhas entre os sapos!

Então você quer beber um vinho francês e na hora de escolher um rótulo fica dividido entre deixar de pagar a mensalidade escolar do seu filho e gastar a grana comprando um premiado Bordeaux, um elegante Borgonha, um clássico Champagne ou acaba se arriscando num rótulo genérico de supermercado mais barato e fica com aquela impressão que vinho da terra do Asterix é só para poucos mesmo. Decepção.

Assim como a França vitivinícola não se resume a estas três regiões clássicas, os valores não precisam ser tanto ao céu nem tanto à terra. Há vinhos de boa qualidade e preços médio de várias regiões da França que chegam aqui no Brasil também. E são agradáveis, com alguma tipicidade, mais despretensiosos, nem por isso mal cuidados.

O próprio governo francês trabalha neste sentido. O escritório da embaixada francesa, através da agência Business France, montou um estande na última ExpoVinis cuja estratégia era mostrar ao mercado que grande parte da produção do país é feita para um consumo do dia a dia, sem protocolo, mas mantendo qualidade. E apresentou rótulos de diversas regiões. O lema era: “Vinhos franceses: não precisa complicar. Basta amar!”

Foi nesta pegada que segui para uma degustação de tintos e brancos da Domaines Paul Mas, da região do Languedoc, Sul da França, dia desses. Se você nunca ouviu falar do Paul Mas provavelmente um de seus vinhos já deve ter  chamado sua atenção: Arrogant Frog. Se não pelo vinho, pelo menos pelas simpáticas figuras aí de baixo.

Desprentensioso, divertido, mas arrogante

Despretensioso, divertido e um marketing moderno

E foi mirando o sapo gabola que imaginei que iria conduzir este texto. Mas este negócio de pensar o texto antes dos fatos costuma dar errado. Outro vinho, de preço nada arrogante, no entanto, me chamou mais a atenção.

Paul Mas

Mas antes do vinho, um pedágio: a apresentação da vinícola e seu projeto. A Domaine Paul Mas não é um empreendimento qualquer, não: são nove diferentes vinhedos cobrindo toda a extensa região de Languedoc, 478 hectares de vinhedos próprios (92 biodinâmicos), 1285 hectares de vinhedos de parceiros sob contrato, mais de 30 variedades de uvas plantas, 8 enólogos, 130 empregados, mais de 2 milhões de caixas de vinho produzidas e exportadas para 58 países nos 5 continentes. O conceito: produzir vinhos do Velho Mundo com a Filosofia do Novo Mundo, ou como está descrito no site da empresa “ O segredo da qualidade de nossas uvas e nossos vinhos está no fato de que trabalhamos com o espírito de uma pequena vinícola mas com a operação em escala de uma vinícola do Novo Mundo”.

Ah, uma historinha sobre o rótulo do Arrogant Frog. Como se sabe os franceses não têm a fama de serem as pessoas mais modestas e simpáticas deste planeta. Por conta desta característica que os identifica, seus vizinhos e eternos rivais ingleses costumam tratá-los como batráquios. Juntando o fato de que na época de seu lançamento os Estados Unidos estavam boicotando os produtos franceses já que o país se recusou a aderir à Guerra do Iraque, a ideia de responder com humor a situação revelou-se uma baita ferramenta de marketing. Daí surgiu a linha Arrogant Frog e seu rótulo chamativo, e lá se vão 10 anos.

Paul Mas Carignan Vieilles Vignes 2013.

Então estou eu na tal degustação na esperança de juntar minha ideia de explorar o sapo num texto e recomendá-lo aos leitores. E topei com um vinho muito mais bacana para recomendar: o Paul Mas Carignan Vielles Vignes 2013. É dele que falo abaixo.

Paul Mas Vielle Vignes Carignan: um vinho do seu lugar

Paul Mas Vielile Vignes Carignan: um vinho que representa sua origem

Paul Mas, Carignan Vieilles Vignes 2013

Produtor: Chateau Paul Mas

Região: Languedoc – Vale do Hérault

Uva: 100% carignan

Preço: R$ 79,00(no site da importadora Decanter está em promoção por R$ 67,00)

E voilá! Pelo mesmo preço de um Arrogant Frog acho que tem mais vinho nesta garrafa de 100% carignan de vinhas de mais de 50 anos. O bichão tem boa concentração, um corpo médio, taninos suavizados pelos seis meses de barricas americanas (20% novas). Tem um aroma mais doce, com traços da passagem pela barrica, fruta negra madura e um toque terroso delicioso. Foi bem com o confit de pato, retratado abaixo.

Vai um pato aí?

Vai um pato aí? Um carignan, s’il vous plait!

Ficou curioso pelos sapos topetudos, né? Muita gente já conhece, mas vamos a eles: dos dois Arrogant Frog que provei, o Syrah-Viognier 2013 (91% syrah de vinhas de 20 a 30 anos e 9% viognier – R$ 71,50) e Reserve IGP 2013 (um típico GSM: grenache, 30%, syrah, 45%, e mourvèdre, 25% – R$ 79,00), acho o segundo mais típico de uma região mediterrânea, mais gostoso de tomar e gastronômico, com um toque nítido de especiarias e notas defumadas, cai muito bem com uma comida de bistrô, por exemplo. Há uma linha relativamente grande do Arrogant Frog no mercado brasileiro. Entre eles os  divertidos tutti-frutti, rouge, rosé e branco destinado ao público mais jovem.   Descompromissados, resolvem uma festa, uma refeição sem grandes pretensões, mas pelo mesmo o preço (ou até menor, como a atual oferta), o Paul Mas Carignan Vieilles Vignes dá mais prazer.

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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015 Blog do vinho, Novo Mundo, Sem categoria, Velho Mundo | 13:34

Chile domina de vez o mercado de vinhos importados no Brasil. Conheça o ranking.

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Sabe aquela história de crise no mercado de vinhos que a gente escuta todos os anos? Pois é, no mundo do espumantes nacionais todas as maiores empresas revelaram crescimento em 2014 (ver post Espumantes brasileiros: preferência nacional e consumo no final do ano). O mundo dos importados, “mesmo com todo o emblema, todo o problema, todo o sistema”, vai levando os números para cima. O crescimento em relação a 2013 foi de 12,5%. É isso que mostram os números consolidados de importação de vinhos de 2014 preparado semestralmente pelo consultor Adão Morellatto.

Em um país com déficit de dados, este levantamento realizado por Morellatto é um trabalho importante que mostra como está o mercado de vinhos importados no Brasil.  Morellato explica: “Em valor estamos próximo de um montante de USD 325.000.000,00 e algo como 9.000 conteiners de 1.000 CX/12; somente por estes números dá-se para imaginar o tamanho, complexidade, versatilidade, dinâmica e valores que envolve este setor. Levantando os dados de 2007 x 2014, a performance foi 93,45% ou uma média ponderada de 13,35% anual. Poucos e segmentados produtos cresceram nesta proporção. E ainda há o fator cambial, que em 2014 aumentou em quase 15%.”  Resultado nada mal em um país que teve um crescimento perto de zero em 2014. 

Para o consumidor, estes números apenas planilham uma constatação que pode ser verificada nas prateleiras dos supermercados, nos sites de e-commerce e cartas de vinho dos restaurantes. A maioria de rótulos é de vinhos chilenos, argentinos, portugueses, franceses e italianos. Além dos brasileiros que não entram, evidentemente, nesta análise de importados.

O Chile está perto de abranger 50% do mercado de vinho fino.

Abaixo um resumo das principais informações e dados consolidados pela análise de Adão Morellato

1º. CHILE:  Existe uma grande possibilidade de o Chile em breve dominar 50% do mercado brasileiro de vinhos finos. Se considerar somente o tipo vinho fino, ele representa quase 46,40% em valor, porém no consolidado, retrai-se um pouco para 35,30% em valor e 44,39% em volume. Seu preço médio está 25% mais econômico que os vinhos argentinos.  O crescimento em 2014 foi de 25,59% alavancado principalmente pela estratégica das grandes empresas chilenas em priorizar os 5 mercados chaves: USA, Reino Unido, China, Japão e Brasil

2º. ARGENTINA: Contrariando os prognósticos locais, apresentou um crescimento de 9,52% e sua participação caiu um pouco, hoje estabelece-se nos patamares de 17% de volume e valor. (para se ter uma ideia em julho de 2013 os vinhos argentinos detinham 21,09% em valor e de 20,21% em volume). As razões? As políticas econômicas do atual governo. Enquanto Chile manteve seu preço médio em USD 3,20 p/ litro, na Argentina houve um aumento de 3,08%, chegando a USD 4,01 p/ litro

3º. FRANÇA: A França apresenta-se em terceiro lugar neste ranking devido ao valor de seus produtos atingirem quase 15% de participação, mesmo com um índice em volume de apenas 5,85%. Isso se explica pelo preço médio de USD 10,30 p/ litro, influenciado pelo alto valor agregado do champagne, que sozinho representa 37,82% de toda exportação francesa.

4º. PORTUGAL: Por uma pequena diferença com a França, Portugal passa para a quarta posição. Participa com quase 12% de Share, com crescimento de 4,50% e preços médio de USD 3,88 p/ litro

5º. ITÁLIA: Em 2014 cresceu 3,97%, com participação bem próxima de Portugal, exatos 11,13% em valor e de 11,68% em volume. Já não há tanta influência do vinho tipo Lambrusco que chegou a representar quase 50% de todo o volume de vinhos deste país há alguns anos. O Vinho Prosecco representa 12,34% de market share no seu montante total.

 

6º. ESPANHA: De 2007 há 2014 a Espanha vinha apresentando um crescimento a uma média de 31% ao ano. Em 2014, contrariando os anos anteriores, apresentou uma ligeira queda de quase -1%, só não caiu mais devido ao vinho (CAVA) ter crescido sua participação em 16,06%, representando 26,17% na totalidade.

7º. DEMAIS PAÍSES: Apresentam menos de 5% de participação, com destaque evolutivo para os países: Alemanha = 16,72%  / Africa do Sul =54,95% / USA = 47,90%, queda abrupta da Austrália em 69% e Uruguay que patina nos números idênticos ao ano de 2007.

Leia também: 10 dicas de como escolher e comprar o seu vinho

Dados extraídos do Análise de Mercado de 2014 da análise de

ADAO AUGUSTO A. MORELLATTO

INTERNATIONAL CONSULTING

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sexta-feira, 28 de novembro de 2014 Degustação, Tintos, Velho Mundo | 12:34

Vinhos da Borgonha, no céu e na terra

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Gevrey-Chambertin da Domaine Armand Rousseau: joias raras

Gevrey-Chambertin da Domaine Armand Rousseau 2009 e 2008: o paraíso é aqui

Proibido na terra o vinho é uma das promessas do paraíso muçulmano. É descrito no Alcorão como “Branco, delicioso para quem o bebe, livre de intoxicantes e, com ele, não se embriagarão” (Alcorão 37:46-47). Não sei qual a graça deste vinho sem álcool, mas no meu paraíso particular, o vinho também seria contemplado, e se precisasse escolher apenas uma região – o que na teoria seria uma contradição, já que estaria no paraíso, né? – seria a Borgonha. Então, cada vez que tenho a oportunidade de provar rótulos realmente representativos desta região da França, um pedacinho do paraíso se realiza em vida. Foi o que aconteceu esta semana, quando fui convidado para uma degustação exclusiva de tintos e brancos de alta patente da Borgonha (ou Bourgogne, para os puristas).

A Borgonha é grande e é pequena. Grande por que produz os pinot noirs e chardonnays mais encantadores do planeta. Pequena por que ocupa apenas 3% de todos vinhedos plantados na França. Está localizada há duas horas de Paris e é fragmentada por natureza e por uma decisão de Napoleão Bonaparte, que dividiu grandes propriedades da Igreja em pequenas parcelas que foram subdivididas por heranças ao longo do tempo. Uma imagem possível para descrever o mapa da Borgonha é um vitral, ou uma colcha de retalhos. A parte mais importante, de onde vêm os melhores vinhos, é a Côte d’Or, que é dividida entre a parte sul (Côte de Beaune) e a parte norte (Côte de Nuits). A partir daí surgem as apelações, as comunas e os vinhedos com suas distintas personalidades e proprietários. E para piorar a algaravia de nomes, diversos produtores têm pequenos lotes espalhados por toda a Côte. Para se ter uma ideia, a apelação Clos Vougeot tem 50 hectares divididos entres mais de 90 produtores. Se fosse um “bread crumb”, aquelas sinalizações no alto de uma página de internet que indicam o caminho percorrido pelas navegação do usuário, seria algo assim: França->Borgonha->Côte d’Or->Côte de Nuits->Clos Vougeot->Produtor->classificação de vinhedo (grand cru, premier cru etc). Difícil – e inútil – decorar todas apelações e descrevê-las aqui. Eu confesso que tenho sempre de recorrer aos livros e à internet. Quem realmente domina a região não precisa disso, quem não conhece vai achar enfadonho e esquecer tudo no parágrafo seguinte. Para aqueles que quiserem se aprofundar em todos os detalhes da Borgonha o site Bourgognes é bastante útil.

Por conta destas características que unem qualidade, pequena produção e muita procura, a comercialização destes vinhos é outra particularidade da Borgonha que tem entre tantos ícones, talvez a vinícola mais cultuada do planeta, a Domaine de La Romanée-Conti. A distribuição, ou realocação, é uma batalha travada pelos importadores de todo país que é agraciado, após muita negociação e espera, com algumas poucas garrafas de determinado rótulo. É uma distribuição pontual e global. Quando se fala em poucas garrafas, não é exagero, às vezes 12 garrafas de um grand cru (o topo da cadeia alimentar da classificação da Borgonha) são exportadas para um país. Resultado: são vinhos caros, caríssimos, o que aumenta a mística em torno destes caldos que passam a ser objeto de desejo de quem gosta muito de vinho ou de quem gosta muita de ostentação, ou de ambos.

 Para um importador se não chega a ser um grande negócio é sempre sinônimo de qualificação ter rótulo bacanas de produtores de renome da Borgonha no catálogo. E talvez uma satisfação pessoal. Para os produtores, que têm a venda mundial praticamente garantida, trata-se de uma estratégia. “Para eles é mais importante ter o produto espalhado e cultuado em diversos países por todo o mundo do que concentrado em um único lugar”, esclarece Raphael Zanette, proprietário da Magum Importadora, que tem entre seus produtores pequenas joias como Arnoux Lachaux, Domaine Dujac e Armand Rousseau. Foram rótulos destes senhores que me inspiraram este post. Os preços, que provocam em geral um olhar de espanto seguido de um sorriso amarelo, são consequência do que foi relatado no parágrafo anterior somado ao custo Brasil.

Só existe Borgonha inacessível? Não, há as classificações mais básicas, como os Regionais e Village, vinhos realmente de entrada, de cor mais rala, pouca persistência e que podem até decepcionar quem espera encontrar na taça um líquido em forma de poesia. Por isso, é importante o nome do produtor que garante uma qualidade mínima ao vinho desde a linha básica e também o entendimento que há vários estilos de vinhos na região, como em todas do mundo, aliás.

De modo geral a pinot noir apresenta uma coloração de clara para média, são típicos aromas de cereja, framboesa, flores e algo de caça e terroso (húmus). Os mais evoluídos são uma viagem sensorial com várias camadas e variações de aromas e sabores. A pinot noir é tão típica e diferenciada que na minha opinião o melhor descritivo seria: tem gosto e aroma de pinot noir. Afinal, as coisas não têm um gosto que as represente?

Dos dez rótulos bebidos – ninguém ousou cuspir desta vez -, destaco cinco tintos que de alguma forma me encantaram mais e mostraram mais uma vez o que é que a Borgonha tem, tem pinot noir como ninguém.

Aloxe-Corton Domaine Tollot-Beaut 2009

R$ 375,00

Diante de um painel estrelado, o tinto de melhor custo-benefício, se é que cabe o termo aqui. Localizado em Chorey, é comandado pela quinta geração de uma família que está há mais de 100 anos fazendo vinhos. Correto, frutado, com boa expressão de aromas e boa estrutura. Tem um bom ataque e bela persistência. Isolado dos outros faz o maior sucesso.

Morey-Saint-Denis Domaine Dujac 2011

R$ 475,00

Entre os entendidos de Borgonha no Brasil, a Domaine Dujac é uma vinícola conhecida e que teve um trabalho importante de divulgacão anteriormente em outra importadora. Diante dos vizinhos ancestrais é uma produtora relativamente recente, fundada em 1967 por Jacques Dujac. Ironia ou não a atual enóloga responsável é uma americana, Diana Snowden Seysses, casada com Jeremy Dujac, filho de Jacques. Desde 1986 promove-se a conversão dos vinhedos para cultivo orgânico. Foi tinto mais terroso de todos – toque que apareceu também no Morey-Saint-Dennis Domaine Dujac 1er Cru 2011 (R$ 860,00) -, que deu maior pinta de orgânico e com um intensidade bem bacana.

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 Gevrey-Chambertain Domaine Armand Rousseau 2008

R$ 620,00

Gevrey-Chambertain 1cru Clos Saint Jacques Armand Rousseau 2009

R$ 1.900,00

Meu vinho preferido entre todos foi Gevrey-Chambertain Domaine Armand Rousseau 2008, vejam que modesto que sou (comparado a outros preços). Na família desde o início do século XX a propriedade comandada pela terceira geração iniciou em 1982 um processo de direcionamento dos vinhedos para a viticultura orgânica, com a menor intervenção possível. O safra 2008 era o mais exibido e intenso. Elegante nos aromas frutas e flores, fino na boca, licor de cereja, defumados, champigon. O Gevrey-Chambertain, em um painel de borgonhas, costuma ser um vinho mais potente, juntando estrutura e elegância. Este aqui mostrou tudo isso. Seu parente mais caro é igualmente bom, mas além da diferença de preço, havia uma diferença de paladar que conquistou a todos presentes (único vinho que teve a garrafa toda esvaziada). Papai Noel, se estiver precisando de uma dica para este escrevinhador…

Romanée-Saint-Vivant Grand Cru Domaine Arnoux-Lachaux 2007

R$ 3.300,00

Olha a colcha de retalhos aqui: com 13 hectares localizados em 14 apelações da Côte de Nuits, esta vinícola é obra de Pascal Lachaux e Robert Arnoux, que são respectivamente genro e sogro. Eles juntaram seus conhecimentos e afinidades para produzir tintos de excelente padrão e alta gama. Os vinhedos deste exemplar aqui são vizinhos do Romanée-Conti. Quem compra um vinho de R$ 3.300,00? Não sei, mas o que se avalia aqui é a qualidade, a tipicidade e o encanto que um caldo desses é capaz de proporcionar. E não o preço, se não nem começava a escrever. E este mostra tudo isso. Todos os “ades” possíveis: complexidade, intensidade, longevidade e tipicidade da pinot noir. São produzidos de 5 a 6 barricas por ano deste vinho. Um grand cru deste naipe é um tinto de guarda, como recomenda o produtor – deve ser fenomenal com mais de 20 anos. Mas não sei se estarei vivo até lá. É o chamado vinho para otimistas, que apostam em uma vida longeva.

 Curioso este fascínio que a Borgonha exerce no mundo do vinho. É muito comum perguntar a enólogos e produtores de todo o mundo quais seus vinhos preferidos – além daqueles que eles produzem, claro – e a resposta é quase sempre o pinot noir da Borgonha. Talvez por serem realmente a melhor definição para expressão do lugar. “Não existe mágica, tudo se deve à qualidade das uvas, o restante é secundário”, diz o produtor Pascal Lachaux. Ou talvez pela enorme variação que uma única uva – os tintos e brancos são sempre varietais (feitos apenas das uvas pinot noir para tintos e chardonnay para brancos) – pode proporcionar em vinhedos tão próximos; ou pela finesse do seu paladar, pela evolução das grandes safras e até mesmo pela dificuldade que é cultivar e fermentar esta uva em outros solos e regiões. Junte-se a isso o respeito ao vinhedo, à agricultura orgânica e biodinâmica executada por muito dos produtores – antes mesmo de virar moda. É a singularidade da pinot noir da Borgonha, em especial dos grandes vinhos, que atrai aos apaixonados pelo vinho. O fascínio enfim talvez ocorra por que a difícil tradução de um vinho elegante e com tipicidade encontre aqui um exemplo quase palpável. O vinho da Borgonha não é explosivo e potente como um gol, está mais próximo  da beleza e da elegância do drible de um craque.

 

 

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quinta-feira, 16 de outubro de 2014 Brancos, Doce, Tintos, Velho Mundo | 11:01

Tour de Mirambeau: um Bordeaux bom de beber e que dá para comprar

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Vídeo do Château Tour de Mirambeau: parece propaganda. E é. Mas é bonito.

Os amantes e aficionados do vinho que costumam frequentar feiras – aqueles eventos onde o produtor fica servindo goles de seus rótulos e o público vai enchendo a caneca meio sem critério – manjam a figura: Jean-Louis Despagne. Todo ano lá está ele com sua indefectível gravata borboleta, a barba cerrada e seus Bordeaux para oferecer. Ele e sua família são proprietários de vinícolas desta região mítica da França: como o Château Tour de Mirambeau (importado pela Mistral) e Bel Air (importado pela Decanter).

Bordeuax é aquela região confusa de entender da França de diversas classificações e regiões, dos premier cru classé do Médoc, Graves e Sauternes, dos premier grand cru classé A e B de St. Émilion e dos rótulos míticos que aprendemos a admirar nos livros e cursos mas raramente comprovamos na taça sua glória e fama já que o preço é proibitivo. Estes nomes devem querer dizer alguma coisa para você, não? Château Latour, Château Lafite Rothschild, Château Margaux, Mouton Rothschild e Château Haut-Brion (Médoc), Château Haut-Brion (Graves); Château d’Yquem (Sauternes); Château Angélus, Château Ausone, Château Cheval Blanc e Château Pavie (St. Émilion) e finalmente Château Petrus (Pomerol, que tem fama mas não classificação). Mas já provou algum? Então…

E o Bordeaux tirou a gravata borboleta

Mas há sim rótulos de Bordeaux para os mortais. Mas atenção, muitos deles são ruins, não valem o investimento ou a barganha. Ter a região de Bordeaux gravada em um rótulo não é indicativo de boa procedência, e pode decepcionar. Mas há uma produção de tintos e brancos de excelente nível e preços compatíveis. Tour de Mirambeau é uma de seus melhores representantes. E com isso voltamos ao nosso personagem Jean-Louis Despagne, desta vez sem a gravata borboleta e de barba feita, que veio apresentar os rótulos de sua Bordeaux, da região de Entre-deux-Mers. Não sei se foi o canícula que castiga São Paulo nos últimos tempos ou a proximidade com o Brasil (Despagne visita com frequência o Brasil, em especial Paraty e Trancoso, e fala um português fluente), mas a descontração talvez traduza melhor os seus caldos, que são descomplicados.

A família Despagne vem cultivando vinhedos por mais de 250 anos. O histórico Château Tour de Mirambeau, localizado em frente a St Emilion, tem cerca de 80 hectares. Começou produzindo mais vinhos brancos, hoje a proporção é 50% para tintos e 50% para brancos, refletindo um pouco o mercado consumidor mundial. Hoje os três filhos de Jean-Louis cuidam da enologia à venda, sendo que a filha, Basaline, é a executiva principal do negócio. Jean-Louis Despagne, como ou sem gravata borboleta, é uma simpatia e com apresentou seus vinhos:

Dois brancos

Ch Tour de Mirambeau_Reserve_BB

Château Tour de Mirambeau La Réserve Blanc 2012
Uvas: sauvignon blanc 58%; sémillon 38% e muscadelle 10%
A sauvignon blanc é predominante nos brancos de Bordeaux, e o resultado deste blend que passa apenas pelos tanques de aço inox, é pura fruta, clássica, com aquelas notas cítricas agradáveis e final fresco. Não melhora com o tempo. Compre e beba! Um Bordeaux na borda da piscina. U$ 38,90 (a Mistral tem por política tabelar seu preços em dólar)

Ch Tour de Mirambeau_Cuvee Passion_BB

Château Tour de Mirambeau Cuvée Pasion Blanc 2010
Uvas: sauvignon blanc 60%; sémillon 30%; sauvignon gris 10%
Aqui um branco mais imponente, com maior volume em boca, cítricos e algo amanteigado e um toque tostado delicado. Ao contrário de seu colega de adega aguenta uns cinco anos na garrafa. U$ 49,90

 Dois tintos

Ch Tour de Mirambeau_Reserve_RG

Château Tour de Mirambeau La Resérve rouge 2011
Uvas: merlot 85%; cabernet sauvignon 10%; cabernet franc 5%
O tinto de entrada do catálogo, com predominância na merlot no corte bordalês e muita fruta e pouca complicação, sem grandes vôos ou pretensões, mas bem equilibrado. A revista Decanter qualificou como melhor Bordeaux para o dia-a-dia. Jean-Louis, no entanto, enxerga que para o futuro é um vinho que tende a desaparecer do portfólio pois os consumidores esperam um tinto com maior capacidade de envelhecimento. U$ 45,50

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Château Tour de Mirambeau Gran Vin rouge 2008
Uvas: merlot 70%; cabernet sauvignon 30%
Um tinto com corte típico bordalês, mas como convém à região com um peso maior na merlot. Fermentaçãoo malolática nas barricas , o que ajuda no casamento, sem DR, entre a madeira e os aromas do vinho, ou seja, um não discute om o outro de quem é  a palavra final: há uma boa integração. Tem uma fruta vermelha nítida (no nariz e na boca), gostosa, um tanino presente, um belo representante da região de Bordeux. Este sim, com potencial de guarda e futuro no mercado consumidor. U$ 65,90

E um doce

Tour de Mirambeau blanc

Château Tour de Mirambeau Sénillon Noble 2003
Uva: Sémillon 100%
De produção limitadíssima (3 barricas, e produzido a cada 2 ou 3 anos) e venda idem – “Nem sei por que o Ciro Lilla (proprietário da Mistral) importa este vinho”, comentou Despagne – este vinho de sobremesa mostra a beleza do fenômeno da botrytis, o fungo que quando ataca as frutas aumenta a doçura, a densidade dos aromas de mel, pêssego em calda e é espetacular para acompanhar um creme ou uma torta na  sobremesa. Funciona até como uma sobremesa em carreira-solo. “Não é para ganhar dinheiro”, sinaliza Despagne, “mas para deixar os trabalhadores orgulhosos”. U$ 96,50.

É dele também o surpreendente Girolate, fruto de um sistema de fermentação em barrica que vai girando, uma criação sua e do consultor Michel Rolland. Premiadíssimo e concorrendo e ganhando de grandes de Pomerol e St. Émilion (lembra deles, ali em cima?), é um outro bicho. Mas o Girolate sobe muito a régua, custa 350 dólares, e pode ser tema de outra nota, em outro contexto.

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terça-feira, 19 de novembro de 2013 Brancos, Velho Mundo | 16:40

Chablis, um chardonnay com “gosto de pedra”

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O solo kimmeridgiano de Chablis,150 milhões de anos depois: argila, calcário e mineralidade

O solo kimmeridgiano de Chablis,150 milhões de anos depois: argila, calcário e mineralidade

Você gosta de vinho branco? Não? Então pode parar por aqui. O tema desta coluna é Chablis, uma pequena região da Borgonha, na França, distante 2 horas de Paris, de apenas 6.800 hectares, cortada pelo Rio Serein, e que cultiva (e é cultuada) há muitos anos apenas uma uva: a chardonnay, (Ou então siga um dos conselhos deste blog e prove mais vinhos brancos).

Leia também: Vinho branco, você ainda vai beber um 

Se você gosta de vinho branco, em especial da chardonnay, então siga em frente. Mas é bom avisar, a internacional chardonnay, cultivada em todo o mundo, tem na região uma assinatura que a define e a diferencia, que pode ser descrita com a imprecisa e ao mesmo tempo acertada expressão de mineralidade (vamos falar disso mais tarde). “Nós não fazemos chardonnay, nós fazemos Chablis”, filtra Christophe Cardona, diretor de exportação da La Chablisienne, a cooperativa que representa cerca de 25% dos produtores da apelação de Chablis.

Mas o que torna esta apelação única e seus vinhos apreciados pelos admiradores de goles brancos? Como sempre, é uma soma de fatores: solo, clima, posição e a experimentação do homem que desde o século 12 começou a plantar e testar as uvas mais adequadas para aquele pedaço de terra. No caso prevaleceu a chardonnay, a uva branca da Borgonha. Devemos mais essa aos monges cistercienses, os “inventores” do estilo da Borgonha.

Mas o solo, formado no período jurássico superior, há 150 milhões de anos atrás, é o segredo de Chablis, o toque que a diferencia. No tempo dos dinossauros a região era coberta por oceano e ali, onde séculos depois seriam plantadas as parreiras, viviam pequenas ostras e moluscos que forneceram a matéria-prima para a composição do solo calcário e argiloso que se formou, conhecido como kimmeridgiano. Devemos essa às ostras e moluscos.

Traduzindo os diferentes terrenos – e rótulos

São quatro estilos de vinho, oriundos das quatro apelações de terrenos, com diferentes graduações de qualidade e estilo: Petit Chablis, Chablis, Premiers Crus e Grands Crus.

Petit Chablis. É a base da pirâmide, são plantados em terrenos mais planos e o solo de formação geológica um pouco mais recente, o portlandiano (140 a 130 milhões de anos). É um vinho mais fresco, frutado, leve, para ser bebido jovem, um belo aperitivo e uma porta de entrada do estilo de Chablis.

Chablis. Trata-se área mais extensa da apelação, o terreno já é de encosta e pode ser encontrado nos dois lados do Rio Serein. Eles já são mais bacanas, com maior estrutura, uma mineralidade e uma tensão maior na boca. Podem ser abertos mais novos, quando se destacam suas qualidades de frescor ou depois de 3 anos até 8 anos de idade, principalmente quando os vinhedos são mais antigos, e aí se obtém maior complexidade riqueza de aromas. Já dá para ser bem feliz com uma garrafa destas e entender o que Cordona quis dizer com a diferença entre chardonnay e Chablis.

Premiers Crus. A compreensão das qualidades do solo kimmeridgiano e sua influência no vinho sobe um degrau no Chablis Primiers Crus. Os terrenos, também distribuídos nas duas margens do Rio Serein, têm exposição do sol a sudeste e sudoeste, que traz mais expressão de fruta ou uma mineralidade mais pronunciada. Quem tiver paciência de aguardar seis anos vai beber um vinho mais complexo, denso e estruturado. Com ou sem tempo de garrafa, o decanter é um instrumento que vale usar, pois amplia as qualidades gustativas e olfativas do vinho.

Grands Crus. É o topo da pirâmide, a maior expressão do chardonnay desta apelação única. Um pequeno trecho de apenas 103 hectares e sete áreas delimitadas  (somente o Château Lafite-Rothschilde, Bordeaux, tem 178 hectares). Aqui a mineralidade quase se materializa com todos os elementos que podem criar um grande chardonnay de um terroir exclusivo. Um vinho que melhora com o tempo na garrafa – algo como oito anos de envelhecimento para atingir sua plenitude. E que cobra caro por isso.

Neste vídeo 3D de quatro minutos da cooperativa La Chabliseinne, com versões em francês e inglês, fica fácil entender os terrenos de Chablis, sua localização e características.

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Mineralidade: quem botou pedra no meu vinho?

“As primeiras grossas gotas de chuva que antecedem uma tempestade de um dia quente e seco expressam perfeitamente o que é a mineralidade”, ilustra o diretor-geral da La Chablisienne, Damien Leclerc. Ajudou? Não muito, né? O conceito de mineralidade do vinho, para aqueles que estranharam seu uso aqui neste texto, é um discussão que vale um outro artigo, afinal pedra não tem aroma ou gosto. Mas pode ser resumido em uns quatro parágrafos. Como a pedra vai parar no vinho então? Trata-se de uma descrição, uma sensação ou um neologismo?

O enólogo e professor Denis Dubourdieu no artigo “Quelques réflexions sur la minéralté des vins”, vai direto ao ponto:  “Se as rochas têm um gosto, é do material orgânico impregnado nela”. E o chamado aroma da faísca de pedras que se atritam (ou pedra de isqueiro) é resultado do componente químico benzenemethanethiol, encontrado sobretudo na chardonnay. Tem gente que afirma que as pedras transmitem esta mineralidade ao vinho. Muitos críticos chegam a definir certos chardonnays como suco de seixos. Para os cientistas isso é uma balela. As pedras não têm como transmitir minerais para a uva.

Mas algo misterioso liga esta sensação, esta particularidade de certos vinhos brancos a algum lugar, afinal há vinhos que expressam esta sensação e outros não. E não há chardonnay como os de Chablis. Para o produtores da região a mineralidade incorporada aos vinhos é o resultado do solo kimmeridgiano e não se fala mais nisso. Provavelmente a mineralidade sentida no vinho seja resultado de uma série de combinações do solo argiloso e calcário kimmeridgiano e dos microorganismos que se formam em seu entorno e do material orgânico do lugar que transmitem à planta os minerais que ela precisa. Esta é uma tese em uso na região também. O processo é mais complicado, e envolve o processo de fotossíntese, de interação com bactérias que extraem das pedras minerais como fósforo, iodo, magnésio.

A mineralidade, e aqui todos concordam, é mais uma sensação, uma definição que inclui numa mesma cesta um vinho natural, puro, ligado ao seu terroir, com uma acidez cortante, uma tensão viva, um frescor pungente, uma leveza fina, que provoca um salivação gostosa, que se opõe a um vinho opulento, alcoólico, concentrado, pesado, aromático e excessivo na boca e no nariz. Para Damien Leclerc, “ A mineralidade revela uma certa forma de pureza, uma visão cristalina do vinho”. De qualquer forma é uma expressão muito utilizada hoje pelo mercado, pelos consumidores e define o estilo Chablis de ser.

É fácil encontrar Chablis para comprar no Brasil?

Os vinho Chablis são muito adaptáveis ao nosso clima e culinária. São refrescantes, amplos, gostosos de beber e pouco alcóolicos. Expressam esta sensação mineral que é uma delícia – mesmo que você não a perceba e desconfie deste lenga-lenga todo – e traz uma experiência diferente no conjunto da obra. É um vinho solar, um vinho litorâneo por excelência. É o chamado par perfeito para ostras (todo mundo diz isso, mas tenho de confessar que não aprecio ostras, portanto não é uma conclusão empírica), combina maravilhosamente com saladas, peixes e num patamar acima segura um leitãozinho, frutos do mar, cremes etc. Ao mesmo tempo que não são rótulos exatamente populares (não estão naquela faixa abaixo dos 50 reais, começam lá pela casa do 80, 90 reais), também não são difíceis de encontrar. As principais marcas estão representadas no país pelas grandes importadoras: La Roche (World Wine), Louis Jadot, Faiveley, Joseph Drouphin (Mistral), William Fevre (Grand Cru), Domanine de La Cour du Roy (Casa Flora), J.M. Brocard (Zahil). Recentemente este Blog do Vinho provou os rótulos da Chablisienne (Interfood) e Sebastien Dampt (St Marché).

Chablisienne

A Chablisienne é uma espécie de Vinícola Aurora da França. Ambas são cooperativas compostas por um grande grupo de vinicultores. São 300 em Chablis, 1.100 no Rio Grande do Sul. E controlam à sua maneira e com seus respectivos objetivos a qualidade e a distribuição dos produtos. Criada em 1923, é responsável 25% do Chablis que é produzido na região, com propriedades espalhadas nas quatro apelações disponíveis e dona do único Château de Grand Cru da região, o Grenouilles.

Seus dois Chablis importados no Brasil são deliciosos, mas de personalidades diferentes:

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O La Chablisienne “La Pierrelée” 2011 traz aquela sensação mineral e de pureza de paladar discutida aqui, mas tem um corpo mais denso, um frutado mais persistente e uma pequena untuosidade. Um Chablis com estutura e intensidade. Um vinho que segura bem uma carreira-solo, não pede comida, e tem preço similar ao Petit Chablis. (R$ 98,00)

 

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O La Chablisienne “La Sereine” tem um lado mais elegante, a acidez presente, o que provoca uma salivação persistente. As frutas são mais cítricas, se escondem para depois se revelar e o tal toque mineral é mais sutil, mas mais nobre. Melhor acompanhado com um prato de comida, um peixe grelhado com algum creme. Elegância é um conceito tão volátil quanto mineralidade, mas se encaixa com perfeição a este vinho. (R$ 115,90)

 

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Já no mundo dos Primiers Crus, este “Mont de Milieu” foi decantado por uma hora antes de ser servido. Ainda estava jovem, mas mostrava sua força e o resultado de passar 15 meses em contato com as borras no tanque, que traz um tostado, persistência na boca, e uma sensação que amplia os sentidos do frescor e da tensão da fruta e da acidez. Uma delícia que merece um minuto de contemplação. (R$ 151,90).

Sébastien Dampt

Como a rede de supermercado de São Paulo St Marché também atua como importadora – são 100 rótulos atualmente importados diretamente, com a perspectiva de triplicar a oferta em três anos –, não deixa de ser curioso encontrar caixas de Chablis disputando espaço com caixas de suco de laranja e pés de alface. E saber que há público para este branco de estirpe. Tem algo mudando nos hábitos do consumidor.

Petit-Chablis-Sebastien-1O Sébastien Dampt Petit Chablis “Terroir de Milly” 2012 é um representante honesto de sua classe. Leve, fresco, jovial, fácil de beber, boa acidez no final da boca, provoca uma salivação que enche a boca e pede outro gole. Você coloca o vinho na taça e em vez de subir aquele aroma  amanteigado da fermentação e do uso de barrica aparece um cítrico suave, um flor branca harmoniosa. O corpo é leve, a bebida refrescante. Um vinho branco para abrir a refeição, acompanhar uma saladinha, um  papo descontraído. (R$ 92,00)

 

CHABLIS-2008-1ER-CRU-PETIT-FORMATO Sebastien Dampt Premier Cru “Vaillons” tem uma proposta de uma amizade mais longa. São vinhas de mais de 60 anos, o que aporta uma sensação mais consistente de mineralidade ao vinho. Bebê-lo agora significa usufruir seu caráter de fruta e a sensação mais cortante da mineralidade. Com o tempo deve evoluir suas camadas aromáticas, uma fruta mais potente e uma sensação mineral mais fina e persistente. São duas experiências válidas. Provei a safra recente e já estava uma delícia. (R$ 149,00)

 

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sexta-feira, 2 de agosto de 2013 Novo Mundo, Tintos, Velho Mundo | 10:56

7 sugestões de vinhos tintos de 7 países diferentes para enfrentar uma falta de assunto

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Quando falta inspiração aos cronistas, o tema de suas colunas acaba sendo a própria falta de assunto. “A felicidade é uma suave falta de assunto”, exaltou Rubem Braga, um dos nossos maiores cronistas, no texto A boa manhã, em que narra o fragmento de uma manhã plena. “Chupo uma laranja, e isto me dá prazer. Estou contente. Estou contente da maneira mais simples – porque tomei banho e me sinto limpo, porque meus braços e pernas e pulmões funcionam bem; porque estou começando a ficar com fome e tenho comida quente para comer, água fresca para beber.” (leia a crônica na íntegra aqui).

Um colunista de vinhos quando está sem um tema preciso recorre às garrafas que tomou, afinal é parte de seu dia-a-dia, como o cotidiano descrito por Rubem Braga. Foi esta a ideia que me passou pela cabeça enquanto divagava sobre o que escrever e corria aleatoriamente com os dedos as fotos digitais do celular, e vi passando os rótulos que havia consumido recentemente. Fiquei surpreso com a quantidade de países que iam aparecendo na telinha. Esta é uma vantagem que temos no Brasil. É, o vinho é caro, tem os impostos e tudo mais. Mas ao contrário de grandes produtores de vinho, como Chile, França e Itália, onde a oferta é geralmente limitada ao vinho da região, no Brasil a globalização se manifesta na variedade de garrafas de todo o mundo disponíveis.

Um passeio por um corredor de bebidas de supermercado é uma espécie de ONU do vinho. Os catálogos das grandes importadoras é organizado por países para comportar a enorme variedade de regiões e rótulos de língua estrangeira. Os bancos de dados virtuais, as páginas web de vinho e as redes sociais sobre o tema são uma Babel dos fermentados. É a variedade de terrenos, climas, uvas e produtores que fazem a beleza do vinho e a multiplicidade de estilos. Tem gente que acha complicado – e é. Tem gente que se apaixona pela bebida exatamente pelo leque de opções disponível. As duas constatações são verdadeiras, mas não são excludentes.

Por isso mesmo, voltando ao parágrafo inicial, impulsionado pelos instantâneos dos rótulos arquivados no meu celular revolvi fazer uma seleção globalizada de sete vinhos de sete países diferentes como tema da coluna. E para comprovar a tese da variedade, cada qual tem sua pegada, estilo e preço. Afinal, o mundo do vinho é vinho de todo o mundo. Talvez algum te agrade – ou desperte a curiosidade em prová-lo. Talvez te desagrade, e o campo de comentários é o espaço para criticar a escolha, e propor a sua própria lista. Como diria Rubem Braga “Nenhuma tristeza do mundo nem de meu passado me pega neste momento”.

7 vinhos de 7 países

Brasil – Tuiity

Salton Intenso Merlot

Produtor: Salton

R$ 31,00

A recém-lançada linha Salton Intenso (Malbec/Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon, Merlot, Merlot/Tannat, Sauvignon Blanc/Viognier) veio substituir nas gôndolas, para o consumidor final, a Linha Volpi – aquela das bandeirinhas. Na minha opinião, a troca foi para melhor. O Volpi, correto na sua faixa de preço, tinha uma certa atração excessiva pela madeira, que encobria a fruta. A mudança deve ter suas razões mercadológicas e industriais, mas o importante para nós é que trouxe um frescor adicional à linha da Salton. O merlot da linha Intenso é o meu destaque entre seus pares. Macio, uma boa fruta, agradável, fácil de beber. E acessível. Como dizem os brasileiros um “best buy”.

Leia mais: Como escolher o vinho certo para o seu pai

Argentina – Mendoza

Terrazas Reserva Malbec 2011

Produtor: Terrazas de los Andes

R$ 65,00 – Importador: Moët Hennessy do Brasil

É sempre bom retornar a um mesmo vinho várias vezes e confirmar sua constância. O Terrazas está presente nos supermercados, cartas de restaurantes e lojas de vinho. Um blockbuster, mas nem por isso sem qualidades. Quem costuma beber vinho já provou. Este malbec de altitude (1100 metros sobre o nível do mar) é elaborado há 22 anos em terrenos selecionados para extrair o melhor desta uva que virou símbolo de vinho argentino. 2011 foi um ano quente e gerou este malbec de cor escura, aromas iniciais de flores e depois um pouco de coco e um cafezinho se esquecido na taça bastante tempo. Concentrado, bem estruturado, maduro, carnudo com um fruto negro. É um clássico argentino, daqueles que “não tem erro”. Provei outro dia com um steak tartar e mandou bem.

Chile

Antiguas Reservas Cabernet Sauvignon 2010

Produtor: Cousiño Macul

R$ 50,00 – Importador: Santar

Uma vinícola que pertence à mesma família desde 1856 é um espanto. É tão próxima de Santiago que é possível chegar lá de metrô. A Cousiño Macul está na sua sexta geração no comando dos tintos e brancos e mantém uma certa tradição no estilo. O Brasil é seu mercado número 1 de exportação. Tenho de confessar que tenho uma ligação emocional com a vinícola. Foi servido um vinho da Cousiño Macul no meu casamento, que assim como os bons fermentados só melhora com o tempo (leu essa, meu amor?). O Antiguas Reservas existe há mais de 80 anos, sempre de uma seleção dos melhores vinhedos da Cousiño. O que me agrada neste vinho de preço muito razoável é seu estilo clássico, uma mistura de europeu com novo mundo, sem exibicionismos ou madeira excessiva, na medida para revelar sua fruta, os aromas de cerejas e aquele sutil toque de especiarias. Carlos Cousiño, um dos irmãos que toca o negócio, tem formação de filósofo, atua na área da educação, e defende a manutenção do estilo de seus vinhos. Bom papo, além dos bons vinhos me apresentou um clássico poeta chileno: Vicente Huidobro.

Leia mais: 10 dicas de como escolher e comprar o seu vinho

EUA – Napa Valley

Robert Mondavi Private Selection Cabernet Sauvignon 2001

Produtor: Robert Mondavi/Constellation Brands

R$ 69,00 – Importador: Interfood

A influência de Robert Parker, dos pontos da Wine Spectator e outras czares do vinho criou em certo ambiente refratário ao paladar americano, que estaria mais próximo de um vinho muito alcóolico, doce e potente, com muita madeira. É uma generalização tola. Os Estados Unidos são um mercado enorme, e produzem vinhos finos, elegantes, da mesma maneira que cometem aqueles caldos para quem aprecia mastigar uma madeira e mascar um chiclete em forma de vinho. Robert Mondavi tem uma importância seminal para a vinicultura americana, com ramificações em outras partes do mundo. Hoje em dia a empresa não é mais da família, mas mantém vivo o espírito do autor. Este Private Selection Cabernet Sauvignon é uma linha intermediária, muito correta. O caldo é fermentado tanto em toneis de inox como barricas de carvalho e matura mais 17 meses em carvalho francês (curioso, não?), apenas 15% novos. Além do cabernet sauvignon, entram na mistura 12% de merlot, 4% de cabernet franc e 1% de syrah (não me perguntem a diferença que faz este 1% de syrah…). É um vinho macio, com boa fruta, amplo, gostoso de beber, um toque herbáceo e o tostado da barrica aparece como virtude e não como defeito. Para quem tem curiosidade de provar um Zinfandel, na mesma linha e preço há um Private Selection bastante agradável, frutado e fácil de beber.

Portugal – Alentejo

Chaminé Tinto 2011

Produtor: Cortes de Cima

R$ 70,00 – Importador: Adega Alentejana

O que acontece quando se juntam um dinamarquês, uma americana e um vinhedo no Alentejo? Um bom vinho com uma boa história, ora pois. A adega Cortes de Cima, do casal Hans Kristian Jorgensen (enólogo e viticultor) e Carrie Jorgensen (relações públicas e marketing), produz vinhos de primeira linha no Alentejo, sendo que o topo de linha entrega a origem do enólogo, chama-se Hans Christian Andersen, um 100% syrah. Mas o vinho em foco aqui é outro, é de sua linha mais básica, mas nem por isso menos suculento e perfumado. Trata-se do Chaminé, uma mistura de 50% aragonez, 23% de syrah, 19% de touriga nacional, 4% de alicante bouschet, 2% de cabernet sauvignon e 2% de petit verdot, uma assemblage mezo uvas nativas/mezo internacionais da sempre quente região do Alentejo. O aroma de frutas vermelhas é muito perceptível e agradável, a boca é macia e também frutada. É um vinho jovem, com espírito idem e para ser bebido logo. Agrada fácil e costuma aparecer por aí em ofertas de supermercados.

Leia mais Quinze sugestões para aproveitar melhor o vinho

África do Sul – Stellenbosch & Elgin

Pinot Noir 2011 Reserve

Produtor: The Winery of Good Hope

R$ 78,00 – Importador: Qual Vinho?

O crítico de vinhos John Platter, autor de um guia de vinhos da África do Sul com seu nome (Platter’s South Africn Wines), já me disse em uma entrevista há muitos anos que a pinotage –a uva nativa de lá – não é o melhor daquele país, se bem que me garantem que houve uma bela evolução. Ele indicava outras tintas, como syrah, merlot e a pinot noir. Aqui temos um bom exemplo de um vinho de preço interessante e bastante tipicidade. The Winery of Good Hope atua há 15 anos na região montanhosa de Stellenbosch, e foca sua produção na branca chenin blanc e na tinta pinot noir. São adeptos de uma viticultura mais natural e de mínima interferência na vinificação. Foi a primeira vez que provei o vinho e me conquistou pela pureza, leveza e frutado gostoso, um toque terroso sutil. Li no site da empresa que é elaborado com uvas da variedade pinot noir de dois terrenos diversos: uma região mais quente de montanha e outra próxima de influências de brisas marítimas. Daí deve vir o frescor e a mineralidade que fazem deste vinho novo (é de 2011) uma agradável descoberta.

França – Borgonha

Gevrey-Chambertin 1er Cru Les Cazetiers 2009

Produtor: Louis Jadot

R$ 754,00 (U$ 238,50) – Importador: Mistral

Se você engasgou no preço e pensou “tá de brincadeira, né?” deixa-me explicar. Trata-se de uma joia rara da vinicultura. São apenas 5 barris produzidos por ano. A Borgonha não é para iniciantes, muito menos para quem procura custo benefício. A Borgonha é para quem procura pérolas nos vinhedos, e busca mais que um vinho, uma espécie de elixir da elegância. Este exemplar de Loius Jadot – que tem uma ampla linha de borgonhas, dos mais básicos aos mais inebriantes – vem de vinhedos da própria Domaine (outros rótulos da casa são de uvas compradas). A filosofia de Louis Jadot é deixar o vinho se revelar naturalmente; o estilo é sempre o resultado do lugar. Trata-se de um Pinot Noir em caixa alta e baixa. Um vinho para se conectar com a terra. Rico em aromas de frutas maduras, fino no aroma de rosas, elegante na boca, profundo no final. Os goles provocam uma ampla salivação, que revela a acidez presente. É uma experiência espetacular. Mais uns anos na garrafa deve trazer outros prazeres.

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sexta-feira, 19 de julho de 2013 Blog do vinho | 12:47

Chile e Argentina dominam o mercado de importação de vinhos no Brasil

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Quais os vinhos mais importados no Brasil? Esta é meio fácil. Se você cravou Chile acertou em cheio. Se apostou na Argentina, não ficou longe. Nem é preciso ser especialista no assunto para chegar a esta conclusão. Basta percorrer os corredores dos supermercados e medir o tamanho das prateleiras de vinhos destes dois países para encontrar a resposta. Ou ler o título desta coluna… Mas o que talvez você não conheça são os números. Vamos a eles então.

Chile e Argentina juntos são responsáveis por 63,29% em volume de vinhos que entram no país. Só o Chile contribuiu com 43,08% nesta conta, restando 20,21% em volume para a Argentina. A conta em valor é um pouco diferente, os dois países juntos são responsáveis por 57,65% do bolo, mas o Chile continua na liderança (36,56%), seguido de Argentina (21,09%). Quatro países do chamado velho mundo – Portugal, Itália, França e Espanha – completam a lista.

Claro que há todo um contexto em torno destes números. Mas o maior deles é o mais óbvio: preço. As isenções de impostos do Mercosul, a alta do dólar e do euro (que deixam o vinho do velho mundo mais caro ainda), a proximidade destes dois países com o Brasil tornam o valor das garrafas sul-americanas mais palatáveis.

Quem mostra – e analisa – estes dados é o empresário e consultor internacional Adão Morellatto. Há doze anos, Morellato reúne dados oficiais da Receita Federal, do Banco Central e do Ministério do Desenvolvimento (MDIC) e comparando os números do semestre monta um relatório que distribui para a imprensa especializada e serve como uma radiografia do mercado importador de vinho. Na sua conta é analisado apenas o segmento de vinhos chamados tranquilos, não computando os vinhos tipos Fortificados, Champagne e Espumantes. A partir de janeiro de 2014, porém, serão incorporados à conta, tornando-a mais objetiva e acurada ainda.

Um trabalho que começou por necessidade – Morellatto tem uma empresa de representação comercial -, acabou virando uma referência no mercado. Para Morellatto o levantamento “tem um contexto mais analítico, identificando as causas, consequências, características e perspectivas, sobre meu prisma de visibilidade”. E acrescenta: “Os números em si, não têm a finalidade conclusiva de atribuir bonança ou incredibilidade e sim, uma descrição do momento vivenciado.” .

Os seis maiores países importadores de vinho no Brasil. E o resto.

O relatório e avaliação do semestre de Adão Morellato segue abaixo na íntegra

1º. CHILE: Como já comentei há algumas semanas atrás com alguns jornalistas deste meio, segue forte e firme na dianteira, mantendo sua estratégia de oferecer neste momento vinhos mais econômicos que os da Argentina, em média 23% mais baixos, atraentemente necessário e eficaz neste tempos de volatilidade cambial. Neste semestre analisado, representa 36,56% em valor e 43,08% em volume. Porém apresenta uma ligeira queda de -1,60% em comparação com o primeiro semestre de 2012.

Leia mais: Chadwick, o chileno que desafia (e ganha) dos franceses

Leia Mais: Vinhateiros independentes do Chile: pequenas vinícolas, grandes vinhos

2º. ARGENTINA: Como não poderia ser diferente, idêntico ao Chile, que goza de benefícios aduaneiros de isenção de impostos, por acordos bilaterais (MERCOSUL), estabelece-se neste ranking com 21,09% em valor e de 20,21% em volume.

Leia mais: A Argentina não é só malbec, mas é malbec também

3º. PORTUGAL: Como aqui não são computados os vinhos listados acima [fortificados], aparece nesta posição, 13,21% em valor e de 12,56% em volume, preocupantemente mostra uma queda de -8,13% em valor e de -16,45% em volume, apresentou um índice de valoração cambial dos vinhos em de 4,48%.

Leia também: Bacalhau e vinho: tinto ou branco

4º. ITÁLIA: A Itália, na linha de combate direto com Portugal, apresenta um leve crescimento de 1,77%, contudo uma queda de -16,45% em volume, evidenciado pelo aumento médio de 18,50% dos produtos. Aqui uma pequena pausa, atente-se para este ano, verificarem uma tendência de queda participativa de vinhos tipo Lambrusco, iniciando seu declínio, não por consumo aqui propriamente dito, que ainda tem uma gama considerável de consumidores, mas sim pelos custos de produção na origem e regras mais severas e punitivas dos Consorzios, não serem mais tão competitivos como no passado recente. Participa com 11,02% em valor e de 12,06% em volume.

5º. FRANÇA: O gigante vinícola resolveu por aqui mostrar toda sua capacidade enológica. Contrariando os demais, apresenta um crescimento de 11,41% em valor e de 4,50% em volume. Ainda engatinha para chegar aos 10% de share, mas observando que obteve um aumento de 6,60% no custo médio, podemos imaginar perfeitamente que há aqui consumidores dispostos a pagar algo mais por um produto de melhor qualidade. Sua contribuição é de 8,26% em valor e de 3,85% em volume.

6º. ESPANHA: A fúria não levou o taça, ainda somos os melhores, ao menos até a COPA de 2014, salvo alguns percalços, ainda temos a magia, o encanto e a alegria de jogar futebol. Mas como aqui o assunto é vinhos, vamos ao que interessa. Como em anos anteriores, impulsionado por sua vastidão produtiva e variadas denominações que atuam de maneira independente e sistematicamente apostando no mercado brasileiro, colhe os frutos aqui plantados há quase 6 anos. Em um período que os índices apresentados mostraram baixa performance, neste semestre, aqui chegaram apresentando crescimento de 4,60% em valor e de uma pequena queda de -0,50% em volume. Tem 5,00% de share value e de 3,71% de share marketing. Como já informado em artigos anteriores, vieram para ficar.

7º. DEMAIS PAÍSES: Nenhuma consideração mais aprofundada, na média apresentaram queda de -16,64% em valor e de -13,43% em volume, contribuem com 4,87% em valor e 4,54% em volume.

Leia mais: 10 dicas de como escolher e comprar o seu vinho

Os números em si, não apresentaram queda abrupta, em média uma queda de apenas -1,40% em Share Value e de -4,15% de Share Marketing, que se o câmbio manter-se neste patamar e a cadeia distributiva conseguir no 2º semestre escoar, é possível ainda encerrarmos 2013 com uma leve positividade, mais adiante verificaremos como se manterá esta tendência.

ADAO AUGUSTO A. MORELLATTO

INTERNATIONAL CONSULTING

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quarta-feira, 24 de novembro de 2010 Degustação | 11:15

Primum Familiae Vini: uma degustação para guardar na memória

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A caixa com onze joias liquidas da Primum Familae Vini. Sonho de uma tarde de primavera

Um vinho premium não é obra cartesiana, muito menos é um acaso da natureza: é o resultado da relação do homem com a agricultura e de sua capacidade de extrair das parreiras a melhor uva que ela pode produzir em um determinado terreno, sob um clima específico. A pinot noir na Borgonha, a riesling na Alsácia, a tempranillo na Ribera Del Duero, o trio cabernet sauvignon, merlot e cabernet franc em Bordeaux são apenas alguns exemplos de uvas que encontraram o seu habitat após séculos de experimentação, observação e refinamento no processo de vinificação.

A tradição foi passada de pai para filho ao longo de séculos e grandes vinícolas ainda em atividade são consequência direta desta curadoria de famílias que dedicaram sua vida a esta atividade. O grupo Primum Familae Vini (PFV), formado oficialmente em 1993, é um resgate destes valores familiares em um mundo em que os negócios do vinho estão cada vez mais globalizados e concentrados nas mãos de grandes investidores. São onze famílias proprietárias de vinícolas consagradas internacionalmente, que ao mesmo tempo que promovem seus rótulos prestigiados pela crítica e adulados pelos conhecedores, levantam a bandeira da manutenção do controle familiar das empresas para as próximas gerações. Leia entrevista de Dominic Symington ao colunista de iG Luxo Mauro Marcelo, onde ele explica como funciona a PFV.

O time do momento teve os seguintes representantes: Hubert de Billy (Champagne Pol Roger); Laurent Drouphin (Maison Joseph Drouphin); Erienne Hugel  (Hugel & Fils, Perrin & Fils); François Perrin (Perrin & Fils,  Château Beaucastel); Albiera Antinori (Marchesi Antinori); Sebastiano Rosa (Tenuta San Guido);  Miguel Torres (Torres); Pablo Alvarez (Vega-Sicilia);  Philippe de Rothschild (Château Mouton Rotschild); Valeska Müller (Egon Muller-Scharzhof) e Dominic Symington (Symington Family States).  É o velho mundo em sua melhor composição – a família Robert Mondavi, responsável pela transformação do vinho americano, foi fundadora do grupo mas deixou a associação após ser vendida. “Nós somos os guardiões da tradição”, resume o italiano Sebastiano Rosa, presidente da PFV na gestão 2009/2010.

Este grupo de nobres representantes das vinhas se reúne anualmente para degustações ao redor do mundo onde juntam especialistas, jornalistas, enófilos e endinheirados em encontros que mesclam doses de hedonismo e benemerência. São Paulo foi escolhida para ser sede do encontro da PFV em 2010. O Blog do Vinho estava lá.

Meninos, eu vi! E bebi…

22 taças de puro hedonismo. Ao fundo Dominic Symington fala de seu Porto no evento da PFV

Um encontro desta magnitude – que reúne pilares como família e tradição – suscita tanto questões mais delicadas, como a discussão sobre a idade ideal em que as crianças devem começar a ter contato com o vinho (ver reportagem Do primeiro gole ao primeiro porre, de Luciano Suassuna), como também é capaz de demonstrar na prática a beleza da evolução dos vinhos de guarda, do leve peso dos anos na construção da complexidade de caldos brancos, tintos, doces e fortificados. Sim! Brancos também criam pérolas líquidas com a idade! Além das 11 amostras representativas de suas vinícolas – que estão distantes do nosso dia-a-dia – os produtores desfilaram sua tropa de elite aos pares, com safras mais recentes escoltadas por outras mais antigas. Era um dia para se acreditar na felicidade!

Se uma champagne Vintage (ou seja, safrada) Pol Roger 2000 já enchia a boca e preenchia a taça de aromas, a safra de 1990 abusava de finesse e toques de panificação. Um Beaune Clos dês Mouches Blanc 2002, de Joseph Drouphin, expunha ao vivo o poder dos grandes brancos de evoluir na garrafa e envolver o paladar em uma doçura branca untada de mel. Da Alsácia, a mineralidade e delicadeza do Riesling Jubilee 2007 contrastava com a leveza da safra 1998, muito fresca. O chateauneuf de Pape do Château de Beaucastel 2004 tinha um aroma animal e de terra característico de sua mescla de 13 diferentes tipos de uva.  O tinto da toscana Solaia 2001 era pura exuberância, já seu colega de Bolgheri, o Sassicaia  2000, era sedutor e tinha um curioso aroma tropical de caju e carambola.

Pausa para um gole de água

Os espanhóis mais antigos representados pela Torres Mas La Plana 2001 (talvez uns dos únicos vinhos mais viáveis de comprar e ter em casa) e Vega-Sicilia Único 1982 (este sem dúvida alguma fora de questão) eram profundos, densos e longos, principalmente o Vega com 18 anos de história na garrafa. Um Mouton Rothschild 2001 (me desculpem, mas neste post listar preços é um deserviço, vamos evitar…) ladeado por outro 1986 é um privilégio que permite comparar  aromas e sabores e comprovar a alquimia que ocorre dentro da garrafa nos grandes bordeaux com o passar dos anos. Fechando o ciclo, um doce e um fortificado. Um riesling de nome impronunciável, como de costume: Scharzhifberger Auselese Goldkpsel 1990, da Muller Scharzhof (Goldkpsel significa o melhor de cada ano…), uma estupenda cor dourada, uma concentração de açúcar apoiada por uma acidez persistente. E por fim um porto Graham’s 1980 Vintage com uma explosão de frutas maduras e concentradas, infinito – a tradução da excelência da ação do tempo no vinho!

Sobre o sublime e o que se tenta descrever

Um vinho premium não é obra cartesiana, muito menos é um acaso da natureza, como já se disse, mas em alguns casos guarda mais semelhanças com uma obra de arte do que com uma mercadoria produzida em série – o que de fato é. Assim como uma pintura ele pode suscitar diferentes interpretações, diversas sensações e atingir emocionalmente um indivíduo de muitas maneiras, Grandes vinhos são capazes ainda de atingir outras áreas sensoriais, olfativas e gustativas, que acionam o gatilho da memória e do prazer e podem marcar para sempre o simples ato de beber um tinto ou um branco. É como aquele ponto de um filme que te joga para dentro da história, aquele acorde que parece abduzir o espectador de um show de música para outra dimensão, o trecho do romance que te engole para dentro das páginas. Por isso o vinho é tão verborrágico entre aqueles que se emocionam com a bebida. Não basta senti-lo, é preciso traduzi-lo e compartilhar as impressões. E aí cada um tem seu repertório descritivo. Como definiu, em inglês, no encontro da PFV, o representante da Mouton Rothschild, Philippe de Rothschild, “Wine is about sharing emotions”.

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Degustação Mas la Plana
Família Vega-Sicilia

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segunda-feira, 20 de setembro de 2010 Degustação, Velho Mundo | 10:51

Degustação vertical: o tempo, as safras e os mesmos vinhos

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Cinco rótulos do Mas la Plana: de 1970 até 2006. Um tinto que sabe envelhecer

Imagine a cena. Várias garrafas de vinho enfileiradas. Todas da mesma origem e com o mesmo rótulo, e uma única diferença: a certidão de nascimento. A bebida é despejada em taças idênticas e numeradas. E os homens que cospem vinho começam o ritual de provar e avaliar cada amostra e fazer suas comparações. No mundo do vinho esta prática tem nome e sobrenome: degustação vertical. É quando várias safras de um mesmo rótulo são desarrolhadas e provadas simultaneamente.

Sabe toda aquela história da evolução da cor, dos aromas, acidez, frutas e taninos ao longo dos anos listados em todas as enciclopédias de vinho? Este é uma maneira bacana de comprovar – ou não – esta teoria. O vinho mais novo costuma ter mais apelo da fruta, mais frescor, às vezes ainda precisa amaciar na boca (resolver os tais dos taninos), a cor é mais viva. Com o tempo ele vai integrando melhor seus componentes, os aromas vão amadurecendo e criando novas camadas e se tornando mais intensos. Quando atingem o apogeu (uma espécie do ponto G do vinho: dizem que existe, mas é difícil acertar com exatidão) desenvolvem aromas pouco comuns, diversificados, a boca registra nuances e sabores mais complexos e elegantes, que grudam na memória. Se a sabedoria tivesse um sabor, seria a dos vinhos evoluídos. Mas vale dizer, não é para todo mundo. A grande maioria prefere tintos e brancos mais novos.

Aguardar ou não aguardar, eis a questão

Uma das dúvidas mais recorrentes entre os leitores deste blog é sobre a influência e a importância das safras nos vinhos. O que significa quando aquele crítico pontifica que determinada safra vai atingir seu apogeu em dez ou quinze anos? O que vai acontecer com a bebida? Abrir estas garrafas antes do tempo é bom ou ruim? Qual o motivo que leva os enófilos e especialistas a ficar velando seus cascos de safras mais remotas, cuidadosamente deitados em seus armários refrigerados, em vez de desarrolhar de uma vez por todas suas garrafas?

Duas verticais didáticas

Este Blog do Vinho já teve o privilégio de participar de várias degustações verticais. Algumas são um verdadeiro tour de force, com praticamente todas as safras de um produtor de várias décadas provadas de uma só tacada. Mas duas delas, em especial, com modestas cinco e quatro garrafas, foram uma aula de como o tempo age no vinho: a do clássico cabernet sauvignon espanhol Mas La Plana e do tradicional corte bordalês Cos D’Estournel. Todo amante do vinho merecia uma oportunidade dessas.

MAS LA PLANA

Quem é: Mas La Plana é um tinto com berço e DNA do celebrado produtor Miguel Torres – o maior representante do vinho ibérico. Miguel Torres está para o vinho espanhol assim como John Ford está para o western do cinema americano: é um dos pilares da vitivinicultura deste país. Diga-se ainda a seu favor que sua influência atravessou o oceano e fez história na região de Curicó, no Chile,  onde Torres foi  o primeiro investidor internacional a apostar em inovação em tecnologia e no cuidado com a seleção das uvas.

O que ensinou: o teor alcoólico foi aumentando ao longo dos anos, a cabernet sauvignon foi criando seu estilo espanhol, as safras mais recentes já mostram seu valor no nascedouro e, mais do que tudo, a degustação mostrou que aos 40 anos um vinho ainda pode estar vivo e sedutor.

Safras provadas: 1970, 1981, 1997, 2005 e 2006

Mas La Plana 1970 – Cabernet sauvignon 70%, monastrell 10% e Ull de lebre 20%. 12,5% de álcool, envelhecido em carvalho americano e francês (24meses). Não adianta tentar comprar, a garrafa veio direto da adega da Vinícola Torres, da Espanha – foi o rótulo que bateu os grandes Bordeaux em uma prova às cegas realizada em 1979 pela revista francesa Gault-Millau. Não é tão famosa como a Prova de Paris, mas tão representativa quanto. Um vinho ainda vivo, de cor mais atijolada, a acidez ainda está lá, a fruta é menos marcante, no nariz é sensacional, uma mistura de terra, frutos maduros e especiarias, um toque de vinho madeira. 12,5% de álcool. No tempo que os vinhos não precisavam ser potentes e alcoólicos para serem bons.

Mas La Plana 1981 –Cabernet Sauvignon 100% com 12,5% de álcool, envelhecido em carvalho francês e americano (24 meses). Em outra degustação vertical do Mas la Plana foi o mais bem avaliado. Aqui nem tanto, esta é a graça da experiência, aliás. Um pouco mais de fruta presente, se comparado ao seu irmão mais velho, aromas evoluídos, mas não me encantou os sentidos. Ficou espremido entre a sofisticação madura do 1970 e a exuberância mais completa do 1997, este que vem a seguir.

Mas La Plana 1997 – Cabernet sauvignon 100%, 13,5% de álcool, envelhecido em madeira francesa. Esta foi a safra que o carvalho americano perdeu o terreno para o francês.  A evolução está perfeita, a boca é larga, aromas de especiarias, couro, frutas maduras, café. O vinho baila pela boca e desce carregando toda sua complexidade de sabores. E fica grudado na memória, no palato, no olfato. O fundo de copo permanece evoluindo no nariz, uma delícia.

Mas La Plana 2005 –100% cabernet sauvignon, 14% de álcool, envelhecido em carvalho francês por 18 meses. Olha só o álcool subindo, subindo… Me pareceu mais sisudo e fechado, o que talvez que lhe dê mais esperança de sobrevida na garrafa. A cor bem escura, a fruta em construção, de menos impacto.

Mas La Plana 2006 – 100% cabernet sauvignon, 14,7% de álcool, 18 meses em carvalho francês. Esta safra está à venda do Brasil. Por R$ 160,00 você tem uma garrafa dessas em sua adega. Um grande caldo por um preço até modesto perto do que cobram alguns ícones sul-americanos sem a mesma história. Fruta integrada à madeira, profundo, já pronto para beber, com força de frutos maduros, elegância juvenil – uma raridade -, pede uma carne como companhia.

COS D’ESTOURNEL

Quem é: Château Cos d’Estournel. Um dos maiores ícones da região de St.-Estèphe, em Bordeaux, produz vinhos desde 1811; na famosa classificação de 1855, que até hoje determina quem é quem em Bordeaux, foi considerado o melhor château da subregião. Se distingue por uma presença forte de merlot em seu corte bordalês.

O que ensinou: o corte bordalês é uma experiência rica em tradição gustativa, imbatível na sedução quando tudo dá certo; o estilo de Bordeaux também se mostrou mais moderno nas safras recentes – os vinhos já não precisam de alguns anos de garrafa para começar a ser domados e apreciados. Macios, já dão prazer no lançamento da safra.

Safras provadas: 1985, 2003, 2005 e 2009

Cos d’Estournel 1985 – eis um velho sábio, mostrando aos seus herdeiros como envelhecer com classe e elegância. Notas de frutas evoluídas, passadas, o corpo mais leve, vai se modificando na taça, tem uma pegada de um porto Vintage. cabernet sauvignon (60%) e merlot (40%). É um representante da velha guarda, do estilo mais tradicional de Bordeux, mas acho que não vai melhorar mais com o tempo, pelo menos não a garrafa que provei.

Cos d’Estournel 2003 – este foi o ano do calor que matou os velhinhos na França. O corte é de cabernet sauvignon (70%), merlot (27%), petit verdot (2%) cabernet franc (1%). A escassez provocou uma seleção mais apurada das uvas. Entrega intensidade, potência e fineza de boca. Mas não apaixona.

Cos d’Estournel 2005 – cabernet sauvignon (78%), merlot (19%), cabernet franc (3%). Segundo o produtor Jean Guilaume Prats atingirá seu pico de qualidade em 10 anos. Se você agüentar até 2015 para comprovar… Se procurar uma definição para um vinho de textura aveludada, este é um representante legítimo. Muito potência de fruta, evolução fina de aromas de frutas maduras e sedutoras, belíssima integração da madeira. Um hotel cinco estrelas para os sentidos.

Cos d’Estournel 2009 – esta é a safra do século de Bordeuax até agora. Bom, o problema é definir quantas safras do séculos cabem em um século. Já teve 2000, 2005 e agora 2009. Mas o vinho ainda está muito novo, mas promete. Tem cor viva, acidez boa, taninos balanceados, fruta ampla, intensidade. Bebê-lo agora já é um prazer, em dez anos deve ser como rever um grande amigo, e descobrir novas qualidades. Cabernet sauvignon (65%), merlot (33%) e cabernet franc (2%).

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