Publicidade

Posts com a Tag merlot

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014 Novo Mundo, Tintos | 10:28

Weinert, um vinho argentino para quem gosta de tintos mais envelhecidos

Compartilhe: Twitter
Cavas de Weinert, em Mendoza, Argentina: um vinho com tempo de garrafa

Cavas de Weinert, em Mendoza, Argentina: um vinho que já nasce com anos de adega

O que têm em comum um brasileiro que montou uma vinícola em Mendoza, um enólogo suíço que atravessou o mundo para fazer vinhos na Argentina, um argentino que prepara as empanadas mais deliciosas da região e um jornalista paulista que teve sua mala inundada por uma garrafa de vinho que espatifou dentro da mala? A Cavas de Weinert.

Parada obrigatório das fotos: barrica de 150 anos e com malbec 2013

Parada obrigatória para fotos: tonel de 130 anos, 44 mil litros, e  malbec 2013

Um brasileiro em Mendoza

A Bodegas y Cavas de Weinert é uma criação do brasileiro Bernardo Weinert, chamado de “Don Bernardo” na Argentina. O empresário de origem alemã e nascido em uma pequena colônia no sul do Brasil resolveu ter um vinho para chamar de seu em meados da década de 70 e após alguma pesquisa escolheu os solos de Luján de Cuyo, em Mendoza, Argentina. Adquiriu uma cantina construída em 1890, fez as reformas necessárias, estabeleceu um estilo para os vinhos (a marca registrada é de envelhecimento por no mínimo dois anos antes de lançar no mercado) e colocou os rótulos à venda a partir de 1976. Em 1995 uma nova reforma adequou os equipamentos as mudanças e avanços tecnológicos. Há dois anos a empresa teve a entrada de novos sócios. Uma visita pela cantina (há vários horários durante a semana) revelam entre seus corredores escuros de pedras gastas pelo tempo grandes tonéis de carvalho e pilhas de garrafas empoeiradas, ainda sem rótulo, apenas com uma placa indicando a safra. Um enorme tonel de 130 anos, adquirido na Itália, é o foco das câmeras dos celulares e ponto alto da visita. O bichão tem capacidade para 44 mil litros, e vale algo como 240 mil euros, está instalado desde 1998 e ainda é utilizado. Nestes tóneis – também conhecidos como foudres – e garrafas repousam o segredo e o diferencial da Weinert: o tempo de maturação dos vinhos que lhe confere um perfil de tinto mais evoluído, do velho mundo. Ou como eles se definem, uma bodega de vinhos de guarda.

Hubert Weber: e a provas dos noves (vinhos)

Hubert Weber: o enólogo que veio da Suíça e a prova dos vinhos (o sem rótulo é de 1978)

Um suíço em Mendoza

O mestre de cerimônias e responsável pela elaboração dos vinhos também não tem um sobrenome muito mendocino. Hubert Weber é suíço. Está na Cavas de Weinert há 18 anos. Um vinho em especial o trouxe para o outro lado do Atlântico. Em 1991 Hubert provou um Cavas de Weinert Gran Vino numa feira em Berna e se apaixonou pela bebida. Sabendo de seu interesse uma amiga conseguiu contato para ele trabalhar na Bodega na Argentina. Hoje em dia Hubert abre com orgulho as garrafas da Weinert para mostrar os caldos onde aplica seus conceitos de enologia. “Não vim aqui para mudar a filosofia da casa, ao contrário, vim por causa dela”, explica. “Fiz poucas mudanças, o principal foi manter e respeitar o estilo do vinho”.

Os vinhos da Cavas de Weinert, de Mendoza

Por estas características todas, os rótulos da Weinert vão agradar aqueles que gostam de tintos mais envelhecidos, maduros, com boa evolução de aromas e diversidade no gosto das frutas, com toques de couro, canela, tabaco, terroso, enfim aqueles aromas do tempo em garrafa e influência de tonéis de carvalho – conhecido no jargão como terciários. O mais legal é que o consumidor não precisa aguardar para curtir estas características, as garrafas são lançadas já com certa evolução. E é possível comprar safras anteriores. Haviam 1500 garrafas do Carrascal 1978 em estoque, por exemplo. E podem ser compradas por 120 dólares.

A linha de entrada, Pedro del Cartillo*, é um bom cartão de apresentação dos tintos da Weinert. O tempranillo da safra 2013, de vinhas de 40 anos, tinha uma boa pegada de fruta e de terra. O cabernet sauvignon 2012 estava mais fechado, um toque de especiaria estava lá, no entanto, os taninos precisam de um pouco mais de tempo para amaciarem. O malbec 2012 vai mais para o lado da fruta fresca, como cerejas, é macio e fácil de beber.

Carrascal 2009: pronto para hoje, amanhã e depois

Carrascal 2009: pronto para hoje, amanhã e depois

A linha seguinte, a Carrascal, vem de vinhedos de 30 a 60 anos de Luján de Cuyo. É uma mescla de malbec (45%), merlot (35%) e cabernet sauvignon (20%). Passa dois anos em tonéis grandes de carvalho. Provamos a safra 2009. O tempo já mostrou seus efeitos de evolução da fruta madura e negra integrada com o carvalho, um licoroso chega junto no final de boa intensidade. No Brasil estará em torno de 60 e 65 reais. Não gosto do termo, mas é um belo custo-benefício.

Zezinho, Huguinho e Luizinho: varietais de malbec, merlot e cabernet sauvignon

Zezinho, Huguinho e Luizinho: varietais de cabernet sauvignon, malbec, merlot de 2006

A linha varietal é mais seletiva e, claro, procura expressar o potencial da carreira-solo de uma variedade. Hubert comenta que é raro ter na mesma safra três rótulos de três variedades no mesmo ano no mercado. Por exemplo, em 2005 não teve merlot. Mas em 2006 estão disponíveis os varietais merlot, malbec e cabernet sauvignon. São todos bons tintos, meus comentários no bloco de notas (um iPad, na verdade) foram superlativos. Para o merlot: velho estilo, de impacto terroso, ótima acidez, corpo médio, umas flores chegaram numa segunda fungada. Para o malbec: baita ataque no nariz, flores, frutas (ameixa madura), final estupendo, couro, canela, sândalo (sândalo? Pois é, pela primeira vez senti isso num vinho). Para o cabernet sauvignon: chocolate, fruta negra, couro, taninos fortes mas evoluídos, vinhaço para beber e namorar os aromas de fim de taça. Os varietais – note bem, da safra 2006, já chegam com 8, 9 anos nas costas – custam entre 100 e 110 reais no país da alta carga tributária. Não precisa falar onde, né?

Cavas de Weinert Gran Vino 2004: não leve na mala...

Cavas de Weinert Gran Vino 2004: beba na origem, não leve na mala…

E para o final o Cavas de Weinert Gran Vino 2004, um ícone, mas que ao contrário de muitos de seus pares não é pesado, feito para tomar com garfo e faca. Aqui a cabernet sauvignon e a malbec disputam a mescla com 40% cada uma, sobrando 20% para a merlot. Passa três anos em barricas. Prima pela elegância, atributo um tanto difícil de explicar mas fácil de entender no copo. Um nariz que até deixa um pouco zonzo, um licor de cereja que começa no aroma e se traduz em boca, tostados finos, muita fruta, um champignon, final longo, persistente. Esta belezinha de 2004, lá se vão 10 anos, chega às prateleiras por volta de 150 e 160 reais.

Diferente da maioria das vinícolas que se orgulham de contar com vinhedos próprios, a Weinert compra todas as uvas. “Compro apenas o que necessito”, ensina Hubert Weber. São uvas das variedades malbec, cabernet sauvignon, merlot (90% do total), complementadas com syrah, bonarda, tempranillo e cabernet franc – esta última com destino certo, a Suíça. A colheita é feita à mão e uma relação antiga com os produtores permite uma pré-seleção dos cachos. Os vinhedos onde Hubert vai às compras são todos antigos, de solo argiloso e de pé franco (ou seja, não tem enxerto na raiz; traduzindo, traz maior autenticidade à uva). E quando não considera a safra com a qualidade ideal, simplesmente não compra e não produz os vinhos naquele ano. É o que aconteceu com a safra de 2014. Mas e aí, como faz?, pergunto eu. “Não faz”, responde ele, “temos uma adega com capacidade para 3 milhões de litros, e atualmente temos 900 mil litros dentro de casa. Esta é a filosofia da Weinert”

Empanadas, empanadas, empanadas, alguém quer empanadas?

Empanadas, empanadas, empanadas, alguém quer empanadas?

Um mendocino (e suas empanadas) em Mendoza

Assim que terminamos a prova dos principais vinhos, foram servidas umas empanadas (na foto quase dá para sentir seu perfume quente) feitas por um mendocino vizinho à bodega. Sugestionado ou não pelo ambiente, pelos vinhos provados e pela surpresa final –  um Carrascal 1978, engarrafado em 1982 e com aromas de tabaco e evolução deliciosa do tempo, mas muito vivo na boca -, elegi como as melhores empanadas da minha vida, e a partir desta data a harmonização perfeita para um Carrascal.

Malbec 2009, esperando seu tempo de ganhar as prateleiras

Malbec 2009, esperando seu tempo de ganhar as prateleiras das lojas

Um brasileiro em Mendoza

O jornalista que teve sua mala alagada por um vinho, meio óbvio, é este que vos escreve, que trouxe em sua bagagem, devidamente protegido em um desses sacos de plástico-bolha uma garrafa do Cavas 2004 Gran Vino. A garrafa era uma lembrança da visita realizada à cantina de “Don Bernardo”, escoltada pela cativante Hubert Weber, onde provei os rótulos da Weinert acompanhados das inesquecíveis empanadas. A ampola, que ia repousar mais um tempo na minha humilde adega, não resistiu ao delicado serviço de bagagens do aeroporto e trincou uma parte do vasilhame. Se tive o azar de perder o precioso líquido que tingiram minhas roupas (literalmente uma camiseta branca ganhou tons de vinho…), a boa notícia é que a partir do primeiro trimestre os rótulos da Weinert voltarão a ser importados ao Brasil, agora pelas mãos da Mercovino. Esqueci de comentar no início, os vinhos da Weinert não estavam sendo importados para o Brasil nos últimos anos, mas encontram-se algumas garrafas em lojas especializadas. Devem estar disponíveis nas prateleiras no primeiro trimestre de 2015. Os preços citados neste texto são os sugeridos pela operação da Weinert no Brasil para o momento, enquanto o dólar se encontra neste patamar de 2,60/2,65. *A linha Pedro del Cartillo ainda está em negociação se entra ou não neste pacote de importação.

 

Autor: Tags: , , , , , , , , ,

quinta-feira, 16 de outubro de 2014 Brancos, Doce, Tintos, Velho Mundo | 11:01

Tour de Mirambeau: um Bordeaux bom de beber e que dá para comprar

Compartilhe: Twitter

Vídeo do Château Tour de Mirambeau: parece propaganda. E é. Mas é bonito.

Os amantes e aficionados do vinho que costumam frequentar feiras – aqueles eventos onde o produtor fica servindo goles de seus rótulos e o público vai enchendo a caneca meio sem critério – manjam a figura: Jean-Louis Despagne. Todo ano lá está ele com sua indefectível gravata borboleta, a barba cerrada e seus Bordeaux para oferecer. Ele e sua família são proprietários de vinícolas desta região mítica da França: como o Château Tour de Mirambeau (importado pela Mistral) e Bel Air (importado pela Decanter).

Bordeuax é aquela região confusa de entender da França de diversas classificações e regiões, dos premier cru classé do Médoc, Graves e Sauternes, dos premier grand cru classé A e B de St. Émilion e dos rótulos míticos que aprendemos a admirar nos livros e cursos mas raramente comprovamos na taça sua glória e fama já que o preço é proibitivo. Estes nomes devem querer dizer alguma coisa para você, não? Château Latour, Château Lafite Rothschild, Château Margaux, Mouton Rothschild e Château Haut-Brion (Médoc), Château Haut-Brion (Graves); Château d’Yquem (Sauternes); Château Angélus, Château Ausone, Château Cheval Blanc e Château Pavie (St. Émilion) e finalmente Château Petrus (Pomerol, que tem fama mas não classificação). Mas já provou algum? Então…

E o Bordeaux tirou a gravata borboleta

Mas há sim rótulos de Bordeaux para os mortais. Mas atenção, muitos deles são ruins, não valem o investimento ou a barganha. Ter a região de Bordeaux gravada em um rótulo não é indicativo de boa procedência, e pode decepcionar. Mas há uma produção de tintos e brancos de excelente nível e preços compatíveis. Tour de Mirambeau é uma de seus melhores representantes. E com isso voltamos ao nosso personagem Jean-Louis Despagne, desta vez sem a gravata borboleta e de barba feita, que veio apresentar os rótulos de sua Bordeaux, da região de Entre-deux-Mers. Não sei se foi o canícula que castiga São Paulo nos últimos tempos ou a proximidade com o Brasil (Despagne visita com frequência o Brasil, em especial Paraty e Trancoso, e fala um português fluente), mas a descontração talvez traduza melhor os seus caldos, que são descomplicados.

A família Despagne vem cultivando vinhedos por mais de 250 anos. O histórico Château Tour de Mirambeau, localizado em frente a St Emilion, tem cerca de 80 hectares. Começou produzindo mais vinhos brancos, hoje a proporção é 50% para tintos e 50% para brancos, refletindo um pouco o mercado consumidor mundial. Hoje os três filhos de Jean-Louis cuidam da enologia à venda, sendo que a filha, Basaline, é a executiva principal do negócio. Jean-Louis Despagne, como ou sem gravata borboleta, é uma simpatia e com apresentou seus vinhos:

Dois brancos

Ch Tour de Mirambeau_Reserve_BB

Château Tour de Mirambeau La Réserve Blanc 2012
Uvas: sauvignon blanc 58%; sémillon 38% e muscadelle 10%
A sauvignon blanc é predominante nos brancos de Bordeaux, e o resultado deste blend que passa apenas pelos tanques de aço inox, é pura fruta, clássica, com aquelas notas cítricas agradáveis e final fresco. Não melhora com o tempo. Compre e beba! Um Bordeaux na borda da piscina. U$ 38,90 (a Mistral tem por política tabelar seu preços em dólar)

Ch Tour de Mirambeau_Cuvee Passion_BB

Château Tour de Mirambeau Cuvée Pasion Blanc 2010
Uvas: sauvignon blanc 60%; sémillon 30%; sauvignon gris 10%
Aqui um branco mais imponente, com maior volume em boca, cítricos e algo amanteigado e um toque tostado delicado. Ao contrário de seu colega de adega aguenta uns cinco anos na garrafa. U$ 49,90

 Dois tintos

Ch Tour de Mirambeau_Reserve_RG

Château Tour de Mirambeau La Resérve rouge 2011
Uvas: merlot 85%; cabernet sauvignon 10%; cabernet franc 5%
O tinto de entrada do catálogo, com predominância na merlot no corte bordalês e muita fruta e pouca complicação, sem grandes vôos ou pretensões, mas bem equilibrado. A revista Decanter qualificou como melhor Bordeaux para o dia-a-dia. Jean-Louis, no entanto, enxerga que para o futuro é um vinho que tende a desaparecer do portfólio pois os consumidores esperam um tinto com maior capacidade de envelhecimento. U$ 45,50

BT_RQTM_trad (2)

Château Tour de Mirambeau Gran Vin rouge 2008
Uvas: merlot 70%; cabernet sauvignon 30%
Um tinto com corte típico bordalês, mas como convém à região com um peso maior na merlot. Fermentaçãoo malolática nas barricas , o que ajuda no casamento, sem DR, entre a madeira e os aromas do vinho, ou seja, um não discute om o outro de quem é  a palavra final: há uma boa integração. Tem uma fruta vermelha nítida (no nariz e na boca), gostosa, um tanino presente, um belo representante da região de Bordeux. Este sim, com potencial de guarda e futuro no mercado consumidor. U$ 65,90

E um doce

Tour de Mirambeau blanc

Château Tour de Mirambeau Sénillon Noble 2003
Uva: Sémillon 100%
De produção limitadíssima (3 barricas, e produzido a cada 2 ou 3 anos) e venda idem – “Nem sei por que o Ciro Lilla (proprietário da Mistral) importa este vinho”, comentou Despagne – este vinho de sobremesa mostra a beleza do fenômeno da botrytis, o fungo que quando ataca as frutas aumenta a doçura, a densidade dos aromas de mel, pêssego em calda e é espetacular para acompanhar um creme ou uma torta na  sobremesa. Funciona até como uma sobremesa em carreira-solo. “Não é para ganhar dinheiro”, sinaliza Despagne, “mas para deixar os trabalhadores orgulhosos”. U$ 96,50.

É dele também o surpreendente Girolate, fruto de um sistema de fermentação em barrica que vai girando, uma criação sua e do consultor Michel Rolland. Premiadíssimo e concorrendo e ganhando de grandes de Pomerol e St. Émilion (lembra deles, ali em cima?), é um outro bicho. Mas o Girolate sobe muito a régua, custa 350 dólares, e pode ser tema de outra nota, em outro contexto.

Autor: Tags: , , , , , , , ,

quarta-feira, 25 de maio de 2011 Livros | 19:12

Dicionário do vinho, o abc de Baco

Compartilhe: Twitter

Dicionário do Vinho: 17.000 verbetes

Você abre um site, um livro ou revista especializada em vinho e topa com termos como chaptalização, fermentação malolática, perlage, brettanomyces. Hein? Estamos falando mesmo de vinho?

É, meus amigos, o vinho tem seu vocabulário próprio, um dialeto para entendidos, jargões usados entre enólogos, sommeliers, viticultores e profissionais do setor e que podem dificultar a vida de quem está se iniciando nesta área.

Quer desvendar este dialeto? Seus problemas se acabaram-se.  Um dicionário de verdade, com todos os vocábulos do mundo do vinho, acaba de ser lançado pela Companhia Editora Nacional. Trata-se do Dicionário do Vinho, 572 páginas, R$ 120,00, compilado pelos jornalistas Rogério Campos e  Mauricio Tagliari, que também é produtor musical, enófilo e colunista de vinhos.

De aatchkik (uva cultivada na Geórgia e na Ucrânia, empregada na elaboração de vinhos rosés) até zypern (equivalente em alemão de Chipre) são mais de 17.000  termos listados e definidos com precisão, fruto de um trabalho de fôlego e de pesquisa que se torna obrigatório na estante de qualquer enófilo (apreciador e/ou estudioso de vinho) que se preze e também é muito útil para a turma dos “homens que cospem vinho”. Há definições de regiões, tipos de uva, termos químicos, aromas, técnicas e descritivos do vinho.

Um dicionário é uma forma organizada de transmitir conhecimento, normatizar regras e colocar ordem nas coisas. Esta compilação tem uma capilaridade maior, inclui termos equivalentes em outras línguas – o que facilita na leitura do seu Robert Parker preferido – e até aqueles tecnicamente menos corretos, pois o objetivo, segundo os autores, é “ajudar o nosso leitor a entender o que o mundo do vinho fala, mesmo que este fale com a gramática supostamente incorreta”.

Também muito útil para os apreciadores dos fermentados são as variações de nome para um mesmo tipo de uva. São mais de 2.000 uvas descritas no dicionário. Por exemplo, o nome mais conhecido da uva tinta é tempranillo, mas ela também atende se chamada de  aragonês (ou aragonez) no Alentejo, cencibel (centro e sul da Espanha), tinta aragonês, roriz (Douro), ull de llebre (Catalunha), tinta de toro, tinto de toro, tinta del pais, tinto del pais, ramont, tinta roseira, gotim bru e tinto fino. Mesmo as uvas mais internacionais, como a merlot, também têm variações: sémillon rouge, crabulet, médoc noir, merlau, bigney rouge, vitraille, sème de La Canau, merlô, petit merle, bégney e vitraille.

Para quem adora descrever os caldos o dicionário, além das definições, dá uma mão nos sinônimos. Um vinho aveludado (macio, suave, com textura agradável e baixa acidez) é o mesmo que um vinho redondo, e um tinto equilibrado (que mostra harmonia entre seus componentes organolépticos – acidez, taninos e álcool -, aromas, sabores, peso, força, ataque, corpo e persistência) também é descrito como afinado, balanceado e estruturado.

Sem querer comparar a extensão e os objetivos do trabalho, os leitores deste Blog do Vinho também têm um glossário para consultar nos momentos de dúvidas, trata-se da seção ABC de Baco.

A propósito, para quem não entendeu os termos que iniciam este texto, aqui vão as definições do Dicionário do Vinho:

Chaptalização – vinicultura. Prática de acrescentar Açúcar ao mosto, antes ou durante a fermentação, com o objetivo de aumentar o grau alcoólico do vinho.

Fermentação malolática – vinicultura. Transformação do ácido málico em ácido lático, com a liberação do geas carbônico, realizado por bactérias láticas. Tem a função de suavizar o paladar do vinho, já que o ácido lático é mais suave que o málico, e alem disso traz aromas de manteiga e iogurte. Porém, alguns argumentam que  os tintos que passam por esta fermentação perdem em cor e aromas varietais.

Perlage – característica do vinho. Conjunto de bolhas que se formam no vinho espumante

Brettanomyces – microorganismo. Levedura que produz certas substâncias que podem, em baixas quantidades, dar complexidade ao vinho, mas que em geral causam defeitos.

Autor: Tags: , , ,

sexta-feira, 20 de agosto de 2010 Nacionais | 18:03

#enche a taça Galvão!

Compartilhe: Twitter

Galvão Bueno ao lado da mulher e do humorista e apresentador Jô Soares: de taça cheia e rindo à toa

Bueno Paralelo 31 é o vinho do Galvão, o locutor mais assistido e comentado da TV brasileira e agora do twitter. Ok, isso não é notícia. Este Blog mesmo relatou o lançamento da vinícola na Expovinis em nota de 29 de abril deste ano. A novidade é que as garrafas já estão à venda no site da Miolo, parceira de Galvão, e disponíveis em  restaurantes e lojas de vinho. Ou seja, agora os apreciadores podem discutir o vinho, e não o personagem. São 14.000 garrafas comercializadas nesta temporada.

A Bueno Bellavista Estate (bacana, hein?) ainda é um projeto. O terreno, localizado na Campanha Gaúcha, vizinha das parreiras de outro projeto da família Miolo, a Seival Estate (opa!), ainda está em sua primeira infância. As parreiras têm seu tempo de maturação. Demoram cerca de cinco anos para começar a dar frutos em condições de fermentar e virar vinho. Mas Galvão Bueno é acelerado. E os primeiros vinhos da sua empreitada são dos terrenos vizinhos do Seival, no caso do tinto, e do Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha, para o espumante Bueno Cuvée Prestige. Nestas primeiras safras a assinatura no rótulo é do Galvão, mas as uvas ainda são de terceiros.

#enche a taça Galvão

Galvão Bueno não se incomoda com o sucesso. Se alimenta dele e é feliz com isso, o que é raro em um país em que o sucesso é motivo de desgosto em público e júbilo no particular. Discorre sobre seu vinho com paixão. Não comemora como um gol, mas narra como uma boa partida, e deixa claro que entrou com o coração. Os enólogos (Adriano Miolo e Michel Rolland) com a técnica e o conhecimento. Ergue a taça, fala de um produto com alma e lança o conceito do paralelo 31 do vinho nacional – aquela mesma faixa do globo em que brilham algumas regiões vitivinícolas da Austrália, da Nova Zelândia, da África do Sul, da Argentina e do Chile. Uma estratégia mirando o mercado exterior. Galvão vive parte de seu tempo em Mônaco, e pretende levar seus rótulos embaixo do braço para mostrar para seus amigos em restaurantes estrelados que frequenta na Europa.

E, para aqueles que julgam o vinho baseado em opiniões preconcebidas, este blog pode decepcionar. Degustado agora com mais vagar, em um restaurante, sem a pressa das feiras e alguns meses a mais na garrafa, o Paralelo 31 surpreendeu mais do que da primeira vez. O padrão da dupla Adriano/Rolland se confirma (ver nota anterior), e a escolha por um assemblage não muito habitual por aqui – mistura das uvas cabernet sauvignon (60%), merlot (30%) e petit verdot (30%) –  mostrou seu valor na taça.

Classudo como um bom assemblage tem de ser, com um tostado bacana, frutas maduras e macio na boca, é um bom representante da região. Não sobrou na taça, critério número um de aceitação. Confesso que os tintos da Miolo da região do Seival são os que mais me atraem, em especial o rótulo Castas Portuguesas. O espumante é correto, passa 18 meses em contato com as leveduras, conferindo mais consistência de boca e alguma elegância, mas não se distingue – é muito parecido com outra linha da Miolo. Na mesma faixa de preço, atende uma visão mercadológica da Bueno Estate, o tal mercado externo.

Um sauvignon blanc no ano que vem

Galvão enche a taça, todos à sua volta fazem o mesmo, e já anuncia que no próximo ano o sonho é produzir um sauvignon blanc com a mesma qualidade dos países do paralelo 31, mirando em especial os rótulos dos brancos da Nova Zelândia e da África do Sul. Sugere o uso da barrica. Faz uma consulta aos jornalistas e críticos à sua volta. Todos votam em um branco sem uso da madeira (incluindo o enólogo e sócio Adriano Miolo). Adriano adianta que a safra do ano que vem do Paralelo tinto terá maior participação da petit verdot, que mostrou qualidade excepcional. Galvão concorda e sugere diminuir um pouco mais o cabernet para aumentar a proporção da petit verdot. O negócio do vinho entrou de vez na vida do locutor.

Celebridades não são novidade no mundo do vinho, os exemplos são muitos ao redor do planeta dos ricos e famosos. Alguns realizam um sonho, caso do Galvão – que confessou que não tinha muita intimidade com os caldos nacionais, mas agora defende até a questão dos tributos protecionistas -, do cineasta Francis Ford Coppola  e do ator Gérard Depardieu -, outros emprestam o nome como mais uma oportunidade de ganhar dinheiro. Para o negócio do vinho, é mídia espontânea – olha eu aqui falando do Bueno Estate – e expansão de marca e de mercado. Para o consumidor, uma isca para se aproximar dos tintos e brancos. Aos conhecedores e bebedores com maior litragem, a oportunidade de enfim fazer a prova da taça. E aí sim, julgar o vinho pela degustação, pelo gosto.

Depois de fazer furor no twitter, Galvão corre o risco de frequentar a rede social mais ligada ao vinho com novas rashtags: #enche a taça a galvao para aqueles que gostaram do vinho ou manter o #cala a boca galvao no topo se o julgamento continuar negativo. O veredito, como sempre, é do cliente.

# baixa o preço Galvão

Bom, mas aí chega a hora de pagar a conta. O Parelelo 31 deve chegar entre 80 a 100 reais para o consumidor final nas lojas e um pouco mais barato se encomendado direto na vinícola em caixas de seis garrafas. É aí que começam as comparacões por similares importados do mesmo preço. Talvez seja o caso de criar uma terceira rashtag no twitter: # baixa o preço Galvao

Bueno Paralelo 31 Safra, 2008, Campanha, Rio Grande do Sul
60% cabernet sauvignon, 30% merlot, 10% petit verdot
1 ano de barril de carvalho
R$ 75,00 no site da miolo (seis garrafas)

Bueno Cuvée Prestige, Vale dos Vinhedos Rio Grande do Sul
50% chardonnay, 50% pinot noir
18 meses sobre ação leveduras
R$ 59,00 no site da miolo (seis garrafas)

Autor: Tags: , , , , ,

terça-feira, 17 de agosto de 2010 Nacionais | 11:45

O merlot brasileiro é o melhor do mundo?

Compartilhe: Twitter


No dia 5 de março de 2008 quarenta degustadores se reuniram na Embaixada Brasileira de Londres para uma prova às cegas de 27 vinhos da uva merlot.  Dezessete garrafas eram brasileiras e outras dez representavam outras regiões do mundo. O critério de escolha foi o preço dos exemplares no mercado inglês no período, entre 15 e 45 reais.

O grupo de provadores era da maior competência, quinze deles ostentavam o diploma de Master of Wine – um titulo só concedido após exaustivos e rigorosos testes de conhecimento. Apenas 280 profissionais em todo o mundo têm este privilégio, o paranaense Dirceu Vianna Junior é um eles – e o único  brasileiro. O restante do grupo era composto de jornalistas especializados, sommeliers, enólogos e negociantes do mercado inglês de vinho. A prova era parte fundamental da tese de Dirceu Vianna. Seu objetivo era responder à seguinte questão: os vinhos nacionais do Vale dos Vinhedos poderiam competir num ambiente tão disputado como o mercado inglês?

O ranking de Londres
O resultado foi muito favorável ao vinho brasileiro. Os tintos verde-amarelos ficaram à frente de rótulos conhecidos – e de valor similar em Londres – do Chile, da Itália e da França! “Foi uma surpresa”, contou Dirceu Vianna, que reside e trabalha em Londres, ao Blog do Vinho. “O meu objetivo era de que um ou talvez dois vinhos brasileiros se saíssem bem e demonstrassem o potencial da região.” A partir daí o que era para ser um estudo sobre a viabilidade do vinho nacional no mercado britânico tornou-se em peça de propaganda do merlot nacional. A associação que representa o Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha, no estado do Rio Grande do Sul, divulgou os resultados com estardalhaço, com a seguinte pegada: “Ranking dos 10 melhores merlot do mundo tem oito vinhos brasileiros”. Curioso? Eis o ranking:

Miolo Teroir1º Miolo Merlot Terroir 2005 – Brasil
2º Thelema Merlot 2005 – África do Sul
3º Pizzato Single Vineyard Merlot 2005- Brasil
4º Vallontano Merlot Reserva 2005 – Brasil
5º Concha Y Toro Casillero del Diablo Merlot 2006 – Chile
6º Larentis Reserva Especial Merlot 2004 – Brasil
7º Don Laurindo Merlot Reserva 2005 – Brasil
8º Cavalleri Pecato Merlot Reserva 2005 – Brasil

9º Michelle Carraro Merlot 2005 – Brasil
10º Milantino Merlot Reserva 2004 – Brasil

Completam a lista os seguintes rótulos – alguns bem conhecidos do consumidor nacional

11º Capucho Merlot Ribatejo, Portugal
12º Planeta Merlot 2004, Itália
13º Montana Merlot Reserva 2005, Nova Zelândia
14º Berri States Merlot 2006, Austrália
15º Norton Barrel Select Merlot 2004, Argentina
16º Gallo Merlot 2004, Estados Unidos
17º Reserve Mouton Cadet St Émillion 2005, France

Nota: só entraram na avaliação merlots da regiões delimitada do Vale dos Vinhedos. Rótulos como por exemplo da Vinícola Salton ou da região de Santa Catarina ou de  Pernambuco ficaram de fora.

Os melhores merlot do mundo?
Palmas para a evolução do vinho nacional. Mas será que esta degustação pode nos colocar no patamar dos melhores do mundo? Com a palavra Dirceu Vianna, o autor do projeto: “É legal comunicar os aspectos positivos desse estudo, pois a indústria realmente deveria orgulhar-se disso, mas por outro lado a outra metade dos produtores ficaram entre os últimos dez no ranking”. Well, o que é bom a gente mostra, o que não é a gente esconde, não é mesmo? “Comprar um vinho produzido nessa região, para quem não conhece, ainda é  arriscado, pois não há consistência de um produtor a outro”, alerta Vianna.

O que o estudo conclui, e isso é muito bom, mas está longe de colocar o merlot nacional no pódio mundial, é que é “os vinhos brasileiros são capazes de competir em termos de qualidade com outros países no mercado britânico”. O estudo relativiza, porém, os resultados: “Levando-se em conta a proporção de vinhos do Brasil e do resto do mundo provados na degustação, os oito melhores colocados representam 47% do total  de rótulos nacionais contra 20% de exemplares de outros países”. Vale lembrar ainda que na avaliação geral, nenhum rótulo foi considerado excepcional (outstanding) pelos degustadores. Ou seja, a qualidade geral não era de recordistas mundiais, mas de medalhistas regionais, até pelo corte de preço.

Avaliação detalhada
O fundamentado estudo de Vianna contou ainda com uma avaliação técnica da degustação que revelou tanto as qualidades como as fragilidades do produto nacional. Alguns pontos  levantados pelo estudo:

1. Pelo menos quatro vinícolas produzem vinhos de boa qualidade.

2. Os vinhos  foram considerados de boa estrutura, altos níveis de acidez e álcool moderado. São fáceis de beber, sem excesso de frutas, e complexidade moderada, mais semelhante a um estilo europeu do que do novo mundo. (Comentário deste Blog: O que demonstra que temos uma identidade, que merece ser respeitada pelos vinicultores…)

3. Altos níveis de acidez foram detectados na maioria dos exemplares.  Em alguns casos a acidez foi avaliada como refrescante e balanceada. Na sua maioria, porém, foi considerada excessivamente elevada.

4. Na média foi apontado um mau uso da barrica, com problemas de higiene, qualidade da madeira ou ainda detectado excesso de exposição do vinho aos seus efeitos.  O uso da madeira no atual estágio da viniculura nacional foi comparado ao dos vinhos da Rioja (Espanha) e de Chianti (Itália) de vinte anos atrás.

5. o estudo identificou sete pontos principais que merecem a atenção dos produtores do Vale dos Vinhedos: escurecimento precoce do vinho, falta de maturação e  pouca concentração de fruta, elevados índices de acidez, problemas de manuseio de sulfito, excesso de extração e mau uso de barricas.

Por que merlot e não espumantes?
Cabe a pergunta, certo? Nossos espumantes afinal não conquistam medalhas para lá e para cá em diversos concursos internacionais? Para Vianna a decisão foi pragmática: “Haviam duas alternativas: fazer algo relacionado aos vinhos espumantes ou vinhos da variedade merlot. Como o consumidor brasileiro parece ter preferência por tintos, e também pelos benefícios à saúde, decidi seguir esse caminho.” Vale acrescentar que a merlot é a uva mais plantada entre as variedades de vitis vinifera do Vale dos Vinhedos (dados da Aprovale, 2008)

Merlot  112,5 ha
Cabernet Sauvignon 106, 3 ha
Cabernet Franc 42,2 ha
Chardonnay   31,4 ha
Riesling Itálico 26 ha
Tannat  24 ha

A escolha da merlot significa que esta é a uva com maior potencial no Brasil?
Muitos enólogos e entendidos apostam na merlot como “a uva” nacional, incluindo o consultor globalizado Michel Rolland. Mais uma vez, Vianna pondera: “Eu acho que essa resposta vai levar décadas para  ser respondida com convicção”. E em seguida coloca o dedo na ferida: “Se o produtor tiver força de vontade, determinação e disciplina eu acho que é possível fazer vinhos de boa qualidade, mas eles devem diminuir o rendimento para no máximo 1.5 quilo por planta”. Vianna, no entanto, identificou dificuldades no processo após visitar grande parte dos produtores em três longas viagens ao Vale do Vinhedos. “Não é fácil mudar a mentalidade dos produtores nesse sentido”.

Noves fora?
O estudo de Dirceu Vianna traz uma ótima notícia para o vinho nacional, mas o caminho ainda é longo, exige investimentos e mudança de mentalidade. Mesmo superando rótulos conhecidos do Chile e da Argentina na tabulação final da degustação, Vianna acha  difícil, por exemplo, o vinho brasileiro conseguir disputar de igual para igual o mercado internacional – e seu estudo tinha este objetivo, avaliar as possibilidades de nosso produto no mercado inglês, é sempre bom lembrar. “Tanto o Chile quanto a Argentina avançaram a passos largos nas últimas duas décadas. Um dos motivos foi a ajuda de consultores com experiência internacional. As vinícolas brasileiras deveriam seguir o exemplo – a Miolo é uma exceção. Eu não sei se é timidez, arrogância ou o fato de não querer investir, mas de qualquer forma é uma falsa economia”. A avaliação é seguida de uma previsão. Vianna não tem dúvidas: “Eu tenho certeza que o mercado de vinho no Brasil vai crescer muito nos próximos anos.”

Autor: Tags: , ,

sexta-feira, 4 de junho de 2010 Nacionais | 14:56

Bons, básicos, baratos e brasileiros

Compartilhe: Twitter

Os vinhos de grande volume das principais vinícolas são a base da pirâmide do consumo. Uma espécie de “Caminho Suave” dos tintos e brancos, uma cartilha por onde o iniciante começa a experimentar e gostar de vinho, o reincidente tem a opção do dia-a-dia e aqueles felizardos que são recomendados pelos médicos a tomar uma dose diária de um tinto têm uma alternativa segura.

Vinhos de linhas mas simples de empresas como Almadén, Aurora e Salton fazem parte de um segmento que poderia muito bem ser chamado de BBB do vinho nacional: bons, básicos e baratos. Sim, eles existem, são simples e descomplicados. E o crescimento do mercado de vinho fino nacional (veja abaixo) está produzindo boas novidades no setor: investimentos, qualificação da bebida e até modernização visual dos rótulos.

Agora, em nova embalagem

E se além de bons e baratos estes vinhos mais básicos fossem também bonitos? Almadén e Aurora apostaram em mudanças visuais em seus rótulos. Eles ficaram mais limpos e fáceis de identificar nas prateleiras de supermercado, em ambos os casos cada uva tem uma cor. A Salton mantém seu rótulo mais escuro para a linha Classic, mas também adota a diferenciação de uvas pela cor.

Almadén

Não é à toa que a Miolo Wine Group adquiriu a Almadén em outubro de 2009, e  mexeu com a fórmula dos vinhos produzidos na região de Livramento em um investimento de 2 milhões de reais em melhorias nos processos de vinificação. O resultado foi apresentado oficialmente na última ExpoVinis – feira internacional de vinhos de São Paulo. Primeira boa novidade: diminuiu-se o teor de açúcar. Todos os varietais (vinho de uma única uva) da Almadén estão mais leves, frutados e refrescantes e sem aquele docinho enjoativo que caracterizava a linha. Confesso que fui provar a bebida com um pé atrás, pois a memória gustativa eram daquela bebida demi-sec, acrescida de açúcar. Não era discurso, mudou-se a fórmula. Provei toda a linha: os brancos chardonnay, sauvignon blanc e riesling (safra 2010), o rosé cabernet sauvignon (2010) e os tintos cabernet sauvignon, merlot e tannat (safra 2009). A bela surpresa, para este blog, foram o branco chardonnay, sem madeira, bastante refrescante, boa fruta e características da varietal evidentes e o tinto merlot, macio na entrada, também com fruta fresca e fácil de beber. Preço médio: R$ 15,00.

Aurora

A linha varietal da Aurora é composta de sete rótulos. Os tintos cabernet sauvignon, merlot, pinot noir e carmenère; os brancos chardonnay e gewurztraminer e ainda um rosé de merlot. O cabernet sauvignon, envelhecido em barris de carvalho e um pouco mais encorpado, é o meu preferido: tem um bom corpo e creta presença na boca. Preço médio: R$ 17,00.

Salton

Na lista de bons e baratos já elaborada por este blog em outubro de 2008 o Salton Classic Tannat já merecia destaque. Correto, bem vinificado. Seu preço é imbatível (volta e meia está em ofertas em grandes lojas e supermercados), seus taninos  melhoram se acompanhados de um churrasquinho informal no clube. Em recente viagem à vinícola, a prova dos varietais merlot, cabernet sauvigon e tannat (ainda são comercializadas as brancas riesling e chardonnay) ratificou a preferência por esta uva emblemática do uruguai – de longe o mais prazeroso rótulo da linha. Preço médio: R$ 13,00

O que é bom para o Chile é bom para o Brasil

A aposta na qualificação destes vinhos básicos é importante e necessária para a indústria e para o incremento do consumo do vinho nacional. As gigantes chilenas Concha y Toro, Santa Rita e Santa Helena, por exemplo, têm no seu portfólio desde vinhos para grande massa até premiadíssimos rótulos badalados pela critica e disputados entre os especialistas. Da base para o topo, a qualificação é a melhor propaganda. Até por que, vamos combinar, elaborar vinho caro e bom é até uma obrigação. Prova dos noves é manter qualidade em larga escala e ainda tascar o nome no rótulo…

Crescimento em vendas

No Brasil, o mercado interno de vinho finos – aquele feito de uvas viníferas – vem ganhando musculatura e reagindo ao fraco desempenho dos dois últimos anos. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) apontam para uma retomada da indústria vitivinícola, com um crescimento de 26% no primeiro trimestre de 2010, ou seja não precisava da obrigação do selo fiscal, né? Só no Rio Grande do Sul –  cerca de 90% da produção nacional – foram comercializados 2,32 milhões de litros, o maior volume desde 2007.  Fica claro que é da base da pirâmide que virá esta alavancagem no consumo. Tanto melhor se a qualidade do que se bebe for melhor. Até por que, quem foi fisgado pelo mundo do vinho sabe muito bem, qualidade é um caminho sem volta, tanto para o consumidor como para a indústria.

Autor: Tags: , , , ,

sexta-feira, 3 de abril de 2009 Nacionais, Novo Mundo, Tintos | 19:01

Marco Danielle: da tormenta ao prelúdio

Compartilhe: Twitter

Você conhece Marco Danielle? Quem frequenta a esquina virtual onde os aficionados dos tintos e brancos se encontram, os blogs, fóruns e redes sociais sobre o tema, certamente já ouviu falar dos vinhos Tormentas e Minimus Anima, e de seu autor, Marco Danielle. Desde 2005 ele batalha pela divulgação de seus tintos naturais, de produção reduzida e preço elevado. Danielle defende a baixa intervenção no vinhedo e é refratário a qualquer adição química na vinificação, principalmente de sulfitos.

A novidade é que agora ele está trabalhando um novo rótulo, Prelúdio, um vinho que  mantém o mesmo estilo mas dá uma trégua no preço. Odiado ou amado, o fato é que seu discurso sempre provoca faísca. E Danielle não é muito aderente a críticas, seja lá quais forem, e defende com unhas, dentes, ancinhos e, muita teoria, seus vinhos naturais. Daí a faísca invariavelmente provoca fogo.

Para o músico e ex-colaborador de Veja.com, Ed Motta, o Minimus Anima de 2005, por exemplo, é “o tinto brasileiro de maior personalidade” que já degustou. “No nariz, rara elegância, com uma nota salgada e apimentada que lembra os vinhos do Rhône e Languedoc, na França. Brilhante”, complementa. O enocineasta John Nossiter e os críticos do site Notas de Degustação também se somam aos entusiastas das experiências naturais de Danielle. Já boa parte da crítica tradicional olha desconfiada para o projeto, para seus proclamas e seus caldos. O crítico Marcelo Copello,  atualmente editor da revista Adega, comentando uma degustação às cegas de seus rótulos, disparou o seguinte petardo há alguns anos: “Algumas pessoas realmente não gostaram do vinho, achando-o desagradável”, sentenciou. “Os defeitos principais comentados foram aromas cozidos e concentrados de mais, de uvas excessivamente maduras ou concentradas posteriormente de alguma forma.”

Tudo isso é bossa-nova, tudo é muito natural
Seus vinhos, no entanto, a despeito de qualquer crítica, a favor ou contra, são extratos naturais, como os rios. Há quem goste das águas correntes, há quem prefira a platitude das represas ou o conforto das piscinas, quimicamente tratadas. Gosto é um valor subjetivo.

Provar um dos rubros criados no ateliê de Danielle – é assim que ele chama seu espaço de elaboração de vinhos artesanais – é de fato uma experiência diferente. O perfil dos tintos está mais próximo ao estilo do velho mundo, onde Danielle ganhou o pão como fotógrafo. No lugar da fruta em compota na taça, e do envelhecimento em madeira, a pureza da fruta. Apesar do termo desgastado, diria que é um vinho bossa-nova, que no princípio causa estranheza mas que esconde uma harmonia rica por atrás de sua aparente simplicidade.

Seus tintos não usam conservantes, leveduras industriais ou sofrem qualquer intervenção química na vinificação. O desengace dos cachos é manual e muitos de seus rótulos não contém, ou contém porções reduzidíssimas, de SO2, um conservante muito utilizado na elaboração de vinhos. Os caldos também não são filtrados ou estabilizados artificialmente. Muito  técnico, meio chato, né? Mas e daí, você deve estar se perguntando?

Daí que esta escolha resulta em um vinho diferente no paladar, que explora mais a verdade do vinhedo e a potencialidade da fruta; daí que o sabor, a cor e a palheta de aromas fogem do modelo tradicional – o que nem sempre pode agradar e nem %C

Autor: Tags: , , , , , , ,

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009 Novo Mundo | 21:28

Vinhos americanos: os ianques estão chegando

Compartilhe: Twitter

Você já tomou um vinho americano? Provavelmente, não. Eu mesmo conheço pouca coisa. Na verdade, não há muitas opções no Brasil de tintos e brancos produzidos na terra do Tio Sam. Três razões contribuíam, pelo menos até o final de 2008, para esta tímida presença: os bons rótulos custavam os olhos da cara, o mercado interno consumia quase toda a produção e, como consequência, a oferta dos rótulos made in USA nas grandes importadoras era pífio.

Mas a crise atingiu em cheio também o mercado americano de vinho. Claro, o consumo interno continuará alto, mas o dinheiro ficou mais curto e as vinícolas, que antes tratavam com desdém o mercado externo, começaram a voltar os olhos para fora e a abrir negociações que permitem trazer os vinhos a preços competitivos e em maior escala – o que diminui o preço final.

Portanto, as chances de você – e eu –  provar um rótulo americano em 2009 será maior.

Vai contribuir para isso a iniciativa de duas novas importadoras, a pequena Wine Lovers e a agressiva e recém-chegada BevBrands, que prometem colocar o vinho americano na agenda dos consumidores brasileiros com uma coleção de rótulos dos estados da Califórnia (a maior parte), Oregon, Washington e New York.

2200 vinícolas, em todos os 50 estados
Os Estados Unidos são grandes produtores e consumidores. Todos os 50 estados produzem vinho. Três deles realmente interessam, e é onde estão concentrados os melhores caldos. O estado da Califórnia lidera com folga o ranking, em qualidade e quantidade, com 900 vinícolas, seguido do Oregon (198) e New York (162). Mas há vinho sendo engarrafado até no Alaska (4), Flórida (8) ou Mississipi, com uma única e solitária vinícola. No total, são cerca de 2.200 vinícolas no país. O site do jornal Usa Today produziu um mapa interativo muito legal com essas informações para quem quiser saber mais.

Os EUA no Brasil
Aqui entre nós, no entanto, perdem feio para os chilenos, argentinos e portugueses no ranking de volume importado. E não só para eles. Ocupam a 11º posição, com 0,12%, à frente somente da Nova Zelândia (veja quadro abaixo). Ou seja, o espaço para crescer é grande se for feito um bom trabalho de divulgação, distribuição e, principalmente, uma boa política de preço.

1º  Chile  34,38%
2º  Argentina  26,54%
3º  Itália  17,91%
4º  Portugal  11,24%
5º  França  4,54%
6º  Espanha  1,82%
7º  Uruguai  1,70%
8º  África do sul 0,58%
9º  Alemanha  0,54%
10º Austrália  0,40%
11º EUA  0,12%
12º Nova Zelândia 0,11%

Concentrado, aromático e um pouco doce
O gosto americano vem dominando o mercado mundial. Isso é sabido, criticado e debatido. É a tal parkerização do vinho de todo o planeta. Esta onda de vinhos com muito extrato – quase dá para mastigar a bebida –, com aromas predominantes de compota, muita madeira, quase doces, e com menos espaço para a acidez. Trata-se de uma caricatura da produção do vinho americano. Isso não é uma coisa boa nem ruim, é só uma característica do paladar do americano médio. Claro, há vinhaços também, que em degustações às cegas dão um  banho em Châteaux franceses, em mitos italianos e modernosos do Priorato, na Espanha.

Principais uvas
Como todo grande país produtor, os EUA também têm uma uva para chamar de sua, no caso a zinfandel, que estudos revelaram parentesco com a italiana primitivo. Em solo americano assim como acontece com a malbec na Argentina e a carmenère no Chile, desenvolve características próprias. A zinfandel está na linha de caldos musculosos, um sabor de groselha e bastante alcoólicos. As tintas cabernet sauvignon, merlot, pinot noir (aqui mais no estado do Oregon) e a branca chardonnay, porém, produzem os rótulos mais interessantes, do mais básico ao mais caro e refinado.

Os vinhos da Wine Lovers – estes eu provei
A Wine Lovers – por que esta mania das importadoras, revistas e eventos com nome em inglês? – está há dois anos no mercado, trabalha com  pequenos volumes e tem uma estratégia de negócio que visa a fidelização de seus clientes. Sua filosofia é trabalhar numa faixa de preço médio que vai de 30 a 100 reais. Como todo mundo, eles começaram com os rótulos argentinos e chilenos. Mas graças ao conhecimento de um dos sócios, que passou a parte da vida na Califórnia, resolveram apostar nesta região dos Estados Unidos, com um o seguinte foco: todos os rótulos são de vinícolas pequenas, que eles próprios visitaram. O critério de escolha foi dividido entre os clientes e especialistas em degustaç%C

Autor: Tags: , , , ,

quinta-feira, 25 de setembro de 2008 Brancos, Novo Mundo, Tintos, Velho Mundo | 17:24

Três goles de três vinhos de três países…

Compartilhe: Twitter

…de um mesmo produtor: O. Fournier. Algumas impressões:

O Centauri Sauvignon Blanc 2007 (Chile, Vale de Leyda, San Antonio, U$38,50) vem da primeira safra do projeto do O. Fournier no Chile. Tem ótimo frescor e aquele nariz meio cítrico e de ataque que se espera de um sauvignon blanc do novo mundo.

O tinto Alfa Crux Blend 2002 (Argentina, Mendoza, La consulta, U$ 75,50), como revela o nome, é uma mistura de três uvas: tempranillo (60%), malbec (35%) e merlot (5%). Se tiver de optar, eu costumo preferir os cortes. O produtor Ortega Gil-Forunier também. Neste tipo de vinho o trabalho do enólogo é mais exigido, pois ele pode extrair o melhor de cada uva e reunir num único rótulo. Vinho delicioso, pronto e macio na boca, aromas de frutas mais maduras e flores, tudo isso prolongado por um final longo.

Alfa Spiga 2003 (Espanha, Ribera del Duero 2004, U$ 129,50). Trata-se de um puro-sangue: 100% tempranillo (tinta del país, como é conhecida a uva na região). Ortega Gil-Fournier aposta, e torce, na vocação da tempranillo como uma uva internacional, e cita experiências na Austrália e nos Estados Unidos. E, só para contrariar minha predileção por misturas, mencionada acima, este vinho conquistou de primeira, mas exige um investimento mais alto. O Alfa Spiga, antes de virar garrafa, hiberna 20 meses em barricas novas de carvalho, que dá aquele tempero ibérico e um caldo potente, de cor intensa e fruta madura. Que a tempranillo se espalhe pelo mundo, então.

Site oficial: O. Fournier
Onde encontrar: Importadora Vinci (preços com cotação do dólar do dia)

Autor: Tags: , , , , , ,

terça-feira, 9 de setembro de 2008 Tintos, Velho Mundo | 14:37

Bordeaux em três rótulos

Compartilhe: Twitter

Os melhores perfumes podem até estar nos menores frascos. Mas os melhores vinhos, certamente não. Um Château Pichon-Lalande 2004 (R$ 597,00), um Bordeaux da subregião de Pauillac, em garrafa tradicional de 750 ml, já é um luxo. O mesmo rótulo numa magnun (1,5 litro), e um pouco mais envelhecido, da safra de 2001, é uma benção numa segunda-feira nublada. Foram essas garrafas que o francês Gildas d’Ollone, diretor-geral do Château Pichon-Longueville Comtesse de Lalande, ofereceu para um pequeno grupo em um almoço recente em São Paulo.

Na intrincada classificação do Médoc, de 1885 (é, lá as coisas duram), cabe ao Pichon-Lalande a categoria de Deuxièmes Crus Classé, algo como o segundo time entre os seis superfantásticos. Mas mesmo entre os segundos, ele se distancia, pela qualidade e consistência de suas safras, dos vinhos da mesma categoria. Daí inventaram a designação de “supersegundo”. Para Robert Parker, as safras posteriores aos anos 80 podem “rivalizar facilmente com os três famosos Premiers Crus Classé da comuna: Lafite-Rotschild, Latour, Margaux. A propósito, o übercrítico deu 100 pontos para a safra 1982, que ele jura ter provado pelo menos meia-dúzia de vezes em 2002 e que classifica como “tanto de reflexão como hedonista”.

Reserve de La Comtesse
Os “segundos” também têm seus segundos vinhos. No caso, o Réserve de La Comtesse (R$ 239,00), um sucesso de vendas em sua categoria; só na importadora World Wine são 5.000 garrafas ao ano (os rótulos do Pichon-Lalande, como de costume em Bordeaux, não têm representação exclusiva de importadores no Brasil). Este ano chegarão ao mercado vasilhames fora do padrão usual, de 500 ml, ou seja, nem é uma meia garrafa nem uma garrafa inteira. Uma boa solução para restaurantes e para quem tem nessa medida seu consumo e não quer arriscar de guardar o vinho depois de desarrolhado. “O Réserve mantém o mesmo estilo do Lalande”, garante Gildas. “Mas como menos concentração.” O que os difere é o resultado obtido após a segunda fermentação de cada uva que entra na composição – cabernet sauvignon, merlot, cabernet franc e petit verdot -, realizada em barricas separadas. “Após a prova de cada barrica, selecionamos quais vão para cada rótulo”, explica Gildas.

Château Bernadotte
Mas quem disse também que os rótulos mais caros são os que mais surpreendem? No caso, secondo me, brilhou forte a estrela de um rótulo que começa a ser mais trabalhado agora no Brasil e é uma opção muito mais interessante de sabor, maciez e aromas – e sempre com aquele teor alcoólico mais baixo de Bordeaux que convida para mais um gole. Trata-se do Château Bernadotte 2004 (59 % cabernet sauvignon, 36 % merlot, 3% cabernet franc, 2 % petit verdot), localizado na subregião do Haut-Médoc, praticamente vizinho ao Lalande – só alguns quilômetros separam os dois vinhedos. Por 115 reais, você ganha em prazer e sabor, uma boa amostra do que um bom Bordeaux pode oferecer. Tem bastante rótulo do novo mundo mais pobre de espírito e elegância com preço muito mais elevado. Bordeaux não precisa ser, necessariamente, uma bebida para milionários. Faz assim, junta a grana de dois argentino médios e faça um investimento no velho mundo. Depois me diga se não vale a pena variar.

Autor: Tags: , , , , ,

  1. Primeira
  2. 1
  3. 2
  4. Última