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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015 Novo Mundo, Tintos | 11:50

Os incríveis (e caros) vinhos chilenos do suíço Mauro von Siebenthal

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Mauro Von Siebenthal: exibe suas crias: "Grandes vinhos têm de ser profundos e persistentes"

Mauro Von Siebenthal: exibe suas crias: “Grandes vinhos têm de ser profundos e persistentes”

Mauro von Siebenthal (pronuncia-se “Fon Zibental”) é um homem do mundo. Advogado suíço, de família de origem italiana, e experiência profissional global, realizou seu projeto de vida produzindo vinhos de personalidade e qualidade no Chile. Mauro é um pequeno grande produtor, pequeno por que adota o conceito de Vinícola Boutique, e grande na ambição de produzir vinhos de  reconhecimento internacional e com “alma”  – mais precisamente em Panquehue, no Vale de Aconcágua, a 100 quilômetros de Santiago

A Von Siebenthal é parte integrante de um dos grupos mais inovadores e instigantes do Chile, o Movi, Movimento dos Vinhateiros Independentes, que reúne produtores de pequeno e médio porte. Independente, mas nada ingênuo. Não desdenha, nem esconde, por exemplo que um de seus rótulos premium, o Tatay 2007, um carmenère de boa estirpe, levou 97 pontos na lista da Wine Advocate, de Robert Parker. Um feito só igualado duas outras vezes por um vinho chileno: as duas pelo Terrunyo Carmin de Peumo, também da uva carmenère, das safras 2003 e 2005, produzidos pela Concha y Toro.

À primeira vista Mauro von Siebenthal lembra um pouco aquele colega nerd da escola, ou um estereótipo de uma personagem suíço: um pouco acima do peso, pele clara, com as bochechas rosadas, um par de óculos grandes que lhe toma o rosto arredondado e diminuem os olhos e uma calvície que alonga a testa. Logo no primeiro contato, porém, o lado italiano expresso no nome Mauro se impõe. Dono de uma personalidade forte, com opiniões firmes sobre vinhos e críticos, tem um discurso afinado com boas frases de efeito, metáforas incomuns na descrição dos seus vinhos e ótimo senso de humor. Também revela-se um extraordinário anfitrião, um cozinheiro de mão cheia e a melhor propaganda de seus rótulos.

Mauro no meio de seus vinhedos: "O lugar tem de te eleger"

Mauro no meio de seus vinhedos: “O lugar tem de te eleger”

Mas como ele veio parar neste pedaço do mundo, trocando a toga pelas botas do campo? “Desde os 16 anos sou apaixonado por vinho”, ele dá a dica. A bem–sucedida carreira de advocacia lhe deu eira e beira, e a oportunidade de provar os melhores tintos, brancos e espumantes da Europa e do mundo, formando sua palheta de sabores e aromas. Mauro alimentava um sonho de ter um vinhedo para chamar de seu e já tinha idealizado seu objetivo: elaborar “vinhos com identidade”. Em 1998 um pintor amigo organizou uma exposição no Chile que ele veio visitar. “Tudo que eu havia idealizado para um excelente vinhedo estava concentrado aqui”, conta se referindo à região de Panquehue, no Vale do Aconcágua, onde a Viña Errazuriz também tem seus vinhedos. “Decidi em 5 minutos”, recorda. A região foi a primeira produtora de vinhos no período colonial do Chile, mas naquele momento o terreno era selvagem, não tinha nada. “Começamos a plantar o vinhedo em 1998”.

“O terreno escolhe você, não é você quem escolhe o terreno. O lugar tem de te eleger”, teoriza, em um estilo limítrofe à autoajuda. Os lugar é mesmo de tirar o fôlego. Mauro costuma levar seus convidados a uma parte mais alta do vinhedo onde pode-se mirar toda a propriedade, as filas de parreiras criando desenhos e a Cordilheira do Andes ao fundo.  “Se você escuta a natureza, ela diz alô, alô”, sustenta Mauro numa pegada prosopopeica. São dois vinhedos nas montanhas e outros dois no plano, como solos graníticos (para cabernet franc, merlot, carmenère) e aluvial (para cabernet sauvignon, petit verdot e carmenère). “Em 1998, comecei a comprar essas terras, com ajuda de amigos investidores, até chegar a 52 hectares.” A adega, de estilo arquitetônico  colonial chileno, não aposta na linha de impacto visual. É eficiente e dotada de tecnologia necessária, e conta uma estrutura adequada para receber pequenos grupos. Mauro se orgulha de manter um mesmo time de onze leais funcionários desde o início, incluindo seu braço-direito Darwin Oyarce, que nos acompanhou na prova de vinhos ainda em barrica, e do enólogo Stefano Gandolini. Em 2003 já estava produzindo os primeiros tintos “já era um Tatay” e seguiu ampliando sua linha de forma controlada (são sete rótulos). Em 2009 mudou-se em definitivo para o Chile e hoje vive na vinícola, junto com sua mulher, Soledad La Torre. Ao contrário do que possa parecer não é um empreendimento para aventureiros, mas para quem tem crédito no banco. Mauro Von Siebenthal lembra que foram 12 anos no vermelho, perdendo dinheiro (mas talvez ganhando em felicidade, como diria com certeza, se é que não disse).

Rio_Mistico

Mauro nos conta sua história na mesa de sua sala de almoço, onde será servido uma refeição preparada pelo próprio, na casa que construiu dentro da vinícola. Estávamos eu, Mauro, sua mulher Soledad, Susana Gonzales, a representante de uma empresa chilena de promoção de vinhos, e o escritor de vinhos do Paladar, da revista Prazeres da Mesa, Marcel Miwa, um dos melhores críticos do momento e um degustador de primeira. Mauro me pergunta se conheço os vinhos. Digo que não. Perplexo ele me questiona: “Mas em que mundo você vive?”, achando que era obrigatório alguém como eu ter um conhecimento mínimo de seus rótulos. Sorri sem graça (na realidade eu já havia provado o Cabrantes e mais tarde mostrei ao Mauro o post neste Blog do Vinho, como foto sua e tudo. Vergonha dupla, pelo esquecimento e por não ter feito a lição de casa). Mauro serve a primeira amostra, uma novidade. Um vinho branco de um produtor reconhecido pelos caldos tintos. Trata-se do Rio Mistico, um viognier impactante e encantador. Diferente da maioria que já provei. Cremoso, potente, untuoso e amanteigado, tem um floral delicado e uma personalidade própria. “Uso muito oxigênio na hora de vinificar”, explica. Ele diz que será sua única incursão no mundo dos brancos. Estimulo a continuar, pois de fato fiquei impressionado. Acho que consigo recuperar um pouco a moral com ele.

 

Montelig_2009

Começamos então uma sequência de tintos (os vinhos não são filtrados): Montelig 2009 (R$ 343,00*), cabernet sauvignon (40%) carmenère (30%) e petit verdot (30%). O vinho passa 24 meses em barricas francesas e 3 a 4 anos na garrafa até ser desarrolhado e entregar uma bebida de taninos muito aveludados, bom corpo, boca envolvente, boa acidez. Tem um primeiro ataque de pimenta branca e em seguida chegam as frutas negras a cereja. Para comparar, abre uma outra garrafa de Montelig, agora da safra de 2006, três anos mais velho. “Tem mais coisas aqui”, analisa enquanto gira a taça. De fato, mais fruta madura, mais notas de couro, boa evolução na garrafa.

Tatay_2010Aponto para uma taça enorme que ele guarda dentro de uma prateleira e o assunto passa a girar em torno dos terremotos e de como perderam copos e vasos durante os tremores, além de vinho na adega, claro. Desafio ele a produzir uma foto com a megataça recomendando beber “uma taça de Von Siebenthal por dia”. Ele prontamente pede para Soledad tirá-la do armário, faz graça e posa para foto. Chega a vez então do aclamado Tatay de Cristóbal da safra 2010 (R$ 1024,00!!!), 90% carmenère e 10% petit verdot. “Nunca pensei em fazer um carmenère usual”, comenta enquanto gira a taça. Complexo. Muito macio, persistência incrível. Aromas de bosque e frutas negras. O final de boca chama a atenção, muito longo, com uma percepção em boca das frutas negras presentes no nariz e bala de café que prolonga no retrogosto (ô palavrinha que não ajuda…). Deve se agigantar com mais paciência e tempo na garrafa. “Grandes vinhos têm de ser profundos e persistentes”, teoriza Mauro. Mais tarde provamos o Tatay 2012, que ficou 26 meses em barrica e só terá suas 3.800 garrafas lançadas  em 2018. Já tinha uma classe e persistência marcantes, com muitos aromas de fruta negras. “A petit verdot dá mais tempo e punch ao vinho”, explica.

Terminada a refeição vamos para a prova na adega: começamos pelo Carabantes Syrah 2013 (R$ 161,00). O syrah não navega sozinho, mas é protagonista (syrah 85%, cabernet. sauvignon 10% e petit verdot 5%). Passa 14 meses em carvalho francês novo. Tem um belo nariz, especiarias delicadas e não exibidas, ervas finas, boca envolvente, doçura final e muita fruta vermelha como framboesa. Sobre a safra 2016, ele vislumbra sua beleza: “Será uma bailarina turca oriental”. Em seguida provamos o Carmenère Gran Reserva (R$ 124,00) – carmenère 85% e cabernet sauvignon 15%, com 10 meses em carvalho americano. Fruta bem desenhada, persistente, boa acidez e já “bebível” para um vinho que será lançado em 2016. Provamos ainda alguns varietais vinificados e amadurecidos em separados que ainda repousam em barricas e farão parte de outros vinhos, como o Parcela #7 (R$ 124,00) – um corte bordalês com 40% de cabernet sauvignon, 35% de merlot, 10% de petit verdot e 15% de cabernet franc) do primeiro vinhedo cultivado na Von Siebenthal. “O Blend perfeito não existe, é uma inspiração”, conta Mauro em um vídeo na sua página no Facebook reproduzido abaixo. “Neste nível de vinho fazer escolhas das uvas é uma questão intelectual”

toknar_2006

Para o final ficam as impressões do Toknar (R$ 410,00), um surpreendente 100% petit verdot. Como diz Mauro, “só se memorizam vinhos extraordinários”. Este grudou na memória. Os 26 meses de barrica e dois de garrafa aportaram um baita aroma (frutas negras, café, eucalipto), um toque de grafite, potente, grande presença em boca, uma cereja inunda no paladar, mineral, acidez marcante, muita expressão da petit verdot que raramente é protagonista e aqui atua num monólogo magnífico. Na minha modesta opinião – já disse mais de uma vez aqui que sou um degustador mais intuitivo e menos técnico – foi o meu tinto inesquecível do dia. “Os vinhos não são iguais todos os anos – são similares, mas não iguais. Usamos as mesmas uvas, dos mesmos vinhedos, mas a natureza muda a cor a cada ano”, compara Mauro Von Siebenthal.

Mauro é adepto de uma taça de vinho por refeição.

Mauro “recomenda uma taça de vinho por refeição”

Depois de alguns goles, Mauro soltou mais sua verve: soltava fogo pelas ventas toda vez que mencionava o Guia Descorchados e seu autor, o crítico Patricio Tapias. Acusava-o de não ter critério, de não entender a qualidade dos rótulos Von Siebenthal e outros ressentimentos de quem não foi bem avaliado no ranking elaborado todos os anos pelo guia (recente reportagem da revista Decanter, com dicas de Tapias com os melhores cabernet sauvignon chilenos, também passa ao largo dos rótulos de Von Siebenthal). Curiosamente foi outro crítico, muito mais enxovalhado pelos produtores e outros especialistas, Robert Parker, que catapultou os tintos Von Siebenthal entre os vinhos de qualidade e exceção do Chile. “Em 1997 tivemos quatro vinhos acima de 90 pontos”, conta desenhando um sorriso no rosto e arregalando os olhos. Além dos 97 pontos do Tatay, receberam boas notas o Toknar (94), Montelig (92) e o Cabrantes (91). São vinhos boutique, de alta gama, e cobram seu preço. Segundo o site de cotação  de vinhos Wine Searcher o Tatay está entre os três vinhos mais caros do Chile e com os preços subindo nos últimos três anos.  Mais uma vez Mauro Von Siebenthal define a situação: “Eu prefiro uma Ferrari a um Fiat 500”.

Assista ao vídeo onde Mauro mostra sua propriedade e conta um pouco de sua história (em inglês)

 Neste outro vídeo, além de Mauro, o enólogo Stefano Gandolini fala um pouco sobre o terroir e os vinhos (em espanhol)

* Os valores dos vinhos no Brasil foram pesquisados em fevereiro de 2015, no site de vendas online Fine Wines  

 

 

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quarta-feira, 28 de novembro de 2012 Degustação, Sem categoria | 12:13

Vinhateiros Independentes do Chile: pequenas vinícolas, grandes vinhos

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Pequenas quantidades, vinhos produzidos artesanalmente no Chile

Mauro Von Siebenthal é suíco,  proprietário da Viña von Siebenthal e idealizador do tinto Cabrantes. Angela Mochi é brasileira, e produz os vinhos Tunquen. Fernando Atabales é enólogo da Starry Nights Wines. Sergio Avendaño une sua paixão pela bateria e pelo vinho com os tintos da Trabun. Todos são produtores de rótulos chilenos, e provavelmente você nunca ouviu falar deles, nem jamais bebeu um de seus vinhos, mesmo sendo um fã dos tintos e brancos dos Andes.  Eles fazem parte do Movi, o Movimento dos Vinhateiros Independentes do Chile.

Não, não se trata de mais um grupo revolucionário da América Latina que resolveu pegar em armas e combater as gigantes da indústria vinícola chilena propondo um boicote aos seus rótulos com piquetes nas lojas ou adulterando suas barricas na calada da noite. A proposta do grupo é mostrar que existe vinho além dos gigantes Concha y Toro, Santa Rita, Santa Helena e San Pedro, que preenchem as prateleiras dos supermercados e catálogos online da importadores. E vinhos de qualidade, que tentam refletir a identidade do local em que foram produzidos e traduzem a interpretação do enólogo do seu vinhedo, seja lá o que isso signifique na prática para os consumidores.

Nada contra os blockbuster dos fermentados. Desde os rótulos de base até seus ícones são no geral vinhos bem feitos, de alta tecnologia, que buscam a excelência em cada linha de atuação. Minha geração, com certeza, se iniciou nos caldos bebendo vinhos destes produtores, sempre confiáveis. Eu, particularmente fico muito feliz com uma taça de Dom Melchor (Concha y Toro), Don (Santa Helena), Casa Real (Santa Rita) ou Cabo de Hornos (San Pedro), na mão, ou mesmo seus primos mais pobres, a linha do dia a dia.

Barrica alada: símbolo do Movi

O Movi só existe, diga-se de passagem, pois está inserido em uma indústria madura, de alta capacitação técnica, muita pesquisa e presente no mercado internacional. Parte dos membros do Movi fizeram carreira nas grandes empresas vinícolas do Chile, outros são diletantes que se aventuraram pelos vinhedos com uma ideia de vinho na cabeça e uma taça vazia na mão. O objetivo é esvaziar a cabeça e encher a taça. Criada em 2009 por 12 sócios fundadores, atuamente conta com 21 membros. São eles: Armidita, Bravado Wines, Bustamante, Clos Andino, Flaherty, Garage Wine Co., Gillmore, I-Wines, Lafken, Lagar de Bezana, Meli, Peumayen, Polkura, Reserva de Caliboro, Rukumilla, Starry Night, Trabun, Tremonte, Tunquen Wines, Villard e Von Siebenthal.

O símbolo do Movi já é uma bela sacada que define um pouco seu caráter iconoclasta e diferenciado: um barril alado. No catálogo que apresenta cada vinícola os enólogos-idealizadores mostram suas criações em fotos descontraídas, o vinho tratado como um objeto alegre e hedonista, feito para dar prazer, e não um ícone  embalado em uma caixa de veludo exibido em um gabinete inglês. Nas fichas técnicas, algumas harmonizações fazem fronteira com a poesia. O Trabun, por exemplo, combina bem com… uma “boa música”, segundo seu enólogo.

O movimento, por ter uma proposta artesanal, independente e de respeito à natureza também tem as suas idiossincrasias. E tome nomes de línguas nativas como mapuche (Rukumilla, significa “seios de ouro”; Polkura, “pedra amarela”; Peumayen “lugar sonhado”) e mapundungun (Lafken, significa “terraço”; Trabun, “lugar de encontro”). Sei não, a despeito de todo simbolismo, me parece que estas línguas nativas só servem para dar um toque de raiz nos rótulos dos vinhos chilenos. Além de exótico para o mercado externo fica bacana no material de apresentação, né não? Trata-se do movimento inverso ao das importadoras que insistem batizar suas empresas com  nome em inglês no Brasil.

Os 21 produtores do Movi juntos engarrafam 40.000 caixas por ano, na média são 2.000 por vinícola, mas há aquelas, mais artesanais, que não passam de 200 caixas. Independência, identidade, vincultura orgânica e conceito de origem, no entanto, tem seu preço: os  rótulos vendidos no Brasil (os que têm representantes) estão na casa dos 100 reais. Ou mais. Não são ampolas para iniciantes, talvez mais indicado para aquele tipo de consumidor que procura o novo, a diversidade, e está em constante busca de sabores diferenciados.

Vinhos Indicado pelo Gerosa (ViG)

O Movi, apesar de independente, está longe de rasgar dinheiro – e rótulos. O marketing da diferenciação é muito eficaz. E  funciona, olha eu aqui escrevendo sobre o grupo e seus vinhos. Como parte da proposta de divulgação é realizado um road-show para apresentar os vinhos aos críticos, especialistas, virtuais importadores, enfim para os homens que cospem vinho – e depois escrevem sobre eles. Na última rodada promovida pela Movi em novembro de 2012 em São Paulo, foram provados 21 rótulos, com uma forte predominância da uva syrah (eram 12 deles, sendo que 4 100% da varietal). Os vinhos indicados pelo Gerosa (ViG) deste painel foram os seguintes:

Vinos Bustamante, Bustamante Mantum 2007 – um assemblage (mistura de várias uvas) com predominância de cabernet sauvignon (65%), carmenère (22%) e com pitadas de syrah (8%) e merlot (5%). Me encantou o bom entrosamento das uvas, de vinhedos centenárias, com um final persistente e elegante, com taninos firmes, um belo estilo Bordeaux chileno, com o auxílio da carmenère, uma uva que na minha opinião é melhor aproveitada em cortes do que em vôo-solo.

Importador: La Charbonnade

Garage Wine Co, Carignan Lot #27 2010 – de vinhedos antigos de mais de 70 anos de idade, esta deliciosa carignan, com 11% de grenache, desce macia, se amplia na boca e tem um ótimo final. Duas curiosidades, o Lot # 27 é uma homenagem à resistência do lavrador do Maule, já que as uvas foram colhidas logo em seguida ao terremoto que devastou o solo chileno. E os cascos são de garrafas recicladas de champanhe.

Importador: Premium

Starry Night, Starry Night 2010 – um puro sangue, 100% syrah. Uma baita cor violeta, toques florais, frutas vermelhas, desce macio e tem na boca uma fruta excepcional com um fundinho herbácio elegante. Talvez o mais surpreendente vinho do painel.

Pena, não tem importador no Brasil. Alguém se habilita?

Patricio Bustamante, Derek Moosman, Villard, Fernando Atabales e Mauro Von Siebenthal e suas criações

Villard, Tanagra 2009 – outro 100% syrah do Valle do Maipo, uma fruta madura e elegantes notas de especiarias. São produzidas apenas 2820 garrafas desta belezura daquela que é considerada a primeira vinícola-boutique do Chile, fundada em 1989.

Importador: Decanter

Von Siebenthal, Cabrantes 2009 – 85% de syrah, escoltada por 10% de cabernet sauvignon e 5% de petit verdot. Tem uma pegada intensa mas com finesse, uma tipicidade chilena com um amentolado sutil. Seus vinhedos ficam colados ao mais conhecido e comercializado Errazuriz e o cultivo é orgânico.

Importador: Terramater

Três curiosidades

Angela Mochi e Marcos Attilio, brasileiros no Movi

O Movi, apesar de defender a autenticidade do solo chileno, não é uma república nacionalista, pelo contrário, é uma espécie de ONU dos vinhateiros no Chile. Há representantes dos Estados Unidos, Suíca, França, Italianos e até mesmo um casal de brasileiros, Angela Mochi e Marcos Attilio, da Tunquen Wines. Até onde eu saiba os únicos brasileiros que se aventuraram a produzir vinho nos Andes. Para completar o ineditismo, arriscaram na uva e apresentaram um malbec chileno do Vale de Casablanca, variedade pouco comum na região. Trata-se do Tuquen 2011 Malbec (sem importador no Brasil). Quem está acostumado aos densos, doces e maduros malbecs pode se surpreender. Aqui a pegada é outra. Por estar numa região mais fria a potência dá lugar a notas mais frescas. Sim, tem aquela violeta característica dos malbecs, mas é mais fresca e sutil. E um toque mineral que mesmo para quem não sabe do que se trata se traduz numa leveza na degustação do vinho. Vale provar, e comparar com um exemplar argentino.

Um dos tintos exibidos é mais conhecido no mercado. E faturou em 2012 o prêmio  do Guia Descorchados, uma das publicações mais conceituadas da América Latina. O Erasmo 2007 (importado pela Franco Suissaa) é um corte bordeaux por excelência e que sempre me agradou ao paladar. Continuou agradando, é classudo, com uma boa madeira integrada à fruta, mas… comparado aos seus colegas de Movi, deixou o encanto um pouco de lado na prova. O que demonstra que a degustação é um exercício que comprova a qualidade – ou não – daquela garrafa e não necessariamente de um determinado vinho.

Foram apresentados neste painel apenas dois exemplares brancos, o Armidita (sem importador no Brasil), um moscatel de caráter mais doce, uma espécie de vinho-arqueologia, pois recupera o branco conhecido como “pajarete”, cultivado pelos monges jesuítas como vinho de misssa. É produzido no Deserto do Atacama, 100% da uva moscatel colhidas e selecionadas a mão. O outro vinho branco, um chardonnay com toques de baunilha e dez meses de barrica francesa (alada?) da I-Wines traz no rótulo um nome que deve trazer alguma dificuldade na indicação nas lojas e restaurantes: Qu Chardonnay 2011 (Berenguer Imports). É inevitável imaginar a ginástica do sommelier na indicação do vinho…

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