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segunda-feira, 10 de outubro de 2016 Brancos, Nacionais, Tintos | 19:17

O vinho brasileiro ganha espaço em restaurantes, em loja exclusiva e na sua casa

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Vinhedos da Guaspari: nova fronteira do vinho, em Espírito Santo do Pinhal, no estado de São Paulo

Vinhedos da Guaspari: nova fronteira do vinho, em Espírito Santo do Pinhal, no estado de São Paulo

Algumas pessoas, as mal informadas, se espantam quando eu digo que tomo vinho nacional – e com alguma frequência. Esboçam aquele sorriso incrédulo seguido de um “ah, vá” e, diante da minha insistência, recorrem ao segundo argumento mais utilizado diante da possibilidade de desarrolhar um rótulo verde-amarelo: “Ok, até tem alguns bons, mas o preço…”.

Sabe nada, inocente!

Vamos lá. Sim, há vinhos nacionais bons e muito bons – e os ruins ou bem meia-boca, alguns têm um preço maluco, outros compatíveis com o mercado e há também os achados.

O mesmo fenômeno ocorre no universo dos vinhos importados – tanto em preço como na qualidade. A combinação de preço e volume faz parte da construção de marca que rege a indústria desta bebida – de toda indústria, a propósito. Vale sempre lembrar que o vinho nacional paga também uma alta carga de impostos: 54,73% do preço da garrafa vai para o governo na forma dos mais variados tributos, o que contribui na formação do preço. No importado a mordida é de 74,73%

Mas se ainda existe este comportamento preconceituoso entre alguns consumidores de vinho, sinais opostos e positivos mostram que o  vinho brasileiro, das mais diversas regiões e estilos, vem conquistando um espaço maior na taça. E se é verdade que o melhor do vinho  é a diversidade, o Brasil hoje faz parte desta equação.

E quais são estes sinais?

Muitos restaurantes, pelo menos em São Paulo, estão aumentando a oferta de rótulos nacionais em suas cartas, além dos obrigatórios espumantes.

Os vinhos antes restritos ao sul do país agora exploram novas fronteiras. Tanto no Nordeste, um projeto mais antigo, quanto nos improváveis estados de Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo (benza deus, São Paulo, quem diria?) e Goiás, e consolidando a vocação da Campanha Gaúcha, nas franjas do Uruguai.

Pequenos produtores de vinhos orgânicos ou biodinâmicos brasileiros também estão encontrando seu público e espaço para comercializar seus rótulos.

As lojas também abrem mais espaço para o vinho nacional. No exemplo mais radical, uma loja e bar em um bairro boêmio em São Paulo vende exclusivamente rótulos brasileiros.

E como temos mesmo este complexo de vira-latas, nada como o endosso de uma publicação internacional de prestígio para consolidar esta tendência. A prestigiosa revista inglesa Decanter publicou em sua edição de outubro uma reportagem de 4 páginas com o título “Golden era for Brazil“, enfatizando que 2016 é um ano histórico para os produtores de vinho brasileiros. No texto, o autor elogia a qualidade e a diversidade (olha só) do vinho nacional, além de destacar as três primeira medalhas de ouro conquistados pelo Brasil no concurso que a revista promove (Decanter World Wine Award) entre rótulos de todo mund. Foram agraciados dois rótulos da Casa Valduga (Casa Valduga Terroir Leopoldina Merlot e o Gran Leopoldina Chardonnay D.O) e outro da jovem Vinícola Guaspari. (Vista do Chá Syrah 2012) (leia mais sobre a Guaspari mais abaixo).

Blog do Vinho bebeu

Nas últimas semanas tenho bebido rótulos brasileiros em restaurantes, bares e em casa. E não foram apenas espumantes. É apenas mais um reflexo do que escrevi acima. Aos vinhos, pois:

Pinot Noir: simples, descontraído, saboroso

paradoxo1Nos restaurantes Modi e no Lambe-Lambe, uma rede que une qualidade e preço e entrega uma culinária saborosa com ingredientes mais simples, o vinho em taça é o fresco e gostoso Paradoxo Pinot Noir da Salton. Uma ótima sugestão do consultor Luis Felipe Campos, responsável pela carta dos restaurantes. Com uvas da região da Campanha Gaúcha, baixo teor alcoólico e fruta delicada,  acompanha bem entradas, pratos mais leves, frango. Agrada também em carreira solo.

Varietal-Pinot-Noir-2012Outro exemplo de Pinot Noir nacional bacana é o Varietal Pinot Noir da Aurora, de Bento Gonçalves, uma delícia de vinho jovem, frutado e que a gente mata uma garrafa num bate papo sem perceber. Fácil de encontrar em supermercados, é uma boa pedida para levar para casa e beber sempre jovem. Agrada também os Tio Patinhas do Baco, com um preço bem acessível (algo como 25 reais)

Menos álcool, mais frescor

vinheticaAinda no universo dos brasileiros conquistando espaço nas cartas dos restaurantes, este rótulo da foto ao lado, da Campanha Gaúcha, foi provado no simpático Allez, Allez!, um bistrô na Vila Madalena.  O Vinhetica – Terroir de Rouge é um achado. Em primeiro lugar, trata-se de um tinto com 12,5 de álcool, que só por isso merece todas nossas mesuras. Supergastronômico, com frutas frescas e acidez bem marcante, mostra um aroma balsâmico. A maceração é do tipo carbônica, como fazem os Beaujolais Nouveau da vida, ou seja, a fermentação acontece dentro da fruta, o que preserva o frescor que se destaca na bebida. O Vinhetica Terroir de Rouge é o resultado da leveza da uva arinarnoa (que desconhecia) com a robusta cabernet sauvignon, um experimento do viticultor francês Gaspar Desurmont que se apaixonou pelo solo brasileiro e por aqui montou seu empreendimento. Já havia provado em um evento, mas na companhia da comida, deu uma valorizada.

Vinho paulista

Os chamados vinhos de inverno, nos quais se incluem os vinhos produzidos em solo dos Bandeirantes, são fruto de uma técnica de cultivo adaptado ao clima da região sudeste/centro-oeste conhecido como poda invertida. Técnica esperta, ela engana o ciclo vegetativo da parreira e gera frutos em julho, agosto, época de menos chuva e clima mais temperado. Minha primeira experiência foi o tinto Primeira Estrada, lá em 2013. Esta técnica, desenvolvida por Murilo Albuquerque, da Epamig (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais), possibilitou a aventura de outros empreendedores que tinham “um vinho na cabeça e uma uva na mão”. Entre este grupo se encontram malucos/empreendedores de Minas Gerais, Goiás e São Paulo, em geral com origem na zona cafeeira destes estados. A Guaspari e a Casa Verrone são dois exemplos.

 Guaspari, agora numa versão mais econômica

Desde que colocou no mercado seus três primeiros rótulos, um aprazível sauvignon blanc e dois syrah (Vista da Serra e Vista do Chá), a Guaspari surpreendeu os céticos, mereceu boas críticas da imprensa especializada e elogios entre os consumidores. Arrasou conquistando o prêmio máximo da Decanter – como contamos acima. Um baita efeito “uau!” para um iniciativa pioneira e iniciante. Mas de bobos eles não têm nada e os louros não vieram por acaso. A Guaspari criou uma estrutura profissional para chegar nisso. Com vinhedos plantados em uma fazenda cafeeira na região de Espírito Santo do Pinhal, no Estado de São Paulo, a Guaspari chegou chegando com um trabalho ousado que contou com a consultoria do enólogo americano Gustavo González – que tem no currículo a vinícola americana Robert Mondavi – e com um marketing imbatível: um vinho de qualidade produzido em São Paulo. Pronto, ganhou as manchetes! E se posicionou com preço de gente grande (cerca de 150 reais a garrafa).

O que leva a uma reflexão sobre preço e vinho nacional: se o vinho é de qualidade, que diferença faz a nacionalidade na hora de colocar a mão no bolso? valedapedra

Este ano a Guaspari lançou uma segunda linha de vinho, um pouco mais acessível, nem por isso na bacia das almas (78 reais): o Vale da Pedra tinto 2015 (também da tinta syrah, que parece ser a uva que mais se adaptou a estes novos territórios do vinho) e o Vale da Pedra branco 2015 (sauvignon blanc, a branca que também se deu melhor). Curiosamente, ao contrário do padrão dos vinhos nacionais, se você procurar a uva na parte principal do rótulo não encontrará. Este novo vinho vem atender esta tendência de vinhos mais jovens, leves e com maior potencial de consumo. A madeira – quando existe – é apenas coadjuvante. É o caso deste syrah com um estilo “chocolate com pimenta”, que tem esta pegada bem marcante no final de boca. As especiarias típicas da uva estão lá, a acidez dá prazer e a parceria com a comida é mais fácil.  Os vinhos são encontrados em sua loja virtual e na rede de supermercados Saint Marche, em São Paulo.

 Casa Verrone, de Itobi para o mundo

caa-verroneVocê sabe onde fica Itobi e Divinolândia? Eu até sei, pois já fui a Itobi, mas garanto que não foi por conta de vinho, que nem sabia que existia. Mas um produtor – a Casa Verrone – arranca do solo destes municípios no interior do Estado de São Paulo, na região da Serra da Mantiqueira, as uvas que maceradas dão os caldos de seus vinhos. E, para surpresa geral da nação, o seu Chardonnay Speciale Casa Verrone 2015 levou o prêmio na sua categoria na Grande Prova de Vinhos do Brasil 2016. Este eu provei em casa, mas comprei na RedButeco, descrito logo abaixo. É um chardonnay de estilo mais amadeirado, amanteigado, que lembra um pouco os brancos dos anos 2000 produzidos no Chile e Argentina, mais gordo que fresco. Um estilo com vários defensores.

 

Vinho de Food Truck

losmendozitos
Quem já passou por eventos e feiras ou deu um rolê pelos FoodTrucks que explodiram em 2015, e estão se adaptando à realidade de  2016, já deparou com a marca Los Mendozitos, que segundo definição dos fundadores trata-se de uma “rede de Wine Bars itinerantes do Brasil especializados em vinhos de produções familiares”. Por itinerante entenda-se trailers e até bicicletas que comercializam vinhos. Uma ideia que apostou na simplicidade, no preço e no vinho em taça.  E deu certo. Agora os Mendozitos resolveram ocupar um espaço fixo no FoodTruck do Vila Butantã – que é formado por trailers tradicionais de comida e algumas lojas fixas ocupadas em cointainers que formam um mini shopping ao livre em frente à sede da Odebrecht, em São Paulo. Ao contrário do modelo de negócio dos trailers, que é de venda de vinho em taça, na loja fixa o consumo maior é de garrafas. A nota curiosa é que, apesar do nome, os vinhos nacionais também têm vez nas prateleiras como os espumantes do Don Giovani e tintos e brancos nacionais. O rótulo que leva o nome da loja, Los Mendozitos, a propósito, é um cabernet sauvignon produzido pela Guatambu, de Don Predito, no Rio Grande do Sul. Eu imaginava que seria um Malbec de Mendoza… Sem grandes pretensões, correto, com bons taninos, é outro exemplo de vinho nacional ocupando os espaços que ampliam o consumo dos nossos rótulos e atingem um público diversificado.

Um tinto de outro mundo

alma_penada

O mundo do produtor independente Eduardo Zenker é o vinho de garagem. Não é uma força de expressão. Literalmente ele faz suas alquimias em uma garagem em Garibaldi – da mãe. Foi ali que um casal de amigos provou e trouxe esta garrafa de um Ancellota de 2013 que foi batizado como o sugestivo nome de Alma Penada, já que é um caldo  condenado à extinção. Explicando: as parreiras de onde vieram as uvas foram cortadas pelo fornecedor e este vinho não se repetirá. Este eu provei na casa desses amigos.  Vinhos como os de Zenker fazem parte do movimento de vinhos natureba, que aqui em São Paulo tem como maior divulgadora a Enoteca Saint Vin Saint da Lis Cereja. E só o fato de este tipo de vinho diferentão, que defende a interferência mínima do homem no vinhedo e na vinificação, ter um espaço conquistado, já mostra que há vinhos brasileiros em todos os estilos disponíveis. E público para isso – e até uma feira anual pra lá de concorrida que reúne vários produtores. O Alma Penada é bem escurão, estava muito floral, tinha uma espécie de gosto de terra. Na proposta orgânica, o sabor da uva parece mais natural, mas surgem algumas arestas, algo parece meio desequilibrado, o que os defensores classificam como qualidade intrínseca do processo. Definitivamente é um caldo controverso, mas que vale ser conhecido. Ainda citando a tal reportagem da Decanter, um dos rótulos indicados pelo autor é o Era dos Ventos, Peverella, 2013, do casal Luis Henrique e Talise Zanini em parceria com o proprietário do restaurantes Aprazível, Pedro Hermeto uma espécie de vinho laranja tupiniquim e o Atelier Tormentas, Vermelho Cabernet Franc 2015, do polêmico vinhateiro Marco Danielle, do qual escrevi em 2009 e nunca mais cruzei. Este eu preciso provar.

Red: um buteco de vinhos verde-amarelos

red

Por fim, fui conhecer um projeto que parecia pra lá de original e ousado: o Red Buteco. Trata-se de um bar e loja exclusivos de rótulos brasileiros. Voltado para o público jovem e encravado também na Vila Madalena, onde a cerveja, o chopp e a caipirinha reinam incontestes, parecia um suicídio comercial. E aparentemente está dando certo. O público escolhe o vinho nas prateleiras, os atendentes são jovens sommeliers que conhecem os rótulos e tudo é servido em um ambiente moderno e descontraído. Não há muito ritual, bebe-se pelo prazer, pela companhia, no buteco. Para acompanhar a bebida, há um cardápio restrito de aperitivos (gostei da coxinha. Pode coxinha e vinho? Pode!) e pratos rápidos (menos bons). Os rótulos disponíveis variam desde alguns produtores conhecidos do Sul, como Lidio Carraro, Pizzato, Dal Pizzol, Cave Geisse até rótulos de regiões experimentais e pouco conhecidas, do Paraná (espumante Poty), Minas Gerais (Luis Porto) e evidentemente São Paulo (Guaspari e Casa Verrone, foi lá que comprei o meu).

Os proprietários são três jovens com carreira em outra atividade – economista/sommelier, arquiteto/urbanista e advogado/Dj, respectivamente. O público é alegre, predominantemente feminino. Um consumidor novo, com menos vontade de encontrar frutas do bosque no vinho e mais vontade de ter prazer com a bebida e sua companhia.  Acho que não podia ter notícia melhor para o vinho brasileiro.

Serviço:
Red Buteco de Vinhos Brasileiros
Rua Mourato Coelho, 1.160, Vila Madalena, São Paulo, SP

 

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quinta-feira, 17 de setembro de 2015 Sem categoria | 18:03

Vinho nacional de qualidade e acessível é um paradoxo? A aposta da Salton

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Luciana e Stella Salton com garrafas de Paradoxo nas mãos: "Queremos que as pessoas falem mais da Salton"

Luciana e Stella Salton com garrafas de Paradoxo nas mãos: “Queremos  as pessoas falando mais da Salton”

Se você é bebedor de vinho, é provável que já tenha tomado um rótulo da Salton. Se espumante é sua praia, as chances são maiores, afinal a vinícola com sede em Tuiuty, Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, é a maior produtora de vinhos com borbulhas do Brasil. Agora, se você é daqueles que não tem preconceito e curte vinho nacional – como eu –, certamente já desarrolhou uma garrafa desta empresa que completou incríveis 105 anos em agosto deste ano. Se você se enquadra em uma das três alternativas anteriores, e assim como todos os brasileiros e brasileiras está com o orçamento mais apertado, acho que este post pode interessar. Vamos falar sobre um vinho nacional bom e barato, e  se trata de um “Paradoxo”.

Paradoxo, segundo o Dicionário Aurélio, é uma contradição, pelo menos na aparência. Um conceito que é ou parece contrário ao comum; um contra-senso, absurdo, disparate. Vinho nacional de qualidade, para muita gente de nariz empinado, entra nesta categoria. Bom e por um preço acessível então, pertence ao campo do improvável. A Salton, no entanto, acredita em paradoxos. E lançou para o mercado de restaurantes a linha de tintos, brancos e um espumante da região da Campanha Gaúcha que, não por acaso, nomeou de Paradoxo. A ideia é fornecer alternativas que podem entrar na carta dos restaurantes a preços mais atraentes. “Nosso objetivo é fazer o brasileiro consumir mais vinho brasileiro”, defende Luciana Salton, diretora-executiva da vinícola. tanto melhor que seja o que ela produz, claro. O consumidor final também pode comprar as garrafas no site da empresa – a caixa com seis volumes sai por R$ 26,50 a garrafa mais valor de frete,  dependendo da região de envio.  Paradoxo, vale reforçar, também é definido no dicionário como “uma afirmação aparentemente contraditória que, no entanto, é verdadeira”.

Pinot Noir e Gewürztraminer

E já que a pegada é tratar de paradoxos, em vez dos varietais (vinhos elaborados apenas de uma uva) mais comuns como merlot, cabernet sauvignon e chardonnay, que fazem parte da linha Paradoxo, meus destaques são a pinot noir e a gewürztraminer.

Paradoxo Pinot Noir

O Paradoxo Pinot Noir 2014 é novidade no mercado, recém-lançado em agosto deste ano, foi fermentado em barricas e ficou por lá mais um ano. De cor mais escura que um pinot noir do velho mundo tem um toque tostado da madeira e as sempre presentes frutas vermelhas, aqui mais frescas. Um pinot muito saboroso, menos pesadão, fácil e prazeroso de tomar. Um bom vinho de primavera/verão que deve ser consumido um pouco mais resfriado (mas não gelado, não é para ele pegar uma gripe!).

Paradoxo Gerwuztraminer

O Paradoxo Gewürztraminer, com este nome que mais parece um trava-língua e que o Google sempre costuma corrigir a grafia na busca com aquela opção “você quis dizer…”, é uma uva branca mais comum na região da Alsácia, na França, e na Alemanha e que no geral me incomoda quando excessivamente floral. Não é o caso deste exemplar da Campanha Gaúcha, que tem um floral na medida e cumpre seu papel de refrescar o paladar com boa acidez, que amplia sua percepção na boca, um cítrico e um abacaxi no aroma e no paladar e que combinou muito bem com um risoto de limão. Um vinho parceiro de pratos mais leves.

 A Salton volta a falar

A Salton sempre mandou bem no marketing; soube como ninguém comunicar seus feitos, alardear seus vinhos e aproveitar ondas como do prosecco, nos anos 2000, dos espumantes nos anos seguintes, conquistando a liderança no mercado (mais de 40%),  e ainda se qualificando com vinhos de alta gama contando com a consultoria de um enólogo internacional (o argentino Angel Mendoza, da Trapiche em parceria com o enólogo-chefe Lucindo Copat) quando não se falava nisso, na elaboração das primeiras safras do tinto Talento. À frente desta estratégia “Velho Guerreiro” do “quem não se comunica se trumbica” estava Angelo Salton, presidente da empresa até fevereiro de 2009 quando um enfarte fulminante o retirou precocemente do cenário do mundo do vinho.

Angelo era um comunicador nato, com enorme magnetismo pessoal. Ele fez bem ao vinho de sua empresa, e por tabela ao vinho nacional. Para ele todo bebedor de vinho era um cliente em potencial. No estande da empresa nas feiras de vinho recebia qualquer pessoa que passasse por perto com um enorme sorriso e, oferecia uma taça de vinho: “Este é um espumante da mais alta qualidade, brasileiro, é da Salton. Você vai provar, gostar e comprar mais no supermercado”, dizia, confiante, com seu vozeirão.

“Quando meu pai morreu ficamos no limbo”, comenta Luciana Salton. Quase sete anos se passaram. Neste meio tempo Luciana e Stella – responsável pela área de comunicação -, filhas de Angelo, se casaram e ficaram grávidas praticamente no mesmo período e se afastaram um pouco do dia-a-dia da empresa. Agora elas voltam com força total. Com novos produtos e uma certeza “Precisamos comunicar melhor. Queremos voltar a fazer a Salton ser o que era, que as pessoas falem mais dos nossos vinhos”, reforça  Luciana. Entre os objetivos das meninas da Salton, como carinhosamente são conhecidas, um dos mais importantes é crescer no mercado com opções de vinhos brasileiros bons e acessíveis. “A Salton é uma marca de credibilidade. E, se necessário, temos estoque para o crescimento e atender as grandes redes”, diz Luciana. Um paradoxo? Não, um desafio.

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quarta-feira, 22 de abril de 2015 Blog do vinho, Brancos, Degustação, Espumantes, Nacionais, Novo Mundo, Porto, Rosé, Tintos, Velho Mundo | 14:00

Conheça os melhores vinhos do concurso Top Ten 2015 da ExpoVinis

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Como acontece todos anos  os homens que cospem vinho se juntaram mais uma vez para realizar o concurso Top Ten, versão 2015 (que bem poderia chamar Os 10 Mais), da 19º edição da Expovinis, a maior feira de vinhos da América Latina. O concurso reuniu profissionais, especialistas, jornalistas e um palpiteiro (este que vos escreve que participa pelo oitavo ano consecutivo) para provar vinhos às cegas de vários países e estilos e eleger os 10 melhores. Quem acompanha este blog sabe da lisura deste concurso e de como ele funciona. Para quem chega aqui pela primeira um rápida explicação (ou clique nos links distribuídos pelo texto). A tabela está logo abaixo, seguida das fichas dos vinhos

Top Ten como funciona

Os vinhos que concorrem na degustação do Top Ten da ExpoVinis são aqueles enviados pelos expositores/produtores. Não são exatamente os melhores vinhos da feira, nem é esta a pretensão. Concorre quem quer. Eles são divididos em uma dezena de tópicos. Em 2015 foram 125 amostras distribuídas entre as seguintes categorias: espumantes nacionais (16), espumantes importados (8), brancos importados (15), brancos nacionais (12), rosados (10), tintos nacionais (18), tintos novo mundo (13), tintos velho mundo I – Portugal e Espanha (11), tintos velho mundo II – França e Itália(15), fortificados e doces (7). As garrafas são cobertas, numeradas e avaliadas. As notas são registradas no sistema (é distribuído um iPad para cada jurado com usuário e senha), somadas e os melhores em cada categoria levam a medalha no peito e saem anunciando por aí. Justo ou não, trata-se de um julgamento coletivo, que é mais preciso que a nota de um só critico. Os jurados só conhecem os rótulos provados no momento da divulgação do resultado. Confesso que é até meio frustrante, a gente passa dois dias provando vinhos e sai de lá sem saber os rótulos que bebeu e quais foram os eleitos. Mas é a forma correta de fazer isso.

TOP TEN 2015 – Resultado  Final

1. ESPUMANTES NACIONAIS – Vencedor: Aracuri Brut Chardonnay 2014

2. ESPUMANTES IMPORTADOS  – Vencedor: Georges De La Chapelle Cuvee Nostalgie N/V

3.  BRANCOS NACIONAIS – Vencedor: Pericó Vigneto Sauvignon Blanc 2014

4. BRANCOS IMPORTADOS  – Vencedor: Casas Del Toqui Terroir Selection Sauvignon Blanc 2014

5. ROSADOS – Vencedor:  Saint Sidoine Côtes Du Provence Rosé 2014

6. TINTOS NACIONAIS  – Vencedor:  Valmarino Ano Xviii Cabernet Franc 2012

7. TINTOS NOVO MUNDO – Vencedor:  Renacer Malbec 2011

8. TINTOS VELHO MUNDO I (Espanha e Portugal) – Vencedor:  Pêra Grave Reserva Tinto 2011

9. TINTOS VELHO MUNDO II (Itália e França) – Vencedor:  Sangervasio A Sirio 2007

10. FORTIFICADOS E DOCES  – Vencedor:  José Maria da Fonseca Alambre Moscatel de Setúbal 20 Anos

PRÊMIO JOSÉ IVAN DOS SANTOS (vinho com a maior média, 93.5) – Vencedor:  José Maria da Fonseca Alambre Moscatel de Setúbal 20 Anos

ESPUMANTES NACIONAIS

Aracuri Brut Chardonnay 2014

País: Brasil

Região: Campos de Cima da Serra – Rio Grande do Sul

Uva: chardonnay

Produtor: Aracuri Vinhos Finos

Site: www.aracuri.com.br

Elaborado pelo método charmat (segunda fermentação em tanques de inox), usa apenas uva chardonnay. Na minha avaliação era aquele que apresentava maior toque de evolução entre os representantes das borbulhas nacionais.  Não é assim que o site da empresa define o vinho: “espumante elegante e refrescante de perlage fina e abundante. No aroma destacam-se as notas de damasco, raspas de limão e pão fresco. O paladar é envolvente e cremoso com acidez cativante.”. Mas é um bom sinal a  eleição de um blanc de blanc (espumante feito apenas com chardonnay) verde-amarelo.

espumantes

ESPUMANTES IMPORTADOS

Georges De La Chapelle Cuvee Nostalgie

País: França

Região: Champagne

Uvas: chardonnay (70%), pinot noir (15%), pinot meunier (15%)

Empresa: Sas Prat Champagne Georges De La Chapelle

Site: www.georgesdelachapelle.com

Existe uma clara tendência dos jurados eleger um espumante importado que mais chegue perto das características de um champagne tradicional, e não deu outra. Para começar pelo tradicional corte, com as uvas tradicionais da região. Bateu nas anotações dos jurados: cor dourada, aromas de frutas secas, um toque oxidativo e boa perlage. Este exemplar vem de vinhedos com mais de 40 anos e de uma mistura (cuvee) das safras de 2004, 2006 e 2008. Um belo champagne, sem dúvida. Afinal, não há espumante como um champagne…

BRANCOS NACIONAIS

Pericó Vigneto Sauvignon Blanc 2012

País: Brasil

Região: Altitude Catarinense – Santa Catarina

Uva: sauvignon blanc

Produtor: Vinícola Pericó Ltda

Site: www.vinicolaperico.com.br

E um vinho de altitude, de Santa Catarina, elevou o sauvignon blanc nacional para o topo da categoria dos brancos nacionais. Elegante, sem exagero de aromas, lembra frutas tropicais no nariz e na boca, no site oficial são descritos “melão, mamão papaia, casca de grapefruit e uma nota discreta de maracujá e de folha de tomate”  Eu não percebi tudo isso, mas um frescor marcante, com bela acidez e boa estrutura.

 BRANCO

BRANCOS IMPORTADOS

Casas Del Toqui Terroir Selection Sauvignon Blanc 2014

País: Chile

Região: Vale Leyda

Uva: sauvignon blanc

Produtor: Casas del Toqui

Site: www.casasdeltoqui.cl/cdt.html

Importador: Bodegas De Los Andes Comercio De Vinhos Ltda

Site: WWW.BODEGAS.COM.BR

O sommelier Hector Riquelme, sem saber quem era o vencedor, declarou que um “perfumista” havia vencido a categoria dos brancos importados. De fato, este sauvignon blanc é muito típico, e se destacam aromas de aspargos, arruda, herbáceo, na boca uma certa salinidade, boa estrutura e um final mais longo, acentuado pela mineralidade e ótima acidez. O  perfumista me conquistou.

ROSADOS

Saint Sidoine Côtes Du Provence Rosé 2014

País: França

Região: Provence

Uvas: grenache, cinsault, syrah, carignan, mourvedre, tibouren

Produtor: Cellier Saint Sidoine

Site: www.coste-brulade.fr

A cor em um rosé é elemento importante, ela seduz – ou não – de cara. Aqui um rosa pálido com reflexos de salmão davam pinta da região de Provence, confirmada no nariz mais cítrico, no frescor em boca provocado pela bela acidez que prolongava o prazer em boca. Ao contrário ao ano anterior, onde o painel dos rosados era bem fraco, este ano vários vinhos competiram em pé de igualdade pelo primeiro lugar. Prova de qualidade dos rosés, nem sempre reconhecida.

tintos

TINTOS NACIONAIS

Valmarino Ano XVIII Cabernet Franc 2014

País: Brasil

Região: Pinto Bandeira, Rio Grande do Sul

Uva: cabernet franc

Produtor: Vinícola Valmarino

Site: www.valmarino.com.br

Oba! Um cabernet franc 100% levou o melhor nacional tinto, recuperando o prestígio desta uva que já foi mais importante no Brasil (outro cabernet franc estava na disputa final). Tem a presença forte de madeira no nariz, e em seguida aparecem frutas negras, couro e chocolate. Na boca um tanino macio, uma boa fruta presente, com a madeira integrada, um final de qualidade. Este foi um vinho que foi melhorando na taça e que foi surpreendendo ao longo da prova e crescendo na pontuação (na minha, pelo menos).

TINTO NOVO MUNDO I – ARGENTINA E CHILE

Renacer Malbec 2011

País: Argentina

Região: Lujan de Cuyo, Mendoza

Uva: malbec

Produtor: Bodega Y Viñedos Renacer

Site: www.bodegarenacer.com.ar

A Argentina papou o prêmio do Novo Mundo com sua uva símbolo, a malbec. Os 24 meses em barricas francesas de primeiro uso e os seis meses de garrafa trouxeram aromas mais evoluídos de bala toffee e frutas negras. Não tem aquele floral exuberante, de violeta, que em excesso incomoda. De vinhedos de mais de 90 anos de idade, este malbec conquistou pela fruta em boca, tanino doce e suave e final mais longo. Infelizmente a categoria se  limitou a garrafas do Chile e da Argentina, o que limita um pouco o painel. Seriam bem-vindos tintos da Austrália, África do Sul, Estados Unidos…

tintosdecima

TINTO VELHO MUNDO II – ITÁLIA E FRANÇA

Sangervasio A Sirio 2007 IGT

País: Itália

Região: Toscana

Uvas: 95% sangiovese, 5% cabernet sauvignon

Produtor: Sangervasio

Site: www.sangervasio.com

Importador: Zahil

Site: www.zahil.com.br

O melhor tinto velho mundo é um velho conhecido dos apreciadores de tintos italianos. Há anos importado pela Zahil, já tem seu público cativo e me causou certa surpresa sua presença no Top Ten. A Sangervasio se define como um vinhedo biológico da Toscana. Este A Sirio IGT tem pinta de supertoscano e passa 14 meses em barricas (50% novas) e 2 anos em garrafas antes de encher sua taça. Isso provoca uma textura macia na predominante sangiovese, com um bom impacto de frutas, especiarias e corpo médio. Não se notam seus 8 anos de vida. Vai longe. Avanti Itália!

 

TINTO VELHO MUNDO – PORTUGAL E ESPANHA

Pêra Grave Reserva Tinto 2011

País: Portugal

Região: Alentejo, Évora

Uvas: syrah, touriga nacional e alicante bouchet

Produtora: Pêra Grave, Quinta de São José de Peramanca

Site: www.peragrave.pt

Representante: Luxury Drinks Portugal

Site: www.luxury-drinks.pt

Aprendo no site oficial da vinícola que ele é produzido na antiga quinta de Pêra Manca do séc. XIII até ao séc. XIX. Trata-se de um caldo potente, típico desta região mais quente de Portugal. Muita fruta negra no nariz e um toque floral da touriga nacional. Na boca a potência se confirma com as frutas mais maduras e com a passagem pelas barricas. Boa persistência final. Vinhão para quem curte caldos mais concentrados.

doces

DOCES E FORTIFICADOS

José Maria da Fonseca Alambre Moscatel de Setúbal 20 Anos

País: Portugal

Região: Península de Setúbal

Uva: 100% moscatel de Setúbal

Produtor: José Maria da Fonseca

Site: www.jmf.pt

Importador: Decanter Vinhos Finos

Site: www.decanter.com.br

Uauau!  Não é muito profissional começar uma descrição assim, mas eu repito: uauau!!! A cor âmbar com alguns reflexos esverdeados já dá a dica de coisa boa, os aromas em camadas longas e persistentes de nozes, caramelo, avelã, frutas cristalizadas aumentam a tensão, na boca a confirmação destes aromas acompanhada de uma belíssima acidez que quebra seu doce e mantém o prazer da bebida por minutos. José Maria da Fonseca (aquele do Periquita) é o mais antigo produto de Moscatel de Setúbal, um Denominação de Origem Controlada (D.O.C.), reconhecida desde 1907.Este Moscatel de Setúbal 20 anos é resultado de um lote de 19 colheitas em que a colheita mais nova tem pelo menos 20 anos e a mais antiga perto de 80 anos, O resultado é complexidade, elegância, longo final e um paladar de tirar o rolha.

O nomes dos culpados pela eleição dos onze vinhos acima

 O time dos homens que cospem vinho do Top Ten tem uma certa consistência. Os doze homens são divididos em dois grupos, cada qual com um presidente a quem compete resolver qualquer impasse. Fica a crítica da ausência de juradas mulheres, que hoje são parte importante da crítica de vinhos no Brasil e no mundo.

 Presidentes de mesa

Hector Riquelme – sommelier chileno

Mario Telles Jr –  ABS-SP

Jurados (em ordem alfabética)

Beto Gerosa – Blog do Vinho

Celito  Guerra – Embrapa

Jorge Carrara – Prazeres da Mesa

José Luis Borges – ABS São Paulo

José Maria Santana – jornalista e crítico de vinhos revista Gosto

José Luiz Paligliari – Senac

Manoel Beato – sommelier grupo Fasano

Marcio Pinto – consultor e ABS-MG

Ricardo Farias – Sbav Rio de Janeiro

Tiago Locatelli – sommellier Varanda

José Ivan dos Santos, o gentleman do vinho

José Ivan dos Santos: homenagem

José Ivan dos Santos: homenagem

Este ano o concurso Top Ten teve um trago amargo. A ausência de José Ivan dos Santos na coordenação do evento, sempre em dueto com o crítico e consultor Jorge Lucki. José Ivan, ou Zé Ivan, era um gentleman do vinho, um conhecedor que não botava banca, um aglutinador de pessoas e de uma simpatia contagiante.  Zé faleceu, repentinamente, há pouco mais de dois meses, com um livro pronto para ser lançado. Em homenagem ao Zé, este ano foi instituído um 11º prêmio no Top Ten, o Prêmio José Ivan dos Santos para o vinho com a melhor pontuação em todas as categorias. O prêmio especial será entregue ao inebriante José Maria da Fonseca Alambre Moscatel de Setúbal 20 Anos. Uma justa homenagem que o concurso presta ao amigo Zé – que tenho certeza ficaria feliz de se ver representado com este elegante caldo.

 

SERVIÇO

  • ExpoVinis Brasil 2015 | 19º Salão Internacional do Vinho
  • 22 a 24 de abril de 2015
  • Expo Center Norte – Pavilhão Azul – Vila Guilherme – São Paulo
  • Informações, credenciamento visitantes e novidades: www.expovinis.com.br
  • Facebook: ExpoVinis Brasil | Twitter: @expovinis | Instagram: @expovinisbrasil
  • E-mail: visitante.fev@informa.com | Telefone: (11) 3598-780

O primeiro dia do evento será reservado exclusivamente para profissionais do setor.

  • Horário: das 13 às 21 horas para profissionais do setor nos dias 22 e 23 de abril, e das 13 às 20 horas no dia 24 de abril. Aberto ao consumidor final das 17 às 21 horas no dia 23 e das 17 às 20 horas no dia 24 de abril.
  • Shuttle Service/Transfer gratuito no trajeto Expo Center Norte-Estação Portuguesa/Tietê e estação Portuguesa/Tietê-Expo Center Norte estará disponível todos os dias do evento.
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domingo, 1 de junho de 2014 Nacionais, Tintos, Velho Mundo | 21:28

Vinho nacional pode ser caro?

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Dez entre dez especialistas de vinho reconhecem que a qualidade dos vinhos brasileiros vem aumentando e – principalmente – se diversificando. Hoje temos experiências em diferentes regiões do país, e o mapa de produção inclui latitudes inimagináveis tempos atrás como Minas Gerais, Goiás e Pernambuco.  Santa Catarina, com seus vinhos de altitude, mostram caldos de valor, além é claro do Rio Grande do Sul, avançando cada vez mais para os terrenos mais próximos da fronteira com o Uruguai. Também há experiências com diferentes variedades de uvas, métodos, cultivos orgânicos, biodinâmicos, pequenas parcelas, produtores experimentais e diferentes concepções de espumantes.

Leia também:  Primeira Estrada: vinho fino de Minas Gerais abre caminho para rótulos do Sudeste do Brasil

Leia também: Conheça os vinhos do sertão de Amores Roubados

Dez entre dez especialistas também são unânimes em bater na mesma tecla. O preço. O vinho nacional é muito caro, dizem, e muitas vezes também digo. Seguido do preconceituoso axioma “Para um vinho nacional até que é bom”, junta-se o “Por este preço eu tomava um bom vinho italiano ou argentino”, por exemplo. Será que esta máxima é sempre válida? Então vou contar uma historinha recente.

Leia também: O Merlot brasileiro é o melhor do mundo?

Prova às cegas: nove homens e nove sangioveses

Prova às cegas: nove homens e nove sangioveses

Um grupo de degustação do mais alto gabarito do qual tenho a honra de participar promoveu recentemente uma prova às cegas – para quem é novo aqui eu explico, trata-se de uma degustação na qual os rótulos são revelados apenas no final, para não influenciar a avaliação – cujo tema era a uva italiana sangiovese. A sangiovese é a uva-símbolo da Toscana, responsável pelo vinho Chianti, Chianti Riserva, Chianti Classico, o Brunello di Montalcino e também parte da receita de alguns supertoscanos, onde a sangioveses é misturada às internacionais cabernet sauvignon ou merlot. A sangiovese é, enfim, uma  uva que fala italiano, e tem sotaque dos habitantes da Toscana!

Leia também: Galvão Bueno também torce pela Itália, pode isso Arnaldo?

Nove participantes marcaram presença e a mesa do restaurante escolhido exibia nove taças dos tintos na frente de cada degustador, para espanto dos demais clientes do estabelecimento que contornavam a mesa de olhos arregalados. O nível dos goles estava excepcional. Alguns caldos se destacavam dos demais,  eclipsando seus concorrentes, pois apresentavam maior talento para desenvolver aromas e sabores deliciosos, sempre escoltados por uma acidez característica. Alguns incautos arriscavam um palpite, este aqui trata-se de um Chianti, aquele tem uma pegada mais concentrada, pode ser um Brunello. E por aí vai. É um grupo que reveza comentários mundanos com pitacos sobre a bebida. Rodada de goles completa, anotações feitas, pontuação finalizada, os rótulos começam a ser revelados, dos menos apreciados aos mais votados.

Vale destacar que entre os bebedores sempre há um provocador que resolve levar um curinga, que geralmente é um vinho que obedece o critério do tema e/ou país e região mas é uma surpresa pelo preço, pelo produtor, pela região ou mesmo pela uva. Nosso grupo não foge à regra e um doutor renomado cumpre este papel. Dito isso, voltemos ao rótulos. O grande vencedor (as notas não foram todas compiladas) foi um Ceparello, Isole e Olena do ano 2000, um toscano mais evoluído, com grande expressão em boca e aromas muito elegantes.  A lista completa está abaixo.

  • Col D’Orcia, Brunello di Montalcino, 1991
  • Fontalloro, 2008, Toscana
  • Le Potazzine, Gorelli 2011, Rosso di Montalcino
  • Fonterutoli, Mazzei, 2009, Chianti Classico
  • Berandenga, 2008, Fèlsina, Chianti Classico
  • Badia a Passignano, 2008, Antinori, Chianti Classico
  • Cepparello 2009, Isole e Olena, IGT
  • Michelli, 2003, Villa Francioni, Brasil
  • Cepparello 2000, Isole e Olena, IGT
As garrafas devidamente esvaziadas. Oito italianos e um infiltrado brasileiro

As garrafas devidamente esvaziadas. Oito italianos e um infiltrado brasileiro

Leia também: Sob o sol da Toscana, uma visita à nova vinícola de Antinori

Se você leu a lista com atencão, já reparou uma intromissão. Pois é,  a grande surpresa, um dos vinhos que ficou entre o segundo e terceiro rótulos mais apreciados pelo coletivo, ombreado por outros sangiovese importados da Itália, foi o Michelli, da Villa Francioni, que apesar do nome é um tinto verde-amarelo de Santa Catarina. Surpresa na mesa (para ser honesto um dos integrantes da mesa não gostou do vinho). Confesso que foi meu segundo melhor vinho, entre as tais nove garrafas. Bom salientar que ele é 80% sangiovese, o restante cabernet sauvignon e merlot. Belo vinho, equilibrado, muito saboroso. Sangiovese brasileiro, mas com sotaque italiano. Bom pra caramba, belo!

Você pagaria mais de 250 reis por este vinho nacional?

Você pagaria  250 reis por este vinho nacional?

E 450 reais por este italiano?

E 450 reais por este vinho italiano da mesma uva sangiovese?

Diante da incredulidade de alguns veio a questão do preço: “mas quanto custa?” É um vinho de mais de 250 reais. O quêêêêê?!?! Um vinho nacional custando mais de 250 reais?!?!?! Pois é, mas às cegas foi elogiado por todos, bebido com rigor e prazer. O que nos  permite uma reflexão, que é mais uma provocação e nos remete ao título deste post: vinho nacional pode ser caro? Por que não? O que vale não é o teste da taça? Se é um vinho bom, de produção limitada, ótima qualidade, qual o problema de ser caro? Apenas por que é brasileiro? Se fosse italiano, de mesmo preço, portanto caro, não seria bom seguindo apenas um critério gustativo? Alguém iria reclamar do preço se o Michelli fosse um rótulo do Antinori? Basta comparar que o mesmo Cepparello Isole e Olena, este da safra de 2009, estava à mesa, custa 450 reais, e ficou atrás do Michelli…

Leia também: Angelo Gaja, o porta-voz do vinho de qualidade

Leia também: Espumantes e tintos – conheça os vinhos do sertão de Amores Roubados

Esta mesma discussão vale para vários bons exemplares nacionais de baixa produção, excepcional qualidade, que podem vir de pequenos e audaciosos  produtores como Marco Danielle, Era dos Ventos, Domínio Vicari ou mesmo grandes vinícolas, em safras excepcionais ou selos comemorativos. Não se trata de defender preços altos, nem de ter uma postura ingênua. Eu duvido que desembolsaria 250 reais pelo Michelli se não conhecesse, como raramente desembolso 250 reais por uma garrafa de vinho qualquer.  Há vinhos realmente muito caros pelo que oferecem: nacionais e importados. A questão é mais de poscionamento. Quando é bom e é importado então vale pagar caro? É bom, mas é nacional, então não vale? Qual a régua para medir a relação preço e qualidade: a bandeira ou o vinho? Fica aqui a provocação. Atire a primeira garrafa quem nunca parou para refletir sobre o assunto…

Leia também: Marco Danielle: da Tormenta ao Preludio

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terça-feira, 7 de janeiro de 2014 Nacionais | 21:46

Conheça os vinhedos onde foi gravada a minissérie Amores Roubados

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Isis Valverde (Antonia) e Murilo Benício (Jaime) passeiam pelas vinhas da ficítica Vieira Braga. Ela existe, e fica do Vale do Rio São Francisco

Isis Valverde (Antonia) e Murilo Benício (Jaime) passeiam pelas vinhas da ficítica Vieira Braga. Ela existe, chama-se ViniBrasil e fica do Vale do Rio São Francisco

Uma minissérie nacional da Globo gravada no Nordeste não chega a ser uma novidade. Aquele sotaque mezzo carioca mezzo bainês, sempre motivo de hashtags nas redes sociais, também não é surpresa. Novo é o núcleo da trama girar em torno de uma vinícola encravada no Vale do São Francisco.

Logo no primeiro capítulo parreiras, adegas e vinhos em profusão serviram de cenário para a história que tem como protagonistas Cauã Reymond (Leandro) e Isis Valverde (Antônia). Cauã faz o papel de um sommelier pegador e de raiz; Isis Valverde protagoniza a herdeira da vinícola que foi estudar o tema na Itália. O resto dos personagens gravita em torno do ambiente do vinho e do casal principal e as primeiras cenas e anúncios da TV dão a entender que a maioria do elenco feminino vai degustar o galã principal em algum momento da história.

Pode ser surpresa para muita gente uma vinícola em pleno Nordeste, às margens do Rio São Francisco. Mas este “terroir” especialíssimo do vinho brasileiro, localizado no paralelo 8,5 – completamente fora da zona onde o resto do mundo cultiva vinhedos, também chamado de nova latitude – já tem história. Em 1984 a Vinícola do Vale do São Francisco, que produz os rótulos Botticelli, iniciou a plantação de seus vinhedos no local e apostou no vinho regional. Juntaram-se a ela, anos mais tarde, o grupo Miolo (no ano 2000), que produz espumante Terra Nova, na Fazenda Ouro Verde e a ViniBrasil, que tem no Rio Sol seu maior porta-estandarte do Vale do São Francisco.

Os vinhedos da ViniBrasil: semi-árido, muito sol e irrigacão com as águas do Rio São Francisco. Duas safras por ano.

Os vinhedos da ViniBrasil: semi-árido, muito sol e irrigacão com as águas do Rio São Francisco.

A Globo escolheu como cenário para a fictícia vinícola Vieira Braga a Fazenda Santa Maria, onde o grupo português Global Wines/Dão Sul trabalha a marca ViniBrasil desde 2002 (assim o logo VB que por vezes aparece no fundo da cena não cria um problema de edição). O Rio Sol começou como uma parceria do proprietário da importadora Expand, Otávio Piva de Albuquerque, e este grupo português que é responsável por rótulos consagrados do lado de lá do Atlântico como Quinta do Cabriz, Casa do Santar, Herdade Monte de Cal. Em 2008, Piva saiu do negócio e os portugueses se tornaram os únicos donos da marca.

Localizada às margens do rio São Francisco e com mais de 200 hectares de vinhas onde são plantadas as uvas das castas internacionais como cabernet sauvignon e syrah, e as tipicamente portuguesas como touriga nacional, tinta roriz, tinto cão e vinhão, a ViniBrasil é uma vinícola com características que fazem enólogos e entendidos de todo o mundo reverem seus conceitos. Ali são elaboradas até duas safras e meia por ano, graças à maneira de irrigar os vinhedos (por gotejamento) e ao clima quente e seco e com muitas horas de exposição ao sol.

Seus espumantes são mais leves e fáceis que os concorrentes do sul do país, muitas vezes mais doces também, o mesmo pode-se dizer dos tintos, feitos para consumo rápido e com orientação para o mercado exportador. Mas a região também produz vinhos de mais alta gama, desafiando ainda mais o gosto dos entendidos que têm preconceito pelos vinhos da região.

O Rio Sol Cabernet Sauvignon e Syrah (ViniBrasil) e o Testardi Syrah (Miolo) já foram premiados pelo concurso Top Ten da Expovinis – a megafeira de vinhos anual de São Paulo – como melhores tintos nacionais, respectivamente nos anos de 2008 e 2012. Ou seja, submetidos a júri de especialistas atropelaram concorrentes de maior prestígio e preço.

Degustaçãoi às cegas literal da minissérie Amores Roubados. Agora toda mulherada quer participar de uma... com o Cauã Raymond, é claro

Degustação às cegas (literal) da minissérie Amores Roubados. Agora toda mulherada quer participar de uma… com o Cauã Reymond de sommelier, é claro

Se as cenas dos vinhedos causou alvoroço no mundo do vinho que viu na oportunidade uma maneira de valorização da bebida no país da cerveja os telespectadores talvez estejam mais tentados a experimentar uma degustação às cegas à la Amores Roubados, que deu o que falar.

No primeiro capítulo a degustação às cegas promovida pelo sommelier-pegador foi um tanto literal. Além de esconder o rótulo das garrafas (é só isso a degustação às cegas, ok?) os próprios participantes estavam vendados enquanto eram estimulados a descrever as sensações que o vinho proporcionava. O que abriu espaço para o personagem vivido por Cauã Reymond exercitar seus conhecimentos de textura com a fogosa personagem vivida pela atriz Dira Paes.

Enquanto os especialistas de vinho comemoravam o destaque dado ao tema na minissérie da Globo nas redes sociais, o público feminino preferia salientar em seus comentários as qualidades gustativas de Cauã e começavam a imaginar na rede degustações às cegas com a mesma pegada.

Eu, que participo há anos de degustações às cegas, agora tenho de explicar em casa que não é assim que acontece. Por mais que a minissérie ajude a imagem dos nossos tintos, brancos e espumantes, o vinho na ficção tem sempre um retrogosto diferente, né não?

 

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segunda-feira, 25 de novembro de 2013 Nacionais, ViG | 17:09

Os rótulos da Aurora: vinhos nacionais corretos, saborosos e acessíveis

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Há genéricas e preconceituosas maneiras de tratar o vinho nacional.

  • Vinho nacional é caro.
  • Vinho nacional é ruim.
  • Beber vinho nacional é brega.

Há também tendenciosas e paternalistas maneiras de tratar o vinho nacional.

  • Vinho nacional não deve nada a nenhuma região do mundo.
  • Espumante nacional é melhor que champanhe francês.
  • O merlot nacional é o melhor do mundo.
  • Vinho nacional só é caro por conta dos impostos.

E há aquela que a meu ver é a melhor maneira de tratar o vinho nacional: como vinho. Ponto. Ele pode ser bom, ruim, caro, barato, diferente, bem feito, horrível e até o melhor do que um vinho de outro país (melhor do mundo fica um pouco difícil pois a concorrência é dura), mas ele não tem defeitos nem qualidades apenas por sua origem.

Este recorte vale para os rótulos da Aurora. A Aurora é uma cooperativa que abriga mais de 1.100 famílias, produz 50 milhões de quilos de uva e toda a classe de fermentados, de vinhos finos com indicação de procedência a vinhos de Garrafão Sangue de Boi, passando pela linha de coolers, e espumantes bem elaborados.

Além da presença em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, também elabora projetos na região de Pinto Bandeira, a segunda região demarcada a conquistar Indicação de Procedência (IP) no Brasil. Pinto Bandeira está 730 metros do nível do mar e tem se revelado um ótimo terreno para cultivo da uva tinta pinot noir e da branca chardonnay, além de espumantes interessantes e estruturados.

A Aurora tem uma proposta que justifica uma degustação desprovida de preconceitos aos seus produtos. Vale o que está na taça. E a qualidade constante de sua linha de vinhos finos e boa relação custo e benefício de alguns rótulos da cooperativa fundada em 1930 provam que é possível sim produzir vinhos de volume, com uma boa expressão de fruta, simples mas gostosos e com uma proposta de atender diversas faixas de consumidores.

 

O Blog do Vinho provou as safras mais recentes da Aurora e  destaca os seguintes rótulos:

Espumante Brut chardonnay

  • Aurora Brut Chardonnay

100% chardonnay

Um espumante de respeito, longo na boca, tem um toque tostado (o vinho-base passa 3 meses em carvalho francês antes da segunda fermentação) tem boa acidez e é gastronômico.

R$ 35,00*

Varietal Pinot Noir 2012

  • Aurora Varietal Pinot Noir

100% pinot noir

Pinot noir é uma uva difícil, classuda e sempre associada a grandes rótulos. Mas pode ser também uma bebida muito leve, fresca, descompromissada, como este varietal (vinho feito com uma só uva) descomplicado e límpido.

R$ 18,00*

 Aurora Reserva Cabernet Sauvignon

  • Aurora Reserva Cabernet Sauvignon 2012

100% cabernet sauvignon

Não espere aquele cabernet sauvignon muito potente, quase doce que chega do Chile e Argentina. Este cabernet é um vinho correto, com boa fruta, com pequena presença de madeira, bem gostoso. Sua baixa gradação alcoólica (12,5%) torna o vinho mais versátil na gastronomia. O melhor da linha reserva, na minha minha opinião.

R$ 25,00*

 

Aurora Chardonnay Pinto Bandeira 2011

  • Aurora Pinto Bandeira Chardonnay 2012

100% chardonnay

Trata-se de uma aposta na qualificação da Aurora. Devidamente etiquetado com o selo de “indicação de procedência” da região de Pinto Bandeira, a safra 2012 deste chardonnay tem um upgrade em relação à safra de 2011, que achei excessiva na madeira. Aqui o caldo é mais refinado e complexo, a fruta mais fresca e ampla, a sensação untuosa e amanteigada complementa o vinho e não sobrepõe a ele. Na temperatura certa, não muito gelado, chegam os aromas legais de flores, baunilha.(O rótulo da imagem é o de 2011)

R$ 38,00*

 

Aurora Pinot Noir Pinto Bandeira Alta

  • Aurora Pinto Bandeira Pinot Noir 2013

100% pinot noir

Aqui vale uma curiosa comparação entre a linha varietal – mais básica. Enquanto na varietal o caldo não cobra muita atenção e é até ligeiro na passagem pela boca, aqui se busca mais complexidade de aromas, maior persistência. Este pinot noir de fato chama mais atenção e apresenta características mais esperadas da uva, um toque terroso, um floral perceptível e um finalzinho de especiarias. Bem gostoso e honesto – não tenta ser um pinot noir da Borgonha, da Nova Zelândia e nem do Chile. Mas a expressão do que a região de Pinto Bandeira começa a oferecer para esta variedade. E com um bom preço. (O rótulo da imagem é o de 2012)

R$ 38,00*

 Pequenas Partilhas Cabernet Franc 2009

  • Pequenas Partilhas Cabernet Franc 2011 

100% cabernet franc

Quem acompanha este blog já topou com alguma indicação deste vinho, talvez o meu preferido da linha da Aurora. Não é engarrafado em todas as safras, apenas naquelas que a uva atinge a maturação e qualidade indicadas. A cabernet franc é uma uva que amadurece mais cedo – o que é uma vantagem numa região, como Bento Gonçalves, de chuvas constantes na época da colheita.Tem uma cor bem intensa, escura. Os seis meses de passagem em barricas de carvalho francês e americano dão fortaleza aos aromas e sabor, onde se destaca uma fruta mais escura, a baunilha e uma consistência macia e agradável. Vai bem com pratos de molho de funghi. (O rótulo da imagem é o de 2009)

R$  38,00*

Millesime 2009

  • Aurora Millésime Cabernet Sauvignon 2009

100% cabernet sauvignon

Esta é a sexta safra do Millésime, também um extrato só fermentado em anos considerados de excelência. A linha premium da Aurora é, comparada aos vinhos de mais alta gama do mercado nacional, uma boa relação de preço e qualidade. Envelhecido 12 meses em barricas francesas e americanas apresenta aquele pacote todo de aromas e paladar: um chocolate, especiarias e frutas mais escuras. Um caldo mais encorpado e bem estruturado que sugere acompanhar carnes com gordura e queijos duros.

R$ 55,00*

* preços médios sugeridos ao consumidor final pela vinícola 

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segunda-feira, 27 de maio de 2013 Nacionais | 10:44

Primeira Estrada: vinho fino de Minas Gerais abre caminho para rótulos do Sudeste do Brasil

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“Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães”

Grande Sertão Veredas, Guimarães Rosa

Igreja Matriz de Santo Antônio, em Tiradentes

O senhor já ouviu falar de vinho de Minas Gerais, “de assim não-ouvir ou ouvir?” Já provou um vinho de Minas Gerais? “O senhor ri certas risadas…”.

Uma das principais notícias do mundo do vinho verde-amarelo não vem do Sul do país, muito menos do Nordeste, que já quebrou há tempos o paradigma ao  plantar e colher uvas viníferas e produzir tintos, brancos e espumantes fora da região entre os paralelos 30 a 50.

A novidade vem de Minas Gerais, mais precisamente da região de Três Corações, no Sul do estado, conhecida por estar encravada no polo turístico da Estrada Real – que percorre as cidades históricas de Tiradentes e Ouro Preto.

Mas um vinho de Minas? É. “Sofro pena de contar não…” Pois é, o vinho regional está abrindo suas fronteiras, com apoio da pesquisa e da tecnologia. Trata-se do Primeira Estrada Syrah 2010, produzido nas montanhas, em altitude que varia de 900 a 1000 metros,  pela Vinícola Estrada Real. O rótulo, para não deixar dúvida da origem da garrafa, exibe a imagem da Igreja Matriz de Santo Antônio, em Tiradentes.

E me inventei neste gosto, de especular ideia”

Murillo de Albuquerque Regina, um mineiro especialista em viticultura com PhD em Bordeaux, sempre ouvia em sua formação acadêmica, na França, que nas melhores regiões vitícolas mundiais o clima no período que antecede a colheita é caracterizado por dias ensolarados e noites frias, acompanhados de solo seco. Uma pensamento não saía de sua cabeça: “É exatamente o que acontece na minha terra em maio, junho e julho, se eu quiser obter uma boa uva para vinho eu tenho de inverter o ciclo das plantas”.

No final do século passado, numa confraria em que degustava alguns exemplares de Bordeaux, Murillo conversava com seu grupo sobre  a influência do clima nestes vinhos de alto padrão e a característica do período de colheita coincidir com o período de tempo mais seco.  O médico Marcos Arruda Vieira, que também é proprietário da Fazenda da Fé, perguntou;

“Dá para fazer um vinho desses em Três Corações?”

“Sim”, afirmou Murillo, “desde que a colheita da uva seja a partir de julho. Precisamos inverter o ciclo de maturação da uvas, enganando a parreira.”

“Mas isso é possível?”, insistiu Marcos Arruda

“O que precisa é de um maluco para apostar neste projeto”, desafiou Murillo.

E assim surgiu a ideia do primeiro vinho fino mineiro, com a união de dois malucos e um desejo: produzir um vinho fino de qualidade na região. A proposta foi materializada, anos depois, com a criação da Vinícola Estrada Real, que tem como sócios, além de Marcos Arruda e Murillo de Albuquerque Regina os franceses Patrick Arsicaud e Thibaud de Salettes, que participam junto com Murillo da empresa de clones de mudas viníferas Vitacea Brasil.

“De dia, é um horror de quente, mas para a noitinha refresca, e de madrugada se  escorropicha o frio, o senhor isto sabe”

O conceito da inversão do ciclo da planta baseia-se na seguinte constatação de Murillo: o grande déficit dos vinhedos tradicionais do Brasil é que chove no momento da colheita, com isso o vinho não tem corpo, a acidez é elevada e a colheita tem de ser antecipada. “É isso que ocorre com  as videiras no Sul e no Sudeste”, argumenta.

Em 2001 a Epamig (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais), tendo Murillo Regina à frente,  deu início aos estudos sobre a técnica da poda invertida em Três Corações com o objetivo de corrigir este processo e tapear a planta. Foi desenvolvida então a técnica de dupla poda para as videiras viníferas mineiras. Uma poda é feita em agosto e outra em janeiro. Com a segunda  poda, em janeiro, o ciclo recomeça e a planta floresce em abril e maio e as uvas são colhidas no final de julho, início de agosto.

Ou seja, na época da colheita os dias são ensolarados (até 27º), as noites mais frias (cerca de 10º) e a amplitude térmica, que é a diferença do dia e da noite, chega a 15 e 17º. “É como se as uvas no inverno dormissem num quarto com ar condicionado, e permanecessem fresquinhas, enquanto as uvas que maturam no verão repousam num quarto quente, transpirando e perdendo elementos da fruta importantes na extração do vinho”, compara Murillo.

Todo ano é necessário fazer as duas podas, os ciclos das parreiras são sempre de 180 dias. Nos lugares frios da Europa ou mesmo do Brasil não existe a necessidade da dupla poda pois o frio impede o florescimento das plantas no inverno, ainda segundo o pesquisador.

Outra característica importante para o sucesso da empreitada: o regime de penúria hídrica, a popular escassez água, que faz com que a planta envie sinais para as raízes e folhas de que vai faltar água e afetar o seu filho (as sementes encapsuladas nos bagos das uvas). Assim a planta protege as uvas, produzindo frutos melhores.

A syrah foi a uva que melhor se adaptou ao esquema de dupla poda e às pesquisas realizadas. Foram plantadas 10 hectares desta variedade na Fazenda da Fé. Estão em testes de adaptação ao processo de poda invertida outras uvas tintas na região, como a cabernet sauvignon, a malbec, a petit verdot e a tempranillo.

“Passarinho que se debruça – o vôo já está pronto”

“O sudeste é a nova fronteira do vinho fino do Brasil”, aposta Murillo, citando outros empreendimentos que estão aguardando aprovação para lançar suas garrafas no mercado ou em fase de experimentação. Ele cita projetos em Espírito Santo do Pinhal, Três Pontas, Varginha e Itubi e empreendimentos no estado de São Paulo.

Os planos da Vinícola Estrada Real é chegar  2016 com uma produção de 35.000 a 40.000 garrafas por ano. As 10.000 garrafas atuais de syrah devem dobrar de produção até lá.

Três hectares de chardonnay fornecerão matéria-prima para a elaboração de um blanc de blanc extra brut que passará 24 meses em contato com as leveduras – e aqui não existe a necessidade de alterar o ciclo das vinhas. Além disso devem ser lançados 6.000 garrafas de sauvignon blanc e mais 4.000 de rosé de Syrah.

Esta nova fronteira tem um público-alvo. Os turistas das cidades históricas mineiras, que poderão combinar a gastronomia local com o vinho da região e o próprio Sudeste. O maior mercado atual do Primeira Estrada é o Rio de Janeiro

“Sentei em mesa com o Neco, bebi vinho, almocei…’’ “Sua alta opinião compõe minha valia”

Provar um vinho de uma região nova e sem tradição vinícola pode despertar tanto curiosidade como preconceito. Por isso levei uma garrafa de Primeira Estrada coberta por papel alumínio e dividi entre um grupo de uma confraria.

Taça cheia, pedi a opinião de todos. Era também meu primeiro contato com o vinho.

Meio desconfiados todos trataram de girar a taça, enfiar o nariz e jogar o vinho para a boca. “O que é?”, perguntavam. “Mostro no final”, mantinha o suspense. E então aquele grupo que está acostumado a beber do bom e do melhor, e tem um vasto repertório, foi unânime em afirmar no primeiro contato que era um vinho agradável, sem defeitos. Prometia mais nos aromas do que entregava na boca, mas tinha como bom destaque a acidez. Ninguém conseguiu identificar a uva, vários países foram sugeridos, incluindo o Brasil.

Aí eu mostrei o rótulo, que foi comemorado pelo ineditismo – enófilos adoram novidades –  e continuamos provando o Primeira Estrada junto a outros rótulos de vários países, sem preconceitos.

Na opinião do Blog do Vinho, Primeira Estrada Syrah 2010 é uma boa surpresa, guardei em casa um tanto que sobrou na garrafa e provei mais tarde. Concordo com meus colegas que o nariz mostra uma superioridade em relação à boca que tem um primeiro impacto mais diluído. O final de boca, no entanto, revela uma fruta mais persistente e um toque de especiarias típica da syrah, mas não tão evidente assim que identifique a uva. A boa acidez é um destaque positivo que equilibra bem o álcool. O caldo repousou 1 ano em barricas novas francesas (70%) e americanas (30%). Outro um ano o vinho passou depurando na garrafa. O que revela todo um cuidado na elaboração desta primeira safra. Vinho mineiro, comida idem. Acompanhou com respeito uma linguicinha na grelha.

Segundo Murillo a safra de 2011 terá um salto do teor alcoólico de 13,5 para 15º. E antes que os apóstolos do teor alcóolico mais baixo se manifestem, ele garante que a elevada acidez da uva equilibra estes extremos.

“Tudo é e não é”

Mas aí tem de comentar o preço. O calcanhar-de-aquiles de toda experiência inovadora ou de qualidade do vinho nacional. Um discussão que por si só renderia uma centena de posts.

O Primeira Estrada Syrah 2010 é vendido ao consumidor final a 78 reais a garrafa – em um restaurante deve passar da casa dos 100 reais.

Mas por este valor não se encontram vários rótulos nacionais,  argentinos, chilenos e mesmo portugueses de qualidade comprovada e maior tradição?

Sim.

Mas nenhum deles é produzido em Minas Gerais, uai.

Primeira Estrada Syrah 2010

Produtor: Vinícola Estrada Real

Região: Fazenda da Fé, Três Corações, Minas Gerais

Produção: 10.000 garrafas

Álcool: 13,5º

Preço: R$ 78,00

“Viver é perigoso”

Obs: todas as aspas citadas neste texto foram extraídas do romance Grande Sertão: Veredas, do escritor mineiro Guimarães Rosa.

Obs2: antes que algum literato aponte a contradição, este colunista tem noção que a história de Riobaldo e Diadorim não transcorre na região de Três Corações, e sim no Norte de Minas Gerais.


Uma homenagem

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quinta-feira, 22 de março de 2012 Nacionais | 14:55

A salvaguarda azedou o mundo do vinho e deve aumentar o preço do importado. Saiba por quê

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A diversidade de rótulos de todo o mundo está ameaçada pela salvaguarda do vinho nacional?

Antes mesmo de aprovada, a salvaguarda do vinho nacional já fez sua primeira vítima: o mundo do vinho brasileiro. Se antes os vinicultores nacionais, os importadores e os profissionais do ramo batalhavam  por um objetivo comum, a cultura do vinho e o crescimento do consumo da bebida, agora guerreiam em campos opostos nas redes sociais, na mídia e nos corredores do governo.

De um lado os produtores nacionais que lançam propostas protecionistas para poder “concorrer em igualdades de condições aos demais partícipes do mercado”; na outra trincheira importadores, profissionais do ramo e principalmente os críticos e especialistas, que estão se insurgindo contra medidas restritivas consideradas um tiro no pé do consumo da bebida – nacional e importada – no país.

Taninos agressivos

A polêmica já produziu casos lamentáveis e o surgimento de patrulhas ideológicas de Baco. Os nacionalistas defendendo o mercado para os rótulos nacionais e acusando críticos de favorecer as importadoras e os especialistas propondo um boicote ao vinho brasileiro. O jornalista e crítico Luiz Horta publicou em sua página no suplemento Paladar, no jornal O Estado de S. Paulo um texto sobre a qualidade do vinho produzido no Vale dos Vinhedos, coincidentemente na mesma semana que estourou a publicação da salvaguarda no Diário Oficial, e foi acusado de ter publicado matéria paga (a propósito, Horta  publicou um artigo contrário ao aumento de impostos). A sommelier Alexandra Corvo, contrária à salvaguarda, foi atacada em sua página do Facebook, com comentários agressivos aparentemente gerados por um perfil falso. Renomados especialistas, como o médico e vice-presidente da ABS (Associação Brasileira de Sommeliers), Mario Teles, que incentivou há vinte anos a qualificação do vinho fino no Brasil, decretou um possível boicote ao vinho nacional caso a medida seja aprovada. Outras seções da ABS espalhadas pelo país soltaram manifestos em desagravo às medidas. A chef Roberta Sudbrack, proprietária do restaurante homônimo, retirou de sua carta de vinho as vinícolas que apoiaram a salvaguarda, como Casa Valduga e Dal Pizzol. E publicou na sua página do Facebook. Também na rede social o colunista Didu Russo, que sempre se posiciona sobre assuntos relativos ao vinho, foi acusado de cobrar por notas. Por fim, blogs e páginas pessoais colocaram uma lente de aumento no tema, e um abaixo-assinado Não ao aumento do imposto de importação para vinhos circulou na rede.

Mas afinal do que se tratam estas medidas protecionistas? Qual o objetivo e as consequências da salvaguarda ao vinho nacional para o mercado e principalmente para o consumidor?

Três medidas protecionistas

Dilma Roussef: práticas comerciais “assimétricas e danosas”

Salvaguarda – A mais recente medida de proteção ao vinho fino nacional, publicada no Diário Oficial no último dia 15 de março estabelece a abertura de uma investigação para aplicação de salvaguarda às importações de vinhos do Brasil. A salvaguarda é um instrumento previsto pela legislação federal e reconhecido pela OMC que tem por objetivo proteger um setor que esteja sofrendo prejuízo ou ameaça grave de prejuízo decorrente do aumento das importações. O documento foi elaborado pela Secex, Secretaria do Comércio Exterior, ligado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (leia aqui na íntegra). Um detalhe curioso. Atualmente no Brasil apenas a salvaguarda do coco ralado (que encerra em 2012) está em atividade. O coco ralado, e o vinho nacional, “é coisa nossa…”

Se as medidas forem aplicadas – há um prazo de 40 dias de investigação estipulado pelo documento -, o vinho importado pode ser penalizado com um  aumento de taxas ou ter seu volume limitado nos próximos anos por uma política de cotas para cada país. A medida das cotas é mais ampla pois atinge em cheio os tintos e brancos do Chile, que devido ao benefício concedido por um acordo de complementação econômica teve suas taxas de importação reduzidas de 22,4% em 2006 a 0% em 2010. Vale observar que esta diminuição não foi refletida necessariamente na redução dos preços ao consumidor e alguém ficou com esse lucro adicional…

Tarifa Externa Comum  TEC – Mas esta não é a única barreira que os importados estão enfrentando este ano. As entidades que representam os produtores de vinho brasileiro também solicitaram a manutenção da Lista de Exceção à Tarifa Externa Comum  TEC/Mercosul, com um aumento nos porcentuais existentes. Champanhes, espumantes e vinhos fortificados que são taxados a 20%, passariam a pagar 35%. Vinhos finos que hoje já pagam um imposto de importação de parrudos 27% passariam para 55% (o máximo permitido pela OMC). Vale lembrar que o objeto da salvaguarda diz respeito apenas a vinhos finos, aqui o laço é mais amplo e se estende a espumantes e vinhos fortificados.

Alteração de rótulo – Para completar o quadro, também está em curso a exigência de adaptação dos rótulos das garrafas gringas a uma norma verde-amarela, com informações que não constam das etiquetas originais, como por exemplo a inscrição “vinho fino”. Levante a mão quem acreditar que vinhos mais qualificados e de baixa produção da Europa vão alterar seu rótulo apenas para satisfazer o mercado brasileiro…

A reação dos importadores e especialistas

Ciro Lilla, presidente das importadoras Mistral e Vinci

“O amante do vinho precisa reagir contra essa situação. Ou teremos todos que aceitar uma volta ao Brasil de 20 anos atrás, antes da abertura do mercado, com limitação da diversidade”, alerta Ciro Lilla, presidente das importadoras Mistral e Vinci.

Está previsto no processo de investigação “a oportunidade de apresentação de dados e argumentação não apenas aos representantes da indústria doméstica, mas também a outras partes interessadas (exportadores, importadores, etc.)”. Representando o lado dos importadores e comerciantes, três associações Abrabe (Associação Brasileira de Bebidas), Abba (Associação Brasileira dos Importadores e Exportadores de Bebidas e Alimento) e Abras (Associação Brasileira de Supermercados) se uniram para apresentar sua defesa e já constituíram advogados para defender a comercialização do vinho importado. “Mas temos apenas 40 dias corridos, a partir do dia 15 de março para apresentar nossos argumentos”, comenta Lilla, em nome destas três associações.

“Se a decisão for técnica, a salvaguarda não será implantada do jeito que está sendo pedida, mas receio que a decisão será política”, lamenta Jorge Lucki, um dos mais conhecidos e respeitados críticos de vinho do país e colunista do jornal Valor Econômico. Vale ressaltar que a salvaguarda contou com um discurso favorável da presidenta Dilma Roussef durante visita à Festa da Uva de Caxias do Sul, em fevereiro. Dilma prometeu tomar providências previstas pela Organização Mundial do Comércio (OMC) contra práticas comerciais “assimétricas e danosas” à indústria nacional. Os produtores contam ainda com o apoio do  governador eleito pelo PT, Tarso Genro, do Rio Grande do Sul, que se empenha em convencer o governo a adotar as barreiras de olho no seu eleitorado, como adiantou nota do Poder Econômico de 7 de fevereiro.

Além das medidas legais, os importadores e comerciantes apostam na reação dos consumidores. Ciro Lilla puxa o cordão dos descontentes e além das conversas que mantém com os jornalistas, distribuiu uma carta aos seus clientes reclamando da “proteção sem limites ao vinho nacional” . Ao Blog do Vinho Lilla apontou problemas nos números apresentados na circular da salvaguarda. Cita como exemplo o aumento de 27% no total de importações de 2009 para 2010 uma das justificativas dos produtores e do governo para a adoção das medidas restritivas. “O que não se diz ali é que este crescimento se deu pela antecipação de importação no segundo semestre de 2010 por conta da adoção do selo fiscal em todas as garrafas de vinho fino comercializadas no Brasil.” Ou seja, foi uma reação a implementação da obrigatoriedade do selo (leia post sobre Selo do Vinho), outra briga encampada pelos produtores nacionais

Ciro Lilla também estranha que um setor, como o dos vinhos finos nacionais, que cresceu cerca de 7% em 2011, esteja pleiteando proteção. “Se forem adotadas salvaguardas para um setor que cresceu o triplo do PIB em 2011, que medidas de proteção se poderia esperar então para o restante da economia?”, provoca.

Quanto à modificação dos rótulos, outro profundo conhecedor de vinhos e do mercado, José Osvaldo Amarante, autor do livro Os Segredos do Vinho, garante que se trata de um “tiro no pé”. Os vinhos caros, que não são concorrentes do vinho nacional, vão sair do mercado dada a impossibilidade de alterar a impressão dos rótulos. Já os vinhos de grande volume – mais baratos, e portanto concorrentes dos vinhos nacionais – conseguem se adaptar as novas regras e não serão atingidos pela medida.

A redução da oferta onera não só o consumidor, que provavelmente vai buscar outros caminhos para conseguir sua garrafa, mas a própria cultura do vinho no país. Em recente entrevista à revista Gosto, Lucindo Copat,  diretor técnico e enólogo da vinícola gaúcha Salton, uma das empresas apoiadoras do instrumento da salvaguarda, demonstrou a influência dos importados para a melhoria do vinho nacional: “O vinho brasileiro atingiu o seu melhor nível de qualidade desde que se iniciou o desenvolvimento de produtos de classe. Isso se deve aos novos vinhedos e à tecnologia incorporada e também foi provocada pela concorrência com os bons vinhos importados”.

“Esta atitude vai impedir o desenvolvimento da nossa indústria do vinho a longo prazo”, alerta Dirceu Vianna Junior, o único brasileiro com o título de Master of Wine e que realizou uma ampla pesquisa de campo entre os produtores nacionais ” e foi responsável pela prova em Londres em que o merlot nacional foi destaque. “Apesar dos esforços de marketing para fazer o consumidor acreditar que os vinhos brasileiros são excelentes, eles não são. Melhorias estão sendo implementadas nos últimos anos, mas há muito trabalho ainda a ser realizado”, constata. “Tenho receio que estas barreiras desanimem os produtores de avançar nas melhorias necessárias.”

Para Dirceu estas barreiras vão diminuir o ritmo de evolução do mercado do vinho no Brasil e favorecer a indústria da cerveja, por exemplo, que tem uma legislação mais amigável. “O consumidor vai abandonar o vinho e partir para outro tipo de bebida”, adverte. “É uma ilusão achar que encarecendo o vinho importado o consumidor vai substituí-lo automaticamente pelo vinho nacional”, reforça Lilla.

A visão dos produtores

Carlos Raimundo Paviani, diretor-executivo do Ibravin,

Os produtores nacionais, representados pelo Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), pela União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), pela Federação das Cooperativas do Vinho (Fecovinho) e pelo Sindicato da Indústria do Vinho do Estado do Rio Grande do Sul (Sindivinho), justificam a medida protecionista como forma de garantir igualdade de condições de participação no crescimento do consumo de vinhos finos, tomadas por uma invasão dos importados e concorrência desleal”, e assim garantir o sustento de cerca de 15.000 famílias da cadeia produtiva ligada a esta agroindústria.

“Em 2005, a fatia era de 63,1% e desde lá até 2011 as vendas dos importados saltaram de 37,5 milhões para 72,7 milhões de litros, enquanto o produto nacional recuou de 21,9 milhões para 19,5 milhões de litros”, argumenta o diretor-executivo do Ibravin, Carlos Paviani.

Um dos principais argumentos contidos no documento que estabelece a investigação da salvaguarda é o comportamento das importações de 2010, resultado da crise internacional que propiciou uma queda de renda no bloco dos países consumidores de vinho e consequente aumento de estoques nos países produtores que se viram forçados a desová-los a qualquer preço em países menos afetados pela crise, como o Brasil.

“Dos 91,9 milhões de litros de vinhos finos comercializados em 2011, apenas 21,2% destes são nacionais”, compara Paviani. “O que se espera são medidas temporárias e transitórias que permitam o reequilíbrio do mercado, tais como as cotas – que a União Europeia aplica a inúmeros produtos brasileiros”, complementa. “Todos queremos que o mercado brasileiro de vinhos cresça, apenas estamos buscando garantir que o vinho nacional não desapareça desse mercado”, contrapõe Paviani aos argumentos dos importadores.

“Não temos por objetivo o aumento de impostos! Não pedimos isso”, declarou Paviani ao Blog do Vinho. De fato a salvaguarda só pode determinar uma ação. Ou o aumento de taxas, ou o estabelecimento de cotas. E não está definida. Mas a questão da extensão da TEC, entretanto, trata justamente de um crescimento de impostos, o que contradiz esta afirmação.

Quanto às alterações dos rótulos, Paviani reclama o mesmo tratamento exigido ao vinho nacional. “O vinho elaborado no Brasil tem a obrigação de colocar no rótulo principal um conjunto de informações. Queremos apenas as mesmas regras para todos os vinhos.”

Paviani lembra que a adoção da medida exige uma contrapartida de investimentos do governo. “A salvaguarda não é uma dádiva, pois o setor terá de implantar medidas de ajuste, principalmente estruturantes, ou seja com investimentos, que o auxilie a tornar-se mais competitivo.”

Não seria melhor uma redução tributária?

Ciro Lilla defende uma agenda positiva para o vinho no Brasil como um todo. “Precisamos lutar juntos para que o vinho obtenha o tratamento tributário de um complemento alimentar — como em diversos países da Europa — e não um tratamento punitivo com ocorre aqui, onde o ICMS pago pelo vinho é o mesmo pago por uma arma de fogo!”

Paviani reforça esta tese, mas sob o ponto de vista da produção nacional. “ Estamos trabalhando pela redução de tributos há pelo menos uma década. Graças a estes esforços pelo menos no Rio Grande do Sul temos um ICMS reduzido, mas outros estados não compreendem nossos pleitos”, lamenta.

O Ibravin reclama ainda da guerra fiscal entre os portos e cobra uma posição dos importadores. “Precisamos que se acabe essa guerra fiscal, essa guerra de portos e efetivamente as alíquotas sobre o vinho possam ser diminuídas. Por que os importadores de São Paulo não reclamam das isenções de Santa Catarina e do Espírito Santo? Precisamos de uma atuação conjunta.”

Vale registrar que alguns pequenos produtores do Rio Grande do Sul são contrários à salvaguarda e não assinam embaixo do documento.

Salton retira apoio à salvaguarda

Atualização 23h11: A assessoria de imprensa da Vinícola Salton soltou o seguinte comunicado se posicionando sobre a salvaguarda, que como foi demonstrada acima é parte do problema.

A Vinícola Salton esclarece que são as entidades representativas do setor, Ibravin, Uvibra, Fecovinho e Sindivinho que estão à frente do movimento para salvaguardas dos vinhos nacionais. A Salton, compreendendo que estas medidas podem restringir o livre arbítrio de seus consumidores, encaminhou ao Ibravin um documento informando que não apoiará a causa. Reforçamos ainda que a Salton, uma empresa centenária e brasileira, se preocupa muito com seus clientes e consumidores e que busca constantemente o melhoramento de seus processos e produtos, por meio de investimentos em novas tecnologias e programas de qualidade, para concorrer, de forma justa, com produtos nacionais e importados.

O tamanho do mercado de vinhos no Brasil

O que está em jogo é qual fatia do mercado cabe a cada player deste jogo. A jornalista especializada em vinhos, Suzana Barelli, editora da revista Menu, publicou uma reportagem na IstoÉ Dinheiro, que mostra a composição do mercado total de vinhos no Brasil, incluindo vinhos finos, vinhos de mesa e espumantes. Os dados são do Ibravin. E mostram que de cada 5 garrafas de vinho consumidas no Brasil, entre vinhos finos, espumantes e vinhos produzidos com uvas de mesa, quase 4 (77.4%) já são de vinhos brasileiros

VINHOS FINOS

Importados – 72,7 milhões de litros  = 78,80%

Nacionais – 19,5 milhões de litros = 21%

VINHOS FINOS + VINHOS DE MESA + ESPUMANTES

Nacionais – 265,3 milhões de litros = 77,40%

Importados – 77,6 milhões de litros = 22,60%

Quem paga o pato

O resultado óbvio de todas estas medidas é o aumento no preço das garrafas ao consumidor, seja por conta de uma mordida maior nas taxas de importação (calcula-se um impacto entre 20% e 23% no preço da garrafa) seja pela redução de oferta estabelecida pelo controle de cotas. Noves fora: se o vinho já era caro nas lojas e caríssimo nos restaurantes, vai pesar ainda mais no bolso. A outra consequência será a diminuição de opções de rótulos, principalmente das pequenas produções importadas que não conseguirão se adaptar às normas dos rótulos ou vão ficar inacessíveis ao consumidor. O pior de tudo é que estas medidas não vão necessariamente aumentar a fatia de consumo do vinho fino nacional. Aqueles rótulos de boa qualidade que conquistaram mercado pela meritocracia costumam ter sua comercialização garantida e não têm capacidade de crescer em volume de uma hora para a outra. Quem pago o pato, portanto, somos nós, os consumidores e amantes do vinho.

Houston, temos problemas. De fato os importados invadiram nossa praia, mas o consumo cresceu no todo e isso é bom para todo o ciclo do vinho. O Brasil domina o mercado de vinhos de mesa e dos espumantes, que têm qualificação reconhecida. Perde feio em relação aos vinhos finos, onde também avança na elaboração de melhores uvas, investimentos em tecnologia, etc. Se a questão é abrir espaço no mercado, negociações com distribuidores, reduções ficais e outros temas poderiam fazer parte da abordagem. O problema é em pleno ano 2012 apelar-se para a tutela do Estado tentando obrigar o consumidor a escolher o tinto e branco nacionais por asfixia na oferta de importados. O Brasil já passou desta fase, e melhorou muito com o fim das barreiras.

O vinho de amanhã pode ser um retrato da informática dos anos 80. Quem tem mais de 30 anos se lembra das restrições ao computadores importados e suas nefastas consequências. A lei de reserva de informática teve apoio dos setores nacionais e atrasou o país em alguns anos na sua evolução tecnológica e foi o paraíso dos contrabandistas. O vinho pode estar trilhando este mesmo e perigoso caminho. Vamos aguardar os próximos capítulos desta história.

O debate esta aberto com a sociedade. Dê sua opinião.

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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012 Blog do vinho | 15:35

O selo fiscal do vinho é necessário? Conheça os argumentos contra e a favor e dê sua opinião

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Você já reparou que há algum tempo algumas garrafas de vinho se assemelham em um detalhe aos vasilhames de cachaça, vodca e uísque? Não é pelo conteúdo, claro, mas pelo selo que fica grudado na parte superior da tampa e escorre pelo gargalo. Olha lá, a estampa impressa na Casa da Moeda é ornada com imagens de cachos de uva e as inscrições IPI, Vinho Brasil, um número enorme e por fim a chancela da Receita Federal do Brasil. As garrafas nacionais ganham o pigmento verde, as importadas levam a cor vermelha.

Trata-se do selo de controle fiscal do vinho. Não chega a ser uma novidade. Desde o dia 1º de janeiro de 2011 as empresas vinícolas, engarrafadoras e importadoras estão obrigadas a colar a estampa oficial em seus vasilhames. Mas agora a medida estende seus tentáculos e atinge em cheio o comércio dos fermentados. Desde de 1º de janeiro de 2012 os estabelecimentos atacadistas e varejistas não poderão comercializar vinhos nacionais ou importados sem o tal selo.

De todas as importadoras? Não, assim como os gauleses não se renderam aos romanos, no clássico dos quadrinhos francês Asterix, a Associação Brasileira dos Exportadores e Importadores de Alimentos e Bebidas (ABBA) obteve uma liminar no Tribunal Regional Federal de Brasília eximindo seus associados de grudar o selo fiscal em seus vinhos importados. Aos 44 minutos do segundo tempo, uma instrução normativa suavizou também a medida e autorizou os estabelecimentos comerciais e o atacado a venderem vinhos sem o selo, se comprovadamente adquiridos até 31 de dezembro de 2010, mantidos em estoque. Uma medida de bom senso.

É caro?

Não. Cada selo custa R$ 0,023 centavos. São 23 reais para cada mil selos. Este valor pode ser creditado do pagamento devido pelas empresas de PIS e Cofins. O que pode ser caro é a aplicação do selo. Este é um dos principais pontos de discórdia. Grandes vinícolas, como a Salton, investiram em seladoras que fazem o serviço de forma automática. Outras têm de grudar o selo de forma manual. Para os importadores que não conseguem que as garrafas venham com selo na origem, o trabalho é mais complicado. É preciso abrir o contêiner, tirar as garrafas da embalagem, selar e voltar para as caixas. Mas isso é um problema das importadoras, certo? Mas vai sobrar para alguém este custo a mais? Aí o problema é do consumidor.

Selo ou não sê-lo, eis a questão

Em um país com altas doses de impostos e taxações das mais variadas – e um consumo de vinho por habitante tísico (menos de 2 litros) -, uma medida destas é sempre polêmica. É combustível de intermináveis fóruns e apaixonadas discussões em blogs e revistas especializadas. De um lado os representantes da indústria nacional – representada por 14 entidades do setor (* veja a lista no final do post) -, que defendem a adoção do selo como forma de combater a sonegação e falsificação e proteger o produto nacional e os consumidores. Do outro, os importadores – e até alguns pequenos produtores – que enxergam na medida mais uma intromissão oficial que não contribui no combate à sonegação e atrapalha – e muito – a importação pois cria um problema operacional e de custos na selagem e com isso prejudica os consumidores.  No meio deste imbróglio ficam de fato os consumidores.

Para início de conversa convém ser pragmático e deixar de lado os aspectos mais românticos do tema. Produtores de vinho nacional e importadores, teoricamente, trabalham com um mesmo objetivo: aumentar o consumo de vinho dos brasileiros e ganhar dinheiro com isso – afinal, por mais história e poesia que uma garrafa de vinho contenha, trata-se de um negócio, com mais charme do que a venda de parafusos, por exemplo, mas um negócio que afeta toda uma cadeia de agricultores, vinícolas, importadores, distribuidores, varejistas até chegar na sua taça. Isso sem mencionar nos profissionais de restauração, especialistas, críticos e publicações especializadas.

Para entender melhor a questão o Blog do Vinho foi ouvir os dois lados para seus leitores  tirarem suas próprias conclusões. Representando a turma contrária à adoção do selo fiscal no vinho, Adilson Carvalhal Junior, presidente da ABBA (Associação Brasileira de Exportadores e Importadores de Alimentos e Bebidas) –  e proprietário da importadora Casa Flora. A favor do selo está o diretor-executivo do Ibravin (Instituto Brasileiro do Vinho), Carlos Raimundo Paviani. No final das duas entrevistas, o espaço para discussão do selo do vinho é do leitor. Conheça os argumentos contra e a favor e opine.

CONTRA O SELO

Adilson Carvalhal Junior, presidente da Abba

“Ao invés de criarmos custos extras como o selo, deveríamos nos unir numa campanha de promoção do vinho”.

Adilson Junior, presidente da Abba

Blog do Vinho – Qual a posição da ABBA em relação ao selo fiscal do vinho?

Adilson Junior – A ABBA é contra o selo por entender que não existe nenhum sentido para esta medida – ela só beneficia uma minoria dentro da indústria nacional.

Blog do Vinho – Quais os efeitos práticos do selo para a indústria do vinho, para os importadores e os consumidores?

Adilson Junior – Para os importadores além do custo da selagem, existe todo processo de violar a embalagem original, muitas vezes de madeira, todo o manuseio e risco de quebra e roubo de produto. Fora a falta de selos nos portos e a demora na liberação do porto, pois o processo fica mais lento. Para o consumidor o produto fica mais caro e muitas vezes com rótulo danificado, além de toda confusão que isso gera no mercado de vinho. Fora isso, as pequenas vinícolas nacionais não conseguem o registro especial para poder comprar o selo.

Blog do Vinho – As importadoras já sentiram alguma consequência prática da medida?

Adilson Junior – Já, pois a selagem é obrigatória desde janeiro de 2011 e quem não esta amparado por nossa liminar já tem que selar desde esta data.  Além da ameaça de fiscalização que nossos clientes tem sofrido que tem feito com que não aceitem os produtos sem selo.

Blog do Vinho – Você acha que Procuradoria Geral da Fazenda Nacional vai conseguir reverter liminar da ABBA que exime seus associados de estampar o selo fiscal?

Adilson Junior – Nossa ação começou em dezembro de 2010 com a obtenção do mandado de segurança. Após isso tivemos mais vitórias que derrotas. Além disso, nossa última vitória foi julgamento do mérito. Porém, é difícil afirmar que não perderemos, mas estamos confiantes que a justiça será a nosso favor.

Blog do Vinho  – Qual o tamanho do contrabando de vinhos no Brasil, um dos principais argumentos para a adoção do selo por parte seus defensores? A ABBA propõe outra solução para mitigar o problema?

Adilson Junior – Nunca houve nenhuma apreensão importante de contrabando de vinhos e nós que estamos no mercado nunca verificamos nada neste sentido. Se existir é algo inexpressivo dentro do mercado.

Blog do Vinho – Uísque e vodca têm selos e são importados por associados da ABBA. Por que o selo é aceito nos destilados pela associação e no vinho não? O selo diminui o contrabando destas bebidas no país?

Adilson Junior – Para o contrabando compensar a carga tributaria tem que ser gigante, como o caso destes produtos citados. No mercado de vinho 65% das importações são provenientes da América do Sul, onde o imposto de Importação é zero, o que não justifica o contrabando. Além disso as importadoras seriam as mais afetadas com isso e seriam as primeiras a pedirem o selo como foi no caso do uísque e da vodca.

Blog do Vinho – Se não tem imposto de importação para a maior parte dos vinhos estrangeiros no mercado, por que os importadores reclamam tanto de taxação e jogam a culpa dos preços nos impostos?

Adilson Junior – O imposto de importação para vinhos é de 27%, somente para vinhos da América do Sul que é 0. Fora isso existem mais quatro impostos que incidem diretamente no vinho. Os impostos são altos, mas não gigantes como do uísque e da vodca,

Mas o problema do alto imposto no vinho não é só para o importado e sim para o vinho, eu acho um absurdo o vinho pagar um imposto mais caro que a cerveja, por exemplo.

Blog do Vinho – A medida cria uma clara divisão entre importadores e produtores?

Adilson Junior – Os pequenos produtores, como é o caso da Uvifan (União da Vinícolas Familiares), também são contra o selo. Mas em um certo aspecto, sim, cria um divisão. Eu pessoalmente já propus na Câmara Setorial de Vinho que ao invés de criarmos custos extras como o selo, deveríamos nos unir numa campanha de promoção do vinho, mas não foi aceita.

Blog do Vinho – Qual a perspectiva do mercado de importados para 2012? Será afetada pelo selo?

Adilson Junior – Acho que o mercado vem crescendo pouco, e um dos fatores é o selo, além da falta de cultura e outros. Pelos números ainda não conseguimos passar os 2 litros per capta ano. Para se ter uma ideia a cerveja subiu de 54 para 64 litros per capta nos últimos dois anos. Mas estamos consumindo melhores vinhos o que já é um grande avanço, pois estamos deixando de consumir vinhos de uvas híbridas para consumir mais de vitis vinífera.

A FAVOR DO SELO

Carlos Raimundo Paviani, diretor-executivo do Ibravin

“O selo dá segurança ao consumidor por garantir que é um produto genuíno.“

Carlos Raimundo Pavian, diretor-executivo do Ibravin,

Blog do Vinho – Por que foi criado o selo fiscal do vinho?

Carlos Paviani – O selo fiscal tem o objetivo de combater a sonegação, a falsificação e a entrada de vinhos por descaminho (sem o pagamento dos impostos e tributos devidos). Ou seja, o selo é um instrumento a favor dos vinhos brasileiros e importados e das empresas que trabalham corretamente, dentro das obrigações legais e fiscais.

Blog do Vinho – Quais os efeitos práticos do selo para a indústria do vinho, para os importadores e para os consumidores?

Carlos Paviani – O maior beneficiado é o consumidor. O selo fiscal é um diferencial que o distingue o vinho legal dos vinhos comercializados ilegalmente. Ele torna tudo claro para os comerciantes e, sobretudo, para os consumidores. Antes ninguém sabia como identificar os vinhos contrabandeados e objeto de descaminho, que somam mais de 20 milhões de litros ao ano no Brasil. Também não havia como verificar se o produtor nacional atuava legalmente no mercado. Agora, com o selo fiscal, os produtos corretos serão facilmente reconhecidos pelos consumidores, que se tornarão fiscais voluntários. Qualquer individuo pode denunciar a fraude quando perceber um produto sem selo. Isso era impossível. A Receita Federal e a Policia Federal têm estrutura em todo o Brasil e estarão prontas para agir. Quem trabalha corretamente não tem como ser contra o selo ou ter medo dele. Vários argumentos já foram usados ou ainda são usados contra o selo fiscal nos vinhos, mas nenhum deles desmente o seu real significado: combater o grande descaminho (popularmente chamado de contrabando) de vinhos e a ilegalidade existente no Brasil. Primeiro, disseram que o selo era feio para ser colocado numa garrafa de vinho, que ficaria parecido com as cachaças e os uísques. Na prática, o selo não afeta a imagem do produto, pois é discreto e já utilizado por outras bebidas, sem prejuízos estéticos. O selo dá segurança ao consumidor por garantir que é um produto genuíno.

Blog do Vinho – Qual será a punição para as garrafas que estiverem sem selo? Quem é punido?

Carlos Paviani – Desde janeiro de 2011, os vinhos só podem sair das vinícolas e engarrafadoras com o selo de controle fiscal. O mesmo vale para a importação dos vinhos estrangeiros. Quem desrespeitar esta regra pode ter seu produto apreendido e, se não regularizado, destruído. Além disso, trata-se de enquadramento de crime de sonegação fiscal, que tem como punição uma pena de detenção de seis meses a dois anos, acrescido de uma multa de duas a cinco vezes o valor do tributo. Se a fiscalização da Receita Federal encontrar vinhos sem selo (e sem comprovação legal de entrada antes de 2011) nos estabelecimentos comerciais apreenderá a mercadoria e a empresa estará sujeita a outras penas da lei, como multas etc. É importante ressaltar sempre: o selo possibilita a autofiscalização. Obriga o comerciante a ter uma participação ativa, pois a responsabilidade recai (também) sobre ele. Muitos ainda alegam que esta medida apenas incentivará a indústria da falsificação de selos. Todavia, se para o crime de sonegação fiscal a pena muitas vezes não assusta (detenção de seis meses a dois anos, e multa de duas a cinco vezes o valor do tributo), para a falsificação de selos (que equivale a falsificar dinheiro), a pena é de reclusão, de 3 (três) a 12 (doze) anos, e multa.

Blog do Vinho – Qual o tamanho do contrabando de vinhos no Brasil em relação ao vinho consumido no país (produzido e importado)?

Carlos Paviani – A estimativa é de que, anualmente, 20 milhões de litros de vinho entrem no Brasil por descaminho. Isso é mais do que o Brasil vende de vinhos finos por ano – cerca de 18 milhões de litros em 2010 (dados fechados). E corresponde a cerca de 20% de todo o volume de vinho fino comercializado no Brasil – cerca de 100 milhões de litros. Ou seja, é muita coisa. Mas isso é menos da metade do que o Paraguai importa anualmente (sem exportar para lugar algum legalmente). Na verdade, este é um número bastante conservador. Segundo técnicos federais de fiscalização na fronteira, o Paraguai importou, em 2009, 42 milhões de litros de vinho engarrafado, sobretudo do Chile e da Argentina. E não exportou uma única  garrafa oficialmente. Ou seja, ou a população paraguaia, que é menor de 6 milhões de pessoas, consome muito vinho, ou a maioria dos vinhos importados pelo Paraguai da Argentina e do Chile estão sendo “encaminhados” para outros países. Como o Brasil é o grande país consumidor de produtos do Paraguai, sobretudo originados do descaminho, estima-se que a maior parte dos 42 milhões de litros de vinhos importados pelo Paraguai acabe no Brasil. Quer dizer, no mínimo, e só do Paraguai, devem entrar cerca 20 milhões de litros de vinhos ilegalmente . Na prática, este volume deve ser maior ainda. Calculando pelo preço médio de 30 dólares a caixa de 12 litros a uma taxa de 45% de tributos, significa uma perda de arrecadação de tributos para o Brasil  de aproximadamente R$ 30 milhões por ano. Isso também quer dizer que estes produtos entram com um valor 45% menor que aqueles importados legalmente. Qual vinho iria vender mais? Isso é a concretização da concorrência desleal.

Blog do Vinho – Uísque e vodca têm selos – e até mesmo os cigarros. O selo diminui o contrabando destas bebidas no país?

Carlos Paviani – Sem dúvida que o selo diminuiu o contrabando destas bebidas no país. O selo nas bebidas “quentes” ajudou a regular o mercado de destilados no Brasil. E é isso que fará com os vinhos. Atualmente, consideramos que o uso do selo fiscal é um remédio estritamente necessário para o atual estágio de doença que vive o mercado nacional de vinhos. E não é nada contra os importados legalmente. Ninguém diz, mas uma das vantagens do selo é que ele estabelece um controle maior no destino dos vinhos e derivados vendidos a granel pelos produtores do Rio Grande do Sul para o Centro do País.

Blog do Vinho – Existem casos bem-sucedidos de aplicação de selo em vinhos em outros países?

Carlos Paviani – Um modelo bem-sucedido é do Uruguai. A aplicação do selo no Uruguai, que se dá pelo INAVI permitiu a organização e regularização do setor vitivinícola uruguaio. Outros países têm critérios bem mais rigorosos, nos quais os vinhos apenas entram no país por meio de licitações, compras ou concessões governamentais, tais como a Noruega, certos estados do Canadá, e outros países do norte da Europa. Ou seja, o selo é um procedimento muito mais fácil e democrático, que garante o controle sem maior burocracia. Imaginem se a legislação dos Estados Unidos fosse aplicada no Brasil: para entrar no país é obrigatório ter um importador, este é obrigado a vender a um atacadista, o qual é obrigado a vender a um varejista, o único autorizado a vender ao consumidor final. No Brasil os próprios supermercados podem importar – onde está mesmo a burocracia?

Blog do Vinho – Qual a posição do Ibravin em relação à liminar obtida pela ABBA que exime seus associados de estampar o selo fiscal?

Carlos Paviani – Qualquer entidade ou empresa tem o direito de defender seus interesses e de seus associados. Mas seria melhor para todos que o selo estivesse em todas as garrafas, ajudando o consumidor a diferenciar, facilmente, os vinhos legais dos ilegais. Alguns associados da Abba estão inclusive selando seus vinhos. Esse é o melhor caminho. Até porque, hoje, o consumidor já começa a desconfiar dos vinhos sem selo (não se desconfia de um uísque sem selo?). E isso pode afetar seus associados. Ou seja, o tiro pode sair pela culatra. O consumidor hoje já olha se a garrafa tem selo ou não. Ele não vai perguntar a ninguém se aquela garrafa é desta ou daquela importadora. Se é associada a esta ou aquela associação. Pra não correr riscos, o consumidor vai escolher a garrafa com selo, e certamente o comerciante, o varejista, os donos de bares e restaurantes também. Se a Abba acha tão complicado selar os vinhos no Brasil, que exija isso dos produtores estrangeiros. A lei permite que o selo seja aplicado no país de origem dos vinhos. Os produtos brasileiros, quando são exportados, têm de se adaptar as diferentes legislações de cada país. As vinícolas produzem rótulos específicos para cada país para o qual exportam. É um problema, uma burocracia a mais, é. Mas é feito pelas vinícolas brasileiras sem nenhum problema. Por que o Brasil não pode garantir a sua soberania exigindo o mesmo dos vinhos importados?

Blog do Vinho – A fiscalização não será confusa, já que os selos não serão obrigatórios em todas as garrafas, incluindo aquelas adquiridas até dezembro de 2011?

Carlos Paviani – O que pode ocorrer é a possibilidade de se atrapalhar um pouco a fiscalização voluntária dos cidadãos, num primeiro momento, já que ainda temos alguns poucos rótulos sem selo. Mas, na dúvida, acreditamos que o consumidor vai sempre escolher as garrafas com selo, para evitar qualquer risco, assim como os varejistas, mercados, bares e restaurantes Entretanto, para a fiscalização da Receita Federal não haverá confusão alguma. Chegando em qualquer estabelecimento, o fiscal verá as garrafas sem selo. O proprietário do estabelecimento é que terá de comprovar que comprou os vinhos de forma legal, apresentando os documentos fiscais correspondentes. Nós acreditamos, ainda, que esta liminar da Abba será revogada, pela sua falta de consistência, e por ser uma decisão isolada. Assim, logo, logo todos os vinhos, nacionais e importados, serão obrigados a selar.

Blog do Vinho – A medida cria uma clara divisão entre importadores e produtores?

Carlos Paviani – Os importados deveriam ser os primeiros a aprovar o selo, porque o alto volume de vinhos ilegais que são vendidos no País são produto de descaminho. Portanto, o descaminho prejudica os bons importadores. Além do mais, a adoção do selo foi decidida democraticamente, dentro do órgão onde se discutem as políticas públicas para o desenvolvimento do setor de vinhos no Brasil. Todavia, cabe ressaltar que a grande maioria dos importadores está selando as suas garrafas, sem nenhum problema. É só andar por aí e ver, especialmente nos supermercados onde a maioria do vinho é vendido no Brasil, praticamente só há vinho com selo, nacional ou importado. A quase totalidade dos produtores e dos importadores está devidamente adaptada ao selo fiscal, até porque aplica a etiqueta há mais de um ano. Esse selo não caiu do céu, como fazem crer alguns e outros, desavisados, aceitam. Ele entrou em vigor há mais de um ano e meio! Desde abril de 2010 todos sabem da sua entrada em vigor e da sua obrigatoriedade. Só está correndo atrás do prejuízo quem não acreditou que o Brasil poderia adotar medidas para acabar com o comércio ilegal de vinhos. Quem apostou na legalidade já está com isso organizado há muito tempo – inclusive os vinhos importados.

Blog do Vinho – Os pequenos produtores não terão maior dificuldade que as grandes vinícolas na selagem das garrafas? Existe alguma estratégia para ajudá-los nesta tarefa?

Carlos Paviani – Antes de mais nada, é bom esclarecer uma coisa importante: a Abba tem dito que o selo fiscal é uma criação das grandes vinícolas brasileiras. Isso é uma grande bobagem. Na prática, temos três ou quatro grandes vinícolas no Brasil, que faturam acima de R$ 200 milhões e abaixo de R$ 250 milhões ao ano. Por isso mesmo são consideradas médias empresas quando comparadas a firmas de outros setores. Cerca de 95% do setor é formado por pequenas empresas. Outro dado relevante: um estudo feito pelo grupo de trabalho que tratou da implantação do selo na Câmara Setorial descobriu que dos 5% dos produtores que são contra a sua adoção, apenas 1,34% produzem menos de 500 mil litros de vinho por ano! Os demais estão acima deste patamar. Ou seja, a maioria de quem é contra o selo é considerado grande ou média empresa e não pequena! Temos certeza que o selo fiscal vai ajudar o pequeno, o médio e o grande. Apenas duas ou três vinícolas compraram seladoras automáticas. As pequenas já rotulam e colocam as cápsulas manualmente – o selo é apenas um procedimento a mais. Alguns importadores reclamam da burocracia e do trabalho manual de aplicação do selo. Isso é verdade e as pequenas vinícolas enfrentam isso da mesma forma. Mas é como colocar uma etiqueta de premiação em um concurso importante, uma medalha, um selo de indicação geográfica,  etc. É só uma tarefa a mais, manual, a  ser feita. Para os importadores, há, ainda, a possibilidade de adquirirem os selos e enviar para as vinícolas, no país de origem, para que o selo seja colocado antes do embarque, quando o vinho está sendo encaixotado, reduzindo assim custos e operações para os importadores. Isto está previsto na norma que instituiu o selo de controle fiscal.

Blog do Vinho – O consumidor pagará mais caro pelo produto?

Carlos Paviani – A implantação do selo não justifica aumento de preço dos vinhos. Quem faz isso está usando o selo como desculpa para lucrar mais. O selo fiscal é impresso pela Casa da Moeda. O valor de confecção do selo é de R$ 23 para cada 1.000 selos. (ou seja, R$ 0,023 por vinho). Ainda há um custo de corte dos selos, que varia de preço, mas fica na média de R$ 2,00 a cada mil selos. E estes valores podem ser creditados do pagamento devido pelas empresas de PIS e Cofins – ou seja, não serão pagos nem pelas importadoras ou empresas, nem pelo consumidor. Isso quer dizer que o custo para as empresas, portanto, é somente da colocação do selo nas garrafas, calculado em menos de R$ 0,01 (um centavo) por garrafa de vinho.

Blog do Vinho – Qual a perspectiva do mercado de vinhos finos nacionais para 2012? Será afetado positivamente pelo selo?

Carlos Paviani – Estamos aguardando o fechamento de 2011 para avaliar este ano. A nossa expectativa era fechar com um aumento de 10% na venda de vinhos e espumantes este ano. Mas as últimas projeções, até novembro, sugerem que o acréscimo nas vendas de vinhos brasileiros encerre o ano abaixo de 10%. Já será um ganho, porque em 2010 fechamos com perda de mercado. O setor vitivinícola brasileiro segue em dificuldade. A nossa projeção é que o estoque de vinhos no início de 2012 deve somar aproximadamente 295 milhões de litros (sendo 166 milhões de vinhos comuns; 63 milhões de litros de vinhos finos e 66 de outros vinhos). O incremento nos estoques de vinhos ocorre porque a produção da última safra foi recorde, superior à comercialização. Temos de ser realistas e trabalhar com as empresas e o governo federal para resolver este problema histórico. Esta safra, que até agora tem tido um clima favorável, deve novamente ser de grande volume. O que pode aumentar mais ainda os estoques de vinhos nas cantinas. O impacto do selo fiscal ainda não influenciou as importações de vinhos, que continuam em crescimento. Logo, a desculpa de que o selo atrapalharia as importações de vinhos não se confirma na prática. O Brasil deve fechar o ano com um aumento de 3% a 5% nas importações de vinhos. Só não teremos o crescimento assustador verificado em 2010, quando as importações aumentaram quase 30%, reflexo da entrada em vigor do Selo de Controle Fiscal, quando muitos importadores anteciparam a entrada de produtos para não precisar selar a partir de janeiro de 2011.

* Entidades que aprovaram o selo

IBRAVIN (Instituto Brasileiro do Vinho), UVIBRA (União Brasileiro de Vitivinicultura), OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras), CNA (Confederação Nacional da Agricultura), FIEMG (Federação das Indústrias de Minas Gerais), ACAVITS (Associação Catarinense de Produtores de Vinhos Finos de Altitude), EMBRAPA, ABE (Associação Brasileira de Enologia), AGAVI (Associação Gaúcha de Vinicultores), MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário), ANEV (Associação Nacional dos Engarrafadores de Vinho), FECOVINHO (Federação das Cooperativas de Vinicultores), Sindicato da Indústria do Vinho de São Roque (Sindusvinho), SINDIVINHO de Jundiaí e Comissão da Uva.

DÊ SUA OPINIÃO

E você, acha o selo fiscal do vinho necessário? Participe com seu comentário.

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terça-feira, 13 de setembro de 2011 Degustação, ViG | 18:27

9 dicas de vinhos brasileiros

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Nós viemos aqui para beber ou para conversar? Há leitores que reclamam que se fala muito de vinho neste espaço, mas há poucas dicas de rótulos. Para atender esta demanda de menos papo e mais garrafa aberta o Blog do Vinho estreia a seção ViG (Vinho indicado pelo Gerosa, este que vos escreve). O critério de escolha é uma mistura de curadoria e rede social: uma seleção dos vinhos que provo socialmente, ou avalio em degustações, e que indicaria para os meus amigos numa conversa informal, no facebook, no twitter.

Para a primeira lista dos ViG, selecionei 9 rótulos nacionais que provei recentemente e que merecem visitar a sua taça.

Por que começar os ViG pelos rótulos nacionais?

Por que não? Eu bebo sempre vinho nacional. E assim como acontece com vinhos de outros países, há os excelentes (mais raros), os bons, os médios e os fracos. Eu bebo rótulos nacionais, enfim, por que vivo no Brasil, gosto de vinho e mais ainda de variar – mas não por ideologia.

Tem aquele tipo esnobe, que surpreso com um bom vinho brasileiro sai logo se justificando: “Para um vinho nacional até que é bom”; há outros que defendem o fermentado brasileiro só pela sua certidão de nascimento e não pelas qualidades da bebida. Bobagem, preconceito é uma forma torta de avaliar o mundo. Nacionalismo é a forma tacanha de limitar o mundo ao seu quintal.

Aqui no Blog do Vinho o produto nacional é tratado como um fermentado de uva entre tantos outros. Sem desfraldar a bandeira e muitos menos com preconceito.

A qualificação do vinho brasileiro, aliás, foi impulsionada pela decisão do próprios produtores de melhorar o vinho fino e brigar de frente com a concorrência dos importados. Todo mundo ganha com isso.

9 ViG brasileiros  que valem a pena conhecer

ESPUMANTES

Sim, os espumantes nacionais, em especial, do Vale dos Vinhedos, já ganharam muitas medalhas nos concursos mundiais. Sim, nossa produção tem uma qualidade constante e um preço  acessível se comparado a espumantes e champanhes importados. Não, os espumantes indicados aqui não são os mais conhecidos. Mas se você gosta de borbulhas, merece experimentar os rótulos abaixo:


130 Valduga Brut
Casa Valduga
Preço médio: R$ 60,00

Este espumante da Casa Valduga é elaborado com as uvas chardonnay e pinot noir pelo método champenoise (ou tradicional), aquele que a segunda fermentação acontece na garrafa. E daí? Daí que este jeito de fazer espumante, que é o original, aporta mais sabor, elegância, cremosidade, borbulhas mais finas e consistentes e aquele aroma meio de pão torrado, de frutas secas e uma acidez que enche a boca. Um espumante verde-amarelo de classe. Um dos melhores que temos no país. Ah, e a garrafa é muito charmosa.

Don Giovanni Brut
Don Giovanni
Preço médio: R$ 42,00

A Dom Giovanni não é uma vinícola muito conhecida, fica na região de Pinto Bandeira, vizinha ao Vale dos Vinhedos, região de montanhas que está recebendo a Indicação de Procedência para seus rótulos. Este espumante, de série especial, também é elaborado com as cepas francesas tradicionais do champanhe, a chardonnay e a pinot noir. Antes de ser comercializado é envelhecido por 12 meses na garrafa o que o torna mais complexo, a espuma é espessa (o que é bacana para um espumante), a cor é mais dourada, aromas de maçã perceptíveis  e tem aquele tostadinho envolvente e uma boa  cremosidade na taça. O estilo está menos para o frescor da maioria dos espumantes nacionais e mais para a complexidade. Vale a pena conhecer.

Excellence Rosé Chandon
Chandon do Brasil
Preço médio: R$ 105,00

A subsidiária brasileira da Maison Moêt  & Chandon fincou raízes em Garibaldi, no Rio Grande do Sul,  em 1973. De lá para cá tornou-se sinônimo de espumante fino e de volume. Todos seus rótulos são elaborados pelo método charmat – segunda fermentação em toneis de alumínio -, pois a filosofia do grupo está mais baseada na qualidade do vinho-base. O Excellence Brut exibia até 2010 o troféu solitário de  top de linha da empresa. No ano passado o rosé da linha Excellence foi finalmente lançado (a primeira leva teve apenas 5.000 garrafas produzidas) e hoje em dia é, de longe, o espumante rosé mais apurado, elegante, complexo e saboroso no mercado. A pinot noir predomina (74%), mas a chardonnay (26%) também participa da festa. Tem volume, persistência longa, aromas frutados de morangos e toques de torrefação que amarrados a uma excelente acidez convidam a um novo gole. Como nem tudo é perfeito, também é um dos espumantes  mais caros do país. Se quiser uma opção mais barata de borbulhas rosé para festas, o caminho é o sempre correto Poética, da Salton (R$ 25,00).

TINTOS

Tinto é o vinho de preferência do consumidor brasileiro e mundial. E aqui a produção nacional também vem evoluindo ano a ano. Se na Argentina brilha a malbec, no Chile a carmenère e no Uruguai a tannat, qual a uva tinta que representa o Brasil? Há quem aposte na merlot, outros na revalorização da cabernet franc, que já dominou nossos vinhedos no passado. O curioso é que a cabernet sauvignon, menos citada, é uva presente nos vinhos topo de linha das principais vinícolas. Abaixo há indicações para todos os gostos – e uvas.


Quinta do Seival Cabernet Sauvignon 2006
Seival Estate (Miolo)
Preço médio: R$ 50,00

Este tinto do projeto Seival Estate, da Miolo Wine Group (apesar do nome, é nacional, ok?), é proveniente de vinhedos da Fortaleza do Seival, no município de Candiota, ali nas franjas do Uruguai. Da linha Quinta do Seival eu sempre preferi o Castas Portuguesas (touriga nacional, alfrocheiro e tinta roriz). Mas nesta safra de 2006 o cabernet sauvignon surpreendeu. Um tinto potente sem ser bronco, gostoso no nariz, aquelas frutas vermelhas com um pouco de madeira, e bem amplo na boca, saboroso e bem macio. Nasceu no ponto para ser bebido.

Salton Desejo Merlot 2007
Salton
Preço médio: R$ 60,00

“O merlot brasileiro está entre os melhores do mundo, o potencial é até maior do que do merlot da argentina e do Chile “ A frase acima é de Michel Rolland, o homem por trás de mais de cem vinícolas ao redor do mundo e que presta seus serviços de consultoria no Brasil para a Miolo. Se Monsieur Rolland defende esta tese, quem sou eu para discordar? Há rótulos bacanas, com Storia, da Casa Valduga, de vinhedos de mais de 10 anos, o Miolo Terroir (que paga o salário de Rolland no Brasil), o DNA da Pizzato, o Grand Reserva Merlot, da Boscato entre outros. Mas o merlot ViG é o Desejo, da gigante Salton. Já cometi uma prova às cegas com todos os grandes rótulos de merlot brasileiros citados e meu veredicto se manteve o mesmo da degustação às claras. O merlot do enólogo Lucindo Copat é um conforto para o paladar. Fruta madura presente no nariz, madeira integrada com o vinho, uma ponta achocolatada e macio que dá gosto. Não é cerveja, mas desce redondo.

Angheben  Pinot Noir 2008
Angheben
Preço médio: R$ 33,00

Pinot noir brasileiro! Tá brincando, né? Não, é uma indicação sincera. Aceitei a recomendação de um vendedor de uma loja em Bento Gonçalves e arrisquei. Conhecia – e aprecio – o Barbera da Angheben, Abri desconfiado em casa e fui feliz. Primeira boa surpresa, teor alcoólico de 12,7. Tem aquela cor mais translúcida da pinot. Vinho leve, aromas frescos, delicado, sem passagem por madeira e com uma fruta gostosa. Despretensiosa tipicidade da pinot noir. Abrir, tomar e curtir. E cabe bem no bolso.

Pequenas Partilhas 2009 Cabernet Franc
Vinícola Aurora
Preço médio: R$ 35,00

A Cooperativa Aurora trata com igual respeito desde o vinho de garrafão até o vinho fino. Mais de 1000 famílias produzem e vendem as uvas para a cooperativa que seleciona as frutas para as mais variadas linhas de produto. Paula Guerra Schenato, uma das quinze enólogas da vinícola, é didática: “Fazemos os vinhos para o nosso consumidor”. Entre os rótulos da Aurora uma agradável surpresa é o Pequenas Partilhas Cabernet Franc. A série só é elaborada quando a variedade atinge níveis desejados de qualidade. A cabernet franc já foi predominante no Brasil e é a terceira uva tinta mais importante de Bordeaux (Pommerol e Saint Emilion). É mais leve e com menos taninos que a cabernet sauvignon e amadurece mais cedo – o que é uma vantagem numa região de chuvas constantes na época da colheita. O resultado é um vinho macio, de corpo médio e com uma  baunilha herdada dos 5 meses de barrica. Um tinto gostoso e diferente que não fica brigando com a comida.

Elos Touriga Nacional e Tannat 2008
Lídio Carraro
Preço médio: 82,00

A Lidio Carraro, vinícola pequena e familiar (também atende por vinícola-boutique), veio ao mundo com algumas características: a) não usar madeira na evolução de seus caldos. “A madeira não piora o vinho, mas não seria a identidade do meu vinho”, explica Patrícia Carraro, representante de sangue da empresa; b) pelo marketing do terroir, quando ainda não era comum no Brasil a defesa da importância da terra e do clima e C) pelo posicionamento premium dos seus vinhos com preços mais altos que a concorrência. Seus rótulos recebem críticas ácidas de alguns e aplausos de outros. Na minha opinião são muito diferentes da média nacional, há um cuidado e uma proposta diferenciada, uma tipicidade que merece ser provada. Provocada com a questão: “Por que 0 consumidor deveria provar seus caldos?”, Patrícia Carraro responde de forma conceitual: “Por que há uma verdade em nossos vinhos”, pontifica.

O Elos touriga nacional/tannat tem origem nas uvas cultivadas em Encruzilhada do Sul, no Rio Grande do Sul, uma região que está mudando o perfil de alguns vinhos brasileiros. Trata-se de um corte de 77% touriga nacional e 22% tannat. A mistura de duas uvas com perfis bem diferentes dá certo. É o “vinho estilo rosa”, o casamento  do perfume da touriga com a rusticidade espinhosa da tannat, resultando num caldo maduro, intenso, floral no primeiro impacto, de final prolongado na boca e com um tostado curioso – já que não passa por madeira.

BRANCO

Só um branco ViG? Desta vez, sim. A escolha aqui foi pelo inusitado. Para fugir da mesmice dos chardonnays (em geral com muita madeira),  selecionei uma uva branca pouco divulgada no Brasil.


RAR Collezione Viognier 2010
Miolo
Preço médio: R$ 58,00

A viognier não é uma uva branca comum de se encontrar engarrafada no Brasil. Este empreendimento do empresário Anselmo Randon (mais conhecido pelas carrocerias de caminhão), supervisionado pela Miolo, tem vinhedos plantados na região de Campos de Cima da Serra, no Rio Grande do Sul. Uma das características da região é sua altitude (1.000 metros) o que favorece o cultivo de uvas brancas e da tinta pinot noir. O intenso floral dribla a armadilha do toque meio enjoativo e doce de alguns brancos da uva viognier e mostra um aroma mais equilibrado. Na degustação tem uma boa acidez e intensidade, uma certa cremosidade, pois passa um ano sobre borras em barrica de carvalho (acontece o seguinte, as borras vão aportando aromas, sabores e a tal cremosidade neste vinho branco). Um aperitivo e tanto, um branco de classe e elegância para ser bebido jovem. Surpresa total.

Sua indicação

O objetivo dos ViG, vinho indicado pelo Gerosa, não é encerrar um tema, pelo contrário, trata-se de iniciar uma discussão. Indique os seu rótulos preferidos na seção de comentários, assim a lista fica mais rica e variada.

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