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sexta-feira, 1 de agosto de 2014 Blog do vinho | 00:20

10 motivos para tomar vinho no inverno – e 10 vinhos para tornar o inverno mais quente

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 E o frio chegou com tudo! Quem resiste a um vinhozinho com um tempo desses? Se você é do tipo  que precisa de alguma desculpa para isso, este blog  dá um empurrãozinho e lista 10 motivos para tomar vinho no inverno – acompanhado de dez dicas de rótulos:

1. O inverno é uma ótima ocasião para beber sem culpa aqueles vinhos potentes, escuros, complexos, com boa passagem na madeira, quase mastigáveis,  com aquela fruta em compota, intenso e longo. E sem ter de se justificar para aquele amigo esnobe que só aprecia tintos leves e orgânicos do velho mundo e torce o nariz para o topo de linha do novo mundo.

 

  • Cousino Macul – Lota Reserva Especial 2007 – para iniciar as dicas de inverno um peso-pesado (até o peso de sua garrafa é excessivo) da vinicultura chilena. Da tradicional família Cousino (150 anos de vinhos), um tintão que reúne potência e complexidade, frutas negras, e aquele não sei o quê de baunilha -16 meses descansando em barricas de carvalho e 18 meses na garrafa. Vinhão de respeito. Para arrebentar neste inverno. E namorar o fundo da taça. Importador: Santar

Leia também: Seis safras de três décadasa de um supervinho chileno: Don Melchor

2. Apreciar seu tinto na temperatura mais adequada. Você nem precisa ter uma adega climatizada em casa. Basta se livrar da cápsula, retirar a rolha e despejar o néctar na taça. Se precisar de um choque rápido de temperatura, deixe a garrafa do lado de fora da janela.

 

  • Finca las Moras – Gran Shiraz 3 Valleys 2009 – este encantador shiraz de três diferentes vales de uma região menos conhecida da Argentina, San Juan, é poderoso, longo, com uma fruta envolvente e especiarias. Para quem acha que Argentina só produz bons malbecs, este shiraz pode ser uma bela experiência invernal. Importador: Decanter

Leia também: 50 vinhos argentinos que vale a pena conhecer

 3. Chamar os amigos em casa para tomar uma garrafa de vinho e brindar a amizade – cada um traz a sua e todos compartilham a bebida.

 

  • Vallontano – Masi – Oriundi 2011 –  uma amizade também uniu a Itália e o Brasil nesta experiência de um vinho elaborado na Serra Gaúcha com a técnica do Vêneto, na Itália, de apassimento das uvas, a mesma usada nos amarones. As uvas são secas em caixas abertas e só depois passam para a fermentação. Este exemplar de terroir brasileiro e alma italiana é feito com as uvas tannat (70%), teroldego (15%), e vinhas velhas de corvina, recantina e turqueta (10%) e ancelotta (5%) – algumas delas bem desconhecidas e redescobertas nos vinhedos gaúchos. Se o vinho brilha na sua execução correta e num sabor que encanta, peca na pretensão do marketing, ao disputar o título de melhor vinho brasileiro. Pra quê, né? Basta ser bom e agradar. E agrada. Importador: Mistral

Leia também: Angelo Gaja, o porta-voz do vinho italiano de qualidade

4. Apreciar comidas pesadas, molhos densos e pratos elaborados, parceiros ideais para vinhos mais potentes. Clássico da harmonização, a compatibilidade por peso pode ser colocada à prova: pratos pesados pedem vinhos idem.

 

  •  Casa Ferreirinha- Vinha Grande 2010 – um clássico do Douro (Portugal), de uma vinícola clássica, elaborado só em safras excepcionais. Tradicional na seleção das uvas nos brinda com porções de touriga nacional, touriga francesa, tinta barroca e tinta Roriz. No nariz tem aquelas frutas maduras, a madeira está bem integrada ao caldo, e um final bem legal completam suas qualidades. Um vinho que cresce muito com o passar dos anos. Numa prova horizontal, de várias safras, de 1996 a 2010, os melhores rótulos foram os dos anos 2000 e 2007; de características diferentes, mostraram como o tempo beneficia os mais antigos e na entrada reforça a exuberância da fruta dos mais novos. Importador: Zahil

Leia também: 50 grandes vinhos de Portugal e algumas escolhas pessoais

5. Carne & vinho & lenha & brasa. Quer combinação mais adequada para uma noite ideal de inverno? Cenário de revista de decoração, foto que ilustra este poat. Não é à toa. Existe harmonização de ambiente também e o vinho é o toque de classe.

 

  • Dal Pizzol – Dal Pizzol 40 Anos –para celebrar seus quarenta anos a vinícola brasileira Dal Pizzol produziu 3.520 garrafas de um lote único de um assemblage de quatro variedades da safra de 2012: merlot (40%), cabernet sauvignon (30%), tannat (15%) e nebbiolo (15%). A Dal Pizzol tem uma identidade no sabor e nos aromas de seus vinhos, uma espécie de impressão digital de seus caldos que revelam a autoria. Neste exemplar premium e comemorativo, a mescla das uvas rende um vinho potente, com boas frutas, um toque de couro, terroso e uma carga boa de concentração tânica. Vinícola: Dal Pizzol

Leia também: Os rótulos da Aurora: vinhos nacionais corretos, saborosos  e acessíveis 

 6. Viver – ou reviver – uma noite romântica. Ninguém nega: o vinho é uma bebida sedutora. Abra uma bela garrafa em casa e a vida se transforma. Já as chances de um convite para um vinho no inverno ser aceita é proporcionalmente maior do que no verão. E melhor, não soa falso, afinal… inverno, um vinhozinho, quem resiste?

 

  • Bueno-Cipresso – Brunello de Montalcino 2007 – um tinto maduro e com taninos bem acentuados. Um clássico com 100% da uva sangiovese grosso, sob a batuta do enólogo Roberto Cipresso, em parceria com ele mesmo, Galvão Bueno, que é sócio desta produção da região de Montalcino, na Toscana. E se é para seduzir, nada com um vinho italiano. E se no Oriundi (acima)  temos um italiano em terras gaúchas aqui temos a assinatura de um brasileiro em terras da Toscana. Importadora: Bueno Wines

Leia também: Galvão Bueno também torce para a Itália, pode isso Arnaldo?

7. Vinhos fortificados e doces são ótimas companhias de entrada e de saída nas refeições no inverno. E companhia da noite inteira do bom papo. E para quem aprecia, do charuto.

 

  •  Nederburg Winemaster’s Reserve Noble Late Harvest 2011. Um porto,  um  Twany, com aqueles aromas evoluídos, e untuosidade, classudo, talvez seja a sugestão mais óbvia. Mas um colheita tardia (que é a traducão de Late Harvest) da África do Sul tem lá o seu charme. É um vinho de sobremesa bastante doce (220 gramas por litro), mas com uma acidez que segura este melaço todo. As uvas brancas chenin blanc (60%), weisser riesling (27%) e muscat (13%) são colhidas tardiamente, próximo do estado de uva passa, ou seja com maior concentração de açúcar natural. Linda cor dourada, muito aromático, flores, abacaxi em compota, mel. Importador: Casa Flora.

Leia também: Conheça os vários tipos de vinhos do Porto

 8. É tempo de aproveitar as ofertas da estação. O inverno é o Natal do comércio de vinhos. As vendas aumentam, as ofertas pipocam para todo lado e os supermercados atraem seus clientes com ofertas de vinhos do dia a dia e de preço médio. Afinal, vinho todo dia requer planejamento financeiro, para completar o mês.

 

  • Luis Felipe Edwards – Family Selection Gran Reserva Carmenère 2012 –  alguns dos tintos indicados aqui são para ocasiões especiais e carteiras mais forradas. Tradução, não são muito baratos. Mas há aquelas que são chamados de boa relação custo-qualidade. Este Luis Felipe Edwards Gran Reserve – encontrado exclusivamente na rede Pão de Açúcar – é um tinto correto, com passagem de 12 meses em barricas (dá para notar), com corpo médio, muita fruta na boca e no nariz e especiarias. Fácil de gostar e bem feito como toda linha Luis Felipe.

Leia também: O dia em que a carmenère avinagrou a tempranillo

 9. Aproveitar a hora do almoço para tomar uma tacinha. Taí sua chance, e não é algo que cause espanto!  Principalmente nestes tediosos tempos politicamente corretos – onde os sucos naturais ganham as mesas nos almoços executivos (argh!). Nem o seu chefe vai fazer cara de reprovação.

 

  •  Bodega Septima – Septima Gran Reserva 2009 – ok, vamos nos render também à malbec argentina, mas tanto melhor se vier misturada a pitadas de outras variedades. Este tinto perfumado, encorpado, com frutas em compota deliciosas, vai melhorando na taça e chega até um chocolate e café no fundo da taça. A malbec (55%) vem das regiões de Altamira e Luján de Cuyo, e a cabernet sauvignon (35%) e tannat (10%) de Luján de Cuyo. Ótima companhia para um grelhado. Importador: Interfood

Leia também: Você conhece vinho argentino? Um passeio pelas regiões vinícolas da Argentina 

 10. Mandar a dieta paras as favas. Por que vamos combinar que fazer dieta no inverno é a treva, e o vinho vira um parceiro infalível e sem culpa de ser feliz.

 

  •  Solera 1847 Jerez Oloroso – como o inverno dá mais oportunidades ter um vinho como companhia, por que não sair do lugar comum e provar rótulos diferenciados e pouco comuns, como um Jerez? Há várias estilos de Jerez, do seco e salgado ao doce. Este se encaixa neste último estilo, um Jerez fortificado (tem adição de aguardente vínica) elaborado com as uvas palomino fino (70%) e pedro ximénez (25%). Ideal para acompanhar doces e chocolates, é um vinho doce, denso, caudaloso e com bom final. E que se dane o regine. Importador: Inovinni

Leia também: Bacalhau e vinho: tinto ou branco?

Fala a verdade, você precisa mesmo de dez motivos para desarolhar um vinho neste – e em outros – invernos? Se sim, e nenhum das razões listadas acima te convence, invente a sua desculpa.

 

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quinta-feira, 8 de agosto de 2013 Blog do vinho | 12:10

O vinho que o papa Francisco bebeu no Brasil foi italiano

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Religião, papa argentino, Jornada Mundial da Juventude e vinho: eis uma mistura que para a turma dos enófilos suscitou uma curiosidade profana. Qual foi o vinho do papa no Brasil?

Os vinhos nacionais, claro, aproveitaram a oportunidade para colocar seus rótulos à disposição do papa Franciso e sua comitiva durante a visita. O Salton Talento 2007, uma mistrura de cabernet sauvignon (60%), merlot (30%) e tannat (10%), da Serra Gaúcha, foi declarado o vinho oficial do papa no Brasil. Um vinho que eu gosto desde sempre, aliás. A Miolo também colocou seus rótulos Lote 43 e RAR Viognier (um belíssimo branco floral e cremoso) para a passagem do sumo pontífice por Aparecida. Até uma vinícola de Jundiaí, Pedro Maziero, teve seus 5 minutos de fama ao ser selecionada como vinho de missa no interior de São Paulo e para uma refeição papal. Como Francisco é argentino comentou-se também que o Angelica Zapata Cabernet Franc estaria entre suas preferências e seria servido. Com tanto vinho assim parece que o papa Francisco não fez outra coisa. Talvez seja até o segredo de sua disposição para enfrentar a maratona da Jornada. Mas o vinho que o atual morador mais famoso do Vaticano bebeu, com certeza, durante sua estada no Rio de Janeiro, foi italiano.

O chef do papa

Toda a estrutura de alimentação, bebidas e serviço ficou sob a responsabilidade da equipe do tradicional restaurante paulistano Terraço Itália. O chef do restaurante, Pasquale Mancini, foi escolhido para preparar as refeições do Papa Francisco e de sua comitiva durante a Jornada Mundial da Juventude. Pasquale teve como orientação a elaboração de cardápios mais tradiconais e sem muita sofisticação, e seguindo a tradição italiana de sequências à mesa: primo piatto, secondo piatto e dolce.

E os vinhos? Segundo os organizadores, os tintos que acompanharam as refeições do papa Francisco foram fornecidos pelo próprio restaurante. Eram os italianíssimos Santa Cristina e o Villa Antinori, ambos produzidos pela tradicional vinícola Antinori, da região da Toscana.

Leia também: O vinho do papa é (ou deveria ser) um bonarda

Conheça os vinhos

São dois clássicos da Toscana e da Antinori, vinhos de preço médio (não é preciso pegar empréstimo no Banco do Vaticano), boa qualidade e sem ostentação. Encontram-se à venda em lojas especilizadas, supermercados e no site da importadora. Enfim, são vinhos acessíveis e prazerosos, com o jeitão da mensagem do papa Francisco, ideal para compartilhar durante uma refeição junto aos amigos

Santa Cristina Rosso 2011

País: Itália, região da Toscana

Produtor: Santa Cristina/Antinori

Uvas: 90% sangiovese, 10% merlot

Importador: Winebrands – R$ 56,00

Como sabem os conhecedores de vinho italiano, seus caldos clamam pela companhia de uma comida, principalmente este clássico Santa Cristina. A acidez da predominante sangiovese  combina muito bem com pratos com molhos, risotos e algumas carnes. É um tinto simples, básico, com aquela fruta leve e presente e um toque sutil da madeira, corpo médio e uma doçura que torna o vinho fácil de beber.

Villa Antinori 2009

País: Itália, região da Toscana Central

Produtor: Antinori

Uvas: 55% sangiovese, 25% cabernet sauvignon, 15% merlot e 5% syrah.

Importador: WineBrands – R$ 111,00

Trata-se de um outro estilo de vinho, um degrau acima, mais moderno e adaptado ao gosto do consumidor. A italianíssima sangiovese divide o palco com uvas internacionais, o que dá um perfil mais global ao vinho, os aromas são mais frutados e a boca mais macia. Os 12 meses que passa em barricas de carvalho francês, americano e húngaro e mais os 8 meses em garrafa  dão a este toscano campeão de vendas um perfil mais amadeirado, um toque de baunilha nos aromas e uma fruta mais madura na boca. Os taninos, aquele palavrão que indica a sensação de adstringência do tinto, são mais suaves e o caldo é mais encorpado.

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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013 Blog do vinho | 11:47

No belo, e triste, filme "Amor" o vinho é parte da vida

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Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, arrebatadores em “Amor”

Uma das primeiras cenas do premiado filme Amor, de Michael Haneke, é em plano geral. Ela mostra a plateia de um teatro em uma apresentação de piano. O efeito é curioso, pois os espectadores  do filme ficam encarando os do cinema. Os personagens principais não foram ainda apresentados, estão anônimos entre a audiência que assiste ao concerto. A música de Schubert invade a tela. Este espelhamento de plateias parece querer introduzir a ideia de que a história de Georges e Anne, que virá a seguir, retrata o inexorável ocaso de todos nós.

Georges e Anne, uma acachapante interpretação de Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, octagenários na vida real e no filme, são um casal erudito, professores de música aposentados e ainda apaixonados  que levam uma rotina normal de um casal idoso e lúcido em seu apartamento em Paris. Anne sofre um acidente vascular e assim se inicia sua decadência física e mental. Georges acompanhará o avanço das limitações do corpo e a decrepitude da mente de sua mulher. Ele será o fio condutor desta tragédia pessoal que se abate sobre o casal, sem jamais trair a confiança da companheira, que implora para não ser internada em um hospital ou casa de repouso no início de sua doença. O amor de Georges por Anne, passa, antes de tudo, pelo respeito à mulher anterior ao derrame, pelas suas opções de vida ou mesmo a negação desta. O amor é uma construção do dia a dia. E o cotidiano de Georges e Anne, modificado pelo avanço da doença, é a prova dura deste  amor.

Trata-se de um filme árduo, com pouco espaço para sentimentalismo barato. As sequências são longas, o cenário se restringe ao apartamento do casal e seus cômodos que vão se transformando à medida que a doença avança, com a inclusão de cadeiras de rodas, camas hospitalares, remédios, fraldas, soros e todo aparato médico que atenda às necessidades de uma idosa enferma.

Georges e Anne preferem, na medida do possível, manter-se donos de suas decisões. Eles compreendem a fragilidade do momento, têm consciência da piora do quadro dia a dia e se recusam ser tutelados pela filha e pelo genro, ou mesmo pelas enfermeiras que são obrigados a contratar. Georges se mantém no comando. Parecem quer dizer: a vida segue seu curso. Quando confrontado pela filha, a também magistral Isabelle Huppert, sobre a condução do tratamento, mostra que não há alternativas. “O que você propõe? Ela só vai piorar”, constata Georges.

O vinho é parte da vida de Georges e Anne

O filme acompanha o declínio de Anne no mesmo ritmo lento e asfixiante de uma vida que se esvai. A música erudita, que compõe a biografia dos personagens, jamais é usada como truque barato para  emocionar o espectador. Os diálogos – ou mesma a ausência deles – são pontuados por silêncios. O fim é sempre silencioso.

O vinho como um elemento da vida

Em Amor, o vinho não é protagonista – mas faz parte do cotidiano do casal.  E é por isso que o filme é comentado neste Blog do Vinho. Além de belo e contundente na condução da história de Georges e Anne, o filme trata o vinho como um elemento da vida, fruto de uma herança cultural que expressa um hábito do casal e não uma escolha esnobe que os diferencia dos demais.

Há sempre uma garrafa em cena nas refeições, enquanto é possível fazê-las com alguma dignidade na  pequena mesa da cozinha. Ele é servido em copos de vidro, trata-se de um complemento do alimento. Faz parte da vida de Georges e Anne. Sem excessos, mas também sem restrições.

Em determinada  cena, quando ainda está lúcida, Anne faz um comentário bem humorado sobre a personalidade de Georges, após ele contar uma história inédita de sua infância –  e num raro momento de descontração no filme ele sugere. “Você está  alegre hoje, vou dar mais um pouco deste vinho para você”. E aqui o vinho cumpre outro papel histórico, de uma bebida hedonista, capaz de liberar a face mais descontraída de cada um de nós.

O filme Amor acompanha, sem concessões, o processo da finitude, sem especulações espirituais ou religiosas. E é arrebatador pela sua condução firme, contínua e realista. Se fosse um vinho, seria um Porto Vintage de muitos anos, de cor já alaranjada, uma fruta mais seca, o corpo mais leve, mas que ainda preserva camadas de aromas que traduzem toda jornada do vinho na garrafa.

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sexta-feira, 30 de novembro de 2012 Blog do vinho | 12:16

Nove razões para escrever – e ler – sobre vinho

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O vinho pode até instigar intelectualmente, mas antes de tudo é uma bebida para dar prazer

Recente post neste Blog do Vinho, e respectiva chamada na capa do iG, gerou o seguinte comentário do Fabrício:

“IG precisa de conteúdo urgente! O que um BLOG DE VINHO pode agregar a vida de um povo que na sua imensa maioria não tem um prato decente de comida todos os dias?”

O comentário provocou a resposta de outro frequentador deste espaço.

“Bem, Fabrício, o sol nasce para todo mundo. Então, esse espaço é reservado àqueles que se dão ao direito de consumir um vinho quando podem. Sorte de quem pode! E isso não desprestigia os que não podem.
 Seja mais tolerante!
 Esse blog é de um nível mesmo superior, talvez seja este o motivo por não ter se encontrado aqui.
 Com um abraço por dias melhores”,
 Guilherme.

Parece uma discussão estéril e fora do contexto em um espaço reservado aos tintos, brancos, espumantes e fortificados de todos os naipes, e para a discussão da bebida. Mas tanto a bronca do Fabrício como a defesa do Guilherme me levaram a uma reflexão: Por que escrever –  e ler –  sobre vinho? E a nove tentativas de respostas.

1. A mais simples. Por que eu gosto de vinho, e os leitores que frequentam este espaço também. Em  primeiríssimo lugar  está o prazer em beber o vinho, depois o prazer de conhecer mais sobre ele. Aprender sobre vinhos é um ato voluntário e não obrigatório.

2. Por que há milhares de rótulos para conhecer. E escrever, e ler, sobre vinhos significa acumular informações para realizar nossas próprias escolhas, baseadas em nosso próprio gosto! Informação – e litragem – são fundamentais para ganhar confiança no paladar e nas escolhas.

3. Por que o vinho que valoriza a comida torna a experiência mais completa, e aprender a melhor combinação é um exercício intelectual, gastronômico e prazeroso.

4. Por que o vinho está sempre mudando. Todo ano traz novas experiências, mesmo que seja o mesmo rótulo de sempre, da mesma uva. O produtor tem uma chance por ano para realizar seu trabalho, depende dos caprichos da natureza, das manhas da uva, da chuva e da falta dela. E por fim do resultado na adega. Esta é a magia que difere o vinho de todas as bebidas e que se traduz em milhares de textos escritos no papel e no digital.

5. Por que há sempre novas descobertas, surpresas, regiões e uvas para serem conhecidas, comentadas e compartilhadas.

6. Por que vinho é de fato um assunto complicado se você deseja se aprofundar. E uma das propostas mais falsas sobre vinho são aqueles livros  e autores que prometem desmistificar o vinho, mas precisam de mais 300 páginas para tentar cumprir a tarefa. Talvez a tarefa possível seja trocar experiências e impressões, sem querer impor uma opinião. É o que eu me proponho.

7. Por que grandes vinhos são sempre de grandes regiões, com microclimas e solos com condições favoráveis ao cultivo de determInada variedade de uva. O vinho é a tradução de um  lugar, de sua origem. Fruto da experiência e do trabalho do homem, às vezes durante séculos, em busca do seu estilo.

8. Por que o vinho excepcional é aquele que proporciona prazer ao paladar e nos instiga intelectualmente. Mas principalmente servem para nos dar prazer. Vinhos complexos são aqueles com perfis aromáticos e gustativos com muitas camadas, várias descobertas e mudanças na taça à medida que a garrafa esvazia. São caldos que nos instigam a descrevê-los, compratilhá-los. Não se trata de um problema filosófico, mas com certeza faz fronteira com a arte.

9. Por que há momentos na nossa vida que são especiais, e merecem um brinde. E nada melhor que um bom vinho para isso.

E por que não dez respostas? Por que um decálogo soa como definitivo, algo como um vinho de 100 pontos do Robert Parker. E um  vinho nunca é definitivo, é sempre uma bebida com uma dose de subjetividade, que se transforma e se dilui com o tempo. Por isso o vinho gera mais perguntas e argumentos do que respostas.

Putz, criei a décima razão!

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quarta-feira, 9 de março de 2011 Blog do vinho | 20:18

O vinho vai invadir a avenida em 2012

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Leandro Hassum como Deus Baco no carnaval da Mocidade Independente de 2011. Uma palhinha do que vem por aí...

Quem patrocina o Carnaval, em geral, são as cervejarias. Mas o vinho está armando uma ação de marketing para tomar as avenidas em 2012. Animado com o resultado dos desfiles das Escola de Samba de São Paulo, do Rio de Janeiro e, pasmem, até de  Porto Alegre (afinal 90% da produção do fermentado nacional está concentrado no Rio Grande do Sul), o Ibravin (Instituto Brasileiro do Vinho) anunciou que está negociando com as três escolas campeãs de 2011 destas cidades – a Beija-Flor (RJ), a Vai-Vai (SP), e a Restinga (POA) – a inclusão do tema “Vinhos do Brasil” como enredo das escolas no ano que vem. “As escolas já aceitaram o tema, dizendo que é um tema que tem tudo para ser campeão”, comemora o gerente de marketing do Ibravin, Diego Bertolini.

Beija-Flor rima como merlot. Vai-Vai rima com tocai

Estranhou o tema? Carnaval vale tudo, em São Paulo uma escola cantou os “encantos de Dubai”, no Rio o “cabelo” foi tema de outra agremiação. Já a Mocidade Independente deu uma palhinha no desfile do Rio de Janeiro deste ano do que nos espera nos Sambódromos da vida em 2012. Seu enredo “Parábola dos Divinos Semeadores” teve o vinho com parte do desfile. A bebida estava presente no carro alegórico com um enorme Deus Baco, representado pelo comediante da TV Leandro Hassum que distribuía – e devorava –  parte dos 150 quilos de uvas frescas que decoravam o carro. O trecho do samba-enredo da Mocidade  prenuncia o que vem por aí:

A rainha de bateria da Mocidade, Andrea de Andrade: reparou no cacho de uvas?

Festa de Ísis, a farra do vinho/
Em Roma a semente foi brotar

Enófilos com samba – e vinho – na veia, uni-vos! Vai ter espumante jorrando na avenida, uvas em profusão e garrafas monumentais ornadas com modelos cobertas de folhas de parreira. Quem se habilita mandar seu samba do vinho? Envie seus versos na área de comentários deste blog.

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sábado, 26 de fevereiro de 2011 Blog do vinho | 00:37

Vinho, cinema e Oscar. Qual vinho combina com seu filme predileto ao Oscar de 2011?

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A combinação dos candidatos ao Oscar de melhor filme com alguns estilos de vinho.

A festa da transmissão do Oscar é como o show do Roberto Carlos na TV Globo. Tem todos os anos e os críticos sempre reclamam. Mas todo mundo assiste – e comenta. Mais ou menos como o malbec argentino… Os especialistas torcem o nariz, mas todo mundo compra – e bebe.

No domingo, dia 27 de fevereiro, calcula-se que cerca de 1 bilhão de espectadores deve grudar na frente da telinha para checar qual filme será o vencedor das telonas – e ainda saber quem vai levar para casa a estatueta de melhor ator, atriz, diretor. Por que não acompanhar a festa com uma taça de vinho na mão? O Blog do Vinho se propõe associar, da maneira livre, os dez títulos que concorrem ao Oscar 2011 a um estilo de branco, tinto, espumante ou fortificado. Uma espécie de harmonização de filme & vinho. Aí o aficionado pela sétima arte e pelos fermentados pode unir dois prazeres de maneira divertida.

Os filmes e os vinhos

“Cisne Negro” – Os conflitos  de uma bailarina, interpretada com maestria por  Natalie Portman, transformam o mundo da dança numa história de horror psicológico que mantém o espectador tenso do começo ao fim. No roteiro, o conflito da personagem principal é representado pelos movimentos singelos do cisne branco e pela sensualidade do cisne negro, pano de fundo do balé de Tchaikovsky retratado na obra.

Vinho para acompanhar – Em um filme onde a dualidade e a busca da perfeição são componentes que definem a trama, a escolha do vinho se dá por meio de uma uva caprichosa, a pinot noir, capaz de produzir dois vinhos de diferentes estilos: os elegantes borgonhas e os estonteantes champanhes O caldos da Borgonha têm alma feminina. A pinot noir é uma uva delicada, que gera vinhos que nunca são óbvios; a cor e os aromas sugerem delicadeza e elegância, na boca pulsa uma força impactante; seus sabores e aromas se revelam em camadas que passam do sublime ao surpreendente. A pinot noir também é a uva usada nos melhores champanhes, geralmente parceiros da branca chardonnay. Um tipo de champanhe porém tem a alma Cisne Negro, produzido somente da uva tinta pinot noir resulta no espumante Blanc de Noir. Pinot noir, uma uva Cisne Negro por excelência.

“Bravura Indômita” – Refilmagem do western de John Wayne, de 1969, sobre uma adolescente que contrata um oficial do Exército norte-americano bêbado para encontrar o assassino de seu pai.

Vinho para acompanhar – Um western talvez combine mais com um Bourbon do que com um vinho, mas mesmo neste campo também é possível uma “harmonização”.  Na Austrália é produzido um rótulo concentrado e parrudo, da uva shiraz, o Dead Arm, ideal para acompanhar pratos fortes. O nome representa uma doença que atinge algumas vinhas da vinícola. Um dos braços da videira morre lentamente, beneficiando o outro braço restante, que  acaba produzindo frutos concentrados e saborosos. Uma videira que supera as agruras da natureza e dá a volta tem uma pegada western, não?

“A Rede Social” – O filme conta a história de Mark Zuckerberg e a criação do Facebook. Os bastidores da montagem do site de relacionamento que todos nós usamos – e os conflitos pessoais dos nerds de Harvard que criaram a ferramenta e se tornaram milionários –  retratam pela primeira vez a geração internet no cinema.

Vinho para acompanhar – O filme registra alguns porres e algumas taças de vinho em seu roteiro. Um chardonnay amadeirado e bem cremoso, no estilo californiano, com aquela baunilha exalando pelas bordas da taça, é a companhia ideal para bebericar enquanto se acompanha os monólogos cínicos do personagem de Mark Zuckerberg –  e ao mesmo tempo digitam-se comentários no Facebook pelo celular. Este estilo de chardonnay Novo Mundo hoje é comum em todos o planeta, são assim alguns brancos desta uva produzidos no Brasil, no Chile, na Argentina, na Austrália, Itália, nos Estados Unidos e até mesmo onde menos se espera, como em Israel.

“Toy Story 3” – A animação computadorizada que revelou o cowboy Woody e o astronauta Buzz Lightyear tem seu no seu terceiro episódio sua história mais emocionante. O ritual de passagem da infância para a adolescência é visto aqui do ponto de vista dos brinquedos, que esquecidos em um baú são acidentalmente levados a uma creche repleta de outros brinquedos comandados por um urso do mal. Entre aventuras, fugas e cenas hilárias – como a dos personagens da Barbie e do namorado Ken – a animação conquista o público infantil e encanta o adulto.

Vinho para acompanhar – Afastem as crianças das taças, mas um Beaujolais Nouveau é o rótulo ideal para quem está torcendo pela animação na festa do Oscar. Elaborado com a uva gamay, é um vinho muito leve, frutado e feito para beber jovem. Um tinto  descompromissado como a adolescência, geralmente de rótulos alegres e coloridos. Dá até para imaginar Buzz Lightyear  com uma taça na mão vibrando: “To infinity and beyond!”

“A Origem” – No filme de estilo obra em aberto – e que cada um que tire sua conclusão -, Leonardo DiCaprio comanda uma equipe que invade os sonhos de pessoas para roubar de seu inconsciente segredos que possam ser utilizados por empresas concorrentes. O desafio do grupo é a encomenda inédita de invadir a mente de um cliente e implantar uma idéia. O início mais esotérico vai dando espaço a um filme de ação com fundo de drama romântico.

Vinho para acompanhar – Um vinho com uma tese a defender, como os biodinâmicos ou vinhos naturais – aqueles que dispensam a química, pregam um retorno às raízes (às “origens”, sacou?) e se baseiam no respeito aos grandes equilíbrios da natureza – são ao mesmo tempo representantes e antípodas de um universo que mistura os sonhos e a tecnologia, foco do roteiro de A Origem. Mas cá entre nós, os grandes representantes dos “bio” dariam um naco de seu vinhedo para entrar na mente dos consumidores e implantar a idéia da pureza e da superioridade de seus vinhos, né não?

“O Discurso do Rei” – A história é baseada na vida de George VI, rei da Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial, e seus esforços para superar a gagueira auxiliado por um terapeuta da fala de métodos pouco ortodoxos. O tema não parece ser muito empolgante, mas o filme de roteiro bem construído e interpretações afinadas tem seu favoritismo na premiação do Oscar.

Vinho para acompanhar – Nada mais britânico que um vinho do Porto, uma intervenção dos ingleses em solo português. Um filme tradicional como O Discurso do Rei exige um Porto Vintage de marcas que mostram a influência do Império Britânico até no rótulo, como Taylor’s, Dow’s, Niepoort, Warre’s e Sanderman. Um fortificado de sabor concentrado, requintado e elegante.

“O Vencedor” – O filme é baseado na história do campeão mundial de boxe Micky Ward e de seu irmão Dicky, um ex-boxeador viciado em crack. Dicky imagina que está sendo filmado para um documentário sobre seu retorno aos ringues, quando na verdade o objetivo é flagrar seu vício no crack.

Vinho para acompanhar – Filme de luta exige um vinho de musculatura, uva de macho. Um tannat uruguaio, com taninos presentes, que exigem  carne gordurosa como acompanhamento, é o parceiro recomendado entre um golpe e outro dos pugilistas.

“127 Horas” – A produção narra a história real do alpinista americano Aron Ralston, que precisou arrancar o próprio braço com um objeto cortante para se livrar de uma rocha que o prendeu por mais de cinco dias no Bluejohn Canyon.

Vinho para acompanhar –127 horas é um filme de deserto, muita rocha, seco, afiado e com uma tensão permanente. Um branco da uva riesling seco, de preferência alemão, corta como navalha, tem uma acidez presente, cítricos no nariz, um leve picante na boca. Além de todas estas características, trata-se de um fermentado com grande expressão de mineralidade, a pedra que se revela no vinho.

“Minhas Mães e Meu Pai” – A comédia azarão da festa traz Annette Bening e Julianne Moore como um casal de lésbicas cujos filhos buscam o pai biológico, um retrato bem-humorado das variações das famílias contemporâneas.

Vinho para acompanhar – O filme mais leve da premiação – com exceção do infantil  Toy Story  3 – é de temática gay. Não há bebida mais gay do que um espumante rosé, que reúne a festa das borbulhas com a exuberância da cor e o frescor dos aromas frutados. Um flute de espumante rosé para Minhas Mães e Meu Pai é a homenagem perfeita.

“Inverno da Alma” – A história gira em torno de uma família desestruturada em busca do pai desaparecido. A adolescente Ree, de 17 anos, tem responsabilidades de chefe de família. Com uma irmã e irmão pequenos, e a mãe com problemas mentais, ela é responsável por colocar comida na mesa e resolver problemas deixados pelo pai foragido. Para piorar a situação, o pai coloca a casa, localizada nas geladas montanhas do Missouri, como garantia de fiança de uma pena judicial. Ree enfrenta a barra e sai à  procura do pai-problema e no caminho é desafiada a se confrontar com o passado da família e encarar as regras e a ética próprias da comunidade local.

Vinho para acompanhar – O inverno na alma do titulo se refere tanto ao frio das montanhas, que exige sempre um gorro de lã na personagem principal, como à angústia que passa uma adolescente que carrega o peso das obrigações de uma mulher adulta. A indicação do vinho por similiaridade aponta para um icewine do Canadá. O icewine é um branco doce, de baixo teor alcoólico, elaborado com uvas colhidas congeladas.  A bebida, servida em temperatura de 8 graus, remete ao cenário do filme. A boca untuosa e o sabor forte do vinho, com um toque de mel, são forjados pelo frio. Frio da natureza, o frio da alma.

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Este colunista não é especialista em cinema, mas tem suas preferências. Talvez comece o show com um chardonnay amadeirado, seguido de um bom Borgonha. Mas não vai ficar triste em terminar a noite com uma taça de Beaujolais Nouveau.

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terça-feira, 13 de abril de 2010 Entrevista | 08:29

Nós viemos aqui para beber ou para conversar? Uma entrevista com o criador do Fórum Eno-Gastronomia, Mike Taylor

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O vinho, definitivamente, é uma bebida tagarela. Seus admiradores não se contentam apenas em prová-la. Têm uma necessidade quase atávica de escrever sobre o que se bebe. Se até alguns anos atrás estas  impressões eram registradas em cadernos que ficavam guardados na gaveta, hoje elas são públicas e se multiplicaram em blogs, fóruns e redes sociais.

O fórum, o avô das redes sociais, talvez seja a forma mais orgânica em que os fanáticos pelo fermentado rubro e branco debatem suas preferências, discordam da critica especializada e dividem conhecimento entre iguais.

Nestes espaços virtuais do vinho, ninguém é tratado com desdém por discutir  filigranas aromáticas ou questões como o selo fiscal, recentemente instituído pelo governo federal. As notas de Parker a um vinho, por exemplo, são discutidas com paixão de boleiro e argumentos  científicos. Novas safras são aguardadas com ansiedade adolescente, degustações são combinadas entre confrarias e a visita de certos enólogos é tratada com status de chefe de estado.

Nas redes sociais, a conversa é mais descontraída. O grupo do Orkut Adoro Vinho Tinto tem 182.255 membros, por exemplo. Nos Estados Unidos a comunidade social Must Love Wine tem 9.330 membros cadastrados e 135.000 seguidores.

Apesar de a discussão estar migrando para os facebooks e orkuts da vida,  Alguns  fóruns ainda sobrevivem.

Lá fora, megasite americano da revista Wine Spectator tem um fórum atuante. Assim como o site especializado Wine Lovers

Aqui no Brasil, o fórum mais atuante e talvez de maior repercussão é o Fórum de Eno-Gastronomia , mais conhecido entres seus integrantes como o Fórum do Mike. Criado em 2005 pelo consultor em vinhos e gastronomia Mike Taylor, hoje conta com  4.400 membros, muitos com participações diárias, responsáveis por cerca de 100 posts semanais.

Myke Taylor, o mediador do Fórum Eno-Gastronomia

Mike Taylor, do Fórum Eno-Gastronomia

Mike, 43 anos, vive e trabalha atualmente na Argentina, onde é consultor de vinícolas, recebe grupos e clientes interessados em conhecer as regiões produtoras da Argentina e do Chile além de coordenar o Grupo de Estudos e Degustação de Vinhos (GEDV). Na Argentina ampliou sua presença na rede e montou o Forum Vinogourmet, versão hispânica do Fórum de Eno-Gastronomía, que já conta com 3.100 membros.

Mike, em entrevista ao Blog do Vinho, defende: a livre discussão de idéias e a participação de lobbies e profissionais no seu fórum (“Tenho muito orgulho de contar com eles como membros”), o vinho nacional (Se há um vinho que me surpreende positivamente, esse é o brasileiro”), o consumidor nacional (“O brasileiro dá de dez a zero nos seus vizinhos argentinos”), mas é rigoroso com os blogs e críticos de vinho (“Tem muita gente que escreve para ser convidado de graça a eventos e degustações”). Recentemente, Mike se envolveu na polêmica sobre o uso do fungicida netamicina em alguns rótulos de Mendoza, o que  rendeu uma discussão acalorada na rede e no próprio fórum. “Não há evidências concretas que provem que houve má-fé por parte de alguns produtores argentinos”, defende. E sugere um protecionismo dos órgãos europeus ligados à vinicultura. “A Europa não consegue colocar muito vinho encalhado no mercado”. Leia a entrevista:

SOBRE O FÓRUM

Como foi a ideia de criar o Fórum Eno-Gastronomia?
Um amigo enófilo consultou-me, um sábado à noite, onde podia aprender sobre vinhos na internet. Eu indiquei uma lista de discussão muito popular naquela época, mas ele disse que só participaria de um fórum que fosse meu. Voltei para casa com essa ideia, e nessa madrugada de domingo criei o Fórum de Enogastronomía.

Quem é o publico que freqüenta o fórum?
Nosso fórum é freqüentado por enólogos, sommeliers, importadores, distribuidores, chefs de cuisine, enófilos e bon vivants que se sentem à vontade para discutir com outros gourmets apaixonados pela boa mesa.

A liberdade de expressão é a principal característica. Seguida da busca de conteúdo sério em matéria de enologia, com linguagem acadêmica, mas também expressada de modo acessível. Sempre procurei mostrar aos enófilos que vinho não é bicho de sete cabeças.

Existem lobbies do vinho de qualquer espécie participando do Eno-Gastronomia?
Sim. E tenho muito orgulho de contar com eles como membros. Acredito que os “caucus” e “lobbies” são proativos. Esses grupos não precisam estar escondidos. E considero que a venda, a livre oferta, não é pecado.

Não vejo nada de errado em que uma importadora publique um jantar ou degustação, ou que alguém venda seus vinhos no nosso fórum ou que um produtor divulgue as qualidades do seu vinho.

Tenho orgulho que enólogos como José (Pepe) Galante, do grupo Ex Catena Zapata, agora Salentein – Mapema, ou Aldo Biondolillo, da Tempus Alba, sejam membros ativos do meu fórum argentino.

Gosto se discute?
Gosto se discute, sim. O gosto, como as regras, mudam, mas há reações da físico-química no paladar que não se discutem. Então, se alguém insistir em comer um fruto do mar com um tinto encorpado sem considerar que os taninos do vinho  ao entrar em contato com o iodo e a saliva no paladar deixarão a sua boca com sabor metálico, está na hora de discutir o gosto.

Por que se escreve e se discute tanto sobre  vinho?
Como o vinho é por natureza paixão pela terra, pelo método, pelas tradições, pelo produto final, é natural que quem discute sobre vinhos seja passional e o debate acalorado.

A CRÍTICA E OS CRÍTICOS

Qual a importância da crítica internacional?

Aqui devemos separar o trigo do joio e vice-versa. Parker e a Wine Spectator de  um lado e Hugh Johnson, Jancis Robinson e a revista Decanter de outro.

O primeiro time, made in U.S.A. tem mostrado sérios problemas de credibilidade. O Parker envia pessoas como Jay Miller que dão 90 pontos até em água mineral com gás. Detalhe: recebem presentes e viagens de vinícolas.

Não nego o valor democratizador que Robert Parker teve na divulgação do vinho como bebida e não duvido dos benefícios. Mas é impossível achar que tem um supernariz… ainda que ele tenha segurado o mesmo em 1 milhão de dólares.

A revista Wine Spectator organizou um concurso fraudulento onde escolheu como melhor restaurante do mundo uma casa de Milão que não existia. Assim, não dá para você acreditar neles.

O Hugh Johnson, é um maestro de maestros. A Jancis Robinson é Master of Wine. São pessoas com muito estudo e formação. São esses os modelos que devemos imitar, o aperfeiçoamento, muito estudo. A revista Decanter, eu gosto, leio e acho confiável.

Gostaria também de mencionar um crítico muito interessante, o iconoclasta Gary Vaynerchuck, do site Wine Library.

Como avalia a crítica especializada no Brasil e os blogs de vinho?
Sempre digo que admiro Marcelo Copello pois ele está sempre estudando, se aperfeiçoando. Assim você pode ver a evolução dele, desde o primeiro livro onde era rigoroso demais com a pontuação dos vinhos, até o sistema que adotou quando foi editor da Revista Adega.

Já alguns supostos críticos brasileiros de vinhos têm me decepcionado muito, principalmente quando pessoalmente os vejo e ouço afirmar que um vinho chileno tipo “blockbuster” tem a elegância de um vinho da Borgonha…

O blog é um diário íntimo aberto a multidões. O blog não pode ser encarado como uma coisa definitiva. Boa parte não escreve, apenas copia, repassa, e muitas vezes nem menciona a fonte.

A Internet trouxe uma quebra de paradigmas. Hoje todo mundo pode ter um blog. Mas há de se ter conteúdo e dedicação para mantê-lo. Parece que em matéria de vinhos, não de enologia, as coisas ficaram mais flexíveis. Hoje você vê gente sem preparação acadêmica, que não são sommeliers, falando e escrevendo de vinhos. Isso é bom? Sim! Tem  um lado positivo, a democratização do conhecimento. A universalidade. Porém há muito boato e falácia.

Tem muita gente que escreve para ser convidado de graça a eventos e degustações, faz pose de entender alguma coisa, pergunta se a barrica é de primeiro ou segundo uso como se entendesse e percebesse a diferença.

Mas a culpa não é toda deles, é das importadoras, vinícolas e distribuidoras que convidam indiscriminadamente supostas pessoas que são ou serão formadoras de opinião.

Pessoalmente sou contra os eventos de graça. Muitos deles se convertem em celeiros de pessoas que procuram fazer uma boquinha.  Leia mais »

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