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sexta-feira, 12 de agosto de 2016 Blog do vinho, Brancos, Tintos | 00:01

Como escolher o vinho certo para o seu pai

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Família feliz de pais que curtem vinho…

Presentear os pais em seu dia é uma tarefa um pouco mais complicada do que, por exemplo, escolher um agrado para as mães. Quando o segundo domingo de agosto se aproxima sempre surge a dúvida: o que dar para o meu pai? Camisa, gravata, pijama? Socorro! Que tal um vinho? Uma garrafa de vinho é o presente curinga. É um produto com algum toque de sofisticação, um objeto de desejo em alguns casos, um desejo de consumo em outros e no geral causa uma boa impressão tanto em quem sabe a diferença entre um cabernet sauvignon e um merlot como naqueles que se aproximam de uma garrafa do fermentado apenas em ocasiões especiais.

Decidido o presente, vem o segundo passo. Qual vinho comprar para o progenitor em seu dia? Aí a rolha torce o gargalo. São centenas de rótulos, variedades e preços. Como acertar no vinho? Gosto é um sentido muito particular, é resultado do meio que se vive, de experiências gastronômicas, de conhecimento, e de um elemento mais subjetivo ainda, aquela associação entre o paladar e a memória. A escolha de um presente vem acompanhada também de um problema que afeta todos nós neste momento de crise financeira: a grana disponível para gastar no mimo.

Se você conhece o gosto do seu pai, a escolha é fácil, basta escolher a garrafa  na sua loja de confiança ou site preferido. Se não conhece seu gosto, você pode optar por uma solução diferente: escolher o vinho pelo tipo de experiência que seu pai tem com a bebida, ou mesmo baseado no momento atual de sua vida. O Blog do Vinho selecionou alguns perfis de pais possíveis e vai tentar te ajudar nesta tarefa: agradar seu velho.

Para o pai que raramente bebe vinho

Aqui o elemento surpresa e de introdução ao vinho é o diferencial. Ele pode até estranhar a escolha (“Não tinha uísque onde você comprou esta garrafa?”, ele pode pensar). Mas o objetivo é este mesmo, introduzi-lo ao universo dos tintos e brancos. Portanto, não vale a pena gastar muito dinheiro em um rótulo bacana, pois o seu pai não vai perceber a diferença entre um vinho premiado e outro do dia-a-dia. Talvez até prefira o segundo ao primeiro. A dica é escolher mais de um rótulo de até 40 reais de vinícolas nacionais, chilenas, argentinas, portuguesas  fáceis de encontrar em supermercados e em sites de compras. A propósito, com esta crise muitos rótulos entram em oferta próxima a estas datas e vale a pena ficar de olho. Vá de cabernet sauvignon chileno, malbec argentino, merlot nacional. Nestas condições você entrega no mínimo duas, três garrafas de presente. Se ele gostar da brincadeira e o vinho se tornar um hábito, no ano que vem você terá de consultar a sugestão seguinte…

Para o pai que é um bebedor eventual

Seu pai já curte uma garrafa aos domingos, ou com os amigos, mas sempre com aquele argumento de que gosta, mas não entende de vinhos. Aqui vale subir um pouco a régua de valor e qualidade, os mesmos brasileiros, chilenos, argentinos e portugueses (os rótulos mais consumidos no país). É fácil reconhecer, no geral eles têm um selo de reserva, informam no contra-rótulo um estágio em barricas. E o preço médio fica entre 60 e 80 reais. Se possível, tente descobrir algum rótulo que ele já provou e tem boas lembranças, para firmar um hábito.

Para o  pai que está começando a se interessar por vinhos

Seu pai já não é mais um principiante, lê revistas e livros sobre vinho e quem sabe é até leitor deste blog. Pode estar no limite entre o esnobismo (do tipo eu sei tudo) e o amadorismo (gira até copo de água), mas está evoluindo na percepção do gosto e descobrindo novidades Este é o presente que ele espera do seu filho, até como reconhecimento desta sua nova habilidade. Se o seu pai já tem uma adega, consulte os rótulos armazenados, eles podem dar uma dica de suas preferências. Outra saída é procurar algo diversificado, que aumente sua qualificação de  degustador de vinhos, como por exemplo um rótulo do Líbano, uma região menos conhecida da Espanha, como o Priorato, um branco na Eslovênia, ou um vinho laranja, que virou uma certa “modinha” entre os conhecedores nos últimos tempos. Outra opção é escolher um vinho de uma região menos óbvia de um país mais conhecido, como Salta e Patagônia, na Argentina.  Não é difícil achar estes rótulos nos sites e lojas de boas importadoras como Mistral, Decanter, WordWine, Inovini, Grand Cru, Vinci

Para o pai que é especialista

Aqui temos um problema. Todo mundo tem sempre a mesma ideia, afinal papai é um enófilo juramentado, capaz de distinguir um vinho pelo aroma, que reconhece a região pelo rótulo e é capaz de recitar de cor as principais cepas de cada país. Ou seja, para o resto da família papai é um enochato e presentear com uma garrafa pode significar se arriscar em terreno minado. Se você tem dinheiro disponível, a solução é fácil, vá até uma boa loja multimarcas ou sites de importadoras e procure aqueles rótulos com boa pontuação de Robert Parker, Wine Spectator, Gambero Rosso, Decanter etc e aí não tem muito erro (a não ser que ele seja daquele tipo off Broadway, que detesta os críticos de vinho famosões). Se a grana está curta, um conselho, esqueça o vinho e parta para um produto relacionado, por exemplo um bom livro sobre o tema. A chance de você receber um sorriso amarelo diante de um rótulo mais ou menos é muito grande para arriscar seu rico dinheirinho. Outra opção são as acessórios de vinho, uma espécie de brinquedo do enófilo de carteirinha

Para o pai que defende causas verdes

Há vinho para todo estilo de gente. Pais verdes, militantes do planeta e que nem por isso abdicam de uma boa taça de vinho têm uma forte relação com produtos orgânicos e biodinâmicos. Estes tipos de vinho são certificados e seguem algumas regras mínimas: como buscam um vinho mais natural, não usam defensivos agrícolas – apelam para recursos naturais para controle de pestes -, evitam aquelas garrafas muito pesadas, são contra uso de leveduras de laboratório e outros artifícios químicos para correção das safras. Como conceito, o vinho é um produto da natureza e qualquer interferência é condenada. Já os biodinâmicos têm uma relação mais etérea com o cosmo, as estrelas, as fases da Lua e o ciclo da terra. Pode até parecer papo alternativo mas é uma tendência que vem crescendo na indústria do vinho e o resultado de fato surpreende no sabor e aromas menos fabricados e mais instigantes. Para pai verde, um vinho odara! É fácil reconhecê-los, no geral eles alardeiam seu diferencial orgânico ou bio no próprio rótulo.

Para o pai que é estrangeiro ou morou no exterior

Se existe a escolha do vinho por tipo de consumidor, também existe a decisão por afinidades. Pais nascidos em outro país ou que viveram um período fora do Brasil provavelmente vão ter uma afinidade afetiva com caldos de sua origem – ou que remetam a um passado estrangeiro. Pais italianos, portugueses, espanhóis, franceses, chilenos e argentinos estão bem servidos de rótulos no país, e mesmo aqueles libaneses, austríacos, alemães também podem ser contemplados. O Brasil importa vinhos de mais de 25 países. É fácil encontrar um que combine com as origens de seu pai. Em geral eles estão organizados por país nas prateleiras das lojas e nos sites de vinho. É uma maneira bacana de reforçar os laços que envolvem suas raízes. E uma boa desculpa para abrir um vinho com o velho, em memória dos bons tempos… Já se seu pai é japonês, chinês ou russo melhor desistir desta alternativa.

 

Se o seu pai é separado de sua mãe

Se a separação é recente, aposte num tinto encorpado, meio alcoólico, um vinho meio cowboy, quase mastigável, com forte presença de aromas tostados de barrica, daqueles que sua mãe certamente iria odiar. Serão dois prazeres em uma só garrafa. Geralmente são aquelas garrafas pesadonas, malbecs argentinos, tempranilos da Rioja, tannat uruguaios. Tanto melhor se forrem desarolhados junto a um suculento naco de picanha sangrando… Um momento ogro das vinhas.

Para o pai que resolveu assumir que é gay – ou que é gay

Se eventualmente seu pai resolveu sair da adega, então por que não brindar esta opção corajosa do velho com uma garrafa de vinho? Ou mesmo se o seu(s) pai(s) são gays. A ordem do dia é a diversidade de gêneros. Um pai gay merece um espumante rosé nacional – são ótimos -, ou mesmo um champagne, que é a bebida da celebração. Claro que não se trata de uma bebida exclusiva para gays, mas é uma maneira bem-humorada de presenteá-lo e curtir sua opção sexual com um brinde animado.

Para aproximar a relação com seu pai que está estremecida

Pais e filhos são humanos, demasiadamente humanos, e nem sempre a relação é boa. Se o vinho aproxima as pessoas, ele pode também resgatar uma relação familiar que o tempo, por alguma razão, arranhou. Um porto envelhecido, do tipo Tawny, ou de safras exclusivas, do tipo Vintage, são a dica. São fortificados intensos, chamados vinho de meditação, que acompanham bem um charuto e são o elixir da boa conversa. Pode ser um bom empurrão para uma aproximação entre vocês, um momento em que as fraquezas e fortalezas desta relação podem ser aplainadas. Afinal é um consenso entre os bebedores que vinho é para ser compartilhado. E você e seu pai merecem este tempo mais esticado para passar a vida  a limpo, entre um gole ou outro de um Porto.

O melhor vinho que tomei com meu pai

Meu pai (91), eu (52) e um brinde de um Marques de Casa Concha (40)

Meu pai (91), eu (52) e um brinde de um Marques de Casa Concha (40)

O prazer do vinho também está associado à companhia, ao momento, ao entorno. Neste dia dos pais, e em todos que puder, tome um vinho com o seu. E aqui vai minha experiência. O rótulo chileno Marques de Casa Concha, da vinícola Concha y Toro,  comemora 40 anos este ano – foi lançado em 1976. Em vez de simplesmente reunir críticos em uma degustação tradicional convidou alguns clientes, especialistas e amigos para compartilhar algumas garrafas da marca em um jantar no Terraço Itália, tradicional restaurante paulistano,  na companhia de seus pais. Foram servidas três variedades: chardonnay, carmenère e cabernet sauvignon (meu favorito e mais tradicional). Depoimento sincero. Olha, eu já tomei o Marques de Casa Concha em diversas ocasiões: na companhia do seu enólogo principal, Marcelo Papa, que há dez anos elabora os tintos e brancos desta clássica linha; na própria vinícola, próxima de Santiago, no Chile; em almoços em casa e jantares de lançamentos de safras em restaurantes. Mas não tem igual, brindar com meu pai foi outra experiência. Foi o melhor Marques da minha vida, aquele que brindei com meu velho e outros filhos e filhas, acompanhados dos seus. Você não vai perder a chance de brindar com o seu, vai?

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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014 Novo Mundo, Tintos | 10:28

Weinert, um vinho argentino para quem gosta de tintos mais envelhecidos

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Cavas de Weinert, em Mendoza, Argentina: um vinho com tempo de garrafa

Cavas de Weinert, em Mendoza, Argentina: um vinho que já nasce com anos de adega

O que têm em comum um brasileiro que montou uma vinícola em Mendoza, um enólogo suíço que atravessou o mundo para fazer vinhos na Argentina, um argentino que prepara as empanadas mais deliciosas da região e um jornalista paulista que teve sua mala inundada por uma garrafa de vinho que espatifou dentro da mala? A Cavas de Weinert.

Parada obrigatório das fotos: barrica de 150 anos e com malbec 2013

Parada obrigatória para fotos: tonel de 130 anos, 44 mil litros, e  malbec 2013

Um brasileiro em Mendoza

A Bodegas y Cavas de Weinert é uma criação do brasileiro Bernardo Weinert, chamado de “Don Bernardo” na Argentina. O empresário de origem alemã e nascido em uma pequena colônia no sul do Brasil resolveu ter um vinho para chamar de seu em meados da década de 70 e após alguma pesquisa escolheu os solos de Luján de Cuyo, em Mendoza, Argentina. Adquiriu uma cantina construída em 1890, fez as reformas necessárias, estabeleceu um estilo para os vinhos (a marca registrada é de envelhecimento por no mínimo dois anos antes de lançar no mercado) e colocou os rótulos à venda a partir de 1976. Em 1995 uma nova reforma adequou os equipamentos as mudanças e avanços tecnológicos. Há dois anos a empresa teve a entrada de novos sócios. Uma visita pela cantina (há vários horários durante a semana) revelam entre seus corredores escuros de pedras gastas pelo tempo grandes tonéis de carvalho e pilhas de garrafas empoeiradas, ainda sem rótulo, apenas com uma placa indicando a safra. Um enorme tonel de 130 anos, adquirido na Itália, é o foco das câmeras dos celulares e ponto alto da visita. O bichão tem capacidade para 44 mil litros, e vale algo como 240 mil euros, está instalado desde 1998 e ainda é utilizado. Nestes tóneis – também conhecidos como foudres – e garrafas repousam o segredo e o diferencial da Weinert: o tempo de maturação dos vinhos que lhe confere um perfil de tinto mais evoluído, do velho mundo. Ou como eles se definem, uma bodega de vinhos de guarda.

Hubert Weber: e a provas dos noves (vinhos)

Hubert Weber: o enólogo que veio da Suíça e a prova dos vinhos (o sem rótulo é de 1978)

Um suíço em Mendoza

O mestre de cerimônias e responsável pela elaboração dos vinhos também não tem um sobrenome muito mendocino. Hubert Weber é suíço. Está na Cavas de Weinert há 18 anos. Um vinho em especial o trouxe para o outro lado do Atlântico. Em 1991 Hubert provou um Cavas de Weinert Gran Vino numa feira em Berna e se apaixonou pela bebida. Sabendo de seu interesse uma amiga conseguiu contato para ele trabalhar na Bodega na Argentina. Hoje em dia Hubert abre com orgulho as garrafas da Weinert para mostrar os caldos onde aplica seus conceitos de enologia. “Não vim aqui para mudar a filosofia da casa, ao contrário, vim por causa dela”, explica. “Fiz poucas mudanças, o principal foi manter e respeitar o estilo do vinho”.

Os vinhos da Cavas de Weinert, de Mendoza

Por estas características todas, os rótulos da Weinert vão agradar aqueles que gostam de tintos mais envelhecidos, maduros, com boa evolução de aromas e diversidade no gosto das frutas, com toques de couro, canela, tabaco, terroso, enfim aqueles aromas do tempo em garrafa e influência de tonéis de carvalho – conhecido no jargão como terciários. O mais legal é que o consumidor não precisa aguardar para curtir estas características, as garrafas são lançadas já com certa evolução. E é possível comprar safras anteriores. Haviam 1500 garrafas do Carrascal 1978 em estoque, por exemplo. E podem ser compradas por 120 dólares.

A linha de entrada, Pedro del Cartillo*, é um bom cartão de apresentação dos tintos da Weinert. O tempranillo da safra 2013, de vinhas de 40 anos, tinha uma boa pegada de fruta e de terra. O cabernet sauvignon 2012 estava mais fechado, um toque de especiaria estava lá, no entanto, os taninos precisam de um pouco mais de tempo para amaciarem. O malbec 2012 vai mais para o lado da fruta fresca, como cerejas, é macio e fácil de beber.

Carrascal 2009: pronto para hoje, amanhã e depois

Carrascal 2009: pronto para hoje, amanhã e depois

A linha seguinte, a Carrascal, vem de vinhedos de 30 a 60 anos de Luján de Cuyo. É uma mescla de malbec (45%), merlot (35%) e cabernet sauvignon (20%). Passa dois anos em tonéis grandes de carvalho. Provamos a safra 2009. O tempo já mostrou seus efeitos de evolução da fruta madura e negra integrada com o carvalho, um licoroso chega junto no final de boa intensidade. No Brasil estará em torno de 60 e 65 reais. Não gosto do termo, mas é um belo custo-benefício.

Zezinho, Huguinho e Luizinho: varietais de malbec, merlot e cabernet sauvignon

Zezinho, Huguinho e Luizinho: varietais de cabernet sauvignon, malbec, merlot de 2006

A linha varietal é mais seletiva e, claro, procura expressar o potencial da carreira-solo de uma variedade. Hubert comenta que é raro ter na mesma safra três rótulos de três variedades no mesmo ano no mercado. Por exemplo, em 2005 não teve merlot. Mas em 2006 estão disponíveis os varietais merlot, malbec e cabernet sauvignon. São todos bons tintos, meus comentários no bloco de notas (um iPad, na verdade) foram superlativos. Para o merlot: velho estilo, de impacto terroso, ótima acidez, corpo médio, umas flores chegaram numa segunda fungada. Para o malbec: baita ataque no nariz, flores, frutas (ameixa madura), final estupendo, couro, canela, sândalo (sândalo? Pois é, pela primeira vez senti isso num vinho). Para o cabernet sauvignon: chocolate, fruta negra, couro, taninos fortes mas evoluídos, vinhaço para beber e namorar os aromas de fim de taça. Os varietais – note bem, da safra 2006, já chegam com 8, 9 anos nas costas – custam entre 100 e 110 reais no país da alta carga tributária. Não precisa falar onde, né?

Cavas de Weinert Gran Vino 2004: não leve na mala...

Cavas de Weinert Gran Vino 2004: beba na origem, não leve na mala…

E para o final o Cavas de Weinert Gran Vino 2004, um ícone, mas que ao contrário de muitos de seus pares não é pesado, feito para tomar com garfo e faca. Aqui a cabernet sauvignon e a malbec disputam a mescla com 40% cada uma, sobrando 20% para a merlot. Passa três anos em barricas. Prima pela elegância, atributo um tanto difícil de explicar mas fácil de entender no copo. Um nariz que até deixa um pouco zonzo, um licor de cereja que começa no aroma e se traduz em boca, tostados finos, muita fruta, um champignon, final longo, persistente. Esta belezinha de 2004, lá se vão 10 anos, chega às prateleiras por volta de 150 e 160 reais.

Diferente da maioria das vinícolas que se orgulham de contar com vinhedos próprios, a Weinert compra todas as uvas. “Compro apenas o que necessito”, ensina Hubert Weber. São uvas das variedades malbec, cabernet sauvignon, merlot (90% do total), complementadas com syrah, bonarda, tempranillo e cabernet franc – esta última com destino certo, a Suíça. A colheita é feita à mão e uma relação antiga com os produtores permite uma pré-seleção dos cachos. Os vinhedos onde Hubert vai às compras são todos antigos, de solo argiloso e de pé franco (ou seja, não tem enxerto na raiz; traduzindo, traz maior autenticidade à uva). E quando não considera a safra com a qualidade ideal, simplesmente não compra e não produz os vinhos naquele ano. É o que aconteceu com a safra de 2014. Mas e aí, como faz?, pergunto eu. “Não faz”, responde ele, “temos uma adega com capacidade para 3 milhões de litros, e atualmente temos 900 mil litros dentro de casa. Esta é a filosofia da Weinert”

Empanadas, empanadas, empanadas, alguém quer empanadas?

Empanadas, empanadas, empanadas, alguém quer empanadas?

Um mendocino (e suas empanadas) em Mendoza

Assim que terminamos a prova dos principais vinhos, foram servidas umas empanadas (na foto quase dá para sentir seu perfume quente) feitas por um mendocino vizinho à bodega. Sugestionado ou não pelo ambiente, pelos vinhos provados e pela surpresa final –  um Carrascal 1978, engarrafado em 1982 e com aromas de tabaco e evolução deliciosa do tempo, mas muito vivo na boca -, elegi como as melhores empanadas da minha vida, e a partir desta data a harmonização perfeita para um Carrascal.

Malbec 2009, esperando seu tempo de ganhar as prateleiras

Malbec 2009, esperando seu tempo de ganhar as prateleiras das lojas

Um brasileiro em Mendoza

O jornalista que teve sua mala alagada por um vinho, meio óbvio, é este que vos escreve, que trouxe em sua bagagem, devidamente protegido em um desses sacos de plástico-bolha uma garrafa do Cavas 2004 Gran Vino. A garrafa era uma lembrança da visita realizada à cantina de “Don Bernardo”, escoltada pela cativante Hubert Weber, onde provei os rótulos da Weinert acompanhados das inesquecíveis empanadas. A ampola, que ia repousar mais um tempo na minha humilde adega, não resistiu ao delicado serviço de bagagens do aeroporto e trincou uma parte do vasilhame. Se tive o azar de perder o precioso líquido que tingiram minhas roupas (literalmente uma camiseta branca ganhou tons de vinho…), a boa notícia é que a partir do primeiro trimestre os rótulos da Weinert voltarão a ser importados ao Brasil, agora pelas mãos da Mercovino. Esqueci de comentar no início, os vinhos da Weinert não estavam sendo importados para o Brasil nos últimos anos, mas encontram-se algumas garrafas em lojas especializadas. Devem estar disponíveis nas prateleiras no primeiro trimestre de 2015. Os preços citados neste texto são os sugeridos pela operação da Weinert no Brasil para o momento, enquanto o dólar se encontra neste patamar de 2,60/2,65. *A linha Pedro del Cartillo ainda está em negociação se entra ou não neste pacote de importação.

 

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terça-feira, 4 de novembro de 2014 Brancos, Novo Mundo, Tintos | 08:30

Bons goles argentinos: o conhecido Luigi Bosca e o menos conhecido Familia Cassone

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Os vinhos argentinos são um sucesso no Brasil. Só ficam atrás dos chilenos em volume – o que não impede que grupos chilenos tentem morder uma fatia a mais do mercado ao investir também na Argentina, como a Trivento e a Kaiken. Alguns rótulos argentinos já são bastante conhecidos entre os consumidores, como o Luigi Bosca, outros tantos ainda precisam ser desbravados, como os rótulos da Família Cassone. As duas vinícolas são tema deste post.

Por isso mesmo é comum a visita de enólogos e produtores ao Brasil para exibir seus vinhos em degustações, almoços, feiras e eventos. Os predicados são sempre poéticos (fruta, flores, tostados, macio, envolvente, etc), mas eles estão atrás mesmo é de mercado.

Para isso os produtores esmeram-se em mostrar seus vinhos mais elaborados, aqueles que exibem como um troféu, símbolo da qualificação de seus cachos de uvas maceradas e fermentadas. Se a isca funciona para chamar atenção, nem sempre revelam o melhor custo-benefício, ou o mais inusitado e surpreendente. Por dois motivos simples:

1. Estes vinhos top são muito mais caros, e por isso mesmo pouco acessíveis à maioria dos consumidores e incautos leitores deste blog

2. E por serem o topo da cadeia alimentar têm quase a obrigatoriedade de serem, no mínimo, bons. E geralmente são ótimos. Beberia todos os dias da minha vida se fosse possível. Mas não é disso que se trata.

Ocorre que junto à exibição dos seus rótulos pesos-pesados (geralmente tintos), outros vinhos são mostrados, como uma espécie de “esquenta” para a grande atração. Pois é neste prefácio que, muitas vezes, os caldos mais surpreendem. É preciso, pois, provar com atenção todos os vinhos.

Recentemente dois produtores vieram mostrar de seus vinhos. O conhecida Luigi Bosca e o menos conhecida Familia Cassone. Após provar seus vinhos verifiquei mais uma vez o raciocínio descrito acima (isso vale para o Chile também, mas fica para outra coluna)

Luigi Bosca

O motivo da visita de Alberto Arizu, comandante em chefe da vinícola da família, a Luigi Bosca, foi uma vertical (a prova de várias safras de um mesmo vinho) do tinto Ícono. Foram cinco safras, da primeira de 2005 até aquela que nem está ainda no mercado, de 2009. Trata-se de um vinho excepcional, de vinhedos com mais de 90 anos das regiões de Luján de Cuyo, Vistalba, Las Compuertas e Finca Los Nobles e da mistura das variedades malbec (60%) e cabernet sauvignon (40%), sempre nesta proporção. As fermentação é feita em separado, de cada vinhedo e a degustação às cegas de cada terroir decide o corte final. É bárbaro! “Um equilíbrio entre a elegância e a potência”, segundo Arizu, que bebeu todas as taças até o fim, o que é raro entre os produtores que vêm mostrar suas crias. A boa nova para os bebedores de vinhos desta categoria é que a safra que está no mercado, a de 2008, está prontíssima para beber. Mas… para ter na adega uma das 6.000 garrafas produzidas deste caldo por ano é preciso desembolsar 500 reais, o que nos remete aos pontos número 1 e 2 acima.

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Por um quinto deste preço (R$ 114,00), a mesma Luigi Bosca elabora um malbec de vinhas também antigas que é o bicho!  Malbec Terroir los Miradores 2011. Já tinha provado este vinho em primeira mão em viagem a Mendoza este ano. Este segundo gole confirmou minhas primeiras impressões. Encorpado, mas com alguma frescura a acidez, ótima fruta, final longo. Macio. Coisa fina mesmo, e o rótulo, que mostra a raiz se aprofundando no solo representa bem a importância do solo (aluvial).  “É importante a Argentina mostrar a importância e relevância do terroir”, indica Arizu.

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E se a ideia for algo que abra o paladar para novas sensações, a dica é um riesling surpreendente de vinhas de 60 anos. Riesling Las Compuertas 2014. Floral no primeiro impacto, com muita fruta cítrica no nariz um toque de maça verde (zero da clássica descrição de “notas de petróleo”), na boca confirmam o cítrico e o pêssego envolvidos numa acidez que alarga o vinho no paladar e traz aquela salivação gostosa. R$ 86,00

Os vinhos de Luigi Bosca são vendidos pela Importadora Decanter

Familia Cassone

Meu primeiro contato com os vinhos da Familia Cassone foi em abril de 2014 no Encontro de Vinhos Off, organizado pelos competentes Beto Duarte e Daniel Perches. É aquele esquema de sempre, de um lado o produtor oferecendo seus tintos e brancos e do outro os consumidores curiosos estendendo a taça para conhecer os vinhos. No geral o paladar costuma dar “tilt” depois de vários goles meio sem critério, tamanha oferta de rótulos. Fui lá com minha taça, atraído pela mescla de cabernet franc – uma uva que sou fã – junto com a malbec e syrah de seu rótulo principal. O nome é meio presunçoso: Obra Prima Maximus Gran Reserva Familiar. Mas mostrou a que veio este gladiador de Mendoza. A safra 2011 levou 95 pontos do conceituado Guia Descorchados e a de 2008 90 pontos do Parker. Provei outros vinhos, seus malbecs, e cabernet sauvignon e no meio de tantos produtores foi uma marca que ficou na lembrança. O responsável pela operação brasileira, Marcelo Cassone, é daquele tipo que vende areia para camelo e fala e gesticula até convencer o consumidor. Acabei levando umas garrafas para casa.

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Recentemente a Familia Cassone veio a São Paulo apresentar toda sua linha e o braço brasileiro da operação: 80% da produção é exportada e o mercado brasileiro é sempre importante. Os destaques eram o já comentado Obra Prima Maximus Gran Reserva Familiar 2011, que realmente é um belo trabalho do enólogo Federico Cassone, que na contramão da presunção do nome do vinho é de uma simplicidade cativante. O que vale é o vinho, não tem muita mistificação. E o vinho tem aquela boa potência, estrutura, 18 meses de barricas de primeiro uso, frutas, especiarias, mas tudo na medida que se encaixa num fim de boca muito atraente e macio. É o topo de linha da Família Cassone, e nem chega a ser tão caro assim (R$ 230,00). Mas…

Blend

…mas mais uma vez o que me encantou foi um outro rótulo que Federico trouxe na mala, que chegará em breve ao Brasil. O Obra Prima Blend Reserva 2012. Um blend de malbec (65%), cabernet sauvignon (20%) e cabernet franc (15%). Também uma expressão dos vinhedos de Luján de Cuyo, em Mendoza, mas mostra um caminho de leveza e fruta mais fresca que o enólogo vai impondo aos vinhos da casa. Aquele frescor que começa a ser privilegiado em alguns tintos sul-americanos (leia O Novo Vinho Chileno, mas gastronômico, mais natural) aliado a uma fruta gostosa, mais pura, menos pesada. O assemblage faz um balanço das frutas e a violeta do malbec se combina com uma amora do cabernet sauvignon (ou seria do cabernet franc?), um toque defumado e um tantinho herbáceo do cabernet franc. Um vinhaço que custará R$ 107,00 nas gôndolas de delicatessens e grandes lojas (não serão vendidos em supermercado)

 Os vinhos da Familia Cassone são vendidos pela BFC/Brasil 

 

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