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quarta-feira, 23 de março de 2016 Brancos, Velho Mundo | 10:39

Vinho verde e bacalhau

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Bacalhau à Brás & Alvarinho: afinados como uma dupla sertaneja

Vinho e bacalhau é a parceria ideal. E na sexta-feira Santa aumenta o interesse pelo tema. Há os que preferem os tintos (os portugueses, por exemplo), e aqueles que privilegiam os brancos (no caso este que vos escreve). O post de maior consulta neste blog é justamente aquele que coloca esta preferência em questão: Vinho e bacalhau: tinto ou branco?  Como uma dupla sertaneja, o peixe (bacalhau é peixe?) e o vinho se complementam: o primeiro assume a voz principal e o segundo faz a segunda voz, apoiando o prato. Um não vive sem o outro.

Para testar o papel do vinho nesta combinação de tons agudos e graves, este blog aceitou o desafio proposto pela Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV) e testou na prática a harmonização de três rótulos de vinho verde, da uva alvarinho, com um prato de bacalhau. Para este colunista trata-se de levar a experiência para o leitor em busca de alternativas. Para a CVRVV, que trabalha numa campanha de marketing que associa os vinhos verdes a “Um mundo mais refrescante”, mais leve e mais espontâneo, a aposta é no consumo de mais vinhos da região, claro. Cada um no seu quadrado. Ao eventual leitor cabe a decisão se a proposta funciona ou não.

Vinho verde tem cor verde?

Meu filho mais novo outro dia topou com uma caixa de vinhos verdes em casa e fez aquela observação comum àqueles que depararam com o termo pela primeira vez: “Pai, vinho tinto, branco e até rosé eu conheço, mas existe vinho verde também?”. Existe, mas claro que não é verde.

O Minho, localizado no noroeste de Portugal, é o cenário da região conhecida como do vinho verde. Respondendo à dúvida do meu filho – e talvez de alguns leitores -, o verde apenas dá nome à região e não descreve a cor da bebida (pode até pintar um vinho branco com reflexos esverdeados, mas acho que seria bastante estranho um vinho cor verde-abacate, por exemplo). A explicação do nome é até bem sem graça. O elevado índice de chuvas (em média 1200 mm.) proporciona uma vegetação exuberante e verdejante, e daí o nome verde. Outra versão, que carece de precisão, diz que as uvas eram colhidas ainda verdes por conta das chuvas o que daria o nome à região. Há ainda aqueles que contrapõem um vinho jovem, característico da região  (chamado de verde em Portugal) àquele que é mais maduro.

Seja o que for, a produção de vinhos na região é predominantemente de brancos – mas também se encontram rosés, espumantes e até tintos (na boa, são bem difíceis estes últimos). Vamos ao que interessa: a despeito das outras variedades, os vinhos que fazem a fama do lugar, e são reconhecidos no mundo, são os brancos.

O que se pode esperar de um vinho verde? Eles são frescos, aromáticos, de baixo índice alcóolico (média de 12,5%), produzidos com uvas nativas e na sua grande maioria feitos para beber ainda jovens. Naqueles mais populares e fáceis de beber é percebida uma agulha, um tanto de gás que proporciona aquela sensação de uma bebida frisante e um toque mais doce de açúcar residual.

Para aqueles que sempre questionam o consumo do vinho branco no Brasil, que de fato é pequeno, o vinho verde mostra musculatura na ex-colônia. São exportados para o Brasil mais de 2 milhões de garrafas por ano. O crescimento entre 2004 e 2014 foi de 300%! Nada mal.

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Os três rótulos à prova: frescor na taça

Três alvarinhos e um bacalhau

Alvarinho é a principal casta do vinho verde e a mais expressiva. Se caracteriza por acidez marcante, aromas de frutas brancas como pera, maça, algo cítrico e muita flor. Produz rótulos de extremo frescor, secos e aromáticos, para serem bebidos logo.O alvarinho também é a espinha dorsal de brancos que, com algum tempo de garrafa, apresentam uma bela evolução, com maior persistência em boca e boa estrutura.

Os três vinhos verdes provados revelaram perfis variados da alvarinho: frescor, persistência e mineralidade.

Importante, um vinho verde deve ser servido numa temperatura mais fresca, em torno de 10 a 12ºC.

Os pratos, na sequência foram:

 

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Quinta da Lixa – Alvarinho -2013
Vinho Regional Minho
Produtor: Quinta da Lixa
12,5% de álcool
Importador: Pão de Açúcar
R$ 60,00

Esta edição da Quinta da Lixa é um rótulo exclusivo do grupo Pão de Açúcar. Eu gosto de vinhos de supermercados, têm uma ampla distribuição e são mais fáceis de encontrar. É um alvarinho seco, de acidez presente – traz aquela salivação gostosa -, refrescante, fresco, jovem (como tem de ser) e com uma maçã verde e um citrino no aroma que se confirmam na boca. É um vinho verde por excelência. Delicioso, fácil de gostar. Perfeito para começar a brincadeira, uma segunda voz adequada para a salada, talvez para uma brandade, mas apanhou das postas do bacalhau à bras e do creme que o envolvia o prato.

Outros vinhos verdes mais populares, e de menor preço, como os onipresentes Casal Garcia e Calamares, também me parecem se enquadrar neste perfil, mesmo que num patamar abaixo. Nestes dois campeões de venda o toque frisante é bem acentuado, o açúcar residual também. Entregam jovialidade e frescor e ficam melhor para iniciar os trabalhos, mas podem ser abafados pela voz superior do bacalhau.

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Morgadio da Torre – Alvarinho – 2014
Denominação de Origem Controlada – Sub Região de Monção e Melgaço
Produtor: Sogrape
12,5% de álcool
Importador: Zahil
R$ 200,00

Um alvarinho mais imponente, de maior estrutura e que faz parte do batalhão de elite dos vinhos verdes. A subregião de Monção e Melgaço apontam para uma qualificação da bebida. Alia a acidez típica da casta a uma untuosidade que envolve a boca e traz aromas de frutas brancas e com um longo final. Sua persistência e volume combinaram com perfeição à cremosidade do molho e das postas de bacalhau. A dupla perfeita, cada qual no seu tom. O preço não é o mais acessível, mas o prazer compensa o investimento. Com a salada atravessa o prato.

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Via Latina – Alvarinho – 2013
Denominação de Origem Controlada
Sub-região de Monção e Melgaço
Produtor: Vercoope
12,5% de álcool
Importador: Orion Vinhos
R$ 65,00

A safra mais antiga entre os rótulos do Alvarinho provados. Na taça a cor já apontava para uns toques de evolução que se confirmaram na boca, aromas cítricos discretos e um toque mais mineral. Outro rótulo da subregião de Monção e Melgaço. A casta alvarinho em alguns momentos me lembra o perfil de um riesling mais fresco. Foi o caso desta Via Latina 2013, com seu final delicado, um toque mais doce. E quanto ao bacalhau? A parceria funcionou bem, sem se sobrepor ao seu sabor, acompanhando o seu ritmo, talvez com um compasso atrás. Um belo custo-benefício.

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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016 Brancos, Tintos, Velho Mundo | 00:59

Vinhos portugueses: o Dão, o Douro e a dor de dente (parte 2)

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Os 50 tons do Douro e seus vinhos importantes

Na primeira parte deste post “Vinhos portugueses: o Dão, o Douro e a dor de dente (parte 1)”, o relato chegou até a região do Dão e contou a prova de tintos, brancos e um rosé realizada no Solar do Vinho do Dão. Não leu? Clica ali em cima e dá uma olhada. Na abertura da primeira parte, tentei resumir a viagem a Portugal numa frase que cabe em  um Twitter: “Os vinhos do Dão são elegantes, os do Douro, importantes, e dor de dente… ah isso ninguém merece.” Nesta segunda parte, voltamos ao giro pelos vinhedos e vinhateiros portugueses, mas agora a bússola está apontada para a região do Douro – um lugar que reúne história, diversidade, beleza e vinhos deliciosos. E a dor de dente? Eu esclareço no final.

 Os 50 tons do Douro

Numa escala de 0 a 100, como medem os críticos em suas pontuações de vinhos, a paisagem do Douro alcança fácil a nota máxima. Se o conceito de terroir é junção da geologia, da geografia, do clima e da ação do homem no vinhedo, o Douro é uma confirmação de sua existência. As colinas se sobrepõem em camadas, numa cadeia de elevações e declives que  lambem as margens do Rio Douro. As videiras são plantadas em terraços esculpidos no solo xistoso e talhados pela mão do homem durante séculos a fim de domar as características do terreno e evitar a erosão do solo. O sol atinge de maneira diversa as uvas de acordo com a posição em que são plantadas as videiras neste terreno sinuoso e ao mesmo tempo deslumbrante. Para os visitantes motorizados, o conselho “se dirigir não beba” é quase um redundante apelo à sobrevivência, pois mesmo sóbrio, as curvas, descidas e subidas são um desafio até para o motorista mais atento. Arrume, pois, um motorista, contrate um táxi, pois é impossível não beber no Douro. O Douro é importante, é imponente e produz vinhos espetaculares.

O Douro em 10 destaques

marco-pombalino1. O Douro é a primeira região demarcada de vinho do Mundo. Foi criada em 1756, por iniciativa do Marques de Pombal, que visava equilibrar o déficit do Estado com a venda do vinho do Porto, que já conquistara um mercado global importante no período. Entre 1757 e 1761 marcos de granito – conhecidos como marcos pombalinos (veja foto) – foram colocados nos terrenos do Douro para delimitar geograficamente a região.

2. É no Douro que estão os vinhedos dos vinhos do Porto, mas é em Vila Nova de Gaia, cidade vizinha ao Porto, onde se encontram os grandes armazéns que envelhecem os Portos de marcas mais conhecidas como Taylor’s, Graham’s, Down’s, Warre’s, Symington, Adriano Ramos Pinto, Croft, Kopke, Niepoort, Sanderman, Offley, etc. A razão é histórica e cartorial: até 1982 só era permitido comercializar o vinho do Porto através do entreposto de Gaia, o que obrigava os pequenos produtores a vender sua produção às grandes empresas. A partir de 1986 foi autorizada a exportação do vinho do Porto diretamente da Região Demarcada do Douro (RDD), permitindo que novos players entrassem neste mercado. Mesmo assim Gaia concentra a grande produção, leva a fama e está preparada para receber os turistas. Estando no Porto, é obrigatório visitar uma das grandes casas produtoras e fazer uma degustação dos vinhos.

3. A principal ligação da cidade de Gaia à do Porto é uma ponte de ferro – confesso que tenho uma certa vertigem de atravessá-la a pé – construída por ninguém menos que Gustave Eiffel, aquele que espetou a torre que levou seu nome em Paris e que virou símbolo da cidade.

4. A produção de vinhos no Douro guarda muitas tradições. Ainda é comum a pisa das uvas ser realizada com pés descalços em grandes tanques de pedra (conhecidos como lagares). Parece pouco higiênico, mas na verdade é um instrumento perfeito para esmagar as uvas e extrair das cascas todo seu valor fenólico, já que a pisa pé não tritura as sementes, o que resultaria em amargor para o vinho. Trata-se de um trabalho hercúleo que já é substituído em alguns casos por pisadores hidráulicos que simulam a pisada humana.

5. São vários os tipos de vinhos do Porto. Desde o Branco até os tintos que variam de potência e idade: Tawny (declaro desde já que são os meu prediletos), Ruby, Vintage (engarrafado apenas nos melhores anos), Colheita (produzidos em um único ano).

6. Desde 2001 o Alto Douro é reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial da Humanidade. Demorou, eu diria.

7. A região é dividida em três áreas: Baixo Corgo, Cima Corgo e Douro Superior.

8. Se Portugal se caracteriza pela variedade e pela mistura de suas uvas nativas, é no Douro que a expressão “tudo junto e misturado” é a mais verdadeira. Muitos dos vinhedos são tão mesclados que os proprietários não se dão ao trabalho de identificar cada espécie plantada. Outros fazem um amplo trabalho de pesquisa e classificação de cada videira e as substituem por seus pares para manter a mesma mescla todos os anos.

9. Se o vinho fortificado do Porto é uma exclusividade do Douro, os tintos de mesa ganham cada vez mais adeptos. A história começa com o Barca Velha, criado em 1952, na Casa Ferreirinha. Mas a projeção dos vinhos de mesa – mais tintos do que brancos – ganha dimensão e pompa com o advento dos Douro Boys. Ali pela década de 90 um talentoso grupo de enólogos e proprietários se uniu e usou o marketing para mostrar os caldos de excelência que produziam na região. Deu muito certo. E hoje alguns de seus rótulos são premiadíssimos – e caríssimos.

10. Falar de Douro é falar de xisto, o tipo de granito que predomina no solo dos melhores vinhedos e que absorve e posteriormente irradia o calor e dá um caráter único aos vinhos da região.

 As vinhas, a chuva e os vinhos

Os vinhos do Douro fizeram parte da viagem desde o início até seu final, tanto em restaurantes de Lisboa como em outras provas, mas bebê-lo em seu berço é aquela experiência que explica o produto sem necessidade de bula. A chuva que nos castigou no Dão não nos abandonou no Douro. A dor de dente (ahá!) que estava tímida até então, e que não mereceu entrar na narrativa até agora, começou a mostrar (literalmente) suas garras – mas esta história eu detalho mais abaixo para não avinagrar o vinho que vem a seguir.

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Este colunista e o companheiro de viagem Water Tommasi, do Blog Tomassi no Vinho,  na piscina de fundo infinito da Quinta do Crasto: a foto inevitável

Crasto e a Quinta dos Avidagos

A Quinta do Crasto – que muito gente insiste de chamar do Castro, o que não é de todo errado pois está na origem do nome latino “castrum”, que significa “forte romano” -, tem um visual deslumbrante. Mesmo que seu interesse por vinho seja baixo (duvido, se não não estaria aqui), a visita à vinícola é um colírio para os olhos. É um chavão, mas é um cenário de cinema. A propósito, uma novela portuguesa estava sendo gravada ali. A adega e casa principal ficam no cocuruto do Cima Corgo com vista para as colinas recortadas pelos terraços de vinhedos e divididas ao meio pelo majestoso Rio Douro. No ponto mais alto da propriedade, uma piscina com fundo pra lá de infinito foi projetada criando a ilusão de que suas águas escorrem pelas montanhas de encontro ao rio. Uma foto ali é quase uma obrigação. A Quinta do Crasto mistura tradição e tecnologia. Faz uma espécie de BigData de suas videiras, com uma rastreabilidade total dos vinhedos (70 hectares), com registros de quem colheu, quando, quanto, em que período etc. A Vinha Maria Tereza, onde são cultivadas as uvas para o vinho de mesmo nome, por exemplo, reúne cerca de 49 variedades de uvas no seu terreno que são classificadas e identificadas. Conhecidíssimos no Brasil (a família Roquete, proprietário do Crasto, já morou no Rio de Janeiro e tem uma importadora exclusiva, a Qualimpor, que cuida de seus rótulos e dos alentejanos da Herdade do Esporão), têm uma legião de seguidores e consegue emplacar tanto tintos do dia-a-dia como joias da coroa com preços idem. De uma degustação dos seus rótulos mais vendidos, realizada junto ao enólogo Manuel Lobo de Vasconcellos, destaco duas ampolas abaixo

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Crasto Superior Branco 2014
Uvas: Verdelho e Viosinho

O Crasto Superior tinto é belo vinho que acompanha bem as refeições. Há pouco tempo ganhou sua versão de uvas brancas. Manuel Lobo Vasconcellos queria um branco que mesmo passando pelo processo de “Battonage”, que mantém o caldo em contato com as borras, se caracterizasse pelos aromas florais e cítricos. E na boca se revelasse um frescor gastronômico. Boa alternativa de um Douro branco mais acessível.

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Quinta do Castro Reserva Vinhas Velhas 2013
Uvas: São de 25 a 30 uvas nativas do Douro de vinhas de mais de 70 anos de idade

Concentração e complexidade aromática definem este que para mim é uma das melhores expressões do Douro, e em especial da Quinta do Castro. Tem nariz, boca e profundidade. Macio e longo. Boa integração com a barrica. Se tiver oportunidade de provar safras mais antigas vai constatar o potencial de envelhecimento. Um Douro que define a região. Em 2012 recebeu 92 pontos do site de  Robert Parker.

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Rui Nunes Matos na sala de grandes toneis da Quinta dos Avidagos

 Já a Quinta dos Avidagos, fica mais abaixo, próxima ao Rio Corgo, vizinha à belíssima Quinta do Vallado, onde tive a oportunidade de me hospedar em uma viagem anterior com minha mulher. É uma vinícola também familiar mas com uma estrutura menos tecnológica. São quatro quintas distribuídas num raio de 5 quilômetros. Rui Nunes de Matos está à frente da gestão do negócio. Ele e sua esposa não mediram esforços para nos receber e abriram sua sala de jantar e casa para nossa prova e estadia. Se fosse jurado numa escola de samba dava 10 para o requisito simpatia e generosidade para o casal. Foram fornecedores de uvas para outros produtores até 1996, quando lançaram seu primeiro rótulo. A linha mais básica tem um viés claro para agradar o mercado internacional – o sobrinho Pedro estava na China comercializando um grande lote de vinhos durante nossa visita. Será que os chineses vão consumir todo o vinho do mundo? Da gama dos rótulos provados há uma aposta em vinhos um pouco mais carregados nas tintas e na potência, ao gosto do novo freguês. Mas um rótulo especial se diferenciou e a mim, pelo menos, mostrou melhor o potencial do Douro, e da quinta. É deste que falo abaixo:

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Quinta dos Avidagos – Quinta do Além Tanha Grande Reserva 2008
Uvas: Touriga Nacional, Tinta Amarela, Tinta Roriz, Tinta Cão e Sousão

Provenientes de vinhas com mais de 60 anos de idade, é um típico representante do Douro: bem estruturado, integrado com madeira (14 meses), taninos bem macios e uma boa fruta madura em boca. Um vinho mais quente. A fruta se sobressai. A  mescla contribui para uma maior variedade de aromas e sabores.

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Todas as cores do Douro nos vinhedos de Alves Souza

Domingos Alves de Souza – Quinta da Gaivosa

Perfilar Domingos Alves de Souza é criar correlações entre o homem, sua terra e sua obra. Este engenheiro que virou vinho – e sua bela família – é de uma cordialidade, simplicidade e dedicação aos vinhos do Douro que cativa. A beleza de seus vinhedos, sua visão empresarial e a qualidade de seus brancos, tintos e fortificados fascina. Domingos Alves de Souza é um personagem. Eleito produtor do ano em 1999 e 2006, nos recebe pessoalmente. Domingos exibe cabelos e bigodes brancos, e veste um casaco pesado que protege da chuva e do vento frio – esta que nos acompanha todos os dias. Com muita energia e disposição nos guia em sua SUV percorrendo – com alguma ousadia – parte dos 134 hectares de vinhedos que foram herdados do avô e do pai e posteriormente aumentadas com novas aquisições. Uma montanha-russa de subidas e descidas íngremes que ele enfrenta sem parar de falar um minuto, um olho nos convidados e outro na estrada. O cenário é um espetáculo de cores – as folhagens das parreiras exibem aquela transição das estações, criando uma aquarela de tons amarelos claros e escuros, avermelhados e verdes, como da foto acima. De volta ao ponto inicial fazemos uma visita às modernas instalações da adega. Tudo ali é projetado em benefício da vinificação: condução por gravidade, espaços com iluminação natural e uma espécie de torre de controle onde os enólogos e técnicos podem observar toda a cadeia de produção, da chegada e seleção das uvas à fermentação e guarda em barricas. O próprio Domingos Alves Souza nos serve os goles dos vinhos, uma seleção de primeira que destaco os seguintes rótulos.

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Vale da Raposa Reserva 2011
Uvas: Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinto Cão, Touriga Franca

Esta quinta foi adquirida de um vizinho após muita negociação e trouxe o benefício de um caldo mais acessível. Tem aromas bem marcantes, frescor das uvas do Douro e muita tipicidade. O belo tinto para começar a amar o Douro.

 Personal

Alves de Sousa – Pessoal 2006
Uvas: são 10 castas autóctones (nativas) brancas.

Um dos grandes brancos provados nesta viagem. O vinho foi lançado apenas em 2015, 9 anos após ser produzido. Quem já bebeu o chamado “vinho laranja” vai identificar seu DNA nesta garrafa. As tais castas nativas estão sendo classificadas, mas são provenientes de vinhas velhas e por um processo oxidativo em que a vinificação é feita com as cascas das uvas. O resultado, óbvio, é de aromas mais puxados para um oxidativo que dá profundidade e longevidade ao caldo. Toques de mel e doce de frutas brancas.  Maravilhoso, onírico.

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Quinta da Gaivosa 2009
Uvas: Tinta Roriz, Tinto Cão, Touriga Franca e Touriga Nacional

É uma das estrelas da casa. Resultado de provas cegas feitas na adega de mais de 20 vinhas que definem a mescla. Segundo Domingos, expressa a identidade de seus vinhos e do Douro “Nossa cara está aqui”. Mantém ainda juventude e frescor, muito macio em boca, com um belo potencial de fruta, especiarias e longo final.

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Quinta da Gaivosa – Vinha do Lordelo 2011
Uvas: Tinta Amarela, Sousão e outras uvas

Lordelo é um vinhedo exclusivo de Alves de Sousa recuperado em 2003. Este caldo potente, concentrado, tem muita fruta madura, persistência longa, um aroma profundo das frutas negras e boa presença da madeira. Vinho de macho, que prima pela potência mas com estrutura, acidez, e fruta negra madura bem saborosa, e não excessiva, o que é muito importante. Complexidade dada pelo solo de xisto, e muita persistência no final. Um vinho de contemplação, até por que não é nem um pouco barato (mais de 600 reais no Brasil).

Importador no Brasil: Decanter

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Domingos Alves de Sousa e sua mulher Lucinda: recepção calorosa e ambiente familiar

Após a prova dos vinhos, uma refeição, preparada por sua amável esposa, Lucinda, foi servida na sala de jantar da casa onde mora a família Alves de Sousa.  Ali continuamos a beber seus vinhos, acompanhado de uma comida caseira e deliciosa. Acolhidos, juntos à família, jogamos conversa fora. E vinho para dentro. Uma foto de todos reunidos na varanda da casa finalizou a visita. A viagem tinha de continuar.

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Essas uvas um dia estarão engarrafadas em um Porto

Quinta Santa Eufêmia

A história é uma narrativa que nem sempre se vivencia. Deparar com um marco pombalino, o de número 27 de 1756, delimitando a região do Douro, é testemunhar a história de alguma forma. Perscrutar a capela que funcionava como um farol para o Rio Douro na época que suas correntes eram mais selvagens, deparar com a primeira nota de venda de vinho do Porto de 1864 e fotografar um lagar de granito com mais de 100 anos e ainda em uso é respeitar e compreender o conceito de tradição. A Santa Eufêmia é um negócio que está na família há quatro gerações. São 45 hectares de vinha, às margens Sul do Rio Douro, onde também são cultivados legumes e frutas. As oliveiras plantadas, além do seu uso mais óbvio, delimitam o terreno com os vizinhos. Apesar de ter vinhos de mesa em seu catálogo o forte são os Portos. Quem nos guia por esta volta ao passado é uma senhora da família, mas que há pouco tempo se dedica inteiramente ao negócio. Falha deste repórter, não anotei seu nome.

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Lagar de granito de mais de 100 anos

Primeira impressão é que seríamos prejudicados pela ausência do responsável pelo marketing tratado para nos receber. Mas simplicidade não significa desconhecimento. Recebemos uma aula sobre o lugar, sua história, sobre as características dos vinhedos e do processo de produção dos vinhos. “Na adega só trabalham mulheres, elas são mais detalhistas”, comenta para depois entregar um motivo mais prático “e também são mais cuidadosas no manuseio das máquinas. Isso é importante. Estamos no fim do mundo, uma avaria numa máquina leva muito tempo para ser reparada”, conclui. Aliás a presença das mulheres é uma constante aqui. A enóloga-chefe, Alzira Viseu de Carvalho, começou a produzir vinhos aos 7 anos de idade, num tempo em que o politicamente correto não exercia função de polícia dos costumes. É servida uma sequência de tintos de mesa, seguidos de fortificados, mas ela não prova nenhum deles. O motivo é comovente. Ela não consegue provar e cuspir o vinho tamanha adoração que tem pelos caldos, em especial os fortificados; não vê sentido, apesar de compreender que uma prova de vários rótulos por especialistas seja seguida pela devolução do líquido e não a absorção de todo álcool. Tendo a concordar um pouco com ela. Os Tawnys e o Colheita 2004 eu acabei tomando tudo, não devolvendo nada para o baldinho em cima da mesa.

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Quinta Sta Eufêmia – Tawny Branco 30 Years Old White
Uvas: Vinhas velhas com Malvasia Fina, Rabigato, Gouveio e uma parcela de vinha com mais de 50 anos de moscatel Galego.

Numa degustação às cegas os Portos brancos de 20, 30 anos lembram muito os Porto Tawny tinto, tanto na cor dourada característica desta bebida com o passar dos anos como até nos sabores e aromas de frutas secas, amêndoas, mel. Eles vão ganhando uma mesma pegada de complexidade. Talvez para conhecedores mais apurados, o Tawny branco tenha uma delicadeza maior no palato e um nariz mais persistente. Confesso que sempre me confundi. E aprendi a apreciar sua magistral evolução. Espetacular

 

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 Quinta Sta Eufêmia 20 Years Old Twany
Uvas: Tinta da Barca, Mourisco Tinto, Tinta Barroca, Tinta Roriz e Touriga Francesa.

O Tawny com idade declarada é uma seleção de portos diferentes com uma média de idade igual ou superior a 20 anos que confere seus estilo. O Tawny me fascina tanto pela cor castanho, como pelos aromas delicados de frutas secas, tâmara e mel. E principalmente pelo fim de taça. Aquelas aromas que ficam flutuando no fim do copo que mostram o potencial do bichão. O envelhecimento é feito lentamente em barricas com mais de 50 anos, que confere maior complexidade ao caldo. Uma joia.

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Sta Eufêmia – Colheita 2004
Uvas: tradicionais do Douro, Tinta Roriz, Touriga Nacional, Tinta Amarela, Mourisco Tinto, Touriga Franca, Bastardo. Vinhas Velhas com mais de 50 anos

É um vinho uma só colheita cuja comercialização é permitida apenas a partir do 7º ano. O que me atrai no estilo colheita é que ele é mais próximo do Tawny, na complexidade dos sabores, aromas e no persistência. Dourado escuro, para mim apareceram mais aromas de casca de laranja, damascos, as inevitáveis frutas secas.

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Dor de dente

Conforme prometido, aqui vai a o relato da dor. Só nos lembramos de nossos dentes quando vamos escová-los. Ou quando eles começam a incomodar. Eu me lembrarei dos meus para sempre quando recordar esta viagem para Portugal. Alguém com maior talento já deve ter descrito melhor uma dor de dente, mas defini-la como a antessala do inferno não é de todo impreciso.

Aconteceu de sentir um pequeno incômodo logo no segundo dia de viagem, à noite. Tomei uma aspirina. Tolinho. Daí em diante a dor vinha e voltava com graus variados de tensão. O vilão foi o incisivo lateral superior da direita, aquele dente que fica entre o incisivo central e o canino, que começou a latejar sem dó ou piedade. Sônia Vieira, nosso anjo da guarda da ViniPortugal, sugeriu um antiinflamatório. Resolvia. Por algumas horas. Mas claro que de madrugada a dor voltava, avisando que o lado negro da força estava sempre ameaçando meu sossego. Tomava outro comprimido e depois de um tempo parecia que alguém tirava a dor com a mão.

“E por que você não foi a um dentista?”, você pode se perguntar. Por que estava numa viagem recheada de compromissos, que passava por cidades pequenas e eu tentava pesar os prós e contras de me arriscar em um consultório desconhecido. Me iludi com os períodos de calmaria camuflados pelo medicamento. Algumas provas de vinho foram prejudicadas pela dor que ia invadindo meu raciocínio e minha noção de tempo; outras provas tinham efeito anestésico: amenizavam a dor. Mas aos poucos aquele arpão invisível voltava a espetar o interior do meu dente e alcançar a gengiva com seu ferrão.

Ao sair do Porto, após me deliciar com vintages e tawnies, o destino era a região dos vinhos verdes (tema do próximo post). O caminho até a Quinta da Lixa era um misto de pequenas estradas vicinais e finalmente uma autoestrada. Foi naquele momento que a dor atingiu o limite máximo do suportável, expalhou para todos os dentes de trás. Toda bancada da arcada dentária se revoltou e entrou com um pedido de impeachment do dente causador da tragédia bucal. Sofri calado, com galhardia, suando frio. O sertanejo é antes de tudo um forte! Quando notei que íamos passar por um cidade maior, Amarante, vislumbrei que a necessária e urgente ida ao dentista tinha mais chances de dar certo. A bem da verdade nesta altura do campeonato me consultaria até com um veterinário (sem piadas, por favor) na vila mais tristonha de Portugal.

Ao chegar ao hotel Monverde, no início da noite, o enólogo chefe da Quinta da Lixa, Carlos Teixeira, nos aguardava e eu baixei a guarda e clamei pela indicação de um profissional. Acho que meu rosto estava transtornado, meio bouchonée, e ele conseguiu agendar uma consulta para a manhã seguinte na própria vila que nos encontrávamos.

Doutor Luis Filipe, da Clínica Médica Jardim da Lixa, diagnosticou o problema: um canal mal resolvido tinha inflamado, bactérias invadiram os espaços ocos e tomaram conta da região num ataque terrorista que tirou a paz daquele território. Uma dor que iniciou tímida na Bairrada, ficou mais atrevida no Dão e rasgou a fantasia no Douro encontrou finalmente o exército da salvação na região do Minho, do Vinho Verde. Acho que agora está explicado o título deste post e a frase inicial: Os vinhos do Dão são elegantes, os do Douro, importantes, mas dor de dente… ah isso ninguém merece. Não podia deixar de registrar!

No próximo post: Vinhos de Portugal: Verde que te quero Ver-te.

Nota: a viagem a Portugal foi patrocinada pela ViniPortugal, organização que representa o setor vitivinícola português e promove os vinhos de Portugal.

 

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terça-feira, 22 de dezembro de 2015 Brancos, Tintos, Velho Mundo | 01:28

Vinhos de Portugal: o Dão, o Douro e a dor de dente (parte 1)

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Solar do Vinho do Dão: guardião dos vinhos da região

Solar do Vinho do Dão: guardião dos vinhos da região

O pior dos crimes é produzir vinho mau, engarrafá-lo e servi-lo aos amigos
Aquilino Ribeiro, in “Aldeia: terra, gente e bichos”
Inscrição pintada no Solar do Vinho do Dão, em Viseu, Portugal

Portugal é uma experiência rica para os apreciadores dos vinhos brancos, tintos e os fabulosos fortificados do Porto. E prática. Trata-se de um país de distâncias municipais, tendo como referência o mapa brasileiro. É possível percorrer as regiões, os vinhedos e os produtores em poucos dias. O Dão e o Douro são vizinhos, assim como a região dos Vinhos Verdes e da Bairrada. O mapa vitivinícola ajuda, apesar de as estradas sinuosas do Douro complicarem um pouco a vida do motorista. E a experiência, e o cenário, se modificam em poucos quilômetros. Ah, e o preço dos vinhos, mesmo em tempos dilma desvalorização cambial, ainda são uma pechincha diante de nossas etiquetas.

É muito difícil escolher entre tantos tintos e brancos provados aqueles que mais agradam, ou entre várias vinícolas e produtores visitados os que mais impressionam e merecem um comentário e um espaço neste blog. Talvez mais fácil concentrar a seleção em algumas regiões. Se eu precisasse resumir minha viagem a Portugal em um post de Twitter, em poucos caracteres, seria mais ou menos assim: “Os vinhos do Dão são elegantes, os do Douro, importantes, e dor de dente… ah isso ninguém merece.” Como posso ultrapassar os 144 caracteres, e dividir este post em dois, explico a seguir o que quis dizer com esta frase. Comecemos pelo Dão.

O Dão é “bão”

Se você não é useiro e vezeiro de vinhos portugueses, talvez nunca tenha ouvido falar do Dão, ou melhor, prestado atenção à região no rótulos das garrafas que estão por aí. Em rápidas pinceladas podemos nos socorrer aos jargões (eles estão aí para isso mesmo) e definir os caldos desta região pelos seguintes destaques:

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O Dão está marcado em vermelho no mapa de Portugal

  • A região do Dão foi demarcada em 1908, em 1947 a Denominação de Origem é registrada
  • O Dão é considerado a Borgonha portuguesa por manter algumas semelhanças com esta região francesa, expressão máxima da pinot noir (para as tintas) e da chardonnay (para as brancas):; pequenas propriedades (algumas muradas), volumes menores, vinhos mais elegantes, maior equilíbrio entre corpo e acidez.
  • A região seria o berço da tinta Touriga Nacional (não há comprovação científica, a paternidade é dividida com o Douro); a uva dominava o Dão antes da Filoxera, isso lá é verdade.
  • A Touriga Nacional é predominante nos vinhos tintos do Dão, e produz caldos de maior elegância, aveludados, com  capacidade de desenvolver aromas e sabores delicados e persistentes após um tempo emcapsulado na garrafa.
  • Os melhores brancos da região são aqueles produzidos a partir da uva Encruzado, uma “quase” exclusividade do Dão. Seus aromas e corpo são potencializados pelo tempo em barrica e pela temporada em  garrafa (vale aguardar um pouco a evolução), proporcionando uma experiência sensorial onde acidez e persistência dão (ops) prazer.
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Osvaldo Amado: enólogo do ano

O Solar do Vinho do Dão, Antigo Paço Episcopal do Fontelo (de verão) e também usado por um tempo como prisão, fica localizado na cidade de Viseu. O edifício, reformado e inaugurado em 2004, é sede da Comissão Vitivinícola Regional do Dão. Chegamos ali após pernoitar no Hotel do Buçaco, um local que mistura história, tradição e uma certa aura dos vinhos exclusivos feitos para o Hotel. A ideia era concentrar vários produtores representativos do estilo do Dão e suas criações numa espécie de feira exclusiva para os dois jornalistas de vinho brasileiros que faziam a visita. Foram nove casas, cada qual com direito a expor três rótulos. Total de garrafas desarrolhadas: 32 (algumas roubaram na conta, é fato, mas não vou deletar).

Eram 11 horas da manhã e tínhamos uma hora e meia para provar os vinhos, conversar com os produtores, tirar fotos e fazer algumas anotações. É quase uma minimaratona de Baco, onde a tática para se chegar ao final exige uma rodada inicial de brancos, seguida de outra volta olímpica com os tintos e de preferência cuspindo a bebida na degustação (ok, eu sei; esta parte meio nojenta da coisa causa certo asco no público pouco acostumado, mas é superbem aceita no meio. Juro que não ofendi nenhum produtor devolvendo para o balde seu vinho. Trata-se de um método para manter a sobriedade da análise. E aroma se percebe pelo olfato, sabor pelas papilas gustativas, engolir não é determinante em provas. Mas confesso que vez ou outra um gole mais aprazível vai para dentro). Já disse em outro texto, o Dão me surpreendeu, sua elegância me conquistou – um conceito meio fluido mas perceptível – e tornei seu fã. Às escolhas, pois:

Os brancos e os tintos do Dão e um rosé de contrabando

BRANCOS

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Titular Colheita Branco 2014
Uvas: Encruzado, Malvasia Fina e Bical
Caminhos Cruzados
Site oficial

Trata-se de um vinícola recente (2012) e já com alguns prêmios de crítica para exibir. Muito aromático, fresco, um toque de abacaxi. Vinho para se beber jovem. Teor alcóolico namedida para um branco. Muito subjetivo isso, mas adorei a simplicidade do rótulo, apenas com texto, aparentemente da fonte “currier”. remetendo à tipologia da máquina de escrever. Bateu um banzo. Fácil de identificar na prateleira, de guardar na memória.

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Quinta do Perdigão Encruzado 2014
Uva: Encruzado
Quinta do Perdigão
Site Oficial

O vinho passa por um processo de bâtonnage (xiii lá vem o cara complicar…) de 4 a 6 meses. Explico, a batonagem (em português mesmo) é um processo comum no processo de alguns vinhos brancos que consiste em agitar as borras que ficam depositadas no fundo da barrica (no caso, carvalho francês) durante a fermentação para submergi-las à superfície. Isso potencializa os aromas e dá mais estrutura. É um branco potente (ui!), encorpado (afe!) e que revela o potencial da uva. Curiosidade: não adianta gravar o vinho pela imagem do rótulo, eles mudam todos os anos, obra da mulher do enólogo, Vanessa Chrystie.

 Quinta_Pedrinha_Branco

Quinta da Ponte da Pedrinha 2014
Uvas: Encruzado e Malvasia
Quinta do Ponte da Pedrinha

Há histórias que só mesmo o velho mundo conta. A propriedade está com a família desde o século 18. Um branco de perfil jovem e fresco, fruta gostosa, bastante cítrico e mineral. A malvasia dá uma quebrada na potencialidade do encruzado. Não passa por carvalho, fermentação em tanques de inox. Para beber ontem.

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Quinta Falorca Encruzado 2012
Uvas: Encruzado (90%) e malvasia (10%)
Quinta da Faloca

A família está à frente da vinícola há 5 gerações. Há uma mistura de vinhas novas e velhas, um branco mais concentrado, com sabores de frutas brancas mais maduras. É untuoso, cremoso, estagia três meses em madeira e também passa por processo de batonagem. Tem uma persistência gostosa e uma acidez que completa o cenário. Um dos grandes brancos do Dão que provei.

 

ROSÉ

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Quinta Mendes Pereira Touriga Nacional Reserva 2011
Uva: Touriga Nacional
Quinta Mendes Pereira

Ok, eu sei. Um rosé do Dão não será sua primeira escolha. Para mim, no entanto, foi uma agradável surpresa. Uma cor linda de rosé, vibrante, luminosa: o prazer também se dá pelo visual. No nariz frutas vermelhas frescas como morango e framboesa. Um toque doce na boca, que dá um volume extra, e a fruta detectada nos aromas se repete de forma importante. Uma prova do potencial da Touriga Nacional como matriz de vinhos variados.

 

TINTOS

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Quinta das Camélias Touriga Nacional 2010
Uva: Touriga Nacional
Quinta das Camélias
Site Oficial:

Olha o Touriga Nacional aí gente! Este é o topo de linha da Quinta das Camélias. Passa 10 meses em carvalho francês antes de vir ao mundo. Um touriga muito floral com uma violeta exibida mas elegante. Aveludado na boca, delicado, boa extensão. Apenas 6.600 garrafas produzidas. Um fidalgo perfumado engarrafado!

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Quinta do  Carvalhão Torto 2005
Uvas: Jaen e Alfrocheiro
Quinta do Carvalhão Torto
Site oficial

Entre todos os vinhos do Solar, o Quinta do Carvalhão Torto 2005 mostrou uma pegada didática que aponta como o tempo de garrafa age (para melhor) no sabor de um vinho. Um vinho com contraprova: comprei uma garrafa para dividir a experiência com minha mulher aqui no Brasil e a impressão de qualidade e sabor permaneceu em ambientes diversos. As uvas têm excelência de maturação nos 7 hectares de vinha. As 30.000 garrafas deste vinho só são lançadas após envelhecimento por no mínimo cinco anos. Tem um aroma delicado e intenso de terra molhada, húmus. É classudo, com boa estrutura em boca e taninos suaves e macios. 12,5% de álcool completam a elegância e a frescura que combinada com acidez amplia a vivacidade do vinho. Um vinho que não teve pressa de chegar ao mercado; não precisa de rapidez em bebê-lo.

 Quinta dos Carvalhais_Encruzado

Quinta dos Carvalhais Colheita 2011
Uvas: Touriga Nacional (93%), Tinta Roriz (5%) e Alfrocheiro (2%)
Sogrape – Quinta dos Carvalhais

Uma mescla elegante onde a fruta mais escura predomina e o floral mais tímido marca presença nos aromas e no sabor. As uvas são fermentadas em tanques de inox separadamente e depois passam uma temporada em barricas francesas de primeiro e segundo uso. Um Dão de potência, que me pareceu ter menos acidez que seus colegas, mas boa estrutura e longa persistência. Um Dão de bigodes.

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Quinta das Estrémuas Reserva 2008
Uva: Touriga Nacional
Vinícola de Nelas

Uma Touriga Nacional à capela com muita exuberância de fruta madura, muito macio na boca e ótimo final. Mais fruta e menos flor. Passa por um estágio em madeira francesa por 11 meses antes de ir para a garrafa. Um belo exemplar do potencial do Dão com uma pegada mais estruturada e com suculência marcante.

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Cabriz Reserva 2012
Uvas: Touriga Nacional (40%), Tinta Roriz (30%) e Alfrocheiro (30%)
Wine Soul/Dão Sul – Cabriz
Site oficial

A Dão Sul é um blockbuster do Dão, seus vinhos são facilmente encontrados nos supermercados brasileiros. Produz grande quantidade com qualidade e preço. O enólogo Osvaldo Amado foi eleito o enólogo do ano em 2015. Para conhecer um Dão mais básico experimente o Cabriz Colheita Selecionada. Esta garrafa aqui está posicionada um degrau acima. A linha Reserva passa 9 meses em barrica francesa de tosta fraca (não marca muito o vinho). Destaque para sua boca aveludada, de bons taninos combinados com algum floral. Osvado Amado apenas mostrou na feira a garrafa de um vinho impressionante, 25 Cabriz, uma edição comemorativa às bodas de prata da casa.  No almoço tivemos o prazer de dividir com todos os produtores. Impressionou.

 FAta

Quinta da Fata Touriga Nacional 2010
Uva: Touriga Nacional
Quinta da Fata

Pequena propriedade de apenas 6,5 hectares (oferece hospedagem também), produziu apenas 3.500 garrafas deste Touriga Nacional puro sangue. A propriedade é familiar há algumas gerações, mas as vinhas têm cerca de 15 anos. Segue a tradição de pisa a pé, fermentação em lagares de pedra. Passa seis meses em madeira nova e outros seis em madeira de segundo uso americanas e francesas. Tem um leve toque defumado, macio e com fruta madura intensa.

 Tnac-Tinto

Tnac 2010 by Falorca
Uva: Touriga Nacional
Quinta da Falorca

Outro rótulo moderno que chama a atenção para a descrição da variedade: Tnac = Touriga Nacional. Um tinto vibrante sem passagem por barricas de carvalho. Resultado: um caldo menos afetado aos humores da madeira. Foi um dos últimos vinhos provados e sua jovialidade e proposta foram um refresco para tintos mais compleixos que exibiam mais medalhas. Às vezes menos é mais.

 Perdigão_ALfrocheiro

Quinta do Perdigão Alfrocheiro 2009
Uva: Alfrocheiro
Quinta do Perdigão
Site oficial 

A Quinta da Falorca é um exemplo de produção familiar e cuidado de vinificação que são típicas do Dão. Produtor e enólogo, o próprio José Perdigão escreve os contrarrótulos com uma vocabulário que mistura informação e paixão. É ele também que me serve as garrafas,  comenta sobre a reforma do Solar, o desenho das etiquetas e principalmente do vinho que expõe – e aparentemente bebe com extremo prazer e satisfação. Tem muito disso em Portugal, a simpatia do produtor ajuda o vinho. Como Luis Pato, da Bairrada, tratado em outro post. Ah, o vinho! O Alfrocheiro é outra casta importante do Dão, aqui em carreira-solo. As uvas são colhidas em apenas 1 hectare de vinhedo “amigo do meio ambiente”, como descreve José Perdigão. Um vinho de estrutura firme, um toque defumado gostoso, uma goiabada em compota no nariz e auditada na boca. Frutas negras presentes. Também tem um toque de caixa de tabaco (parece estranho mas aparece), resultado do tempo de garrafa. Complexo, elegante; chega em várias camadas e demora a ir embora. Um Dão bão para fechar.

À mesa com o Dão

Finda prova nos reunimos todos para o almoço, desta vez com todas as garrafas da minifeira abertas e à disposição de todos para acompanhar a refeição. No cardápio a variada gastronomia portuguesa: bacalhau, leitão, embutidos, queijos. À mesa ninguém cuspiu o vinho, ele foi parceiro e ampliou os prazeres da comida. Como tem de ser.

No próximo post  –  Vinhos de Portugal: o Dão, o Douro e a dor de dente (parte 2) – eu conto um pouco sobre a parte da viagem ao Douro, seus vinhos importantes e também sobre a dor dente.

Nota: a viagem a Portugal foi patrocinada pela ViniPortugal, organização que representa o setor vitivinícola português e promove os vinhos de Portugal.

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