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Arquivo de junho, 2012

terça-feira, 26 de junho de 2012 Velho Mundo | 12:01

E o Romanée-Conti foi parar na novela das 9

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Não há rótulo mais cultuado, desejado e comentado – mas raramente provado – como o Romanée-Conti. Apontado pelos críticos e especialistas como a joia da coroa entre os tintos da Borgonha, ou mesmo entre todos os vinhos do mundo, o pinot noir plantado e vinificado na região de Vosné-Romanée, numa pequena parcela de 1,8 hectares e com preços que batem facilmente a casa dos dois dígitos, virou pop e tomou parte do enredo da novela das 9 Avenida Brasil, da TV Globo.

Avenida Brasil é uma novela que tem os melhores elementos de um folhetim. Carrega nas tintas nos conflitos entre seus personagens principais e sempre deixa margem para dúvida de suas reais intenções. O núcleo central é formado por moradores do subúrbio, no fictício bairro do Divino, que batalham pelo sustento ou até venceram na vida – seja pelo talento, seja pelo esforço ou mesmo  pela esperteza de se associar a quem chegou lá. O pequeno núcleo rico,  contraponto ao anterior, serve apenas de moldura para uma caricatura de um Don Juan casamenteiro e suas mulheres dondocas.

Max e um exemplar de Romanée-Conti: "Eu também tenho direito a um bom vinho"

O foco porém,  é a população do bairro do Divino, afastado da Zona Sul, e sua caricata descontração, de uma alegria histriônica e permanente que só se rivaliza com o barraco rápido que se forma entre os personagens em quase todo capítulo. No Divino, a dança é o Kuduro, o esporte, o futebol e a pelada – que fez a fortuna de Tufão, que sustenta a família que é o eixo principal da novela. A bebida, claro, é a cerveja, a breja, destampada em quase todo capítulo, sorvida no gargalo em casa ou nos bares da região.

No capítulo desta segunda-feira, dia 25, porém, o vinho virou protagonista de diversas cenas, mas como sempre irrompeu o enredo na sua forma caricata, como símbolo de soberba  e status de um personagem de poucos predicados: Max, o cunhado traíra de Tufão, e amante da mulher do ex-craque do Flamengo, um autêntico representante do gênero sanguessuga. É mau caráter, e está diminuído diante da amante e da falta de verba para se divertir. Resolve abrir um vinho e fumar um charuto.

Mas evidente que não se trata de um rótulo qualquer. “E um Romanée-Conti!”, exclama a cozinheira da casa, que morou na França e é mais refinada que todos os habitantes do palácio cafona que a turma habita  – trata-se de uma novela, é sempre bom ressaltar. “Este vinho é caríssimo”, aponta ela.

E como um exemplar de um Romanée-Conti vai parar na adega de um jogador de origem humilde do subúrbio? Presente de um xeque árabe. Pronto, está completa a caracterização. O vinho, sempre que entra na nossa ficção, serve como suporte do mau caratismo de um personagem, assim como caiu como uma luva para tipificar o enriquecimento ilícito e a soberba do senador Demóstenes.

Para evitar que personagem tão asqueroso como Max cometa este sacrilégio, sua mulher, também traída, intercepta a ação e resolve levá-lo para um restaurante bacana. Max, ainda imbuído no seu objetivo de se dar bem, e com um conhecimento invejável dos rótulos estrelados, escolhe um Mouton Rothschild 1996, rapidamente vetado por sua esposa-mala.

Max, no entanto, parece que tem uma ideia fixa. Larga a mulher no restaurante e se manda para um hotel de luxo e no conforto de sua suíte ordena um vinho. E não é que volta à cena a garrafa cenográfica do Romanée-Conti? E não apenas uma, mas duas ampolas deste borgonha mítico, com seu rótulo identificável a milhas de distância por qualquer enófilo digno do título. A conta fica cara, 20 mil reais, talvez até um bom preço para um rótulo deste nível num hotel de luxo, mas vá lá, está dado o recado. Claro que não soubemos a opinião de Max sobre o vinho, não há espaço ali para a fruição de um vinho de exceção. Ele é desarrolhado aos pares, e entornado aos borbotões, mas esta rebordosa é apenas sugerida pelas garrafas vazias. O Romanée-Conti chegou enfim à classe C pelas mãos da ficção. E o vinho, mais uma vez, entrou pela porta da frente e de nariz empinado, compondo um personagem vil.

Lula e o Romanée

Quando Lula comemorou sua primeira eleição com goles de Romanée-Conti, ofertados por seu guru de marketing de então, Duda Mendonça, a classe operária foi finalmente ao paraíso. Surgiu até um movimento  “romannecontiparatodos”, que defendia que o objetivo dos socialistas era tornar todos ricos, para que também pudessem beber o vinho. É divertido, mas impossível. Nunca haverá Romanée-Conti para todos. São produzidas somente só 5.500 garrafas por ano. E o preço, evidente, é a maior barreira.

Recentemente, no já histórico aperto de mãos com o antigo rival político Paulo Maluf, proprietário de uma das mais desejadas adegas do país, repletas de rótulos da Domaine de La Romanée-Conti, Lula cobrou: “Ô Maluf, quando é que você vai me convidar para beber um Romanée Conti?.”

Esta garrafa é de verdade

Conhece o Romanée? Um pouco da história, então

No século XVIII, o historiador da Borgonha Claude Courtépée escreveu: “Em Vosné-Romanée não existem vinhos comuns”. Em pleno século XXI, especialistas e enófilos de todas os cantos do mundo ainda compartilham da mesma opinião deste cronista sobre os tintos da Borgonha. Os vinhedos da Domaine de la Romanée-Conti – conhecida pela sigla DRC – representam, no entanto, um milagre deste abençoado trecho de terra. Para o escritor de vinhos inglês Hugh Johnson, por exemplo “faltam sinônimos para definir a intensidade e o poder” dos tintos engarrafados na propriedade. O poderoso, e controverso, crítico americano Robert Parker define a Domaine de la Romanée-Conti como a mais importante vinícola do planeta em seu livro “The World’s Greatest Wine Estates”, em que lista as 50 principais propriedades do mundo do vinho: “Não há pinot noir que chegue perto dos que são produzidas ali”, conclui

A opinião é compartilhada pelos críticos nacionais. Para o especialista da revista Gosto, Guilherme Rodrigues, nas melhores safras “não há vinho que se aproxime em termos de qualidade, intensidade de aromas, elegância, longevidade e paladar como os rótulos produzidos nos vinhedos da Domaine de la Romanée-Conti.”

Todos os vinhos grand crus da DRC são tratados com o mesmo cuidado. A produção é natural. Aubert de Villaine, sexta geração à frente dos vinhedos,  é adepto da prática orgânica desde 1986 e mais recentemente da biodinâmica, aquele método que rejeita o uso de defensivos químicos e acredita na influência dos astros sobre as vinhas e de outros preceitos que seguem uma orientação mais holística no vinhedo. A colheita é tardia, com o objetivo de obter a maturação perfeita das uvas, e extrair taninos de alta qualidade. Os cachos nem sempre são desengaçados, ou seja, os cabos não são retirados em toda colheita. A fermentação, com maceração, dura um mês, com temperatura controlada que jamais ultrapassa 33ºC. A bebida envelhece por no mínimo 18 meses em barris de carvalho francês novo. Os vinhos nunca são filtrados no engarrafamento. O resultado final é disputado por milionários de todo o mundo. Max, em Avenida Brasil, contribuiu com a cota nacional derrubando duas de suas garrafas de cenário.

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