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Arquivo de julho, 2009

sexta-feira, 31 de julho de 2009 Degustação | 19:50

Bons vinhos, baixa gastronomia e grandes amigos

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garrafasfiorana
“Nunca vi uma boa amizade nascer numa leiteria”.
Vinícius de Moraes

Gastronomia vem do grego antigo e significa “conhecimento do estômago”, mais precisamente do alimento e da bebida endereçados a ele, eu suponho. A etimologia grega da palavra economia vai na linha de “administração da casa”, o que pode ser traduzido no controle suado do dinheirinho que a gente ganha e gasta ao longo da existência. A baixa gastronomia, portanto, pode ser definida como a confluência destas duas definições, ou seja, a gastronomia que não pesa no bolso mas afaga o paladar.

E foi para comprovar a tese de que a boa culinária não precisa estar necessariamente associada ao preço proibitivo praticado por alguns restaurantes que um grupo de amigos, entre os quais eu me incluo, criou a Confraria da Baixa Gastronomia. Dois anos depois de vários encontros, a grata satisfação: comemos bem, levamos nossos vinhos e estreitamos nossa amizade. É, os gregos sabiam o valor das palavras…

Nossa confraria – seis marmanjos e uma moça de fino trato – faz um trabalho de garimpo da boa gastronomia de baixo preço que é praticada em São Paulo e uma vez por mês levamos nossas taças e garrafas embaixo do braço e experimentamos as harmonizações possíveis. A baixa gastronomia, portanto, longe de ser um termo depreciativo, é uma exaltação à qualidade sem extorsão. É uma incursão por pratos regionais ou típicos, com um grau de sofisticação variado, mas com uma característica em comum: são diferenciados e representativos de sua culinária.

Arais, uma espécie de Cafta, do Carlinhos, onde tudo começou e Malfati, do Fiorana.

Arais, uma espécie de cafta, do Carlinhos, onde tudo começou, e Malfati, do Fiorana.

A boa gastronomia

Um pequeno apanhado de deliciosos sabores e o vinhos que mais me marcaram – ou melhor harmonizaram – com a comida nestes dois anos.

Amazônia – Bixiga
Pratos
Pato no tucupi (assado e cozido servido com farinha de mandioca)
Pirarucu na chapa guarnecido de arroz de jambu.

Vinho
Sol de Sol 2006, Viña Aquitania, Traiguén, Chile

Carlinhos – Pari
Pratos
Arais (cafta prensado em pão árabe)
Cordeiro recheado com arroz e amêndoas na manteiga, guarnecido de brócolis ao alho e óleo e batata corada (para grupo mínimo de doze pessoas)

Vinho
Cabo de Hornos 2001, Viña San Pedro, Valle de Lontué, Chile

Dona Onça – Centro
Pratos
Frango com quiabo, polenta e verdura refogada
Costela de tambaqui frita
Mini-Churros com doce de leite

Vinhos
Barbera d’Asti Camp du Rouss 2005, Luigi Coppo, Itália, Piemonte
Scala Dei Negre Garnacha 2006, Scala Dei, Priorato, Espanha

Empório Nordestino – Freguesia do Ó
Prato
Carne de sol paraibana

Vinho
Vinha do Fojo 1999, Quinta do Fojo, Douro, Portugal

Galinhada do Bahia – Carandiru
Pratos
Galinha ao molho pardo, pirão de galinha, feijão-tropeiro, carne-de-sol, mandioca frita sequinha, salada verde, maxixe, batata-doce, banana-da-terra, jerimum e quiabo

Vinho
Viña Salceda Reserva 2000, Viña Salceda, Rioja, Espanha

Mocotó – Vila Medeiros
Pratos
Queijo-de-Coalho dourado na manteigade garrafa com melado de cana
Atolado de Bode – cabrito ensopado com mandioca
Sorvete de Rapadura artesanal, preparado com meladode cana e pedaços de rapadura

Vinho
Salton Talento 2002, Salton, Serra Gaúcha, Brasil

Pasquale – Pinheiros
Pratos
Sopressata, embutido artesanal produzida com carne porco e temperos
Rigatoni ao ragu de cordeiro

Vinho
Barbera d’Asti Pomorosso 1993, Luigi Coppo, Piemonte, Itália

Templo da Carne Marcos Bassi – Bixiga
Prato
Bisteca fiorentina (filé mignon, contrafilé e alcatra)

Vinhos
Châteu Tour de Mirambeau Couvée Passion Blanc 2003 Despagne, Bordeaux, França
Carruades Chateau Lafite 1996, Lafite, Paulliac, Bordeaux, França

Voilà Bistrô – Jardins
Prato
Pombo  dourado na moelle com mini legumes

Vinhos
Champagne Henrriot Rosé 2002, Henriot, Champagne, França.

Rótulos franceses para um bistrô gaulês

Rótulos franceses para um bistrô gaulês

O nosso mapa do vinho

O vinho entra pela porta da frente e muitas vezes com um elemento estranho ao habitat, pois nem sempre é visto nas mesas nestes restaurantes. É uma experiência curiosa, por exemplo, juntar a toalha xadrez, a mesa e as cadeiras rústicas de uma casa como a Galinhada do Bahia, no bairro paulistano do Canindé, com nossas taças e garrafas de vinho de todo o mundo.

Até hoje, já derrubamos 85 garrafas, devidamente registradas em uma planilha, com a seguinte distribuição geográfica

21 –  França

11 – Portugal

10 – Espanha

8 – Brasil

8 – Argentina

8 – Chile

6 – Itália

5 – Alemanha

2 – Austrália

2 – Nova Zelândia

2 – Hungria

1  – Líbano

1 – Índia

Assim ditribuídos:

51 Tintos

28 Bancos

6 Champanhes/espumantes

Nossa modesta lista revela, antes de tudo, como a diversidade é uma das bases do mundo do vinho. Revela também a preferência do grupo e a adega, e as possibilidades, de cada um. Provamos de Borgonhas refinados, como um Clos Vougeot 2004, a tintos argentinos. Mergulhamos o nariz tanto em champanhes safradas como em refrescantes espumantes nacionais. Enchemos nossas taças com elegantes brancos alemães e típicos exemplares de vinho verde Português. Já fizeram parte da farra preciosidades como o espanhol Viña Tondônia tinto 1985 (na sequência de fotos) e curiosidades como um tinto da Córsega e outro da Índia, este com a assinatura do onipresente enólogo-consultor Michel Rolland. Tudo vale a pena, se a garrafa não é pequena, não é mesmo?

A experiência da Baixa Gastronomia

E sem frescuras. Nós estamos ali para experimentar, para pôr à prova a combinação desta comida tão cheia de sabor com os espumantes, tintos e brancos que carregamos nas sacolas. O resultado é sempre surpreendente, revelando que o vinho não precisa ser caro e o restaurante não precisa ser estrelado para a mágica da harmonização dos sabores acontecer. E que a combinação vinho caro e comida simples e bem-feita também dá samba. Tentamos fazer com que estes dois mundos se completem. Quando não funciona, e isso acontece, aproveitamos o melhor de cada um.

Claro que vez ou outra rompemos esta regra e nos reunimos em casas mais estabelecidas e conhecidas, mas sempre com propostas originais ou qualidade certificada. Mas longe do roteiro para ver e ser visto. Nestes momentos tentamos montar outra estratégia, com uma proposta qualquer de rótulos aliado ao menu do restaurante. Se o destino é um bistrô, rótulos franceses são bem-vindos, biên sur.

Na sequência, a delicada retirada da rolha do tinto de Rioja, Tondônia 1985

Na sequência, a delicada retirada da rolha do tinto de Rioja, Tondônia 1985


As bodas de 2 anos da Baixa Gastronomia

Nossa confraria completou dois anos, como já foi dito aqui. Toda primeira terça-feira do mês temos um compromisso com nossas taças e nossa fome de experimentar novos pratos e vinhos. Ao contrário do que possa se imaginar não é uma reunião de enochatos que ficam tricotando a história de cada rótulo ou discutindo se a fermentação malolática tem ou não seu valor. Trata-se, antes de tudo, de um encontro entre amigos com uma paixão em comum: o vinho. Simples assim. Repito um pouco a definição do post anterior: uma confraria é um relação de camaradagem, de troca de experiências, um fórum vivo de sensações e avaliações. É um dos momentos mais aguardados do mês.

O almoço de comemoração da confraria da Baixa Gastronomia foi realizado no Fiorana. Um lugar especial, com cardápio também especial, elaborado pelo atencioso e simpático chef Mario Santoni, que no passado já conduziu as caçarolas da família Matarazzo.

MENU

Antepasto
Berinjelas e abobrinhas

Olivi ascolani (uma azeitona recheada com uma mistura de carne de boi, de porco e de frango misturadas a presunto, queijos parmesão, pecorino)

Salada verde com tomate

Primo piato
Malfatti (levíssima massa de nhoque, recheada com espinafre e ricota)

Secondo piato
Ganso com cogumelos salteados

Sobremesa
Degustação de tortas da casa, elaboradas por Dona Rita, proprietária da casa.

OS SETE VINHOS

  1. Grande Sendrée 2002, Drappier, Champagne, França;
  2. Pêra Manca Branco 2007, Fundação Eugênio de Almeida, Alentejo, Portugal
  3. Churchill 2005, Cabernet Franc, Bento Gonçalves, Brasil
  4. Viña Tondonia 1985, Viña Tondonia, Rioja, Espanha
  5. Comte de M 2004, Château Kefraya,Líbano
  6. Clos de Vougeaut 2004, Jean Grivot, Borgonha, França
  7. Tokaji Szanirodn 2004, Hungria

Terça-feira, dia 4 de agosto, tem mais. Eba!

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quarta-feira, 29 de julho de 2009 Degustação | 12:22

Confraria, você ainda vai ter uma

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confraria1
“Chegou a turma do funil
Todo mundo bebe mas ninguém dorme no ponto
Há, há, há, há… mas ninguém dorme no ponto
Nós é que bebemos e eles que ficam tontos!”

Uma confraria, como se sabe, é aquela justificativa que enófilos e eventuais bebedores de vinho dão para desmarcar uma reunião importante de trabalho ou faltar ao aniversário do cunhado sem qualquer dor na consciência, pois têm um compromisso mais importante: compartilhar uma garrafa de vinho com os amigos.

Na França, o hábito de reunir amigos em torno das garrafas também é conhecido por confréries bachiques (de Baco), o que dá bem a dimensão do encontro. O diferencial que separa o porre pagão da degustação ecumênica está na escolha da bebida, da comida e da companhia: é o vinho e suas circunstâncias. É o mesmo espírito da turma do funil da marchinha, só que com uma camada de verniz.

Um pouco de história

O nome confraria tem origem na mais antiga organização do gênero que se tem notícia na França: l’Antico Confrarie de Sant-Andiu de la Galiniei, fundada em 1140, em Béziers. Não tinha o formato atual, mas aí está sua gênese. Um dos mais antigos grupos ainda em atividade também é do país de Sarkozy, que aliás não bebe: a La Confrérie des  Chevalliers du Tastevin, criada  em novembro de 1934. A história é curiosa, o resultado, melhor ainda.

Em um momento de crise de liquidez dos caldos da Borgonha, dois amigos, Camille Rodier e Georges Faiveley, tiveram a brilhante ideia para aquecer o mercado: “Se ninguém quer nossos vinhos”, raciocinaram, “vamos convidar nossos amigos para vir prová-los conosco.” E criaram a confraria.

O experimento deu resultado. O Chevaliers du Tastevin é, desde 1945, proprietário do Châetau Clos de Vougeot. A partir desta experiência bem-sucedida, outras regiões criaram seus próprios grupos que se espalharam pela Europa com o objetivo de divulgar seus produtos entre seus consumidores. São também famosas as confrarias portuguesas do Vinho do Porto – que tem entre seus membros figurões tão díspares como Fernando Henrique Cardoso e o ditador Fidel Castro  e do Periquita, criada em 1993 para reunir os amantes do rótulo português mais consumido no Brasil. Entre seus 165 atuais membros se misturam  personalidades como o especialista e historiador de vinho Carlos Cabral e a especialista em entornar a taça Hebe Camargo.

A mãe de todas as nossas confrarias

Mas as confrarias que nos interessam são aquelas formadas por grupos anônimos, sem interesse comercial. A popularização destes grupos de vinho é um fenômeno recente entre nós. Acompanhou o crescimento do mercado, o surgimento das lojas especializadas, a evolução do serviço dos fermentados nos restaurantes. Elas são, de certo modo, uma conseqüência da explosão dos cursos de iniciação de vinho e da popularização da bebida na classe média.

As confrarias brasileiras podem ser uma novidade entre os neófitos, mas é importante o registro dos desbravadores. Afinal, não cabe aqui a mesma síndrome do governo Lula: como se nunca antes neste país um grupo de conhecedores tivesse se reunido para apreciar a bebida de Baco. A Confraria do Amarante, idealizada pelo especialista José Osvaldo Albano do Amarante e pelo crítico e jornalista Saul Galvão (falecido em 2009), está na ativa há 26 anos. Desde fevereiro de 1983 doze amantes de vinho se reúnem mensalmente para degustações às cegas – aquele tipo de prova em que as garrafas são embaladas e os rótulos só revelados no final –,  sempre acompanhadas de jantares em bons restaurantes de São Paulo. O grupo já provou cerca de 2.700 garrafas, todas meticulosamente registradas e comentadas em uma planilha pelo autor de uma das melhores obras de referência sobre o tema: Os Segredos do Vinho – Para Iniciantes e Iniciados. De certa maneira, a Confraria do Amarante é a mãe de todas as confrarias que surgiram de lá para cá.

Também têm história para contar a confraria dos Amigos de Babette, que se reúne para cozinhar e harmonizar pratos refinados com comida idem e a Confraria Madame Pompadour, um clube da luluzinha de Baco – uma resposta às confrarias dominadas pelos marmanjos – que se dedica a degustações de champanhes franceses.

Agora é sua vez

Uma confraria se forma para que amigos compartilhem suas melhores garrafas, experimentem as novidades, comparem o rótulo A com o rótulo B, cotizem uma garrafa que é objeto de desejo, isso tudo em clima de camaradagem e descontração. É também aquele momento em que o vinho é protagonista. Em que  ninguém vai ficar olhando torto para a sequência de rótulos, reclamando do balé de taças girando sem parar e ironizando o festival aromas que cada degustador encontra nos caldos. Afinal, como conclama um dos  primeiros posts deste blog: Salvem os enochatos! E se o objetivo é só beber comentando o jogo de domingo, qual o problema? A regra é não ter regra. O importante é o encontro.

Então, que tal criar a sua confraria? Reúna os amigos, e monte um grupo.

Algumas dicas para aproveitar melhor suas reuniões.

1. É importante manter uma agenda. Procure estabelecer uma data fixa para os encontros. Todas as primeiras quartas-feiras do mês, algo assim, que facilite o agendamento e continuidade do grupo. Se for esperar o melhor dia para cada participante, é capaz de a confraria nunca passar do primeiro brinde;

2. Aproveite as facilidades da tecnologia e organize as reuniões por e-mail ou então crie contas nas redes de relacionamento como Facebook, Orkut ou MySpace, onde os encontros podem ser registrados com imagens e textos, ou até mesmo em tempo real, com apreciações de no máximo 140 toques do Twitter, por exemplo;

3. Escolha um tema para o encontro. Pode ser um país (vinhos argentinos), uma região mais específica (Borgonhas), um tipo de vinho (brancos), de uva (riesling) ou mesmo safra (Baraolos de 2001);

4. A experiência pode ficar mais rica também se alguém se dispuser a pesquisar sobre os vinhos que vão ser degustados, as principais características, um pouco de sua história e algumas curiosidades sobre as uvas, as principais vinícolas, estes detalhes que fazem a alegria dos enófilos de carteirinha, mas que também atiçam a curiosidade de quem está chegando neste mundo;

5. Se for harmonizar com comida, combine de cada colega levar pelo menos um representante de cada variedade: um espumante, um branco, tintos e um de sobremesa;

6. Anote o nome, safra e produtor do vinho e registre os rótulos com fotos. Assim, você vai criando seu acervo pessoal das provas e pode repetir a garrafa que mais lhe agradar em outra oportunidade;

7. Se o encontro for na casa de um dos confrades, verifique se é preciso levar taças adicionais;

8. Se a reunião for marcada em um restaurante, é importante perguntar, no ato da reserva, se a casa cobra serviço de rolha, se tem taças de vinho adequadas, etc. Se não tiver, não se acanhe em levar suas taças, saca-rolhas, balde de gelo, o que for preciso para aproveitar ao máximo a oportunidade;

9. Se existir serviço de vinho no restaurante, reserve uma taça de um vinho ao sommelier ou proprietário e ouça a avaliação do profissional;

10. A dica mais importante, no entanto, é tornar este hábito um prazer, uma diversão daquele tipo que você espera ansiosamente pelo próximo encontro.

Você já tem, ou teve, seu grupo de vinhos? Conte aqui sua experiência. No próximo post, eu conto a minha. São dois anos da Confraria da Baixa Gastronomia, da qual orgulhosamente faço parte e que  completou recentemente dois anos de brindes. Mas isso merece outro texto.

Obs.: Aos meus persistentes seguidores que reclamaram na área de comentário, e com justa razão, do meu sumiço, minhas sinceras desculpas. Outras atividades me impediram de batucar aqui. Mas prometo recuperar o tempo perdido.

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quarta-feira, 8 de julho de 2009 Velho Mundo | 22:30

A última do português

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Sede da Quinta da Alorna, em Portugal

Sede da Quinta da Alorna, em Portugal

Vinho português não chega a ser uma novidade na mesa dos brasileiros. Quem aí do outro lado da tela nunca provou um cálice de Porto, uma taça do vinho verde Casal Garcia ou mesmo o tinto Periquita, nome que é motivo de um sem-número de piadas entre os neófitos, mas que não provoca qualquer comentário malicioso entre seus habituais consumidores.

Mas… Lisboa, temos problemas. Os representantes dos tintos d’além mar no Brasil não ficaram nada satisfeitos com a posição que coube a Portugal no ranking em volume de garrafas importadas em 2008: 4º lugar. A Itália atropelou nossos colonizadores e passou para a terceira posição (ver tabela abaixo).

1º  Chile  34,38%
2º  Argentina  26,54%
3º  Itália  17,91%
4º  Portugal  11,24%
5º  França  4,54%

ATUALIZAÇÃO (16/07/2009)
Portugal volta a ocupar o terceiro lugar!

Acabo de receber, do consultor Adão Morellatto, um informe com o mais recente levantamento do mercado de vinhos importados no 1º semestre de 2009, comparando com igual período de 2008. Aparentemente os tintos e brancos lusitanos voltam a ocupar o terceiro lugar mais em virtude da queda dos italianos – fenômeno que Adão ainda tenta destrinchar – do que pelo crescimento dos portugueses. Em todo caso, mostra uma reação e uma valoração nos preços.  Reproduzo na íntegra, sem edição, abaixo:

Conforme havíamos previsto houve uma queda de 1,923% em valor e de 0,871% em volume, refletindo muito  o mercado de capitais, a partir de setembro/08. Assim manifestaram-se os principais players do mercado:

1.    CHILE – Novamente deverá fechar o ano como principal exportador, com 33,55% de Share Value e 38,42% de Share Market, apresentando um crescimento de 1,457% em valor e de 2,130% em volume, como este ano há uma desgravação aduaneira, que estabelece o produto chileno próximo de 9% de I.I. (Imposto de Importação),  provavelmente seguirá com esta tendência de crescimento.

2.    ARGENTINA –   Também segue a tendência de consolidação como 2º maior exportador, mas apresentando um Share Value de 23,63% e Share Market de 27,03%, com crescimento próximo ao apresentado durante todo o ano de  2008 de 4,789%.

3.    PORTUGAL – Destacamos a performance equilibrada deste exportador, não sofrendo muita alteração em sua participação há alguns anos, apresentando um Share Value de 14,25% e Share Market de 11,11%, observado que seus vinhos possuem um custo médio de US$ 3,07 e com posicionamento constante de valoração.

4.    ITÁLIA – Foi o país que apresentou a maior queda entre os cinco primeiros players, com queda de 17,493 de Share Value, e com uma representatividade de 12,05%. Ainda estou levantando alguns dados na origem para identificar a razão para tamanha queda.

5.    FRANÇA – Também apresenta uma queda acentuada de 9,848% de Share Value e com participação de 9,08%.

6.   DEMAIS PAÍSES – Observa-se uma queda de 4,939% em Share Value.

Conforme dados acima, o primeiro semestre sempre apresenta uma queda, pois é um período típico de reposição, no segundo semestre, mantendo as paridades cambiais vigentes, teremos um quadro mais animador e de acordo com algumas fontes, grandes redes de mercado, iniciaram conversações para o fim do ano, portanto, provavelmente apresentaremos em Janeiro de 2010, uma situação mais otimista, observando que o mercado atual, já desovou grande parte do stock remanescente e já se observa uma demanda de aquisição e reposição de produtos.

O contra-ataque

Portugal não entrou em guerra, mas também não acovardou-se. E prepara o contra-ataque. Se 2009 é  o ano da França no Brasil, o braço lusitano que promove os vinhos da terrinha no mercado interno e externo resolveu promover por aqui o Ano do Vinho Português. Em uma parceria com  a Associação Brasileira de Sommeliers, a Viniportugal irá promover palestras com enólogos representativos das regiões mais importantes de Portugal. Já participaram das degustações: a estrela da Bairrada e do Dão, Luis Pato, com seus vinhos homônimos, e, mais recentemente, veio comentar seus brancos e tintos o enólogo Nuno Cancela de Abreu, da vinícola Quinta da Alorna, do Ribatejo.

Ribatejo? Não! Agora pode chamar de Tejo

O Ribatejo, como várias outras regiões do planeta,  melhorou muito a qualidade de seus vinhedos e rótulos nos últimos vinte anos.  Para mudar a imagem de seus produtos, o pessoal da Comissão Vitivinícola Regional (CVR) do Ribatejo teve então uma grande ideia. Se o Ribatejo estava associado a vinhos de grande volume e pouca qualidade do passado (lá chamados de “vinho carrascão”), resolve-se o problema eliminando as inicias do nome, rebatizando-a como Tejo.  O Rio Tejo, com seus  1009 quilômetros de extensão, é símbolo da região, que corta em duas metades. De certa forma esta decisão repete o batismo de outras regiões vinícolas da Europa, estabelecidas em torno de rios, a exemplo do Douro. Mesmo assim, creio que a decisão partiu de um palpite de algum marqueteiro ou  uma consulta a um numerólogo. Parece piada. Ribatejo e Tejo não faz lá muita diferença.

O enólogo Nuno Cancela comentou a um grupo de jornalistas que o novo nome também facilitaria o reconhecimento dos rótulos no principal mercado mundial de vinhos, os Estados Unidos. Ah, tá… Fica combinado então que para o americano médio ficou  mais simples dizer Tejo. Mas e quando o mesmo sujeito topar com as uvas nativas? Como vai pronunciar fernão pires, alicante bouschet, castelão, tinta miúda, touriga nacional…

Opinião divergente

Reproduzo aqui um comentário assinado por Azeredo no  fórum Enogastronomia – um dos fóruns de vinho mais movimentados da web.
Azeredo rebate minha observação irônica sobre a mudança de Ribatejo para Tejo com o seguinte argumento:

Não, não foi obra de marqueteiro, nem de numerólogo, muito menos é uma piada, e faz uma enorme diferença.
A decisão é discutida há muitos anos, foi embasada nos relatórios e pesquisas sobre o vinho portugues nos mercados internacionais.
Todos eles mostram que uma das sete grandes barreiras para a divulgação e aceitação dos vinhos portugueses no estrangeiro é’ o desconhecimento e dificuldade dos consumidores de localizarem a sua origem.
Isto faz uma enorme diferença, para quem quer conquistar mercados altamente competitivos.
Assim sendo, a “última do português” é uma medida extremamente salutar, que aumentou em 27% as exportacoes para paises consumidores.

Comento

Azeredo, como se vê, tem uma argumentação sólida, por isso acho que vale a intervenção neste espaço, apesar de ele ter enviado sua opinião em outro fórum de discussão.  A ironia do texto foi levada ao pé da letra. O que acredito, e tento expor nesta nota,  é que é o  salto na qualidade dos vinhos da região –  mencionado no texto –  que impulsiona o crescimento nas vendas.  A troca de nome é uma consequência, uma decisão de marketing.  Aliás, a  mudança  é recente, não deve ter influenciado, ainda, o aumento em 27% as exportações dos vinhos portugueses.

Vinhos: um espumante, um  branco e dois tintos

Das minhas recentes incursões pelo terreno lusitano, quatro indicações, para momentos diferentes, já que o tema aqui é Portugal

Bairrada

Espumante Baga Luis Pato rosado bruto (R$ 67,00, na Mistral) – Indicação de espumante português não é piada. É uma boa opção também, pode acreditar. Este frisante rosado é elaborado com a uva baga, que fez a fama de Luís Pato. Seco e refrescante, tem aquele aroma de frutas vermelhas frescas e uma acidez que limpa a boca, que é o que se espera de um bom espumante, com um toque diferenciado no sabor que o rosé traz. Arrisque, e depois venha comentar aqui.

Riba(ops) Tejo

Quinta da Alorna Branco 2008 (R$ 36,90) – Na minha eterna evangelização dos brancos nesta coluna, aqui vai  uma sugestão que é saborosa e de preço atraente. Muito fresco. A uva arinto dá notas de frutas mais amarelas, como melão, e a fernão pires aquela sensação cítrica e viva. Um belíssimo vinho de entrada, de piscina.

Quinta da Alorna Reserva Tinto 2007 (R$ 73,50, ambos encontrados na Adega Alentejana) – A uva cabernet sauvignon, misturada a uma das maiores representantes do solo português, a perfumada touriga nacional,  cria este vinho de corte que descansa em barricas novas de carvalho francês por um ano antes de ser engarrafado. Se o primeiro branco é um vinho de piscina do Tejo, já este é tinto para a sala de jantar, com frutos mais maduros, taninos mais complexos e maior estrutura, reafirmado pelo final consistente.

Douro

Quinta da Touriga Chã 2004 (de R$ 137,00 por R$ 79,00, até dia 31 de julho na liquidação da Interfood Clasics) – Esta é uma daquelas boas ofertas que valem a pena para conhecer um produto diferenciado. A touriga nacional é “a uva” portuguesa por excelência – bem conduzida e vinificada se transforma em caldos muito interessantes. Este aqui (80% touriga nacional e 20% tinta roriz) é, ao mesmo tempo, delicado no nariz (flores, violetas) e potente na boca (frutas negras e doces). Desce macio e pede mais um gole. Acompanha bem assados, mas acompanha melhor ainda um bate-papo entre amigos que gostam de um bom vinho português.

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terça-feira, 7 de julho de 2009 Blog do vinho | 01:59

Rótulo novo, as mesmas ideias

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Espelho, espelho meu, existe blog mais bonito que o meu?

Espelho, espelho meu, existe blog mais bonito que o meu?

Blog do Vinho deu uma renovada no seu visual, como devem ter notado alguns fieis leitores. Assim como outras blogs de Veja.com,  ele está mais integrado ao  site, as colunas ficaram mais largas e o menu lateral saltou para o lado esquerdo da tela.

Outras novidades foram incorporadas, como uso de tags (as tais palavras-chave mais importantes de cada texto), categorias (que vão agrupar temas que estão relacionados entre si), ícones para compartilhar os textos e até mudança de url (aquele endereço que identifica cada post). Agora o endereço é uma referência ao título de cada nota (esta aqui vai incorporar no final “rótulo-novo-mesmas-ideias”). Em internetês significa que agora o Blog do Vinho tem uma URL amigável. O colunista, pois, pode até não ser considerado tão amigável. Mas a URL, agora é.

Outra melhoria é a área de comentários, fundamental em um espaço que pretende dar voz à opinião de seus leitores – que costumam ser mais inteligentes, observadores e bem-informados do que o autor. E estão sempre me corrigindo. Aquele transtorno de ter de digitar aquelas letras – mais difíceis de decifrar que rótulo de vinho alemão – desapareceu. Basta digitar seu nome, e-mail válido e meter bronca. As mensagens são moderadas, sim. Mas meu compromisso é de publicar todos os comentários (com o privilégio de poder responder a alguns), menos aqueles que xingam a mãe, não estão relacionados ao tema (quer discutir a crise do Senado, há outros espaços em Veja.com para isso) ou são difamatórios ou preconceituosos.

O rótulo mudou, mas o objetivo deste blog continua o mesmo: tratar o vinho de forma bem-humorada e descontraída, com opinião independente e uma visão pessoal de todo tinto, branco, rosado, espumante e doce que eventualmente caia na minha taça e mereça um comentário. Além, é claro, de trazer muito serviço e atualizar o que existe de novidade no mundo do vinho.

Assim como a bruxa da Branca de Neve ali de cima, eu achei que ficou o blog de vinho mais bonito de todo o reino. Mas o julgamento não cabe a mim, mas ao leitor, que neste caso ocupa o papel crítico do espelho…  Ficou melhor ou pior?

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