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Arquivo de fevereiro, 2013

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013 Novo Mundo, ViG | 18:01

Dois vinhos bons e baratos australianos, uma uva diferente e a incrível história do enólogo que tem alergia a vinho

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Quando você ouve falar de Austrália, qual a primeira ideia que vem à cabeça?

1)   Bichos exóticos como cangurus, coalas e ornitorrincos

2)   Os fogos iluminando a Ópera de Sydney no réveillon

3)   O filme Crocodile Dundee e a atriz Nicole Kidman

4)   A banda de metal AC/DC

5)   Vinho shiraz

Se você optou pelo item número cinco é por que curte e conhece um pouco de vinho.  E sabe da importância do vinho – e da uva símbolo, o shiraz – na terra dos canguros, da Ópera de Sydney, do Crocodilo Dundee, da banda AC/DC e da Nicole Kidman.

Momento enciclopédia

A Austrália é um país-continente com quase 7,7 milhões de quilômetros quadrados, a sexta maior nação do mundo e com um baita deserto ocupando parte de seu território.

O vinho no entanto é um elemento importante de sua economia. A Austrália é sétimo maior produtor de vinho do mundo, com um crescimento de 14% entre 2007 e 2011, e a quarta maior exportadora de tintos (mais estes) e brancos do planeta, ficando atrás apenas da Itália, Espanha e França (dados do Relatório Estatístico da viniticultura Mundial 2012 da OIV – International Organisation of Vine and Wine).

No entanto os vinhos australianos não são tão difundidos no Brasil. No ranking dos vinhos importados divide um sétimo lugar – e pífios 4,13% em volume – com diversas outros países. Mesmo assim não é difícil encontrar rótulos de grande volume como Yellow Tail (a propósito, e não por acaso, a imagem é um canguru),  Jacob’s Creek e Hardys, ou produtores mais conceituados como Lindemans, Penfolds e d’Arenberg. Mesmo assim, a oferta é pequeno e, como consequência, o consumo  idem.

ViG – vinhos indicados pelo Gerosa

Bons e baratos

Pelos números acima, dá para perceber que a Austrália é uma produtora de grandes volumes, mas também é responsável por um padrão constante de qualidade, que se às vezes não surpreende mantém uma segurança na hora da compra. Há no entanto muitos rótulos estrelados que chegam aqui sempre na casa da centena de reais. Entre os bons e baratos (40 reais a garrafa), este Blog do Vinho indica dois exemplares corretíssimos, dignos representantes de suas uvas. São eles

Down Under Chardonnay 2012, região de Reverina, Nova Gales do Sul, 100% chardonnay, 14º de álcool – R$ 39,90

Uma belezura de tipicidade da uva chardonnay. Aromático sem exagero, exala uma fruta que lembra pêssego, mas pode ser outra fruta branca mais madura. Os seis meses de carvalho francês estão presentes no adocicado da boca, que é quebrado pela acidez presente que não deixa transparecer o alto teor de álcool. Um chardonnay refrescante e gostoso, pede uma taça a mais.

Down Under Shiraz 2010, região de Reverina, Nova Gales do Sul, 100% shiraz, 14º de álcool – R$ 39,90

shiraz é a rainha das tintas na Austrália. Tem como características aromas de especiarias, caldo encorpado, fruta madura. Tem tudo isso aqui e a baunilha do carvalho francês e americano (dormiu seis meses antes de ir para a garrafa). Mas o que mais chama a atenção deste tinto é sua maciez, aveludado. Não é cerveja, mas desce redondo e tem uma persistência que agrada.

Diferente e surpreendente

3 Bridges Durif 2007, região de Reverina, Nova Gales do Sul, 100% durif, 15º de álcool – R$ 128,00

A durif é uma uva de nome estranho (não confundir com a cerveja Duff, dos Simpsons) que chama a atenção do tipo “homens que cospem vinho”. Ela é originária do Vale do Rhone e leva o nome de seu “criador”, doutor Durif. Mas ela atende também se chamada de petit syrah, principalmente nos Estados Unidos. Dizem os entendidos que na Califórnia a petit syrah é uma “mistura” de durif e peloursin. Inclusive no Rhone, em grande parte dos vinhedos, hoje em dia, tem essa composição. “Na Austrália, o CSIRO (Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation), agência científica australiana voltada para o agrobusiness, fez o estudo de DNA e comprovou que a uva é 100% Durif”, ensina a importadora Marli Predebon. E daí? Daí que as características da uva preservadas conferem caldos de “cor negra e concentrada, alta carga tânica e alto teor alcoólico”. ainda segundo explicações da Marli.

Se estas são as características da autêntica durif, esta garrafa entrega a tipicidade da uva. O preço é bem mais salgado (R$ 128,00), mas trata-se de uma bela experiência. Este 3 Bridges Duriff, de 15º de álcool, é bastante concentrado, a cor é escura, impenetrável, a boca mostra uma compota de frutas. Os 18 meses de barrica americana inevitavelmente deixam traços de coco e baunilha (se não, não deixavam tanto tempo o bichão amaciando ali). O álcool tá ali, revelando um tinto quente na boca. Encorpado, com taninos firmes (epa, usei o jargão, clica no link…). Caldo de macho, vinho mais para Crocodilo Dundee e AC/DC do que para coala e Nicole Kidman.

O enólogo que tem alergia a vinho

Todas estas criações são da Westend State, vinícola que fica na região de Nova Gales do Sul, mais especificamente em Riverina, segunda maior produtora de vinhos da Austrália. Aqui, desde 1945 funciona esta adega familiar que elevou os tintos desta região para uma categoria superior. Até aí tudo bem, a apresentação oficial da empresa resume sua história. Mas o que mais surpreende é o seu atual proprietário e enólogo, Bill Calabria, da terceira geração da família.

Bill Calabria carrega uma cruz difícil de suportar, principalmente do ponto de vista de quem gosta e produz vinhos. Ele é portador de uma rara alergia aos ácidos presentes no vinho que o impedem de beber suas criações. Para realizar seu trabalho Calabria adota critérios olfativos e gustativos, sem  jamais engolir os vinhos. Para ele “Não é preciso engolir um vinho para saber se ele é bom ou ruim”. Incrível, não? Faz lembrar o fotógrafo cego Even Bavcar. O desafio é parecido. Mais surpreendente é a qualidade de seus vinhos, dos mais básicos aos topo de linha.

Notem o vídeo abaixo, em que Bill Calabria celebra a décima safra do Duriff – a primeira veio ao mundo no ano 2000. Ele comenta o vinho, balança a taça insistentemente e aproxima o nariz do vinho diversas vezes. Mas jamais bebe o líquido.

O vinhos da Westend são comercializados pela importadora KMM, especializada em rótulos australianos.

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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013 Degustação | 17:37

O gosto dos críticos de vinho combina com o seu?

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Como você escolhe o seu vinho? Você confia na opinião dos especialistas e segue a pontuação dos críticos na hora de comprar uma garrafa? Afinal são profissionais que provam mais 10.000 vinhos por ano (pelo menos é o que declaram duas das maiores estrelas da degustação, o onipresente americano Robert Parker e sua opositora inglesa Jancis Robinson)! E um vinho com, sei lá,  mais de 90 pontos da crítica é um indicativo poderoso, não é?

O crítico americano Robert Parker: bom ou ruim?

Mas será que a opinião dos experts – que afinal baliza o mercado e até o preço dos rótulos  – bate com o seu gosto? A degustação profissional é absolutamente técnica ou leva em consideração a preferência dos provadores? Se Robert Parker gosta de tintos maduros e potentes e Jancis Robinson prefere os tintos menos alcóolicos e com uma fruta mais fresca, como saber se suas notas combinam com o seu paladar? E as indicações de centenas de blogueiros – incluindo alguns palpites deste que vos escreve – e das publicações especializadas? Dá pra confiar nelas?

Dá. Apenas é preciso separar o bago da casca e colocar as coisas no seu contexto – e encontrar as indicações com maior afinidade com o seu paladar. O gosto é pessoal, mas ele também muda e pode ser moldado pela experiência. É bom lembrar também que o mundo também muda. Você que está aí do outro lado e milhões de outros usuários de redes sociais, aplicativos de vinho e blogs são protagonistas nas escolhas ao compartilhar e discutir suas preferências e escolhas.

Mas eu só quero a indicação de um bom vinho…

Claro que mesmo encontrando sua alma gêmea do vinho, não existe uma unanimidade. Nem em casa, para ser honesto. Alguns vinhos que declamo maravilhas quando tiro da minha adega e coloco na taça às vezes provocam um muxoxo na avaliação da minha mulher. Outros porém são praticamente louvados em uníssono. O crítico, ou especialista, nada mais é do que um consumidor profissional, que por conta de sua atividade, de seus conhecimentos e sua vivência tem mais elementos para julgar um produto, um alimento, uma atividade cultural. O crítico tem acesso ao mesmo produto e provavelmente consome de maneira idêntica, mas tem outras ferramentas para analisá-lo.

Mas é uma questão complicada. Os críticos são uma referência, mas aquilo que os distingue – o conhecimento – é o mesmo que pode distanciar do paladar médio dos consumidores. Um especialista em vinhos prova um oceano de tintos e brancos e não se compraz com um vinho massificado, de grande volume e sem relação com sua região. O crítico está sempre a procura de caldos que expressem um terroir específico, que contenham camadas de aromas infinitos, com a menor interferência tecnológica possível. O mesmo acontece, por exemplo, com o crítico de cinema. Ele assiste a milhares de filmes por ano e está sempre em busca de originalidade, de um roteiro inteligente, de atuações arrebatadoras; raramente consegue ter prazer naquele filme apenas correto ou no blockbuster que tem o objetivo de entreter enquanto se come pipoca. Ou seja, aquilo que os especialistas buscam no vinho – ou nos filmes – não é necessariamente o que o consumidor procura. Muitas vezes o que se quer é apenas a indicação de um vinho bom e barato para comer com a pizza, acompanhando de um filminho divertido. E a gente fica falando dos taninos…

O seu amargor é diferente do meu

Há até algumas explicações científicas que demonstram a diferença de percepção dos especialistas versus a dos consumidores do dia-a-dia. Um estudo realizado em Ontário, no Canadá, “Wine Expertise Predicts Taste Phenotype”, e publicado em março de 2012 no American Journal of Enology and Viticulture, se propôs a avaliar se especialistas e pessoas sem experiência com vinho tinham a mesma percepção ao sabor amargo. Para isso foi utilizada uma substância química inodora, o propylthiouracil, que é testada para medir a reação de uma pessoa ao gosto amargo. Em contato com a substância, participantes do teste que tinham habilidades de degustação identificaram um sabor extremamente amargo, enquanto pessoas com habilidades de degustação normais perceberam um sabor ligeiramente amargo. Ou seja, quando um crítico de vinho identifica um amargor no vinho muito provavelmente o consumidor não terá a mesma percepção, pois não está treinado para isso.

Rankings: o meu, o seu e o nosso

A outra variável é aquilo que poderia ser chamado de vinho 2.0 (apesar do desgaste do termo). As notas nas redes sociais, a indicação via aplicativos e banco de dados e a crítica dos usuários bebedores de vinho estão ajudando a construir uma avaliação coletiva, um ranking formado pela opinião compartilhada. Assim como na preparação de uma viagem é comum pesquisar tanto as informações de publicações especializadas como as avaliações de usuários para tomar uma decisão, no vinho este comportamente tende a se repetir. As notas e avaliações dos especialistas podem ser ou não referendadas e compartilhadas pelos usuários. A curadoria ainda é uma necessidade da indústria do vinho. Mas a rede permite a comparação e a análise a partir de uma massa crítica nunca antes imaginada. O que até ajuda a filtrar e desconsiderar os comentários favoráveis com interesses comerciais ou a “crítica oficial” subsidiada. A discussão é mais democrática, o profissional tem seu espaço e o amador de hoje pode formar uma legião de seguidores amanhã que o qualifique como referência.

A internet, mais uma vez, muda as regras do jogo cria um  padrão digital para um mercado ancestral. Uma amostragem realmente importante que traduz o gosto do consumidores – e uma poderosa ferramenta de marketing para a indústria. Há espaço para a discussão de todas as ideias, de todos as tribos –  dos defensores do vinho mais puro, do ativistas do terroir, do consumidores do custo-benefício, dos mantenedores da tradição das regiões, dos adoradores do vinho amadeirado e por aí vai.

A crítica de vinhos inglesa Jancis Robinson" gosta ou não gosta?

Estamos no momento em que talvez os cardeais do paladar, ou os ditadores do gosto, como querem os mais xiitas, tenham seu poder reduzido. E você dê menos importância a eles. E olhe mais para o que seu vizinho de rede está dizendo e compare o seu paladar com o de vários usuários que tiveram a mesma experiência e também com o ranking do master of wine, sem menosprezar sua experiência, mas também sem se ajoelhar perante sua avaliação. Pode dar um bom caldo. Literalmente.

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