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Arquivo de julho, 2008

quarta-feira, 30 de julho de 2008 Blog do vinho, Degustação | 23:01

Simples ou complicado?

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Este blog acaba de ser desarrolhado. Ele pretende ser um espaço que junte a vontade de beber – com direito a opinar  – com a de se informar. A lei pode ser seca, mas nós temos sede. Aqui, o papo é sobre vinho.

Segundo um artigo da Universidade Daves da Califórnia uma garrafa de vinho é constituída de 85% de água e 12% de álcool. Os 3% restantes —  elementos como ácidos, açúcar, glicerol, polifenóis, minerais e outras substâncias  —, misturados à água e ao álcool, dão a personalidade e o caráter desta que é a bebida mais comentada de todo o mundo. Ou seja,  a discussão gira em torno do que estes 3% são capazes de entregar. Inúmeras páginas na internet, milhares de livros e revistas especializadas são escritas para debater seus aromas, sabores e dissertar sobre sua origem. Por que  isso? Por uma simples razão: vinho é uma bebida cheia de manhas, que tem na diversidade sua maior qualidade e seu maior desafio para quem tenta entendê-la. Escolher um entre tantos rótulos, reconhecer o que vai dentro da taça e ainda por cima saber com qual comida fica melhor é trabalho de muitos anos de convívio com as garrafas e os livros. Vamos combinar, é um mundo maravilhoso, mas é complicado mesmo, se não, por que tanta gente tenta descomplicá-lo?

No Brasil calcula-se que existam  mais de 20.000 rótulos à venda, de diferentes países e regiões que produzem vinhos das mais diversas categorias e estilos (saiba mais acessando o mapa do vinho). Há um universo de uvas que vai além das tradicionais cabernet sauvignon e chardonnay  —  são registradas cerca 24.000 nomes para as mais de 3.000 variedades de uvas viníferas existentes. Destas, cerca de 150 são plantadas comercialmente em quantidades mais significativas (conheça as principais uvas tintas e brancas). Mesmo o mais aplicado dos connoisseurs está sempre se surpreendendo, e aprendendo, com as novidades que encontra engarrafadas.

Uma rápida pesquisa no site de buscas Google, o oráculo do nosso tempo, traz números impressionantes. São 320.000.000 respostas para a palavra wine e 11.400.000 para vinho. Só para efeito de comparação,  uma bebida de apelo mais popular como a cerveja não merece mais do que 202.000.000 registros em inglês e 7.350.000 em português. Não deveria ser o inverso?

A crítica inglesa Jancis Robinson tenta jogar uma luz ao explicar tamanho interesse em entrevista à VEJA.com: “O vinho está na moda, é símbolo de status, cultura e sofisticação”. Esta é uma parte da equação. Uma outra parte, talvez, diz mais respeito à necessidade do ser humano de fazer parte de um grupo  —  neste caso, pertencer àquele núcleo de pessoas que, presume-se, “entendem de vinho”. O vinho propicia este encontro ao confrontar o gosto pessoal ao gosto do outro, o conhecimento de uns à desinformação de muitos. Cada taça provada é um verbete a mais no dicionário particular. A régua da experiência, aqui, é medida em litros e letras —   o apaixonado pela bebida está sempre anotando a safra, o produtor, suas impressões e buscando mais infomações sobre aquilo que acabou de provar. Para estas pessoas, não basta o prazer de beber, é preciso saber o que se está provando.

Os melhores vinhos não são grandes pelo poder que têm de nos subjugar, e sim por sua aparente infinitude. Retornamos a ele diversas vezes, e a cada vez somos iluminados por uma nova sensação.
Matt Kramer, Os Sentidos do Vinho

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Brancos, Tintos, Velho Mundo | 22:53

Família Vega-Sicilia

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Repare nas imagens acima. Há uma certa semelhança entre os dois retratados, não? O sujeito da direita é o ator James Gandolfine, que interpreta Tony Soprano, o chefe mafioso em crise da série de TV Família Soprano. Na esquerda quem comparece é Pablo Alvarez, proprietário das Bodegas Vega-Sicilia, a mítica vinícola espanhola fincada em Ribera del Duero, na Espanha, que esteve em São Paulo, com o filho e enólogos, para compartilhar com uma série de convidados o seu próprio vinho. Curiosa semelhança entre os dois, não me saía da cabeça durante o encontro. O sujeito sentado no meio de uma grande mesa. Sicília, máfia, família, o mesmo jeitão… muita coincidência. Se ele sacasse, nem que fosse um charuto do bolso, eu caía fora!

Bobagem! Pablo Alvarez é um empresário calado e tímido, é o antimarketing em pessoa. Ao contrário da maioria dos produtores e enólogos, que pousam por aqui munidos de apresentações em power point, catálogos caprichados e discursos irritantemente didáticos (e não há mais quem agüente o batido discurso de que “não se faz bom vinho com uva ruim”), Don Pablo parece implorar para não ser instado a falar. Inundado de perguntas, suas respostas são curtas e diretas. Uma definição para o Vega-Sicília Único? Elegância. Qual o melhor dos seus vinhos? O melhor ainda está para ser feito. A região de Toro, onde tem uma propriedade (dali sai o Pintia), pode um dia alcançar a qualidade de Ribeira del Duero? Não, não tem o mesmo clima e o solo encontrados em Ribera del Duero. Questionado sobre as experiências de um branco com o selo Vega-Sicilia, Don Pablo assumiu seu lado Família Soprano, se fechou em copas e negou com veemência. Seu enólogo, um pouco mais falastrão, anunciou, em particular, o lançamento para 2013, da safra 2010. Depois indagou, dissimulado: “Você não é da imprensa, é?”

Don Pablo, como se vê, não é de teorizar muito sobre seus rótulos. Seus vinhos falam por si. Mito espanhol, o Vega-Sicília Único Gran Reserva só é produzido nos melhores anos. Para se ter uma idéia, a safra que está no mercado é a de 1996. É o primeiro vinho da casa, sem dúvida alguma, mas tenho de confessar que o Vega-Sicilia Valbuena 5º Año Reserva 2002 me agradou mais, estava mais pronto e às cegas eu o teria eleito em primeiro lugar, apesar de ser o segundo vinho da casa  – e que segundo! Clássico, elegante, potente, floral no primeiro ataque e com várias camadas de aromas após um tempo na taça. Foi ótimo com um kobe beef, mas vai bem com tudo, mesmo sozinho. Um Armani dos tintos (inclusive no preço), com pinta de Bordeaux e tempero Espanhol.

As estrelas da noite, pela ordem de entrada, foram:
Tokaji Furmint Mandolás 2005 (um branco seco de boa acidez da Hungria, U$ 39,90); Pintia 2004 (um tinto potente e um pouco alcoólico da região de Toro, U$ 126.50); Alión 2003 (240.000 garrafas produzidas ao ano, um clássico da uva tempranillo, U$ 145,50); Vega-Sicilia Valbuena 5º Año Reserva 2002 (180.000 garrafas/ano, clássico, elegante e pronto para beber, US$ 319,50); Vega-Sicilia Único Gran Reserva 1996 (80 a 110.000 garrafas/ano, caldo intenso, muita fruta, mas ainda vai melhorar na garrafa, U$ 749,50), os três últimos da região de Ribera del Duero. Para finalizar um prazeroso vinho doce de sobremesa da Hungria, Tokaji Aszú 5 Puttonyos 2000, U$ 127,50. Nada aqui é barato. Qualidade e reconhecimento têm preço. Mas o que mata são esses 50 cents no valor de tabela, né não?

Todos os vinhos fazem parte do catálogo da Mistral. Os preços da importadora são tabelados pelo dólar do dia.
Bodegas Vega-Sicilia: site oficial

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Blog do vinho, Degustação | 22:44

Salvem os enochatos!

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Estou preocupado com a sobrevivência dos enochatos. Baseado na declaração de todos os especialistas, revistas e colunas, os enochatos correm o risco de extinção. Todos são contra esta categoria de cidadão que procura girar sua taça, fungar profundo antes do primeiro gole e tascar uma declaração do tipo “café torrado, fumo de corda”, para incredulidade daqueles que o rodeiam. Tenho pena dos enochatos, ridicularizados, sempre citados como exemplo de como não se deve comportar um apreciador de vinho. Já reparou? Nunca ninguém é um enochato. Enochato são os outros.

Mas cá entre nós, o sujeito se esforça, faz todos os cursinhos da ABS, da Sbav, compra coleções, livros, acompanha as colunas de jornais e blogs (ei, você que está me lendo, se considera um enochato?), aguarda ansioso em casa pelos catálogos das importadoras e não pode nem se bacanear numa rodinha informal com a turma na firma? Imagine a cena. Estão todos ali tomando um Chablis, um vinho branco da Borgonha, que alguém trouxe para comemorar o bônus do final de ano e o enochato doido para demonstrar seu conhecimento. Dada hora, finalmente uma voz palpita: “Tem uma coisa que não consigo identificar aqui… um sabor…”. E nosso amigo prontamente esclarece: “É esta boca mineral, por conta do solo calcário da região de Chablis”. Todos às volta enfiam o nariz na taça, tomam um pequeno gole e a maioria aquiesce com a cabeça. É a glória do enochato. E não fez mal nenhum para ninguém. E teve até seu papel “educativo”. Junte-se a esta corrente do Blog do Vinho, colabore com nossa campanha, preserve  os enochatos!

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