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terça-feira, 22 de junho de 2010 Entrevista, Novo Mundo | 12:07

África do Sul: o vinho do país da vuvuzela

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“A África do Sul não é só pinotage”,
John Platter, critico de vinhos
e autor do guia John Platter’s South African Wines

A Copa do Mundo na África revelou ao mundo um estádio belíssimo, o Soccer City, popularizou uma traquitana ensurdecedora e irritante, a vuvuzela, e mostrou ao mundo que no extremo sul do continente africano faz frio. Muito frio, como lembram os cronistas esportivos a todo instante. Nossos enviados parecem surpresos com esta obviedade climática, afinal as terras que ficam abaixo do paralelo 30 esfriam mesmo no inverno. E é neste trecho da África, na mesma faixa onde crescem as parreiras da Argentina e da Austrália, que são cultivadas as parreiras sul-africanas. Os vinhedos próximos à Cidade do Cabo registram temperaturas semelhantes ao do Napa Valley, na Califórina.  No país da vuvuzela, o vinho também faz barulho!

O país não é exatamente um iniciante na produção de vinhos. A história vitivinícola sul-africana pode ser simplificada em três fases distintas.

Início. Um Novo Velho Mundo – As primeiras vinhas foram plantadas em meados do século XVII, na região de Constantia, perto do Cabo da Boa Esperança. Os holandeses lá instalados tiveram uma mãozinha de refugiados franceses conhecedores da viticultura. Os vinhos brancos de sobremesa de Constantia, elaborados com a uva moscatel, chegaram a ser objeto de desejo das cortes europeias neste período. Este início precoce torna a África do Sul uma contradição em termos: trata-se de uma região do Novo Mundo com mais de 350 anos! A decadência do setor veio com o ataque da filoxera (sempre ela), a praga que dizimou, em 1886, boa parte das videiras ao redor do mundo. O replantio priorizou a produção em grandes quantidades, mas o volume bateu na parede da recessão inglesa, os maiores importadores do vinho sul-africano daquele tempo.

Nos tempos das cooperativas e do apartheid – O início do século XX foi marcado, assim, pela quantidades de uva por cacho e não pela qualidade da fruta. Numerosos fazendeiros vendiam suas colheitas para cooperativas e atravessadores poderosos que controlavam os preços. Em 1918 esses fazendeiros, com ajuda do governo, criaram uma cooperativa própria, a Ko-operative Wijnbouwers Vereniging (KWV), que durante anos regulamentou e controlou preços e tinha plenos poderes sobre a indústria do vinho na África do Sul. Hoje a KWV se tornou uma empresa privada, com rótulos próprios. Esta situação, agravada pelo boicote aos produtos do país em represália ao apartheid vigente, tornou o vinho sul-africano desconhecido fora do país.

O renascimento do vinho de qualidade – O cenário começa a mudar em 1994, com o fim do regime do apartheid. Uma política agressiva de inovação e investimento em tecnologia, a aposta em  diferentes terroirs para uvas internacionais, além do charme de uma uva nativa (a pinotage) tornou o país em um grande produtor de vinhos de qualidade em poucos anos. Atualmente são mais de 500 vinícolas privadas em funcionamento, o dobro do início do século.

Apesar de a pinotage ser uva emblemática as tintas mais produzidas são cabernet sauvignon, shiraz, merlot, seguida da pinotage. (A pinotage é uma variedade africana originária do cruzamento das uvas francesas pinot noir e cinsault, conhecida no país como hermitage.) As brancas dominam 55% da área cultivada (dados de 2006), as mais plantadas são: chenin blanc, colombard (para brandys), chardonnay e sauvignon blanc.

John Platter: o Robert Parker da África do Sul

Em 2004, o jornalista John Platter – o crítico de vinhos mais influente da África do Sul – deu uma entrevista a este redator. Ele á autor do guia John Platter’s South African Wines, com mais de 1 milhão de exemplares vendidos (conheça outros guias na seção Biblioteca). Lançado em 1980, o guia é uma referência no mercado e aceito como verdade pela crítica internacional. Ter um rótulo bem cotado no guia de Platter é um carimbo no passaporte internacional de uma vinícola.

Ninguém melhor para introduzir o leitor deste blog no mundo do vinho sul-africano do que seu crítico mais bem informado. Mesmo passados seis anos da entrevista, sua visão sobre a produção, as tendências e características do vinho da África do Sul continuam atuais. Abaixo os principais trechos:.

Como o senhor define o estilo do vinho sul-africano?

Nós fazemos vinhos há 350 anos. Mas de uma maneira mais séria somente há 10 ou 15 anos. O estilo sul-africano está entre o moderno vinho do novo mundo, como o australiano, gratificante e imediato, e o clássico vinho do velho mundo europeu, mais austero, complexo, com capacidade de envelhecimento na garrafa.

Como são julgados os vinhos em seu guia?
São 10.000 vinhos analisados por ano, durante sete meses. Mas é um trabalho de equipe, não faço isso sozinho (Nota: na edição de 2008 são quinze colaboradores). São degustados vinhos do ano e de safras passadas, para saber como a qualidade está evoluindo. Eles são classificados numa escala que vai de zero a cinco estrelas e somente 17 vinhos recebem a cotação máxima .

O vinho sul-africano evoluiu muito desde o lançamento da primeira edição de seu guia, em 1980?
A mudança desde 1980 é tremenda. Todo ano se verificam melhorias. Os aperfeiçoamentos tecnológicos foram imensos. Um dos exemplos de como a tecnologia tem ajudado nesta evolução é o uso de fotos aéreas infravermelhas tiradas das plantações durante a colheita, o que permite monitorar quais as uvas certas para colher no meio do vinhedo. São refinamentos que vieram com o tempo. Mas não aprendemos rápido o suficiente. A mudança tem de ser feita primeiro nos vinhedos, para produzir frutas melhores, mais limpas, maduras e puras. A qualidade do vinho é obtida primeiro nos vinhedos, antes da vinificação.

A pinotage é a principal uva do país?
A pinotage é reconhecida como a uva que só nós temos. É uma questão de orgulho nacional. Mas se podemos dizer que a Argentina é malbec, a África do Sul não é pinotage. É apenas uma entre as muitas variedades que produzimos, e uma variedade muito controversa, que gera uvas de má qualidade se não forem bem cuidadas, pois têm uma certa rusticidade. Por isso, temos produtores apaixonados e outros que odeiam esta cepa. Quando misturada a outras uvas, o que chamamos de Cape Blend, funciona melhor. Nós trabalhamos muito bem com outras uvas; fazemos shiraz brilhantes – temos um clima muito similar (ensolarado, quente) ao Vale do Rhone, na França, onde a fruta se dá melhor -, muito bons pinot noir, cabernet sauvignon, sauvignon blanc e chardonnay. O problema é que todo mundo tem shiraz e cabernet sauvignon e acaba-se produzindo vinhos muito parecidos.

Como se diferenciar e se destacar neste mercado?
Nós estamos trabalhando para produzir vinhos com tipicidade, que sejam originais, relevantes, com reconhecimento de seu terroir, que são as características de solo e clima de uma microregião que dão uma especificidade única a um vinho. Nós temos de passar por este estágio e evoluir. Se África do Sul não produzir um vinho com o seu terroir não vai conseguir se distinguir em relação a outros países, caso contrário vai acabar produzindo uma espécie de “coca-cola”.

Dê um exemplo de um produto onde o terroir faça a diferença.
Temos um sauvignon blanc produzido pela Steenberg, em Constantia Valley, em que os vinhedos estão localizados numa região de ventos muito fortes e onde há uma seleção natural que diminui o número de cachos na parreira. As frutas que resistem são mais maduras, melhores e produzem um vinho que tem uma característica única, conferida à sua casca por este mesmo vento. E a casca, vale lembrar, é o elemento da uva de onde vêem os principais aromas do vinho. Isso ninguém pode copiar. É um bom exemplo do que se pode extrair de um terroir.

Como era trabalhar na África do Sul no período do apartheid?
Muito difícil. Era terrível sentir que todo o mundo era contra você. Mais ou menos o que os americanos devem estar sentindo agora (a entrevista foi realizada na era Bush). Não havia competição. Com o fim do regime do apartheid e a entrada da África do Sul no mercado de exportação, mudaram as regras de produção e começaram as melhorias nos vinhedos e vinícolas do país. Mas no aspecto social ainda temos um sério desafio pela frente: só 1% da indústria está nas mãos da população negra e o governo, acertadamente, identificou que esta situação é insustentável por muito tempo. Eu trabalho num órgão do governo (South African Wine Trust ) que tem a missão criar condições para mudar esta realidade. (Último relatório da South African Wine Trust indicam que esta questão andou de lado e continua no mesmo patamar with less than 1% of the land under wine grapes under black ownership, management or control.)

Antes de ser colunista de vinhos, o senhor trabalhou na United Press como correspondente de guerra e testemunhou vários conflitos. O que o levou a mudar de área?
Fiz este tipo de jornalismo por 15 anos. A Guerra da Biafra, por exemplo, foi muito sofrida, ver pessoas com fome, matando-se umas às outras. Eu achei que eu não seria forte o suficiente para continuar o resto da minha vida nesta função. Cobrir uma guerra é uma experiência fisicamente muito intensa. Eu sempre gostei da idéia de ser um fazendeiro e trabalhar com vinho. Provar e escrever sobre vinho é muito criativo também, é tão criativo como tentar criar histórias dramáticas sobre a guerra.

O que é mais difícil escrever: uma coluna de vinho ou um artigo sobre a guerra?
Os dois são difíceis. São ambas experiências subjetivas. Você tem elementos objetivos para lidar na guerra e no vinho também. Mas o que você coloca no papel é o seu ponto de vista. E é muito difícil expressar sua verdade, especialmente no vinho, pois muita coisa sem sentido é escrita sobre o assunto. E muitos termos nada significam para a maioria das pessoas.

Além de crítico o senhor também é produtor de vinho. O que começou primeiro?
Minha carreira de crítico começou antes, só depois fui aprender a fazer vinho. Eu produzo uma pequena quantidade para consumo próprio. E comecei este trabalho para saber como é fazer vinho. Assim entendo melhor a bebida. Também aprendi uma coisa: é mais fácil ser crítico do que produtor.

Por quê?
Você passa a entender as dificuldades de um produtor. São milhões de detalhes que devem ser observados, no vinhedo e na vinificação. Escrever um livro também é difícil mas não é tão mágico e complicado como fazer um vinho e lidar com a natureza.

O que é mais gratificante: vender 1 milhão de exemplares de seu guia ou criar um vinho brilhante, com reconhecimento mundial?
Atualmente estou aposentado, e apesar de estar envolvido no guia faço outras coisas também. Mas se você me fizesse esta pergunta quando ainda estava completamente envolvido na edição, eu diria que eu preferiria produzir um vinho brilhante, que pudesse merecer as cinco estrelas do meu guia.

Nem chenin blanc, nem pinotage

Quem sou eu para discordar de John Platter? Mas a realidade das taças provaram até agora que, pelo menos dos exemplares que chegam ao Brasil, o melhor da África do Sul são mesmo os tintos de shiraz ou o cape blend e os brancos refrescantes e de grande personalidade  das uvas sauvignon blanc e chardonnay. Onde encontrar estas belezinhas? Nos links abaixo você chega direto nas páginas das importadoras dos rótulos sul-africanos.

Mistral

Expand

Zahil

Grand Cru

Decanter

World Wine

Vinci

Casa Flora

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terça-feira, 13 de abril de 2010 Entrevista | 08:29

Nós viemos aqui para beber ou para conversar? Uma entrevista com o criador do Fórum Eno-Gastronomia, Mike Taylor

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O vinho, definitivamente, é uma bebida tagarela. Seus admiradores não se contentam apenas em prová-la. Têm uma necessidade quase atávica de escrever sobre o que se bebe. Se até alguns anos atrás estas  impressões eram registradas em cadernos que ficavam guardados na gaveta, hoje elas são públicas e se multiplicaram em blogs, fóruns e redes sociais.

O fórum, o avô das redes sociais, talvez seja a forma mais orgânica em que os fanáticos pelo fermentado rubro e branco debatem suas preferências, discordam da critica especializada e dividem conhecimento entre iguais.

Nestes espaços virtuais do vinho, ninguém é tratado com desdém por discutir  filigranas aromáticas ou questões como o selo fiscal, recentemente instituído pelo governo federal. As notas de Parker a um vinho, por exemplo, são discutidas com paixão de boleiro e argumentos  científicos. Novas safras são aguardadas com ansiedade adolescente, degustações são combinadas entre confrarias e a visita de certos enólogos é tratada com status de chefe de estado.

Nas redes sociais, a conversa é mais descontraída. O grupo do Orkut Adoro Vinho Tinto tem 182.255 membros, por exemplo. Nos Estados Unidos a comunidade social Must Love Wine tem 9.330 membros cadastrados e 135.000 seguidores.

Apesar de a discussão estar migrando para os facebooks e orkuts da vida,  Alguns  fóruns ainda sobrevivem.

Lá fora, megasite americano da revista Wine Spectator tem um fórum atuante. Assim como o site especializado Wine Lovers

Aqui no Brasil, o fórum mais atuante e talvez de maior repercussão é o Fórum de Eno-Gastronomia , mais conhecido entres seus integrantes como o Fórum do Mike. Criado em 2005 pelo consultor em vinhos e gastronomia Mike Taylor, hoje conta com  4.400 membros, muitos com participações diárias, responsáveis por cerca de 100 posts semanais.

Myke Taylor, o mediador do Fórum Eno-Gastronomia

Mike Taylor, do Fórum Eno-Gastronomia

Mike, 43 anos, vive e trabalha atualmente na Argentina, onde é consultor de vinícolas, recebe grupos e clientes interessados em conhecer as regiões produtoras da Argentina e do Chile além de coordenar o Grupo de Estudos e Degustação de Vinhos (GEDV). Na Argentina ampliou sua presença na rede e montou o Forum Vinogourmet, versão hispânica do Fórum de Eno-Gastronomía, que já conta com 3.100 membros.

Mike, em entrevista ao Blog do Vinho, defende: a livre discussão de idéias e a participação de lobbies e profissionais no seu fórum (“Tenho muito orgulho de contar com eles como membros”), o vinho nacional (Se há um vinho que me surpreende positivamente, esse é o brasileiro”), o consumidor nacional (“O brasileiro dá de dez a zero nos seus vizinhos argentinos”), mas é rigoroso com os blogs e críticos de vinho (“Tem muita gente que escreve para ser convidado de graça a eventos e degustações”). Recentemente, Mike se envolveu na polêmica sobre o uso do fungicida netamicina em alguns rótulos de Mendoza, o que  rendeu uma discussão acalorada na rede e no próprio fórum. “Não há evidências concretas que provem que houve má-fé por parte de alguns produtores argentinos”, defende. E sugere um protecionismo dos órgãos europeus ligados à vinicultura. “A Europa não consegue colocar muito vinho encalhado no mercado”. Leia a entrevista:

SOBRE O FÓRUM

Como foi a ideia de criar o Fórum Eno-Gastronomia?
Um amigo enófilo consultou-me, um sábado à noite, onde podia aprender sobre vinhos na internet. Eu indiquei uma lista de discussão muito popular naquela época, mas ele disse que só participaria de um fórum que fosse meu. Voltei para casa com essa ideia, e nessa madrugada de domingo criei o Fórum de Enogastronomía.

Quem é o publico que freqüenta o fórum?
Nosso fórum é freqüentado por enólogos, sommeliers, importadores, distribuidores, chefs de cuisine, enófilos e bon vivants que se sentem à vontade para discutir com outros gourmets apaixonados pela boa mesa.

A liberdade de expressão é a principal característica. Seguida da busca de conteúdo sério em matéria de enologia, com linguagem acadêmica, mas também expressada de modo acessível. Sempre procurei mostrar aos enófilos que vinho não é bicho de sete cabeças.

Existem lobbies do vinho de qualquer espécie participando do Eno-Gastronomia?
Sim. E tenho muito orgulho de contar com eles como membros. Acredito que os “caucus” e “lobbies” são proativos. Esses grupos não precisam estar escondidos. E considero que a venda, a livre oferta, não é pecado.

Não vejo nada de errado em que uma importadora publique um jantar ou degustação, ou que alguém venda seus vinhos no nosso fórum ou que um produtor divulgue as qualidades do seu vinho.

Tenho orgulho que enólogos como José (Pepe) Galante, do grupo Ex Catena Zapata, agora Salentein – Mapema, ou Aldo Biondolillo, da Tempus Alba, sejam membros ativos do meu fórum argentino.

Gosto se discute?
Gosto se discute, sim. O gosto, como as regras, mudam, mas há reações da físico-química no paladar que não se discutem. Então, se alguém insistir em comer um fruto do mar com um tinto encorpado sem considerar que os taninos do vinho  ao entrar em contato com o iodo e a saliva no paladar deixarão a sua boca com sabor metálico, está na hora de discutir o gosto.

Por que se escreve e se discute tanto sobre  vinho?
Como o vinho é por natureza paixão pela terra, pelo método, pelas tradições, pelo produto final, é natural que quem discute sobre vinhos seja passional e o debate acalorado.

A CRÍTICA E OS CRÍTICOS

Qual a importância da crítica internacional?

Aqui devemos separar o trigo do joio e vice-versa. Parker e a Wine Spectator de  um lado e Hugh Johnson, Jancis Robinson e a revista Decanter de outro.

O primeiro time, made in U.S.A. tem mostrado sérios problemas de credibilidade. O Parker envia pessoas como Jay Miller que dão 90 pontos até em água mineral com gás. Detalhe: recebem presentes e viagens de vinícolas.

Não nego o valor democratizador que Robert Parker teve na divulgação do vinho como bebida e não duvido dos benefícios. Mas é impossível achar que tem um supernariz… ainda que ele tenha segurado o mesmo em 1 milhão de dólares.

A revista Wine Spectator organizou um concurso fraudulento onde escolheu como melhor restaurante do mundo uma casa de Milão que não existia. Assim, não dá para você acreditar neles.

O Hugh Johnson, é um maestro de maestros. A Jancis Robinson é Master of Wine. São pessoas com muito estudo e formação. São esses os modelos que devemos imitar, o aperfeiçoamento, muito estudo. A revista Decanter, eu gosto, leio e acho confiável.

Gostaria também de mencionar um crítico muito interessante, o iconoclasta Gary Vaynerchuck, do site Wine Library.

Como avalia a crítica especializada no Brasil e os blogs de vinho?
Sempre digo que admiro Marcelo Copello pois ele está sempre estudando, se aperfeiçoando. Assim você pode ver a evolução dele, desde o primeiro livro onde era rigoroso demais com a pontuação dos vinhos, até o sistema que adotou quando foi editor da Revista Adega.

Já alguns supostos críticos brasileiros de vinhos têm me decepcionado muito, principalmente quando pessoalmente os vejo e ouço afirmar que um vinho chileno tipo “blockbuster” tem a elegância de um vinho da Borgonha…

O blog é um diário íntimo aberto a multidões. O blog não pode ser encarado como uma coisa definitiva. Boa parte não escreve, apenas copia, repassa, e muitas vezes nem menciona a fonte.

A Internet trouxe uma quebra de paradigmas. Hoje todo mundo pode ter um blog. Mas há de se ter conteúdo e dedicação para mantê-lo. Parece que em matéria de vinhos, não de enologia, as coisas ficaram mais flexíveis. Hoje você vê gente sem preparação acadêmica, que não são sommeliers, falando e escrevendo de vinhos. Isso é bom? Sim! Tem  um lado positivo, a democratização do conhecimento. A universalidade. Porém há muito boato e falácia.

Tem muita gente que escreve para ser convidado de graça a eventos e degustações, faz pose de entender alguma coisa, pergunta se a barrica é de primeiro ou segundo uso como se entendesse e percebesse a diferença.

Mas a culpa não é toda deles, é das importadoras, vinícolas e distribuidoras que convidam indiscriminadamente supostas pessoas que são ou serão formadoras de opinião.

Pessoalmente sou contra os eventos de graça. Muitos deles se convertem em celeiros de pessoas que procuram fazer uma boquinha.  Leia mais »

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quinta-feira, 4 de março de 2010 Entrevista | 09:53

Aubert de Villaine, o monsieur Romanée-Conti, é escolhido o homem do ano pela revista Decanter

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Capa da ediçnao da Decanter de Abril destaca De Villaine como Homem do ANo do vinho

Capa da Decanter de abril destaca De Villaine como Homem do Ano

A revista de vinhos inglesa Decanter, colecionada pelos enófilos, respeitada pelo mercado e invejada pelos concorrentes, estampa em sua edição de abril, lançada dia 3 de março, a escolha do produtor Aubert de Villaine como homem do ano de 2010. A eleição é feita pela revista desde 1984 e pela primeira vez um representante da Borgonha, na França, é agraciado com o título. Veja lista completa no final do post.

Para quem não sabe, Aubert de Villaine é ninguém menos do que o proprietário da Domaine de La Romanée-Conti (DRC), um pedaço abençoado de terra de apenas 250.000 metros quadrados, onde se concentram seis grand crus — a mais alta categoria que um vinhedo pode alcançar na região da Borgonha. Ali são elaborados os rótulos Grands Échézeaux, Romanée-Saint-Vivant, La Tâche, além da estrela da casa, o Romanée-Conti. Para quem fica especulando o valor de um vinhedo desta qualidade, De Villaine é curto e elegante, como sempre: “A DRC não tem preço”. Mais comentado do que bebido, o Romanée-Conti é um desses vinhos que ultrapassa sua natureza de produto e ganha status de obra de arte.

Sexta geração à frente dos vinhedos, Aubert de Villaine é adepto da prática orgânica desde 1986 e mais recentemente da biodinâmica, aquela prática que rejeita o uso de defensivos químicos e acredita na influência dos astros sobre as vinhas. “É uma importante ferramenta para fazer vinhos”, justifica De Villaine, que mantém uma equipe permanente de 25 funcionários no campo que fazem uso da tração animal no tratamento do solo. Para ele, a melhor maneira de lidar com um terroir perfeito como a Domaine de la Romanée-Conti é a menor interferência possível: “Este pedaço de terra tem sido dedicado à excelência em fazer vinho há séculos. Meu trabalho é de guardião deste terreno”, diz.

Tive a oportunidade de entrevistá-lo no final de 2007, quando De Villaine veio ao Brasil apresentar a safra 2004 de seus vinhos. Abaixo reproduzo alguns trechos:

Blog do Vinho – Como se sente sendo o responsável pelo vinhedo onde são produzidos os melhores vinhos do planeta?
De Villaine – Sou um privilegiado, mas também muito consciente de minha responsabilidade. Este pedaço de terra onde eu faço vinho tem se dedicado à excelência há séculos. Minha missão não é colocar uma marca pessoal, mas manter uma tradição.

Blog do Vinho – O que faz o Romanée-Conti ser um vinho cultuado pelos especialistas e desejado pelos milionários do mundo?
De Villaine – A principal razão é que ele é um vinho de terroir. O Romanée-Conti é uma espécie de símbolo desta ideia. Seu vinhedo está localizado num local privilegiado, um grand cru de apenas 1,8 hectare (18.000 metros quadrados), no centro nervoso de nossa Domaine, em Vosne-Romanée. O resultado é um vinho elegante, suave, feminino e com grande personalidade e finesse, qualidades que já eram observadas pelo príncipe Conti, no século XVIII, quando ele adquiriu o vinhedo. Outra explicação é a escassez. A produção é muito pequena e a demanda alta. São cerca de 5.500 garrafas por ano, que são disputadas em todo o mundo. E esta produção não vai se alterar nunca, ela é determinada pelo tamanho do vinhedo.

Blog do Vinho – Seus vinhos alcançam preços estratosféricos nos mercados de investimento e na internet. O que acha disso?
De Villaine – Isso é algo completamente fora de nosso controle e que lamento profundamente. São valores tão altos que transformam os vinhos em item de colecionador, em troféus. Quando um produto atinge esta faixa de preço, eu acredito que as pessoas temem abri-los. Isso é um erro. Vinho não é para colecionar, nem para especular, mas para beber e dividir entre os amigos.

Blog do Vinho – Como explicar, para um leigo, o significado de terroir e sua influência?
De Villaine – Terroir é um pedaço de solo delimitado pelo homem, com certas condições climáticas, ideal para um certo tipo de vinho. É uma alquimia entre o homem e a natureza estabelecida pela história. Os monges começaram este trabalho, no século XI ou XII, ao delimitar os vinhedos da Borgonha e as uvas que seriam plantadas: a pinot noir, para os tintos, e a chardonnay para os brancos. Este conceito alcançou o nível mais elevado na Borgonha. Um bom exemplo da influência do terroir vem de dois vinhedos nossos: o Grands-Échézeaux e o Échézeaux. Mesmo sendo vizinhos, há diferenças de solo entre eles. Em Échézeaux, há muitas pedras; no Grands-Échézeaux, o solo é mais profundo, nunca serão encontradas grandes pedras saltando para fora da superfície — ou seja, em Échézeaux é possível caminhar usando sapatos finos, já no Grands-Échézeaux é necessário calçar botas. O vinho que resulta de cada um desses solos tem a sua personalidade. O aroma e o paladar não são as coisas mais importantes — isso se altera a cada safra —, mas sim esta personalidade, que vem da terra. Uma energia que percebemos quando provamos, a cada ano, um Échézeaux e um Grands-Échézeaux.

Rótulo do Romanée Saint Vivant autografado por Aubert de Villaine

Rótulo do Romanée-Saint-Vivant autografado por De Villaine em sua visita ao Brasil em 2007

Blog do VinhoA propósito, os especialistas costumam descrever uma infinidade de aromas, alguns meio esquisitos, nas taças de vinho. Isso não intimida um pouco os consumidores que não conseguem distinguir estas coisas?
De Villaine – Não fico surpreso que as pessoas não identifiquem estes aromas todos nos vinhos que compram. Eu mesmo não sou capaz de reconhecê-los. Aliás, acho muito aborrecido. Não estou interessado nisso, e sim na personalidade do vinho. Até admiro quem tem esta capacidade. Mas para mim, não há interesse algum.

Blog do Vinho – Como o senhor avalia a influência do megacrítico americano Robert Parker e de seu critério de avaliação de 100 pontos?
De Villaine – Eu acho que ele é um dos maiores responsáveis pelo crescimento do consumo de vinhos no mundo — é claro que o fato de as pessoas estarem mais ricas também ajudou. Quanto às notas, me parece bizzaro. Nós achamos impossível justificar uma avaliação com números. O que Parker diz sobre a bebida é mais interessante que suas notas. Mas é o jeito que funciona, e não podemos fazer nada contra isso. Eu espero que os consumidores aprendam que isso não é importante.

Blog do Vinho – O presidente Lula, quando eleito para seu primeiro mandato, em 2002, comemorou sua vitória com uma garrafa de Romanée-Conti 1997. Era uma boa safra?
De Villaine – Não é uma grande safra, mas eu me sinto muito orgulhoso que seu presidente tenha escolhido este vinho para celebrar sua vitória. Eu espero que tenha sido porque ele ama vinho e não por conta do rótulo.

Blog do Vinho – Nem uma coisa nem outra, a garrafa foi um presente de seu marqueteiro de então, Duda Mendonça, e a notícia gerou muita polêmica na opinião pública.
De Villaine – O curioso, me contaram depois, é que foi criado uma página na internet com o nome “romannecontiparatodos”, que defendia que o objetivo dos socialistas era tornar todos ricos, para que também pudessem beber o vinho. É divertido, mas impossível. Nunca haverá Romanée-Conti para todos. Como eu disse, são só 5.500 garrafas por ano.

Todos os homens do ano da Decanter

2010 Aubert de Villaine – Borgonha, França
2009 Nicolas Catena – Mendoza, Argentina
2008 Christian Moueix – Pomerol, França
2007 Anthony Barton – Bordeaux, França
2006 Marcel Guigal – Rhône, França
2005 Ernst Loosen – Mosel, Libano
2004 Brian Croser – Adelaide Hills, Austrália
2003 Jean-Michel Cazes – Bordeaux, França
2002 Miguel Torres – Penedès, Espanha
2001 Jean-Claude Rouzaud – Champagne, França
2000 Paul Draper – Califórnia, EUA
1999 Jancis Robinson MW – Londres
1998 Angelo Gaja – Piemonte, Itália
1997 Len Evans, OBE AO -Austrália
1996 Georg Riedel – Áustria
1995 Hugh Johnson – Londres
1994 May-Eliane de Lencquesaing – Bordeaux, França
1993 Michael Broadbent – Londres
1992 André Tchelistcheff – Califórnia, EUA
1991 José Ignacio Domecq – Jerez, Espanha
1990 Prof Emile Peynaud – Bordeaux, França
1989 Robert Mondavi – Califórnia, EUA
1988 Max Schubert – Austrália
1987 Alexis Lichine – Bordeaux, França
1986 Marchese Piero Antinori – Florença, Itália
1985 Laura and Corinne Mentzelopoulos – Bordeaux , França
1984 Serge Hochar – Líbano

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quinta-feira, 30 de abril de 2009 Degustação, Entrevista | 19:09

Um mestre dos vinhos

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Por João Batista Jr

Único brasileiro a obter o título de Master of Wine, depois de ter cursado por seis anos a conceituada escola de nome idêntico em Londres, o paranaense Dirceu Vianna Jr, 40 anos, vem a São Paulo para participar da 13ª edição da Expovinis. Nesta entrevista a João Batista Jr, repórter de Veja São Paulo, ele conta um pouco de sua trajetória no mundo do vinho. Confira:

Quando o senhor   se interessou pelo mundo do vinho?
Nunca tinha pensado no assunto. Cheguei inclusive a cursar duas faculdades que não tinham nada a ver comigo. Entrei em Engenharia Florestal, na Universidade Federal  do Paraná , e em Direito, na PUC. Abandonei as duas escolas e troquei Curitiba por Londres 20 anos atrás. Meu primeiro trabalho na capital inglesa foi em um Wine Bar. Depois disso, cursei hotelaria no Westminster College e fiz cursos no Wine and Spirit Education Trust.

Por que o senhor decidiu cursar o concorridíssimo Master of Wine, que aceita apenas 80 alunos por ano. Achava que sua formação não estava completa?
A principal característica de minha personalidade é ter ambição de ser o melhor em tudo o que faço. Então, desde que entrei no mercado de vinho, meu objetivo era me tornar um mestre para provar a mim mesmo que eu era um PhD no assunto. Em novembro de 2008, depois de seis anos de dedicação quase exclusiva ao curso, obtive a minha certificação.

O senhor trabalha no mercado da bebida há duas décadas. O que muda agora com a obtenção do título?
O Master of Wine foi criado em 1953 e, desde então, apenas 274 pessoas obtiveram o título. Da América do Sul,  somos apenas eu e uma argentina (Marina Gayan). Brinco que existe no mundo mais físicos nucleares do que masters  of wine. O reconhecimento é tão grande que, desde o fim do ano passado,  quando fui aprovado, meu nome ficou conhecido internacionalmente no setor de maneira quase instantânea. Saíram matérias a meu respeito em jornais daqui de Londres, na  China e em Portugal. Como consequência, aumentaram os pedidos de palestras, degustações e aulas.

Qual foi a emoção ao ser aprovado?
Fiquei muito contente, pois a aprovação foi resultado de dedicação diária de seis anos de estudos. Minha preparação era parecida com a de um atleta que vai disputar a Olimpíada. Entre 2002 e 2008, acordava às 6h todo dia para estudar até às 10h, quando tinha de ir ao trabalho. Aos fins de semana, eram oito horas de aprendizado. Tinha de ler sobre a geografia e condições climáticas de todas as regiões produtoras do mundo. Nesse tempo, também viajei para mais de 30 países, sendo que para alguns deles, caso da França, eu cheguei a visitar mais de duas vezes por mês. Tudo isso para conhecer in loco as características das vitiviniculturas. Os produtores têm até diferenças comportamentais. É preciso gastar sola de sapato para virar um mestre em vinhos.

Por favor, cite um exemplo.
Os vinicultores de Bordeaux são formais e clássicos. Todos vestem ternos bem cortados e só nos recebem em seus castelos com hora marcada. Na Borgonha, os donos estão nos vinhedos com seus funcionários e usam jeans e camisas surradas. Eles nos recebem sem a mínima cerimônia e deixam à vontade para provar, ali no campo mesmo, suas joias líquidas .

Deve ser um custo alto se tornar master of wine?
Sim, o curso custou 15 mil libras por ano (cerca de 48 500 reais), com a inclusão das despesas com a viagem. Esse valor foi pago por mim e pela empresa que trabalho.

Como é esse processo?
As provas são feitas em cinco dias, a parte prática pela manhã e a teórica à tarde. No total, são doze vinhos degustados às cegas a cada dia. As perguntas que tinha de responder eram relacionadas ao clima, tipo de solo e até o nome das florestas de onde eram oriundas as madeiras usadas nos barris de envelhecimento dos vinhos. Por exemplo, a Borgonha é uma das regiões mais inconsistentes e confusas do mundo. Existem vários motivos para essa confusão, entre as quais a geografia e clima: a região é cheia de declives e as condições meteorológicas sofrem influência de correntes de ar vindas do Atlântico, do Mediterrâneo e até do Báltico.

Como é seu trabalho na importadora inglesa Coe Vinters?
Estou nesta empresa desde 1998. Comecei como vendedor e, depois de quatro anos, fui promovido a comprador de vinhos. Hoje sou um dos diretores. Quando  ingressei na Coe Vinters , tínhamos uma carta de 250 rótulos. Agora, são 1 500 etiquetas, que custam entre 5 e 3 000 dólares.

O Brasil tem um consumo per capita de 2  litros de vinho por habitante ao ano, um número muito pequeno se comparado, por exemplo, com a média argentina, que é de 30 litros per capita. O senhor acredita que teremos demanda para ampliar essa marca?
Nosso país tem potencial de consumo grande, considerando que o brasileiro ainda não considera o vinho como uma bebida para o dia-a-dia. Muitas pessoas acreditam que é uma  bebida para a elite. Felizmente, esse ponto de vista tem mudado com o aumento de cursos, feiras e degustações. Acredito que em um futuro próximo chegaremos  à metade do patamar argentino.

Quais são os rótulos nacionais que mais lhe agradam?
A maioria dos experts internacionais não leva os vinhos brasileiros a sério, mas o país já produz rótulos de boa qualidade. O meu favorito é o Miolo Merlot Terroir 2005. A Salton também tem mostrado uma melhoria em sua produção, os exemplos são o Talento e Desejo, ambos safra 2005.

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sexta-feira, 3 de abril de 2009 Entrevista, Nacionais, Novo Mundo | 18:58

Danielle, artista, vinhateiro ou ambos?

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Publicitário e fotógrafo com experiência na França, onde conheceu e se apaixonou pelos chamados vinhos naturais, Marco Danielle se tornou vinhateiro na volta ao  Brasil. Começou pequeno, artesanal, mas teve a coragem de enviar sua primeira safra para a crítica internacional inglesa e ganhou seu maior troféu: um parecer favorável do rótulo Tormentas e Minimus Anima, de Steven Spurrier, famoso crítico inglês da  revista britânica Decanter (leia as críticas no final da entrevista).

Marco Danielle intitulava-se artista-vinheteiro no início (fato que critiquei logo de início, aliás). A justificativa do autor: “Quando dei ao meu projeto um teor artístico, esperava bem mais uma licença poética… Pelo contrário, a ideia soa pedante. Paciência, não se pode acertar sempre, nem agradar sempre.” Teorias à parte, eu acho que pega mal. É o vinho que diz sem tem arte ali ou não, e não o autor. Simplificou o slogan para vinhos de autor.

Em abril de 2006, Danielle me concedeu uma entrevista por e-mail. Muito mosto rolou de lá para  cá, incluindo o lançamento recente do Prelúdio, mas acho que é válida sua publicação hoje, para ver as coisas sob a perspectiva do tempo. E checar se algumas de suas ideias resistiram ou evoluíram com o tempo:

Por que seu vinho é produzido?
Para manter no Brasil parte da riqueza que escoa para o exterior das mãos de uma classe privilegiada com o poder aquisitivo necessário para buscar numa garrafa de vinho, além de um néctar natural, um sonho e uma história.

Quem tem de julgar se o vinho chegou ao status de arte é quem bebe e não quem produz, não concorda?
Respeito esse ponto de vista, sem contudo abrir mão do meu argumento. Já pensou se passássemos pelo crivo da razão tudo que se afirma na publicidade? E o sonho, onde fica? E a luta pela sobrevivência? Melhor, respondo com uma pergunta: uma obra em música erudita pode ser menor, e pode ser grandiloquente. Mas você julgará que uma obra menor não é arte? Para mim há erudição e virtuosidade no vinho. Assim como há sertanejos.

Quando dei ao meu projeto um teor artístico, esperava bem mais licença poética… Pelo contrário, a ideia soa pedante. Paciência, não se pode acertar sempre, nem agradar sempre.

O que me aborrece sim, confesso, é que alguém como eu, que poliu a alma com Barthes e Pré-vert; que viajou meio mundo atrás do saber; que comunica-se em cinco  línguas – três das quais com fluência; que viveu exclusivamente da arte e da escrita… deva ser tachado de pretensioso por “autointitular-se” artista. Num país como esse! Justo aqui, uma nação faminta onde ladrões se autointitulam políticos, um artista se intitular vinhateiro ou um vinhateiro artista, irrita.

Alguns tintos apresentam cores menos intensas. É proposital?
Amigos enólogos me dizem que aumentaria muito minha profundidade da cor usando enzimas. Mas para quê? Não há preço que pague a magia da natureza pura, em sua expressão mais honesta. Desconfie de vinhos untuosos. A glicerina e a goma-arábica são usadas em larga escala. Mas como disse o Hubert de Montille em Mondovino, “as pessoas gostam de ser enganadas.” Mas a mais das vezes as falhas mais gritantes não vêm da maquiagem. Vêm da matéria-prima ruim. Um vinho pode ser natural e ruim.
Já a merlot, tem se revelado a pérola das viníferas brasileiras. Por quê? Porque atinge o pico de maturação por volta de um mês antes. Portanto, concentremo-nos nos nossos merlot, que permitem desenhar vinhos nos dois estilos.
Ainda assim, desculpe a pretensão, mas devo concordar com o Spurrier que meu Tormentas 2004 representa uma finíssima expressão de cabernet sauvignon. Caso contrário, não o teria lançado. Sinto profundamente que a ocasião, em cômputo geral, não tenha permitido a você compactuar desta mesma impressão.

Você não acha que o preço, 80,00 e 120,00 reais (atualização, agora está em 160 reais), está fora dos padrões do vinho nacional?
Meu vinho também está fora do padrão brasileiro. Basta observar o que temos aqui. Mas até quando limitaremos inexoravelmente qualquer vinho brasileiro a um padrão baixo? Por que o Spurrier acaba de dar nota 18/20 para o meu vinho, e rasgar-se em elogios sobre qualidades que aqui não conseguimos decodificar? O que estaria acontecendo? Seria ele um incauto, ou um amador? Concordo que precisamos baixar preços, e estamos nos organizando para isso. Mas se a predisposição da crítica nacional continuar sendo de depreciar os esforços locais… sinceramente, pouca diferença fará se o preço for R$ 20 ou R$ 120,00, pois sempre parecerá caro. Admito novamente, porém, que ainda há pouquíssimos vinhos tintos brasileiros bons.

O que achou das primeiras críticas aos seus rótulos?
A imprensa e os críticos locais não entenderam a proposta conceitual, fortemente simbólica, de fortalecer, através de um preço alto para um vinho nacional raro, a autoestima do fazer brasileiro. Tormentas Premium foi prejudicado nas únicas duas avaliações anteriores que aconteceram no Brasil. O valor irrita tanto que perde-se o senso da fruição pura e simples deste agradável vinho. Uma pena. Sendo assim, prefiro tirá-lo da oferta para venda. Não tanto pelos clientes, pois ninguém é obrigado a comprar o que não quer. Mas por perturbar tanto a crítica. Há uma dificuldade aparente de entender que um vinho lapidado à mão, um verdadeiro serviço de joalheiro, não pode ser analisado como qualquer outro. Por outro lado, também, de nada me adianta que apenas o Spurrier consiga decodificar seus valores. Se o que está acontecendo continuar se repetindo, em breve não haverá mais qualquer razão para organizar apresentações de imprensa.

Tenho que admitir que prego no deserto, pois ainda temos pouquíssimos bons vinhos. Alguém tinha que começar um dia, servindo de bucha de canhão no primeiro tiro dessa iminente revolução.

Duas críticas do editor da Decanter, Steven Spurrier

Minimus Anima 2005 Cabernet-Sauvignon & Alicante Bouschet:
“Fina e profunda cor rubi-aveludada, muito jovial e boa viscosidade nos lados da taça. Nariz de frutas vermelhas recém esmagadas, elegante, cheio de fruta sem exuberância excessiva. Maduríssimas frutas vermelhas no palato, bons taninos naturais que dão a impressão de leve uso de carvalho, final firme e fresco, balanceado com a acidez natural. Um vinho muito bem feito; com fina fruta natural e um bom senso de individualidade. Degustado sem setembro de 2007.”

Tormentas Premium 2006 Pinot Noir, Tannat e Merlot
“Cor de negro rubi-aveludado; rico visual luxuriante com densas pernas  nas paredes da taça. No nariz, finas frutas de bosque maduras e concentradas, dominando cerejas negras combinadas com certa terrosidade natural. No palato, excelente concentração de uvas muito maduras em soberbo balanço com a acidez natural.  Grande densidade geral e pureza de fruta dominada por cerejas negras. Um vinho vivaz, com poder e elegância. São ambos vinhos refinados [Minimus Anima 2005 e Tormentas Premium 2006], feitos com evidente paixão e insistente qualidade.”

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terça-feira, 10 de fevereiro de 2009 Entrevista, Espumantes, Nacionais | 10:15

Angelo Salton 1952 – 2009

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O mundo do vinho acordou mais triste nesta terça-feira, dia 10 de fevereiro. Faleceu, a 1 hora desta madrugada, vítima de um infarto agudo, o presidente da Vinícola Salton, Ângelo Salton. Segundo assessoria de imprensa da empresa, há 15 dias o empresário havia feito um check-up geral e nada havia sido constatado. O corpo está sendo velado no cemitério do Araçá e às 16 horas segue para o crematório de Vila Alpina. Ângelo tinha 56 anos e deixa a mulher, Fátima, e quatro filhos.

No último encontro que tive com Ângelo, em um restaurante em São Paulo no final do ano passado, ele esbanjava otimismo e bom humor – uma característica marcante de sua personalidade – e estava cheio de planos para o aniversário de 100 da Salton, que será comemorado em 2010. Seus planos, certamente, terão continuidade na empresa.

Reproduzo abaixo o último texto que publiquei sobre Ângelo e o sucesso dos espumantes Salton na edição de dezembro de Veja São Paulo. Esta é a modesta homenagem deste blog a este guerreiro do vinho nacional.

O senhor das borbulhas

De cada três espumantes abertos no Brasil, dois
são nacionais. E 40% da produção brasileira é
do paulistano Ângelo Salton Neto

Por Roberto Gerosa 19.12.2007

Uma visita ao restaurante Fasano, em 2000, mudou a vida do empresário paulistano Ângelo Salton Neto. Enquanto tentava incluir um de seus rótulos na refinada carta de vinhos da casa, notou que a maioria das mulheres bebia um prosecco italiano durante a refeição. Imediatamente, ligou para o enólogo da Salton, em Bento Goncalves, no Rio Grande do Sul: “Aqui, só se bebe isso. Precisamos fazer o nosso”. Estava com sorte. Em suas propriedades havia 77 hectares cultivados com a uva prosecco, que era usada em outro tipo de vinho. Em três meses, lançou 6 000 garrafas. Um sucesso de público e crítica. De lá para cá, investiu pesado em sua linha de espumantes e, há três anos, chegou à liderança do setor, ultrapassando a Chandon, sua maior concorrente. De cada 100 garrafas de espumantes finos produzidas no Brasil, quarenta saem dos tanques de aço da Vinícola Salton, encravada na região de Tuiuti, vizinha a Bento Gonçalves.”E eu nem sabia que prosecco era o nome da uva”, conta Ângelo.

O bisavô de Ângelo veio para o Brasil em 1878. Saiu da comuna italiana de Cison di Valmarino, na região do Vêneto, próximo a Valdobbiadene, o berço dos melhores proseccos do mundo. Instalou-se na colônia italiana de Dona Isabel, atual Bento Gonçalves. Seus sete filhos fundaram, em 1910, a vinícola que foi batizada com o sobrenome da família. Na década de 40, o pai de Ângelo se mudou para São Paulo. O filho nascido aqui há 55 anos foi criado no prédio da Zona Norte onde atualmente funciona outra empresa do grupo, a Conhaque Presidente (20 milhões de litros vendidos ao ano). “Passei a infância no meio daquelas garrafas”, lembra. Engenheiro mecânico formado pelo Mackenzie, Ângelo largou a carreira para ingressar na companhia em 1976. Desde 1986, está na presidência do grupo, que tem um faturamento previsto de 39 milhões de reais para este ano, só com a linha de espumantes. “As mulheres e as festas são as grandes responsáveis por esse sucesso”, diz.

Ângelo, que cultiva a barba desde os tempos de faculdade, tem um jeito bonachão e um vozeirão que fazem lembrar um pouco o ator Orson Welles em seus últimos filmes. É um vendedor nato. Nas feiras de vinho, serve pessoalmente clientes e curiosos. “Defendo a qualidade do vinho nacional, e peço para comprar o meu, claro.” Atualmente, é respeitado pela crítica especializada e está sempre na mídia – pode ser visto com freqüência no Programa Amaury Jr., da Rede TV!. Até chegar a esse ponto, no entanto, teve de quebrar resistências. Certa vez, para chamar a atenção do jornalista e colunista de vinho da rádio CBN Renato Machado, abriu com estardalhaço um espumante. “Ele reclamou da maneira como a garrafa foi aberta, mas experimentou e aprovou a bebida”, afirma. “Não me lembro desse encontro e não tenho conhecimento dos espumantes da Salton para fazer qualquer comentário”, diz Machado. De olho na renovação dos consumidores, Ângelo aposta no lançamento, em fevereiro do ano que vem, do Prosecco Night, em garrafas de 375 e 750 mililitros. “Quando eu tinha 19 anos, só bebia uísque. Hoje, os jovens gostam de espumante”, afirma ele, que só foi trocar o malte escocês pelas borbulhas depois dos 40.

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domingo, 7 de setembro de 2008 Entrevista, Novo Mundo | 01:56

Um bate-papo com Chadwick

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Em sua conversa com o Blog do Vinho, Eduardo Chadwick opinou sobre Robert Parker e a crítica americana, lembrou de Robert Mondavi (de quem foi sócio), explicou a razão da mudança de seus rótulos Errazuriz  de importador (Terroir para Vinci), contou suas aventuras como alpinista e, claro, falou sobre seus vinhos.

Parker e a crítica americana
“Crítico americano é paroquial, eles usam como referência o seu quintal, o Vale do Napa, na Califórnia.”

“O americano médio está acostumado com sabores doces e apimentados. Por isso gostam de vinhos com esta característica que o Parker tanto aprecia, de vinhos potentes que ele pontua com notas altas, numa escala que os americanos compreendem bem, de 0 a 100, igual às notas do colégio”.

“Eu não adapto meu vinho ao gosto do Parker e da revsita Wine Spectator, ao contrário de muitas vinícolas do Chile. Parker, aliás, nunca foi ao Chile.”

“Meus vinhos são bem pontuados por Parker e Wine Spectator, mas o gosto da crítica americana não pode ser o único critério de valor no mundo.”

“Os americanos são mesquinhos na avaliação do Chile, ao contrário do que acontece no Reino Unido, que tem outra cultura de vinho, mais refinada.”

Cata de Berlim
“Um ano antes, em 2003, fizemos uma prova às cegas com nossos vinhos das safras 98 e 99 junto com cinco grand cru. Não era um evento aberto, com divulgação, mas ficamos com o terceiro e quinto lugares. Isso nos deixou mais seguros.”

“Não concordo que os vinhos franceses vão envelhecer melhor do que os chilenos. Vou refazer a Cata de Berlim em 2014, com as mesmas safras, para demonstrar a capacidade de envelhecimento de nossos vinhos.”

Robert Mondavi
“Meus dois maiores mentores foram o meu pai e Robert Mondavi. Ele tinha 80 anos e eu 30 quando nos associamos. Ele me deu uma noção de aprendizado maravilhosa.”

“Em 1995, Bob Mondavi enxergou no Chile o mesmo potencial que viu no Napa Valley nos anos 60.”

“Mondavi me ensinou que o marketing é uma ferramenta tão importante quanto a produção do vinho, pois é preciso torná-lo conhecido.”

“A última vez que estive com Bob Mondavi foi em junho de 2007, ele já estava bastante debilitado, menos lúcido, sofria de Alzheimer. Sua morte não foi uma surpresa, ele sofreu muito no hospital.”

Seña branco
“A idéia inicial era produzir um grande vinho tinto e outro branco com o rótulo Seña. Mas depois de provar os brancos, percebemos que não tinham tipicidade para competir com os grandes da Borgonha, por isso resolvemos apostar só no Seña tinto.”

“Hoje as uvas brancas do Chile melhoraram muito, o sauvignon blanc plantado nas costas tem uma qualidade muito melhor do que há 15 anos. O mesmo acontece com o chardonnay. Produzimos um chardonnay mais fresco e mineral, como menos presença de madeira, como os da linha Arboleda, com bons resultados.”

A troca do Errazuriz da Terroir pela Vinci e a reação de Lopes
“Lopes (Elídio Lopes, proprietário da Terroir) foi bastante injusto nas declarações na imprensa e em seus programas de TV sobre o  fim de nossa parceria, pois ele não fez o trabalho que se comprometeu comigo. Lopes queria nossa marca muito reduzida, elitista, sem um trabalho forte nos restaurantes, que é algo que nos interessa.”

“Por cinco anos trabalhamos com o Lopes na Terroir, depois deste tempo, nos demos conta que era uma missão impossível, não íamos ser bem representados no Brasil, por isso trocamos a Terroir pela Vinci. Nós é que fomos falar com eles.”

Vinhos chilenos
“Eu não acho que um vinho tenha de mostrar taninos rústicos e verdes quando novos. Nossos vinhos nascem com taninos maduros e com capacidade de envelhecer.”

“O paladar mundial está cada vez mais orientado para os vinhos do Chile.”

“Cada marca representa um vale, uma história. O Seña, em Aconcágua,  e o Chadwick, no Vale do Maipo

Alpinismo
“Na primeira tentativa, em 1996, treinamos seis meses, eu e um grupo de três amigos. Mas no último acampamento enfrentamos uma tempestade de neve de três dias, a neve chegou a 1 metro de altura. Ficamos desiludidos e frustrados. A montanha te ensina a humildade, se não é possível enfrentá-la, não se pode.”

“Na segunda vez estava com um grupo de ingleses. Eles desistiram, mas eu fui até o final.”

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quarta-feira, 6 de agosto de 2008 Degustação, Entrevista, Espumantes, Nacionais | 17:59

Com a palavra, o campeão

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Um rápido bate-papo com Cândido Valduga, 77 anos, o patriarca da Vinícola Dom Cândido, que produz o espumante campeão do ranking Playboy.

Como o senhor soube que o Dom Cândido Brut havia sido eleito o melhor espumante pelo ranking da revista Playboy?
Foi uma surpresa. Um amigo do meu filho, de Porto Alegre, enviou pela internet o texto do blog. A notícia se espalhou rápido, muita gente ligou para cá querendo comprar o espumante. Também apareceram turistas interessados em conhecer o Dom Cândido Brut.

O que significa este resultado para vocês?
É uma recompensa de toda uma vida dedicada aos vinhedos e aos vinhos.

Hoje a produção está limitada a 12.000 garrafas. Vocês pretendem  aumentar a produção?
Estamos plantando novas videiras. Creio que agora vamos acelerar este processo, mas só depois de 3 anos as uvas podem ser usadas na produção do vinho.

Como é a elaboração do Dom Cândido Brut?
Para começar, a nossa uva é de boa qualidade, com baixo rendimento por hectare, e são colhidas no tempo certo. Nós fazemos um charmat longo, um processo que dá justamente estas características de um espumante elaborado pelo método champenoise (aquele que a segunda fermentação se dá na garrafa). Muita gente, na hora de provar, confunde o Dom Cândido com champanhe.Você não estava enganado quando percebeu estes aromas mais evoluídos, típico dos espumantes feitos pelo método champenoise.

Muitos leitores perguntaram onde podem encontrar seu espumante e qual o preço…
Nós não vendemos para supermercados. Nossa maior venda é direta, para pessoa física (entregamos para todo o Brasil), e para alguns restaurantes e lojas. Aqui na vinícola ele sai por 25 reais, nas lojas deve custar entre 30 e 35 reais. Em São Paulo, eu sei que o Empório Chiapetta (do Mercado Municipal) vende nossos vinhos.

Com a premiação e a repercussão o senhor pretende aumentar o preço do Dom Cândido Brut?
Não. Aqui na vinícola vamos manter o mesmo preço.

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