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segunda-feira, 27 de maio de 2013 Nacionais | 10:44

Primeira Estrada: vinho fino de Minas Gerais abre caminho para rótulos do Sudeste do Brasil

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“Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães”

Grande Sertão Veredas, Guimarães Rosa

Igreja Matriz de Santo Antônio, em Tiradentes

O senhor já ouviu falar de vinho de Minas Gerais, “de assim não-ouvir ou ouvir?” Já provou um vinho de Minas Gerais? “O senhor ri certas risadas…”.

Uma das principais notícias do mundo do vinho verde-amarelo não vem do Sul do país, muito menos do Nordeste, que já quebrou há tempos o paradigma ao  plantar e colher uvas viníferas e produzir tintos, brancos e espumantes fora da região entre os paralelos 30 a 50.

A novidade vem de Minas Gerais, mais precisamente da região de Três Corações, no Sul do estado, conhecida por estar encravada no polo turístico da Estrada Real – que percorre as cidades históricas de Tiradentes e Ouro Preto.

Mas um vinho de Minas? É. “Sofro pena de contar não…” Pois é, o vinho regional está abrindo suas fronteiras, com apoio da pesquisa e da tecnologia. Trata-se do Primeira Estrada Syrah 2010, produzido nas montanhas, em altitude que varia de 900 a 1000 metros,  pela Vinícola Estrada Real. O rótulo, para não deixar dúvida da origem da garrafa, exibe a imagem da Igreja Matriz de Santo Antônio, em Tiradentes.

E me inventei neste gosto, de especular ideia”

Murillo de Albuquerque Regina, um mineiro especialista em viticultura com PhD em Bordeaux, sempre ouvia em sua formação acadêmica, na França, que nas melhores regiões vitícolas mundiais o clima no período que antecede a colheita é caracterizado por dias ensolarados e noites frias, acompanhados de solo seco. Uma pensamento não saía de sua cabeça: “É exatamente o que acontece na minha terra em maio, junho e julho, se eu quiser obter uma boa uva para vinho eu tenho de inverter o ciclo das plantas”.

No final do século passado, numa confraria em que degustava alguns exemplares de Bordeaux, Murillo conversava com seu grupo sobre  a influência do clima nestes vinhos de alto padrão e a característica do período de colheita coincidir com o período de tempo mais seco.  O médico Marcos Arruda Vieira, que também é proprietário da Fazenda da Fé, perguntou;

“Dá para fazer um vinho desses em Três Corações?”

“Sim”, afirmou Murillo, “desde que a colheita da uva seja a partir de julho. Precisamos inverter o ciclo de maturação da uvas, enganando a parreira.”

“Mas isso é possível?”, insistiu Marcos Arruda

“O que precisa é de um maluco para apostar neste projeto”, desafiou Murillo.

E assim surgiu a ideia do primeiro vinho fino mineiro, com a união de dois malucos e um desejo: produzir um vinho fino de qualidade na região. A proposta foi materializada, anos depois, com a criação da Vinícola Estrada Real, que tem como sócios, além de Marcos Arruda e Murillo de Albuquerque Regina os franceses Patrick Arsicaud e Thibaud de Salettes, que participam junto com Murillo da empresa de clones de mudas viníferas Vitacea Brasil.

“De dia, é um horror de quente, mas para a noitinha refresca, e de madrugada se  escorropicha o frio, o senhor isto sabe”

O conceito da inversão do ciclo da planta baseia-se na seguinte constatação de Murillo: o grande déficit dos vinhedos tradicionais do Brasil é que chove no momento da colheita, com isso o vinho não tem corpo, a acidez é elevada e a colheita tem de ser antecipada. “É isso que ocorre com  as videiras no Sul e no Sudeste”, argumenta.

Em 2001 a Epamig (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais), tendo Murillo Regina à frente,  deu início aos estudos sobre a técnica da poda invertida em Três Corações com o objetivo de corrigir este processo e tapear a planta. Foi desenvolvida então a técnica de dupla poda para as videiras viníferas mineiras. Uma poda é feita em agosto e outra em janeiro. Com a segunda  poda, em janeiro, o ciclo recomeça e a planta floresce em abril e maio e as uvas são colhidas no final de julho, início de agosto.

Ou seja, na época da colheita os dias são ensolarados (até 27º), as noites mais frias (cerca de 10º) e a amplitude térmica, que é a diferença do dia e da noite, chega a 15 e 17º. “É como se as uvas no inverno dormissem num quarto com ar condicionado, e permanecessem fresquinhas, enquanto as uvas que maturam no verão repousam num quarto quente, transpirando e perdendo elementos da fruta importantes na extração do vinho”, compara Murillo.

Todo ano é necessário fazer as duas podas, os ciclos das parreiras são sempre de 180 dias. Nos lugares frios da Europa ou mesmo do Brasil não existe a necessidade da dupla poda pois o frio impede o florescimento das plantas no inverno, ainda segundo o pesquisador.

Outra característica importante para o sucesso da empreitada: o regime de penúria hídrica, a popular escassez água, que faz com que a planta envie sinais para as raízes e folhas de que vai faltar água e afetar o seu filho (as sementes encapsuladas nos bagos das uvas). Assim a planta protege as uvas, produzindo frutos melhores.

A syrah foi a uva que melhor se adaptou ao esquema de dupla poda e às pesquisas realizadas. Foram plantadas 10 hectares desta variedade na Fazenda da Fé. Estão em testes de adaptação ao processo de poda invertida outras uvas tintas na região, como a cabernet sauvignon, a malbec, a petit verdot e a tempranillo.

“Passarinho que se debruça – o vôo já está pronto”

“O sudeste é a nova fronteira do vinho fino do Brasil”, aposta Murillo, citando outros empreendimentos que estão aguardando aprovação para lançar suas garrafas no mercado ou em fase de experimentação. Ele cita projetos em Espírito Santo do Pinhal, Três Pontas, Varginha e Itubi e empreendimentos no estado de São Paulo.

Os planos da Vinícola Estrada Real é chegar  2016 com uma produção de 35.000 a 40.000 garrafas por ano. As 10.000 garrafas atuais de syrah devem dobrar de produção até lá.

Três hectares de chardonnay fornecerão matéria-prima para a elaboração de um blanc de blanc extra brut que passará 24 meses em contato com as leveduras – e aqui não existe a necessidade de alterar o ciclo das vinhas. Além disso devem ser lançados 6.000 garrafas de sauvignon blanc e mais 4.000 de rosé de Syrah.

Esta nova fronteira tem um público-alvo. Os turistas das cidades históricas mineiras, que poderão combinar a gastronomia local com o vinho da região e o próprio Sudeste. O maior mercado atual do Primeira Estrada é o Rio de Janeiro

“Sentei em mesa com o Neco, bebi vinho, almocei…’’ “Sua alta opinião compõe minha valia”

Provar um vinho de uma região nova e sem tradição vinícola pode despertar tanto curiosidade como preconceito. Por isso levei uma garrafa de Primeira Estrada coberta por papel alumínio e dividi entre um grupo de uma confraria.

Taça cheia, pedi a opinião de todos. Era também meu primeiro contato com o vinho.

Meio desconfiados todos trataram de girar a taça, enfiar o nariz e jogar o vinho para a boca. “O que é?”, perguntavam. “Mostro no final”, mantinha o suspense. E então aquele grupo que está acostumado a beber do bom e do melhor, e tem um vasto repertório, foi unânime em afirmar no primeiro contato que era um vinho agradável, sem defeitos. Prometia mais nos aromas do que entregava na boca, mas tinha como bom destaque a acidez. Ninguém conseguiu identificar a uva, vários países foram sugeridos, incluindo o Brasil.

Aí eu mostrei o rótulo, que foi comemorado pelo ineditismo – enófilos adoram novidades –  e continuamos provando o Primeira Estrada junto a outros rótulos de vários países, sem preconceitos.

Na opinião do Blog do Vinho, Primeira Estrada Syrah 2010 é uma boa surpresa, guardei em casa um tanto que sobrou na garrafa e provei mais tarde. Concordo com meus colegas que o nariz mostra uma superioridade em relação à boca que tem um primeiro impacto mais diluído. O final de boca, no entanto, revela uma fruta mais persistente e um toque de especiarias típica da syrah, mas não tão evidente assim que identifique a uva. A boa acidez é um destaque positivo que equilibra bem o álcool. O caldo repousou 1 ano em barricas novas francesas (70%) e americanas (30%). Outro um ano o vinho passou depurando na garrafa. O que revela todo um cuidado na elaboração desta primeira safra. Vinho mineiro, comida idem. Acompanhou com respeito uma linguicinha na grelha.

Segundo Murillo a safra de 2011 terá um salto do teor alcoólico de 13,5 para 15º. E antes que os apóstolos do teor alcóolico mais baixo se manifestem, ele garante que a elevada acidez da uva equilibra estes extremos.

“Tudo é e não é”

Mas aí tem de comentar o preço. O calcanhar-de-aquiles de toda experiência inovadora ou de qualidade do vinho nacional. Um discussão que por si só renderia uma centena de posts.

O Primeira Estrada Syrah 2010 é vendido ao consumidor final a 78 reais a garrafa – em um restaurante deve passar da casa dos 100 reais.

Mas por este valor não se encontram vários rótulos nacionais,  argentinos, chilenos e mesmo portugueses de qualidade comprovada e maior tradição?

Sim.

Mas nenhum deles é produzido em Minas Gerais, uai.

Primeira Estrada Syrah 2010

Produtor: Vinícola Estrada Real

Região: Fazenda da Fé, Três Corações, Minas Gerais

Produção: 10.000 garrafas

Álcool: 13,5º

Preço: R$ 78,00

“Viver é perigoso”

Obs: todas as aspas citadas neste texto foram extraídas do romance Grande Sertão: Veredas, do escritor mineiro Guimarães Rosa.

Obs2: antes que algum literato aponte a contradição, este colunista tem noção que a história de Riobaldo e Diadorim não transcorre na região de Três Corações, e sim no Norte de Minas Gerais.


Uma homenagem

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10 comentários | Comentar

  1. 20 cesar vieira 24/08/2015 17:52

    Comecei a conhecer vinhos finos tem apenas 2anos ,agora estou encantado com tantas boas surpresas, o mundo do vinho é apaixonante,estou muito afim de experimentar esse vinho…em breve quero visitar a cidade e gostaria de conhecer a vinícolas. Parabéns pela ousadia!

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  2. 19 Aguinaldo 17/04/2014 16:08

    Muito caro, por esse preço não tomei e não tomo.;

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  3. 18 JAIRO QUIRELLI 09/02/2014 22:39

    experimentei este vinho, dia 8 de fevereiro – tão bom que tomei a garrafa sozinho, fantástico, evolui muito bem depois de 30 minutos no decanter, enfim fiquei muito feliz em saber e provar um ótimo vinho produzido em Tres Corações-MG.

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  4. 17 Luiz Eduardo Grinberg 09/09/2013 13:52

    Excepcional vinho, foi uma grata surpresa. Não deixamos sequer uma gota na garrafa e com toda certeza, este vinho é muito melhor que muitos chilenos e argentinos. Na degustação às cegas muitos dos enófilos presentes chegaram a confundí-lo com vinhos do Rhône.

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  5. 16 Giselle Miranda 15/08/2013 9:38

    Vinho maravilhoso, bem harmonioso, acidez exata….tenho certeza que vai agradar muita gente, apesar do preço.

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  6. 15 César 06/06/2013 22:52

    Fantástica matéria e fantástica descoberta! O q eu queria saber é…harmoniza com pão de queijo mineiro? hummmmm!!!

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  7. 14 Leandro Branquinho 29/05/2013 11:25

    Sou de Três Corações e ontem eu experimentei.
    Apesar de entender um pouquinho de cerveja e não entender nada de vinho, eu achei muito saboroso e com bom retrogosto.

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  8. 13 Beatriz 27/05/2013 19:52

    recebi de meu Cunhado Enofilo Walker o link de seu artigo neste blog .
    Fiquei muito curiosa em experimentar talvinho Primeira Estrads ,e também surpresa e feliz em saber de todo o cuidado e primor técnico Para a sua obtenção .
    Gostaria muito de experimenta- lo e também de saber se é possível adquiri-lo nestes sites de vinho ?? Mesmo com este preço inicial .
    Saudações e sucesso aos seu Investidores

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  9. 12 RENATO 27/05/2013 16:50

    A REGIAO DO SUL DE MINAS MAIS PRECISAMENTE O MUNICIPIO DE ANDRADAS APRESENTA VARIAS VINICOLAS EM ESPECIAL A CASA GERALDO QUE VEM PRODUZINDO ESPUMANTES VINHOS FINOS E VINHOS DE MESA DE PRIMEIRA QUALIDADE E COM PREÇOS BEM ATRATIVOS VALE A PENA CONFERIR POIS O VINHO E ALGO BEM PESSOAL EXISTEM TIPOS QUE AGRADAM UNS E NAO OUTROS

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  10. 11 Walker 27/05/2013 13:25

    Ao deparar-me com este artigo, interessei-me largamente, por alguns motivos: gosto de vinho, sou mineiro e amplamente favorável à descoberta. Torço que o caldo se aperfeiçoe a cada nova safra e mais tempo de vida das videiras. O estilo da garrafa, a cor e o rótulo lembram um dos grandes vinhos portugueses do Douro, no caso, o Barca Velha. Torço para que aumentem a produção e possamos encontrá-lo a preços menores. Gostei muito de saber que as Geraes está no caminho dos vinhos finos de qualidade. O azeite parece que está no mesmo caminho, então, MG está se destacando nos caldos e nas oliveiras!

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