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quinta-feira, 7 de abril de 2016 Espumantes, Tintos, Velho Mundo | 17:52

Lambrusco de qualidade, presunto e mortadela

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Alberto Medici: "Lambrusco cru". Topa provar?

Alberto Medici e seu Concerto: “Lambrusco cru”.

Recebi um convite para um jantar no restaurante Friccò, em São Paulo, onde todos os pratos e entradas seriam acompanhados de vinhos do produtor italiano Alberto Medici, da vinícola Medici Ermete. Poderia ser mais um desses eventos que juntam gastronomia bacana com tintos e espumantes de alto coturno se não fosse um detalhe: o produtor em questão elabora apenas Lambruscos, tinto levemente frisante que a maioria dos especialistas e bebedores de vinho torce o nariz – e se tiver em casa reserva para a visita eventual do cunhado.

Preconceito? Não é por acaso. 60% dos vinhos italianos importados no Brasil são do tipo Lambrusco de produção massificada (em geral grandes cooperativas) e qualidade duvidosa. Duvidosa para quem, cara-pálida? Exatamente para aqueles que apreciam um fermentado com aquela combinação de acidez, corpo, taninos, fruta e intensidade que resultam em bons vinhos. Os Lambruscos do tipo, digamos, popular fazem sucesso por uma conjunção de fatores entre eles o baixo preço, o toque frisante, o baixo teor alcóolico e principalmente pelo açúcar residual que torna a bebida doce e faz a alegria dos brindes dos casamentos, servidos gelados em taças de champanhe.

A diferença não está apenas nos detalhes, em muitos casos é o essencial que define um vinho. Medici Ermete elabora Lambruscos de grande qualidade na região da Emilia-Romana, e o chef do Friccò, Sauro Scarabotta, nascido na região da Úmbria, produz finos embutidos artesanais curtidos em seu restaurante. O que me atraiu a este encontro foi a oportunidade de rever preconceitos – eu também desgosto, para ser educado, de Lambruscos no geral – e provar um rótulo de Lambrusco com tradição e certificado de origem DOC (Denominazione di Origine Controllata).

Mas Lambrusco é um tipo vinho ou de uva?

Momento Wikipedia! Lambrusco é um vinho frisante (ligeiramente borbulhante, resultado da fermentação na garrafa, os bons), com boa acidez, baixo teor alcóolico e um toque doce que varia de acordo com sua qualidade. Ele é produzido na região norte da Itália, na Emilia-Romana, que se encontra no centro de um triângulo onde nas pontas se destacam as regiões vinícolas mais famosas da Toscana, Veneto e Piemonte.

O Lambrusco é essencialmente um vinho tinto, mas pode ser encontrado nas versões branco (no geral não são bons) e rosé. Além de produzir espumantes interessantes. Não é um vinho de guarda, mas para ser bebido ainda jovem. A região da Emilia-Romana é reconhecida também por seus embutidos, como o caso do presunto di Parma.  A combinação de um com o outro é espetacular. Parma é um dos cartões-postais do roteiro da boa mesa da Itália. Se um dia tiver a oportunidade, não deixe de ir – e ficar mais de um dia.

Lambrusco também é o nome da variedade de uva cultivada nas planícies da Emilia-Romana, entre Modena e Parma. Na verdade, é uma família de uvas. As subvariedades mais conceituadas são: Lambrusco di Sorbara, Lambrusco di Grasparossa. Lambrusco Marani e Lambrusco Salamino.

O dia em que provei um Lambrusco. E gostei

Foram dois os destaques, um espumante brut rosé e um tinto seco. Se confesso que nunca havia bebido um bom Lambrusco – o que mostra que este colunista compartilha sua ignorância em público sem ficar vermelho -, muitos menos havia provado um espumante desta uva. Foram duas boas surpresas.

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Unique Spumante Rosé Brut 2012
Medici Ermete/Tenuta Rampata
Uva: Lambrusco Marani
Importador: Decanter
Preço: R$ 153,00

É um espumante elaborado pelo método clássico (segunda fermentação na garrafa, 30 meses de contato com as leveduras). O que significa que as bolhinhas são mais presentes e longas e não apenas aquele toque meio de agulha que caracteriza o frisante. Um frisante tem de 2 a 3 atmosferas por pressão, o que significa que a pressão no interior da garrafa é duas ou três vezes maior do que fora; um espumante tem 6. Por isso faz ‘Pow”, quando aberto! Tem boa estrutura, cor rosada bem delicada, frutas frescas e final refrescante. Às cegas diria que é um Lambrusco? Não. Apenas imaginaria um espumante de boa qualidade. O preço não é lá convidativo comparado a um espumante de gabarito similar. Mas vale a experiência; o grande barato do vinho é  provar diferentes rótulos de diferentes lugares.

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Arte e Concerto
Reggiano Lambrusco DOC
Medici Ermete/Tenuta Rampata
Uva: Lambrusco Salamino
Importador: Decanter
Preço: R$ 95,00

Este foi o Lambrusco que fez rever meus (pre)conceitos. Trata-se do primeiro Lambrusco de vinhedos únicos do mercado (manja quando colocam no rótulo a inscrição single vineyard? É isso, sinônimo de origem e qualidade, significa um vinhedo selecionado). O produtor Alberto Medici, representante da quarta geração da família Medici à frente da vinícola, mostra com orgulho uma foto de uma garrafa de Concerto ao lado de um Don Pérignon nas prateleiras da prestigiada loja Harrods, em Londres. “É um Lambrusco cru!”, argumenta, usando um termo francês que traduz qualidade a um vinho. “Há sete anos o Concerto conquista os tre bicchieri, cotação máxima do Guia Italiano Gambero Rosso”, conta satisfeito. São produzidas 150.000 garrafas desta belezinha. As uvas são de plantas de baixa produção, outro sinônimo de cuidado e seleção, e o suco fica de 5 a 6 dias em contato com as cascas para maior extração de cor e sabor. As bolinhas são muito finas, pouco perceptíveis. No aroma aparecem frutas vermelhas frescas, um pouco de flor. Na boca é um vinho seco, corpo médio, muito frutado, tem uma doçura na entrada que é cortada pela acidez gostosa e embalada pelo toque de agulha que provoca um final persistente/refrescante. O teor alcóolico de 11,5% é perfeito para este tipo de bebida e convida um refil na taça.

Lambrusco & presunto e mortadela

Os embutidos do chef Sauro – mortadelas, presuntos – e também uma lasanha servida como prato principal foram parceiros ideais do Lambrusco Concerto, seguindo a lógica da região de origem do vinho. O Lambrusco deve ser servido numa temperatura de 14º a 15º, bem fresco, mas não gelado. A gordura dos embutidos baila entre um gole e outro deste caldo de muita personalidade. Portanto, se quiser uma combinação gostosa e sem erro de mortadela e vinho, vá de Lambrusco mais seco de boa cepa. Há quem recomende Lambrusco para acompanhar a brasileiríssima feijoada pelos mesmos motivos: acidez corta a gordura. Eu prefiro uma caipirinha, na boa.

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Embutidos do Friccò, curtidos na adega do restaurante

Segundo Alberto Medici, toda produção é comercializada dois meses antes do lançamento da safra seguinte. Provoco Alberto. “E como vencer a má fama dos Lambruscos em todo o mundo?”. Ele abre um sorriso e exibe a taça de um Concerto cheia: “Assim, promovendo encontros com jornalistas, formadores de opinião e apreciadores e mostrando nossa qualidade e como o vinho combina bem com um determinado tipo de comida”. Mas Alberto não  tem do que reclamar. A Ermete Medici exporta 70% da produção para 70 países. Estados Unidos e Japão são os principais mercados. E você, topas provar?

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quarta-feira, 23 de março de 2016 Brancos, Velho Mundo | 10:39

Vinho verde e bacalhau

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Bacalhau à Brás & Alvarinho: afinados como uma dupla sertaneja

Vinho e bacalhau é a parceria ideal. E na sexta-feira Santa aumenta o interesse pelo tema. Há os que preferem os tintos (os portugueses, por exemplo), e aqueles que privilegiam os brancos (no caso este que vos escreve). O post de maior consulta neste blog é justamente aquele que coloca esta preferência em questão: Vinho e bacalhau: tinto ou branco?  Como uma dupla sertaneja, o peixe (bacalhau é peixe?) e o vinho se complementam: o primeiro assume a voz principal e o segundo faz a segunda voz, apoiando o prato. Um não vive sem o outro.

Para testar o papel do vinho nesta combinação de tons agudos e graves, este blog aceitou o desafio proposto pela Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV) e testou na prática a harmonização de três rótulos de vinho verde, da uva alvarinho, com um prato de bacalhau. Para este colunista trata-se de levar a experiência para o leitor em busca de alternativas. Para a CVRVV, que trabalha numa campanha de marketing que associa os vinhos verdes a “Um mundo mais refrescante”, mais leve e mais espontâneo, a aposta é no consumo de mais vinhos da região, claro. Cada um no seu quadrado. Ao eventual leitor cabe a decisão se a proposta funciona ou não.

Vinho verde tem cor verde?

Meu filho mais novo outro dia topou com uma caixa de vinhos verdes em casa e fez aquela observação comum àqueles que depararam com o termo pela primeira vez: “Pai, vinho tinto, branco e até rosé eu conheço, mas existe vinho verde também?”. Existe, mas claro que não é verde.

O Minho, localizado no noroeste de Portugal, é o cenário da região conhecida como do vinho verde. Respondendo à dúvida do meu filho – e talvez de alguns leitores -, o verde apenas dá nome à região e não descreve a cor da bebida (pode até pintar um vinho branco com reflexos esverdeados, mas acho que seria bastante estranho um vinho cor verde-abacate, por exemplo). A explicação do nome é até bem sem graça. O elevado índice de chuvas (em média 1200 mm.) proporciona uma vegetação exuberante e verdejante, e daí o nome verde. Outra versão, que carece de precisão, diz que as uvas eram colhidas ainda verdes por conta das chuvas o que daria o nome à região. Há ainda aqueles que contrapõem um vinho jovem, característico da região  (chamado de verde em Portugal) àquele que é mais maduro.

Seja o que for, a produção de vinhos na região é predominantemente de brancos – mas também se encontram rosés, espumantes e até tintos (na boa, são bem difíceis estes últimos). Vamos ao que interessa: a despeito das outras variedades, os vinhos que fazem a fama do lugar, e são reconhecidos no mundo, são os brancos.

O que se pode esperar de um vinho verde? Eles são frescos, aromáticos, de baixo índice alcóolico (média de 12,5%), produzidos com uvas nativas e na sua grande maioria feitos para beber ainda jovens. Naqueles mais populares e fáceis de beber é percebida uma agulha, um tanto de gás que proporciona aquela sensação de uma bebida frisante e um toque mais doce de açúcar residual.

Para aqueles que sempre questionam o consumo do vinho branco no Brasil, que de fato é pequeno, o vinho verde mostra musculatura na ex-colônia. São exportados para o Brasil mais de 2 milhões de garrafas por ano. O crescimento entre 2004 e 2014 foi de 300%! Nada mal.

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Os três rótulos à prova: frescor na taça

Três alvarinhos e um bacalhau

Alvarinho é a principal casta do vinho verde e a mais expressiva. Se caracteriza por acidez marcante, aromas de frutas brancas como pera, maça, algo cítrico e muita flor. Produz rótulos de extremo frescor, secos e aromáticos, para serem bebidos logo.O alvarinho também é a espinha dorsal de brancos que, com algum tempo de garrafa, apresentam uma bela evolução, com maior persistência em boca e boa estrutura.

Os três vinhos verdes provados revelaram perfis variados da alvarinho: frescor, persistência e mineralidade.

Importante, um vinho verde deve ser servido numa temperatura mais fresca, em torno de 10 a 12ºC.

Os pratos, na sequência foram:

 

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Quinta da Lixa – Alvarinho -2013
Vinho Regional Minho
Produtor: Quinta da Lixa
12,5% de álcool
Importador: Pão de Açúcar
R$ 60,00

Esta edição da Quinta da Lixa é um rótulo exclusivo do grupo Pão de Açúcar. Eu gosto de vinhos de supermercados, têm uma ampla distribuição e são mais fáceis de encontrar. É um alvarinho seco, de acidez presente – traz aquela salivação gostosa -, refrescante, fresco, jovem (como tem de ser) e com uma maçã verde e um citrino no aroma que se confirmam na boca. É um vinho verde por excelência. Delicioso, fácil de gostar. Perfeito para começar a brincadeira, uma segunda voz adequada para a salada, talvez para uma brandade, mas apanhou das postas do bacalhau à bras e do creme que o envolvia o prato.

Outros vinhos verdes mais populares, e de menor preço, como os onipresentes Casal Garcia e Calamares, também me parecem se enquadrar neste perfil, mesmo que num patamar abaixo. Nestes dois campeões de venda o toque frisante é bem acentuado, o açúcar residual também. Entregam jovialidade e frescor e ficam melhor para iniciar os trabalhos, mas podem ser abafados pela voz superior do bacalhau.

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Morgadio da Torre – Alvarinho – 2014
Denominação de Origem Controlada – Sub Região de Monção e Melgaço
Produtor: Sogrape
12,5% de álcool
Importador: Zahil
R$ 200,00

Um alvarinho mais imponente, de maior estrutura e que faz parte do batalhão de elite dos vinhos verdes. A subregião de Monção e Melgaço apontam para uma qualificação da bebida. Alia a acidez típica da casta a uma untuosidade que envolve a boca e traz aromas de frutas brancas e com um longo final. Sua persistência e volume combinaram com perfeição à cremosidade do molho e das postas de bacalhau. A dupla perfeita, cada qual no seu tom. O preço não é o mais acessível, mas o prazer compensa o investimento. Com a salada atravessa o prato.

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Via Latina – Alvarinho – 2013
Denominação de Origem Controlada
Sub-região de Monção e Melgaço
Produtor: Vercoope
12,5% de álcool
Importador: Orion Vinhos
R$ 65,00

A safra mais antiga entre os rótulos do Alvarinho provados. Na taça a cor já apontava para uns toques de evolução que se confirmaram na boca, aromas cítricos discretos e um toque mais mineral. Outro rótulo da subregião de Monção e Melgaço. A casta alvarinho em alguns momentos me lembra o perfil de um riesling mais fresco. Foi o caso desta Via Latina 2013, com seu final delicado, um toque mais doce. E quanto ao bacalhau? A parceria funcionou bem, sem se sobrepor ao seu sabor, acompanhando o seu ritmo, talvez com um compasso atrás. Um belo custo-benefício.

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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016 Blog do vinho | 12:48

Importação de vinho: em 2015 Chile continuou na liderança, mercado retraiu e o imposto aumentou

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O vinho está caro, não? A vida está cara. Basta percorrer as prateleiras dos supermercados, lojas especializadas e  sites de e-commerce para perceber que mesmo com descontos – é tempo de liquidações de estoque – os preços subiram. E 2016 promete. A contribuição para este cenário tem sempre a mão amiga do governo, que além de toda carga tributária já embutida no produto alterou, a partir de dezembro de 2015, a cobrança do IPI que passou de um valor fixo de  R$ 1,08 por garrafa para um tributo variável de 10% sobre o valor do vinho. A disparada do dólar também contribui – e muito – para esta valoração dos preços.

E como o reflexo econômico de 2015 afetou o mercado de importação de vinhos no Brasil?

Mais uma vez eu pego carona no trabalho do consultor Adão Morellatto (autorizado pelo autor, claro) e publico a situação da importação de vinho no Brasil. O ano é de 2015. Não precisa dizer mais nada, né? Mas a fotografia não é tão feia assim: teve uma retração de 11,28% em valor (a inflação no período foi de 10,673% IPCA), mas  uma leve alta de 1,56% em volume, ou seja há vinhos mais baratos sendo escoados no mercado brasileiro, com enorme participação do Chile nesta pegada (faixa de até 35 reais para o consumidor).

Comparada com a mesma análise de 2014, a posição dos países no ranking continua inalterada. Os vizinhos Chile e Argentina juntos dominam mais de 60% do mercado de vinhos no Brasil. A França vem em seguida empurrada pela inclusão dos Champagnes na conta. Em seguida Portugal e Itália, com Espanha na rabeira entre os principais. Alguns países caíram mais do que outros.

 

O Chile continua líder, a Argentina perde mercado mas mantém segunda posição

Abaixo um resumo das principais informações e dados consolidados pela análise de Adão Morellato

1º. CHILE:   Com um novo recorde de produção com 12,8 milhões de hectolitros (alta de 23%) em 2015, os chilenos batem pesado no mercado brasileiro e é necessário escoar toda esta produção, seja onde for, esteja onde estiver o consumidor, sua participação chegou a 37,34% em Valor e 45,29% em Volume, porém com uma ligeira queda de -5,21% de valor sobre 2014. Seus produtos adentram nosso mercado com uma forte penetração no segmento mais promissor (faixa de até R$ 35,00 consumidor), com uma desvalorização de 8,84% em USD. Também apresenta um crescimento de 3,62% em volume.

2º. ARGENTINA:  Segue a mesma estratégica do Chile em baixar seus vinhos, porém de maneira ainda muito tímida, apenas 3,89% de desvalorização e queda de -14,39% ref. a 2014. Os anos em que a Casa Rosada foi reinada pelos Kirchner, não foram nada satisfatórios aos vinicultores, reduziu em 12% a produção vitivinícola na última safra. Seus vinhos ainda são 31,29% mais caros do que os similares vizinhos. Em 2015 manteve um desempenho idêntico a de 2014, 17,19% em Valor e 15,87% em Volume. Em valor retrocedeu ao período de 6 anos atrás (2009).

3º. FRANÇA:  Como já informado acima, dado ao fato de que o Champagne tem um peso enorme na pauta deste segmento, participando com quase a metade do valor 47,48%, demonstra um marketing Share de 14,19% e Value de 5,91%, com queda cambial de -20,18% e participação negativa de -17,36%, praticamente voltou ao patamar de 2011 em valor.

4º. PORTUGAL:  Também apresenta um retrocesso de 5 anos de seu desempenho de valor, 11,18% em Valor e 12,64% em Volume e queda similar a da França -14,29% e com deflação cambial de -23,17% em seus produtos. Visto que sua produção aumentou em 8% em 2015, há uma grande procura de produtores buscando fincar suas próprias bandeiras em solo brasileiro, por certo não encontram em outros grandes mercados (USA / China) uma classe consumidora mais apropriada sejam pelo hábito e costumes, sejam pela praticidade linguística.

5º. ITÁLIA: Entre os principais player´s o que apresentou o pior desempenho com -22,14% de queda, como comparativo, retorno aos patamares de 2008. Tendo os vinhos tipo Prosecco contribuído com 12,38%. Seu custo médio apresentou queda de -9,76% e sua participação permaneceu em 10,14% em Valor e 11,22% em Volume. Devido a sua grande safra que em 2015 atingiu exponencialmente 48,9 milhões de hectolitros, há que buscar alternativas e seu mercado mais promissor são os EUA, com forte presença, disputando em pé de igualdade com os produtores americanos.

6º. ESPANHA: Depois de alguns anos conquistando mercado com muita velocidade, em 2015 teve queda de -11,27% e atingiu 5,35% de participação em Valor e 1,38% em volume com desvalorização cambial de -23,14%. Os vinhos Cavas contribuem com 26,62% de seu total. Apesar da queda, mantém uma boa estrutura de produtos atrativos. Hoje sem nenhuma dúvida, junto a Itália, são os que melhor oferecem a relação de custo/qualidade.

7º. DEMAIS PAÍSES: Contribuem com menos de 4,70% em Valor e 4,20% em Volume, destaque para crescimento de 25,07% da Austrália e 6,81% do Uruguai.

Leia também: 10 dicas de como escolher e comprar o seu vinho

Dados extraídos do Análise de Mercado de 2015 da análise de

ADAO AUGUSTO A. MORELLATTO

INTERNATIONAL CONSULTING

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segunda-feira, 11 de janeiro de 2016 Brancos, Tintos, Velho Mundo | 00:59

Vinhos portugueses: o Dão, o Douro e a dor de dente (parte 2)

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Os 50 tons do Douro e seus vinhos importantes

Na primeira parte deste post “Vinhos portugueses: o Dão, o Douro e a dor de dente (parte 1)”, o relato chegou até a região do Dão e contou a prova de tintos, brancos e um rosé realizada no Solar do Vinho do Dão. Não leu? Clica ali em cima e dá uma olhada. Na abertura da primeira parte, tentei resumir a viagem a Portugal numa frase que cabe em  um Twitter: “Os vinhos do Dão são elegantes, os do Douro, importantes, e dor de dente… ah isso ninguém merece.” Nesta segunda parte, voltamos ao giro pelos vinhedos e vinhateiros portugueses, mas agora a bússola está apontada para a região do Douro – um lugar que reúne história, diversidade, beleza e vinhos deliciosos. E a dor de dente? Eu esclareço no final.

 Os 50 tons do Douro

Numa escala de 0 a 100, como medem os críticos em suas pontuações de vinhos, a paisagem do Douro alcança fácil a nota máxima. Se o conceito de terroir é junção da geologia, da geografia, do clima e da ação do homem no vinhedo, o Douro é uma confirmação de sua existência. As colinas se sobrepõem em camadas, numa cadeia de elevações e declives que  lambem as margens do Rio Douro. As videiras são plantadas em terraços esculpidos no solo xistoso e talhados pela mão do homem durante séculos a fim de domar as características do terreno e evitar a erosão do solo. O sol atinge de maneira diversa as uvas de acordo com a posição em que são plantadas as videiras neste terreno sinuoso e ao mesmo tempo deslumbrante. Para os visitantes motorizados, o conselho “se dirigir não beba” é quase um redundante apelo à sobrevivência, pois mesmo sóbrio, as curvas, descidas e subidas são um desafio até para o motorista mais atento. Arrume, pois, um motorista, contrate um táxi, pois é impossível não beber no Douro. O Douro é importante, é imponente e produz vinhos espetaculares.

O Douro em 10 destaques

marco-pombalino1. O Douro é a primeira região demarcada de vinho do Mundo. Foi criada em 1756, por iniciativa do Marques de Pombal, que visava equilibrar o déficit do Estado com a venda do vinho do Porto, que já conquistara um mercado global importante no período. Entre 1757 e 1761 marcos de granito – conhecidos como marcos pombalinos (veja foto) – foram colocados nos terrenos do Douro para delimitar geograficamente a região.

2. É no Douro que estão os vinhedos dos vinhos do Porto, mas é em Vila Nova de Gaia, cidade vizinha ao Porto, onde se encontram os grandes armazéns que envelhecem os Portos de marcas mais conhecidas como Taylor’s, Graham’s, Down’s, Warre’s, Symington, Adriano Ramos Pinto, Croft, Kopke, Niepoort, Sanderman, Offley, etc. A razão é histórica e cartorial: até 1982 só era permitido comercializar o vinho do Porto através do entreposto de Gaia, o que obrigava os pequenos produtores a vender sua produção às grandes empresas. A partir de 1986 foi autorizada a exportação do vinho do Porto diretamente da Região Demarcada do Douro (RDD), permitindo que novos players entrassem neste mercado. Mesmo assim Gaia concentra a grande produção, leva a fama e está preparada para receber os turistas. Estando no Porto, é obrigatório visitar uma das grandes casas produtoras e fazer uma degustação dos vinhos.

3. A principal ligação da cidade de Gaia à do Porto é uma ponte de ferro – confesso que tenho uma certa vertigem de atravessá-la a pé – construída por ninguém menos que Gustave Eiffel, aquele que espetou a torre que levou seu nome em Paris e que virou símbolo da cidade.

4. A produção de vinhos no Douro guarda muitas tradições. Ainda é comum a pisa das uvas ser realizada com pés descalços em grandes tanques de pedra (conhecidos como lagares). Parece pouco higiênico, mas na verdade é um instrumento perfeito para esmagar as uvas e extrair das cascas todo seu valor fenólico, já que a pisa pé não tritura as sementes, o que resultaria em amargor para o vinho. Trata-se de um trabalho hercúleo que já é substituído em alguns casos por pisadores hidráulicos que simulam a pisada humana.

5. São vários os tipos de vinhos do Porto. Desde o Branco até os tintos que variam de potência e idade: Tawny (declaro desde já que são os meu prediletos), Ruby, Vintage (engarrafado apenas nos melhores anos), Colheita (produzidos em um único ano).

6. Desde 2001 o Alto Douro é reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial da Humanidade. Demorou, eu diria.

7. A região é dividida em três áreas: Baixo Corgo, Cima Corgo e Douro Superior.

8. Se Portugal se caracteriza pela variedade e pela mistura de suas uvas nativas, é no Douro que a expressão “tudo junto e misturado” é a mais verdadeira. Muitos dos vinhedos são tão mesclados que os proprietários não se dão ao trabalho de identificar cada espécie plantada. Outros fazem um amplo trabalho de pesquisa e classificação de cada videira e as substituem por seus pares para manter a mesma mescla todos os anos.

9. Se o vinho fortificado do Porto é uma exclusividade do Douro, os tintos de mesa ganham cada vez mais adeptos. A história começa com o Barca Velha, criado em 1952, na Casa Ferreirinha. Mas a projeção dos vinhos de mesa – mais tintos do que brancos – ganha dimensão e pompa com o advento dos Douro Boys. Ali pela década de 90 um talentoso grupo de enólogos e proprietários se uniu e usou o marketing para mostrar os caldos de excelência que produziam na região. Deu muito certo. E hoje alguns de seus rótulos são premiadíssimos – e caríssimos.

10. Falar de Douro é falar de xisto, o tipo de granito que predomina no solo dos melhores vinhedos e que absorve e posteriormente irradia o calor e dá um caráter único aos vinhos da região.

 As vinhas, a chuva e os vinhos

Os vinhos do Douro fizeram parte da viagem desde o início até seu final, tanto em restaurantes de Lisboa como em outras provas, mas bebê-lo em seu berço é aquela experiência que explica o produto sem necessidade de bula. A chuva que nos castigou no Dão não nos abandonou no Douro. A dor de dente (ahá!) que estava tímida até então, e que não mereceu entrar na narrativa até agora, começou a mostrar (literalmente) suas garras – mas esta história eu detalho mais abaixo para não avinagrar o vinho que vem a seguir.

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Este colunista e o companheiro de viagem Water Tommasi, do Blog Tomassi no Vinho,  na piscina de fundo infinito da Quinta do Crasto: a foto inevitável

Crasto e a Quinta dos Avidagos

A Quinta do Crasto – que muito gente insiste de chamar do Castro, o que não é de todo errado pois está na origem do nome latino “castrum”, que significa “forte romano” -, tem um visual deslumbrante. Mesmo que seu interesse por vinho seja baixo (duvido, se não não estaria aqui), a visita à vinícola é um colírio para os olhos. É um chavão, mas é um cenário de cinema. A propósito, uma novela portuguesa estava sendo gravada ali. A adega e casa principal ficam no cocuruto do Cima Corgo com vista para as colinas recortadas pelos terraços de vinhedos e divididas ao meio pelo majestoso Rio Douro. No ponto mais alto da propriedade, uma piscina com fundo pra lá de infinito foi projetada criando a ilusão de que suas águas escorrem pelas montanhas de encontro ao rio. Uma foto ali é quase uma obrigação. A Quinta do Crasto mistura tradição e tecnologia. Faz uma espécie de BigData de suas videiras, com uma rastreabilidade total dos vinhedos (70 hectares), com registros de quem colheu, quando, quanto, em que período etc. A Vinha Maria Tereza, onde são cultivadas as uvas para o vinho de mesmo nome, por exemplo, reúne cerca de 49 variedades de uvas no seu terreno que são classificadas e identificadas. Conhecidíssimos no Brasil (a família Roquete, proprietário do Crasto, já morou no Rio de Janeiro e tem uma importadora exclusiva, a Qualimpor, que cuida de seus rótulos e dos alentejanos da Herdade do Esporão), têm uma legião de seguidores e consegue emplacar tanto tintos do dia-a-dia como joias da coroa com preços idem. De uma degustação dos seus rótulos mais vendidos, realizada junto ao enólogo Manuel Lobo de Vasconcellos, destaco duas ampolas abaixo

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Crasto Superior Branco 2014
Uvas: Verdelho e Viosinho

O Crasto Superior tinto é belo vinho que acompanha bem as refeições. Há pouco tempo ganhou sua versão de uvas brancas. Manuel Lobo Vasconcellos queria um branco que mesmo passando pelo processo de “Battonage”, que mantém o caldo em contato com as borras, se caracterizasse pelos aromas florais e cítricos. E na boca se revelasse um frescor gastronômico. Boa alternativa de um Douro branco mais acessível.

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Quinta do Castro Reserva Vinhas Velhas 2013
Uvas: São de 25 a 30 uvas nativas do Douro de vinhas de mais de 70 anos de idade

Concentração e complexidade aromática definem este que para mim é uma das melhores expressões do Douro, e em especial da Quinta do Castro. Tem nariz, boca e profundidade. Macio e longo. Boa integração com a barrica. Se tiver oportunidade de provar safras mais antigas vai constatar o potencial de envelhecimento. Um Douro que define a região. Em 2012 recebeu 92 pontos do site de  Robert Parker.

Tio-Avidagos

Rui Nunes Matos na sala de grandes toneis da Quinta dos Avidagos

 Já a Quinta dos Avidagos, fica mais abaixo, próxima ao Rio Corgo, vizinha à belíssima Quinta do Vallado, onde tive a oportunidade de me hospedar em uma viagem anterior com minha mulher. É uma vinícola também familiar mas com uma estrutura menos tecnológica. São quatro quintas distribuídas num raio de 5 quilômetros. Rui Nunes de Matos está à frente da gestão do negócio. Ele e sua esposa não mediram esforços para nos receber e abriram sua sala de jantar e casa para nossa prova e estadia. Se fosse jurado numa escola de samba dava 10 para o requisito simpatia e generosidade para o casal. Foram fornecedores de uvas para outros produtores até 1996, quando lançaram seu primeiro rótulo. A linha mais básica tem um viés claro para agradar o mercado internacional – o sobrinho Pedro estava na China comercializando um grande lote de vinhos durante nossa visita. Será que os chineses vão consumir todo o vinho do mundo? Da gama dos rótulos provados há uma aposta em vinhos um pouco mais carregados nas tintas e na potência, ao gosto do novo freguês. Mas um rótulo especial se diferenciou e a mim, pelo menos, mostrou melhor o potencial do Douro, e da quinta. É deste que falo abaixo:

 Avidagos

Quinta dos Avidagos – Quinta do Além Tanha Grande Reserva 2008
Uvas: Touriga Nacional, Tinta Amarela, Tinta Roriz, Tinta Cão e Sousão

Provenientes de vinhas com mais de 60 anos de idade, é um típico representante do Douro: bem estruturado, integrado com madeira (14 meses), taninos bem macios e uma boa fruta madura em boca. Um vinho mais quente. A fruta se sobressai. A  mescla contribui para uma maior variedade de aromas e sabores.

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Todas as cores do Douro nos vinhedos de Alves Souza

Domingos Alves de Souza – Quinta da Gaivosa

Perfilar Domingos Alves de Souza é criar correlações entre o homem, sua terra e sua obra. Este engenheiro que virou vinho – e sua bela família – é de uma cordialidade, simplicidade e dedicação aos vinhos do Douro que cativa. A beleza de seus vinhedos, sua visão empresarial e a qualidade de seus brancos, tintos e fortificados fascina. Domingos Alves de Souza é um personagem. Eleito produtor do ano em 1999 e 2006, nos recebe pessoalmente. Domingos exibe cabelos e bigodes brancos, e veste um casaco pesado que protege da chuva e do vento frio – esta que nos acompanha todos os dias. Com muita energia e disposição nos guia em sua SUV percorrendo – com alguma ousadia – parte dos 134 hectares de vinhedos que foram herdados do avô e do pai e posteriormente aumentadas com novas aquisições. Uma montanha-russa de subidas e descidas íngremes que ele enfrenta sem parar de falar um minuto, um olho nos convidados e outro na estrada. O cenário é um espetáculo de cores – as folhagens das parreiras exibem aquela transição das estações, criando uma aquarela de tons amarelos claros e escuros, avermelhados e verdes, como da foto acima. De volta ao ponto inicial fazemos uma visita às modernas instalações da adega. Tudo ali é projetado em benefício da vinificação: condução por gravidade, espaços com iluminação natural e uma espécie de torre de controle onde os enólogos e técnicos podem observar toda a cadeia de produção, da chegada e seleção das uvas à fermentação e guarda em barricas. O próprio Domingos Alves Souza nos serve os goles dos vinhos, uma seleção de primeira que destaco os seguintes rótulos.

 VALEDARAPOUSA

Vale da Raposa Reserva 2011
Uvas: Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinto Cão, Touriga Franca

Esta quinta foi adquirida de um vizinho após muita negociação e trouxe o benefício de um caldo mais acessível. Tem aromas bem marcantes, frescor das uvas do Douro e muita tipicidade. O belo tinto para começar a amar o Douro.

 Personal

Alves de Sousa – Pessoal 2006
Uvas: são 10 castas autóctones (nativas) brancas.

Um dos grandes brancos provados nesta viagem. O vinho foi lançado apenas em 2015, 9 anos após ser produzido. Quem já bebeu o chamado “vinho laranja” vai identificar seu DNA nesta garrafa. As tais castas nativas estão sendo classificadas, mas são provenientes de vinhas velhas e por um processo oxidativo em que a vinificação é feita com as cascas das uvas. O resultado, óbvio, é de aromas mais puxados para um oxidativo que dá profundidade e longevidade ao caldo. Toques de mel e doce de frutas brancas.  Maravilhoso, onírico.

 quinta_gaivosa

Quinta da Gaivosa 2009
Uvas: Tinta Roriz, Tinto Cão, Touriga Franca e Touriga Nacional

É uma das estrelas da casa. Resultado de provas cegas feitas na adega de mais de 20 vinhas que definem a mescla. Segundo Domingos, expressa a identidade de seus vinhos e do Douro “Nossa cara está aqui”. Mantém ainda juventude e frescor, muito macio em boca, com um belo potencial de fruta, especiarias e longo final.

 Loredo

Quinta da Gaivosa – Vinha do Lordelo 2011
Uvas: Tinta Amarela, Sousão e outras uvas

Lordelo é um vinhedo exclusivo de Alves de Sousa recuperado em 2003. Este caldo potente, concentrado, tem muita fruta madura, persistência longa, um aroma profundo das frutas negras e boa presença da madeira. Vinho de macho, que prima pela potência mas com estrutura, acidez, e fruta negra madura bem saborosa, e não excessiva, o que é muito importante. Complexidade dada pelo solo de xisto, e muita persistência no final. Um vinho de contemplação, até por que não é nem um pouco barato (mais de 600 reais no Brasil).

Importador no Brasil: Decanter

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Domingos Alves de Sousa e sua mulher Lucinda: recepção calorosa e ambiente familiar

Após a prova dos vinhos, uma refeição, preparada por sua amável esposa, Lucinda, foi servida na sala de jantar da casa onde mora a família Alves de Sousa.  Ali continuamos a beber seus vinhos, acompanhado de uma comida caseira e deliciosa. Acolhidos, juntos à família, jogamos conversa fora. E vinho para dentro. Uma foto de todos reunidos na varanda da casa finalizou a visita. A viagem tinha de continuar.

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Essas uvas um dia estarão engarrafadas em um Porto

Quinta Santa Eufêmia

A história é uma narrativa que nem sempre se vivencia. Deparar com um marco pombalino, o de número 27 de 1756, delimitando a região do Douro, é testemunhar a história de alguma forma. Perscrutar a capela que funcionava como um farol para o Rio Douro na época que suas correntes eram mais selvagens, deparar com a primeira nota de venda de vinho do Porto de 1864 e fotografar um lagar de granito com mais de 100 anos e ainda em uso é respeitar e compreender o conceito de tradição. A Santa Eufêmia é um negócio que está na família há quatro gerações. São 45 hectares de vinha, às margens Sul do Rio Douro, onde também são cultivados legumes e frutas. As oliveiras plantadas, além do seu uso mais óbvio, delimitam o terreno com os vizinhos. Apesar de ter vinhos de mesa em seu catálogo o forte são os Portos. Quem nos guia por esta volta ao passado é uma senhora da família, mas que há pouco tempo se dedica inteiramente ao negócio. Falha deste repórter, não anotei seu nome.

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Lagar de granito de mais de 100 anos

Primeira impressão é que seríamos prejudicados pela ausência do responsável pelo marketing tratado para nos receber. Mas simplicidade não significa desconhecimento. Recebemos uma aula sobre o lugar, sua história, sobre as características dos vinhedos e do processo de produção dos vinhos. “Na adega só trabalham mulheres, elas são mais detalhistas”, comenta para depois entregar um motivo mais prático “e também são mais cuidadosas no manuseio das máquinas. Isso é importante. Estamos no fim do mundo, uma avaria numa máquina leva muito tempo para ser reparada”, conclui. Aliás a presença das mulheres é uma constante aqui. A enóloga-chefe, Alzira Viseu de Carvalho, começou a produzir vinhos aos 7 anos de idade, num tempo em que o politicamente correto não exercia função de polícia dos costumes. É servida uma sequência de tintos de mesa, seguidos de fortificados, mas ela não prova nenhum deles. O motivo é comovente. Ela não consegue provar e cuspir o vinho tamanha adoração que tem pelos caldos, em especial os fortificados; não vê sentido, apesar de compreender que uma prova de vários rótulos por especialistas seja seguida pela devolução do líquido e não a absorção de todo álcool. Tendo a concordar um pouco com ela. Os Tawnys e o Colheita 2004 eu acabei tomando tudo, não devolvendo nada para o baldinho em cima da mesa.

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Quinta Sta Eufêmia – Tawny Branco 30 Years Old White
Uvas: Vinhas velhas com Malvasia Fina, Rabigato, Gouveio e uma parcela de vinha com mais de 50 anos de moscatel Galego.

Numa degustação às cegas os Portos brancos de 20, 30 anos lembram muito os Porto Tawny tinto, tanto na cor dourada característica desta bebida com o passar dos anos como até nos sabores e aromas de frutas secas, amêndoas, mel. Eles vão ganhando uma mesma pegada de complexidade. Talvez para conhecedores mais apurados, o Tawny branco tenha uma delicadeza maior no palato e um nariz mais persistente. Confesso que sempre me confundi. E aprendi a apreciar sua magistral evolução. Espetacular

 

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 Quinta Sta Eufêmia 20 Years Old Twany
Uvas: Tinta da Barca, Mourisco Tinto, Tinta Barroca, Tinta Roriz e Touriga Francesa.

O Tawny com idade declarada é uma seleção de portos diferentes com uma média de idade igual ou superior a 20 anos que confere seus estilo. O Tawny me fascina tanto pela cor castanho, como pelos aromas delicados de frutas secas, tâmara e mel. E principalmente pelo fim de taça. Aquelas aromas que ficam flutuando no fim do copo que mostram o potencial do bichão. O envelhecimento é feito lentamente em barricas com mais de 50 anos, que confere maior complexidade ao caldo. Uma joia.

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Sta Eufêmia – Colheita 2004
Uvas: tradicionais do Douro, Tinta Roriz, Touriga Nacional, Tinta Amarela, Mourisco Tinto, Touriga Franca, Bastardo. Vinhas Velhas com mais de 50 anos

É um vinho uma só colheita cuja comercialização é permitida apenas a partir do 7º ano. O que me atrai no estilo colheita é que ele é mais próximo do Tawny, na complexidade dos sabores, aromas e no persistência. Dourado escuro, para mim apareceram mais aromas de casca de laranja, damascos, as inevitáveis frutas secas.

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Dor de dente

Conforme prometido, aqui vai a o relato da dor. Só nos lembramos de nossos dentes quando vamos escová-los. Ou quando eles começam a incomodar. Eu me lembrarei dos meus para sempre quando recordar esta viagem para Portugal. Alguém com maior talento já deve ter descrito melhor uma dor de dente, mas defini-la como a antessala do inferno não é de todo impreciso.

Aconteceu de sentir um pequeno incômodo logo no segundo dia de viagem, à noite. Tomei uma aspirina. Tolinho. Daí em diante a dor vinha e voltava com graus variados de tensão. O vilão foi o incisivo lateral superior da direita, aquele dente que fica entre o incisivo central e o canino, que começou a latejar sem dó ou piedade. Sônia Vieira, nosso anjo da guarda da ViniPortugal, sugeriu um antiinflamatório. Resolvia. Por algumas horas. Mas claro que de madrugada a dor voltava, avisando que o lado negro da força estava sempre ameaçando meu sossego. Tomava outro comprimido e depois de um tempo parecia que alguém tirava a dor com a mão.

“E por que você não foi a um dentista?”, você pode se perguntar. Por que estava numa viagem recheada de compromissos, que passava por cidades pequenas e eu tentava pesar os prós e contras de me arriscar em um consultório desconhecido. Me iludi com os períodos de calmaria camuflados pelo medicamento. Algumas provas de vinho foram prejudicadas pela dor que ia invadindo meu raciocínio e minha noção de tempo; outras provas tinham efeito anestésico: amenizavam a dor. Mas aos poucos aquele arpão invisível voltava a espetar o interior do meu dente e alcançar a gengiva com seu ferrão.

Ao sair do Porto, após me deliciar com vintages e tawnies, o destino era a região dos vinhos verdes (tema do próximo post). O caminho até a Quinta da Lixa era um misto de pequenas estradas vicinais e finalmente uma autoestrada. Foi naquele momento que a dor atingiu o limite máximo do suportável, expalhou para todos os dentes de trás. Toda bancada da arcada dentária se revoltou e entrou com um pedido de impeachment do dente causador da tragédia bucal. Sofri calado, com galhardia, suando frio. O sertanejo é antes de tudo um forte! Quando notei que íamos passar por um cidade maior, Amarante, vislumbrei que a necessária e urgente ida ao dentista tinha mais chances de dar certo. A bem da verdade nesta altura do campeonato me consultaria até com um veterinário (sem piadas, por favor) na vila mais tristonha de Portugal.

Ao chegar ao hotel Monverde, no início da noite, o enólogo chefe da Quinta da Lixa, Carlos Teixeira, nos aguardava e eu baixei a guarda e clamei pela indicação de um profissional. Acho que meu rosto estava transtornado, meio bouchonée, e ele conseguiu agendar uma consulta para a manhã seguinte na própria vila que nos encontrávamos.

Doutor Luis Filipe, da Clínica Médica Jardim da Lixa, diagnosticou o problema: um canal mal resolvido tinha inflamado, bactérias invadiram os espaços ocos e tomaram conta da região num ataque terrorista que tirou a paz daquele território. Uma dor que iniciou tímida na Bairrada, ficou mais atrevida no Dão e rasgou a fantasia no Douro encontrou finalmente o exército da salvação na região do Minho, do Vinho Verde. Acho que agora está explicado o título deste post e a frase inicial: Os vinhos do Dão são elegantes, os do Douro, importantes, mas dor de dente… ah isso ninguém merece. Não podia deixar de registrar!

No próximo post: Vinhos de Portugal: Verde que te quero Ver-te.

Nota: a viagem a Portugal foi patrocinada pela ViniPortugal, organização que representa o setor vitivinícola português e promove os vinhos de Portugal.

 

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terça-feira, 22 de dezembro de 2015 Brancos, Tintos, Velho Mundo | 01:28

Vinhos de Portugal: o Dão, o Douro e a dor de dente (parte 1)

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Solar do Vinho do Dão: guardião dos vinhos da região

Solar do Vinho do Dão: guardião dos vinhos da região

O pior dos crimes é produzir vinho mau, engarrafá-lo e servi-lo aos amigos
Aquilino Ribeiro, in “Aldeia: terra, gente e bichos”
Inscrição pintada no Solar do Vinho do Dão, em Viseu, Portugal

Portugal é uma experiência rica para os apreciadores dos vinhos brancos, tintos e os fabulosos fortificados do Porto. E prática. Trata-se de um país de distâncias municipais, tendo como referência o mapa brasileiro. É possível percorrer as regiões, os vinhedos e os produtores em poucos dias. O Dão e o Douro são vizinhos, assim como a região dos Vinhos Verdes e da Bairrada. O mapa vitivinícola ajuda, apesar de as estradas sinuosas do Douro complicarem um pouco a vida do motorista. E a experiência, e o cenário, se modificam em poucos quilômetros. Ah, e o preço dos vinhos, mesmo em tempos dilma desvalorização cambial, ainda são uma pechincha diante de nossas etiquetas.

É muito difícil escolher entre tantos tintos e brancos provados aqueles que mais agradam, ou entre várias vinícolas e produtores visitados os que mais impressionam e merecem um comentário e um espaço neste blog. Talvez mais fácil concentrar a seleção em algumas regiões. Se eu precisasse resumir minha viagem a Portugal em um post de Twitter, em poucos caracteres, seria mais ou menos assim: “Os vinhos do Dão são elegantes, os do Douro, importantes, e dor de dente… ah isso ninguém merece.” Como posso ultrapassar os 144 caracteres, e dividir este post em dois, explico a seguir o que quis dizer com esta frase. Comecemos pelo Dão.

O Dão é “bão”

Se você não é useiro e vezeiro de vinhos portugueses, talvez nunca tenha ouvido falar do Dão, ou melhor, prestado atenção à região no rótulos das garrafas que estão por aí. Em rápidas pinceladas podemos nos socorrer aos jargões (eles estão aí para isso mesmo) e definir os caldos desta região pelos seguintes destaques:

mapa.dao

O Dão está marcado em vermelho no mapa de Portugal

  • A região do Dão foi demarcada em 1908, em 1947 a Denominação de Origem é registrada
  • O Dão é considerado a Borgonha portuguesa por manter algumas semelhanças com esta região francesa, expressão máxima da pinot noir (para as tintas) e da chardonnay (para as brancas):; pequenas propriedades (algumas muradas), volumes menores, vinhos mais elegantes, maior equilíbrio entre corpo e acidez.
  • A região seria o berço da tinta Touriga Nacional (não há comprovação científica, a paternidade é dividida com o Douro); a uva dominava o Dão antes da Filoxera, isso lá é verdade.
  • A Touriga Nacional é predominante nos vinhos tintos do Dão, e produz caldos de maior elegância, aveludados, com  capacidade de desenvolver aromas e sabores delicados e persistentes após um tempo emcapsulado na garrafa.
  • Os melhores brancos da região são aqueles produzidos a partir da uva Encruzado, uma “quase” exclusividade do Dão. Seus aromas e corpo são potencializados pelo tempo em barrica e pela temporada em  garrafa (vale aguardar um pouco a evolução), proporcionando uma experiência sensorial onde acidez e persistência dão (ops) prazer.
Osvaldo_Amado

Osvaldo Amado: enólogo do ano

O Solar do Vinho do Dão, Antigo Paço Episcopal do Fontelo (de verão) e também usado por um tempo como prisão, fica localizado na cidade de Viseu. O edifício, reformado e inaugurado em 2004, é sede da Comissão Vitivinícola Regional do Dão. Chegamos ali após pernoitar no Hotel do Buçaco, um local que mistura história, tradição e uma certa aura dos vinhos exclusivos feitos para o Hotel. A ideia era concentrar vários produtores representativos do estilo do Dão e suas criações numa espécie de feira exclusiva para os dois jornalistas de vinho brasileiros que faziam a visita. Foram nove casas, cada qual com direito a expor três rótulos. Total de garrafas desarrolhadas: 32 (algumas roubaram na conta, é fato, mas não vou deletar).

Eram 11 horas da manhã e tínhamos uma hora e meia para provar os vinhos, conversar com os produtores, tirar fotos e fazer algumas anotações. É quase uma minimaratona de Baco, onde a tática para se chegar ao final exige uma rodada inicial de brancos, seguida de outra volta olímpica com os tintos e de preferência cuspindo a bebida na degustação (ok, eu sei; esta parte meio nojenta da coisa causa certo asco no público pouco acostumado, mas é superbem aceita no meio. Juro que não ofendi nenhum produtor devolvendo para o balde seu vinho. Trata-se de um método para manter a sobriedade da análise. E aroma se percebe pelo olfato, sabor pelas papilas gustativas, engolir não é determinante em provas. Mas confesso que vez ou outra um gole mais aprazível vai para dentro). Já disse em outro texto, o Dão me surpreendeu, sua elegância me conquistou – um conceito meio fluido mas perceptível – e tornei seu fã. Às escolhas, pois:

Os brancos e os tintos do Dão e um rosé de contrabando

BRANCOS

Titular_branco

Titular Colheita Branco 2014
Uvas: Encruzado, Malvasia Fina e Bical
Caminhos Cruzados
Site oficial

Trata-se de um vinícola recente (2012) e já com alguns prêmios de crítica para exibir. Muito aromático, fresco, um toque de abacaxi. Vinho para se beber jovem. Teor alcóolico namedida para um branco. Muito subjetivo isso, mas adorei a simplicidade do rótulo, apenas com texto, aparentemente da fonte “currier”. remetendo à tipologia da máquina de escrever. Bateu um banzo. Fácil de identificar na prateleira, de guardar na memória.

 Quinat_perdigão_Encruzado

Quinta do Perdigão Encruzado 2014
Uva: Encruzado
Quinta do Perdigão
Site Oficial

O vinho passa por um processo de bâtonnage (xiii lá vem o cara complicar…) de 4 a 6 meses. Explico, a batonagem (em português mesmo) é um processo comum no processo de alguns vinhos brancos que consiste em agitar as borras que ficam depositadas no fundo da barrica (no caso, carvalho francês) durante a fermentação para submergi-las à superfície. Isso potencializa os aromas e dá mais estrutura. É um branco potente (ui!), encorpado (afe!) e que revela o potencial da uva. Curiosidade: não adianta gravar o vinho pela imagem do rótulo, eles mudam todos os anos, obra da mulher do enólogo, Vanessa Chrystie.

 Quinta_Pedrinha_Branco

Quinta da Ponte da Pedrinha 2014
Uvas: Encruzado e Malvasia
Quinta do Ponte da Pedrinha

Há histórias que só mesmo o velho mundo conta. A propriedade está com a família desde o século 18. Um branco de perfil jovem e fresco, fruta gostosa, bastante cítrico e mineral. A malvasia dá uma quebrada na potencialidade do encruzado. Não passa por carvalho, fermentação em tanques de inox. Para beber ontem.

 falorca_encruzado

Quinta Falorca Encruzado 2012
Uvas: Encruzado (90%) e malvasia (10%)
Quinta da Faloca

A família está à frente da vinícola há 5 gerações. Há uma mistura de vinhas novas e velhas, um branco mais concentrado, com sabores de frutas brancas mais maduras. É untuoso, cremoso, estagia três meses em madeira e também passa por processo de batonagem. Tem uma persistência gostosa e uma acidez que completa o cenário. Um dos grandes brancos do Dão que provei.

 

ROSÉ

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Quinta Mendes Pereira Touriga Nacional Reserva 2011
Uva: Touriga Nacional
Quinta Mendes Pereira

Ok, eu sei. Um rosé do Dão não será sua primeira escolha. Para mim, no entanto, foi uma agradável surpresa. Uma cor linda de rosé, vibrante, luminosa: o prazer também se dá pelo visual. No nariz frutas vermelhas frescas como morango e framboesa. Um toque doce na boca, que dá um volume extra, e a fruta detectada nos aromas se repete de forma importante. Uma prova do potencial da Touriga Nacional como matriz de vinhos variados.

 

TINTOS

Quinta_das_Camelias_tinto

Quinta das Camélias Touriga Nacional 2010
Uva: Touriga Nacional
Quinta das Camélias
Site Oficial:

Olha o Touriga Nacional aí gente! Este é o topo de linha da Quinta das Camélias. Passa 10 meses em carvalho francês antes de vir ao mundo. Um touriga muito floral com uma violeta exibida mas elegante. Aveludado na boca, delicado, boa extensão. Apenas 6.600 garrafas produzidas. Um fidalgo perfumado engarrafado!

 Carvalhao_Torto_2005

Quinta do  Carvalhão Torto 2005
Uvas: Jaen e Alfrocheiro
Quinta do Carvalhão Torto
Site oficial

Entre todos os vinhos do Solar, o Quinta do Carvalhão Torto 2005 mostrou uma pegada didática que aponta como o tempo de garrafa age (para melhor) no sabor de um vinho. Um vinho com contraprova: comprei uma garrafa para dividir a experiência com minha mulher aqui no Brasil e a impressão de qualidade e sabor permaneceu em ambientes diversos. As uvas têm excelência de maturação nos 7 hectares de vinha. As 30.000 garrafas deste vinho só são lançadas após envelhecimento por no mínimo cinco anos. Tem um aroma delicado e intenso de terra molhada, húmus. É classudo, com boa estrutura em boca e taninos suaves e macios. 12,5% de álcool completam a elegância e a frescura que combinada com acidez amplia a vivacidade do vinho. Um vinho que não teve pressa de chegar ao mercado; não precisa de rapidez em bebê-lo.

 Quinta dos Carvalhais_Encruzado

Quinta dos Carvalhais Colheita 2011
Uvas: Touriga Nacional (93%), Tinta Roriz (5%) e Alfrocheiro (2%)
Sogrape – Quinta dos Carvalhais

Uma mescla elegante onde a fruta mais escura predomina e o floral mais tímido marca presença nos aromas e no sabor. As uvas são fermentadas em tanques de inox separadamente e depois passam uma temporada em barricas francesas de primeiro e segundo uso. Um Dão de potência, que me pareceu ter menos acidez que seus colegas, mas boa estrutura e longa persistência. Um Dão de bigodes.

 Estremuas_tinto

Quinta das Estrémuas Reserva 2008
Uva: Touriga Nacional
Vinícola de Nelas

Uma Touriga Nacional à capela com muita exuberância de fruta madura, muito macio na boca e ótimo final. Mais fruta e menos flor. Passa por um estágio em madeira francesa por 11 meses antes de ir para a garrafa. Um belo exemplar do potencial do Dão com uma pegada mais estruturada e com suculência marcante.

 Cabriz_Reserva_tinto

Cabriz Reserva 2012
Uvas: Touriga Nacional (40%), Tinta Roriz (30%) e Alfrocheiro (30%)
Wine Soul/Dão Sul – Cabriz
Site oficial

A Dão Sul é um blockbuster do Dão, seus vinhos são facilmente encontrados nos supermercados brasileiros. Produz grande quantidade com qualidade e preço. O enólogo Osvaldo Amado foi eleito o enólogo do ano em 2015. Para conhecer um Dão mais básico experimente o Cabriz Colheita Selecionada. Esta garrafa aqui está posicionada um degrau acima. A linha Reserva passa 9 meses em barrica francesa de tosta fraca (não marca muito o vinho). Destaque para sua boca aveludada, de bons taninos combinados com algum floral. Osvado Amado apenas mostrou na feira a garrafa de um vinho impressionante, 25 Cabriz, uma edição comemorativa às bodas de prata da casa.  No almoço tivemos o prazer de dividir com todos os produtores. Impressionou.

 FAta

Quinta da Fata Touriga Nacional 2010
Uva: Touriga Nacional
Quinta da Fata

Pequena propriedade de apenas 6,5 hectares (oferece hospedagem também), produziu apenas 3.500 garrafas deste Touriga Nacional puro sangue. A propriedade é familiar há algumas gerações, mas as vinhas têm cerca de 15 anos. Segue a tradição de pisa a pé, fermentação em lagares de pedra. Passa seis meses em madeira nova e outros seis em madeira de segundo uso americanas e francesas. Tem um leve toque defumado, macio e com fruta madura intensa.

 Tnac-Tinto

Tnac 2010 by Falorca
Uva: Touriga Nacional
Quinta da Falorca

Outro rótulo moderno que chama a atenção para a descrição da variedade: Tnac = Touriga Nacional. Um tinto vibrante sem passagem por barricas de carvalho. Resultado: um caldo menos afetado aos humores da madeira. Foi um dos últimos vinhos provados e sua jovialidade e proposta foram um refresco para tintos mais compleixos que exibiam mais medalhas. Às vezes menos é mais.

 Perdigão_ALfrocheiro

Quinta do Perdigão Alfrocheiro 2009
Uva: Alfrocheiro
Quinta do Perdigão
Site oficial 

A Quinta da Falorca é um exemplo de produção familiar e cuidado de vinificação que são típicas do Dão. Produtor e enólogo, o próprio José Perdigão escreve os contrarrótulos com uma vocabulário que mistura informação e paixão. É ele também que me serve as garrafas,  comenta sobre a reforma do Solar, o desenho das etiquetas e principalmente do vinho que expõe – e aparentemente bebe com extremo prazer e satisfação. Tem muito disso em Portugal, a simpatia do produtor ajuda o vinho. Como Luis Pato, da Bairrada, tratado em outro post. Ah, o vinho! O Alfrocheiro é outra casta importante do Dão, aqui em carreira-solo. As uvas são colhidas em apenas 1 hectare de vinhedo “amigo do meio ambiente”, como descreve José Perdigão. Um vinho de estrutura firme, um toque defumado gostoso, uma goiabada em compota no nariz e auditada na boca. Frutas negras presentes. Também tem um toque de caixa de tabaco (parece estranho mas aparece), resultado do tempo de garrafa. Complexo, elegante; chega em várias camadas e demora a ir embora. Um Dão bão para fechar.

À mesa com o Dão

Finda prova nos reunimos todos para o almoço, desta vez com todas as garrafas da minifeira abertas e à disposição de todos para acompanhar a refeição. No cardápio a variada gastronomia portuguesa: bacalhau, leitão, embutidos, queijos. À mesa ninguém cuspiu o vinho, ele foi parceiro e ampliou os prazeres da comida. Como tem de ser.

No próximo post  –  Vinhos de Portugal: o Dão, o Douro e a dor de dente (parte 2) – eu conto um pouco sobre a parte da viagem ao Douro, seus vinhos importantes e também sobre a dor dente.

Nota: a viagem a Portugal foi patrocinada pela ViniPortugal, organização que representa o setor vitivinícola português e promove os vinhos de Portugal.

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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015 Brancos, Tintos, Velho Mundo | 01:25

Vinhos de Portugal: um Pato aqui, um Pato acolá.

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Lá vem o Pato
Pata aqui, pata acolá
Lá vem o Pato
Para ver o que é que há
(O Pato, música infantil de Vinícius de Moraes)

 

pato

Luis Pato em foto oficial do site: um pato aqui (o bicho), outro acolá (o vinho)

Um Pato aqui

O vinho português é o que é por conta da diversidade de suas uvas nativas e das características que elas adquirem em cada uma de suas regiões vinícolas. A Bairrada é uma das 28 DOCs (Denominação de Origem Controlada) de Portugal. E foi para lá que partimos de Lisboa para iniciar nossa viagem aos vinhedos e vinhateiros da terrinha.  A região tem nos espumantes seu principal produto – 65% das borbulhas portugueses são da Bairrada -, mas são os tintos elaborados a partir da casta baga que fazem a fama do lugar pra quem se interessa por vinho.

A baga não é para amadores. Pode gerar  vinhos muito adstringentes e herbáceos – aqueles taninos que travam a língua -, mas nas mãos de hábeis vinhateiros é capaz de produzir caldos expressivos, com grande capacidade de guarda e complexidade. Um dos mais conhecidos magos da baga é o  brilhante enólogo Luis Pato, o domador da uva. Um iconoclasta que colocou a baga em outro patamar.

Os vinhos que levam estampados no rótulo o seu nome são para todos os públicos e bolsos. O mais básico – que leva um contorno de um pato vazado no rótulo – é figura carimbada em cartas de restaurantes brasileiros. Na comissão de frente dos rótulos se destacam as joias da coroa: o Vinhas Velhas (branco e tinto), o Vinha Pan e a experiência única do Pé Franco. O Pé Franco, como indica o nome, não usa aqueles enxertos que evitam a praga das parreiras, a filoxera, o que se traduz num tinto de uma pureza inigualável. Com seu bigode de português de almanaque e bom humor inconfundíveis,  Luis Pato é  presença garantida em feiras e degustações patrocinadas por seu importador no Brasil, a Mistral. Após algumas oportunidades de encontrar o criador, apareceu a oportunidade de conhecer as origens da criatura: sua terra e seus  vinhedos.

Leia também: Os bons vinhos e o bom papo de Luis Pato

Um Pato Acolá

Chegamos à vinícola no meio de uma manhã de tempo nublado e chuvoso. Logo na entrada do prédio que abriga a adega uma simpática senhora  descia os degraus de uma pequena escada que leva ao edifício principal. Era a mãe de Luis Pato. Ela nos cumprimentou e indicou o caminho da entrada. O criador, Luis Pato, não se materializaria neste dia – fazia uma viagem de negócios -, mas sua presença em fotos, pôsteres e nos rótulos dos vinhos não deixavam dúvidas de que aquele era seu domínio. Quem nos recebeu, no entanto, foi outra representante da família Pato, Maria João, demonstração evidente de que estamos diante de uma empresa familiar, algo que no mundo do vinho às vezes faz a diferença.

Quinta do Ribeirinho

Maria João tem os olhos muito azuis, um sorriso fácil e uma maneira de falar recheada de graça e ironia. Enquanto dirige o jipe levando os visitantes por um passeio por parte dos 60 hectares de vinhedos da família, vai apontando onde estão plantadas as uvas responsáveis por pérolas do catálogo Luis Pato: “Aqui estão os vinhedos da casta Maria Gomes, que produz nossos espumantes”. Mais adiante paramos em frente às fileiras de plantas que geram os frutos responsáveis pela Vinha Barrosa, Vinha Pan ou as exclusivas (e caríssimas, R$ 1.500,00 a garrafa no Brasil) parreiras da Quinta do Ribeirinho Pé Franco, cercadas de eucaliptos. “O Pé franco cheira a Eucalipto”, informa. Conta histórias da família. “Os clones da uva cercealinho foram plantados por meu avô (João Pato)”, passa pela antiga casa que foi morada de seus antepassados, logo após a pequena torre que, à maneira de Bordeaux, delimita as franjas da propriedade da Quinta do Ribeirinho (foto ao lado). Apresenta versões para a origem do nome Bairrada “vem do solo de barro” ou então do latim, “significa conjunto de bairros”. A chuva às vezes dá uma trégua e descemos do carro e nos aproximamos dos vinhedos, checamos o solo arenoso, o barro que pode ser origem da região, observamos o ciclo das vinhas “as plantas com as folhas mais vermelhas costumam ser de uvas tintas e as mais claras de uvas brancas”, indica Maria João, identificando algumas espécies. Ali, no meio do vinhedo, com os pés no barro, ouvindo sobre o manejo das uvas, me ocorre um sentimento de inadequação entre a simplicidade e a verdade das pessoas que lidam com a produção do vinho e  a solenidade que a crítica e os especialistas impõem à bebida. É bom conhecer de perto a origem de um vinho para entender a mensagem que vem da garrafa.

Maria João é filha menos famosa de Luis Pato. Felipa Pato, a outra irmã, tem um empreendimento na região e já tem uma grife de vinhos com certo reconhecimento. Produz rótulos bastante interessantes e saborosos, em especial, para mim, os da linha Local e seus espumantes. Maria João, no entanto, discorre sobre os vinhos e as vinhas (“2014 foi um ano difícil na Bairrada”) com conhecimento e intimidade. As vinhas estão plantadas em terrenos de solo calcário e argiloso e o clima sofre forte influência do Oceano Atlântico. A proximidade do mar, “mais próximo que em Bordeaux”, explica, potencializa a precipitação de chuvas, dificultando em algumas safras a maturação das uvas. Aí entra o talento da família em dominar este processo.

Maria João na adega com um rótulo antigo

Maria João na adega com um rótulo antigo

Voltamos ao prédio onde começamos a visita. Luis Pato é uma vinícola de médio porte, as instalações são modernas e eficientes, mas não grandiosas; não vendem arquitetura, mas qualidade do que vai dentro da garrafa. Passeamos na sala onde estão armazenados garrafas novas e antigas. Maria João embala alguns rótulos mais antigos e conta sua história, uma aula visual proporcionada pelas alterações das etiquetas, desde a  assinatura de Luis Pato – sempre presente – até a evolução do design. Ao mostrar a linha de mais alta gama, Maria João expressa o desejo de aumentar as vendas dos rótulos de maior valor agregado, ou seja, os mais caros. “Acho que  não é uma tarefa fácil”, argumento, tentando contextualizar o momento econômico. Mesmo viajando, o Brasil nunca sai de dentro de nós… Os maiores mercados de Luis Pato são: Estados Unidos, China (Macau), Noruega e por fim o Brasil. Estamos bem, mesmo assim.

ov.josmolespgDali partimos para um almoço regado a vinhos. Carrego uma caixa pesada, onde estão os rótulos que iremos provar. “Começamos bem!”, penso antecipando o prazer da prova. O restaurante era o reconhecido O Reis dos Leitões, em Mealhada. O prato principal, como não poderia deixar de ser, foi o Leitão da Bairrada. Iniciamos a refeição com entradas típicas, como uma espécie de empada recheada de carne de porco, presuntos e cremosíssimo queijo do Azeitão e finalizamos com uma sobremesa típica: ovos moles de Aveiro – pequenas porções doces de gema de ovo cozidos em xarope e envoltos em hóstias (foto ao lado). A carta de vinhos, premiada como uma das três mais importantes de Portugal – uma bíblia cheio de rótulos portugueses de todas as regiões –, também contempla alguns rótulos importados, em especial uma bela seleção de champagnes.

O que é que há: os vinhos

Cinco vinhos bebidos no Rei dos Leitões, e um aqui em casa (enquanto escrevo este texto)

mariagomes

Maria Gomes sparkling – método antigo

100% Maria Gomes

O método antigo é chamado por Luis Pato de antichampagne, pois só tem uma fermentação, ao contrário das tradicionais duas fermentações do método clássico. Para isso a uva tem de ter alto teor de açúcar, já que não há adição de mais açúcar, comum no método champenoise. “Champagne é o açúcar mais caro do mundo”, costuma ironizar Luis Pato. Aromático (característico da Maria Gomes) e com bela acidez tem aromas de fermentação presentes, resultado do método. Um belo e diferente espumante que vale experimentar.

bairrada95

Vinhas Velhas Luis Pato Bairrada Vinho Branco 1995

Uvas: Bical, Maria Gomes e Cercial

Vá lá, é um vinho para impressionar visitante, para mostrar o potencial histórico. Bingo! No contrarrótulo, o texto sugere que o vinho pode ser guardado por tempo superior a 10 anos. Eu sempre duvido destas previsões. Mas em 2015, passados os 10 anos, se revelou um branco soberbo. Com uma linda cor dourada, mel em profusão, um doce de figo em compota no nariz e na boca, untuoso e longo. Pra quem acha que só vinho tinto ganha com o tempo, uma lição de paladar evoluído.

Vinhas.Velhas.pg

Vinhas velhas tinto 2011

Uva: Baga

Um vinho que sempre me agrada. Um clássico que representa Luis Pato e sua baga de resultados. Potência, um toque de fumê, que é dado pelo solo – segundo Maria João -, e com uma menta muito perceptível no final de boca. Quer se iniciar nos vinhos de Luis Pato? Comece pelo mais básico, vai dar uma ideia. Quer provar o potencial da um bom baga? Eis aqui uma experiência que retrata o trabalho do enólogo.

VinhaPAn

Vinha Pan 2011 – Bairrada DOC

Uva: Baga

Aqui o capricho se dá desde a seleção, são apenas três cachos por cepa nos Vinhedos de Panasqueira (daí o nome Pan), com solo de argila-calcário (você encontra vestígios de amonites – conchas de origem marítima). Bom de aroma e de boca, com um baita potencial de guarda, mas já se revela grande na safra 2011.

VinhaBarrosa

Vinha Barrosa 2012 – Monopólio – Bairrada DOC

Uva: Baga

A vinha Barrosa é a vinha mais velha (quase 90 anos) da propriedade, todo o trabalho é manual. Situada numa espécie de concha, está rodeada de pinheiros. 2012 foi um ano mais quente, é um vinho redondo, macio, de boa estrutura e complexidade. Isso tudo para dizer que é um vinhaço, com aromas mais presentes, que vai mudando na taça e mantém uma sensação gostosa ao passar dos goles. Vai envelhecer com galhardia e pompa. Então, se você foi contaminado pelo paladar da linhagem Pato aqui o namoro vira casamento.

FernãoPires

Fernão Pires 2012

Uvas: Fernão Pires 96% e Baga 4%

Você já provou um vinho tinto elaborado primordialmente por uma uva branca? Tá aqui uma oportunidade. Luis Pato juntou 6% da tinta baga e pintou a branca Fernão Pires. Uma homenagem ao neto Fernão.O rótulo mostra a mão de uma criança e de um adulto se tocando pelos dedos, numa referência ao afresco da Capela Sistina.  É um tinto delicado, 12º de álcool, perfumado, uma fruta vermelha silvestre, uma boa acidez, que se bebe com prazer e sem grandes pretensões. Um vinho de curtição e não de elucubração, que embalou a finalização este texto. Nada melhor para embalar um texto que o vinho sobre o tema, né não?

Lá vem o Pato..

selvagem

Enquanto passeávamos pelas estradas entre os vinhedos da propriedade, Maria João revelou, um pouco intimidada, que tem em barrica um primeiro vinho em gestação: por enquanto chamado de “Selvagem”, ainda uma experiência sem pretensões comerciais. Não está pronto, ainda está em processo de apuração. Mas já revela uma pegada mais natural, a formação de um estilo de vinho sem intervenções. A propósito, não é apenas o vinho que está em gestação. Maria João está grávida. Uma nova geração Pato vem aí, para ver o que que há neste mundo.

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segunda-feira, 30 de novembro de 2015 Degustação, Porto, Velho Mundo | 01:48

É um vinho português, com certeza!

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douro

Douro: não existe lugar nem vinho igual no mundo

Há uma assinatura que distingue o vinho português. Um traço que identifica a bebida. Fácil de perceber, mais difícil de explicar. Uma viagem percorrendo os vinhedos de Portugal, conversando com seus produtores e experimentando os seus  vinhos –  acompanhado da gastronomia local – deixa tudo mais claro: “É a diversidade, estúpido”. A diversidade está expressa nas mais de 250 castas nativas (algumas de nomes curiosos, que fazem a festa dos cronistas), nas 14 Indicações Geográficas e nas 28 DOCs (Denominação de Origem Controlada) que cobrem este país de apenas 92.090 quilômetros quadrados, menor que o estado de Santa Catarina, que tem 95.346.

Cerca de 8% do território é coberto por vinhedos em regiões como Lisboa, Alentejo, Bairrada, Dão, Vinho Verde, Porto e Douro e até as ilhas distantes de Açores e  Madeira, para ficar apenas naquelas mais conhecidas dos brasileiros. O vinho representa hoje para Portugal 1,5% do valor total de exportações do país. E o Brasil é um mercado importante – e tradicional – para escoar esta produção toda. No Brasil, Portugal participa de uma fatia consolidada deste bolo, revezando com a França o terceiro e quarto lugares no ranking dos países que mais exportam para cá.

 Amor-não-me-deixes ou Esgana Cão?

Portugal tem um patrimônio genético na variedade de castas (uvas) que não encontra paralelo em lugar algum do mundo – nem mesmo na Itália que também é pródiga de uvas nativas. São mais de 250 castas identificadas (algumas como pequenas variações, claro). Ao contrário da uvas francesas, e em certa medida as espanholas e italianas, as variedades portuguesas ficaram meio isoladas e não se espalharam pelos vinhedos do novo mundo na velocidade e protagonismo de uma cabernet sauvignon, merlot, syrah, chardonnay, sauvignon blanc, sangiovese ou tempranillo. Mas aquilo que beneficia, também dificulta. Não é fácil para um consumidor americano, por exemplo,  pronunciar nem mesmo as uvas mais conhecidas como Touriga Nacional, Castelão e Fernão Pires, imagina então nomes como Carrega Burros, Pé Comprido, Sousão, Amor-não-me-deixes ou Esgana Cão?

 As 10 mais

vinhas250 é um número enorme, a maioria das uvas é de produção tão reduzida que nem mesmo os maiores especialistas da terrinha as reconhecem. Conhecer as 10 mais importantes já permite um belo panorama desta diversidade. São elas que você irá encontrar com maior frequência descrita nos rótulos e contrarrótulos portugueses (a propósito, os descritivos dos contrarrótulos portugueses são em geral bastante detalhados nos descritivos do vinho, vale sempre uma passada de olhos)

  •  BRANCAS

Alvarinho – Apesar de não ser sinônimo de Vinho Verde, é  responsável pelos rótulos de mais alta qualidade desta região. São minerais, aromáticos (cítricos, como limão,  frutos tropicais) e com ótima acidez. Trata-se de uma uva branca com um bom potencial de envelhecimento, tem boa estrutura e maior persistência. Com mais tempo de garrafa ganha alguns aromas associados ao petróleo (parece esquisito mas não é), semelhantes à alemã riesling. Na vizinha Espanha é conhecida como Albarinho

Arinto (Padernã) – Não bastassem as tais mais de 250 castas, algumas delas ganham nomes diferentes em cada região. Espalhada por Portugal, a Arinto é conhecida como Pedernã na região dos Vinhos Verdes. Produz vinhos  com aromas de maçã e pera, quando novos. Tem boa acidez. Proporciona frescor quando misturada a outras uvas. E funciona bem para espumantes.

Encruzado – A casta produz brancos mais intensos e tem uma boa sinergia com o estágio em madeira, própria para caldos com mais corpo e estrutura, beneficiando-se com o tempo na garrafa. Cítrico e floral quando mais jovens, ficam mais cremosos com toques de baunilha quando fermentados em barricas de carvalho. É mais representativa na região do Dão.

Fernão Pires (Maria Gomes) – A Fernão Pires, uma das castas mais antigas de Portugal, tem uma pegada mais leve, frutada e bastante perfumada (se achar que está diante de um moscatel, a impressão é essa mesma). Também usado para espumantes. Encontrada em vinhos de Setúbal, Tejo, Lisboa e Bairrada.

TINTAS

Baga – A Baga tem uma maturação tardia e é difícil de domar. Legal, mas o que isso significa? Que os taninos podem chegar rasgando se não forem bem tratados. São caldos que se beneficiam, portanto, do envelhecimento e agradecem quando cuidadas por um enólogo competente.  Aromas de cereja, ameixa quando mais jovens e ervas e tabaco quando mais vetustos. Sua origem é a Bairrada (Leitão da Bairrada com um Baga é uma combinação clássica entre a culinária local e o vinho da terra), mas pode ser encontrado no Dão. Nas terras e mãos apropriadas podem produzir vinhos bastante complexos.

Castelão – É a uva mais cultivada de Portugal. Também é conhecida como Periquita, mas este nome está registrado pela casa José Maria da Fonseca, produtora do famosão Periquita. Produz tanto vinhos fáceis de beber como aqueles mais intensos e potentes, que se beneficiam do envelhecimento em barris de carvalho. Cultivada mais ao sul de Portugal, em especial  na região da Península de Setúbal.

Touriga Franca (Touriga Francesa) – Umas das cinco castas oficiais do vinho do Porto, muito comum nos cortes dos tintos do Douro, é a casta mais plantada na região. É uva corante, ou seja, dá muita cor ao vinho. Comparada à parceira Touriga Nacional (abaixo), é mais leve e  aromática. É uma casta que mostra mais ao que veio nos vinhos de corte e nos Portos Vintage. Apesar do título de francesa não tem qualquer origem relacionada à França.

Touriga Nacional – Hoje em dia é uma espécie de porta-bandeira da vinicultura portuguesa. Originária da região do Dão (onde proporciona caldos mais elegantes), é importantíssima para a elaboração do vinho do Porto e aqui no Brasil se notabilizou em conhecidos vinhos de mesa do Douro em carreira-solo ou mesclada. Apesar da fama, ocupa pouco espaço nos vinhedos do Douro. Aporta vinhos de muita cor, extração, aromas nítidos de violeta (às vezes exagerado), frutas negras e um baita potencial de envelhecimento. Apelando um pouco, pode-se dizer que a Touriga Nacional é o Cabernet Sauvignon de Portugal, pelo espaço ocupado, pela adaptação às várias regiões e pelo estilo dos vinhos mais encorpados e que ganham com o envelhecimento em carvalho.

Trincadeira (Tinta Amarela) – Conhecida na região do Douro como Tinta Amarela, a Trincadeira é importante nos cortes da região e é ótima parceira da Aragonez (no Alentejo) e da Touriga Nacional (no Douro).  Apresenta aromas de especiarias, ervas, alto teor alcoólico e boa acidez. No Alentejo a Trincadeira vem mostrando bons resultados em vinhos monovarietais (feitos de apenas uma uva).

Tinta Roriz (Aragonez) –  Já ouviu falar da Tempranillo da Espanha? Pois bem,  Tinta Roriz e Tempranillo tratam-se da mesma pessoa, com nomes regionalizados. A Tinta Roriz é importante casta para o vinho do Porto, para os vinhos do Douro (é a segunda uva mais plantada na região) e para os caldos do Dão. Delicado, elegante, frutos vermelhos, bons taninos e potencial de envelhecimento. Também é bem chegada numa madeira e se beneficia desta amizade. Mais comum em cortes. No Alentejo assume o nome de Aragonez e é boa parceira da uva acima, a Trincadeira.

Tudo junto e misturado

E se a variedade é uma benção que distingue os caldos portugueses do restante do mundo, a combinação destas diversas castas é uma marca registrada de uma boa parcela dos vinhos de boa cepa produzidos em Portugal. São inúmeros rótulos do Douro, do Dão e os Vinhos do Porto que são resultado da mistura destas uvas excepcionais e únicas. Eu diria que o DNA dos vinhos portugueses está na mescla das castas nativas. “Os cortes fazem vinhos muito bons”, diz o experiente Mario Neves, diretor comercial da Aliança – Vinhos de Portugal. Mas arrisco a dizer que o DNA de um vinho português se expressa – e aqui entra a influência do solo e do clima de cada região – mesmo nas garrafas elaboradas de uvas de castas internacionais, como por exemplo o suculento Syrah, do Alentejano Cortes de Cima, criação do enólogo dinamarquês Hans Kristian Jorgensen, ou o Quinta do Bacalhoa, um Cabernet Sauvignon da região de Setúbal, conhecido rótulo dos brasileiros. Acho que existe uma certa adaptação da uvas internacionais ao sotaque do solo português, só pode ser isso.

Navegar é preciso!

De carro é possível, no mesmo dia, almoçar com os delicados vinhos na região do Dão e jantar junto aos mais belos vinhedos do mundo, na  região do Douro. Ou então iniciar o dia com os refrescantes e leves vinhos verdes brancos e finalizar com o Porto provado no final da tarde às margens do Rio Douro, em uma das diversas casas tradicionais do ramo. As distâncias curtas às vezes são dificultadas por caminhos mais sinuosos, que por exemplo serpenteiam os terraços do Douro, patrimônio da humanidade. Não é uma estrada para amadores e não é incomum se perder, mas o cenário é tão esplendoroso que é um se perder para se achar. Afinal, como ensina um poeta da terra, Fernando Pessoa: “Se achar que precisa voltar, volte!/ Se perceber que precisa seguir, siga!/ Se estiver tudo errado, comece novamente! / Se estiver tudo certo, continue.”

lisboa

Degustar vinhos tendo Lisboa a seus pés. A vida tem seu momentos…

Mas a viagem por Portugal pode ser feita também de dentro de um restaurante, aí na sua cidade, ou mesmo num restaurante em Lisboa, às margens do Tejo ou próximo do tradicional e boêmio bairro do Chiado. A minha jornada começou assim, e em duas refeições, antes mesmo de sair em périplo pelos vinhedos, um panorama de Portugal já se descortinava. Alguns destaques:

  • Vinhos provados no Restaurante Vítor Claro – no Hotel Solar das Palmeiras

VINHO VERDE

Alvarinho- JRamos

João Portugal Ramos Alvarinho 2014

Uva: 100% Alvarinho

Um bom começo para conhecer o branco Alvarinho com 20% do mosto  fermentado em madeira, que dá mais intensidade. Ataque floral e cítrico. Acidez na medida certa.

 

DOURO

Duorum

Duorum Reserva Vinhas Velhas 2012

João Portugal Ramos

Uvas: Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Sousão

Um douro tinto por excelência, de solo de xistoso. Passa até 18 meses em barrica novas e antigas. Uma combinação das uvas Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Sousão, consegue equilibrar corpo com acidez e aporta uma fruta madura e suculenta. Como o nome indica, as uvas são proveniente de vinhas velhas, de mais de 100 anos, de uma parte mais quente do Douro. Em tempo, os primeiros exemplares do Duorum tinham uma carga mais potente e uma madeira um pouco excessiva que parece foi sendo equilibrada com o passar das safras.

ALENTEJO

Marques de Borba

Marques de Borba Reserva 2012

João Portugal Ramos

Uvas: Aragonez, Trincadeira, Cabernet Sauvignon, Alicante Bouschet

Um vinho que representa os tintos do Alentejo, mais potentes, mais quentes (alcoólicos), com muita concentração de fruta e aveludado na boca.  Um chocolate  aparece no final da taça. Vinho mais masculino, se é que existe isso, deve ganhar mais complexidade com o tempo. 14,5% de álcool! Como eu escrevi é Alentejo na veia!

  • Vinhos provados na feira Encontro de Vinhos, em Lisboa

ALENTEJO

Verdelho

Paulo Laureano Genus Generationes Maria Teresa Laureano Verdelho 2014

Uva: 100% Verdelho

Paulo Laureano

Os tintos e brancos de Paulo Laureano são conhecidos por aqui. São quase um sinônimo de vinho alentejano no Brasil. Esta leitura da uva branca verdelho para o solo do Alentejo resulta num vinho afiado, uma acidez marcante,  no fio da navalha, mineral, refrescante, diferente. Um vinho para quem aprecia riscos.

LISBOA -BUCELAS

Moragdo

Morgado de Santa Catherina – reserva 2013

Uva: 100% Arinto

Aqui a casta branca Arinto mostra seu valor quando fermentado em barricas de carvalho. De cor dourada, longo, uma fruta mais doce e madura, muito intenso e volumoso e uma acidez que equilibra o jogo.

AÇORES

frei

Frei Gigante – Garrafeira 2011

Denominação de Origem Pico

Uvas: Arinto dos Açores, Verdelho e Terrantez do Pico

Já bebeu um vinho da pequena região de Açores? Eu nunca tinha provado. Deste rótulo aqui provavelmente não provarei mais. Foram produzidas apenas 600 garrafas deste topo de linha, chamado de Garrafeira, que trago aqui mais como exemplo de diversidade em solo português. Também não sabia que seus vinhedos são declarados Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco. Vivendo, provando e aprendendo. Este belo vinho branco é longo, volumoso, bastante aromático e tem um toque salgado (é, existem vinhos com este finalzinho salgado). Uma surpresa de solo vulcânico que passa um pouco da  natureza para o copo

DÃO

kemper

Curiosity 2012

Julia Kemper Wines

Uvas: Alfrocheiro e Touriga Nacional

Os vinhos orgânicos de Julia Kemper são bem-feitos e têm aquele traço terroso comum desta turma “odara”. Tem um perfil franco, de fruta expressiva e gostosa e algo floral nos aromas. A combinação Alfrocheiro e Touriga Nacional pode mudar de acordo com a safra. O detalhe curioso é o marciano que dá um alô no rótulo, explicando o nome Curiosity, do robô que explorou marte no ano de lançamento deste rótulo.

  • Vinhos provados no restaurante Tágide, em Lisboa

BAIRRADA

abibes

Quinta dos Abibes 2012 – Sublime

Uva: Arinto

As 2050 garrafas deste elegante branco foram vinificadas em barricas de carvalho francês e marcam bastante o vinho. Um bom exemplar para quem aprecia brancos de um Arinto influenciados por madeira. Vai bem com um peixe mais gorduroso.

DÃO

uinta do Lemos

Quinta de Lemos – Touriga Nacional 2009

Uva: Touriga Nacional

O Dão foi uma região que conquistou com a qualidade dos vinhos, o que será relatado em próximos posts desta viagem. Aqui a Touriga Nacional em carreira solo proporciona um tinto de boa textura, intensos frutos negros, sedoso na boca. Tem um toque terroso também que agrada.

PORTO

IMG_0366Barros Porto Colheita 1980

Barros, Almeida & Cª – vinhos, S.A.

Uma das mais antigas marcas do Porto, fundada em 1913. Um Porto pode iniciar ou terminar uma refeição. Neste caso ele fechou com chave de ouro. Não é comum em viagem enológicas as garrafas serem esvaziadas.  Há exceções. A excelência deste Porto Colheita (isto é, de uma única safra, no caso 1980, 25 anos passados), com um cor aloirada semelhante aos tawnys de mais idade e aromas de frutas secas, caramelo, creme brûllée, profundidade e elegância em boca nos obrigou esticar a noite e pedir uma tábua de queijos para continuar saboreando este néctar sob uma Lisboa que dormia a nossos pés.

Nota: a viagem a Portugal foi patrocinada pela ViniPortugal, organização que representa o setor vitivinícola português e promove os vinhos de Portugal.

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sábado, 21 de novembro de 2015 Livros | 02:38

Livro: tudo o que você queria saber sobre queijos

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Foto_livro_Amarante

Para quem tem fome de saber e de queijo: um livro-referência

Você curte um “concentrado proteico-gorduroso, resultante da coagulação do leite?” Lendo assim parece pouco atraente, né? Mas trata-se apenas da definição do queijo.  A descrição consta do início de um livro essencial para o amantes e simpatizantes do “caseus” (queijo em latim), lançado recentemente: “Queijos do Brasil e do Mundo – Para Iniciantes e Apreciadores”,  de José Osvaldo Albano do Amarante, ou simplesmente Amarante, como chamam os amigos de taça e de garfo. Para Amarante, comida e bebida são, claro, fonte de muito prazer, mas também assunto sério, muito sério. Em especial o vinho e o queijo, onde dedicação, estudo e organização harmonizam com serviço e muita informação de qualidade. Além deste manual do queijo, Amarante, que entre tantas qualidades mantém uma das mais longevas confrarias de vinho do Brasil,  também é autor de outra obra de referência que frequenta minha biblioteca há anos: “Os Segredos do Vinho”. (Vale um disclaimer aqui: eu participo desta – onde sou aprendiz – e de outra confraria com o Amarante, leia aqui)

O livro, fruto das experiências e da vivência do autor no mundo dos queijos que começa na década de 1970, é uma obra de referência que pode ser lida em ordem cronológica. Mas passados os capítulos iniciais, mais enciclopédicos, talvez o leitor seja atraído para aqueles de maior interesse particular, como por exemplo, os dos queijos brasileiros. Além de dados estatísticos – você sabia que em 2013 foram produzidas 1.075 toneladas de queijo no Brasil (os fiscalizados) e que a muçarela é a campeã com 26,7% do total seguida do requeijão culinário 19,5%? –, o livro é recheado de informações curiosas, didáticas e até legais (de leis mesmo). Todo queijo nacional  – de leite, cabra, ovelha e búfala – tem sua descrição quanto a  características, processo, conservação e consumo.

Prato ou Fynbo?

O queijo prato, por exemplo, aquele que vai muito bem no misto quente, surgiu em 1920 e foi desenvolvido por imigrantes dinamarqueses e é baseado no queijo Fynbo (dinamarquês) que por sua vez é espelhado no Gouda holandês e tinha o formato cilíndrico. Seu nome de guerra foi atribuído por um fiscal do Ministério da Agricultura que o descreveu como um queijo em formato de “prato” para contornar a dificuldade do nome original dinamarquês. Sua versão mais consumida, o Prato Langhe, surgiu nos anos 1960, e é fabricado em formato de pão de forma (não por acaso), mas o nome “prato” ficou. O queijo prato é classificado como um queijo semiduro de massa prensada semicozida, casca natural e maturado.

O atual momento do queijo tupiniquim, com uma grande variedade de queijos de alta qualidade, foi um dos motivos que levaram Amarante a concluir e publicar seu livro iniciado em 2007. Não é à toa que das 330 páginas do livro 100 são dedicadas aos queijos nacionais. Há muitas histórias e informações dos queijos de todas as regiões do Brasil. Amarante dá seu toque pessoal sempre listando os seus favoritos.

16 países, o mundo dos queijos

Outra forma deliciosa e didática de percorrer o livro é procurar entre os 16 países listados, os queijos mais representativos e importantes. Além dos óbvios França, Itália e Portugal, há curiosidades como Bélgica, Grécia e Noruega. Este blogueiro, que tem um conhecimento bastante raso de queijos, mas nem por isso deixa de apreciar os bons e raros, correu para a página 200 onde é descrito o queijo do Azeitão, uma maravilha de leite de ovelha que tive o prazer de experimentar em recente viagem a Portugal. O bicho, um DOP (Denominação de Origem Protegida, tem disso também nos queijos), chega à mesa envolto em papel vegetal, apresenta “uma massa semimole, amanteigada, untuosa e tem sabor muito delicado”, segundo palavras do Amarante, que assino embaixo. Se o queijo do Azeitão lembrou um Serra Estrela, acertou. Mas na minha laica opinião é melhor (e mais caro).

O panorama mundial mostra que há queijo em todo o mundo. Os Estados Unidos, sempre eles, são o maior produtor do planeta com quase 5 mil toneladas por ano, seguido de Alemanha e França. No consumo per capita, no entanto, quem faz a fama deita na cama e a França constava em 2012 como a número 1, com um consumo per capita de 26,2 quilos por habitante, seguida de perto pela improvável Islândia, com 25,2 quilos por habitante. O Brasil do queijo de minas, do queijo prato, do requeijão e da muçarela fica na rabeira com 3,6 quilos por habitante

Amarante: o mestre dos vinhos se revela um baita conhecedor de queijos

Amarante: o mestre dos vinhos se revela um baita conhecedor de queijos

Queijo & Vinho

E se esta obra sobre queijos invade este espaço dedicado ao vinho é por que a combinação das duas fermentações (da uva e do leite) é clássica e saborosa. Aliás, há um tópico “Harmonização com vinhos” no capítulo de “Serviço e Consumo” para você não errar mais na sinergia do vinho com o queijo. Afinal, atire o primeiro parmesão quem nunca organizou uma reunião de queijo e vinho com os amigos! E provavelmente desarrolhou um tinto bem pesadão – acompanhado de uma tábua de queijos comprada no supermercado ou na padoca mais próxima. Com o livro do Amarante você poderá selecionar com mais propriedade os queijos para sua tábua com as sugestões da página 285 (“Tábua de queijos”). Quanto ao vinho: #FicaaDica! Ao contrário do que se pensa – e se pratica – os vinhos brancos combinam melhor com os queijos do que os tintos, já que “acidez do vinho branco associa-se perfeitamente com a  do queijo”.

A leitura Queijos do Brasil e do Mundo mostra que a pergunta que importa não é “Quem comeu o meu queijo?”, mas “Qual tipo de queijo”. O livro tem aquela pegada que responde todas as suas dúvidas sobre sobre queijos e serve tanto como um manual na hora de decidir uma compra como uma bússola para navegar pelo universo dos queijos de todo o mundo: dá norte e segurança na viagem. Tá na dúvida na escolha do próximo queijo? Seus problemas se acabaram-se!

 Ficha:
Queijos do Brasil e do Mundo – Para Iniciantes e Apreciadores
José Osvaldo Albano do Amarante
Mescla Editorial
R$ 115,00
340 páginas

 

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domingo, 1 de novembro de 2015 Degustação, Velho Mundo | 07:04

50 grandes vinhos de Portugal e algumas escolhas pessoais

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Douro: além de produzir vinhos fantásticos, é lindo de doer

No segundo semestre de 2013, a Vinhos de Portugal – associação que cuida da imagem do vinho português – promoveu no Brasil a segunda versão do evento “50 Grandes Vinhos de Portugal”.  Para esta tarefa convocou o único master of wines do Brasil, Dirceu Vianna Júnior, que mora e trabalha em Londres. Dirceu teve a árdua missão de selecionar entre 500 rótulos portugueses os 50 mais representativos do país. Não é fácil, mas ele traçou um critério que estabeleceu uma linha de corte. “Eu fiz a seleção baseada no gosto do brasileiro e pensando no consumidor”, explica Dirceu. “Mas o ponto principal foi a abrangência e diversidade – há vinhos para todos os bolsos e todos os gostos”. De fato, entre 50 vinhos selecionados há desde rótulos de 26 reais, Aliança Bairrada Reserva, 2001, até um Porto Colheita Burmester, 1963, por 919 reais. “Escolher só vinhos caros seria fácil, mas eu não acho que é preciso pagar uma fortuna sempre que se quer provar um bom vinho”, defende Dirceu.

Você pode achar que é uma jogada de marketing. E é. O objetivo final sempre é vender mais vinho, aumentar o tamanho do mercado. A Vinhos de Portugal  afinal promove os vinhos, ó pá! Mas uma lista destas, preparada com profissionalismo e lisura por um especialista da envergadura de Dirceu Vianna, é no mínimo um bom começo para enfrentar a variedade de rótulos à disposição. Para os conhecedores trata-se de um bom comparativo com suas preferências pessoais, para os iniciantes é uma oportunidade de orientação para aquele momento em que você se vê diante da prateleira real ou virtual de rótulos e precisa escolher uma garrafa para chamar de sua. Talvez falte o vinho do seu coração, aquele do dia-a-dia, mas uma lista deste tipo nunca é uma seleção definitiva.

Na seleção predominam os vinhos do Douro (19 amostras), seguidos dos brancos da região de Vinho Verde (10 rótulos), Alentejo (9 amostras) e Dão (5 garrafas). As demais regiões são representadas com 1 vinho do Dão, 1 de Lisboa, 1 Tejo, 1 Madeira e 2 da Bairrada. Atenção: a ordem numérica é  apenas uma sequência que inicia nos brancos, passa pelos tintos e finaliza com os fortificados. Este colunista não teve nem o tempo nem tem a mesma capacidade do Dirceu Vianna, mas dos vinhos provados resolvi selecionar os meus prediletos (17), que levam o selo  ViG (Vinho Indicado pelo Gerosa). O que não diminui a qualidade de todos os demais, é claro. Como esta semana (novembro de 2015) recebi um convite da ViniPortugal para conhecer de perto a casa desses vinhos, resolvi repassar os olhos nesta lista.

Importante: os preços são de 2013. Em novembro de 2015 as garrafas estão alguns “Dilmas” mais caros.

BRANCOS

1. Covela Escolha Branco, 2012

Produtor: Lima Smith

Região: Vinho Verde

Uvas: avesso e chardonnay

Importador: Magnum Importadora

R$ 145,00

2. Quinta da Levada, 2012

Produtor: Quinta da Levada Sociedade Agrícola

Região: Vinho Verde

Uva: azal

Sem importador

3. Soalheiro, 2012

Produtor: Quinta do Soalheiro

Região: Vinho Verde

Uva: alvarinho

Importador: Mistral

R$ 95,00

4. Quinta de Gomariz Grande Escolha, 2012

Produtor: Quinta de Gomariz

Região: Vinho Verde

Uva: alvarinho, loureiro e trajadura

Importador: Decanter

R$ 80,00

5. Casa da Senra, 2012

Produtor: Abrigueiros – Produções Agrícolas e Turismo

Região: Vinho Verde

Uva: loureiro

Sem importador

6. Tapada dos Monges, 2012

Produtor: Manoel da Costa Carvalho Lima & Filhos

Região: Vinho Verde

Uvas: loureiro, arinto e trajadura

Importadores: Garrafeira Real e Fadaleal Supermercados

7. Muros Antigos, 2012

Produtor: Alselmo Mendes Vinhos

Região: Vinho Verde

Uva: loureiro

Importador: Decanter

R$ 50,00

8. Portal do Fidalgo, 2011

Produtor: Provam

Região: Vinho Verde

Uva: alvarinho

Importador: Casa Flora Ltda

R$ 54,00

9. Muros de Melgaço, 2011

Produtor: Anselmo Mendes Vinhos

Região: Vinho Verde

Uva: alvarinho

Importador: Decanter

R$ 140,00

10. Royal Palmeira, 2009

Produtor: Ideal Drinks

Região: Vinho Verde

Uva: loureiro

Importador: Idealdrinks & Gourmet

R$ 140,00

11. Quinta da Fonte do Ouro Encruzado, 2011

Produtor: Sociedade Agrícola Boas Quintas

Região: Dão

Uva: encruzado

Importador: Adega dos 3

R$ 80,00

12. Morgado de Santa Catherina, 2010

Produtor: Companhia das Quintas Vinhos

Região: Lisboa

Uva: arinto

Importador: Wine .com

R$ 90,00

13. Redoma Reserva, 2011

Produtor: Niepoort (vinhos)

Região: Douro

Uva: rabigatto, codega, donzelinho e arinto

Importador: Mistral

R$ 218,00

14. Conceito Branco, 2010

Produtor: Conceito Vinhos

Região: Douro

Uva: (mistura de vinhas velhas)

Importador: Épice

R$ 180,00

TINTOS

15. Cortes de Cima Trincadeira, 2011

Produtor: Cortes de Cima

Região: Alentejo

Uva: trincadeira

Importador: Adega Alentejana

R$ 152,00

16. Terra D’Alter Touriga Nacional, 2010

Produtor: Terra D’Alter Companhia de Vinhos

Região: Alentejo

Uva: touriga nacional

Importador: Obra Prima Importadora

R$ 50,00

17. Herdade da Pimenta Grande Escolha, 2010

Produtor: Logowines

Região: Alentejo

Uvas: syrah, touriga nacional e touriga franca

Importador: RJU Comércio e Beneficiamento de Frutas e Verduras

R$ 180,00

18. Tinto da Talha Grande Escolha, 2009

Produtor: Roquevale

Região: Alentejo

Uva: syrah, alicante bouschet e touriga nacional

Importador: Adega Alentejana

R$ 56,00

19. Canto X, 2009

Produtor: Herdade da Madeira Velha

Região: Alentejo

Uvas: alicante bouschet e touriga nacional

Sem importador

20. Cartuxa, 2009

Produtor: Cartuxa – Fundacão Eugénio de Almeida

Região: Alentejo

Uvas: aragonez, trincadeira e alicante bouschet

Importador: Adega Alentejana

R$ 135,00

21. Cortes de Cima Reserva, 2009

Produtor: Cortes de Cima

Região: Alentejo

Uvas: aragonez, syrah, petit verdot e touriga nacional

Importador: Adega Alentejana

R$ 477,00

22. Dona Maria Reserva, 2008

Produtor: Julio Bastos – Dona Maria

Região: Alentejo

Uvas:, alicante bouschet, petit verdot e syrah

Importador: Decanter Vinhos

R$ 179,00

23. Conde D’Ervideira Private Selection Tinto, 2008

Produtor: Ervideira, Sociedade Agrícola

Região: Alentejo

Uvas: aragonez, trincadeira e Alicante bouschet

Importador: Intercom Comércio Internacional

R$ 150,00

24. Aliança Bairrada Reserva, 2011

Produtor: Aliança Vinhos de Portugal

Região: Bairrada

Uvas: touriga nacional, baga e tinta roriz

Sem importador

R$ 26,00

25. Vinha Pan, 2009

Produtor: Luís Pato

Região: Bairrada

Uva: baga

Importador: Mistral

R$ 218,00

26. Marquesa de Alorna Reserva, 2009

Produtor: Quinta da Alorna Vinhos

Região: Tejo

Uvas (não divulgado)

Importador: Adega Alentejana

R$ 165,00

27. Julia Kemper, 2009

Produtor: Cesce Agrícola

Região: Dão

Uvas: touriga nacional, tinta roriz, alfrocheiro e jaen

Importador: Gracciano Com. Imp. Exp. Bebidas

R$ 85,00

28. Quinta Fonte do Ouro Touriga Nacional, 2009

Produtor: Sociedade Agrícola Boas Quintas

Região: Dão

Uva: toruiga nacional

Importador: Adega dos 3

R$ 160,00

29. Casa da Passarela Vinhas Velhas, 2009

Produtor: O Abrigo da Passarela

Região: Dão

Uvas: castas autóctones

Importador: Vinica

R$ 139,00

30. Quinta do Serrado Reserva, 2009

Produtor: Sociedade Agrícola Castro Pena Alba – FTP Vinhos

Região: Dão

Uvas: touriga nacional, alfrocheiro e jaen

Sem importador

31. Quinta do Perdigão Touriga-Nacional, 2008

Produtor: Quinta do Perdigão

Região: Dão

Uva: touriga nacional

Importador: Mistral

R$ 229,00

32. Quinta da Bica Reserva, 2005

Produtor: Quinta da Bica Sociedade Agrícola

Região: Dão

Uvas: touriga nacional, alfrocheiro, tinta roriz e jaen

Importador: Gianno Import

R$ 87,00

33. Quinta do Vallado Reserva Field Blend Douro Tinto, 2011

Produtor; Quinta do Vallado Sociedade Agrícola

Região: Douro

Uvas: vinhas velhas de 100 anos e touriga nacional

Importador: Cantu

R$ 185,00

34. Quinta da Casa Amarela Grande Reserva, 2011

Produtor: Laura Valente Regueiro

Região: Douro

Uvas: touriga franca, tinta roriz e touriga nacional

Importador: Winemundi

R$ 440,00

35. Casa Ferreirinha Callabriga, 2010

Produtor: Sogrape Vinhos

Região: Douro

Uvas: toruiga franca, touriga nacional e tinta roriz

Importador: Zahil

36. Quinta do Crasto Reserva Vinhas Velhas, 2010

Produtor: Quinta do Crasto

Região: Douro

Uvas: 25 a 30 uvas diferentes de vinhas velhas

Importador: Qualimpor

R$ 160,00

37. Pintas, 2010

Produtor: Wine & Soul

Região: Douro

Uvas: vinhas velhas

Importador: Adega Alentejana

R$ 439,00

38. Poeira, 2010

Produtor: Jorge Moreira Produção e Comercialização de Vinhos

Região: Douro

Uvas: vinhas velhas

Importador: Mistral

R$ 258,00

39. Batuta, 2010

Produtor: Nieepoort (Vinhos)

Região: Douro

Uvas: touriga franca, tinta roriz, rufete, malvazia entre outras

Importador: Mistral

R$ 428,00

40. Passadouro Touriga Nacional, 2010

Produtor: Quinta do Passadouro Sociedade Agrícola

Região: Douro

Uva: touriga nacional

Importador: Adega Alentejana

R$ 214,00

41. Quinta do Pessegueiro, 2010

Produtor: Quinta do Pessegueiro Sociedade Agrícola

Região: Douro

Uvas: touriga nacional, touriga franca, vinhas velhas e roriz

Importador: World Wine

R$ 155,00

42. CV-Curriculum Vitae, 2010

Produtor: Lemos & Van Zeller

Região: Douro

Uvas: variadas

Importador: World Wine

R$ 282,00

43. Quinta de la Rosa Reserva, 2009

Produtor: Quinta da Rosa Vinhos

Região: Douro

Uvas: touriga nacional, touriga franca e tinta roriz

Importador: Ravin

R$ 288,00

44. Chryseia, 2009

Produtor: Symington Family Estates Vinhos

Região: Douro

Uvas: touriga nacional e touriga franca

Importador: Mistral

R$ 412,00

45. Quinta do Noval Touriga Nacional, 2009

Produtor: Quinta do Noval

Região: Douro

Uvas: touriga nacional

Importador: Adega Alentejana

R$ 367,00

46. Quinta do Portal Auru, 2009

Produtor: Quinta do Portal

Região: Douro

Uvas: touriga nacional, touriga franca e tinta roriz

Importador: Wine & Roses / Chaves & Oliveira

R$ 649,00

FORTIFICADOS

47. Bacalhôa Moscatel Roxo, 2001

Produtor: Bacalhôa Vinhos de Portugal

Região: Península de Setúbal

Uva: muscatel roxo

Importador: Portus Cale Exp. Imp.

R$ 173,00

48. Justino’s Madeira Colheita, 1995

Produtor: Justino’s Madeira Wines

Região: Madeira

Uva: tinta negra

Importador: Porto a Porto / Casa Flora

R$ 170,00

49. Graham’s Tawny 30 anos

Produtor: Symigton Family Estates

Região: Douro

Uvas: touriga nacional, touriga franca, tinta barroca, tinta roriz e tinta cão

Importador: Mistral

R$ 639,00

50. Burmester Porto Colheita, 1963

Produtor: Sogevinus Fine Wines

Região: Douro

Uvas: tradicionais do Douro

Importador: Adega Alentejana

R$ 919,00

O vinho português em dois parágrafos

Portugal tem uma área de 92.090 quilômetros quadrados, menor que o estado de Santa Catarina, que tem 95 346. Neste pequeno pedaço de terra do outro lado do Atlântico há vinhedos em praticamente todas as regiões: são 14 indicações geográficos e 29 DOCs (denominação de origem controlada). Para completar a bênção divina o país exibe 250 castas autóctones, ou seja, uvas nativas de Portugal, o que faz toda a diferança no estilo e sabor único de seus vinhos. As mais representativas, para não cansar muito, são: alvarinho, encruzado, arinto, fernão pires (no time das brancas); baga, castelão, touriga franca, touriga nacional, tinta roriz e trincadeira (no grupo dos tintos).

Resumindo: Portugal é um imenso vinhedo: algo como 8% do território é coberto por vinhedos em regiões como Lisboa, Bairrada, Dão, Vinho Verde, Porto e Douro, Alentejo e Madeira, para ficar naquelas mais próximas aos ouvidos e paladares dos consumidores brasileiros. Estima-se que serão produzidos cerca de 6,7 milhões de hectolitros de vinho em Portugal em 2013. E o Brasil é um mercado importante para escoar esta produção toda. Na lista dos maiores exportadores para o Brasil, Portugal só fica atrás dos onipresentes Chile e Argentina, com 13,21% em valor e de 12,56% em volume. Num país menor que a maioria dos estados brasileiros o vinho é superlativo.

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segunda-feira, 19 de outubro de 2015 Brancos, Novo Mundo, Tintos | 23:13

Viña Carmen, uma vinícola chilena “especialista em carmenère”

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Sebatian Sabbe e a linha Premiere e Gran Resevra: de roupa nova

O enólogo Sebastian Labbe e a linha Premier e Gran Reserva: de roupa nova

A uva carmenère é responsável por um vinho assim meio Paulo Coelho. Os consumidores adoram, incluindo os brasileiros, e os especialistas torcem o nariz. É justo. E é injusto – com a carmenère, não com o Paulo Coelho. E esta implicância tem lá sua razão de ser. “Redescoberta” em 1994 no Chile (era confundida com a merlot), precisou passar por um aprendizado para encontrar seu lugar no mundo do vinho. Os primeiros exemplares – e curiosamente os que fizeram seu sucesso e marketing – tinham um sabor exageradamente vegetal, verde, pois ainda não se conhecia o tempo correto de maturação, mas já tinha como característica um toque mais macio que o da cabernet sauvignon. Mesmo assim ganhou o carimbo de uva porta-estandarte do Chile. Com o tempo, foi encontrando o solo mais adequado, tempo correto de colheita e um perfil mais refinado – além de ser usada com sucesso para cortes (misturas com outras uvas).

A Viña Carmen é parte importante desta historia. Foi em suas terras que se deu o reconhecimento da varietal carmenère em 1994 após a desconfiança do ampelógrafo francês Jean-Michel Boursiquot de que algumas uvas consideradas como merlot não maturavam no tempo correto. Comprovada sua teste em exames laboratoriais, a certidão de “renascimento” da carmenère foi lavrada e a notícia ganhou o mundo. Originária da França, da região de Bordeaux, como a maioria das uvas blockbusters internacionais, é raridade em sua terra natal. Esta história, repetida “ad nauseam” por todo produtor e enólogo chileno que vem ao Brasil, confere uma certa paternidade da carmenère à Viña Carmen. “Como fomos os pioneiros, temos a obrigação de ser especialistas em carmenère”, diz o enólogo-chefe da Carmen, Sebastian Labbe, que começou na empresa em 2005 limpando cubas.

De cara nova

A Viña Carmen não é uma novidade nas taças dos brasileiros, um volume razoável é consumido por aqui, o bastante para colocar o Brasil como o terceiro mercado mais importante para a vinícola, atrás da Irlanda e do Canadá, A Viña Carmen, tão pouco, é uma estreante no ramo. Terceiro maior grupo vinícola do Chile, também ostenta o título de a mais antiga vinícola do país  ainda em atuação (foi fundada em 1850), além de ser a primeira considerada orgânica.

Estes eram os rótulos que você encontrava nas prateleiiras das lojas e na importadora

Estes eram os rótulos que você encontrava nas prateleiras das lojas

Atenta ao tamanho que as vendas no Brasil representam em seu balanço financeiro, a empresa trouxe em primeira mão o novo figurino de suas garrafas. Os rótulos de fundo branco, “meio apagados e sem destaque nas prateleiras de lojas e supermercados”, segundo o diretor de exportações Luis Carlos Andrade, ganharam texturas mais escuras (azul escuro, vinho) e molduras que transmitem mais nobreza e os distinguem entre outros rótulos. A repaginada também reclassificou o antigo Reserva que agora atende pelo nome de  Premier.

É assim que você vai encontrá-los nas lojas agora

É assim que você vai encontrá-los agora nas lojas


Carmenère

Mas e aquela desconfiança dos especialistas com a carmenère? Preciso confessar que estou naquele time que se tiver de escolher um rótulo chileno não será da uva carmenère. Mas é preciso dar a mão à palmatória: os vinhos vêm evoluindo e, às vezes, surpreendendo. Como ensina Sebastian Labbe, houve um aprendizado. O tipo do solo, por exemplo, é importante. “Pedra não é bom para carmenère”, ensina. “Regra número 1: solo bom para cabernet sauvignon não é bom para carmenère.” E por aí vai.

Um bom exemplar desta prova nos noves é o Carmen Gran Reserva Carmenère 2012 (R$ 128,00), com uvas da região de Apalta, no Vale de Colchagua. Em uma frase: é um caramenère com acidez, frescor e boa fruta madura no nariz e no final da boca. Totalmente varietal? Quase, uma pitada de 5% de carignan na receita “dá uma levantada no final de boca evidenciando o frescor”, revela Sebastian Labbe, que costuma decidir o ponto ideal da colheita das frutas pela velha e boa prova da boca (prática que o enólogo Felipe Toso,  da linha Grey da Ventisquero, também adota. (Leia em Felipe Toso, o “cozinheiro” dos vinhos chilenos Grey, comemora dez safras, explora novos terrenos e lança rótulos).

Um ou dois degraus abaixo o Carmen Premier Carmenère 2014 (R$ 90,00), também de Colchagua, suaviza o vegetal da carmenère mas mantém seus traços um pouco mais exibidos. A nova linha Premier inova no rótulo, mas não abandonou o estilo típico do carmenère que atendia  pelo nome de Reserva  e que você provou por aí. Corpo médio, é correto, mas não empolga. Os 40 reais que os separam fazem diferença.

Cabernet Sauvignon e Chardonnay

Mas nem só de carmenère vive a Viña Carmen. Seu Cabernet Sauvignon Gold Reserve 2009 já ganhou destaque no Guia Descorchados – a referencia dos vinhos chilenos e argentinos – e a chardonnay levou 90 pontos do Robert Parker (que na realidade não quer dizer nada, mas também quer dizer alguma coisa, depende da sua visão do mundo do vinho).

Carmen Gran Reserva Cabernet Sauvignon 2012 (R$ 128,00). Com uvas de vinhedos próprios da região do Alto Maipo, berço nobre da cabernet sauvignon no Chile, este tinto tem um perfil de boa tipicidade da varietal, carnudo e uma acidez que é resultado da diferença da temperatura entre o dia e a noite. “Nem sempre uma grande amplitude térmica é algo bom. Como à noite a temperatura baixa muito, a cabernet sauvignon precisa ter um maior teor alcóolico”, observa Labbe, que acredita que “a cabernet sauvignon precisa se reposicionar no Chile”. Aqui a concentração e a estrutura dão as mãos para acidez e resultam num caldo que aponta um direcionamento  mais marcado para a expressão da fruta

Pra finalizar um vinho que costuma iniciar os trabalhos, um branco. O Carmen Gran Reserva Chardonnay 2013 (R$128,00), da região certa para as uvas brancas, Casablanca, vem de vinhedos de mais de 22 anos. Passa por uma fermentação em barricas francesas de 25% do seu caldo e 9 meses em contato com as leveduras. Resultado: notas amanteigadas e tostadas na medida (tem que não goste, me agrada na medida certa), toques frutados de pêssegos maduros e fechando o conjunto uma acidez equilibrada.

Os vinhos da Viña Carmen são importados pela Mistral.

 

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