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sexta-feira, 4 de agosto de 2017 Brancos, Novo Mundo, Tintos | 02:44

Os vinhos da Nova Zelândia: Sauvignon Blanc, Pinot Noir, Syrah, Merlot…

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Mar, céu e terra: vinhedos de Hawsk's Bay. Efeito uau para os olhos e nos vinhos!

Mar, céu e terra: vinhedos de Hawke’s Bay. Efeito uau!  (Foto: Hawkes Bay Mission State Winery)

Há dois produtos da Nova Zelândia que são emblemáticos. O kiwi e o vinho. Sem desprezar o kiwi, eu prefiro o vinho. É sobre ele o tema desta coluna. A Nova Zelândia fica um bocado longe. É um país sem fronteiras, duas ilhas cercadas pelas águas do Oceano Pacífico. São 16 horas de avião para percorrer 12.221 quilômetros. Muito provavelmente não é sua primeira opção de férias – a não ser que seja apaixonado por esportes radicais (ou kiwi…). Mas os vinhos da Nova Zelândia percorrem todo este trajeto até você. Apesar da tímida presença nas prateleiras brasileiras – o volume de importação no Brasil é pequeno –, não são tão difíceis de encontrar. O barato do vinho, um chavão sempre pertinente, é esta diversidade: o legal é experimentar vinhos de diferentes países. 

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País do kiwi e dos vinhos. Eu prefiro os vinhos, e você?

O que que é que a Nova Zelândia tem

Se você nunca provou um rótulo da Nova Zelândia, está perdendo a oportunidade de conhecer brancos e tintos comprometidos com a qualidade e o frescor. Se já bebeu um rótulo neozelandês, provavelmente foi um Sauvignon Blanc, a clássica uva branca de Bordeaux que encontrou na Nova Zelândia um solo para chamar de seu. Não é à toa que tenha topado com uma taça de Sauvignon Blanc: 86,4% das garrafas exportadas pelo país são desta variedade de caráter fresco e acidez competente.

Sem preconceitos, tá? Se você é daquele tipo  que torce um pouco o nariz para a Sauvignon Blanc, está aqui a oportunidade de mudar esta visão.  Tem gente que acha que Sauvignon Blanc é sinônimo de um vinho meio aguado. De fato, alguns rótulos pecam pela timidez olfativa ou pela baixa intensidade em boca e criam esta aversão. O inverso é verdadeiro, o excesso de exuberância dos maracujás e cítricos forçam a barra e cansam as narinas.

Mas aqui o bicho é outro. A uva criou um estilo próprio no país dos kiwis, virou referência. E são muito bons. Desde os rótulos de base até aqueles que levam parte substancial do seu salário. A Sauvignon Blanc da Nova Zelândia tem um perfil no geral identificável: aromas de frutas tropicais, cítricos, pimentão, toque herbáceo, verde (até aí tudo bem), melão, abacaxi (não muito comum) e trazem um conjunto harmônico de boa acidez, boca limpa e final fresco e intenso. Resultado do clima e do lugar. A Nova Zelândia tem um clima influenciado pelo oceano, com brisas marítimas e noites frescas, repleto de planícies próximas do Pacífico e cercadas de cadeias de montanhas. E daí? Daí que este padrão de clima mais fresco e influência do oceano permite um longo processo de amadurecimento das uvas gerando acidez alta e boa fruta. O solo em geral é de areia, pedregulhos e sedimentos. Estes detalhes fazem a diferença. A foto que abre este blog é o padrão dos vinhedos de lá… Já começou a repensar a possibilidade de umas férias na Nova Zelândia? Vamos em frente!

Duas ilhas e regiões

O país é constituído de duas ilhas: do Norte e do Sul. É emoldurado por paisagens lindas, natureza exuberante (filmaram Senhor dos Anéis ali), renda per capita alta, população contida (4,7 milhões de habitantes espalhado em todo território), cidades organizadas, economia arrumada. E, naquilo que nos interessa, bons vinhos. As exportações crescem nos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Holanda e China. Os vinhedos ocupam 10 regiões, compostas de 2040 vinícolas. Nenhuma delas muito extensa. Para completar o cenário, 98% dos vinhedos têm certificado de produção sustentável. Dá até raiva, né não? Vai ser correto assim lá… na Oceania!

A maior e mais famosa região vinícola é de Marlborough, que tem apenas 24.356 hectares e representa mais de 70% da área plantada com vinhedos – para efeito de comparação: só em Mendoza, na Argentina, são 160.000 hectares de vinhedos. Fica a dica. Se tiver de memorizar uma região da Nova Zelândia, é a de Marlborough. Como o Blog do Vinho não tem vocação para Wikipédia, não vale a pena listar todas. As mais representativas, aquelas que você vai achar uma garrafa para comprar ou provar, são: a já comentada Marlborough, Central Otago, Nelson (Ilha Sul), Wairarapa/Martinborough; Hawke’s Bay (Ilha Norte).

Sobre uvas e ovelhas

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Ovelhas, vinhedos e sustentabilidade: tem uma lógica! (Foto: Peter Burge)

A fama da Sauvignon Blanc é relativamente recente. Se engana quem pensa  que a uva branca está plantada nas principais regiões desde o início dos tempos. Ledo “uva” engano. Durante muitos anos predominou em solo neozelandês as uvas de garrafão de lá, depois substituídas pela superprodução da nefasta Müller-Thurgau (aquela do vinho da garrafa azul que proporcionou muito porre nos anos 80 e 90), que viveu seu apogeu e decadência na década de 1980 também na Nova Zelândia. Passou.

A Sauvignon Blanc começou a ser cultivada na década de 1970, mais precisamente 1973, e os vinicultores adotaram a vinificação em tanques de aço inox. A razão é mais prática do que teórica: sobravam tanques de aço inox nas ilhas por conta da produção de laticínios de ovelhas, bicho abundante naquela parte do planeta (há mais ovelhas do que gente por lá). O resultado foi surpreendente. Sucesso de crítica e público. A Sauvignon Blanc virou sinônimo de vinho de boa qualidade da Nova Zelândia e dominou o cenário. Dos 36.000 hectares de vinhedos plantados, 21.000 são da Sauvignon Blanc, que desbancou a Chardonnay que chegou a ter seus 5 minutos de fama e hoje é a segunda variedade branca mais cultivada.

Outras uvas

Mas a Nova Zelândia não é só Sauvignon Blanc. Os rótulos de Pinot Noir da Nova Zelândia também são conhecidos e reconhecidos. Os muito bons rivalizam com bons exemplares da Borgonha, e o preço é mais amigável. Os apenas bons já proporcionam um prazer imenso para os apreciadores desta uva tinta de casca fina e personalidade grossa. Mas há outros tintos que também brilham, em produções menores ainda, mas de qualidade bem bacana.

Recentemente fui apresentado a um Syrah e um corte bordalês de regiões da Ilha do Norte. Outra dica: quem quiser arriscar um Merlot, um Syrah procure aquelas garrafas que têm estampado no rótulo a região de Hawke’s Bay e Auckland & Northland, ambas da Ilha Norte.

Tampa de rosca

Outra característica que diferencia os vinhos da Nova Zelândia é a tampa de rosca. Mais de 90% das garrafas são tampadas assim. Sem muita polêmica: é legal, fácil de abrir, conserva melhor os vinhos, e é mais sustentável. Se perde na liturgia ganha na eficiência. Nada contra a cortiça. Mas evitar um vinho por conta da tampa de rosca é um erro tão estúpido quanto desprezar o charme da cortiça por que agride as cascas dos sobreiros – que são plantados com este propósito.

BRANCOS
Sauvignon Blanc e Gewürztraminer

Peter Yealands 2016

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Uva :100% Sauvignon Blanc

Produtor: Yealands Estate

Região: Marlborough

Importador: vários importadores

Preço: R$ 79,90

Uma historinha. O primeiro Sauvignon Blanc que provei da Yealands Estate foi às cegas, como jurado da TOP Ten da Expovinis 2010. Era o  Sauvignon Blanc Yealands Estate 2008  – e eles faturaram o prêmio de melhor branco importado. De lá para cá  negociaram com importadores e grandes redes, como o Pão de Açúcar, e são fáceis de encontrar. E muitas vezes entram em oferta. São dois destaques que fazem a diferença: logística e preço. Por isso começamos com o Sauvignon  Blanc da Yealands. Fácil de encontrar e acessível. Vinícola de grande estatura e pegada sustentável (tem o certificado de Carbon Zero), é um bom começo para conhecer a tipicidade e potencialidade da uva na Nova Zelândia. Aqui tem aquela sensação agradável de frescor, boa acidez, e frutas como maracujá e o toque herbáceo.

Kim Crawford Sauvignon Blanc 2014

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Uva: 100% Sauvignon Blanc

Produtor: Kim Crawford

Região: Marlborough

Importador: Interfood

Preço: R$ 207,00

Vinícola criada em 1996 (tradição não é o forte da Nova Zelândia, né?). Ganhou prêmios e reconhecimento. Na nariz e na boca um cítrico, um pimentão verde (que os especialistas chamam de pirazina), grama (é a forma de indicar algo vegetal) e a esperada acidez correta que estimula ao próximo gole.

Framingham Sauvignon Blanc 2014

Framingham-Zahil

Uva:100% Sauvignon Blanc

Região: Marlborough

Importador: Zahil

Preço: R$ 238,00

Aqui a complexidade aumenta, o investimento traz como retorno um vinho mais intenso nos aromas e sabores. A acidez é mais marcante, a persistência final em boca também. O herbáceo (o vegetal) é agradável e típico. Um toque de mineralidade, por mais difícil que seja definir isso, chega junto.

Cloudy Bay

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Uva: 100% Sauvignon Blanc

Produtor: Cloudy Bay

Região: Marlborough

Preço: R$ 303,00

Um exemplar neozelandes bem conhecido no Brasil, presença frequente em feiras, e em alguns restaurantes. A salada de frutas aqui fica mais complexa: abacaxi (uma fruta que aparece  na Sauvignon Blanc da Nova Zelândia), maçã verde, notas de limão, ervas frescas e toque floral. Acidez marcante, mineralidade, boa presença em boca e saboroso final.

Vinoptima Ormond Gewürzutraminer 2006

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Uva: Gerwüstraminer

Produtor: Vinoptima Ormond

Região: Gisborne (Ilha Norte)

Importador: Premium Wines

Preço: R$ 341,00

Um pirata no meio da onipresente Sauvignon Blanc! E trazida pela importadora, a Premium,  que começou seu portfólio em um ousada estratégia de privilegiar os vinhos da Nova Zelândia! Trata-se de um  Gerwüstraminer de enciclopédia. O enólogo deu uma de chef de cozinha e encheu garrafa de temperos e especiarias, destaque para  o gengibre. E ainda  salpicou baunilha e notas de lichia. É menos exibidão aromaticamente, não tem aquele floral excessivo  típico da variedade. O adocicado (tem 13 graus de álcool) é contrabalanceado pelo frescor que é a impressão digital, como já vimos, dos vinhos da Nova Zelândia. Uma untuosidade  envolve a boca antes de descer goela abaixo. Show de bola, mas tem seu preço. 

TINTOS

Pinot Noir, Syrah e Corte Borldalês

Peter Yealands Pinot Noir

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Uva: 100% Pinot Noir

Produtor: Peter Yealands Estate

Região: Marlborough

Importador: vários

Preço: R$ 79,90

Do mesmo produtor  da Sauvignon Blanc, um vinho de base para quem quer começar a navegar pelos Pinot Noir de Marlborough. Você desembolsa menos e começa a entender a pegada de frescor, leveza e fruta fresca também nos tintos,  influência que o clima aporta nos rótulos da Nova Zelândia. Aquela típica cor mais clara, uma delicadeza em boca que vai conquistando. Uma cereja de menor ou maior intensidade vai aparecendo. Bem-vindo à Pinot Noir!

Sileni Cellar Selection

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Uva: 100% Pinot Noi

Produtor: Sileni Estates

Região: Hawke’s Bay

Importador: Mistral

Preço: R$ 135,00

Um Pinot Noir correto, um patamar (ou dois) acima. Vinho é isso aí. Bom quando traduz as características da uva e aí vai acrescentando camadas de aromas e sabores. Aqui percebe-se a fruta madura, a maciez em boca e final elegante de um produtor de vinhos de excelência.

Villa Maria Private Bin Pinot Noir 2013

Villa Maria

Uva: 100% Pinot Noir

Produtor: Villa Maria

Região: Marlborough

Importador:  Winebrands

Preço: R$ 277,00
Vinícola de respeito de Marlborough, apesar do nome estranho para um vinho da Nova Zelândia. Um Pinot Noir de intensidade média, como uma boa fruta, aquela cereja aguardada que é porta-bandeira da variedade e toques de especiarias. Um bom exemplo da capacidade em domar esta uva difícil e entregar delicadeza e refinamento.

Wild Rock Gravel Pit Red 2008

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Uvas: 71% Merlot, 25% Malbec, 4% Cabernet Franc

Produtor: Wild Rock Wine Company

Região: Hawke’s Bay

Importador: Decanter

Preço: R$ 176,00

Um vinho de corte é sempre uma escolha do enólogo, que combina as uvas como um artista mistura tintas. Aqui a Merlot predomina, acompanhada de Malbec (viu, não tem só na Argentina!) e um toque da Cabernet Franc.  O vinho mais antigo da lista (2008), mas sem sinais visíveis de evolução na cor (o bicho aguenta muito tempo), mas com alguma evolução na fruta, que lembra ameixa doce, fruta negra madura. Os 14 meses de madeira estão marcados no nariz e no final de boca. É Wild Rock: potência e elegância em três acordes.  

Crossroads Milestone Series Syrah Hawke’s Bay 2013

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Uva: 100% Syrah

Produtor: Crossroasd Milestone

Região: Hawke’s Bay/Gimblett Gravels

Importador: Vinho & Ponto

Preço: R$ 224,00

Opa! Um inesperado Syrah da Nova Zelândia. Uma surpresa apresentada pelo especialista Arthur Azevedo numa degustação da ABS-São Paulo. Multo legal. Syrah com muita fruta negra, tostados, especiarias (como todo syrah deve ter), eu achei ali um cravo, algo assim. Para completar, aquela  característica de identifica os vinhos da Nova Zelândia, acidez que embala o conjunto da obra. 

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sexta-feira, 2 de junho de 2017 Novo Mundo, Sem categoria, Velho Mundo | 10:13

Exclusivo: Portugal passa a Argentina e é o segundo colocado no ranking de vinhos importados

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Portugal redescobriu o Brasil. Ou melhor, os consumidores brasileiros redescobriram o vinho português. Talvez seja mais correto dizer, os importadores passaram a lotar seus contêineres com vinhos portugueses. O fato é que o relatório preparado pela Consultoria Ideal, obtido com exclusividade pelo Blog do Vinho, registra uma mudança e uma tendência nos números da importação de vinhos no Brasil: Portugal passou – e bem – a Argentina em volume e valor no ranking das importações no primeiro trimestre de 2017, comparado ao mesmo período de 2016.

A virada

Portugal passou de 12% em volume e 10,8% em valor (janeiro-março 2016) para 17,3% em volume e 15,4% em valor no primeiro trimestre de 2017. Já nossos vizinhos argentinos, que tinham ligeira vantagem de 12,7% em volume e 14,8% em valor, estacionaram em 13,3% em volume e 14,1% em valor (veja tabela abaixo). Muito número, né? Vamos ficar apenas com o mais impactante: Portugal 17,3% X Argentina 13,3%. Para os fanáticos por futebol, uma analogia e uma simplificação: Cristiano Ronaldo 17 x Lionel Messi 13!

Para quem acompanha o mercado, ou mesmo as ofertas nas prateleiras de supermercados, os números são espantosos. Há alguns anos Argentina disputava com o Chile a pole position no ranking das importações (chegou a ter 30% da fatia do bolo). Hoje começa a competir com Itália pelo terceiro e quarto lugares. Ok, trata-se de uma auditoria do primeiro trimestre, mas é uma curva consistente e a gangorra está pendendo para nossos colonizadores portugueses, com certeza.

Brasil na mira de Portugal

A razão desta mudança? Algumas hipóteses. O vinho, apesar de toda poesia, é um negócio. E é regido pelas leis do mercado, de câmbio, influenciado por ações de marketing e até pela diversificação e inovação do produto.  Um aspecto da economia atual no Brasil é um euro mais atrativo que o dólar. Isso influenciou certamente o resultado. Quanto à estratégia global, Portugal tem enfrentado uma perda de clientes entres as ex-colônias na África, que baixaram a bola no consumo dos vinhos de seus antigos algozes (Angola ainda é importante). Portugal então apontou sua artilharia para Brasil para recuperar parte do mercado de exportação. Com isso, estamos assistindo a um acréscimo visível dos investimentos de produtores, associações e institutos lusitanos ligados ao vinho no Brasil (veja lista de eventos de junho no final deste post). Viramos um alvo.

Segundo relatório do Euromunitor International Research Reports, o Brasil ocupa o 9º entre os principais mercados para o vinho português. O principal mercado é o interno, e pela ordem seguem Grã-Bretanha, Angola, Estados Unidos, Alemanha, Países Nórdicos, Canadá, China e finalmente o Brasil. O crescimento diagnosticado pelo Euromunitor indica, no entanto, um potencial avanço de duas posições neste ranking, com o Brasil ultrapassando China e Canadá no grid de exportação. O objetivo, nada modesto dos exportadores portugueses, é crescer 25% em valor no Brasil nos próximos três anos. A se checar a confirmação da tendência, nos resultados dos próximos trimestres.

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Chile ainda lidera

E o Chile? Bom, o Chile continua dando um banho, com 42,6% das importações em volume e 42,9% em valor, sempre segundo o relatório da Consultoria Ideal. A soma dos três países que estão em 2º, 3º e 4º lugares (Portugal, Argentina e Itália) não ultrapassa o total dos chilenos. Mas… mesmo assim, o Chile perdeu um naco da sua presença neste primeiro trimestre no rateio total, caiu de 53% em volume para 42,6%. Isso não quer dizer que a invasão chilena de tintos e brancos arrefeceu. Em ordem de grandeza, o volume importado é maior até: 810.914,3 para 914.844,2. E aqui vem outra informação importante do relatório. Mesmo com toda crise, com toda lama, toda façanha, o vinho importado vai levando. Um crescimento de incríveis 40% em volume importado entre o primeiro trimestre de 2016 e o de 2017. De 1.525.368,1 para para 2.145.695,2. Estranhou estes números de volume? Cabe uma legenda: o volume é medido em caixas de 9 litros (no geral correspondente e 12 garrafas de 750 ml).

Mas atenção: não fique animado com o crescimento do volume  para abrir amanhã sua importadora ou e-commerce de vinho. Há um efeito da crise aí. Apesar dos índices de crescimento, o valor FOB diminuiu de 28,7 para 25,9 (em dólar). Não é à toa que os rótulos mais baratos dos grandes produtores inundam as prateleiras. Outra explicação chata e necessária: FOB (free on board) é  o preço que o importador negocia para o vinho ser embarcado para o Brasil pelo produtor contratado, o resto é por conta dele (taxas, impostos, frete, etc).

Para Manuel Luz, consultor de vinhos da importadora Cantu, diretor de produtos da Sonoma e grande conhecedor do mercado, esta dança das cadeiras tem uma explicação: “Portugal comeu o mercado da Itália, do Chile e a Argentina estagnou no Malbec”. Luz, reconhecido sommelier — aquela gente que identifica groselha e trufas no tinto quando você só encontra vinho –, se especializou em traduzir números em tendências, e com isso ganha a vida gerando negócios para as empresas do ramo. E continua encontrando uma groselha aqui e uma trufa ali, por que esta brincadeira também é legal.

Mudança também dos importadores

Outro dado bastante interessante que este levantamento da Ideal identifica é a mudança do perfil do share das empresas que trazem o vinho: os caçadores de cabernet sauvignon do mundo. Em 2013 as importadoras tradicionais eram responsáveis por 78,7% do total de garrafas de vinho. Os supermercados enchiam as prateleiras com 13,3% do total. Os .com (as vendas online), ainda uma novidade, engatinhavam com 2,6% do mercado. O cenário 2017 é outro: as importadoras encolheram para 51,7%, os supermercados mordem 25,8% e as iniciativas .com deram um salto para 13,5%.

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Importante. O resto que faltou nesta conta (se é que você teve a curiosidade de somar o total) fica com a VCT, indicada na tabela, também conhecida como a importadora da Concha y Toro, a gigante chilena, que sozinha detém 9% deste mercado.

A tabela é clara: o e-commerce cresceu. Mas redobro o conselho, não saia correndo abrindo seu site de vendas online de vinhos na galega. A Wine.com e a Evino dominam este jogo, que não é para amadores.

Portugal se vende

Portugal foi para a guerra e não acovardou-se: tem feito várias ações de marketing por aqui, através de representantes das regiões vinícolas, importadoras, feiras, etc. O motivo é transparente como um alvarinho jovem: para vender um produto como o vinho é necessário antes de mais nada vender experiência, principalmente em um país sem a tradição de consumo de fermentados  como o Brasil. Por isso assistimos a um aumento de feiras, degustações e eventos de vinhos portugueses no Brasil.

Veja abaixo algumas destes eventos programados para o mês de maio/junho:

Dias 31 de maio (RJ), 06 e 08 de junho, Brasília e São Paulo, a Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal (CVRPS) apresenta seus vinhos e produtores, entre eles o mais famoso, José Maria da Fonseca, o homem do Periquita;
De 23 a 27 de maio a importadora Qualimpor promoveu um tour com seus rótulos portugueses do Douro (Quinta do Crasto), Minho (Quinta do Ameal) e Alentejo (Esporão) e Porto (Taylor’s) no Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo, Jundiaí e Campinas;
2, 3 e 4 de junho, evento Vinhos de Portugal, no CasaShopping, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, com 70 produtores e 500 rótulos. O pessoal do Alentejo vem com uma tropa grande, apoiado pela Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA)  com degustações comentadas por Pedro Mello e Souza, Alexandra Prado Coelho, Dirceu Viana Júnior e Rui Falcão; Mais informações em  www.vinhosdeportugalnorio.com.br. Os restaurantes do Shopping vão franquear a rolha do primeiro vinho para os visitantes que estiverem com pulseira do evento

Leia também: Vinhos de Portugal, um Pato aqui, um Pato acolá

6 junho, Prova Anual dos Vinhos do Porto e do Douro, em Belo Horizonte, Minas Gerais.  Evento com mais de 30 vinícolas e 200 vinhos para provas no Hilton Garden In
6 a 8 de junho, Portugal marca presença na 20a edição da ExpoVinis, a maior feira de vinhos da América Latina. A Importadora Adega Alentejana marca presença com stand próprio; Mais informações em https://www.expovinis.com.br/pt/home.html
8 de junho, Importadora Zahil lança a linha Sossego, com a presença de Luís Cabral de Almeira, enólogo da Herdade do Peso, da região do Alentejo;
9 e 11 de junho no Shopping JK Iguatemi acontece a versão de Vinhos de Portugal em São Paulo, com a presença do conceituado pelo jornalista e crítico de vinhos Luís Lopes; Mais informações em  www.vinhosdeportugalnorio.com.br
10 de junho, em Minas Gerais, o projeto Aproxima – Vinhos do Alentejo, festa de rua que acontece Casa Fiat da Cultura. A partir das 10 h com palestras e degustações com produtores;
No dia 10 de junho, AEP (Associação Empresarial de Portugal), em organização com o Grupo Opal, organiza em Vitória (Espírito Santo) a Vinhos e Sabores de Portugal, uma prova de vinhos e produtos gastronómicos portugueses com a presença de importadores / distribuidores / imprensa e o público brasileiro.

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quinta-feira, 30 de março de 2017 Blog do vinho, Brancos, Espumantes, Rosé, Tintos | 11:31

Os brasileiros preferem Malbec, cerveja a vinho branco e o Chile lidera as importações

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Uma consumidora brasileira vai escolher um vinho: a probabilidade de ser um Malbec é grande

Consumidora brasileira vai escolher um vinho: a probabilidade de ser um Malbec é grande

O que bebem, como vivem, quantos são e quem são os brasileiros que têm por hábito ter a companhia um copo de vinho pelo menos uma vez por semana? Eles existem? Sim. E estão entre nós. Para tentar responder estas questões, uma pesquisa foi realizada com mais de 700 consumidores pela empresa de consultoria inglesa Wine Intelligence.

O resultado desta investigação resultou no estudo Brazil Landscapes Report 2017, lançado esta semana e comercializado pela Winext. A pesquisa, realizada entre outubro de 2014 e de 2016, se restringiu às principais capitais do país: São Paulo (capital e interior), Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Brasília e Salvador. São 70 páginas em inglês com acesso restrito, a não ser que você desembolse 2.500 libras. Salgado, né? Mas alguém tem de pagar a conta. Não existe almoço nem vinho grátis. O estudo é destinado ao mercado, que precisa cada vez mais conhecer o perfil do seu consumidor para fazer o negócio rodar. Mas vamos aqui dar um aperitivo de alguns destaques revelados pelo estudo. Por exemplo, você sabia que:

1. O número de consumidores de vinho cresceu no Brasil, apesar de toda a crise econômica. Comparado com o ano de 2010, 8 milhões de consumidores foram incluídos no mercado. Saltou de 22 milhões para 30 milhões o número de brasileiros que consumem vinho no país tropical (boa notícia, mas pé no chão. O Brasil ainda fica em 113º lugar entre os maiores consumidores do vinho do mundo, segundo dados oficiais);

2. Os espumantes vão muito bem, obrigado, os rótulos das vinícolas Salton e Aurora tiveram excelente performance nos últimos dois anos (e que anos, senhores… Palmas para aqueles produtores que surfaram a crise e se estabeleceram)

3. A uva tinta preferida dos brasileiros que responderam a pesquisa é a Malbec. A uva símbolo da Argentina parece que caiu no gosto do bebedor de vinho e é seguida pela Cabernet Sauvignon, Merlot, Pinot Noir e Carmenère, nesta ordem (curioso é que o Chile, com seus cabernets, carmenères e pinots, é quem domina o mercado de importados no Brasil. Veja o ranking abaixo das importações em 2016)

4. Entre os consumidores habituais de vinho, a cerveja é a segunda bebida alcoólica mais consumida. Pela ordem é esta a lista de preferência dos bons de copo:
1. Vinho Tinto;
2 Cerveja;
3 Vinho Branco;
4 Vodca;
5 Espumante;
6 Porto;
7 Whisky;
8 Vinho Rosé;
9 Vinho de sobremesa. (não me surpreende, não existe um Fla X Flu entre os consumidores de vinho e cerveja, eles apreciam as duas bebidas, cada uma tem sua ocasião, preço e ritual. E os produtores que chegam ao país vão continuar não entendendo por que um país de clima tropical bebe tão pouco vinho branco…)

5. Apenas 25% dos vinhos consumidos no Brasil são importados (aqui entra na conta o vinho não vinífero, de mesa, o vinho de garrafão, que é o grande volume consumido no país)

6. Os brasileiros que compram vinho com frequência continuam adeptos das prateleiras. As lojas especializadas e de conveniência perderam espaço, no entanto. O estudo não conclui, mas análises da Winext indicam que houve uma migração para os supermercados. O aumento da importação direta das grandes redes e o hábito dos brasileiros consumirem o vinho em casa são os responsáveis por esta tendência. Apesar da crescente importância dos meios digitais; de 201 4 para 2016 não houve crescimento do meio online (mas pode crer que a influência dos meios digitais na decisão da escolha do vinho é crescente e determina sim a compra de uma garrafa)

Mercado dos vinhos importados 2016

Aqui temos uma contradição aparente. Se a Malbec é a uva preferida dos brasileiros entre os tintos, a Argentina não é a líder das importações de vinho no Brasil, tanto em volume como valor. Segundo o ranking elaborado pela International Consulting, de Adão Morellatto, o Chile é responsável por quase metade das garrafas de vinhos importadas no Brasil. Divulgado semestralmente, o ranking de 2016 reflete as variações cambiais malucas do ano passado (algo como 31%) e poucas mudanças em relação a um cenário que consolida os dois países vizinhos como principais fornecedores de vinho importado na mesa dos brasileiros. Somados eles representam mais de 60% das garrafas importadas, o que é visualmente percebido nas prateleiras dos supermercados, lojas especializadas e cartas de vinho dos restaurantes – e provavelmente na sua casa. Abaixo um resumo da sua análise:

1º CHILE: Em 2016, representou 43,97% em valor e 47,77% em volume, se considerar somente os vinhos finos quase beira os 50% em valor. Seu crescimento foi 14,17% em valor e 17,90% em volume;

  2º ARGENTINA: Já vem em queda de 30% desde 2011, seu melhor ano e em volume retrocedeu aos patamares de 2008. Em 2016 caiu -6,81% em valor e cresceu 11,41% em volume. Contribui com aproximadamente 16% de todo o mercado. Já teve quase 30% do mercado;

3º PORTUGAL: Seguindo sua trajetória de posicionamento, recuperou a terceira colocação, devido à queda França. Sua performance de 10,45% em valor e de 11,55% em volume, apresenta um crescimento de apenas 2,14% em volume e uma queda -9,37% em valor;

4º FRANÇA: Tem forte dependência do Champagne na sua pauta e com a queda vertiginosa deste item no ano passado mostrou uma queda de – 32,17% em valor (quase 10.000 milhões de USD) e um leve crescimento de 1,37% em volume…e uma baixa de -27,53% no custo médio……recuou aos números de 2008.

5º ITÁLIA: O pior desempenho entre os grandes players. Desde 2011 já vem mostrando queda. Em valor enviou valores idênticos ao de 2007 e em volume ao ano de 2006. Posicionou-se com 9,11% em valor e 9,86% em volume. Seu produto mais representativo é o Espumante tipo Prosecco com 33,52% de share.

 6º ESPANHA: Único europeu a apresentar crescimento nas duas categorias: 0,75% de valor e 19,77% em volume. Há 15 anos vem crescendo sistematicamente: 313,04% em volume desde 2006; nem mesmo o Chile conseguiu esta proeza em volume. Sua participação é de 5,56% em valor e de 5,26% em volume.

DEMAIS PAÍSES: Participam com menos de 5% em Valor e Volume, destaque para o crescimento de 67,46% da Alemanha e 26,54% do Uruguai. Queda de -24,01 dos EUA, -43,73 da África do Sul e -21,88% da Austrália.

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terça-feira, 14 de março de 2017 Blog do vinho | 13:06

O que a escolha do crítico Steven Spurrier como Homem do Ano tem a ver com o papel das comunidades e redes sociais de vinho

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O aclamado crítico e jornalista Steven Spurrier: Homem do Ano da Decanter

O jornalista e critico de vinhos Steven Spurrier levou o título de homem do ano de 2017 da revista inglesa Decanter (leia aqui reportagem – em inglês), a mais prestigiada publicação do setor. Esta honraria joga luzes, desde 1984, sobre uma personalidade importante do mundo do vinho e já elegeu produtores, críticos e enólogos. A divulgação é garantida: o cidadão eleito – e aquilo que ele representa – ganha repercussão mundial neste mercado.

E o que Spurrier representa? Uma trajetória vencedora e uma história de vida dedicada ao vinho, fato. Mas também é um porta-voz de uma mídia em busca de um bote salva-vida: a revista impressa especializada (leia mais sobre o crítico nos parágrafos abaixo). Sua escolha suscitou uma questão na rede: trata-se de uma justa homenagem ou autopromoção da publicação e o que ela representa? Afinal o jornalista é editor da Decanter há 20 anos. Não cabe aqui questionar a lisura ou legitimidade do prêmio. A escolha é ratificada por personalidades do meio consultadas pela revista. E, convenhamos, é uma decisão editorial da Decanter. Ela só vale aqui para provocar alguns pontos de discussão, o que vem logo abaixo.

O velho e o novo

Esta premiação ocorre no momento em que as publicações especializadas e a opinião dos velhos influenciadores estão sendo colocadas em cheque pelas redes sociais e comunidades de avaliação de vinhos. A dicotomia nem é a da mídia impressa X mídia digital, pois a curadoria e a relevância dos palpiteiros digitais (no qual me incluo) também está em discussão. Todo o velho modelo, ou nem tão velho assim, enfrenta a concorrência da comunidade digital e seus aplicativos sempre à mão – leia-se Vivino, Cellar Tracker, e os onipresentes Facebook, Twitter e Instagram da vida. Hoje eles também são protagonistas.

Será que um dia a Decanter terá coragem de outorgar o prêmio de “homem do ano” ao consumidor que dá sua opinião nas redes sociais, ou em uma comunidade/ferramenta agregadora de dados e reconhecer a democratização da informação que elas proporcionam?

Tudo que é físico se transforma em digital

A internet é uma destruidora de modelos de negócio. É disruptiva por definição. Foi assim com a música, chegou na mídia e agora transforma todas áreas de negócios que toca: financeiro, comercial, serviços, transportes, turismo. Todo consumidor é um “opinador”;  um editor amador que tem várias ferramentas à mão para expressar seu ponto de vista. Pelas redes sociais um “opinador” muito compartilhado acaba virando um influenciador, às vezes até mais relevante que o profissional que vive disso. Não é difícil detectar a influência da opinião coletiva e para onde caminha a humanidade. Quando informalmente você cita um vinho para um colega que aprecia a bebida, qual a pergunta mais comum?

  1. Qual a cotação do vinho no Vivino (23 milhões de usuários)?
  2. Qual a nota do Robert Parker (ou outro crítico ou revista qualquer)?

Posso apostar, sem muita chance de erro, que a primeira hipótese é mais comum. Em seguida, o sujeito consulta o aplicativo no celular e após rápida pesquisa mostra o rótulo na tela pequena e todo os dados existentes: o ranking do vinho entre os consumidores do mundo,  a lista de avaliações, o tipo de uva, região etc..

Tem seu contraponto também. A opinião do coletivo pode carecer de legitimidade e curadoria. Tem o risco de disparar o efeito manada, tão comum às redes sociais. O vinho mais votado, o que tem mais estrelas nos aplicativos, ou é mais compartilhamento na rede, é necessariamente o melhor? Assim como existe o fenômeno do Fake News, é possível produzir o efeito  Fake Score, com robôs ou humanos votando em massa nas comunidades e elevando para cima a pontuação de um rótulo? Sim, tudo isso é possível. Mas com certeza a massa de dados criada pelos usuários tem o potencial de orientar o mercado com mais assertividade que a opinião tradicional e juramentada dos especialistas tradicionais individualizados. E guiar a massa dos consumidores perdidos diante de tantas opções. A questão que se coloca é: as duas forças se complementam ou se excluem? O que nos leva ao próximo parágrafo.

Brinde

Comunidades e redes sociais: a opinião do coletivo tem curadoria?

A opinião do especialista e do amador: mais próximas do que se imagina

Esta dualidade entre o social (amador) e o especializado (profissional) enfrenta outra questão: quem influencia quem? Sempre questionei se, no final do dia, existe alguma diferença no gosto de um e de outro na hora de indicar ou pontuar um vinho. Uma reportagem  publicada em dezembro de 2016 pelo site de notícias VOX demonstra, através de análise de dados e gráficos comparativos, que as notas  dos críticos amadores no site Cellar Tracker e dos críticos especializados eram bem próximas. Cerca de 25.000 notas de rótulos dadas pelos sites profissionais Wine Advocate (Robert Parker), International Wine Cellar e Jancis Robinson (crítica inglesa) foram comparados a 52.000 notas dadas pela comunidade de críticos amadores da Cellar Tracker, que reúne  5.8 milhões de registros no seu banco de dados. A correlação de notas era de cerca de 0.5, já entre os próprios críticos, era menor que 0.2.

A reportagem, com o título original “Why amateur wine scores are every bit as good as professionals” (leia aqui) não é conclusiva, não crava nem a hipótese de os críticos influenciarem o gosto dos amadores nem o da marca famosa influenciar as notas de ambos. Acho as duas hipóteses válidas. A massa gera o volume, a crítica curadoria. Mas a matéria registra outro fenômeno:  quanto melhor o vinho, maior o índice de correlação entre as notas dos especialistas e dos amadores. Quem afinal vai dar cartão vermelho para um monstro sagrado de Bordeaux, não é mesmo? Nem os especialistas, nem os amadores.

Steven Spurrier. Homem do Ano de 2017, de vários anos

Tergiversei. Voltemos ao nosso personagem. Steven Spurrier, pessoalmente, é tudo aquilo que você imagina de um cavalheiro inglês: no porte, nos ternos de corte impecável, nos gestos, na finesse e até nas bochechas rosadas. Mas Spurrier não é apenas um jornalista especializado de vinho que levou um prêmio, tem uma biografia consistente e fez história.

Qual personagem do mundo do vinho virou tema de livro, O Julgamento de Paris, e personagem principal de um filme, Bottle Shock, que no Brasil levou o mesmo título do livro, O Julgamento de Paris? Qual especialista colocou no mapa uma região ou país com tanto alarde? Quem, quem, quem? Steven Spurrier!

Na década de 1970 Steven Spurrier foi proprietário da loja de vinho Les Caves de la Madelaine, em Paris, e do primeiro curso de vinho para consumidores na França, L’Academie du Vin, modelo que foi copiado em todo o mundo. Lançou livros de vinho na década de 1980 e há 20 anos é colaborador da revista Decanter. Ali vem influenciando na formação dos consumidores ao apontar as qualidades e características deste ou daquele rótulo através dos artigos comentados em sua coluna “Spurrier’s Word”. Não é raro citar rótulos brasileiros, fato impensável anos atrás. Também é figura constante em eventos. Em um encontro de espumantes do hemisfério Sul, realizado no Brasil em abril de 2014, recomendou: “Vocês não precisam de Champagne. O Brasil tem seus próprios espumantes para beber”. Thank you, Mr Spurrier, so polite!

Aos 75 anos continua na ativa. Está cometendo sua autobiografia (Wine A Way of Life) e depois de provar vinhos de todo o planeta tem um vinhedo para chamar de seu: Bride Valley, em Dorset, sudoeste da Inglaterra. onde produz espumantes (pra quem se espanta, os espumantes ingleses começam a fazer bonito, não sei como se comportariam numa degustação às cegas com os brasileiros, que tal a ideia, Mr Spurrier?).

São Paulo Tasting 2013: 11 garrafas e nenhum segredo

São Paulo Tasting 2013, a franquia de Spurrier para os vinhos chilenos: 11 garrafas e nenhum segredo

 

Julgamento de Paris

Mas por mais que tenha realizado em sua vida profissional, sua marca registrada será sempre a histórica degustação realizada em 1976 conhecida como Julgamento de Paris. A história é conhecida mas não custa relembrar. Foram degustados às cegas, por um seleto grupo de especialistas franceses, os melhores Bordeaux e Borgonhas da Franca ao lado de tintos e brancos californianos. E os americanos levaram os primeiros lugares.  Foi um choque. A história é contada em um livro delicioso: O Julgamento de Paris: Califórnia x França 1976 – A Histórica Degustação que Revolucionou o Mundo, de George M. Taber, único jornalista que cobriu o evento, que fez uma reportagem  para a revista TIME (leia texto original).  Sobre este evento, Spurrier declarou nesta edição da Decanter que traçou seu perfil: “O objetivo era ajudar os produtores da Califórnia” e não fazer propaganda de sua loja e muito menos destratar os franceses. Passados 40 anos, muita gente ainda torce o nariz para este resultado.

O formato virou uma espécie de franquia que Steven Spurrier repetiu diversas vezes pelo mundo, especialmente com o produtor chileno Eduardo Chadwick, que reproduziu o painel confrontando seus rótulos chilenos de alta gama como Seña, Don Maximiano e Chadwick com rótulos estrelados de Bordeaux e do velho mundo. Ficou conhecida como Cata de Berlim. O objetivo era repercutir. Mostrar ao mundo a qualidade dos rótulos ainda desconhecidos do Chile. Chadwick apostava que podia competir de igual para igual com estrelas como Château Lafite-Rothschild, Château Margaux, Château Latour e o supertoscano Solaia. Funcionou. Grande jogada de marketing, só acompanhar a evolução dos preços dos rótulos do portfólio de Chadiwck. Desde então, foram mais de 20 provas semelhantes ao redor do mundo.

Roupão branco e discreta gagueira

Tive contato algumas vezes com Spurrier, mas sempre numa posição de espectador privilegiado. Quando ainda era a toda poderosa importadora de vinhos no Brasil, a Expand do empresário Otavio Piva reprisou a degustação de Paris com safras mais recentes dos mesmos rótulos do prova histórica em um evento na Expovinis, a feira de vinhos que acontece anualmente em São Paulo. Aqui os franceses ganharam, para júbilo dos convidados francófonos. Anos mais tarde, o jornalista inglês conduziu, também em São Paulo, uma das duas provas que Chadwick realizou no Brasil.

A última vez que tive a oportunidade de assistir Spurrier foi num evento patrocinado pela Argentina Wine Awards (AWA) de 2014. Estávamos hospedados no mesmo hotel em Mendoza. Aqui deu-se o improvável. Aproveitando o final de tarde ensolarado,  fui tomar um banho de piscina após uma visita a uma vinícola. Deparo com Mr Spurrier de roupão branco (aqueles do banheiro de hotel), sandálias, e aquela semblante de um inglês que não tem contato com um raio de sol há alguns anos caminhando para o deck. Desisti. Achei um pouco demais presenciar a retirada do roupão e o tchibum do honorável homem do Julgamento de Paris. Preferi guardar na mente o registro de um fidalgo inglês empunhando uma taça de vinho.

Há uma característica pouco comentada de Spurrier que é uma espécie de gagueira que surge em determinados momentos de uma frase e faz com que ele repita umas duas ou três vezes a mesma sílaba até conseguir engatar uma segunda marcha e continuar a frase. Quem nunca acompanhou uma palestra do jornalista se surpreende na primeira ocorrência, estranha na segunda e compreende a limitação daí por diante. Um conhecido blogueiro de excepcional senso de humor e sempre de bem com a vida me acompanhava em Mendoza, quando Spurrier começou seu discurso e começou a travar em algumas palavras. Ele olhou em minha direção, imitou o inglês e abafou uma gargalhada, sem muito sucesso, o que foi prontamente repreendido pelos convidados mais formais ao redor. Bobagem, não era falta de respeito, mas sim o resultado do riso frouxo que às vezes o vinho também proporciona. O respeito ao personagem não estava em questão.

Uma opinião final

E apenas para concluir, para não dizer que fiquei em cima do muro. Independente da reflexão acima, é merecido o título de Homem do Ano da Decanter 2017 para o jornalista Steven Spurrier. Mas é bom a Decanter, os críticos, especialistas e mesmo os blogueiros profissionais ficarem atentos à voz das redes, das comunidades e dos amadores. Eles estão gerando dados, informações e, mais do que tudo, influência. Melhor ou pior? Complementares, eu diria. Mas não podem ser ignorados.

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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016 Espumantes, Nacionais | 00:33

Com este calor, só um espumante salva!

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Verão, calor, sol, praia. O que falta nesta foto? Uma garrafa de espumante!

Verão, calor, sol, praia. O que falta nesta foto? Uma garrafa de espumante!

A despeito dos conselhos dos manuais de estilo das redações – quando ainda existiam manual, estilo e redações, não necessariamente nesta ordem –, eu repito o título neste início de texto: com este calor, só um espumante salva!

O verão resolveu castigar aqueles que estão trabalhando (alguém?) e presentear o povo das areias, rios e piscinas com uma bola de fogo que deixa rastros de suor até a madrugada. Resumindo: está um calor dos diabos. E se a bebida é um vinho, o espumante é a melhor opção.

O espumante é um vinho com explosão, de alegria, de comemoração. Se existe método na elaboração, há pouco rigor no consumo. Não é à toa que hoje existe uma certa moda de um tipo de espumante mais doce que pede, melhor implora, dois ou três cubos de gelo na taça. Ninguém bebe espumante e suas variações (champagne, prosecco, lambrusco) analisando muito a qualidade do fermentado.  Não que seja desimportante. Há borbulhas horrorosas, simples, boas e espetaculares. Mas no geral o momento de celebração é mais relevante que a degustação. Tanto melhor então se qualidade e momento caminham juntos. E quantidade também, por que não? Uma taça sem um refil é triste e solitária como um número primo, dividido apenas por ele.

Per brindare un incontro

Espumante é fácil e delicioso de beber. Me ocorre uma associação meio maluca com a ginástica para explicar isso. Beber um espumante é como fazer polichinelo, aquele exercício leve, que inicia os treinos do colégio e que não humilha ninguém. Os movimentos são fáceis e não exigem maiores esforços na sua execução. Todos cumprem a tarefa. Seu oposto na academia dos vinhedos é um Bordeaux mais austero, um tinto encorpado do Chile, que exibem muque e potência, e degustá-los equivale a uma sequência de flexão de braços. Trata-se daquele exercício que que os saradões exibem seus tônus muscular com precisão e os garotos mais franzinos falham vergonhosamente: mal conseguem manter o corpo ereto quando se aproximam do chão, no geral protagonizando um balé destrambelhado de ancas baixas e ombros inclinados sustentados por músculos frágeis e trôpegos.

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Bebe-se espumante “per brindare un incontro” (Não é mesmo, Pepino di Capri?), para comemorar uma data, um negócio fechado ou apenas para curtir a vida mesmo. É o vinho do réveillon, por supuesto! Acompanha desde um petisco até uma refeição completa, ou ajuda a suportar aquela vernissage inadiável. Pode ser servido com pompa em um salão nobre, mas há um prazer incomparável de tomar um espumante na praia, com aquele marzão à frente. A garrafa suando no balde de gelo, a taça se enchendo de espuma e aquele primeiro gole rasgando o palato, com as bolinhas provocando pequenas explosões na boca.

Borá lá então romper a gaiola e provocar aquele estampido seco que libera as borbulhas e seu frescor quando expulsamos a rolha da garrafa! Abaixo alguns rótulos que não faltam na minha adega ou provei recentemente. Ah, não há nenhum exemplo dos tais espumantes para tomar com gelo. Pelo simples fato que não experimentei. Nem tenho muita vontade.

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Chandon Réserve Brut – é o espumante de qualidade e segurança do Brasil. Nunca falta na minha lista. Sempre bom revisitar. Mantém um padrão constante de excelência.  Borbulhas na medida, frescor, equilibrado e sem excessos. Lembra um pouco frutas brancas. Às vezes parece onipresente. Está em inúmeros supermercados, lojas, restaurantes em todo o país. Chandon na praia? Tem, sim senhor! Tem uma baita distribuição e um marketing esperto e boas ações (no geral compro aquele pack de fim de ano com seis garrafas e uma garrafona de 1.5 litro de bônus). É elaborado pelo método charmat. Traduzindo: a segunda fermentação, ou seja, a incorporação do gás carbônico na bebida (as bolinhas), é realizada em grandes cubas de aço inox fechadas, projetadas para aguentar a pressão do gás carbônico liberado na fermentação, que pode chegar a 5 atmosferas. Na teoria é um método usado para produtos de larga escala, mais barato, e não para bebidas mais refinadas. Para o enólogo francês Philippe Mével, diretor da Chandon Brasil, trata-se de uma avaliação equivocada. “Não é o método que determina a qualidade do espumante e sim a qualidade da uva, a vinificação adequada e o trabalho do blend que conferem seu sabor”, diz.

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Lírica Crua – a vinícola Hermann, em Pinheiro Machado, no Rio Grande do Sul é propriedade dos donos da importadora Decanter. O que poderia ser um passo arriscado para um conhecedor de vinhos e vendedor de rótulos consagrados mundo afora se revelou uma grata surpresa que só se fortalece com o tempo. Adolar Hermann trouxe como consultor o enólogo Anselmo Mendes, conhecido entre no meio como o “rei do Alvarinho”, uva branca típica da região do Minho. Decisão acertada. Da linha de espumantes como Bossa Nova e Lírica se destaca esta garrafa da versão Crua. Lançada no final de 2015, começa surpreendendo pela tampa metálica, igual de uma garrafa de cerveja, e intriga pelo visual turvo e conquista pelo sabor marcante. Mais uma vez entender o método ajuda decifrar a bebida. A Lírica Crua é elaborada pelo processo champenoise ou tradicional, ou seja, a segunda fermentação é feita na garrafa e deixa o vinho-base que irá se transformar no espumante mais tempo em contato com as leveduras. Aqui começa a diferença, no esquema normal estas leveduras são retiradas da garrafa no final do processo (por isso as garrafas giram em torno do seu eixo para empurrar as leveduras para o gargalo). O Lírica Crua dispensa esta etapa, conhecida como “degougerment”. So what? Os sedimentos (leveduras) ficam lá, dando esta cor turva (não se assuste), uma textura cremosa e aumentando a percepção dos aromas de panificação e das frutas cítricas. Palmas para a inovação, sempre bem-vinda ao mundo do vinho.

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Cave Geisse Nature
– às vezes, muitas vezes, eu me repito. Mas eu tenho uma atração por este rótulo da Cave Geisse – e felizmente tenho a companhia da minha mulher nesta opção. O enólogo é um craque com história para contar. Nascido no Chile foi responsável por anos pelos negócios da Chandon do Brasil. Em carreira-solo investiu na região de Pinto Bandeira, um belo polo de espumantes no Rio Grande do Sul. Elaborado pelo método tradicional, o Nature fica 180 dias fermentando e dois anos amadurecendo, em contato com as leveduras. Bastante seco, com zero grau de açúcar, privilegia a acidez, a sensação de frescor e tem uma pegada tostada. A uva Chardonnay predomina (70%), deixando o restante da composição para a Pinot Noir.

Espumante-Aurora-Pinto-Bandeira-Extra-BrutAurora Pinto Bandeira Método Tradicional Extra Brut – a cooperativa Aurora já tem espumantes clássicos consagrados e premiados (não dou muita bola para estas medalhas de concursos que pululam por aí, mas é uma evidência de qualificação). O Chardonnay da Aurora é um dos meus favoritos. Este aqui é uma tentativa de explorar o terreno de Pinto Bandeira, a mesma região do Cave Geisse, e elaborar pelo método tradicional um espumante mais classudo, extra brut, que dorme longos 24 meses em contato com as leveduras para dar maior complexidade de aromas e sabores. Eu acho que conseguiu. Tem personalidade e pegada, sem exageros nos tostados e delicadeza na boca. É uma boa aposta da Aurora que tem uma extensa linha para todos os bolsos e paladares.

 Leia também: Os rótulos da Aurora: vinhos nacionais corretos, saborosos e acessíveis

reserva_ouro_novo_rotuloSalton Reserva Ouro – tem sempre aquela pergunta. Me indica um espumante bom e barato? Bom e barato são definições imprecisas, mas no geral entendo que o consumidor quer tomar uma bebida prazerosa, com o perfil que identifica o produto e com um preço com um bom custo benefício. Aí eu indico o Salton Reserva Ouro (em torno de 45 reais, isso é barato para você? Well…), que sofisticou na apresentação e no formato da garrafa – é mais bonita, mas um transtorno para aqueles que têm adega climatizada em casa para armazenar nas prateleiras. Cítrico na entrada, tem um leve toque de pão torrado (resultado dos seis meses de contato com as leveduras). Frescor correto. O Reserva Ouro, além de tudo, me traz na lembrança a marcante figura de Angelo Salton, servindo seus vinhos nas feiras e eventos. E vinho também é feito de momentos assim.

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Mateus Spakling, rosé português

Sparkling Mateus Rosé – tem tudo para gerar um nariz empinado dos esnobes de plantão. Eu também olhei com desconfiança, confesso. Um espumante com o legado do Mateus Rosé, da gigante Sogrape, e de um preço não muito competitivo (em torno de 90 reais)? E para completar vem com esta  presepada de “Sparkling” no rótulo? Mas agradou de verdade. Tem aquela cor dos espumantes rosés que é uma delícia por natureza. Borbulhas no ponto, boa acidez. É um blend das uvas Shiraz e Baga, um tanto curioso, não pela Baga, responsável pelos bons espumantes da Bairrada, mas pela parceria com o Shiraz. No nariz, confirmando na boca, as frutas vermelhas silvestres esperadas de um rosé (morango fresco por exemplo), com um final mais doce. Um descritivo que me ocorreu apenas na terceira taça (jamais uma taça apenas de espumante, lembra?) foi a sensação da mordida de uma maçã, a acidez que provoca e o sabor e salivação que irradia.

Leia também: É um vinho português, com certeza

Piper

Champa francesa e meu cachorro

Piper Heidsieck – clássico, né? Aqui é o Champanhe com “gn”, da região do mesmo nome, que detém a exclusividade do uso do termo Champagne. Exclusivo, mas nem tanto, vai. Assim como os gauleses da revista em quadrinhos Asterix protegiam sua aldeia dos Romanos no norte da França, aqui no Brasil a situação se inverte. A Peterlongo se defende dos franceses e mantém o direito de exibir o nome champagne em seus rótulos, garantido pelo Supremo Tribunal Federal e não se fala mais nisso. Justo. É a produtora do espumante mais antigo registrado no Brasil, de 1913, e nos últimos anos vem se renovando com rótulos de alta qualidade. Voltando aos franceses… A casa, fundada em 1785, apresenta suas armas: boa espuma, cor palha, frutas secas antes e depois do gole e acidez correta. A Pinot Noir é maior destaque do blend (50%) que ainda tem 25% de Pinot Meunier e 20% de Chardonnay.

 

Jansz

“Comprei uma caixa”, disse meu amigo

Jansz Tasmania – um amigo recente, mas não menos importante, me apresentou esta belezinha no apagar das luzes de 2017. “Você conhece este espumante?, ele me perguntou enviando a foto pelo celular. Não conhecia, apesar de ser importado pela KMM, conhecida casa especializada em vinhos da Austrália e que recentemente expandiu seu catálogo para outros países. Gentilmente, ele comprou um caixa e me convidou para provar. Da Tasmânia, para ser sincero, minha única referência era do demônio da Tasmânia e o Taz, o desenho animado que representa o bicho. A proposta, desde 1975, foi de elaborar um espumante de alta qualidade. Serviço feito! O método – olha ele outra vez – foi batizado de “tasmenoise”, uma corruptela de champenoise. A empresa chegou a se associar com o consagrado produtor de Reims, em Champagne, Louis Roederer. O Chardonnay e o Pinot Noir dominam a mescla. Às cegas parece um champagne mesmo. Perlage (as bolinhas), finas e elegantes. Boa cremosidade, as frutas secas e panificação como colchão gustativo, e um final persistente e elegante. Abrimos uma garrafa, abrimos duas… Adorei este espumante do Taz!

 

E um bar de espumantes?

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Um wine bar de espumantes brasileiros no “miolo” dos Jardins

Não é má ideia, não? Foi outra experiência ligada ao mundo das borbulhas que experimentei recentemente. Foi inaugurada em São Paulo, no pedaço com o maior consumo per capita de vinho da cidade, na região dos Jardins. Trata-se  da Champanharia Natalício by Miolo. Fica na Haddock Lobo, 1327. Proposta testada em Porto Alegre, os vinhos são nacionais. O nome já entrega. Os espumantes – e outros rótulos — são exclusivos da Miolo. O wine bar abre às 11h da manhã e fecha só à meia-noite. Tá ali de bobeira às 11h30, antes da reunião? Uma taça de Miolo Cuvée Tradition Brut é uma possibilidade (20 reais). Saiu mais cedo? Happy hour com um Miolo Millésime Brut é uma escolha refrescante e mais refinada. O lugar ainda oferece tapas, tábuas de salames especiais e queijos, sandubas em um cardápio que promove harmonização com as borbulhas. Descontraído, o wine bar valoriza o vinho brasileiro sem discurso, nem nacionalismo barato. Oferece qualidade, variedade e quem sabe abre caminho para outras experiências parecidas na cidade.

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segunda-feira, 10 de outubro de 2016 Brancos, Nacionais, Tintos | 19:17

O vinho brasileiro ganha espaço em restaurantes, em loja exclusiva e na sua casa

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Vinhedos da Guaspari: nova fronteira do vinho, em Espírito Santo do Pinhal, no estado de São Paulo

Vinhedos da Guaspari: nova fronteira do vinho, em Espírito Santo do Pinhal, no estado de São Paulo

Algumas pessoas, as mal informadas, se espantam quando eu digo que tomo vinho nacional – e com alguma frequência. Esboçam aquele sorriso incrédulo seguido de um “ah, vá” e, diante da minha insistência, recorrem ao segundo argumento mais utilizado diante da possibilidade de desarrolhar um rótulo verde-amarelo: “Ok, até tem alguns bons, mas o preço…”.

Sabe nada, inocente!

Vamos lá. Sim, há vinhos nacionais bons e muito bons – e os ruins ou bem meia-boca, alguns têm um preço maluco, outros compatíveis com o mercado e há também os achados.

O mesmo fenômeno ocorre no universo dos vinhos importados – tanto em preço como na qualidade. A combinação de preço e volume faz parte da construção de marca que rege a indústria desta bebida – de toda indústria, a propósito. Vale sempre lembrar que o vinho nacional paga também uma alta carga de impostos: 54,73% do preço da garrafa vai para o governo na forma dos mais variados tributos, o que contribui na formação do preço. No importado a mordida é de 74,73%

Mas se ainda existe este comportamento preconceituoso entre alguns consumidores de vinho, sinais opostos e positivos mostram que o  vinho brasileiro, das mais diversas regiões e estilos, vem conquistando um espaço maior na taça. E se é verdade que o melhor do vinho  é a diversidade, o Brasil hoje faz parte desta equação.

E quais são estes sinais?

Muitos restaurantes, pelo menos em São Paulo, estão aumentando a oferta de rótulos nacionais em suas cartas, além dos obrigatórios espumantes.

Os vinhos antes restritos ao sul do país agora exploram novas fronteiras. Tanto no Nordeste, um projeto mais antigo, quanto nos improváveis estados de Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo (benza deus, São Paulo, quem diria?) e Goiás, e consolidando a vocação da Campanha Gaúcha, nas franjas do Uruguai.

Pequenos produtores de vinhos orgânicos ou biodinâmicos brasileiros também estão encontrando seu público e espaço para comercializar seus rótulos.

As lojas também abrem mais espaço para o vinho nacional. No exemplo mais radical, uma loja e bar em um bairro boêmio em São Paulo vende exclusivamente rótulos brasileiros.

E como temos mesmo este complexo de vira-latas, nada como o endosso de uma publicação internacional de prestígio para consolidar esta tendência. A prestigiosa revista inglesa Decanter publicou em sua edição de outubro uma reportagem de 4 páginas com o título “Golden era for Brazil“, enfatizando que 2016 é um ano histórico para os produtores de vinho brasileiros. No texto, o autor elogia a qualidade e a diversidade (olha só) do vinho nacional, além de destacar as três primeira medalhas de ouro conquistados pelo Brasil no concurso que a revista promove (Decanter World Wine Award) entre rótulos de todo mund. Foram agraciados dois rótulos da Casa Valduga (Casa Valduga Terroir Leopoldina Merlot e o Gran Leopoldina Chardonnay D.O) e outro da jovem Vinícola Guaspari. (Vista do Chá Syrah 2012) (leia mais sobre a Guaspari mais abaixo).

Blog do Vinho bebeu

Nas últimas semanas tenho bebido rótulos brasileiros em restaurantes, bares e em casa. E não foram apenas espumantes. É apenas mais um reflexo do que escrevi acima. Aos vinhos, pois:

Pinot Noir: simples, descontraído, saboroso

paradoxo1Nos restaurantes Modi e no Lambe-Lambe, uma rede que une qualidade e preço e entrega uma culinária saborosa com ingredientes mais simples, o vinho em taça é o fresco e gostoso Paradoxo Pinot Noir da Salton. Uma ótima sugestão do consultor Luis Felipe Campos, responsável pela carta dos restaurantes. Com uvas da região da Campanha Gaúcha, baixo teor alcoólico e fruta delicada,  acompanha bem entradas, pratos mais leves, frango. Agrada também em carreira solo.

Varietal-Pinot-Noir-2012Outro exemplo de Pinot Noir nacional bacana é o Varietal Pinot Noir da Aurora, de Bento Gonçalves, uma delícia de vinho jovem, frutado e que a gente mata uma garrafa num bate papo sem perceber. Fácil de encontrar em supermercados, é uma boa pedida para levar para casa e beber sempre jovem. Agrada também os Tio Patinhas do Baco, com um preço bem acessível (algo como 25 reais)

Menos álcool, mais frescor

vinheticaAinda no universo dos brasileiros conquistando espaço nas cartas dos restaurantes, este rótulo da foto ao lado, da Campanha Gaúcha, foi provado no simpático Allez, Allez!, um bistrô na Vila Madalena.  O Vinhetica – Terroir de Rouge é um achado. Em primeiro lugar, trata-se de um tinto com 12,5 de álcool, que só por isso merece todas nossas mesuras. Supergastronômico, com frutas frescas e acidez bem marcante, mostra um aroma balsâmico. A maceração é do tipo carbônica, como fazem os Beaujolais Nouveau da vida, ou seja, a fermentação acontece dentro da fruta, o que preserva o frescor que se destaca na bebida. O Vinhetica Terroir de Rouge é o resultado da leveza da uva arinarnoa (que desconhecia) com a robusta cabernet sauvignon, um experimento do viticultor francês Gaspar Desurmont que se apaixonou pelo solo brasileiro e por aqui montou seu empreendimento. Já havia provado em um evento, mas na companhia da comida, deu uma valorizada.

Vinho paulista

Os chamados vinhos de inverno, nos quais se incluem os vinhos produzidos em solo dos Bandeirantes, são fruto de uma técnica de cultivo adaptado ao clima da região sudeste/centro-oeste conhecido como poda invertida. Técnica esperta, ela engana o ciclo vegetativo da parreira e gera frutos em julho, agosto, época de menos chuva e clima mais temperado. Minha primeira experiência foi o tinto Primeira Estrada, lá em 2013. Esta técnica, desenvolvida por Murilo Albuquerque, da Epamig (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais), possibilitou a aventura de outros empreendedores que tinham “um vinho na cabeça e uma uva na mão”. Entre este grupo se encontram malucos/empreendedores de Minas Gerais, Goiás e São Paulo, em geral com origem na zona cafeeira destes estados. A Guaspari e a Casa Verrone são dois exemplos.

 Guaspari, agora numa versão mais econômica

Desde que colocou no mercado seus três primeiros rótulos, um aprazível sauvignon blanc e dois syrah (Vista da Serra e Vista do Chá), a Guaspari surpreendeu os céticos, mereceu boas críticas da imprensa especializada e elogios entre os consumidores. Arrasou conquistando o prêmio máximo da Decanter – como contamos acima. Um baita efeito “uau!” para um iniciativa pioneira e iniciante. Mas de bobos eles não têm nada e os louros não vieram por acaso. A Guaspari criou uma estrutura profissional para chegar nisso. Com vinhedos plantados em uma fazenda cafeeira na região de Espírito Santo do Pinhal, no Estado de São Paulo, a Guaspari chegou chegando com um trabalho ousado que contou com a consultoria do enólogo americano Gustavo González – que tem no currículo a vinícola americana Robert Mondavi – e com um marketing imbatível: um vinho de qualidade produzido em São Paulo. Pronto, ganhou as manchetes! E se posicionou com preço de gente grande (cerca de 150 reais a garrafa).

O que leva a uma reflexão sobre preço e vinho nacional: se o vinho é de qualidade, que diferença faz a nacionalidade na hora de colocar a mão no bolso? valedapedra

Este ano a Guaspari lançou uma segunda linha de vinho, um pouco mais acessível, nem por isso na bacia das almas (78 reais): o Vale da Pedra tinto 2015 (também da tinta syrah, que parece ser a uva que mais se adaptou a estes novos territórios do vinho) e o Vale da Pedra branco 2015 (sauvignon blanc, a branca que também se deu melhor). Curiosamente, ao contrário do padrão dos vinhos nacionais, se você procurar a uva na parte principal do rótulo não encontrará. Este novo vinho vem atender esta tendência de vinhos mais jovens, leves e com maior potencial de consumo. A madeira – quando existe – é apenas coadjuvante. É o caso deste syrah com um estilo “chocolate com pimenta”, que tem esta pegada bem marcante no final de boca. As especiarias típicas da uva estão lá, a acidez dá prazer e a parceria com a comida é mais fácil.  Os vinhos são encontrados em sua loja virtual e na rede de supermercados Saint Marche, em São Paulo.

 Casa Verrone, de Itobi para o mundo

caa-verroneVocê sabe onde fica Itobi e Divinolândia? Eu até sei, pois já fui a Itobi, mas garanto que não foi por conta de vinho, que nem sabia que existia. Mas um produtor – a Casa Verrone – arranca do solo destes municípios no interior do Estado de São Paulo, na região da Serra da Mantiqueira, as uvas que maceradas dão os caldos de seus vinhos. E, para surpresa geral da nação, o seu Chardonnay Speciale Casa Verrone 2015 levou o prêmio na sua categoria na Grande Prova de Vinhos do Brasil 2016. Este eu provei em casa, mas comprei na RedButeco, descrito logo abaixo. É um chardonnay de estilo mais amadeirado, amanteigado, que lembra um pouco os brancos dos anos 2000 produzidos no Chile e Argentina, mais gordo que fresco. Um estilo com vários defensores.

 

Vinho de Food Truck

losmendozitos
Quem já passou por eventos e feiras ou deu um rolê pelos FoodTrucks que explodiram em 2015, e estão se adaptando à realidade de  2016, já deparou com a marca Los Mendozitos, que segundo definição dos fundadores trata-se de uma “rede de Wine Bars itinerantes do Brasil especializados em vinhos de produções familiares”. Por itinerante entenda-se trailers e até bicicletas que comercializam vinhos. Uma ideia que apostou na simplicidade, no preço e no vinho em taça.  E deu certo. Agora os Mendozitos resolveram ocupar um espaço fixo no FoodTruck do Vila Butantã – que é formado por trailers tradicionais de comida e algumas lojas fixas ocupadas em cointainers que formam um mini shopping ao livre em frente à sede da Odebrecht, em São Paulo. Ao contrário do modelo de negócio dos trailers, que é de venda de vinho em taça, na loja fixa o consumo maior é de garrafas. A nota curiosa é que, apesar do nome, os vinhos nacionais também têm vez nas prateleiras como os espumantes do Don Giovani e tintos e brancos nacionais. O rótulo que leva o nome da loja, Los Mendozitos, a propósito, é um cabernet sauvignon produzido pela Guatambu, de Don Predito, no Rio Grande do Sul. Eu imaginava que seria um Malbec de Mendoza… Sem grandes pretensões, correto, com bons taninos, é outro exemplo de vinho nacional ocupando os espaços que ampliam o consumo dos nossos rótulos e atingem um público diversificado.

Um tinto de outro mundo

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O mundo do produtor independente Eduardo Zenker é o vinho de garagem. Não é uma força de expressão. Literalmente ele faz suas alquimias em uma garagem em Garibaldi – da mãe. Foi ali que um casal de amigos provou e trouxe esta garrafa de um Ancellota de 2013 que foi batizado como o sugestivo nome de Alma Penada, já que é um caldo  condenado à extinção. Explicando: as parreiras de onde vieram as uvas foram cortadas pelo fornecedor e este vinho não se repetirá. Este eu provei na casa desses amigos.  Vinhos como os de Zenker fazem parte do movimento de vinhos natureba, que aqui em São Paulo tem como maior divulgadora a Enoteca Saint Vin Saint da Lis Cereja. E só o fato de este tipo de vinho diferentão, que defende a interferência mínima do homem no vinhedo e na vinificação, ter um espaço conquistado, já mostra que há vinhos brasileiros em todos os estilos disponíveis. E público para isso – e até uma feira anual pra lá de concorrida que reúne vários produtores. O Alma Penada é bem escurão, estava muito floral, tinha uma espécie de gosto de terra. Na proposta orgânica, o sabor da uva parece mais natural, mas surgem algumas arestas, algo parece meio desequilibrado, o que os defensores classificam como qualidade intrínseca do processo. Definitivamente é um caldo controverso, mas que vale ser conhecido. Ainda citando a tal reportagem da Decanter, um dos rótulos indicados pelo autor é o Era dos Ventos, Peverella, 2013, do casal Luis Henrique e Talise Zanini em parceria com o proprietário do restaurantes Aprazível, Pedro Hermeto uma espécie de vinho laranja tupiniquim e o Atelier Tormentas, Vermelho Cabernet Franc 2015, do polêmico vinhateiro Marco Danielle, do qual escrevi em 2009 e nunca mais cruzei. Este eu preciso provar.

Red: um buteco de vinhos verde-amarelos

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Por fim, fui conhecer um projeto que parecia pra lá de original e ousado: o Red Buteco. Trata-se de um bar e loja exclusivos de rótulos brasileiros. Voltado para o público jovem e encravado também na Vila Madalena, onde a cerveja, o chopp e a caipirinha reinam incontestes, parecia um suicídio comercial. E aparentemente está dando certo. O público escolhe o vinho nas prateleiras, os atendentes são jovens sommeliers que conhecem os rótulos e tudo é servido em um ambiente moderno e descontraído. Não há muito ritual, bebe-se pelo prazer, pela companhia, no buteco. Para acompanhar a bebida, há um cardápio restrito de aperitivos (gostei da coxinha. Pode coxinha e vinho? Pode!) e pratos rápidos (menos bons). Os rótulos disponíveis variam desde alguns produtores conhecidos do Sul, como Lidio Carraro, Pizzato, Dal Pizzol, Cave Geisse até rótulos de regiões experimentais e pouco conhecidas, do Paraná (espumante Poty), Minas Gerais (Luis Porto) e evidentemente São Paulo (Guaspari e Casa Verrone, foi lá que comprei o meu).

Os proprietários são três jovens com carreira em outra atividade – economista/sommelier, arquiteto/urbanista e advogado/Dj, respectivamente. O público é alegre, predominantemente feminino. Um consumidor novo, com menos vontade de encontrar frutas do bosque no vinho e mais vontade de ter prazer com a bebida e sua companhia.  Acho que não podia ter notícia melhor para o vinho brasileiro.

Serviço:
Red Buteco de Vinhos Brasileiros
Rua Mourato Coelho, 1.160, Vila Madalena, São Paulo, SP

 

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sexta-feira, 12 de agosto de 2016 Blog do vinho, Brancos, Tintos | 00:01

Como escolher o vinho certo para o seu pai

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Família feliz de pais que curtem vinho…

Presentear os pais em seu dia é uma tarefa um pouco mais complicada do que, por exemplo, escolher um agrado para as mães. Quando o segundo domingo de agosto se aproxima sempre surge a dúvida: o que dar para o meu pai? Camisa, gravata, pijama? Socorro! Que tal um vinho? Uma garrafa de vinho é o presente curinga. É um produto com algum toque de sofisticação, um objeto de desejo em alguns casos, um desejo de consumo em outros e no geral causa uma boa impressão tanto em quem sabe a diferença entre um cabernet sauvignon e um merlot como naqueles que se aproximam de uma garrafa do fermentado apenas em ocasiões especiais.

Decidido o presente, vem o segundo passo. Qual vinho comprar para o progenitor em seu dia? Aí a rolha torce o gargalo. São centenas de rótulos, variedades e preços. Como acertar no vinho? Gosto é um sentido muito particular, é resultado do meio que se vive, de experiências gastronômicas, de conhecimento, e de um elemento mais subjetivo ainda, aquela associação entre o paladar e a memória. A escolha de um presente vem acompanhada também de um problema que afeta todos nós neste momento de crise financeira: a grana disponível para gastar no mimo.

Se você conhece o gosto do seu pai, a escolha é fácil, basta escolher a garrafa  na sua loja de confiança ou site preferido. Se não conhece seu gosto, você pode optar por uma solução diferente: escolher o vinho pelo tipo de experiência que seu pai tem com a bebida, ou mesmo baseado no momento atual de sua vida. O Blog do Vinho selecionou alguns perfis de pais possíveis e vai tentar te ajudar nesta tarefa: agradar seu velho.

Para o pai que raramente bebe vinho

Aqui o elemento surpresa e de introdução ao vinho é o diferencial. Ele pode até estranhar a escolha (“Não tinha uísque onde você comprou esta garrafa?”, ele pode pensar). Mas o objetivo é este mesmo, introduzi-lo ao universo dos tintos e brancos. Portanto, não vale a pena gastar muito dinheiro em um rótulo bacana, pois o seu pai não vai perceber a diferença entre um vinho premiado e outro do dia-a-dia. Talvez até prefira o segundo ao primeiro. A dica é escolher mais de um rótulo de até 40 reais de vinícolas nacionais, chilenas, argentinas, portuguesas  fáceis de encontrar em supermercados e em sites de compras. A propósito, com esta crise muitos rótulos entram em oferta próxima a estas datas e vale a pena ficar de olho. Vá de cabernet sauvignon chileno, malbec argentino, merlot nacional. Nestas condições você entrega no mínimo duas, três garrafas de presente. Se ele gostar da brincadeira e o vinho se tornar um hábito, no ano que vem você terá de consultar a sugestão seguinte…

Para o pai que é um bebedor eventual

Seu pai já curte uma garrafa aos domingos, ou com os amigos, mas sempre com aquele argumento de que gosta, mas não entende de vinhos. Aqui vale subir um pouco a régua de valor e qualidade, os mesmos brasileiros, chilenos, argentinos e portugueses (os rótulos mais consumidos no país). É fácil reconhecer, no geral eles têm um selo de reserva, informam no contra-rótulo um estágio em barricas. E o preço médio fica entre 60 e 80 reais. Se possível, tente descobrir algum rótulo que ele já provou e tem boas lembranças, para firmar um hábito.

Para o  pai que está começando a se interessar por vinhos

Seu pai já não é mais um principiante, lê revistas e livros sobre vinho e quem sabe é até leitor deste blog. Pode estar no limite entre o esnobismo (do tipo eu sei tudo) e o amadorismo (gira até copo de água), mas está evoluindo na percepção do gosto e descobrindo novidades Este é o presente que ele espera do seu filho, até como reconhecimento desta sua nova habilidade. Se o seu pai já tem uma adega, consulte os rótulos armazenados, eles podem dar uma dica de suas preferências. Outra saída é procurar algo diversificado, que aumente sua qualificação de  degustador de vinhos, como por exemplo um rótulo do Líbano, uma região menos conhecida da Espanha, como o Priorato, um branco na Eslovênia, ou um vinho laranja, que virou uma certa “modinha” entre os conhecedores nos últimos tempos. Outra opção é escolher um vinho de uma região menos óbvia de um país mais conhecido, como Salta e Patagônia, na Argentina.  Não é difícil achar estes rótulos nos sites e lojas de boas importadoras como Mistral, Decanter, WordWine, Inovini, Grand Cru, Vinci

Para o pai que é especialista

Aqui temos um problema. Todo mundo tem sempre a mesma ideia, afinal papai é um enófilo juramentado, capaz de distinguir um vinho pelo aroma, que reconhece a região pelo rótulo e é capaz de recitar de cor as principais cepas de cada país. Ou seja, para o resto da família papai é um enochato e presentear com uma garrafa pode significar se arriscar em terreno minado. Se você tem dinheiro disponível, a solução é fácil, vá até uma boa loja multimarcas ou sites de importadoras e procure aqueles rótulos com boa pontuação de Robert Parker, Wine Spectator, Gambero Rosso, Decanter etc e aí não tem muito erro (a não ser que ele seja daquele tipo off Broadway, que detesta os críticos de vinho famosões). Se a grana está curta, um conselho, esqueça o vinho e parta para um produto relacionado, por exemplo um bom livro sobre o tema. A chance de você receber um sorriso amarelo diante de um rótulo mais ou menos é muito grande para arriscar seu rico dinheirinho. Outra opção são as acessórios de vinho, uma espécie de brinquedo do enófilo de carteirinha

Para o pai que defende causas verdes

Há vinho para todo estilo de gente. Pais verdes, militantes do planeta e que nem por isso abdicam de uma boa taça de vinho têm uma forte relação com produtos orgânicos e biodinâmicos. Estes tipos de vinho são certificados e seguem algumas regras mínimas: como buscam um vinho mais natural, não usam defensivos agrícolas – apelam para recursos naturais para controle de pestes -, evitam aquelas garrafas muito pesadas, são contra uso de leveduras de laboratório e outros artifícios químicos para correção das safras. Como conceito, o vinho é um produto da natureza e qualquer interferência é condenada. Já os biodinâmicos têm uma relação mais etérea com o cosmo, as estrelas, as fases da Lua e o ciclo da terra. Pode até parecer papo alternativo mas é uma tendência que vem crescendo na indústria do vinho e o resultado de fato surpreende no sabor e aromas menos fabricados e mais instigantes. Para pai verde, um vinho odara! É fácil reconhecê-los, no geral eles alardeiam seu diferencial orgânico ou bio no próprio rótulo.

Para o pai que é estrangeiro ou morou no exterior

Se existe a escolha do vinho por tipo de consumidor, também existe a decisão por afinidades. Pais nascidos em outro país ou que viveram um período fora do Brasil provavelmente vão ter uma afinidade afetiva com caldos de sua origem – ou que remetam a um passado estrangeiro. Pais italianos, portugueses, espanhóis, franceses, chilenos e argentinos estão bem servidos de rótulos no país, e mesmo aqueles libaneses, austríacos, alemães também podem ser contemplados. O Brasil importa vinhos de mais de 25 países. É fácil encontrar um que combine com as origens de seu pai. Em geral eles estão organizados por país nas prateleiras das lojas e nos sites de vinho. É uma maneira bacana de reforçar os laços que envolvem suas raízes. E uma boa desculpa para abrir um vinho com o velho, em memória dos bons tempos… Já se seu pai é japonês, chinês ou russo melhor desistir desta alternativa.

 

Se o seu pai é separado de sua mãe

Se a separação é recente, aposte num tinto encorpado, meio alcoólico, um vinho meio cowboy, quase mastigável, com forte presença de aromas tostados de barrica, daqueles que sua mãe certamente iria odiar. Serão dois prazeres em uma só garrafa. Geralmente são aquelas garrafas pesadonas, malbecs argentinos, tempranilos da Rioja, tannat uruguaios. Tanto melhor se forrem desarolhados junto a um suculento naco de picanha sangrando… Um momento ogro das vinhas.

Para o pai que resolveu assumir que é gay – ou que é gay

Se eventualmente seu pai resolveu sair da adega, então por que não brindar esta opção corajosa do velho com uma garrafa de vinho? Ou mesmo se o seu(s) pai(s) são gays. A ordem do dia é a diversidade de gêneros. Um pai gay merece um espumante rosé nacional – são ótimos -, ou mesmo um champagne, que é a bebida da celebração. Claro que não se trata de uma bebida exclusiva para gays, mas é uma maneira bem-humorada de presenteá-lo e curtir sua opção sexual com um brinde animado.

Para aproximar a relação com seu pai que está estremecida

Pais e filhos são humanos, demasiadamente humanos, e nem sempre a relação é boa. Se o vinho aproxima as pessoas, ele pode também resgatar uma relação familiar que o tempo, por alguma razão, arranhou. Um porto envelhecido, do tipo Tawny, ou de safras exclusivas, do tipo Vintage, são a dica. São fortificados intensos, chamados vinho de meditação, que acompanham bem um charuto e são o elixir da boa conversa. Pode ser um bom empurrão para uma aproximação entre vocês, um momento em que as fraquezas e fortalezas desta relação podem ser aplainadas. Afinal é um consenso entre os bebedores que vinho é para ser compartilhado. E você e seu pai merecem este tempo mais esticado para passar a vida  a limpo, entre um gole ou outro de um Porto.

O melhor vinho que tomei com meu pai

Meu pai (91), eu (52) e um brinde de um Marques de Casa Concha (40)

Meu pai (91), eu (52) e um brinde de um Marques de Casa Concha (40)

O prazer do vinho também está associado à companhia, ao momento, ao entorno. Neste dia dos pais, e em todos que puder, tome um vinho com o seu. E aqui vai minha experiência. O rótulo chileno Marques de Casa Concha, da vinícola Concha y Toro,  comemora 40 anos este ano – foi lançado em 1976. Em vez de simplesmente reunir críticos em uma degustação tradicional convidou alguns clientes, especialistas e amigos para compartilhar algumas garrafas da marca em um jantar no Terraço Itália, tradicional restaurante paulistano,  na companhia de seus pais. Foram servidas três variedades: chardonnay, carmenère e cabernet sauvignon (meu favorito e mais tradicional). Depoimento sincero. Olha, eu já tomei o Marques de Casa Concha em diversas ocasiões: na companhia do seu enólogo principal, Marcelo Papa, que há dez anos elabora os tintos e brancos desta clássica linha; na própria vinícola, próxima de Santiago, no Chile; em almoços em casa e jantares de lançamentos de safras em restaurantes. Mas não tem igual, brindar com meu pai foi outra experiência. Foi o melhor Marques da minha vida, aquele que brindei com meu velho e outros filhos e filhas, acompanhados dos seus. Você não vai perder a chance de brindar com o seu, vai?

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terça-feira, 2 de agosto de 2016 Novo Mundo, Rosé, Tintos | 08:01

Crios: um vinho argentino conectado com o público mais jovem

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Um exemplo de um novo rótulo do Crios, convivendo ainda com o desenho tradicional nas prateleiras de um conhecido supermercado de São Paulo

Um exemplo de um novo rótulo do Crios, convivendo ainda com o desenho antigo nas prateleiras de um conhecido supermercado de São Paulo

A linha Crios, o cartão de visitas da Susana Balbo Wines, é um sucesso de crítica e de público. O rótulo, manjado entre os bebedores de tintos e brancos argentinos, mostra o contorno de uma grande mão espalmada que acolhe outras duas, menores. Este símbolo familiar traduz o nome e a história do vinho desde seu lançamento. A mão maior é da enóloga Susana Balbo, a criadora dos caldos, a menor dos filhos, então crianças. O nome do vinho e sua iconografia resumem o conceito desta delicada relação: a criação do vinho e dos filhos. Uma narrativa que faz todo sentido. E, além de tudo, fácil de reconhecer nas prateleiras.

Mas a empresa – que tem mais de 50% de seu mercado nos Estados Unidos – queria se conectar com um público mais jovem. O que eles fizeram? Renovaram. Saíram da zona de conforto. Mudaram um rótulo conhecido e bem-sucedido. Os nove vinhos da linha Crios – Malbec, Torrontés, Rosé de Malbec, Cabernet Sauvignon, Red Blend, Pinot Noir, Chardonnay, Syrah-Bonarda, Limited Edition – estão, desde o ano passado, com nova roupagem. A mudança começou em 2015, nos Estados Unidos, e depois de alguns meses foi chegando a outros países, incluindo o Brasil.

Todos os novos rótulos, cada um com sua característica: fáceis de indentificar

Todos os novos rótulos, cada um com sua característica: fáceis de identificar

Ana Lovaglio Balbo, filha e diretora de marketing da Susana Balbo Wines, conta como foi o processo. Foram realizados alguns “focus group” com clientes classificados como “Mature Millennials”, entre 26 e 34 anos, nos estados da Califórnia, Texas e Chicago. O objetivo das pesquisas era entender a relação deste público com o consumo de vinho.  O vinho, conclui a pesquisa, está inserido em um novo estilo de vida, que se caracteriza pela independência, o espírito de aventura e uma conexão com mundo intermediada pelas redes sociais. Os rótulos buscam traduzir valores que identificam esta geração que age diferente, consome baseado em outros critérios e quer entender as características de cada variedade sem muita complicação. A mensagem atribuída a cada vinho da linha Crios e a estratégia de marketing e comunicação tem uma pegada mais informal. No vídeo de divulgação da campanha, o vinho deixa de ser protagonista e se torna parte da vida de jovens que praticam skate, tocam música, se relacionam com os amigos e bebem vinho, por prazer, no parque, na cozinha, em qualquer lugar. É o vinho estilo #VemPraRua!

O design, mais limpo, conhecido como all type (privilegia o texto), foi batizado como “vintage-moderno” (bom, gente, as agências estão aí para isso mesmo, justificar seu pacote de ideias e respectiva remuneração). O mesmo símbolo familiar das mãos que tornou o vinho conhecido está preservado na parte superior do rótulo, mas reduzido à forma de um ícone – a lógica da renovação inteligente, afinal, não é se desfazer da tradição, mas transformá-la. O nome do vinho, Crios, a assinatura da enóloga e a variedade da uva ou tipo do vinho ganham destaque. A maior novidade, porém, é a uma breve descrição da característica daquele vinho na cara do gol, no rótulo principal, resultado também das pesquisas: “As pessoas não costumam ler os contrarrótulos”, afirma Ana.

Manuel Luz, o filósofo do vinho uma taça de Nosotros na mão e várias ideias na cabeça

Manuel Luz, o filósofo do vinho com uma taça de Nosotros na mão e várias ideias na cabeça

 

Mas vamos combinar que não basta mudar a forma e a mensagem se o conteúdo é ruim. Isso vale para tudo nesta vida. A linha Crios é aquele tipo de vinho que você indica sem erro para qualquer pessoa que deseja conhecer um bom Malbec (com aqueles toques de cereja e floral) ou um Torrontés agradável – ou seja, vinhos que traduzem o solo argentino com qualidade e consistência. Segundo Manuel Luz, descrito nos releases como sommelier e consultor de Wine Intelligence da Cantu Importadora, mas na verdade um filósofo e polemista do vinho, o Crios já é o quarto vinho argentino mais vendido no Brasil. O Manuel sabe das coisas…

Leia também: 50 vinhos argentinos que vale a pena conhecer. Parte 1 – Salta e Patagônia

Crios Malbec (R$ 61,00) leva a descrição “Frutado com notas picantes” no rótulo, como comunicação  a frase “perigosamente fácil de beber” e carrega o slogan “Seja Valente”, remetendo ao desafio de Susana Balbo ao criar um Malbec que colocou a Argentina no mapa do vinho. O Crios Torrontés (R$ 57,00) leva no rótulo as definições “Seco, crocante e aromático” e na campanha é vendido com um vinho fácil de harmonizar e desafia o consumidor a “Quebrar Regras”, assim como a enóloga fez ao criar um Torrontés com notas elegantes de flores e frutas brancas, mais seco e menos doce que os produzidos até então. Por fim, talvez aquele vinho que tenha a maior conexão com o público-alvo é o Crios Red Blend (R$ 61,00), que instiga o consumidor a “Explorar Coisas Novas”, pois é uma combinação de várias uvas tintas.

Pioneira e exigente

Susana Balbo é um ícone da enologia Argentina, a primeira mulher graduada na Escola de Enologia Don Bosco, em Mendoza, trabalhou em grandes vinícolas como Catena e Michel Torino, em Salta, e foi responsável por colocar a uva branca Torrontés no mapa do mundo do vinho de qualidade. Foi presidente da Wines of Argentina e em 1999 criou sua própria empresa onde a linha Crios se notabilizou por vinhos frescos, frutados e com uma boa relação de qualidade e preço. O resto é história.

Susana Balbo, a criadoro do Crios, apresenta suas novas criações. O espumante rosé (ao fundo) é sensacional

Susana Balbo, a criadora do Crios, apresenta suas novas criações. O espumante rosé (ao fundo) é uma boa surpresa.

Corre entre os argentinos que a profissional Susana Balbo é uma pessoa exigente e difícil de lidar. O que não demonstra em público. Não sei se a informação procede. Mas sabendo desta fama, perguntei a sua filha Ana como foi convencer sua mãe a mudar o rótulo do Crios e toda comunicação em torno da campanha do vinho. Ela respondeu: “Minha mãe topa qualquer mudança, ela deu toda força”, e completou “Mais difícil foi convencer o pessoal do comercial”. Susana pode até ser exigente e difícil, mas não é nada boba e sabe que o mundo está mudando. O vinho precisa oxigenar, não só na taça, mas sua mensagem, sua abordagem. Esta é uma experiência a se acompanhar. O processo de troca de rótulo é um processo longo, explica Ana Balbo: “É uma mudança muito recente, que leva tempo para mostrar os resultados. E vem acompanhada de um plano de marketing que estamos adotando com o vídeo, os eventos ao ar livre e ações de engajamento nas redes sociais”.

Vinhos premium

Uma boa vinícola é aquela que faz tanto um vinho de entrada bom, consistente, como o Crios, quanto caldos mais elaborados, exclusivos. Susana Balbo, claro, tem sua linha  premium e superpremium e trouxe alguns destes rótulos a São Paulo em recente exibição a convite de sua importadora, a Cantu, da qual este blogueiro participou. Dos muito caros e premiados (a linha Nosostros, a 690 reais a garrafa, entra naquela categoria que tem quase a obrigação de agradar mas afugenta pelo preço e não acho que cabe neste espaço) à nova linha Tradícion, estes são meus destaques.

Susana Balbo Signature Rosé
Região: Mendoza/Valle de Uco
Um expressivo, delicado, aromático espumante rosé, elaborado com 60% de Malbec e 40% de Pinot Noir. Um sucesso nos Estados Unidas, o maior mercado dos rótulos da Susana Balbo Wines. Me surpreendeu. É fresco, intenso e com muita fruta. Uma boa alternativa de espumante, apesar de preço não muito convidativo (R$ 189,00). “Acho que havia um espaço para um rosado de qualidade na Argentina”, ressaltou Suzana Balbo. Chega ao mercado brasileiro no final do ano.

Susana Balbo Tradícion Malbec 2012
Região: Mendoza/Agrelo – Luján de Cuyo
Especialmente desenhado para o paladar brasileiro – só vai existir por aqui e desconfio que vai agradar o gosto tupiniqim –, este Tradícion é um malbec puro sangue, sem misturas de outras uvas, com 14 meses de estágio em carvalho francês, que dá potência, fruta madura, um tanino mais presente, uma bebida mais nervosa para quem aprecia caldos mais quentes. Vai custar cerca de 89 reais para o consumidor final.

BenMarco Expressivo 2011
Região: Mendoza/Gualtallary (Valle de Uco)
Não se trata de um marca nova, mas é um vinho muito expressivo (será que fui influenciado pelo nome, produção?), fruto do trabalho do viticultor Edy del Pópolo em vinhedos de altura. Quando a gente fala que o vinho é algo vivo, não é apenas um chavão. A primeira garrafa servido deste vinhaço estava bouchonné (o vinho estava contaminado e deu “um perdido”). Cheira aqui, ali, constatado o problema, todas as taças foram trocadas. Aí, sim, ele revelou todo seu potencial. Na falta de melhor definição o BenMarco é um vinho suculento, que começa com fruta evidente e aparece um chocolate mais para o final. Macio, maduro, traz nuances e camadas de seu blend (anote a composição: 65% Malbec, 30% Cabernet Franc, 5% Cabernet Sauvignon). Vale o investimento de R$ 270,00.  Já dá para abrir já e se deliciar. Pode guardar e provavelmente outros sabores virão.

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quinta-feira, 7 de abril de 2016 Espumantes, Tintos, Velho Mundo | 17:52

Lambrusco de qualidade, presunto e mortadela

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Alberto Medici: "Lambrusco cru". Topa provar?

Alberto Medici e seu Concerto: “Lambrusco cru”.

Recebi um convite para um jantar no restaurante Friccò, em São Paulo, onde todos os pratos e entradas seriam acompanhados de vinhos do produtor italiano Alberto Medici, da vinícola Medici Ermete. Poderia ser mais um desses eventos que juntam gastronomia bacana com tintos e espumantes de alto coturno se não fosse um detalhe: o produtor em questão elabora apenas Lambruscos, tinto levemente frisante que a maioria dos especialistas e bebedores de vinho torce o nariz – e se tiver em casa reserva para a visita eventual do cunhado.

Preconceito? Não é por acaso. 60% dos vinhos italianos importados no Brasil são do tipo Lambrusco de produção massificada (em geral grandes cooperativas) e qualidade duvidosa. Duvidosa para quem, cara-pálida? Exatamente para aqueles que apreciam um fermentado com aquela combinação de acidez, corpo, taninos, fruta e intensidade que resultam em bons vinhos. Os Lambruscos do tipo, digamos, popular fazem sucesso por uma conjunção de fatores entre eles o baixo preço, o toque frisante, o baixo teor alcóolico e principalmente pelo açúcar residual que torna a bebida doce e faz a alegria dos brindes dos casamentos, servidos gelados em taças de champanhe.

A diferença não está apenas nos detalhes, em muitos casos é o essencial que define um vinho. Medici Ermete elabora Lambruscos de grande qualidade na região da Emilia-Romana, e o chef do Friccò, Sauro Scarabotta, nascido na região da Úmbria, produz finos embutidos artesanais curtidos em seu restaurante. O que me atraiu a este encontro foi a oportunidade de rever preconceitos – eu também desgosto, para ser educado, de Lambruscos no geral – e provar um rótulo de Lambrusco com tradição e certificado de origem DOC (Denominazione di Origine Controllata).

Mas Lambrusco é um tipo vinho ou de uva?

Momento Wikipedia! Lambrusco é um vinho frisante (ligeiramente borbulhante, resultado da fermentação na garrafa, os bons), com boa acidez, baixo teor alcóolico e um toque doce que varia de acordo com sua qualidade. Ele é produzido na região norte da Itália, na Emilia-Romana, que se encontra no centro de um triângulo onde nas pontas se destacam as regiões vinícolas mais famosas da Toscana, Veneto e Piemonte.

O Lambrusco é essencialmente um vinho tinto, mas pode ser encontrado nas versões branco (no geral não são bons) e rosé. Além de produzir espumantes interessantes. Não é um vinho de guarda, mas para ser bebido ainda jovem. A região da Emilia-Romana é reconhecida também por seus embutidos, como o caso do presunto di Parma.  A combinação de um com o outro é espetacular. Parma é um dos cartões-postais do roteiro da boa mesa da Itália. Se um dia tiver a oportunidade, não deixe de ir – e ficar mais de um dia.

Lambrusco também é o nome da variedade de uva cultivada nas planícies da Emilia-Romana, entre Modena e Parma. Na verdade, é uma família de uvas. As subvariedades mais conceituadas são: Lambrusco di Sorbara, Lambrusco di Grasparossa. Lambrusco Marani e Lambrusco Salamino.

O dia em que provei um Lambrusco. E gostei

Foram dois os destaques, um espumante brut rosé e um tinto seco. Se confesso que nunca havia bebido um bom Lambrusco – o que mostra que este colunista compartilha sua ignorância em público sem ficar vermelho -, muitos menos havia provado um espumante desta uva. Foram duas boas surpresas.

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Unique Spumante Rosé Brut 2012
Medici Ermete/Tenuta Rampata
Uva: Lambrusco Marani
Importador: Decanter
Preço: R$ 153,00

É um espumante elaborado pelo método clássico (segunda fermentação na garrafa, 30 meses de contato com as leveduras). O que significa que as bolhinhas são mais presentes e longas e não apenas aquele toque meio de agulha que caracteriza o frisante. Um frisante tem de 2 a 3 atmosferas por pressão, o que significa que a pressão no interior da garrafa é duas ou três vezes maior do que fora; um espumante tem 6. Por isso faz ‘Pow”, quando aberto! Tem boa estrutura, cor rosada bem delicada, frutas frescas e final refrescante. Às cegas diria que é um Lambrusco? Não. Apenas imaginaria um espumante de boa qualidade. O preço não é lá convidativo comparado a um espumante de gabarito similar. Mas vale a experiência; o grande barato do vinho é  provar diferentes rótulos de diferentes lugares.

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Arte e Concerto
Reggiano Lambrusco DOC
Medici Ermete/Tenuta Rampata
Uva: Lambrusco Salamino
Importador: Decanter
Preço: R$ 95,00

Este foi o Lambrusco que fez rever meus (pre)conceitos. Trata-se do primeiro Lambrusco de vinhedos únicos do mercado (manja quando colocam no rótulo a inscrição single vineyard? É isso, sinônimo de origem e qualidade, significa um vinhedo selecionado). O produtor Alberto Medici, representante da quarta geração da família Medici à frente da vinícola, mostra com orgulho uma foto de uma garrafa de Concerto ao lado de um Don Pérignon nas prateleiras da prestigiada loja Harrods, em Londres. “É um Lambrusco cru!”, argumenta, usando um termo francês que traduz qualidade a um vinho. “Há sete anos o Concerto conquista os tre bicchieri, cotação máxima do Guia Italiano Gambero Rosso”, conta satisfeito. São produzidas 150.000 garrafas desta belezinha. As uvas são de plantas de baixa produção, outro sinônimo de cuidado e seleção, e o suco fica de 5 a 6 dias em contato com as cascas para maior extração de cor e sabor. As bolinhas são muito finas, pouco perceptíveis. No aroma aparecem frutas vermelhas frescas, um pouco de flor. Na boca é um vinho seco, corpo médio, muito frutado, tem uma doçura na entrada que é cortada pela acidez gostosa e embalada pelo toque de agulha que provoca um final persistente/refrescante. O teor alcóolico de 11,5% é perfeito para este tipo de bebida e convida um refil na taça.

Lambrusco & presunto e mortadela

Os embutidos do chef Sauro – mortadelas, presuntos – e também uma lasanha servida como prato principal foram parceiros ideais do Lambrusco Concerto, seguindo a lógica da região de origem do vinho. O Lambrusco deve ser servido numa temperatura de 14º a 15º, bem fresco, mas não gelado. A gordura dos embutidos baila entre um gole e outro deste caldo de muita personalidade. Portanto, se quiser uma combinação gostosa e sem erro de mortadela e vinho, vá de Lambrusco mais seco de boa cepa. Há quem recomende Lambrusco para acompanhar a brasileiríssima feijoada pelos mesmos motivos: acidez corta a gordura. Eu prefiro uma caipirinha, na boa.

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Embutidos do Friccò, curtidos na adega do restaurante

Segundo Alberto Medici, toda produção é comercializada dois meses antes do lançamento da safra seguinte. Provoco Alberto. “E como vencer a má fama dos Lambruscos em todo o mundo?”. Ele abre um sorriso e exibe a taça de um Concerto cheia: “Assim, promovendo encontros com jornalistas, formadores de opinião e apreciadores e mostrando nossa qualidade e como o vinho combina bem com um determinado tipo de comida”. Mas Alberto não  tem do que reclamar. A Ermete Medici exporta 70% da produção para 70 países. Estados Unidos e Japão são os principais mercados. E você, topas provar?

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quarta-feira, 23 de março de 2016 Brancos, Velho Mundo | 10:39

Vinho verde e bacalhau

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Bacalhau à Brás & Alvarinho: afinados como uma dupla sertaneja

Vinho e bacalhau é a parceria ideal. E na sexta-feira Santa aumenta o interesse pelo tema. Há os que preferem os tintos (os portugueses, por exemplo), e aqueles que privilegiam os brancos (no caso este que vos escreve). O post de maior consulta neste blog é justamente aquele que coloca esta preferência em questão: Vinho e bacalhau: tinto ou branco?  Como uma dupla sertaneja, o peixe (bacalhau é peixe?) e o vinho se complementam: o primeiro assume a voz principal e o segundo faz a segunda voz, apoiando o prato. Um não vive sem o outro.

Para testar o papel do vinho nesta combinação de tons agudos e graves, este blog aceitou o desafio proposto pela Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV) e testou na prática a harmonização de três rótulos de vinho verde, da uva alvarinho, com um prato de bacalhau. Para este colunista trata-se de levar a experiência para o leitor em busca de alternativas. Para a CVRVV, que trabalha numa campanha de marketing que associa os vinhos verdes a “Um mundo mais refrescante”, mais leve e mais espontâneo, a aposta é no consumo de mais vinhos da região, claro. Cada um no seu quadrado. Ao eventual leitor cabe a decisão se a proposta funciona ou não.

Vinho verde tem cor verde?

Meu filho mais novo outro dia topou com uma caixa de vinhos verdes em casa e fez aquela observação comum àqueles que depararam com o termo pela primeira vez: “Pai, vinho tinto, branco e até rosé eu conheço, mas existe vinho verde também?”. Existe, mas claro que não é verde.

O Minho, localizado no noroeste de Portugal, é o cenário da região conhecida como do vinho verde. Respondendo à dúvida do meu filho – e talvez de alguns leitores -, o verde apenas dá nome à região e não descreve a cor da bebida (pode até pintar um vinho branco com reflexos esverdeados, mas acho que seria bastante estranho um vinho cor verde-abacate, por exemplo). A explicação do nome é até bem sem graça. O elevado índice de chuvas (em média 1200 mm.) proporciona uma vegetação exuberante e verdejante, e daí o nome verde. Outra versão, que carece de precisão, diz que as uvas eram colhidas ainda verdes por conta das chuvas o que daria o nome à região. Há ainda aqueles que contrapõem um vinho jovem, característico da região  (chamado de verde em Portugal) àquele que é mais maduro.

Seja o que for, a produção de vinhos na região é predominantemente de brancos – mas também se encontram rosés, espumantes e até tintos (na boa, são bem difíceis estes últimos). Vamos ao que interessa: a despeito das outras variedades, os vinhos que fazem a fama do lugar, e são reconhecidos no mundo, são os brancos.

O que se pode esperar de um vinho verde? Eles são frescos, aromáticos, de baixo índice alcóolico (média de 12,5%), produzidos com uvas nativas e na sua grande maioria feitos para beber ainda jovens. Naqueles mais populares e fáceis de beber é percebida uma agulha, um tanto de gás que proporciona aquela sensação de uma bebida frisante e um toque mais doce de açúcar residual.

Para aqueles que sempre questionam o consumo do vinho branco no Brasil, que de fato é pequeno, o vinho verde mostra musculatura na ex-colônia. São exportados para o Brasil mais de 2 milhões de garrafas por ano. O crescimento entre 2004 e 2014 foi de 300%! Nada mal.

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Os três rótulos à prova: frescor na taça

Três alvarinhos e um bacalhau

Alvarinho é a principal casta do vinho verde e a mais expressiva. Se caracteriza por acidez marcante, aromas de frutas brancas como pera, maça, algo cítrico e muita flor. Produz rótulos de extremo frescor, secos e aromáticos, para serem bebidos logo.O alvarinho também é a espinha dorsal de brancos que, com algum tempo de garrafa, apresentam uma bela evolução, com maior persistência em boca e boa estrutura.

Os três vinhos verdes provados revelaram perfis variados da alvarinho: frescor, persistência e mineralidade.

Importante, um vinho verde deve ser servido numa temperatura mais fresca, em torno de 10 a 12ºC.

Os pratos, na sequência foram:

 

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Quinta da Lixa – Alvarinho -2013
Vinho Regional Minho
Produtor: Quinta da Lixa
12,5% de álcool
Importador: Pão de Açúcar
R$ 60,00

Esta edição da Quinta da Lixa é um rótulo exclusivo do grupo Pão de Açúcar. Eu gosto de vinhos de supermercados, têm uma ampla distribuição e são mais fáceis de encontrar. É um alvarinho seco, de acidez presente – traz aquela salivação gostosa -, refrescante, fresco, jovem (como tem de ser) e com uma maçã verde e um citrino no aroma que se confirmam na boca. É um vinho verde por excelência. Delicioso, fácil de gostar. Perfeito para começar a brincadeira, uma segunda voz adequada para a salada, talvez para uma brandade, mas apanhou das postas do bacalhau à bras e do creme que o envolvia o prato.

Outros vinhos verdes mais populares, e de menor preço, como os onipresentes Casal Garcia e Calamares, também me parecem se enquadrar neste perfil, mesmo que num patamar abaixo. Nestes dois campeões de venda o toque frisante é bem acentuado, o açúcar residual também. Entregam jovialidade e frescor e ficam melhor para iniciar os trabalhos, mas podem ser abafados pela voz superior do bacalhau.

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Morgadio da Torre – Alvarinho – 2014
Denominação de Origem Controlada – Sub Região de Monção e Melgaço
Produtor: Sogrape
12,5% de álcool
Importador: Zahil
R$ 200,00

Um alvarinho mais imponente, de maior estrutura e que faz parte do batalhão de elite dos vinhos verdes. A subregião de Monção e Melgaço apontam para uma qualificação da bebida. Alia a acidez típica da casta a uma untuosidade que envolve a boca e traz aromas de frutas brancas e com um longo final. Sua persistência e volume combinaram com perfeição à cremosidade do molho e das postas de bacalhau. A dupla perfeita, cada qual no seu tom. O preço não é o mais acessível, mas o prazer compensa o investimento. Com a salada atravessa o prato.

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Via Latina – Alvarinho – 2013
Denominação de Origem Controlada
Sub-região de Monção e Melgaço
Produtor: Vercoope
12,5% de álcool
Importador: Orion Vinhos
R$ 65,00

A safra mais antiga entre os rótulos do Alvarinho provados. Na taça a cor já apontava para uns toques de evolução que se confirmaram na boca, aromas cítricos discretos e um toque mais mineral. Outro rótulo da subregião de Monção e Melgaço. A casta alvarinho em alguns momentos me lembra o perfil de um riesling mais fresco. Foi o caso desta Via Latina 2013, com seu final delicado, um toque mais doce. E quanto ao bacalhau? A parceria funcionou bem, sem se sobrepor ao seu sabor, acompanhando o seu ritmo, talvez com um compasso atrás. Um belo custo-benefício.

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